E todavia não faltará quem se extasie diante do Guadalquivir e do Genil em que se reflecte a alvura da Serra Nevada. Se me não illudo, é o caso tão frequente da confuzão do bem-estar physico com a belleza da paizagem. Para os que vêm dos montes abrazados, o valle humido e tepido dá uma sensação balsamica que nos induz a chamar bello a quanto nos rodeia. Esta sensação associada á cubiça de riquezas, foi talvez uma das grandes forças da conquista arabe; por aquellas veigas sorria um prazer que para lá do mar era bem raro e o mouro vinha buscal-o, impetuoso, como uma onda negra espumando sangue.
N'estes climas tão ricos, a vegetação vai desde o trigo até á vinha, a oliveira, a laranjeira e a tamara; nos poucos metros d'um jardim percorrem-se quasi completamente as zonas de todo o mundo.
D'aqui a belleza da gente, creada na abundancia, com os frios moderados que avigoram, sem a molleza lymphatica dos calores excessivos. O clima tudo lhes deu: uma alimentação variada, abundante e sã, e as alternativas e graduações de temperatura convenientes para dar ao corpo plena expansão de vigor.
Vigor indomavel, latejante e transparente: a belleza das raparigas do norte palpita apenas; na andaluza, os olhos e os cabellos negros, a pelle mimosa e branca, têm relampagos de sensualidade.
Mas a mocidade é breve, segue-se uma vida mais sedentaria, e quando na casa a mesa é farta e a doença e o trabalho não castigam, um corpo tão são tem comsigo um inimigo invencivel da belleza—a obesidade. É ahi que vai naufragar o melhor da formosura da Andaluzia; nas ruas, nos passeios e nos caminhos de ferro encontra-se esta phylloxera em todos os estados, desde a mulher de trinta annos de uma redondeza acabada, até á sexagenaria informe.
Mudou a physionomia mas o caracter é sempre o mesmo, é em toda a idade a desenvoltura de que já em Marselha tivemos prenuncios. Dar exercicio aos musculos, palrando com grandes gestos, saracoteando-se e cantando, constitue a primeira necessidade d'esta gente. É sabido como os hespanhoes adoram a rua e os cafés. Pois não é porque bebam muito; o que precisam é fallar e agitar-se, ruido e movimento.
A mesma musica tem este caracter de agilidade; as depressões alternadas de andamento rapido e lento são manifestas como na musica italiana a predilecção pela cadencia prolongada. Parece que só a Allemanha tirou da musica a expressão d'uma paixão intima e moral; os outros povos contentam-se em reduzil-a á simples traducção do seu modo de ser sensual.
Para que tudo esteja d'harmonia—e esta harmonia é para mim o mais bello da Andaluzia—a habitação é tambem o que melhor se podia conformar com o clima. O pateo, com a fonte de marmore ao centro, rodeado por uma galeria em arcos ou sobre columnas é quasi geral nas casas da Andaluzia; adornado com plantas dá um canto de frescura para passar no verão as horas de calma, ao mesmo tempo que é um elemento de belleza. Não foi a Andaluzia que o inventou, é romano ou arabe, é talvez de todos os povos. Adoptal-o, porém, foi o grande impulso de bom-senso.
Porque não fizemos o mesmo em Lisboa, preferindo a imitação parisiense, tão pouco justificada? Porque não teremos o pateo alumiado, fresco e aceiado em logar da escada sombria, abafada e negra? Porque não fizemos uma avenida ladeada de casas peninsulares em logar d'um boulevard?
Descuidadamente, fui a fallar das coisas de casa. Pois não voltarei atraz. Recolho ao ninho, que já não é sem saudade.
Ao abeirar-me d'essa natureza que encerra o vidoeiro e a palmeira, com tanto amor bafejada da fertilidade e belleza, ao contacto d'essa alma tão nobre que na corrupção e na miseria tem ainda scintillações de heroismo, esmorece a sympathia pela gente que deixei para além dos Pyrenéos e dos Alpes.
A sua alegria é um sorriso frouxo na sombra tremula e fria do vidoeiro e do abeto, e a alegria da minha terra vai desde a alvorada de primavera rutilante e fresca até á gargalhada estridente e pagã, entre o perfume do louro e o vigor do pampano. A sua melancolia é o brando palpitar d'um crepusculo de outono, e a melancolia da minha terra é ardente e ampla, um clamor de bronze vibrado nas labaredas do estio.
Bem vindo seja pois esse ninho tecido de miserias e de grandeza!
INDICE
| Pag. | |
| Dedicatoria | V |
| Advertencia | VII |
| Modos de viajar | 2 |
| O Minho | 4 |
| O Douro | 6 |
| Entrada em Hespanha | 7 |
| Salamanca | 9 |
| Miranda do Ebro | 12 |
| Os Pyrenéos | 13 |
| Paris | 14 |
| Liège | 23 |
| Lavoura por cavallos | 24 |
| Campos de Liège | 25 |
| O Hanover | 26 |
| Prados e florestas | 27 |
| O snr. G. Saunders | 28 |
| Berlim | 29 |
| De Berlim a Varsovia; a alfandega russa | 33 |
| A paisagem da Polonia | 34 |
| Varsovia | 36 |
| A paizagem do norte da Russia | 38 |
| A aldeia da Russia | 39 |
| Moscow | 40 |
| Visita a Tolstoï | 44 |
| S. Petersburgo | 53 |
| A Finlandia | 55 |
| A paizagem | 56 |
| A Scandinavia | 59 |
| Copenhague | 64 |
| A industria moderna | 67 |
| O domingo em Paris | 72 |
| Seducções de Paris | 73 |
| Paizagem do Rhodano | 75 |
| Marselha | 76 |
| Caminho d'Argel | 77 |
| Argel | 80 |
| Paizagens | 87 |
| Os monumentos arabes | 91 |
| A Andaluzia | 97 |
DO MESMO AUCTOR:
Estudos sobre litteratura contemporanea 1 vol.
O Snr. Oliveira Martins e o seu projecto de lei sobre o fomento rural Folh.
A arte d'estudar (versão do inglez) 1 vol.
A Democracia Folh.