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Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume I) cover

Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume I)

Chapter 19: DOS ENCARECIMENTOS
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About This Book

A obra apresenta diálogos e pequenas cenas de convívio numa aldeia transformada em corte durante noites de inverno, em que um anfitrião, um letrado, um fidalgo, um estudante e um velho criado conversam, jogam e contam anedotas. Entre comentários sobre livros de cavalaria, a arte de escrever cartas, cortesia e hábitos sociais, surgem reflexões sobre linguagem, moderação e amizades, compondo um retrato sereno e às vezes irónico das maneiras e ocupações da vida rural cultivada.

carta de rhodoge para elrei dario, seu filho


"Deram-me novas que ajuntaveis poderosos exercitos de todas vossas gentes e das alheias, para de novo offerecerdes batalha a Alexandre. Não sei a que effeito; pois o poder de toda a redondeza não basta para pelejar com os deuses immortaes que a elle o favorecem. Deixae esses pensamentos altivos; apartae-vos da vangloria d'elles, concedendo á grandeza de Alexandre alguma cousa; que melhor é deixar o que não podeis ter, para gosar livremente o que possuis; que, querendo dominar tudo, ficar sem nada."



Cada um dos presentes gabou estas cartas com tanto extremo, que não deixaram que com ellas acabasse Leonardo sua obrigação; porque (disse D. Julio) já pelo voto de Solino, estas são as cartas, que entram na jurisdicção de minha curiosidade, não consinto que nos exemplos seja este genero mais limitado; mórmente que d'este se tira outra doutrina mais que a das cartas, que é a variedade das historias e occasiões d'ellas.—Eu (respondeu Leonardo) ainda tinha cabedal para ir adeante, se as horas tornaram atrás; mas partirei (como dizem) a contenda pelo meio, recitando uma carta, que o grã senhor dos turcos escreveu aos amazonios; e a valorosa resposta que elles lhe mandaram: e dizia a primeira:


carta do turco aos amazonios


"Se por defensão de vossa liberdade sustentáreis guerra contra meu poder, não vos tivera tanto por inimigos, como por valorosos cidadãos, que pela patria, filhos, parentes e amigos punheis as vidas. Porém com nenhuma razão me persuado que os que deixaram tantos annos governar o reino a mulheres (como tenho ouvido) recusem agora o imperio, e governo de homens valorosos."


E a esta carta responderam elles outra, que dizia:


resposta dos amazonios


"Este reino das amazonas, que, como por affronta nossa nomeaes, com o seu mesmo exemplo nos aconselha não obedecer a outrem: porque temos por infamia e torpeza que o exforço varonil seja vencido do espirito e braço feminino. Pelo que deveis julgar por invenciveis em armas, e dignos do governo e principado do mundo homens, entre os quaes até as mulheres apprenderam a reinar."



E porque com exemplos gentilicos e barbaros não dê fim á conversação d'esta noite, direi por remate uma carta que o veneravel sacerdote Beda escreveu a Carlos Martelo, rei de França, e aos mais potentados d'aquelle reino sobre a entrada dos mouros em Hespanha, que dizia:


carta do veneravel beda a carlos martelo
rei de frança


"Em quanto se move perigosa e cruel guerra na christandade, se apparelha notavel ruina de toda a Europa: porque os sarracenos, occupada a Africa e Libya, começando de Ceita, tem conquistada toda a terra de Hespanha, tirando a das Asturias e Cantabria. Africa, que o capitão Belizario cobrou aos romanos, e que cento e setenta annos obedeceu a seu imperio, juntamente com a Hespanha Betica, tem tomado os mouros, fazendo-a obedecer a seus falsos ritos, com grande ignominia e affronta do nome christão. Que cousa póde haver mais excellente, valorosa e pia, que contra estes inimigos de Deua tomar armas? Que fizeram os suevos, os allemães e os mais varões do nome christão, que com tão grandes destruições tendes perseguidos? Perto estào, e sobre vossas cabeças os sarracenos, que com soberbo jugo ameaçam a toda a redondeza da terra. N'elles tendes formosissimos reinos, grossas cidades, ricos despojos; e vos esperam grandes triumphos da victoria: e principalmente incomparavel premio de gloria com Christo nosso Salvador, que para tão santa empreza com continuos brados vos está chamando."



Certo, disse o doutor, que, se pudéra dilatar a noite pelo interesse de tão proveitosa doutrina; mas porque n'esta se não ha de dar fim ao nosso exercicio, fiquem algumas perguntas, que agora escuso, para outra occasião, pois agora a não tiveram as cartas amorosas nem as de desafios.—As primeiras (replicou Leonardo) deixei por ser improprio da minha edade tratar d'ellas; as segundas, por me não embaraçar com o duello que está reprovado. Porém fica o campo livre para os mancebos. Com isto se despediram dando-se boas noites: e o estudante foi encarecendo ao companheiro o muito que o espantára vêr tanta côrte em uma aldeia; que as cousas achadas onde não se esperam, são de maior admiração, e de mais estima.



DIALOGO IV


DOS RECADOS, EMBAIXADAS E VISITAS



Amanheceu o sol tão claro e gracioso, que alguns dos amigos por se lograrem d'elle com a occasião da caça se espalharam pelos montes; mas depois de horas de vespera visitou o estudante em companhia de Pindaro ao doutor Livio, com quem passaram a tarde n'um seu jardim em boa conversação, esperando a da noite, a que elles foram os primeiros que acudiram, e se acharam em casa de Leonardo; que commummente nos lettrados se accende melhor o desejo de saber, e não n'aquelles aos quaes lhes custou menos. Sentaram-se á vista do fogo, que á conta dos hospedes estava melhor ordenado; e depois de gastarem algumas palavras de cumprimento, chegaram D. Julio e Solino a quem todos fizeram muita festa; e, reprehendidos da pequena tardança, disse Solino:—Grande espaço ha que eu pudera gosar esta companhia, se me não detivera em esperar resposta de um recado, que mandei ao sr. D. Julio.—E eu (respondeu elle) se vos não encontrára, ainda não tinha entendido o vosso moço; porque de maneira embaraçou o que me mandaveis dizer, que nem por discrição pude tirar o recado: nem vos desfaçaes d'elle para os que forem de importancia, que val a peso de ouro.

A isto se começaram todos a rir, e tornou Solino:—O meu moço, sr. D. Julio, tem desculpa em ser nescio, porque é meu moço; que, se soubera mais, eu o servira a elle; mas os creados dos grandes, como vós, esses hão de ser discretos, pois são tão bons como eu: e comtudo eu vos sei dizer que ha aqui moço que no dar um recado o pudera fazer como ao que lá mandei, que não é dos peiores da sua ralé, e já entermette de lêr carta mandadeira: mas nos recados ainda agora lê por nomes, e não acerta a nenhuma cousa.—Pouca paciencia tenho (disse o doutor) a um creado que esperdiça o entendimento de seu amo: mandaes um recado concertado, discreto e cortezão: e o madraço, que o leva, muda-lhe os trastos e desentôa com uma parvoice que vos desacredita, como com os meus me tem acontecido mil vezes.—Nos vossos não é muito (disse Solino) que daes os recados guarnecidos de rhetorica com seus vivos de latim, que são mais perigosos na bôcca d'estes, que vidro em mão de menino: mas os meus, que não passam de quatro palavras em linguagem corrente, e que assim os virem do carnás e me mettam em vergonha, não é desgraça? Ora prometto que os de importancia eu mesmo os leve como aconteceu ao cortezão ausente, que levou elle proprio a carta a sua mulher: e os que houver de dar o meu moço, que sejam seus, por não andar remendando o burel da sua natureza com o trabalho da minha disciplina. D'aqui por deante bôcca faz jogo: digo, que o que o meu moço disser, elle o diz, e que me não ha de chamar por auctor das suas impertinencias.—Certo (disse Leonardo) deixando de tratar dos meus, e vossos recados, que importam menos, e de outros em que vae tão pouco, que é uma das cousas de maior consideração aos reis, principes, republicas, e aos grandes mandarem suas embaixadas, visitas e recados por homens de auctoridade, discretos e bem disciplinados, em cujas razões e procedimentos consiste muitas vezes o bom successo do que pretendem. E assim os reis, principes e republicas nas materias de estado; as cidades e povos nas occasiões das côrtes; os senhores particulares nas visitas; devem sempre escolher homens, que no entendimento se avantajem dos outros, porque não sómente conseguem o fim da pretenção de quem os manda; mas o acreditam: e porque ás vezes por respeitos, privança e valia se antepõem os menos sufficientes para estes cargos, se deitam a perder negocios de uma republica, em que consiste a quietação e honra d'ella.—Pouco e pouco (disse Pindaro) se foi o sr. Leonardo á materia dos recados, que não ficam fóra de seu logar, depois de o terem as cartas missivas; e bem se póde fazer a noite bem assombrada com tão bom sujeito.—Desculpado estou (respondeu elle) com o trabalho, que na de hontem cahiu á minha conta, em fugir d'elle; mas não de approvar a vossa advertencia.

A todos os mais pareceu que seria acertado tratarem a materia de mais longe; e pediram ao doutor que, tomando-a á sua conta começasse.—Bem pudera usar (disse elle) do privilegio do sr. Leonardo, e de outros para minha escusa; porém ainda que os tinha, e qualquer dos presentes mais sufficiencia para este encargo por lhe não pôr a elles ruim fôro, me dou por obrigado. Digo que recado é nome que entre nós tem a etymologia. A significação é muito duvidosa, pelo modo em que usamos d'elle: porque, se houveramos de derivar este nome do verbo italiano recare, que é trazer; ou do verbo recapacitare que é recapacitar (d'onde elles chamam recapacitar ao recado) nunca disseramos d'elle tanto, como na nossa lingua portugueza significamos; mas se lhe buscarmos a origem do latim, virá mais ao nosso modo pela differença do messageiro ao que leva recado: que o primeiro missa gerit, faz as cousas que lhe mandam; e o segundo recautus, este é homem acautelado, que sabe o que ha de fazer no que está á sua conta; que assim convém mais com o nosso modo de falar, quando dizemos homem de recado, que quer dizer de importancia, posto a bom recado, que é seguro, e com cautella: tardar e arrecadar, que é levar ao fim o que começou: porém seja uma cousa ou outra, ou ambas, o principal recado de todos é o do embaixador; e estes são de duas maneiras, ou o que o principe manda a outro por occasião successiva; ou o que de ordinario assiste em sua côrte, para conservação da benevolencia e amisade que entre elles ha: estes segundos tinham os romanos nas provincias junto á pessoa do consul, que as governava com titulo de legados, e com elles despachava os negocios de importancia. Mas aos primeiros chamavam elles oradores, por serem mui semelhantes no officio de persuadir, mover e obrigar; e ainda em nossos tempos se aproveitaram muitos d'essa arte, sendo escolhidos para o cargo de embaixadores.—Eu (disse Leonardo) tenho um cartapacio não pequeno de falas e orações de embaixadores portuguezes feitas a grandes principes, e não pouco doutas e elegantes, como foi uma que fez o bispo D. Garcia do Menezes ao papa Xisto, indo por embaixador por mandado de el-rei D. Affonso V, e por capitão de uma armada que elle mandava contra os turcos em favor da egreja no anno de mil e quatrocentos e oitenta e um: e outra, que fez o doutor Diogo Pacheco ao papa Julio, indo com o arcebispo de Braga por embaixador a lhe dar obediencia por el-rei D. Manuel no anno de mil e quinhentos e cinco: e outra, que fez o mesmo doutor ao papa Leão, indo com Tristão da Cunha embaixador a lhe dar obediencia com aquelle famoso ornamento, que ainda agora é dignamente celebrado na egreja romana assim pela grande devoção d'aquelle pio e catholico rei, no anno de mil e quinhentos e quatorze, á qual o papa respondeu em publico com uma doutissima oração de louvores do mesmo rei. E não é este costume só dos nossos embaixadores, mas de todos os extrangeiros, assim quando eram enviados a este reino, como a outros. Vindo a este por embaixador de el-rei Francisco de França a el rei D. Manuel, que estava em Almeirim, no anno de mil e quinhentos e seis, Monsieur de Lanjaca, governador de Avinhão, lhe fez uma douta oração em sua chegada: fóra outras muitas com que pudera allegar.—D'esses exemplos ha muitos (disse o doutor), e continuando com o que convém mais ao fim do nosso intento, devem ser escolhidos para este cargo de embaixador os homens das familias mais illustres do reino, dos illustres os mais discretos e cortezãos, d'estes os mais animosos e liberaes, dos animosos os mais apessoados, e de todos os mais bem acostumados; e são todas estas partes tão necessarias ao embaixador, que com a falta de qualquer d'ellas ou arriscará o credito do principe, que o manda, ou o negocio de que vae a tratar por sua parte. Primeiramente ha de ser illustre por auctoridade de seu rei e de seu reino, e dos illustres d'elle, e por honra tambem do principe a que é mandado, pois ha de fazer as partes de um, e assistir á ilharga do outro. E assim n'este reino, e nos vizinhos a elle vimos cada dia entrarem embaixadores muito chegados em sangue ás casas dos reis que os enviaram, e sahirem outros da mesma qualidade; o que não só tem exemplo dos reis da Europa, mas da Persia, Japão e outras remotas partes do oriente. Depois de illustre ha de ser discreto e cortezão, porque parece que mais que todas as outras partes, lhe está requerendo o mesmo cargo aviso, entendimento, discrição e cortezia para tratar as cousas convenientes á sua embaixada, encobrindo, desculpando e persuadindo o que a seu rei convém; que esta é a differença do recadista ao embaixador: que o primeiro relata o que lhe mandam que diga: o outro dispõe, ordena e conclue o que lhe encommendam que faça: um leva o recado na lingua, outro no peito, como disse um embaixador dos romanos aos carthaginezes na guerra de Sagunto, que levava a paz, e a guerra dentro no peito; e assim não vindo elles no que os romanos pediam, declarou a guerra. Além d'isto como o embaixador é um terceiro, e conciliador da amizade de dois principes, nenhuma cousa lhe é mais importante, que o entendimento, e tambem o ser cortezão lhe importa muito, pois a sua principal assistencia é no paço, e junto á pessoa do principe, com communicação dos principaes senhores do reino; e ás vezes por esta parte sendo engraçado, e acceito áquelle a quem é mandado, acaba mais facilmente os negocios e pretenções de quem o manda. Ha de ser animoso e liberal; o primeiro, porque nas materias que tocarem á guerra, tregua e liga, ou confederação com seu principe, se não mostre por sua parte acanhado, timido nem pusillanime: antes obrigue com seu exemplo a que o respeitem e temam; e tambem porque na occasião em que se offerecer ao senhor a quem assiste, acredite com o conselho e com as obras as armas de seus ascendentes e naturaes. E o segundo, porque com a magnificencia se conquistam mais vontades e animos extrangeiros, que com qualquer outra valia, por grande que seja; e posto que esta parte a todas as pessoas illustres é necessaria, e em todos os cargos de guerra e officios da paz é tão estimada, no de embaixador é muito mais proveitosa para saber o aviso, o secreto, o intento e a cautella que convém ao de sua embaixada, e para mover os ministros e validos, em cuja mão ou conselho está seu negocio. Convém além d'isto que seja o embaixador homem apessoado, que pela vista obrigue a respeito e veneração; que em outro modo o corpo pequeno em pessoas de grande logar lhes tira muita parte do que se lhes deve. E um doutor nosso de muito grande nome, e pequena estatura, mandou pôr ao pé de um retrato seu uma lettra que dizia: A presença diminue a fama.

E outro do mesmo grau, e não de maior corpo, indo d'este reino com uma embaixada a um rei assás poderoso, vendo-o elle tão pequeno, lhe perguntou motejando d'elle: "Se el-rei seu irmão tinha em seu reino outros homens mais apessoados que enviasse com semelhante cargo?" Ao que elle respondeu valendo-se do entendimento, e animo que tinha: "Que na corte d'el-rei seu senhor havia muitos homens do grande pessoa, e partes, a que encommendar aquelle cargo; mas que para sua magestade lhe pareceu que elle bastava, e por isso o mandára." Finalmente é de muita importancia ser bem acostumado, para com sua temperança, continencia, e bom termo conservar, e acreditar o bom nome, e fama de seu rei, a honra de sua patria, e da propria pessoa. E porque com alguma demazia de seus costumes não faça com que se diminua, e perca o respeito, liberdades, e exempções que tem os embaixadores, como aconteceu aos da Persia, que vieram a el-rei Amyntas de Macedonia, que foram mortos por traça de Alexandre, filho do mesmo rei, o qual, não podendo soffrer sua estranha dissolução, mandou alguns moços de bellissima figura, que em habito de damas os servissem á meza, levando escondidos punhaes com que se vingassem de qualquer deshonesto acometimento dos embaixadores; que usando de sua demasiada luxuria foram mortos a punhaladas. O rei da Persia offendido de se não guardarem com os seus as leis dos embaixadores, mandou um poderoso exercito contra el-rei Amyntas; porém o general d'elle sabendo como o caso passára, se retirou sem querer dar batalha aos Macedonios. Tambem importa muito que os embaixadores sejam escolhidos de sujeito acommodado aos negocios, de que hão de tratar; que tal occasião se offerece, em que convém serem humildes; e outra, em que é melhor mostrarem-se arrogantes; tal, em que hajam de ser animosos, e arriscados; e outras brandos, e dissimulados. Francisco Dandalo, embaixador dos Venezianos ao Papa Clemente V para levantar o interdicto ao Senado, contra quem estava iroso por razão das coisas de Ferrara, esteve lançado de bruços grande espaço á meza do Summo Pontifice, com uma cadeia de ferro ao pescoço; e com tantas lagrimas, e palavras o obrigou, que alcançou d'elle o que pedia. Este por sua grande humildade foi chamado cão, e por seu valor succedeu no Ducado de Veneza. Pelo contrario Orfato Justiniano, homem de letras, e animo generoso, embaixador do mesmo Senado a el-rei Fernando de Napoles, que pelo mau animo, que contra os Venezianos tinha, não fazia d'elle a conta, e estima que seu valor merecia. Orfato lhe mostrava tão pouca inclinação, e humildade, que o rei indignado mandou fazer tão baixa a porta, por onde entrava a lhe falar, que á força lhe fizesse dobrar o pescoço: porém elle entendendo a tenção de Fernando, entrou com as costas para diante, e voltando-se direito na casa fez a mesma cortezia, que costumava. Outro dia achando-se em um banquete, que o rei mandou fazer, dando-lhe de proposito os convidados tão estreito lugar que achava sua auctoridade, deixando o que tinha se sentou sobre uma rica toga, que trazia vestida; e acabado o banquete, a deixou ficar como os outros assentos.—A mim me parece (disse Leonardo) que os attributos mais importantes ao embaixador, e que sempre n'elle devem andar annexos, são esforço, e entendimento, que são como dois eixos, em que se revolve o maior peso, e substancia, das coisas do Estado; o que se colhe dos exemplos que dissestes, e de outros muitos; porque o esforçado e entendido em nada falece, nem áquillo a que seu rei o manda, nem ao que a si mesmo deve, nem á occasião de que se póde aproveitar, como aconteceu a Pompilio, embaixador a el-rei Seleuco, sobre conservar amisade com os Romanos, ou romper com elles guerra: que respondendo o Rei que se aconselharia devagar no que lhe estava melhor; e entendendo o Romano que aquella dilação se fundava em fraqueza, e cautela, com o bordão que trazia fez um circulo na terra, em que Seleuco ficou mettido, dizendo-lhe que antes que d'elle sahisse se havia de determinar na resposta de sua embaixada; e com isto obrigou ao rei a acceitar a paz que lhe requeria. E em caso differente Lucio Posthumio, embaixador aos Tarentinos, lançando-lhe por desprezo sobre as roupas muitas immundicias com grande rizada, e escarneo, o Romano lhe respondeu animosamente: Vingai-vos agora do riso á vontade, porque tendes muito que chorar quando com vosso sangue se lavarem as nodoas d'este meu vestido.—Esses casos (accudiu D. Julio) são da mera jurisdicção do esforço, e cavallaria; ainda que sejam acompanhados do entendimento, porque o valor do animo a tudo acode, e em nada perde ponto. E se não, vede a estimação que fizeram os reis catholicos do nosso prior do Crato D. Diogo Fernandes de Almeida, quando estando elles sobre Granada, e o prior sendo embaixador d'el-rei de Portugal, o ajudou a combater valorosamente tirando com muitos louvores d'aquella batalha feridas; e querendo-o el-rei desviar antes, porque não convinha ao cargo que trazia, lhe respondeu que, se o officio lh'o defendia, o sangue, e o animo o obrigava. E em que conta teria el-rei Filippe I a Frederico Badoaro, que os Venezianos lhe mandaram por embaixador a Genova, sendo elle principe de Hespanha, que estando com elles aos officios divinos no segundo logar, succedeu chamar o principe a si ao duque de Saboia; e acenando ao veneziano que lhe désse o lugar, o que elle não quiz fazer, o principe com acenos, e palavras asperas o mandou muitas vezes tirar; mas respondeu que antes havia de deixar a vida, que aquelle lugar, porque com a morte de um particular se não fazia affronta ao Senado; mas que se lhe faria muito grande, se désse o lugar, que lhe era devido, a pessoa inferior em merecimentos. E quanto á dissimulação, e soffrimento só nos esforços costuma a achar confiança para metterem em cortezania o que puderam estranhar com arrogancia: como aconteceu a Giuberto Dandalo, embaixador dos Venezianos ao Papa Nicolau III, que já mais foi ouvido, nem pôde alcançar entrada do Summo Pontifice, por o enojo que tinha contra o Senado, sobre a possessão de Ancona; até que, vendo elle o pouco que importavam suas muitas diligencias, fingio um dia, sahindo com alegre semblante, haver-lhe fallado, e alcançado o fim do negocio a que vinha: e sem esperar outra coisa se partiu para Veneza; onde perguntando-lhe o Senado o que passara, respondeu: "Não achei o Papa em Roma, nem quem me soubesse dizer onde o acharia."

—Mui principaes (disse o doutor) são as partes de esforço, e entendimento no embaixador; porém tem igual necessidade de todas as outras para representar com a nobreza a pessoa do seu rei: para com a magnificencia adquirir as vontades dos ministros, e criados: para com a gravidade, e brandura ser amavel, e auctorisado: para com o conhecimento das coisas do Estado, e experiencia d'ellas acertar nas que se lhe offerecessem: e para com a gravidade, e gentileza da pessoa dar uma approvação na vista, de tudo o que se conhecer de suas obras. Mas porque não pareça que vou fora do em que comecei: A que os embaixadores não levam recados, é certo, (que ainda que os seus sejam de maior confiança) que levam por escripto muito do que hão de dizer, e do que hão de pedir, ou conceder; porém a eleição do tempo, occasiões, e palavras fica subordinada ao seu entendimento; e para isso dão os reis, e seus conselhos supremos largas instrucções, regimentos, e ordens de como se hão de haver nas coisas os embaixadores; que são mais largas, quanto são mais remotas as provincias, a que são enviados.—O officio (disse Leonardo) é de tanta importancia, que nenhum outro demanda maior cabedal de partes da natureza, e das adquiridas por experiencia: e sei-vos eu dizer que houve n'este reino famosos homens d'esta profissão, e taes, que, querendo nomear alguns, faria manifesto aggravo a outros muitos. Mas se o gran-duque de Florença, vencido da eloquencia, e partes de Hermolau Barbaro (que estava em sua corte por embaixador dos Venezianos) com tantas mercês, e favores o persuadia a que ficasse em seu serviço; não faltaram outros, que sahidos d'este reino com o mesmo cargo, fizeram maior inveja a principes, a monarcas mais poderosos. E algum teve lugar nos tribunaes supremos da corte de Hespanha, que para negocios particulares de um principe d'este reino foi mandado a ella, que pela grande satisfação, que n'elles deu de sua pessoa, foi escolhido para os de uma monarquia tão dilatada. Mas não é de espantar que de um embaixador e messageiro particular se fizesse um conselheiro de estado, sendo criado da casa de um senhor, do serviço do qual, como de outro cavallo Troiano, sahiram heroes famosos, e varões insignes em todas as profissões: d'onde sahiram vice-reis, e capitães maiores para o Oriente, e soldados para capitães, e mestres de campo, que defenderam, e honraram o Norte; cavalleiros, e bailios, que sustentaram Malta; fronteiros valorosos, que se assignalaram em Africa, todos criados da mesma casa, onde se acharam sempre em grande copia espiritos, que honrem a Marte, e engrandeçam a Minerva, fazendo inveja aos mais avantajados nos exercitos, e presidios hespanhoes, e aos mais insignes nas escolas, e academias mais nomeadas da Europa.

—Tendes levantado este discurso de maneira (disse Solino) e está a materia d'elle tão altiva, que me parece que eu e Pindaro ficamos esta noite camarço, sem nenhum de nós fazer postoleta: ainda este mau jogo me fez o meu moço, que não cuidei que d'elle saltasseis a coisas tão differentes: folgara de saber se haveis de ficar n'esse tom, porque vos deixarei em termo com o dono da casa, e o senhor D. Julio; e irei buscar minha vida.—Ainda não tendes razão de vos queixar (respondeu elle) que antes por me chegar pouco, e pouco aos criados, deixei muito dos embaixadores, após os quaes se seguem logo os agentes, e procuradores, que as cidades, villas, e lugares mandam a cortes, e outras vezes a visitas, e occasiões dos principes, que não menos devem ser escolhidos para estes cargos, buscando n'elles as partes mais necessarias que são discrição, experiencia, e pessoa, quando não possam concorrer todas as mais; porque a cidade, ou villa, que manda ao principe seu procurador, ou agente, n'esse mesmo faz representação de sua sufficiencia.—De um cidadão se conta (disse D. Julio) que, sendo enviado por procurador a cortes, lhe esqueceu no caminho o que a cidade lhe encommendára, e tornou a dormir a casa a perguntar a sua mulher o negocio a que ía: e fôra melhor eleição, se a mandaram a ella, pois lhe não esqueceu.—De outro ouvi eu (respondeu Solino) que jurou por vida da sua a el-rei Filippe I que se havia de cobrir sua magestade para lhe fallar em nome de uma cidade d'este reino: fóra outras impertinencias que na pratica disse, mais dignas de riso, que de credito. E um conheci eu, a que cahiram as luvas, e o chapéo da mão, começando a dar o recado de uma cidade a um principe; e levantando-as, perdeu o que queria dizer, de maneira que nunca atinou palavra.—Estes maus successos (proseguiu o doutor) testemunham o muito cuidado, com que se hão de eleger os homens para taes cargos; o que não importa menos aos titulares e fidalgos, que mandam vizitar a outros em occasiões de pazes, ou parabens, por pessoas, que saibam accommodar-se á tristeza, ou alegria que o caso requer, para credito, e boa opinão de quem os manda.—Certo (accudiu Leonardo) que não julgará bem quanto isso releva, senão o que já se envergonhou de ouvir visitas desencaminhadas, como se fez uma a um fidalgo que eu tratei particularmente, ao qual, estando enojado por morte de um seu filho, visitou da parte de um personagem um capellão bem apessoado, e disse que o senhor N. estimára muito aquella occasião para mandar visitar a sua M. e se offerecer a seu serviço. A este conto fizeram todos muita festa. E Solino, que vio lugar aos seus, accudio logo: "Não sei se virá muito a proposito; porém tambem eu hei de dizer a minha historia, em rasão da advertencia, e cuidado que deve ter quem visita em nome alheio; pois se vê que mais desattentos, que ignorancias, os erros d'estas materias. Uma senhora enojada por a morte de um seu irmão tomava as visitas em uma camilha, como as mais costumam. A esta mandou visitar outra parenta sua por uma pessoa de auctoridade; que entrando na primeira casa achou tão escura que, pegando-se ás paredes, esperou uma dona que lhe servisse de moço de cego; a qual o levou por a mão até uma porta estreita, onde havia um degrau alto; e alli o soltou para passar deante; a qual não alcançou tão bem o degrau, que não désse primeiro com as queixadas na humbreira do portal; e sahido do perigo o tornou a guiar a dona da mesma maneira até junto da camilha, onde o tornou a soltar: esta pessoa, cuidando que tinha alli outra porta, por não errar o degrau por baixo, levantou o pé de maneira, que o poz nos peitos á enojada, que dando um grande grito a fez cahir de focinhos. Muitos, que estavam na casa, e tinham furtada a luz aos que de novo vinham a ella, levantaram tão grande riso, e borburinha, que desauctorisaram de todo o sentimento do nojo, e cahia cada um para sua parte sem se poder valer." Como Solino tinha graça natural no que dizia, deu muita a este conto, que foi celebrado com riso de todos.—Se assim é (disse Solino) que nesses ha tantos desatinos, e inadvertencias, não ha que espantar de criados menores, que uns são por natureza tão rusticos, que em nada acertam; outros por malicia tão depravados, que não querem saber senão o que é em favor de sua maldade.—Uma questão se offerecia agora (acudiu Pindaro) que, ainda que rasteira, é em materia proveitosa. Convem a saber se é melhor servir-se um homem de um moço simples, e nescio; ou de um malicioso ainda que seja esperto.—Eu estou melhor (tornou D. Julio) com o que me engana, que com o que me enfada; porque a confiança, que fizer do meu moço, será segundo a opinião que d'elle tenho para me poder enganar em pouco: e do nescio nem posso confiar em um recado as minhas razões, nem as minhas obras dentro em casa; que o que ignora o que ha de dizer, menos sabe o que lhe convém calar: além de que é grande desgosto andar um homem de continuo ensinando um rustico, sem proveito, que não tomará em sua vida tinta de discrição, por mais que o cozam n'ella.—A mim me parece outra coisa (disse Solino) em razão d'aquelle proverbio: Antes asno que me leve, que cavallo que me derrube.—Pelo rifão (respondeu Leonardo) entendo que quereis defender o vosso moço.—Se o não fizer bem, ficarei no seu lugar (replicou elle). Porém o moço nescio não pode desacreditar com sua parvoice o entendimento de seu amo, que não está obrigado ao tirar das escolas de Athenas. E o malicioso, e esperto, nem por o ser deixa de errar peior que os outros; porque não aprende o que convém a seu amo, senão ao intento de sua maldade; e dá ás vezes por recado o que lhe parece, em lugar do que lhe mandam; e quando não, troca as palavras ou o sentido d'ellas; muda o tempo, e a acezão do recado; vai quando quer, e não ao tempo que vos releva; tira-vos o credito nas obras, se o conserva nas palavras, porque dizem que qual o amo tal o moço; mais vos desacredita com a murmuração, do que vos acredita com o recado; e quando vos lisonjeia, é quando vos rouba. O simples, se não diz o que lhe dizeis, faz o que quereis, contenta-se com o que d'elle fiais, e não trata de penetrar o que pretendeis; e muitas vezes seus erros cahem em graça como as subtilezas dos outros em damno.—Boas são essas razões (disse Feliciano) porém é dura coisa que pelo moço nescio julguem por tal a seu amo; pois é regra de direito que faz por si o que manda fazer por outrem: e se a victoria dos soldados se attribue ao capitão, os ensinos, e palavras dos moços porque se não hão de julgar por de quem os governa, e manda? e menor damno é qualquer dos outros, que o de um homem parecer nescio á conta do seu moço. E sobre tudo não se ha de pintar tão perverso o malicioso, que faça mal, diga mal, e presuma mal, e seja intelligente; que os mais d'elles cantam de quem roubam; que d'esse outro modo não é pintar criado, mas inimigo.—E não sabeis vós (accudiu o doutor) que todos os criados, ou a maior partes d'elles o são de quem os sustenta? e assim diz a sentença de Euripides, que não ha maior, nem peior inimigo que o criado: e Democrito diz que o criado é coisa tão necessaria, como amargosa: Luciano diz que os criados sempre tem malicia, e traições armadas contra seus amos.—A muitos tenho eu por inimigos (disse Feliciano) porém peior o será o nescio, que o que o não for; e não sómente sustentará inimigo em casa, mas senhor, que, como diz S. Jeronymo, não ha maior servidão que mandar a um nescio.—Eu tenho procuração em causa propria (disse Solino) para acudir pelos criados, como testemunha de muitos fieis, e verdadeiros a seus senhores: e Euripides, e os mais devem de entender, o que disseram, dos escravos, que, como lhe temos tomada a coisa mais principal,
e mais sua, que é a liberdade, sempre nos tem odio, e nos desejam, e procuram mal; porque a vilesa do seu animo não soffre mostrarem valor na sujeição.—Não me parece a mim essa boa razão (accudiu o doutor) porque por dito de Seneca nenhum escravo ha mais vil, que o livre, que serve por sua vontade. (Não entendo n'este conto os nobres, e honrados, que servem aos grandes por respeitos razoaveis). E dos escravos, a que fez taes ou a ventura de guerra, ou outra desgraça, temos os livros cheios de exemplos de valor, e fidelidade, em que deixaram muito atraz os proprios filhos. E se não, vêde se fez algum o que o escravo de Publio Catieno. que, deixando-o o senhor por universal herdeiro de seus bens, pela fidelidade com que o servira; elle, por se mostrar agradecido na morte, se deitou vivo na fogueira em que queimavam o corpo de seu senhor, e morreu com elle, mostrando que estimava mais tal servidão, que a vida, e as riquezas que lhe deixava. Erotes, escravo de Marco Antonio, se matou de pesar de ver a seu senhor vencido de Augusto. Euporo, escravo de Lucio Graco, que se matou sobre o seu corpo. E um escravo de Papinião, que, vendo que os inimigos entravam uma quinta, em que o senhor estava, para o matarem, trocou com elle o vestido, e metteu no dedo um seu annel de preço: e deitando-o fóra por uma porta, sahiu pela outra a receber a morte, que haviam de dar a seu senhor. E Frederico de Eveshim, escravo de Conrado Imperador, que, sabendo que vinham para o matar, o fez sahir do paço, e se deitou na sua cama, onde, cuidando os inimos que era Conrado, o mataram: o outros muitos escravos sem nome, que mereciam que o seu ficasse eterno por memoria de sua fidelidade. Nem se póde esquecer aquelle grande animo de Lazaro Cherdo, escravo, de nação Serviano, que vendo seu senhor cativo de turcos, e depois morto, desejando vingar-lhe a morte por preço de sua vida, fingindo que vinha fugido dos hungaros, entrou no campo Turquesco, e dizendo que queria fallar a Amurates, primeiro imperador d'aquelle imperio, o matou a punhaladas; d'onde não pôde fugir, mas perdeu a vida valorosamente.—D'esses escravos (replicou Solino) não trato eu, que mereciam ser senhores de seus senhores; como tambem houve criados que mereciam ser servidos de a quem serviram: que tambem Diogenes foi escravo; e perguntando-lhe Xeniades, que o comprava, em que sabia servir, respondeu: que em mandar homens livres; por o que Xeniades o libertou dizendo: aqui te entrego meus filhos para que os mandes. E Epicteto, que se chamava escravo de si mesmo: e a Phedão, escravo de Cebes, ouvi dizer, que Platão dedicara um livro da immortalidade. Porém a nós não nos cahiram em sorte estes escravos, senão a gente mais barbara do mundo como é a de toda a Ethiopia: e alguma escravaria da Asia, que é da gente mais vil das provincias d'ella; que uns, e outros tratam os portuguezes com rigoroso cativeiro n'aquellas partes, vendendo-os para serviço das minas das Indias de Hespanha como condemnados á morte: e assim se podem estes chamar com razão inimigos mortaes de seus senhores.—Tambem (disse o doutor) houve já n'este reino escravos illustres de muito valor, entendimento, e sangue, conhecidos por taes, e tratados como se estiveram em liberdade, que cativaram nas nossas fronteiras de Africa, em cujas historias me eu não quero deter por me não alongar mais do intento do nosso discurso dos recadistas, que uns e outros representam a pessoa de quem os manda, no que toca ao recado que dão: o que a mim me parece que está bem provado com o costume, que os antigos tinham em mandar os seus, que não fallavam por terceira pessoa, como é o nosso uso, que dizemos diz fuão que vos beija as mãos; que vos pede isto; vos encommenda este outro; vos lembra tal coisa: antes costumavam: N. vos diz, beijo-vos as mãos, rogo-vos isto, encommendo-vos este outro, lembro-vos tal coisa, representando nas palavras a mesma pessoa que as mandava dizer; e d'esta maneira ficava arriscado nosso amigo Solino, representando pelo seu moço: pelo que a mim me parece que o melhor do recado é ser tão breve, que o possa dar sem erro quem o leva; e tão claro, que o entenda sem trabalho a quem se manda. E com isto, e com vossa licença me hei por desobrigado do que n'esta materia podia dizer.—Não pela minha parte (disse D. Julio) porque deixais de fóra um officio de mais habilidade que todos os de que falastes, em cuja profissão entra a de embaixador, agente, procurador e recadista; e ainda outros muitos, que é o do terceiro, ou alcoviteiro. A isto deram todos grande risada, e disse Leonardo: O doutor calava esse officio, por ser mais vil, e reprovado, que os de mais, e se empregar em materia tão odiosa á Republica: porém sem entrar no fundo d'elle, nos poderá dizer alguma coisa da superficie.—Bem sei (respondeu o doutor) que para me metter em desconfiança levantais essa lebre; e não vos enganeis, que tanto se deve tratar de officios viciosos para fugirem d'elles, como dos de virtude para os seguirem, e desejarem; e posto que esse é tão vil, já os romanos deram leis á sua profissão, segundo escreve Pedro Crinito; as quaes estavam escriptas no templo de Venus; e Licurgo, aquelle grande legislador dos Lacedemonios, tambem lhes deu regras, e liberdades, posto que lhe está melhor o castigo com que os nossos direitos os agasalham; mas se ha officio de muito cabedal, e pouca honra, é o do alcoviteiro, porque ha alguns que os não vence Tullio no fallar, Catão no dissimular, Sallustio no persuadir, Terencio no representar, Ovidio no fingir, Lucano no encarecer, Diogenes no desprezar, Ulysses no tecer, Momo no desdenhar; e todas as artes, e sciencias do mundo tem e empregam em afeiçoarem com engano vontades innocentes. E para lhe assignarmos as partes necessarias, fôra acertado pintar o avesso do embaixador, com que só convém em ser discreto, e experimentado; porém ha de ser baixo, vil, desprezivel, avarento, chucarreiro, mentiroso, ingrato e soffredor de todos os escarneos e zombarias, porque não só é de sua profissão enganar, mas tambem obedecer a toda a ignominia, e infamia que seu exercicio merece.—Muito cruel estais contra elles (tornou D. Julio) e não tendes razão; quando vitupereis o seu officio, não vos esqueçais da grandeza das partes d'elle, pois o alcoviteiro descreve, enfeita, e encarece melhor que um escriptor: persuade, aconselha, e convence como um rhetorico: finge, disfarça, e representa com figuras, espantos, meneios, e hypocrisias nos gestos, e palavras como um commediante: pinta, veste, touca, accommoda, guarnece, doura, argenteia toucados, e vestidos, e trata os rostos, e feições melhor que um pintor; sabe mais da natureza das pessoas com que trata, que um philosopho; vende o falso por verdadeiro, como logico; conhece as enfermidades, e achaques dos que lisongeia, como medico; obriga, e engana no interesse, como legista; adivinha os tempos, occasiões, e vontades melhor que um astrologo. Não ha finalmente arte liberal, nem mecanica, de que se não valha, e em que não vença a seus professores.—Ainda me parece (disse Solino) que haveis de chegar á Celestina; que posto que o officio é do genero commum de dois, accommoda-se melhor ao feminino. E pois de embaixadores descemos a criados, não é de espantar que tropecemos em tão ruim gente.—Parece-me (disse o doutor) que de aposta quereis profanar a minha auctoridade; não vos quero dar esse gosto á minha custa: e não passemos d'aqui n'esta materia: e tambem porque é mais tarde do que parece, demos lugar a que o senhor Leonardo se recolha.

Com isto se levantaram todos, e se despediram, festejando e agradecendo cada um ao outro o que dissera; que tanto se contenta o discreto da boa razão alheia, como o nescio da sua ignorancia propria.



DIALOGO V


DOS ENCARECIMENTOS



Não perdiam tempo os da conversação em se chegarem aos interesses d'ella: e era em todos tão egual o desejo, que nem a occupação de cada um os desencontrava; porque o gosto, em que se enleva o entendimento, faz menores todos os respeitos ordinarios da fazenda, e familia. Entraram á noite juntos em casa do hospede com grande alvoroço, dando cada um no caminho seu voto sobre a materia, em que se haviam de gastar aquellas horas. Porém assentados, sem o estarem ainda no que seria, disse D. Julio: Por certo, senhores, que estou tão enleado com uma coisa que vos quero dizer, que temo das razões e da edade faltar ao decoro que convém ao sujeito d'ellas; porque nos mancebos as palavras de mero louvor de uma mulher, ainda sendo mui compostas, parecem lascivas; e mais facil é de presumir um engano de affeição nos meus olhos, que de persuadir um espanto a entendimentos tão levantados como os vossos. Porém seja o que fôr, e corra o meu credito o risco que ordenardes; que com todos, os que houver, me aventuro.—Que novidade é esta, senhor D. Julio (disse Solino), que sermão quereis fazer, que tomaes a graça, e nos tendes pendurados a todos no desejo de vos ouvir?—Esta manhã, (proseguiu elle) porque me pareceu de caça, e por gastar n'ella o dia, com menos cuidado do desejo da noite, me fui pôr detraz da nossa serra alongando-me para a parte do mar um grande espaço de caminho; e voltando sobre uma fonte, que nasce ao pé de uma corôa de penedos, coberta da sombra de uns altos hervados, e atoeiras, cheios de verde rama como no melhor tempo da primavera, embaraçados com umas vides silvestres que os atavam, e que ainda de todo não estavam despidas de sua folha, vi junto a ella, e coberto com elles o mais formoso rosto, que eu imagino que pode haver no mundo para satisfação de uns olhos afeiçoados: era de uma mulher em habito de peregrina, que fiada na solidão d'aquelle deserto, e por gosar dos raios do sol, que n'aquelle logar se espalhavam, com os toucados lançados sobre os ramos á vista da fonte concertava os cabellos; e eram elles taes, que não sómente faziam perder ao sol a formosura, mas cobrindo outro mais formoso, que era o seu rosto, contentavam de maneira o desejo, que não fazia muito por passar d'elles adiante. Eu sem atinar no silencio, com que era razão que me escondesse por lhe não ser pesado, fiquei tão esquecido, que, afrouxando as redeas ao cavallo, o deixei tropeçar entre os ramos, e fui sentido da formosa peregrina; que levantando os olhos, a cuja obediencia os cabellos se apartaram, qual sôa ferir o relampago d'entre as nuvens, me saltearam a vista com uma luz estranha, descobrindo juntamente aquelle thesouro de ricas pedras, que o ouro dos cabellos escondia. Os olhos eram duas estrellas de diamantes, em cujo fundo um verde escuro de esmeraldas apparecia, que communicando áquella formosa côr a claridade dos raios, que despediam, roubariam as almas de quem os olhasse; e descendo d'elles abaixo, era tudo tão cheio de perfeições, que o menor logar, em que se empregava a vista, tinha desusados extremos de formosura. A bocca era um laço de todos os pensamentos amorosos; e nunca vi coisa tão pequena, em que coubessem tantas grandezas; pareceu-me um rubi partido pelo meio, que com um perfilo aleonado se dividia, e por detraz luziam como por vidraça as perolas, que até então me não descobrira o pejo, com que ficou de haver visto. A columna, que sustentava este edificio, era um pescoço de crystal jaspeado de umas veias roxas, e azues muito delgadas, que me representaram n'aquella hora a côr do céo sereno, que pela rotura de duas nuvens brancas apparece, a que fazia parecer mais formoso o circulo da sombra, com que se engastava no aspero burel da esclavina que a romeira vestia: apeei-me eu; e n'este mesmo tempo lançou ella o toucado sobre os cabellos, pondo os olhos na fonte como em espelho; mas como as suas madeixas eram mais compridas, que a toalha branca, com que as quiz encobrir, se mexericavam pelos extremos das pontas, que vinham a guarnecer de fino ouro aquelle grosseiro trajo: falei-lhe com a cortezia, a que a modestia, e gravidade do seu rosto me obrigava; e ella sem mostrar outro alvoroço de minha presença mais, que vestir de escarlata a branca neve de que parecia formado, me respondeu, perguntando se estava perto o lugar, e se era aquelle o caminho. Eu, que não perdia com os olhos um só movimento dos que os seus faziam, me pareceu tudo o que tinha visto, sombra da graça e brandura com que falou com uma voz tão fina, que penetrava o interior do coração, e tão suave, que o desfazia, e com uma modestia tão grave, que não dava logar a se pôrem n'ella os olhos direitamente, senão com um respeito armado de receios. Perguntei-lhe d'onde era, para onde ía, encarecendo-lhe o perigo em que punha sua belleza de ser offendida, fiando-a de desvios tão solitarios. Mas ella despresando todos os temores, e fazendo mais difficultosa sua jornada, pelo que d'ella lhe pendia, que pelos trances que á sua conta se me representavam, deu a entender muitas cousas, com que eu perdi o accôrdo, e ousadia de lhe perguntar outras, e lhe offerecer algumas das que costumam haver mistér os que fóra da sua patria vem experimentar os males das alheias. E além de eu estar atalhado com sua vista, o estava ella tanto com minha presença, que perdi o interesse de a vêr, por o respeito de a não molestar: despedi-me magoado: estou arrependido; e cubiçoso de a tornar a vêr, de maneira que não aparto o pensamento do logar onde os meus olhos a deixaram. E porque ainda me parece que deve ser mais estranho o successo, que a traz n'aquelles vestidos, que a novidade de sua gentileza, a que se deve todo o cortezão tributo de vontades bem nascidas; peço ao senhor Leonardo que por a melhor via, que lhe parecer, saiba d'esta estrangeira, que por esta noite deve de estar na aldeia; ouvirá d'ella mesma a sua historia, e eu acreditarei com a vista o que tenho dito de sua formosura.—Bem andastes, senhor D. Julio (disse o doutor) em tomar primeiro carta de seguro para o que havieis de dizer; porque os encarecimentos d'essa peregrina são mais pinturas vossas, que gentilesas suas; porque não ha mulher nas obras da natureza tão perfeita cá na terra como a soube fingir o vosso entendimento, ou affeição: e á conta d'ella me parecia bem que assentassemos o retrato de belleza tão sobrenatural, que em materias de amor tudo o que reluz é ouro, e tudo o que assombra é sol; e só com esta desculpa salvareis louvores tão desacostumados.—A affeição do que vi não posso eu negar (tornou elle) mas á vista da peregrina dizei o que quizerdes contra minhas razões, que nas suas partes hei de achar armas com que defenda o que disse. Leonardo se offereceu então a mandar fazer a diligencia com muito cuidado: e voltando para Solino, que tinha os olhos no chão, lhe disse: Vós, callaes, quereis allegar serviços ao senhor D. Julio, porque a vossa natureza não é deixar passar esta mercadoria sem registo.—Estava agora (respondeu elle) cuidando nos livros de cavallarias, que ha poucas noites que defendi; e desejava dar um cavalleiro andante áquella peregrina; que se uma cousa d'estas apparecêra a meu amigo Pindaro, que encantamentos não rompera, e que poesias, e obras heroicas appareceram de novo no mundo, que alabastros, marfins, marmores, crystaes, topazios, jacintos, esmeraldas rodaram por esses ares! Que posto que o senhor D. Julio sahiu d'este encontro mais elegante do que se esperava; Pindaro, com sua licença, tem n'esta materia mais direito adquirido; e não se houvera de contentar de descer do céo as estrellas, e o sol em similhantes louvores: mas os archanjos, cherubins, dominações e potestades haviam de ter logar n'elles.

—Não será fora de proposito (disse o doutor) divertirmo-nos agora com esta materia em desconto, e recompensa das passadas; e gastar esta noite em saber a causa, e o estilo dos encarecimentos namorados, que é pensamento que já me desvelou em outra edade.—Obrigo-me eu (disse Leonardo) que a nenhum dos presentes descontente a vossa escolha; e eu particularmente estimarei seguil-a, tomando o primeiro voto do Licenciado, que por hospede, estudioso e cortezão se lhe deve o logar.—O meu voto (tornou Feliciano) é de pouca importancia, e o logar devido a outrem; mas com toda a humildade acceitarei o que me derem: e se com a minha razão ficar corrido, barato é o saber que se compra com primeiro errar: e assim digo que os encarecimentos nascidos de amor não devem parecer estranhos (por deseguaes que sejam) a nenhum juizo affeiçoado; porque o amante para pintar a formosura de uma dama, que satisfaz a seus olhos e pensamentos, difficultosamente achará nas cousas creadas a que a compare, que lhe fique parecendo que a encarece; porque, ainda que sejam formosas as estrellas, lhe não agradam tanto como os seus olhos; e sendo o Sol tão bello, se alegra menos com a claridade de sua luz, que com vêr o rosto de quem ama; e são de menos valia para seu gosto e desejo o ouro, as perolas, rubins, esmeraldas, e saphiras, que o riso da sua bôcca e a graça da sua vista; e de não imaginar na terra um amante cousa que se eguale ao objecto da sua affeição, dá em o desvario de a comparar aos espiritos que não alcança com o entendimento, subindo com elle pelas gerarchias mais levantadas: a causa é, porque o amor faz as cousas tão formosas a seus olhos, que leva muita vantagem á natureza que creou umas, e outras; e a cubiça e opinião, que engrandeceu a muitas d'ellas: que até do gosto, como diz Plauto, nem o que tem sabor sem amor é saboroso; nem ha fel tão amargoso, que com elle não pareça suave: que não sómente com seus poderes dá perfeição ás cousas, mas tambem as converte em outra substancia.—Não estou contra a vossa razão (acudiu Leonardo) mas parecem-me de forma os encarecimentos de que falaes, que todos, pouco mais ou menos, não sahem de certos limites; porque, em descendo da pedraria, os que são menos lapidarios empeçam em coral, marfim, porfido, alabastro, rosas, neve, ouro: e, quanto por meu voto, a paixão de amor não havia de guardar regra certa nas palavras, e louvores, antes encarecer sua dama com as cousas que a seu gosto e opinião sejam mais formosas; e como as affeições são tão differentes, assim o seriam os gabos, e encarecimentos.—Para louvar (replicou Feliciano) não ha tantos caminhos como para ter affeição; porque logo daes com uma estrada Coimbrã, que é tão bella como o Sol, tão clara como a Lua, tão alva como a neve, tão loura como o ouro; e d'aqui adeante.—A mim me parece bem (disse Solmo) a razão do Licenciado, que o doutor tinha geito de metter os louvores de uma dama em exemplos caseiros, chamando-lhe fresca como o seu pomar, linda como o seu jardim, clara como a sua fonte, e alta como as suas faias: e como os amantes para encarecer se não contentam com pouco, todos chegam ao que pode ser: todo o branco é crystal e diamantes; o corado rosas e rubins; o verde esmeraldas; o azul saphiras; e o amarello ouro e jacintos; e até as mães dos meninos, a que naturalmente tem excessivo amor, não lhes sabem chamar pouco: quando os tomam nos braços, logo os intitulam de meu duque, meu marquez, meu conde; nas pedras meu diamante, e nas flôres meu cravo, e minha rosa: quanto mais louvando mulheres, a quem todo o encarecimento fica curto, e envergonhado pela fôrça, com que tem captivos os sentidos, e as potencias dos que hão de falar n'ellas. E para conclusão de tudo, diga Pindaro o que sente n'este particular.—Os encarecimentos, de que usam os amantes (disse Pindaro) menos são seus, que adquiridos dos famosos poetas, que lh'os ensinaram deixando-os escriptos em suas obras: porque, como retratadores das obras excellentes da natureza, buscaram tão altivos materiaes para darem vivas côres á formosura. E não é muito que, pintando um rosto formoso da terra, lhe accommodassem côres, e attributos celestes, quando para pintarem cousas do mesmo céo usam tantas vezes de semelhanças, e encarecimentos da riqueza da terra, como o fez Ovidio na casa de Febo, com tectos de lavrado marfim, e ladrilhos de ouro, com paredes de topazios, jacintos, e esmeraldas; e o mesmo fez pintando os pavões, que no céo levavam o carro da Deusa Juno, que depois accrescentou em obra e feitio Martiano Capella. E como a phrase poetica é a mais excellente, e levantada, e por tal escolhida das Sibyllas, e Oraculos para usarem d'ella, tambem fizeram os amantes a mesma eleição; entre os quaes qualquer miuda consideração de um voltar de olhos é arco, aljava, e settas de Cupido, com todas as mais allegorias, e transformações que os poetas usaram.—A verdade é (disse o doutor) que a perfeição da formosura animada se não pode devidamente encarecer com alguma semelhança, que o não seja, porque todas lhe ficam muito inferiores: o que declarou bem uma dama Florentina, que perguntando-se-lhe o que lhe parecia de uma figura de mulher de alabastro, feita por um famoso esculptor d'aquelle tempo; ella, sem responder com palavras, fez que uma creada sua formosa e bem proporcionada, despisse em si as partes, que a figura mostrava núas; e logo á vista da natural belleza perdeu a pintura, a fama, e valor que d'antes tinha. E eu vi tambem um jeroglifico da formosura, que declara engenhosamente este pensamento: a figura do qual era uma mulher com a cabeça mettida entre as nuvens, o corpo despido, mas rodeado de um resplendor, que o não deixava vêr distinctamente; na mão direita um lirio, e na outra um compasso; significando com a cabeça mettida no céo, e no resplendor, que só com as cousas d'elle se podia encarecer, fazendo impedimento á vista humana como raios derivados da belleza Divina; o lirio denotando a graça das partes naturaes, porque em côr, e pureza foi sempre symbolo da formosura; o compasso a medida, proporção, e correspondencia dos membros, em que consiste toda a perfeição d'ella. Mas Pindaro tudo quer attribuir á sua profissão: e n'esta parte não tem pouca justiça: porque sómente na licença poetica podem entrar os desvarios dos namorados, por serem muito eguaes o furor poetico, e o amoroso. Porém, já que os encarecimentos estão approvados com tão boas razões, estimara eu ouvir alguma em desculpa dos que vivem, morrem, e ressuscitam a cada passo, e que andam sem almas como cantaros, e sem coração como furões, que, a meu vêr, é gente que por privilegio de amor vive exceptuada das leis da natureza.—A razão (respondeu Feliciano) é a mesma; porque quem encarece a causa egualmente exagera os effeitos: a pena de um desfavor, o termo de uma crueldade, ou esquivança é o maior tormento da morte ao que ama; e um favor e brandura, que recebe em sua affeição, é na sua estima o maior bem da vida; e quanto ao estilo de viver sem alma, e sem coração, o declarou maravilhosamente um poeta moderno, dizendo em um soneto á sua dama, da qual estava ausente, que uma parte da alma, com que vivia, lhe ficara; mas a com que imaginava, entendia, e amava, tinha sempre com ella. Nem é outra cousa os desvarios, e desattentos dos que amam, senão viver em certo modo fora de si, como pareceu a Propercio, dizendo que o que se entrega ao amor perde o juizo; e o que eu vejo que poucos em presença da cousa amada ficam com elle.—Tambem S. Jeronymo (accrescentou o doutor) escreve que o amor da formosura é um esquecimento da razão; e assim chamam os poetas ao amor, inimigo d'ella. E que maior exemplo se pode imaginar d'esta verdade e mudança dos que amam, que o de Hercules, a quem os embaixadores de Lidia acharam lançado no regaço de sua amada, mudando-lhe os anneis dos dedos, ella com a corôa real na cabeça, e o famoso Thebano com um sapato seu d'ella em logar de corôa? que menos esperado que o de Dionisio Syracuzano, que por mão, e parecer de Mirta sua amiga despachava os negocios importantes do seu reino? que mais extranho, que o de Themistocles Atheniense, famoso capitão de Grecia, que namorado de uma dama, que captivou na guerra de Epyro, usava em uma doença, que sua amada teve, dos mesmos remedios que lhe a ella faziam, tomando as purgas, e sangrias como a mesma dama, e lavando o rosto por regalo, e gentileza com o seu sangue d'ella? que menos crivel, que o de Lucio Vitelio Imperador, que namorado de uma filha de um escravo seu, a quem libertara, de tal maneira perdia o juizo, que, tendo uma esquinencia, não usava outro remedio mais que um unguento que fazia de mel com o cuspo de sua dama, imaginando que a virtude do ser seu lhe podia dar saúde untando com elle a garganta?—De maneira (disse Leonardo) que amor tira os sentidos, e o juizo a quem se emprega todo em seus cuidados: e eu tinha para mim, e ouvi sempre dizer que não podia o nescio ser bom namorado; o que agora vejo que contradiz a vossa opinião, pois os que amam não tem entendimento.—Só o discreto (respondeu Feliciano) sabe ser amante, e por isso perde o juizo nas mãos de amor; que o nescio mal poderá perder n'ellas o que não tem. E falando mais ao ponto da vossa duvida, o amante pelo ser não fica nescio, mas parece-o em muitas acções dos sentidos, e entendimento; porque, transportado na imaginação do que ama, se descuida de tudo o que não é sua paixão.—Extranhamente (accudiu Solino) me contenta ouvir esta razão para desculpar commigo os maus successos de namorados, a que não sabia tão boa desculpa; que assás grande é para esquecer cousas menores quem está fora de si: porque, deixados esses exemplos de amantes, cuja grandeza de estado faz maior, e mais notavel o desatino, com que nas mãos do amor renunciaram o entendimento; de outros de menos estofa, e mais modernos sei eu descuidos, que podiam entrar em historia n'esta occasião, e por me aproveitar d'ella: Eu conheci um cortezão mui empenhado em finezas de amor, que passeava em um terreiro, onde tinha a dama em um quartão, que já aturava aquelle fadario todos os dias como em atafona; acertou n'aquelle a ser mais favorecido da senhora, que de quando em quando lhe apparecia, cevando com sua vista os desejos do namorado mancebo, que por seguir a caça se esqueceu do tempo, e das horas de comer, mettendo-se pelo certão da calma que n'aquelle tempo fazia; o cavallo, que não devia de estar tão affeiçoado a aquella estancia como á sua costumada, estancava muitas vezes do passeio, sem haver accordo nem espora que o despertasse; até que uma vez, estando o amante parado com o ponto no alvo da janella, acertou a passar um macho que levava uma rede de palha, a que o rocim se arremessou com tanta furia, que, prendendo os copos da brida nos laços da rede, se embaraçou de maneira, que levou ao quartão enamorado por todo o terreiro, onde se resentio do rapto, sem se poder valer contra os couces do macho, e risada dos rapazes. Mas não é muito padecer d'elles afrontas quem do um tão mal acostumado fia sua liberdade. Outro, que ainda nas guerras de amor não era armado cavalleiro, passeava a pé á vista de seu cuidado, ora com os olhos na janella, ora com o tento na postura, e galanteria de seu bom trajo: a dama, que não trazia ainda aquella affeição em abertas, e publicadas, porque não notassem os que passavam os meneios, e esgares que o mancebo fazia, acenando-lhe se tirou do posto passando-se a uma janella mais pequena que cahia sobre uma esquina das mesmas casas: o galante mais com o tento na mudança, que no caminho, com os olhos no alto, deu com a testa um grande encontro na esquina, de que se esmechou, e atolou em um monte de cal amassada de fresco, que estava arrimado á parede, ficando até os sendaes mais caiado, que cantareira d'Alfama.—A todos pareceram os contos de Solino cheios de graça; e (disse Leonardo) sempre sahe o amor culpado n'estes ferimentos; e não tenho por grande desar todo o que succede á sua conta, que por isso o pintam cego, e são conhecidos por taes os que o servem: porém a mim me parecia que quando o amante perde o tento, e o sentido de tudo o mais, devia ficar só discreto, e avisado para sua dama, que é o objecto em que todo se emprega; que para lhe falar lhe sobejariam razões galantes, respostas obrigadas, termos de subtileza, e galanteria: e eu pela experiencia acho o contrario, que dos noivos, e dos amantes se contam as primeiras parvoices.—Não sei (disse Solino) se dirá agora Pindaro que tomaram isso os namorados dos poetas, como os encarecimentos.—Os poetas (respondeu elle) não são havidos por parvos; e quem lhes quiz fazer todo o mal lhes chamou doidos: o que poderia ser; que o arrebatarem-se, e alhearem-se de si os amantes com affeição, como os poetas com o furor divino que os excita, aprenderiam d'elles. Pelo que o vosso remoque não deu boa chaça: mórmente que esses primeiros erros são de outra geração; e nenhum parentesco tem com a parvoice. Antes é um modo de se atalhar, e suspender um homem o seu entendimento com muita razão; porque não pode dizer cousa, que pareça bem aos outros a primeira vez que fala com aquella a quem ama; que é passo, onde os mais discretos o perdem.—Parece-me que está no certo meu companheiro (disse Feliciano) que eu sei de homens, que entre os outros podiam falar sem medo, terem-no muito grande a estes primeiros encontros; que certo me parece mais respeito que se deve á formosura, que falta que se possa dar em culpa ao entendimento: pois o verdadeiro é que amor o apura, e engrandece; e por este respeito os Athenienses lhe levantaram uma estatua na Academia de Palas como a sabio, e lhe dedicaram uma escola os Samios, significando que só na de amor se alcança com perfeição tudo, o que pelas do mundo variamente se aprende, e com muito discurso de annos se alcança: o aviso no falar, a discrição no escrever, a brandura no conversar, a policia no vestir, a graça no parecer, a cortezania no tratar, a liberalidade no dispender, o esforço no pelejar, a largueza no jogar, a humildade no servir, e a pontualidade no merecer. Do pensamento, e juizo dos amantes sahiram ao mundo as emprezas discretas; as chimeras escuras, as idéas levantadas, os motes avizados, os versos excellentes, os enredos subtis, as cartas galantes, as fabulas bem fingidas, os primores, os extremos, e as finezas tudo é doutrina tirada das escolas de amor. E pois n'ellas se alcança tudo, não é muito que se ache tambem um termo de falar encarecido, e levantado sobre todas as cousas vulgares que tratamos, posto que o juizo d'este acerto se não deve fazer por homens livres d'esta paixão amorosa, se pode haver algum, a quem não coubesse em sorte padecel-a: e bastava sem outros exemplos, fazer a eleição d'ella o sr. Julio, que em todas as partes de côrte e gentileza pode servir de espelho aos mais apurados.—Vós me obrigaes por tantas vias (respondeu o fidalgo) que fico desconfiado de poder pagar nem com encarecimento do que mereceis, nem com a restituição dos louvores injustos que me daes, que só são devidos ao vosso entendimento. E pois a victoria d'esta batalha ficou por elle em meu favor, quero-me aproveitar d'ella, e do cuidado que me deu o dia com me recolher a casa, e fazer mais comprido o repouso da noite.—Essa resolução (disse Leonardo) é em damno de todos: e muito mais de sentir, porque á força nos obrigaes a que consintamos n'elle: mas como em logar de preza trouxestes da caça empreza tão difficultosa, poupaes horas para cuidar n'ella á nossa custa.—Antes (respondeu elle) para reformar no somno as que me desvelei na madrugada.

A isto se levantou; e os mais dando boas noites o iam seguindo, e disse para todos Solino: O senhor D. Julio vae a sonhar com aquelle thesouro encantado que lhe appareceu na fonte; e para este cuidado não quer companhia; que se a communicação dos bens de amor faz muito maior a gloria d'elles nos contentes; aos que só o estão de seu pensamento nenhuma cousa é mais agradavel, que saudosa lembrança.