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Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume I) cover

Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume I)

Chapter 21: DA DIFFERENÇA DO AMOR, E DA COBIÇA
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About This Book

A obra apresenta diálogos e pequenas cenas de convívio numa aldeia transformada em corte durante noites de inverno, em que um anfitrião, um letrado, um fidalgo, um estudante e um velho criado conversam, jogam e contam anedotas. Entre comentários sobre livros de cavalaria, a arte de escrever cartas, cortesia e hábitos sociais, surgem reflexões sobre linguagem, moderação e amizades, compondo um retrato sereno e às vezes irónico das maneiras e ocupações da vida rural cultivada.

DIALOGO VI


DA DIFFERENÇA DO AMOR, E DA COBIÇA



Cada um dos amigos ao outro dia fez curiosa diligencia por saber algumas novas da peregrina, que D. Julio tanto encarecera a noite passada; e não achando d'ella nenhuma noticia, tiveram a historia por fingimento. Juntaram-se ás horas acostumadas á porta de Leonardo, a tempo que tambem o fidalgo apparecia, e que o velho os vinha a esperar ao peitoril da escada com um hospede que lhe viera, que era um clerigo de edade, pessoa, e trajo auctorisado; que dos mais foi logo conhecido por ser prior de uma egreja que perto d'alli ficava: sentaram-se agasalhando-o entre si com a devida urbanidade; e depois de lhe perguntarem de sua saude; como estavam com o desejo de tirarem a terreiro a D. Julio, fizeram signal a Solino que começasse; porém Leonardo não deu logar á boa vontade que elle tinha, e se lhe adiantou na pergunta.—Bem cuidava eu, senhor D. Julio, (disse elle) que aquella formosa peregrina era encantada, e que foi traça do vosso entendimento fazer a todos cavalleiros d'essa aventura; porém a mim só a encommendastes; que pela edade pudéra já estar aposentado para tal empreza; eu a tomei por vos obedecer, e andei bem cuidadoso no seguimento d'ella, sem até agora atinar no caminho, em que vos perdestes.—Minha foi só a desgraça (respondeu elle) pois perdi comvosco, e com os mais o credito do que disse, e para meu desejo a glo ria do que pudéra tornar a vêr em sua formosura.—Essa levantastes vós tanto sobre as estrellas (disse Solino) que se devia de agasalhar com ellas no céo, e enjeitar a pouzada d'esta aldeia.—Parece-me (accudiu o prior) segundo o que vos ouço, que nós podiamos mostrar o jogo; porque a occasião, que me trouxe a este logar, e leva a Lisboa, é uma estranha peregrina que hontem appareceu na nossa aldeia, de cujos successos, e formosura se podiam contar grandes extremos; que já pode ser que seja a de que falaes.

Com esta nova se mostraram os amigos mui alvoroçados, e D. Julio contente; e Leonardo respondeu ao prior:—Não imaginei que tinha tanto bem junto com o de vos ter n'esta casa; affirmo-vos que, se ella não fôra vossa, não poderieis pagar melhor a pouzada, que com tão boas novas: pelo que vos peço que as não dilateis, contando-nos mui particularmente d'essa peregrina, que tem tão obrigados os desejos dos que aqui estamos, como agora pendurados os olhos, e ouvidos do que nos haveis de dizer.—Hontem á tarde (proseguiu o prior) a tempo que já o sol se ía encobrindo com as azas da noite, andava eu continuando com a obrigação da reza à vista da egreja; veiu fazer oração á porta d'ella, e d'alli ter commigo uma mulher em habito de romeira; que se a minha vida merecera a Deus que mandasse a algum anjo falar comigo, podera imaginar que ella o seria; porque a sua belleza passava os limites do encarecimento humano, e com uma voz, que respondia bem á honestidade do seu rosto, e á humildade do seu trajo, me falou (posto que em lingua estrangeira) de modo que se deixava entender mui sem trabalho: perguntou-me se acharia gasalhado em algum hospital, ou casa de caridade d'aquella terra, em que passasse a noite, e pela manhã guia de confiança para ir ter á cidade, offerecendo que n'ella pagaria bem a quem a encaminhasse. Eu, que no merecimento de sua vista achei que era pouco tudo o que lhe podia offerecer, fiquei enleado; porém lhe disse: Senhora, esta terra é muito pequena; e para o que vós representaes, outra maior me parecera limitada. Eu, posto que sacerdote, e d'esta edade, tenho em minha casa uma irmã viuva, e sobrinhas, que vos saberão servir melhor que as naturaes da aldeia; fazei-me mercê de aceitardes a pousada, qual ella é, e, á conta do que faltar ao que vós mereceis, supprirá a vontade que é muito grande. Ella me deu as graças do offerecimento com poucas palavras, mostrando que o acceitava: vim com ella a minha casa, onde foi agasalhada, e servida com grande gosto, pelo que as moças tinham de se estarem revendo nas graças da sua belleza. Depois da cêa, em que a peregrina fez pouco damno, lhe pedimos nos contasse a causa de sua peregrinação, e como sem companhia viera ter ao nosso logar: e ella mudando a côr em um suspiro, entre algumas lagrimas, e com tão discretas razões, que as não saberei eu agora referir com a perfeição propria (posto que algumas palavras eram de linguagem alheia) contou o seguinte:

Na ilha de Irlanda, e na cidade de Dublin principal de seus estados, no maior enleio, e dissensão dos principes d'ella, que com a differença, e variedade das erradas seitas de Inglaterra, a cujo rei obedecem, vinham em total ruina, e destruição d'aquella provincia, nasci de generosos paes, tão mimosa dos afagos, e enganos da fortuna em meu principio, quanto depois a senti esquiva, e deshumana em minhas desgraças. Não tiveram meus progenitores outro fructo, em que empregassem o amor paternal, (que faziam notavel excesso á qualidade de seu sangue) mais que a mim, que com esta boa sorte era invejada de todas as de minha edade, e pertendida dos mais illustres mancebos de toda Irlanda. No melhor de meus tenros annos, que a estes costuma morder sempre por varios modos a inveja venenosa da dura parca, de uma arrebatada enfermidade perdeu minha mãe a vida; e eu como ainda na minha não provara outros males, senti este primeiro com grande pena: mas como a sorte m'o ordenara para ensaio de novas desgraças, depois de me ter encetado o soffrimento; em poucos mezes depois perdi meu pae, e senhor, a quem muito amava, e fiquei mettida entre parentes cubiçosos de minha herança, e amantes fingidos, que obrigados das riquezas d'ella me procuravam por esposa. Tinha eu a todos, os que me offereciam, pouca vontade; e grande obrigação de tomar estado conveniente aos respeitos de minha nobreza. E como os favores, em que me creei, me ensinaram a ser altiva (que este é um dos grandes damnos que faz a prosperidade) puz o pensamento em quem com despreso, e ingratidão castigou minha arrogancia: havia n'aquella mesma cidade um principe, mui chegado por descendencia ao sangue real de Bretanha, cheio de muitas graças da natureza; que, ainda que me era muito desegual por nascimento, tinha tão poucos bens da fortuna, que fazia eu no meu dote confiança para o pretender. Alcançou elle d'isto alguns signaes, que teve em pouco; não advertindo que a vontade de uma dama sempre põe em divida a um espirito generoso, que conhece o preço d'ellas. Succedeu pois que, tendo eu já de minha pretenção poucas esperanças, o elegeram os da ilha de Lister, Ragrim, e das mais da parte oriental de Irlanda, por capitão de uma armada de corsarios, afim de fazerem uma preza muito importante no mar Oceano: e como ás vezes o castigo dos maus intentos é a mesma fortuna, (posto que outras como cega os favorece) se perdeu esta armada com uma tormenta, na qual a maior parte da gente pereceu; e a que ficou do miseravel naufragio se salvou em uma enseada, onde foi captiva de um turco corsario, que a levou a Argel, e alli por o pouco segredo dos seus ficou o seu general conhecido por quem era; e como o sangue, d'onde descendia, junto ao cargo que levava, o faziam de mór preço para os que o captivaram, ficou impossibilitado o seu resgate, e elle sem remedio n'aquella prisão alguns annos: até que a necessidade, e apêrto d'ella me aconselharam que de novo emprehendesse o de que com seus despresos desconfiara, mandando-lhe offerecer liberalmente meu dote para resgate de sua liberdade. E elle com o desejo d'ella, e obrigado d'esta lembrança, tendo por menores grilhões os que de novo lhe punha, que os que elle trazia, aceitou a offerta, e me mandou em satisfação um escripto, em que me jurava por sua esposa. Puz eu, sem mais cautella, em execução o meu intento, perdendo a affeição ás muitas riquezas, que tinha, pela honra e contentamento, que d'aquelles desposorios esperava. Tornou livre á sua patria, e mudou de improviso a tenção que fingira para alcançar o remedio á custa do meu engano. Estranhou-lhe o mundo esta crueldade: e os meus vendo-me sem dote, e sem marido, e, o que o havia de ser, tão ingrato, e na opinião de todos tão culpado, me levaram a o demandar por justiça nos tribunaes supremos, onde, depois de convencido, me foi julgado por devedor, e por esposo. Mas como a minha vontade não era que elle o fôsse contra a sua, esperei o tempo mais conveniente para a declarar. Obrigado emfim da justiça, e, depois d'ella, rendido aos conselhos dos principaes parentes que o tratavam; o dia, em que se havia de desposar comigo, cumprindo por sentença a palavra que me tinha dado, antes de lhe dar a mão, metti na sua um papel em logar da minha, que era quitação plenaria de tudo o que por elle déra, e juntamente do que elle com tanta ingratidão recusara, escolhendo para castigo de minha altiveza a humildade da religião mais apertada. Fez isto em toda a ilha grande espanto; e eu com o resto, que do meu dote ficára, aborrecendo a patria como a madrasta, determinei logo buscar em reino alheio segura morada. E porque a fama da religião portugueza, e da famosa cidade de Lisboa, onde muitas religiosas do illustre sangue de Bretanha vivem santamente em clausura, me trazia mais affeiçoado o desejo; mandei por alguns mercadores de confiança o maior cabedal do que possuia a quem até á minha chegada o detivesse; e eu como tive a certeza de este dote mais necessario estar seguro, fugindo ás affrontas, e odio de meus naturaes, me embarquei com o mais que me ficava; e com prospero vento tomei porto em Galiza, e visitei a casa, e sepultura do glorioso apostolo Santiago; d'onde caminhando por terra, livre já dos enredos de minha ventura, não pude escapar á cobiça dos criados que me acompanhavam; que esquecidos da fé que me deviam, e pouco affeiçoados da catholica que professava á sua vista com tanta firmeza, me roubaram as joias, o dinheiro que trazia, deixando-me n'estes desvios desamparada. Senti mais esta derradeira desgraça, por ser a que me tomou com a paciencia quasi rendida aos trabalhos da viagem, que venceram o descostume e fraqueza femenina; e tambem por me achar tão só na confusão d'estes caminhos: porém se pelos que parecem tão errados me quer Deus guiar ao mais seguro, eu ponho em suas mãos o soffrimento: e por elle, senhor, vos peço como a ministro seu que em tudo pareceis, que, ainda que vos dê cuidado, me mandeis d'aqui em companhia de confiança, até onde d'aquellas bemaventuradas religiosas seja conhecida; que á sua vista poderei logo satisfazer a diligencia: a vós pagará o céo este trabalho, e a estas senhoras o amor com que favorecem o meu desamparo; que a maior consolação, que devem ter os perseguidos da sorte, é saber que a todo o tempo, que se acolherem a Deus, acham n'elle brandura; e que tem á sua conta pagar largamente as boas obras, que no decurso de seus trabalhos receberam.

Esta historia contou a peregrina com os olhos cheios de agua, com que orvalhava de quando em quando as rosas do seu rosto; e a nenhum dos que alli estavam faltaram lagrimas. Eu lhe disse: Senhora, se o estado que buscaes com tanto desejo, não fôra melhor que o que vos roubou a ventura, muito era para sentir a que vos offende. Porém como o caminho dos que Deus escolhe é tão differente do que seguem aquelles que lhe vão fugindo; não podeis n'este ter maior seguro, que saber que vos acompanha nos trabalhos presentes, e vos ha de dar o galardão e premio de todos: e para que eu tenha n'elles alguma parte de merecimento, me offereço ao remedio dos que ficam até tomardes logar n'essa clausura. Lisboa é terra grande; e a muita confusão da gente e trafego d'ella a faz embaraçada; e vós é razão que com a decencia e commodidade, que vossa pessoa e qualidade requer, vos deis a conhecer. Pelo que, se quizerdes descançar com estas minhas parentas, e ja criadas vossas n'esta aldeia, eu irei á cidade, e procurarei servir-vos com todo o cuidado. Isto me agradeceu a estrangeira com muito boas palavras, mostrando tambem nas côres do rosto signaes de obrigação. E hoje, antes da minha partida, me fez uma lembrança do que por sua parte havia de perguntar. No caminho me atalhou a jornada uma occasião forçosa, que me fez passar a noite tão perto de casa como vêdes, mas com o maior interesse que podia esperar: pois, além das mercês do senhor Leonardo, goso a conversação de tantos amigos e senhores, que é fim, a que se podiam dirigir outras jornadas maiores.—Já agora (disse D. Julio) não serão tão culpados meus extremos; pois nos que disse o senhor prior da peregrina ficam acreditados; e passam as suas obras tanto adiante das minhas palavras, que deixa a sua egreja e familia para por a servir no que eu nem ainda me soube offerecer: e contou ao prior o como encontrara, andando á caça, a mesma estrangeira, e o que n'aquella conversação tinha passado sobre os louvores, com que elle quizera pintar sua formosura.—Nenhuns lhe podieis dar (proseguiu elle) que não ficassem os maiores encarecimentos devendo muito á verdade: e o maior espanto, que eu achei nos de sua gentileza, foi que, sendo ella tal, houvesse um homem bem nascido, que sobre obrigações tão forçosas a despresasse.—Isso (tornou D. Julio) não tenho eu por espanto; que d'esse modo se costuma vingar a sorte da naturesa, quando na perfeição de suas obras a não pode egualar: mais se me representa a mim que seria o homem nobre, e sem entendimento, como ha muitos, pois fugiu de tantos e tão poderosos attributos, como eram formosura, riqueza, magnificencia, cortezia, e humanidade, todos empregados em seu favor.—E a mim (acodiu Solino) me pareceu ingrato, mas discreto, fugindo o jugo de uma mulher que lhe ficava sendo duas vezes senhora, uma pelos poderes naturaes de sua belleza, e outra por a divida, e preço de seu resgate.—O meu voto é (disse Pindaro) mui differente; antes julgo que o que o homem aceitou por necessitado, veiu a enjeitar por cubiçoso, vendo que se dispendera com sua liberdade o dote que dourava as perfeições de sua esposa; que nunca deixara de o ser, se fôra tão rica como no principio, em que o libertou; porque a cobiça e o amor são grandes competidores.—Não me descontentam as opiniões (disse Leonardo) mas já que vos entalastes entre esses dois inimigos do socego humano, seja a questão e a materia da conversação da noite á conta d'elles. E perguntou ao doutor, qual dos dois é mais poderoso, e obriga os homens a maiores extremos?

—Se houvessemos de dar credito (respondeu o doutor) á experiencia, e tomar os successos do mundo por argumento, com poucas porfias se manifestará a verdade da vossa pergunta: mas tratando primeiro das razões, vejamos em que se parecem, e os poderes em que os antigos igualaram o amor, e a cubiça; que de ambos deixaram jeroglificos, e figuras. Pintaram pois ao amor menino, formoso, com os olhos tapados, despido, com azas nos hombros, e armado de arco e settas: menino, por facil e fagueiro; formoso, porque a belleza é o objecto dos amantes; despido, porque se não póde encobrir; cego, porque não vê, nem conhece a razão; com azas nos hombros, por ligeiro, e mudavel; armado, por forte, poderoso e cruel. A cubiça pintaram-a mulher, despida, com os olhos tapados, e azas nos hombros. Despida, pela facilidade com que por seus effeitos se descobre; cega, porque não vê nenhum respeito humano em rasão do que deseja: com azas pela velocidade com que segue aquelle objecto, que debaixo da especie de proveito se lhe representa. Assim que só nas armas, e no sexo feminino achamos na pintura differença: porém se considerarmos os effeitos da cubiça, ou foi que na pintura de mulher as quizeram cifrar todas, ou que lhes faltou lugar para tantas armas; porque se amor é forte e poderoso, e vence a tudo, como disse o poeta; o mesmo confessa que a todos os extremos fórça, e obriga a sede do ouro aos humanos; se a amor como a poderoso o fingiram Deus cruel, como diz o poeta Seneca; não só a cubiça é Deus do avarento e cubiçoso, mas o mesmo ouro que deseja, como d'elles disse um doutor santo; se lhe chamam cruel pelos damnos que no mundo fizeram seus poderes, mais reinos assolados, cidades destruidas, e damnos immortaes se fizeram no mundo por cubiça, que por amor: e antes de chegar aos exemplos, com que se póde provar esta verdade, vejamos em seu nascimento que coisa seja amor humano; e o que é cubiça. A elle chamaram muitos auctores furor; e este definio maravilhosamente um doutor grego, que disse que amor era um desejo irracional, que facilmente se emprega, e com grande difficuldade se perde. E da cubiça escreve outro mais moderno, que é um appetite fóra da medida certa, que ensina a razão; que não tem modo, nem fim. É certo que cada um d'elles podia trocar com o outro esta definição, sem ficar enganado; porque o mesmo é excesso de um desejo irracional, que appetite fóra dos limites da rasão: e o mesmo ser leve em se empregar, e deixar-se com difficuldade, que não ter modo, nem fim. Mas posto que na pintura, e nascimento os podiamos igualar, os effeitos da cubiça são com mais força, e vehemencia, que os do amor; porque, se faz cego o amante para perder o lume da razão, todavia não o faz vil, antes o engrandece: e o cubiçoso é cego para não vêr razão, nem honra, e para se abaixar a todas as infamias, a que se sujeita o interesse: se o pintam despido para se não poder encobrir, com mais vergonhosas mostras se pinta a cubiça: o que na mesma pintura de mulher está declarado. Se é ligeiro o amor para se empregar, com tudo busca sempre a formosura como objecto seu, e obra a que honrou a mesma natureza: e a cubiça se emprega nas mais humildes e indignas coisas da terra, como d'ellas possa tirar fructo o cubiçoso: que a Tito cheirava bem o dinheiro que cobrava das immundicias de Roma; e no que são atrevimentos e ousadias, muito atraz ficaram os amantes dos cubiçosos. Romper as entranhas da terra, e chegar á vista do inferno por tirar ouro: descer ao fundo do mar por buscar perolas, descobrir novas regiões, soffrer climas estranhos, e barbaras gentes para adquirir commercios, obras foram de cubiça, e não de amor, como tambem o foi a navegação, que na empreza do Velocinio d'ouro começou: e se amor é cruel, muito menos o parece nas obras que a cubiça, pois elle ao amante offende com suavidade amorosa, e aos estranhos com animo compassivo tanto mais nobre, quanto elle o é mais, que a cubiça, que mata no mundo mais homens em um só dia, que o amor em muitos annos. Assim que a meu ver em competencia, ella tem mais poderes, e na semelhança se parece tanto com o amor, que é elle mesmo; mas com tal differença, que elle ama a formosura humana, e a cubiça a riqueza.

—Não consinto (disse o prior) que o vosso entendimento faça tão grande aggravo ao amor, como é igualar com elle a cubiça: porque quando em poderes tenham grande semelhança, na nobresa e nascimento tem muito maior desegualdade; que posto que o amor considerado como appetite carnal seja excesso de um desejo fóra da razão; significado como affeição humana, é uma força que ajunta, ou deseja unir duas vidas em uma, a do amante e da coisa amada, e é este amor tão natural a todos, que é defeito e torpeza não saber amar, como diz S. Chrysostomo. E pelo contrario Aristoteles chamou a cubiça desejo fóra da natureza. O amor nasce tão nobremente, que tem por objecto a belleza humana, e os dotes naturaes mais excellentes como são graça, juizo, parecer, e perfeição: e assim diz S. Agostinho, que amamos coisas boas, porém com amor mal intencionado. E a cubiça como é vicio do entendimento, e appetite preternatural, sempre é mal nascida, e inclinada a coisas baixas. Assim que sejam os poderes, e as pinturas quão parecidas quizerdes; são as naturezas de ambos mui differentes.—Parece-me, senhor doutor (disse Feliciano) que aquella razão ha de achar muitos votos contra o vosso, porém eu por me pegar ao melhor parado, nem quero ir contra elle, nem hei de encontrar o do senhor prior, antes ajudado da doutrina de ambos accrescentarei o meu pouco, mettendo-me entre tão boas partes pela de amor; e digo que posto que elle e a cubiça sejam semelhantes no poder, no que é amar são em tudo deseguaes, porque não se ama a coisa que pelo que é, e por amor de si propria se não ama; e menos se póde amar a que se não conhece: e assim seria erro chamar amor ao do cubiçoso, que se emprega em coisas que por si não merecem amor, e em outras, de que não tem nenhum conhecimento: amar a uma pessoa, que obriga e sujeita a nossa vontade; é ter-lhe amor por qual ella é, e por essa a desejamos unir comnosco, por natural appetite: mas empregar a affeição no dinheiro, e no ouro, que não amamos pelo que é, senão pelo que com elle se alcança, não póde ser amor. E menos o será amar o que ainda não conhecemos, como faz o cubiçoso a muitas coisas, que não vio, pelo interesse que d'ellas espera. E não tratando ainda de que o amor não se considera só no que ama, senão tambem na coisa amada; e que falta correspondencia, sendo essa insensivel: o amor todo se emprega no interesse dos sentidos; e este falta em todos elles ao cubiçoso: porque, se a sua temerosa côr o cativara, nem d'essa o deixa usar o seu cativeiro. D'onde veio dizer o poeta Horacio que o ouro para os avaros não tinha côr, porque o enterram segunda vez, pois por essa e por seu nascimento lhe podem chamar desenterrado: nem com a voz deleita os ouvidos, nem com a suavidade do cheiro recrea, nem com o tacto agrada, nem com o gosto satisfaz. Diga-o Midas, que o pediu aos Deozes por dom: e como lhe ficou por mantimento, perecia na abundancia do que tanto desejara. Diga-o Pithio, o qual deu a el-rei Dario o platano e videira de ouro: o gosto, que achou na ceia que sua mulher lhe ordenára: o qual com sua demasiada cubiça não dava lugar aos seus cidadãos de se empregarem em outro trabalho mais, que em beneficiar as minas do ouro, em cuja ruina muitos d'elles miseravelmente pereciam: pelo que, vendo as matronas da cidade tanto damno, foram juntas pedir á mulher de Pithio que, compadecendo-se de tão grande mal, rogasse por ellas a seu marido, pedindo-lhe que désse aos seus melhor tratamento: e ella, a quem não faltava entendimento, nem piedade, conhecendo que era vão vencer com rogos a sua cobiça, ordenou a Pithio uma ceia esplendida em um dia de festa; na qual todas as eguarias, que lhe deu, eram formadas de ouro. Alegrou-se muito com ellas na primeira vista, e com a magnificencia do apparato, com que lhas apresentavam: porém quando pelo discurso do banquete não viu nenhuma de que podesse comer, perguntou pelas eguarias verdadeiras, confessando d'aquellas que eram fingidas. Como (respondeu então a sabia matrona) queres que te apresente outra comida, se só no cuidado da que tens deante occupas a todos teus vassallos, pois se não lavram os campos, nem se cultivam as arvores, nem se pescam os rios, nem se caçam as aves, nem se criam os animaes, pelo exercicio continuo de tirar ouro? Contenta-te tambem com o fruto d'elle por mantimento. E com este ardil emendou em alguma parte sua demasia.

Bem parece que entendia esta verdade Halaono imperador da Tartaria, que vencendo, em Baldaco, o Califa mestre da seita Mahometica, que era o mais poderoso rico, que então havia no mundo, vendo que, por se não ajudar de suas riquezas, e as não despender em soldo, não tivera resistencia contra o exercito dos Tartaros; depois de captivo o mandou metter em uma camara entre o ouro e joias preciosas, que antes tinha, sem lhe mandar dar outro mantimento, dizendo que d'aquelle comesse á sua vontade: e assim entre a grande abundancia de suas riquezas o miseravel Califa morreu de fome.

Pois se o ouro por si não póde satisfazer ao gosto, nem deleitar sentido senão com o engano do que com elle alcança, como póde ser capaz de amor?

—Vós (disse Pindaro) temestes ao doutor; porém não o seguistes: e eu ajudado do vosso receio, e da sua auctoridade, me hei de valer da primeira opinião que propoz, e é que o amante e o cubiçoso não differem mais no amor, que no emprego d'elle; e para isto me fundo em uma opinião moderna, que tem por si muitas auctoridades antigas; e é que nenhuma pessoa ama mais a outra, que a si mesma, nem póde ter amor a outro, se primeiro se não amar a si; e do amor que se tem, nasce o desejar e amar as coisas a que se affeiçoa, e inclina mais a sua natureza: amo isto, porque me parece bem, e o quero unir a mim, pelo que me quero, e desejo tudo o que me agrada e satisfaz por meu respeito; e por isso chamaram ao amigo uma alma em dois corpos, e, como diz o proverbio, o amigo é outro eu; quero-lhe tudo o que para mim quero, e amo-o como a minha alma unida com a sua. E Aristoteles diz que o amigo se hade egualar no amor com o que cada um tem a si: logo tanto quer e deseja o amante o objecto da belleza, em que se emprega, como o cubiçoso o ouro, que quer para si. E quanto á objecção de que o ouro senão ama pelo que é, senão pelo que vale, e por o que com elle se compra e alcança, os vossos mesmos exemplos dirão por mim o contrario; que o cubiçoso, e avaro antes perderá a vida, que resgatal-a com o ouro, a que quer mais que a ella; e antes perece á fome, que satisfazel-a com dispender o que tem em mais estima que a fartura; que para elle é mór damno gastar, que todos os outros; como Lucilo conta de um avarento chamado Hermones, que, sonhando uma noite que gastara certa quantidade de dinheiro, foi tanta a sua paixão e dôr, que, cuidando que era verdade, se afogou. E assim diz S. Jeronymo que tanta necessidade tem o cubiçoso do que possue, como do que lhe falta, pois lhe falta animo para usar d'elle: e diz n'outro lugar que só a avareza e cubiça fez no mundo pobres, porque assás o é mais, que todos, o que tudo deseja; e possuindo mendiga, e padece como se lhe faltára. Logo certo é que o ouro ama o cubiçoso, e não já o que com elle se compra; pois o não quer para comprar, senão para o possuir. E respondendo á deleitação dos sentidos, que o amor humano offerece, e na cubiça falta, ousarei a dizer que o ouro, ainda enterrado, parece melhor ao cubiçoso, que ao amante a formusura que appetece; e que é mais suave a seus ouvidos o rumor, e tinido do dinheiro, que a brandura de todos os requebros, e galanterias namoradas; e que nenhum gosto para elle é egual com o que tem de tocar, tratar, e revolver-se entre o mesmo dinheiro: o que se póde ver com grande admiração n'aquelle afamado cubiçoso o Imperador Caligula, que, depois que a muitos obrigou que o instituissem por herdeiro, aos quaes, depois de testarem, fez matar com peçonha (rindo-se de haver homem que quizesse viver mais depois de haver testado) atraz de em sua casa instituir publica mancebia de todos os vicios, de que tirava um copioso tributo, se lançava despido entre o dinheiro, que d'estas infames obras procedia; e, dando sobre elle mil voltas, tinha em menos conta todas as outras delicias, que os homens a preço do dinheiro procuravam. Certo é logo que o ouro ama, e a elle quer, e com elle se deleita o avaro e cubiçoso; que, se o desejára para o empregar em o que com elle se alcança, perdera o primeiro nome, e podera merecer o de rico, prudente, e liberal: porque o ouro, e as riquezas, como diz S. Leão Papa, não são boas de si, nem más; mas o bom ou mau uso d'ellas engrandece, ou desacredita a quem as possue: e assim não é rico o que muito tem, senão o que com o que tem se contenta: e não ha maior pobreza, que, por empregar o desejo em um baixo metal, que sem bom uso não presta, deixarem os homens o muito que com sua valia poderam adquirir.

—Todos (disse Solino) deram sua pancada a esta lebre; Leonardo, que a levantou, deixou-se ficar no covil; e eu fiquei atrás dos galgos sem dar um brado; farei muito, se agora quizer desmanchar o bemdito de todos. Comtudo a minha opinião é que quanto tendes feito na grandeza e poderes da cubiça é errado, e que se haviam de attribuir ao ouro, e não a ella. E tratando da pintura, em que a embaraçastes, e quizestes assemelhar com o amor, tenho por mui errada a declaração d'ella: e posto que seja contradizer a tão grandes entendimentos, a hei de explicar ao meu modo, que me parece que a pintaram os antigos: mulher por sua fraqueza; pois é tal, que se rende a qualquer pequeno, e vil interesse; despida como desavergonhada, por quão sem respeito, nem moderação se atreve a commetter qualquer infamia; com azas por a ligeireza, com que se arremessa a qualquer preza como ave de rapina; cega por pedinte, mendiga, e importuna: e se isto não é, venho a presumir que a fingiram com o rosto de mulher, e as pennas de ave como a harpia, que na etymologia propria do seu nome manifesta o roubo e condição do cubiçoso: e assim como a harpia damna, e descompõe todos os manjares a que chega, assim a cubiça estraga e corrompe toda as virtudes: pelo que me parece que nenhum parentesco tem com amor, que na nobreza é tão desegual, e pelos louvores de sua excellencia tão conhecido. O a que se podera voltar a nossa porfia, e arguir mil historias extremadas, é a tratar dos poderes do ouro, e da valia do interesse, que já nos tempos antigos, e no prezente de agora póde tanto, que obrigou a dizer a um auctor que esta é a verdadeira edade do ouro, porque só elle senhoreia os animos dos homens. E viera isto mais ao proposito da vossa peregrina, que com elle e sua formosura não pôde vencer a um coração ingrato.—A mim me parece (respondeu Leonardo) que vós tinheis mui boa razão se a não guardareis para tão tarde: porém em a noite d'amanhã se lhe fará justiça; que n'esta é rasão que se dê ao hospede lugar conveniente para o repouso, pois ha de ir á cidade e voltar no mesmo dia.—Por não mandar em casa alheia (disse o prior) não defendo a minha parte; mas prometto, se voltar a horas que possa passar a noite tão bem como esta, de a não perder.

Então se levantaram os mais e se despediram; e o prior gastou muitas palavras em manifestar a Leonardo a inveja que tivera d'aquella companhia: ao que elle respondeu com a que a todos fazia com a vista da peregrina, que lhe ficára em casa; que posto que a boa conversação é manjar da alma, a vista de uma estranha formosura, que rouba as de todos, tem muito maior poder sobre o desejo.



DIALOGO VII


DOS PODERES DO OURO E DO INTERESSE



No mesmo tempo, em que os amigos se juntaram para o seu costumado exercicio, se apeava o prior no pateo de Leonardo; que o desejo que lhe causara a noite do dia d'antes, o fez tornar mais cedo da cidade. Foi recebido com alegria: e depois de lhe perguntarem do bom successo de sua jornada, lhe disse Solino:—Agora vejo que roubou a ventura a empreza d'aquella peregrina ao sr. D. Julio: pois a deu a quem a deixa de vêr por nos ouvir.—Antes vereis (respondeu o prior) quão poderoso é o ouro, que até para ouvir falar n'elle deixo a propria casa, e n'ella a vista de tão extremada formosura.—Não sois vós (acudiu Leonardo) o primeiro que a deixastes por ouro, nem usaes n'esta occasião como avarento, pois que vindes com esse titulo de cobiça enriquecer a todos, e a esta casa.—Vós (respondeu elle) me individaes para me empobrecer com a mercê e cortezia que me fazeis; de maneira que sempre o meu erro é dourado para contentar os cobiçosos, quando pareça a Solino culpa deixar a vista da minha hospeda pelo interesse da vossa conversação.—Não é só elle o que vos accusa (disse D. Julio) antes eu de a vós deixardes me queixo, ainda que de a acompanhardes tinha ciumes.—Só esses faltavam (tornou Solino) para a conversação ficar de ouro e de azul; mas se d'este se batera moeda, nenhum de nós se queixára de pobre, porque a dos comprimentos é a mais corrente de todas. Porque o maior mal que o avaro faz ao ouro, é impedir-lhe a corrente com a prisão em que o encerra, podendo com elle até ás prisões fazer agradaveis e formosas, que para isso imagino que se inventaram as cadeias e grilhões de ouro, que d'elle servem para ornato, e dos outros metaes para castigo.—Não me descontenta essa razão (disse Leonardo), porque se ao ouro quando sahe da mina, antes de o pôrem em seus quilates, chamam os artifices ouro bruto, quanto com mais razão merece este nome o que o avarento tem escondido e fechado? E a este proposito me cabe contar uma historia que li esta manhã; e se fôr sobejo, pelo que callei a noite passada, se póde descontar o que agora disser.

Houve em Italia, em um dos mais conhecidos logares d'ella, um honrado pae de familia, nobilissimo por geração, rico de bens procedidos da herança e nobreza antiga de seus antepassados, dotado de muitas partes, e graças da natureza, e tão liberal do que possuia, que mais parecia dispenseiro das riquezas, que carcereiro d'ellas. Teve este em sua mocidade um filho tão industrioso e experto nos negocios de mercancia, que ajuntou em poucos annos grande copia de dinheiro, o qual elle guardava com tão solicito cuidado, como costumam os que com cobiça e trabalhos o adquiriram: e era notavel espanto aos naturaes verem em um velho a largueza e liberalidade de mancebo; e em o filho a avareza e tenacidade de velho. O pae, que o via responder tão mal a suas inclinações, e que já com a edade e continuação de gastar largo, estava menos rico, muitas vezes lhe dizia e aconselhava com brandura que conservasse, com o que ganhara, a honra que tinha de seus passados; e não degenerasse d'elles, por seguir a villeza do interesse: que usasse das riquezas como nobre, e favorecesse a velhice de quem o creára, e honrasse aos pequenos irmãos que tinha; que fosse proveitoso aos amigos e parentes; benigno aos pobres e se não captivasse ao trabalho de enthesourar riquezas sem fructo. Mas como falar a um morto, e aconselhar a um avarento é cuidado vão, nenhum effeito faziam os paternos rogos em sua má natureza. Succedeu que o senado d'aquella republica por a nobreza, e pessoa do mancebo, e pela industria e sagacidade que mostrava, o elegeram em companhia de outros para ir com uma embaixada a Roma ao Summo Pontifice. Depois de sua partida, vendo o pae occasião ao que havia muito que desejava, mandou secretamente fazer chaves falsas, com que entrou na camara do filho; e abriu os cofres em que aquelle inutil thesouro estava depositado; e com a brevidade que o desejo lhe pedia, vestiu a si, a sua mulher e filhos custosamente; deu libré a seus creados; comprou ricas armações e baixellas; encheu a estrebaria de cavallos formosos; fez esmolas a muitos pobres; acudiu em occasiões a parentes e amigos necessitados; dispendeu emfim aquella prata e ouro que o filho com muitas vigilias ajuntára da maneira em que elle, quando florescia em riquezas usava d'ellas. Gastado o dinheiro encheu os saccos em que antes estava, de miudos seixos e areia: e posto tudo na mesma ordem em que o filho o deixára, tornou a fechar os cofres e as casas como d'antes. Tornou depois o filho da sua embaixada: e os pequenos irmãos o foram esperar á entrada da cidade vestidos custosamente, e com o magnifico apparato de que então usavam. Vendo-se o irmão rodeado d'elles ficou confuso; e enleado lhes perguntou logo d'onde houveram tão ricos vestidos, e tão formosos cavallos. Ao que elles com uma simplicidade innocente responderam que seu pae e senhor vivia com differente largueza da que d'antes tinha; e que outros trajos e cavallos de maior preço lhe ficavam. Entrando depois em casa de seu pae, nem a ella, nem a elle conhecia, pelo differente estado em que a deixára: e como n'esta mudança se lhe não aquietava o coração, foi-se com muita pressa aonde o tinha posto. Entrou na sua camara, abriu os cofres: e vendo que os saccos estavam cheios, e da maneira que elle os deixára, se aquietou, porque não dava logar a mais vagarosa experiencia a pressa com que os companheiros o chamavam, e o senado o esperava. Depois que deu fim a aquella obrigação (que a elle não pareceu que fosse tão custosa) fechando-se devagar no seu aposento, abriu as arcas e os saccos, em que lhe parecia que estava a sua bemaventurança; e vendo o engano da areia e seixos que dentro tinham, começou a gritar com grandes lamentações e brados. A que primeiro, que todos, acudiu o generoso velho, perguntando-lhe que tinha? de que se queixava? e quem o offendera? Ai de mim (disse elle) que me roubaram as riquezas, que com tantos trabalhos, e em tão largo discurso de annos tinha grangeadas. Como é possivel que te roubaram (respondeu o pae) se eu vejo esses cofres e saccos cheios, que parece que não podiam tirar nada d'elles, nem elles levarem mais? Ai triste de mim (tornou o filho) que o de que elles estão cheios, não é do ouro e prata, com que os deixei; que não tem agora mais que pedras e areia sem proveito. A isto respondeu o generoso pae, sem no rosto fazer mudança: Ah! enganado filho! que importava para ti que estes saccos estivessem cheios de ouro fino ou de areia grossa, se a tua avareza te não deixava fazer nas obras differença d'ella? Cessaram os brados, mas não já o sentimento do filho com esta resposta; que a mim me pareceu digna de ser contada entre as mais celebres do mundo.

—Eu a tenho por tal (disse o prior), e a historia por maravilhosa para o nosso intento; e andou muito bem o pae de cumprir em vida o testamento do filho; porque, como disse Pub. Mimio, nenhuma cousa o avaro faz boa, senão quando morre, porque deixa o que tem a quem possa usar d'elle.—E o mesmo (disse Feliciano) escreveu que para ninguem o avarento é bom: e para si peior que para todos; pois nem dispende, nem se aproveita: e n'este sentido me parece maravilhosa a allegoria d'aquella engenhosa fabula de Midas, que, pedindo aos deuses, como cobiçoso, que tudo o que tocasse se lhe convertesse em ouro, perecia de fome na grande abundancia do que pedira. E quando a necessidade o fez mudar a petição forçado do mal, que como bem procurára, lhe mandaram que se fosse lavar ao rio Pactolo; que fez corrente do que elle queria fazer estanque, pondo em suas douradas areias, para communicar a todos, o que Midas só para si queria ter usurpado.—Bem se representou em Midas (accrescentou Pindaro) um cobiçoso no pedir e em se não aproveitar: que por isso disse Seneca que mais facilmente se atreveria a alcançar da fortuna que désse, que de um cobiçoso que não pedisse. Mas deixemol-os a elles com seu engano, e falemos nos poderes do ouro, que é o para que Solino nos convidou a noite passada.—Como é certo (disse elle) que para o ouro todos se convidam de boa vontade, e vós, pela que tendes a este metal, parece que estivestes de ponto sobre a materia.—Não a apontei (respondeu Pindaro) por esse respeito, mas por me contentar da que escolhestes; e é desgraça minha que para os outros levantaes d'ouros, e para mim de espadas.—Eu me quero metter entre ellas (acudiu D. Julio) e se assim parecer aos mais, diga Solino todos os males do ouro, pois tem boa mão para dizer mal; o Pindaro todos os bens: e sobre o que ambos disserem ficará logar aos mais de darem suas razões.—Errastes, sr. D. Julio (disse o doutor), que para Solino dizer mal no sentido que vós quereis, ha de dizer bem do ouro, e Pindaro os males.—Dou-me por vencido, respondeu elle:—E eu por obrigado (disse Pindaro) a obedecer. Todos festejaram a eleição; e ordenando que fosse o primeiro, começou d'esta maneira!

Se as causas são pelos effeitos conhecidas, e elles testemunham a excellencia ou maldade d'ellas, qual o foi de maiores males e damnos na redondeza, e metteu aos homens em mais perigosos trabalhos que o ouro, a quem com muita razão podiam todos chamar peste do mundo? E posto que os notaveis exemplos das destruições e ruinas que n'elle fez, podiam tomar mais tempo do que agora tenho para tratar d'elle; quero começar primeiro de seu nascimento, para que mostrem os seus arriscados principios os desastrados successos para que a malicia humana o descobriu. E não desprezando o que diz Plinio tão doutamente, que não contentes os homens com o que a superficie da terra produzia para sua recreação e mantimento, a formosura das arvores, a diversidade dos fructos, a belleza e cheiro das flores, a verdura das hervas, o esmalte das boninas, a abundancia dos legumes; quizeram desentranhar do centro d'ella os segredos que a benigna natureza nos escondia. Nasce o ouro nas entranhas dos montes, e nas arterias occultas dos penedos; e subindo como arvore da profunda raiz, d'onde começa, vae espalhando os ramos em desegual medida, convertendo o sol com seus poderes aquella materia disposta e propinqua, até que chega a ser ouro, e se demonstra por duvidosos signaes na face da terra; que logo d'aquella emprenhidão se mostra triste, dando por indicios da riqueza que encerra, herva descórada, delgada, subtil e sequinhosa areia, e barro leve, secco e sem proveito; e até as aguas, que por entre as veias descem, sahem cruas e com sabor pesado. Espreitando estes signaes a industria humana, entra fazendo guerra ao profundo, caminhando por debaixo dos montes sustentados em columnas da mesma terra, deixando a vista do sol e das estrellas, pondo as vidas ao risco das ruinosas machinas, que mil vezes o opprimem, que tanto a nossa sede fez cruel á benigna terra, que parece menor temeridade tirar do fundo do mar perolas e aljofar, que do seu seio o inimigo ouro, que ainda então o não é mais que nas esperanças. Depois de tirado com tão custosas diligencias, sahindo como parto de venenosa vibora, rompendo as maternas entranhas, com o fogo se aparta, apura o aperfeiçoa. ficando menos apto para o serviço dos homens, na cultivação dos campos e arvoredos, e mais apparelhado para sua destruição e ruina: porque ou se lavra para ostentações e demasias da vaidade, ou se bate e cunha em moeda, cujo preço tyrannisa os poderes e graças da natureza. Tirou o ouro a valia a todas ellas, e fez em si estanque de todos os commercios do mundo, no qual, antes que elle apparecesse, se trocavam as cousas umas por outras, com uma composição e trato mais conforme e obrigado á necessidade e commodos da vida que aos roubos da cobiça, maldades da avareza e sobejidões da vaidade; e apoderou-se tanto de tudo o que na terra havia, que veiu a ser preço até da liberdade dos homens contra o direito natural, em que viviam. Foram crescendo seus atrevimentos: e se antes de sahir do centro da terra começou a matar homens, sahindo d'ella se levantou contra o céo, fazendo guerra de rosto a rosto a todas as virtudes: tirou logo a vara das mãos á justiça: e deitado em sua balança perverteu o fiel de sua egualdade. Diga-o Commodo imperador, que todos os crimes de homicidios e insultos deseguaes, remiu a preço de ouro, vendendo por elle publicamente não só a pena dos delictos, mas os proprios logares dos julgadores. Cerrou os olhos á misericordia, para não se compadecer dos affligidos: como se viu no exercito de Tito Vespaziano, que tendo cercada Jerusalem, os moradores, que opprimidos da fome se sahiam da cidade com licença sua, enguliam primeiro uma pequena moeda de ouro, para que na passagem o pudessem salvar dos inimigos; os quaes sabendo esta astucia, a dois mil, que em dois dias sahiram da cidade, partiram pelo meio para lhes tirarem do bucho a moeda, por não esperarem que com o termo commum da natureza d'ahi a pouco espaço a lançassem fóra: assim que aquella pequena quantidade de ouro, qual de finissima peçonha, lhes tirou a vida. Derribou a columna, e quebrou os braços á fortaleza, atados com as prisões de seu interesse: diga-o Ulysses que por elle vendeu a Priamo o corpo de Heitor Troyano; e Aulo Posthumio, que a preço de ouro deixou a empreza da guerra de Jugurtha, e a gloria d'ella. Desterrou do mundo a fidelidade; pois por elle vendia Nicias aos romanos a vida de el-rei Pyrrho seu senhor: Demonica a cidade de Efezo a Bresso capitão francez, que de industria a afogou com peso de ouro: Tarpeia Romana, a entrada do Capitolio aos Sabinos, que do mesmo modo com o peso de ouro e dos escudos a acabaram. Depravou a piedade, e veneração que os antigos tinham aos mortos, não perdoando a suas sepulturas, como el-rei Dario, enganado com o letreiro da de Semiramis, que dizia que, se algum rei seu successor se visse em necessidade, abrisse aquella sepultura, e acharia um thesouro: elle confiado creu o letreiro, revolveu a pedra; e achou outro que dizia: Se não foras cobiçoso, não andaras desenterrando os mortos. Os romanos desenterraram os mortos de Corintho para lhes tirarem a moeda que tinham por costume metter comsigo na sepultura; para o que é mais notavel aquelle caso extranho que conta Paulo Diacono, de Rodoaldo rei de Lombardia, o qual, porque seu pae se mandára enterrar com as insignias reaes de ouro, abriu uma noite secretamente a sepultura, e, depois de roubar e despojar o cadaver paterno, lhe appareceu S. João Baptista, em cuja egreja aquelle corpo estava enterrado; e reprehendendo-o rigorosamente, lhe mandou em castigo do atrevimento que commettera, que mais não entrasse n'aquella sua egreja: e assim querendo o rei alguma vez commetter a entrada, foi pelo mesmo santo lançado fóra. O ouro sustenta e favorece a todos os peccados capitaes, a soberba com suas pompas, apparatos e vaidades. As baixellas de Midas, as grandezas de Cresso, os escravos de Claudio, o theatro de Nero, as casas de Clodio, e todos os mais excessos da vangloria d'elle nasceram. A avareza n'elle como em materia propria se conserva e accrescenta; por elle deixava Oco, riquissimo rei dos persas, de sahir de casa por não dar certas moedas de ouro ás mulheres que o sahiam a receber como era costume d'aquelle reino, como conta Plutarcho. Nero despojava por este as matronas bem vestidas, e roubava as tendas dos mercadores: e Angeloto, de quem escreve Pontano que era tão avaro, que se levantava de noite a furtar a ração a seus proprios cavallos; e sendo achado pelo estribeiro ás escuras no furto, o açoutou cuidando que era dos escravos da estrebaria. A sensualidade com o ouro se cria, pois a força d'elle corrompe a pudicicia, como os antigos engenhosamente significáram na fabula de Danae, a quem Jupiter enganou convertido em chuva de ouro: d'elle nasceram os estupros de Commodo, os incestos de Caligula, as luxurias de Heliogábalo, os adulterios de Julio Cesar; pois só a perola com que conquistou a Servilia, mãe de Bruto, lhe custou seiscentos sestercios. Por ouro tem a ira feito abominaveis estragos e homicidos no mundo. Pygmalion matou a seu cunhado Sichueu por lhe roubar o thesouro que tinha. Polimnestor tirou a vida a Polidoro, de quem era tutor, por lhe roubar a herança das riquezas que esperava. As demazias e sordidezas da gula, a delicia e sobejidão dos manjares com elle se compram.—Das mezas de Cleópatra, das hortas e banquetes de Lucúlo, dos manjares e convites de Heliogábalo elle tem a culpa. A venenosa inveja n'elle, como em seu objecto natural, se emprega toda. Herifile invejosa das manilhas de ouro de Adrasto entregou á morte Amfiarau seu marido; e Julio Cesar invejoso das riquezas da Luzitania, se fez salteador das cidades d'ella. A preguiça e descuido sobre o ouro descança e se aquieta: elle fez preguiçosa e muda a lingua de Demósthenes com o preço que lhe deram por não orar: e o symbolo e jeroglifico da preguiça foi o kagado, por o vagar e peso com que se move. Que cousa com mais difficuldade e tardança se abala, que um rico? E se a diligencia cahiu em sorte á pobreza, pois a necessidade foi inventora das artes e subtilezas; o peso do ouro entorpece os sentidos empregados todos n'aquella materia: e, por conhecer esta verdade, Crates Thebano o afogou no mar para apprender a philosophia. Pitaco e Anacarso não acceitaram a Cresso o que lhes mandava: Anacreonte tornou a engeitar a Policrates o que lhe déra: e Curio recusou aos Samnitas o grande peso d'elle que lhe traziam.

Foi o ouro finalmente a ruina de todos os bens, que mereciam este nome; e um veneno mortifero para a vida humana: e se muitos a perderam indo em seus alcances pelo centro da terra, e outros buscando as extranhas, em que elle se cria, por remotos climas entre irracionaes Ethiopes feneceram; não estão seguros do mesmo damno os que dentro em suas casas, e fechado em seus cofres o possúem. E fazendo pausa em seus males (que para os contar todos fôra infinito) só um bem tem o ouro, que eu não quero deixar á conta dos louvores de Solino, que é o que os Gregos declararam n'aquelle seu celebrado proverbio, que diz: O de que serve ao ouro a pedra de toque, serve o ouro ao homem; pois no toque d'elle, como em um espelho de desenganos, é conhecido: e se elle d'esta minha invectiva se houver por aggravado, vingança lhe tem dado a ventura até ao que de seus males me fica por dizer.

Todos ficaram por extremo satisfeitos de ouvir a pratica de Pindaro; e o prior a gabou de bem ordenada, e elegante; e gastaram n'isto algumas razões, tendo os olhos em Solino, que começando a falar com engraçadas mostras os obrigou a silencio, e disse:

—Posto que eu podera dizer do ouro, como a raposa de Ezopo das uvas, a que nào chegava; nem quero tomar tão humilde vingança de quem me foge, nem (como alguns costumam) dizer mal de meu proprio desejo: a empreza é facil, e só no muito, que ha para dizer d'ella, difficultosa: porém se a copia aos discretos empobrece, (como um d'elles disse) nào pode ser que a do ouro faça effeito tào desegual; pois que n'elle consiste toda a riqueza. Bem o posso invocar como poderoso, e desejar ao menos uma bôcca de ouro, de que sahiram dignamente os seus louvores; mas é tào inimigo do que lhe quero, que, por me offender a mim, fugíra d'elles. E começando do nascimento d'este desejado metal, que quanto mais queremos culpar engrandecemos: Nasce (como Pindaro disse) nas entranhas dos montes, porque até a mesma natureza nos ensinou a fazer d'elle thesouro, pondo tantos muros da terra, para o defender, para que tambem a difficuldade e rareza lhe dê maior valia. Logo sahindo da mina, onde se cria, e provado no fogo, em que se apura, começa a fazer competencia com sua formosa côr ás mais bellas obras da natureza. O mais nobre dos planetas, que é o sol, dourado nos apparece, e o seu luzente carro com raios de ouro allumia a terra: o fogo, mais nobre e poderoso dos elementos, da sua côr se veste; o arco celeste, que nas tempestades da terra nos assegura, perfilado de ouro se descobre; as nuvens ao pôr do sol, da sua côr guarnecem os horisontes. As rosas brancas e encarnadas, os lirios roxos, e azues, as cecens brancas, os bem-me-queres, e as boninas com uma roza dourada no meio se guarnecem, e enfeitam para os olhos dos homens; os fructos das arvores, quando chegam á sua desejada perfeição, e as searas na fertilidade de suas espigas se tornam de ouro: e as mais formosas creaturas humanas, com as cabeças douradas, mostram sua belleza; e a esta imitação trazem os principes, e monarchas do mundo o ouro sobre a cabeça; os reis e imperadores nas corôas, os papas nas thiaras, os bispos nas mitras, e as matronas illustres nos toucados, ao pescoço, sobre o peito, e pendurado das orelhas, nos dedos, e nos braços, fazendo voluntarias prisões de sua formosura. No culto divino elle orna e aformosea os templos sagrados, as cruzes, imagens, retabulos, calices, patenas, lampadas, e castiçaes; com elle se adornam os tectos, frizos, columnas, pedestaes, e todos os ornamentos, e vestiduras da egreja. Batido em moeda é preço, e resgate das cousas de maior valia, sem que n'elle se começasse o trato, e commercio do dinheiro: pois antes que o cunhassem de ouro, o houve de prata, cobre, e latão: assim que, sem prejudicar a seus louvores o mal que usam d'elle os avarentos, lhe podiamos com razão chamar formosura do mundo; ornato, e guarnição de todas as virtudes. A humildade carregada de ouro se inclina mais, e é mais formosa, como foi a de Primislau primeiro rei de Bohemia; que no maior poder de sua riqueza, e senhorio, mandava trazer ante si as alparcas de pastor com que se creara, mandando que andassem em morgado a seus descendentes para antidoto contra a soberba da dignidade real. E deixando exemplos estrangeiros, a nossa rainha Santa Izabel, o nosso infante D. Fernando, a nossa infante D. Sancha, D. Branca, e D. Joanna, e o condestavel D. Nuno Alvares Pereira, bem douraram com sua grandeza, e poder a virtude da humildade. Com o ouro se exercita, e põe em pratica a liberalidade, que sem elle parecera virtude sem mãos; que mal as tivera Marco Antonio triumviro para aquelle excesso de magnificencia, que usou com um amigo, se o não tivera: porque, mandando-lhe dar pelo seu thesoureiro vinte cinco mil escudos, parecendo ao avarento creado que aquella largueza nascia da ignorancia de seu senhor, lhe mostrou aquella quantidade de dinheiro sobre uma meza, dizendo lhe que aquillo era o que mandava dar. Mas o romano por desmentir a malicia do thesoureiro (que entendeu logo) lhe disse: Fizeste bem de me avisar; que não cuidei que dava tão pouco: pelo que sobre estes accrescenta outros vinte cinco mil; e dá-lhe cincoenta. O mesmo, e quasi pelo mesmo modo, ouvi que acontecera a um principe de Hespanha com seu pae, mandando dar a uma moça humilde trinta mil cruzados. E vindo aos nossos exemplos: bem dourou e engrandeceu a liberalidade com seus poderes o nosso primeiro rei D. Affonso Henriques, que nas terras, que conquistava, edificou mais egrejas ricas, que Paços Reaes, e casas pobres: bem o seguiram os mais de seus descendentes em differente modo. D. Pedro o justiçoso com os pobres, que até a manga do braço direito mandava fazer mais larga, e comprida, para alcançar a todos no fazer mercês, como o mesmo rei dizia. Seu filho el-rei D. João o I, foi tão liberal com os vassallos que o serviram, que deixara sem patrimonio a corôa, se el-rei D. Duarte seu filho não fizera a lei mental, com que limitou sua largueza. El-rei D. Manuel com os poderes de sua riqueza, e a magnificencia de sua condição assombrou as nações extranhas, e ao nome portuguez fez mais honrado. A castidade mais excellente, e formosa parece guarnecida de ouro, que nos humildes trajos da pobreza; e por isso foi tão louvada em Scipião, que poderoso, rico, e vencedor, quando entrando Carthago lhe offereceram captiva uma formosa dona, e bem nascida, em logar de gosar d'ella a mandou honradamente acompanhada a seu marido com o resgate, que por sua liberdade lhe offereciam. Não faltou esta excellencia em muitas donzellas do sangue real d'este reino, que, deixando riquissimos dotes da ventura, offereceram a Deus este da natureza. E se é celebrado el-rei D. Affonso o Casto em Hespanha, não desmerecia este nome o rei portuguez, que persuadido de seu valoroso animo, e errado conselho, perdeu a vida nos campos africanos. A paciencia quanto é mais louvavel e excedente no poderoso rico, que no miseravel, em quem não tem execução a ira, nem a vingança. Rico e poderoso no mundo era Filippe, rei de Macedonia, que perguntando aos embaixadores athenienses o que lhe queriam, respondeu com inconsideravel liberdade um d'elles, que vêl-o sem vida; e elle voltando aos outros com muita brandura disse: Dizei aos Athenienses que mais modesto é quem soffre essas palavras, que os sabios de Athenas, de quem elles se prezam. E se contam d'el-rei D. Affonso I, rei de Napoles, que, sabendo que um creado seu dizia mal d'elle, lhe fez muitas mercês, com que elle obrigado disse depois de suas obras mil louvores; e o rei avisado d'isto disse: Folgo que esteja em minha mão dizerem bem de mim: tambem houve rei em Portugal que em muitas occasiões usou o mesmo termo, como se verá da chronica d'el-rei D. João o II, e de muitas memorias do III, não esquecendo a paciencia d'el-rei D. Diniz com seu filho, e a d'el-rei D. Pedro, sendo principe, com seu pae. A temperança medida por vasos de ouro, e ainda á vista d'elle, é mais estimada: como a de Curio, que com o ouro dos Samnitas deante não deixou a panella de couves, e nabos que cozinhava; antes respondeu aos que lh'o traziam, que não era necessario a quem com tão humildes viandas se sustentava. A sobriedade, e temperança nos nossos reis naturaes é tão louvada, que de mui poucos sabemos que bebessem vinho, e de nenhum que comesse demasiado: e tanto pareceu isto bem ás nações extrangeiras, que a imperatriz D. Leonor, filha d'el-rei D. Duarte de Portugal, e mulher de Frederico III, Imperador de Allemanha, não tendo geração, e averiguando os medicos que por a frialdade d'aquella provincia não concebia, porém que, se bebesse vinho, teriam filhos; ella não consentio no remedio: e Frederico disse que antes queria sua mulher esteril, que mal acostumada. A caridade, subida sobre columnas de ouro, se levanta sobre as estrellas; e ainda nos que sem lume da Fé a conheceram, com o poder do ouro a sustentaram: como Cimon Atheniense, poderoso, e rico, que mandava abrir as portas aos jardins e pomares, que tinha para que entrassem livremente os necessitados a colher seus fructos: mandava aos seus que, achando algum velho mal vestido trocassem com elle os seus para o melhorarem; dava todos os dias banquete publico aos que mendigavam pela cidade: e aos pobres de qualidade sustentava com esmolas secretas. Não fôram n'isto os nossos reis e principes portuguezes inferiores, como o testemunham os varios hospitaes, mosteiros, casas de caridade, e santos costumes, que deixaram n'este reino, para agasalhar peregrinos, sustentar, e vestir pobres, e curar enfermos e feridos: no que fôram, entre os outros, insignes os reis D. Affonso I, D. João I, II, e III, e o insigne cardeal e devoto rei D. Henrique. Á diligencia com muita razão lhe calçáram os antigos esporas douradas, pois o duro estorvo da pobreza, como pintou Alciato, impede as azas e limita os passos á diligencia. Com ouro e com os poderes d'elle conquistaram Alexandre, e Cesar em mui limitados annos a redondeza: o nosso rei D. Diniz com os poderes d'elle accrescentou em seu reino quarenta e quatro villas com castellos, e fortalezas; izentou a Ordem de S. Thiago de Portugal; e instituio a de Christo; e fez os primeiros estudos de Coimbra. E os reis D. João, e D. Manuel descobriram, e ganharam para a Fe as terras do Oriente com tanta inveja, como espanto das nações extrangeiras. De maneira que, se os avarentos, que usam mal do ouro e das riquezas, guerream com elle contra as virtudes, nenhuma cousa ha que tanto como elle as engrandeça e alevante. E se os cubiçosos na sua conquista perdem tantas vidas, muitas mais se compram, e resgatam a preço d'elle. E deixando o balsamo de ouro, tão admiravel nas feridas, o ouro potavel, tão celebrado dos distilladores nas enfermidades; qual risco da vida, qual perigo ou necessidade d'ella, qual oppressão ou captiveiro não remio o ouro? Elle faz a formosura das cidades, a belleza dos edificios, a fortaleza dos exercitos, a bizarria dos trajos, a galanteria das côrtes: com elle se alcançam n'ellas as honras, dignidades, titulos, e privanças, e até os louvores e as mesmas graças da natureza: todos o buscam, o desejam, e o conquistam: e ainda os outros metaes se querem converter n'elle por meio de alquime; os animaes se rendem á sua formosura; pois não ha caça mais certa que a que se toca com laço de ouro, nem melhor pescaria que a que se alcança com anzol d'elle: e é tão grande a fôrça de seus poderes, que se atreveu a dizer um auctor, que na maior furia de um leão, de um tigre, e de outra qualquer féra, se lhe lançarem moedas de ouro deante, amansarão com ellas sua braveza. E passando por todas as cousas da terra sua valia, podem os ricos subir ao céo por escadas de ouro, e dar-lhe com elle assalto e bataria, pondo as balas e settas d'este metal nas mãos da caridade. E de elle se subir em tanta altura nasce ficar de mim tão longe, como está de ser digno de seus louvores meu humilde talento, que, se fôra de tão illustre metal, tudo alcançara.

A todos pareceu extremada a oração de Solino, posto que alguns a esperavam menos grave, e mais engraçada: e assim lhe disse Leonardo:—Parecestes-me esta noite mais orador insigne, que murmurador galante. Folgo que, errando eu a eleição, acertasseis vós tambem os louvores.—Não vos agradeço (respondeu elle) os que me daes; por quanto d'antemão vos vingastes d'elles. Porém se quereis vêr em outrem com gravidade o que de mim esperaveis como satyra e agudeza, pois os bens e males do ouro estão encetados; diga o senhor prior agora os poderes do interesse, que no successo da sua peregrina achará largo campo para esta materia.—Essa é mui larga (disse o prior) e são passadas muitas horas da noite; e eu me não escusara com ellas, se não imaginara que todas as verdades, que cahem sobre este sujeito, hão de parecer murmuração. Porque dizer que o interesse tudo vence, e a tudo alcança, é sentença antiga, e experiencia moderna; porém, se particularisar os modos e termos, com que batalha, será ir com os dedos aos olhos de muitos. Se disser que o interesse quebrou muitos sceptros reaes, quem se defenderá d'elles? Se affirmar que torce, e derriba varas da justiça, quantas se virarão para castigar-me? Se ousar a dizer que profana as leis, e offende a immunidade das egrejas, temo que até na minha me neguem a entrada. Se contar que é carta de seguro de salteadores, couto de homicidas, torre do facinorosos, e merecimento de descuidados, quantos se levantarão contra minha verdade? Só direi em um conto breve o que de sua valia se pode presumir na necessidade; e será julgar pelas unhas o leão, e pela pisada de Hercules a medida de sua grandeza.

Um homem curioso, bem intencionado, e não mal entendido, andou alguns annos na milicia do Oriente: e vindo d'elle a este reino para se despachar, trouxe entre algumas cousas de menos valia, que curiosidade, umas imagens de santos, e anjos de marfim, maravilhosamente obrados. E depois de entrar em seu requerimento, deu conta a um amigo, pratico nas cousas da côrte, do estado de seus negocios; aconselhou-o elle como convinha e buscando entre o movel, que trouxera, peça que podesse offerecer a um ministro, com quem tinha intelligencia, lhe inculcava aquelles santos de marfim, que o tinham muito affeiçoado.—Como (disse elle) não trouxestes da India algum pagode, ou idolo de ouro d'esses gentios?—Para que? lhe perguntou o pouco esperto requerente.—Ah, respondeu o amigo, que para o que vós pretendeis, e cá se costuma, Mais podem diabos de ouro, que anjos de marfim. E assim não me parece que está mal o dito vulgar do povo, que o interesse é diabo. E pois o tempo é tão curto, seja isto uma cifra do que se pode dizer de seus poderes; que são tão grandes, que a mim me tiram a liberdade de falar, contra o desejo que tenho de vos obedecer. E sendo elles taes, e o ouro o principal interesse de todos, mui bem lhe cabem com os males, que Pindaro d'elle disse, os louvores com que Solino o celebrou fazendo a differença sómente no uso d'elle. Que se Santo Agostinho lhe chamou enfermidade da soberba, fraqueza das virtudes, materia de trabalhos, perigo do possuidor, senhor insoffrivel, e escravo atraiçoado; Santo Ambrosio, laço do demonio; S. Chryzostomo, escola dos vicios, e doença da alma; e se d'elle nasceu a Cresso a soberba, a Heliogábalo e Sardanápalo a luxuria, a Nero a crueldade, a Cómmodo e Vitelio a gula: se por elle Polycrates morreu na forca, Cresso na fogueira, Crasso degolado, Heliogábalo arrastrado, e outros ricos tiveram fins semelhantes; não teve a culpa o ouro, senão a má avareza de quem o possuia, ou a cubiçosa sede do que o desejava; pois elle nos animos livres não impede o caminho das virtudes, antes lhes dá forças, lustre e grandeza: como em um Constantino Magno, que enriqueceu a egreja Romana; um Carlos IV, que comprou com elle a vida; um Emmanuel, que honrou o nome Portuguez, o dilatou a fé catholica pelo Oriente; um Lourenço de Medicis, que honrou Florença: um Leonardo Lauredano, que libertou Veneza; um Carlos Brugi, que soccorreu a esterilidade de Flandres; e outros muitos, que o souberam dispender valorosamente. De maneira que n'elle está a condemnação ou justificação, a morte ou a vida de quem o possue ou deseja. Para o que eu acho extremada aquella historia, que toca Auzonio poeta em um seu epigramma. E é que um homem desesperado com uma paixão, que teve, se hia enforcar em um logar secreto, levando comsigo o baraço, em que havia de deixar a vida. Succedeu que com a força que fez, cahindo uma parte da terra n'aquelle logar, se lhe descobrio um thesouro; a cuja vista mudou logo o pensamento: e, levando o que achara, deixou em seu logar o baraço que trazia. Vindo depois o que alli o escondera, e achando-o menos, e em seu logar a tentação de sua desventura, fez, porque perdera um thesouro, o que o outro deixou de fazer porque o achara: de modo que a um deu a vida o ouro, a outro matou a avareza d'elle.—Com tão boa historia (accudiu D. Julio levantando-se) é razão que vamos satisfeitos, e deixemos ao senhor prior bem agazalhado, posto que pelo interesse de sua conversação deixara eu muitos dos que os outros desejam; porque se a opinião dos cubiçosos deu preço ao ouro e pedraria, á conversação dos sabios o não pode tirar a mesma ventura.