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Echos de Pariz

Chapter 1: EÇA DE QUEIROZ ECHOS DE PARIZ
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About This Book

The collection presents a series of journalistic chronicles and essays that scrutinize Parisian social life and politics, contrasting metropolitan manners with other European locales. Through sharp, often ironic sketches the author records public ceremonies, political disputes, criminal episodes and diplomatic developments, and critiques fashions, salons, literary debates and the spread of metropolitan customs abroad. Combining reportage, cultural criticism and philosophical reflection, the pieces move between vivid urban observation and polemical commentary, portraying how modernity reshapes customs, public ritual and the relationship between capital and province.

The Project Gutenberg eBook of Echos de Pariz

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Title: Echos de Pariz

Author: Eça de Queirós

Release date: August 29, 2019 [eBook #60194]
Most recently updated: October 17, 2024

Language: Portuguese

Credits: Produced by Laura Natal Rodrigues at Free Literature (Images
generously made available by Hathi Trust.)

*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK ECHOS DE PARIZ ***

EÇA DE QUEIROZ

ECHOS DE PARIZ

QUARTA EDIÇÃO

PORTO

Livraria Chardron, de Lélo&Irmão, Limda, Editores

Rua das Carmelitas, 144

AILLAUD E BERTRAND—LISBOA—PARIS

1920


INDICE


I. PARIZ E LONDRES-O ANNIVERSARIO DA COMMUNA-FLAUBERT.
II. OS DUELLOS-AMNISTIA-GAMBETTA-ROCHEFORT-OS JESUITAS.
III. O IMPERADOR GUILHERME.
IV. O GRAND-PRIX-A ESTATUOMANIA-OS COCHEIROS-VICTOR HUGO-O CAMPO EM PARIZ.
V. O 14 DE JULHO-FESTAS OFFICIAES-O SIÃO.
VI. A FRANÇA E O SIÃO.
VII. A QUESTÃO BULOZ-A «REVISTA DOS DOUS MUNDOS»-PARIZ NO VERÃO.
VIII. AS ELEIÇÕES-A ITALIA E A FRANÇA.
IX. ALLIANÇA FRANCO-RUSSA.
X. AS FESTAS RUSSAS-A «TOILETTE» D'UM PRESIDENTE DE REPUBLICA-NOTICIAS DO BRASIL.
XI. A HESPANHA-O HEROISMO HESPANHOL-A QUESTÃO DAS CAROLINAS-OS ACONTECIMENTOS DE MARROCOS.
XII. O SNR. BARTHOU-A «ANTIGONE» DE SOPHOCLES-«LES ROIS» DE JULES LEMAITRE.
XIII. OS ANARCHISTAS VAILLANT.
XIV. OUTRA BOMBA ANARCHISTA-O SNR. BRUNETIÈRE E A IMPRENSA.
XV. AS «INTERVIEWS»-O REI HUMBERTO E O «FIGARO»-A MONARCHIA ITALIANA-O QUE PÓDE DIZER UM SOBERANO A UM JORNALISTA-A SINCERIDADE E O OPTIMISMO OFFICIAL.
XVI. O «SALON».
XVII. CARNOT.
XVIII. A MORTE E O FUNERAL DE CARNOT.


I. PARIZ E LONDRES-O ANNIVERSARIO DA COMMUNA-FLAUBERT.

Eu não direi como Lord Beaconsfield que «no mundo só ha de verdadeiramente interessante Pariz e Londres, e todo o resto é paizagem». É realmente difficil considerar Roma como um ninho balouçando-se no ramo de um ulmeiro, ou vêr apenas no movimento social da Allemanha um fresco regato que vae cantando por entre as relvas altas.

Não se póde negar, porém, que a multidão contemporanea tende para esta opinião do romanesco auctor de Tancredo e da Guerra do Afganistan: nada vê no Universo mais digno de ser estudado e gozado do que a sociedade, essa cousa scintillante e vaga que póde comprehender desde as creações da Arte até aos menus dos restaurantes, desde o espirito das gazetas até ao luxo das librés—e, muito racionalmente, corre a observar a sociedade, a penetrar-se d'ella, onde ella é mais original, mais complexa, mais rica, mais pittoresca, mais episodica,—em Pariz e em Londres: ao resto da terra pede apenas scenarios de natureza, reliquias d'arte, trajos e architecturas...

...Em Roma contempla os ornamentos do passado—o Colyseu e o Papa; em Madrid interessam-n'o só os Velasquez e os touros; ninguem viaja na Suissa para estudar a constituição federal ou a sociedade de Genebra, mas para embasbacar deante dos Alpes. E assim para a turba humana, mais impressionavel que critica, o mundo apparece como uma decoração armada em torno de Pariz e Londres, uma curiosidade scenographica que se olha um momento, fixando-se logo toda a attenção na tragi-comedia social que palpita ao centro.

Isto é uma superstição. Mas se, realmente, o mundo fôsse apenas uma paizagem accessoria—a devoção burgueza por Pariz e Londres, residencias privilegiadas da humanidade creadora, seria justificavel: porque, na verdade, o interesse do Universo está todo na vida e na sua lucta, na sua paixão e no seu ceremonial, no seu ideal e no seu real. O sol, nascendo por traz das Pyramides, sobre o fulvo deserto da Lybia, fórma um prodigioso scenario; o Valle do Chaos, nos Pyreneos, é d'uma grandeza exuberante;—mas todos estes espectaculos hão-de ser sempre infinitamente menos interessantes que uma simples comedia de ciumes, passada n'um quinto andar. Que ha com effeito de commum entre mim e o Monte Branco? Emquanto que as alegrias amorosas do meu visinho ou os prantos do seu luto são como a consciencia visivel das minhas proprias sensações.

O grande Dickens, deante dos Alpes ou dos palacios de Veneza, punha-se a pensar com saudade nas tristes ruas de Londres, n'um rumor de fim de dia, e no prazer de surprehender as expressões de anciedade, triumpho ou dôr, nas faces dos que passam, alumiados pelo gaz vivo das lojas. É que o melhor espectaculo para o homem—será sempre o proprio homem.

Se sobre a terra só houvesse fachadas de cathedraes ou vulcões flammejantes, a terra parecernos-ia tão insípida como a lua, ou (ainda que isto seja talvez exagerado) como a propria Lisboa. Por mais cantantes que sejam as aguas correndo, por mais fresco e umbroso que se alargue o valle—a paizagem é intoleravel, se lhe falta a nota humana, fumo delgado de chaminé ou parede rebrilhando ao sol, que revele a presença d'um peito, d'um coração vivo.

Mas a verdade é que, fóra de Pariz e Londres, ha tambem humanidade. S. Petersburgo não fórma só sobre a neve outra ondulação de neve; Berlim não é uma floresta com uma população de seiscentos mil castanheiros; em Lisboa mesmo se encontra, de vez em quando, um homem. Que importa! O mundo persiste, em considerar essa humanidade de Berlim, de Lisboa ou S. Petersburgo como um méro accessorio da decoração, como aquelle arabesinho diminuto que os photographos collocam sempre á base das ruinas de Palmyra, ou como esses pastores vestidos de um farrapo de purpura, que nos quadros do seculo XVII ornam as paizagens ideaes.

O que essa humanidade de provincia faz, diz, soffre ou goza—é-lhe indifferente. Não é a ella que vae vêr, se visita os logares que ella habita: o que lá lhe move a curiosidade apressada, é algum monumento, algum panorama—a paizagem, como diz Lord Beaconsfield. Para o estrangeiro, Portugal é Cintra, a Allemanha é o Rheno: até mesmo na ideia de Lord Byron, e de outros depois d'elle, o que estraga a belleza de Lisboa é a presença do lisboeta—como a mim o que me estraga a Allemanha é a presença do prussiano. Positivamente a multidão só reconhece uma sociedade—a de Pariz e de Londres.

Mas, dentro em pouco, nem ruinas, nem monumentos haverá dignos de viagem; cada cidade, cada nação, se está esforçando por aniquilar a sua originalidade tradicional, e nas maneiras e nos edificios, desde os regulamentos de policia até á vitrine dos joalheiros, dar-se a linha parisiense. No Cairo, cidade dos califas, ha copias do Mabille, e os Ulemas esquecem as metaphoras gentis dos poetas persas, para repetir os ditos do Figaro; o primeiro som que ouvi ao penetrar as muralhas de Jerusalem foi o can-can de Bella Helena, e sahiu da habitação de um rabbi, de um doutor da lei santa; nas margens do Jordão, sobre a areia dourada, que os pés de Jesus pisaram, achei dous velhos collarinhos de papel, modelo Smith: bem sei que não pertenciam nem ao Salvador, nem ao Precursor, mas lá estavam, e despoetisam sufficientemente aquella riba sagrada.

O mundo vae-se tornando uma contrafacção universal do Boulevard e da Regen-street. E o modelo das duas cidades é tão invasor que, quanto mais uma raça se desoriginalisa, e se curva á moda francesa ou britannica, mais se considera a si mesma civilisada e merecedora dos applausos do Times. O japonez julga-se, na escala dos sêres, muito superior ao chinez, porque em Yedo já o indigena se penteia como o tenor Capoul, e lê Edmond About no original, emquanto que a China, obsoleta nas vetustas ruas de Pekin, ainda vae no rabicho e em Confucio. E, ainda assim, nas margens do Amor já ha fabricas de tecidos de algodão como em Manchester.

Positivamente, inclino tambem para a ideia de Lord Beaconsfield: a originalidade viva do Universo está em Pariz e em Londres: tudo mais é má imitação da provincia. Por isso a curiosidade publica é impellida para lá—dando ao resto do mundo apenas aquelle olhar rapido que se tem para o fundo dos retratos, onde verdejam vagos de paizagem ou se perfilam linhas de um portico.

É por isso que ninguem que tenha o orgulho de se considerar sêr racional prescinde de se informar diariamente de tudo que se passa em Pariz ou em Londres, desde as revoluções até ás toilettes, desde os poemas até aos escandalos.

O desejo mais natural do homem é saber o que vae no seu bairro e em Pariz.

Que importa o que succede na Asia Central, onde os russos se batem, ou na Australia onde ha crise ministerial? O que se quer saber é o que fez hontem Gambetta, ou o que dirá amanhã o professor Tyndall.

E com razão: a Asia Central e a Australia não ensinam nada, e Pariz e Londres ensinam tudo.

Tendo assim sacrificado sufficientemente á regra, que quer que todo o escriptor da raça latina nunca enuncie a sua ideia ou conte o seu facto sem se fazer preceder de phrases genéricas armadas em portico—creio que devo começar esta chronica fallando hoje de Pariz, capital dos povos e patria genuina de Mr. Prudhomme...

O acontecimento saliente e commentado d'estes ultimos dias é a manifestação do dia 23 de maio. Lembram-se que ha nove annos, n'essa data, na semana sanguinolenta da derrota da Communa, os regimentos de Versailles, invadindo Pariz, n'uma demencia de represalias, fizeram uma exterminação á antiga, fuzilando sem discernimento pelos pateos dos quarteis, entre os tumulos dos cemiterios, sob o portico das egrejas, todo o sêr vivo que era surprehendido com as mãos negras de polvora, e um calôr de batalha na face.

Trinta e cinco mil pessoas fôram aniquiladas n'esta S. Barthelemy conservadora, n'esta hecatombe da plebe, offerecida em sacrificio á ordem com o delirio com que o rei de Dahomey decapita tribus inteiras em honra do idolo Gri-gri, ou os carthaginezes immolavam uma mocidade, toda uma primavera sagrada, para applacar o mais cruel dos Baals, o negro e flammejante Moloch.

Onde fôram sepultados tantos montões de cadaveres?... Apenas se sabe que parte foi arremessada á valla commum de Père-Lachaise.

Os annos passaram, e os vencidos d'então são hoje cidadãos formidaveis, armados não da espingarda revolucionaria, mas de um legal boletim de voto, e que, em logar de erguer barricadas nas ruas, fazem deputados socialistas nas eleições.

No dia 23 de maio, pois, anniversario do exterminio dos seus, preparavam-se elles para ir atravez das ruas de Pariz, n'uma vasta procissão funeraria, com coroas de perpetuas na mão, visitar essa lugubre valla onde apodrecem os seus mortos.

O governo do snr. Grevy, porém, inquietou-se com este ceremonial, e, ou promettendo concessões ao velho mundo communard a troco da desistencia d'esta pompa funebre (tão parecida com uma commemoração triumphal) ou ameaçando mandar carregar 20.000 homens contra o prestito e fazer assim recahir sobre os chefes da manifestação a responsabilidade de um conflicto sangrento—conseguiu que n'esse dia a massa communista ficasse chorando os seus mortos, no silencio das suas alcovas. Mas alguns exaltados, desattendendo a disciplina do partido, persistiram na demonstração luctuosa; e assim como de uma nuvem negra, que ameaça um diluvio, só vêm a cahir aqui e além algumas gottas d'agua, assim de toda aquella população que devia descer dos faubourgs apenas se viram pelas ruas grupos de dez, quinze pessoas, dirigindo-se ao Père-Lachaise com a sua blusa nova, e a corôa de perpetuas na mão: sómente por amor do symbolo, as coroas eram vermelhas.

Estes mesmos fragmentos de manifestação desagradaram ao governo e á prefeitura, e viu-se então um espectaculo bem proprio a regosijar o coração do homem livre: quando, ao Père-Lachaise, onde se apinhavam batalhões de policias, um homem se approximava da valia a depôr a sua corôa sobre a herva verde, um sergent de ville precipitava-se, verificava de sobr'olho duro que as perpetuas eram escarlates, e arrastava o individuo ao carcere; e se o cidadão, ignorando que sob a republica é um crime chorar os mortos e ornar-lhes a sepultura, protestava com vehemencia, a policia demonstrava-lhe a pranchadas que a republica é um governo forte e contundente...

Mas, o que iam elles fazer ao Père-Lachaise com as suas perpetuas symbolicas, estes revoltados, estes exaltados, que em principio abominam a religião e os seus ceremoniaes?

O mais illustre jornal do partido, o Mot d'Ordre, descrevia ha dias uma festa no Sacré Cœur n'estes termos phantasticos: «Hontem havia no Sacré Cœur uma reunião de individuos celebrando algumas ceremonias barbaras em honra de um personagem exquisito e obscuro, vulgarmente designado pelo nome extravagante de Deus». Ora, parece extraordinario que individuos que possuem phrases tão avançadas, vão commemorar um anniversario de morte—da morte que não deve ser para elles mais que uma banal transformação da substancia, com as tradicionaes etiquetas do catholicismo; e que procedam deante de um tumulo amigo, como se acreditassem que o corpo jaz alli intacto e paciente, sob as flôres agrestes, esperando o toque do clarim do juizo final, emquanto a alma paira no ether mystico, misturando-se á vida terrestre e gosando a offerta de symbolos saudosos...

Mas, mais estranho que tudo é a influencia do vermelho no animo da policia, como entre nós nos temperamentos dos touros.

Póde até certo ponto comprehender-se que uma bandeira vermelha, batendo o ar desfraldada, lembrando arrogantemente a insurreição, possa irritar a bilis de uma policia bem organisada; mas onde está o crime de uma pobre corôa de perpetuas tingidas de vermelho?

Porque, como muito nitidamente o explicou o snr. Andrieus, prefeito de policia, o que offendeu a Republica e a Ordem foi a imprudencia d'aquelle escarlate! Se as perpetuas fôssem amarellas, a Republica teria generosamente permittido a manifestação saudosa...

Logicamente, pois, uma rapariga que passe no boulevard com duas rosas vermelhas ao peito, deve ser arrastada deante de um conselho de guerra. A papoila torna-se um delicto; e o rubor de uma face casta é offensa á constituição.

Quando o snr. prefeito da policia corta o seu dedo augusto com o seu canivete official, que deve fazer em presença do escandalo do seu sangue vermelho? Algemar-se a si mesmo, e a si proprio arremessar-se á palha humida das masmorras. Mas o verdadeiro culpado é o bom Deus que prodigalisa o escarlate e as suas gradações nas flôres, nas nuvens, e, se nos não mente a Biblia, até nas tunicas dos seus seraphins! Ao carcere o bom Deus!

Esta extravagancia do chefe da policia é melancolica!

Na Inglaterra reunem-se em Hyde-Park, quinze, vinte mil pessoas em meeting com toda a sorte de emblemas, estandartes e charangas, todas as côres que a Providencia fez e ainda todas as que a industria inventou; declama-se, uivam-se cantos sagrados e impios, atira-se velha hortaliça á face dos oradores, absorvem-se pipas de cerveja, e a formidavel policia ingleza, de braços cruzados, sorri com bonhomia á orgia civica. É que todas estas vociferações e todas essas côres deixam as instituições tão intactas e tão firmes como os velhos robles d'Hyde-Park; e, finda a hora do meeting, a grande massa dispersa com um socego de fim de missa. Em França um grupo de homens vae em silencio depôr, sobre uma campa, flôres de melancolia, e tudo treme, n'um receio que a forte republica do snr. Gambetta cambaleie ferida no coração!

Realmente, Caligula e Carlos IX fazem ás vezes saudades...

Era Alfredo de Musset que dizia nas suas patheticas estancias á Malibran que, em França, quinze dias fazem de uma morte recente uma antiga novidade. Talvez, quando é a Malibran que morre: quer dizer, um gorgeio de ave que se perde na noite. Mas, se o que desapparece se chama Gustavo Flaubert e é o auctor da Madame Bovary e da Educação Sentimental—quinze dias ou quinze annos pódem passar sobre essa perda sem que a dôr envelheça: sobretudo quando se pensa que esse poderoso artista, um dos maiores d'este seculo, nos é estupidamente arrebatado no espaço de uma hora, por uma apoplexia, em plena força creadora, na vespera de terminar um livro supremo em que puzera dez annos de trabalho, o melhor do seu genio, e a sabia experiencia de uma vida inteira.

Não é para esta chronica o estudar Gustavo Flaubert. Só direi que a sua alta gloria consistira em ter sido um dos primeiros a dar á arte contemporanea a sua verdadeira base, desprendendo-a das concepções idealistas do romantismo, apoiando-a toda sobre a observação, a realidade social e os conhecimentos humanos que a vida offerece. Ninguem jámais penetrou com tanta sagacidade e precisão os motivos complexos e intimos da acção humana, o subtil mechanismo das paixões, o jogo dos temperamentos no meio social; e ninguem marcou tão vasta e penetrante analyse n'uma forma mais viva, mais pura e mais forte.

As suas creações—Mme Bovary, Homais o pharmaceutico, Leão, Frederico, Mme Arnoux, pelo poder de vitalidade que elle lhés imprimiu, participam de uma existencia tão real, quasi tão tangivel como a nossa. Quando o seu enterro em Rouen, passava junto ao Sena, defronte de uma das lindas ilhas que alli verdejam, os que o acompanhavam paravam um momento a olhar, a mostrar-se o sitio na fresca ilha em que Mme Bovary passeava com Leão, como se estivessem vendo por entre a folhagem dos choupos a sua figura nervosa e ligeira, e o vestido de merino claro que ella levava aos rendez-vous.

Madame Bovary é hoje uma obra classica—e de certo o seu melhor livro. Quem a não conhece e a não relê—essa historia profunda e dolorosa d'uma pequena burgueza de provincia, tal qual as cria a educação moderna desmoralisada pelos falsos idealismos e pela sentimentalidade morbida, agitada de appetites de luxo e d'aspirações de prazer, debatendo-se na estreiteza da sua classe como n'um carcere social, correndo a esgotar d'um sorvo todas as sensações e voltando d'ellas mais triste como dos funeraes da sua illusão, procurando alternadamente a felicidade na devoção e na voluptuosidade, anciando sempre por alguma cousa de melhor, e arrastando uma existencia minada d'esta enfermidade incuravel—o desiquilibrio do seu sentimento e da razão, o conflicto do ideal e do real: até que uma mão cheia de arsenico a liberta de si mesma!

Na Educação Sentimental, concebe esta ideia de genio: pintar n'uma larga acção a fraqueza dos caracteres contemporaneos amollecidos pelo romantismo, pelo vago dissolvente das concepções philosophicas, pela falta d'um princípio seguro que penetrando a totalidade das consciencias, dirija as acções; e explicar por esta effeminação das almas todas as instabilidades da nossa vida social, a desorganisação do mundo moral, a indifferença e o egoismo das naturezas, a decadencia das classes medias, a difficuldade de governar a democracia...

Salammbô é a prodigiosa reconstrucção de um povo, de uma religião extincta, do violento e complicado mundo carthaginez: na Tentação de Santo Antão, de uma forte intuição, de uma erudição tão larga, pinta-nos tumultuosa a confusão mystica de um cerebro d'asceta, e attinge ahi talvez a perfeição de uma fórma tão viva, tão quente, tão elastica, que só a poderia comparar a uma carnação humana.

Particularmente era o melhor dos homens. Tinha a nobre e santa faculdade de admirar sinceramente; era d'estes a quem um bello verso, uma figura elevada fazem humedecer os olhos de ternura: só sentia indifferença pelo pedantismo triumphante e a indignação só lhe vinha deante do egoismo burguez.

Viajou longos annos, foi amado, foi illustre. Mas, como disse Zola, o melhor das suas alegrias e das suas mágoas teve-as dentro da sua arte. Era verdadeiramente um monge das lettras. Ellas permaneceram sempre o seu fim, o seu centro, a sua regra. Vivia n'ellas como n'uma cella, alheio aos rumores triviaes da vida. Foi um forte. A sua provincia vae erguer-lhe uma estatua: e de certo nunca fronte mais digna, modelada em marmore, reluziu á luz dos ceus.


II. OS DUELLOS-AMNISTIA-GAMBETTA-ROCHEFORT-OS JESUITAS.

Estas ultimas semanas, em França, têm sido sanguinolentas. Os duellos succedem-se tão regularmente como as madrugadas; e o primeiro espectaculo que o sol, o velho e dourado Phebo, avista, ao assomar a rósea varanda do Oriente, é um francez em mangas de camisa e de florete na mão, á beira de um arroio ou nas hervas de um prado, procurando varar com arte as visceras essenciaes de outro francez.

Parece que estamos sob o reinado do melancolico Luiz XIII, quando apezar dos editos, mal tocava ás Avè-Marias, não havia recanto sombrio do velho Pariz, onde não lampejassem duas espadas cruzadas, ou em tempos da republica romantica de 1848, em que dois sujeitos que não concordavam sobre a questão da Polonia, ou divergiam ácerca de Jesus Christo—um considerando-o um immortal philosopho, outro apenas um pequeno Deus sem importancia—corriam a retalhar-se ao sabre, nas sombras do bosque de Bolonha.

Não póde agora um honesto melro gorgear pacificamente as suas reflexões da alvorada, sem que o venha interromper uma velha caleche a trote d'onde emergem, soturnos e de negro vestidos, sujeitos com um molho de espadões debaixo do paletot.

Não ficam cadaveres pelos campos; mas a epiderme dos jornalistas e dandies é abundantemente deteriorada.

Duello de Rochefort com Kœchlin; duello de Laffite, do Voltaire, com o conde de Dion; duello de Fronsac, do Gil Blas, com o principe de Santa Severina; duello de Lajeune-Villars com Lepelletier, do Mot d'Ordre; duello em Avignon, em Montpellier, em Rennes, em Lyon. Sem contar os duellos do conde de Hauterive, que esta semana se tem batido quatro vezes, ferindo todas as manhãs o seu homem, com o mesmo florete, entre o pulso e o cotovello!

Este caso pitoresco faz-me lembrar os «combates do snr. Paulo».

Não conhecem os combates do snr. Paulo? É uma curiosa historia do Bairro Latino, dos tempos em que ainda alvejava, entre as verduras do Luxemburgo, o vestido de cassa de Mimi. O snr. Paulo era um discipulo ardente de Proudhon, que costumava ir todas as noites tomar o seu grog a um café da rua Jean Jacques Rousseau, e soltar, com voz rouca de propheta irritado, as phrases celebres do mestre:—Deus é o mal! A propriedade é o roubo! Queremos a liquidação social!

A sua apparencia era hoffmanica; duas longas pernas de cegonha triste, olhos rutilantes n'uma face ascetica e uma gaforinha descommunal, crespa, revolta e côr d'estopa. De resto, bravo e honesto. Uma noite, o snr. Paulo installava-se deante do seu grog, quando avista sobre a meza um papelinho perfido, contendo esta abominavel sextilha:

A loira e dôce Maria
Que a ninguem d'amores maltrata,
Foi avisada outro dia
Que Paulo a vem visitar,
E eil-a que rompe a gritar:
—Depressa! fechem a prata!

Só Homero que disse os furores d'Ajax, poderia pintar a cólera do snr. Paulo e os seus repellões á guedelha... Logo ao outro dia tinha descoberto que o deploravel poeta era um sujeito obeso, d'olho obliquo, exhalando um cheiro adocicado de sachristia—que saboreava tambem os seus grogs no café e dirigia um jornal jesuita, A Palavra. A sextilha tomava, assim, as proporções sociaes de uma injuria arremessada pela egreja contra a revolução. Era a graça calumniando a consciencia.

D'aqui um duello no bosque de Vincennes... Caminham um sobre o outro de pistola alta. Fogo! A bala do homem da Palavra vae cravar-se na anca de um jumento que a distancia tosava pensativamente a herva; a do snr. Paulo, essa vae varar o chapéu alto d'um dos padrinhos do devoto. Este sujeito franziu consideravelmente o sobr'olho.

Á noite, um excellente rapaz, Jacques Morot, reaccionario tambem, abre a porta do café da rua Rousseau e pergunta para dentro ávidamente:

—Então, o duello? Houve morte de homem?

—Não,—respondeu alguem d'uma mesa ao fundo.—Houve morte de jumento.

—O que! Morreu Paulo?

E o Paulo que, ao lado, sorvia galhardamente o seu grog, ergue-se, de juba eriçada e a injuria no labio... E d'ahi outro duello á pistola tambem.

Foi no bosque de Bolonha, esse, ao primeiro cantar da cotovia. A bala reaccionaria de Jacques, perdeu-se por entre as folhagens, mas a do snr. Paulo lá foi varar o chapéu alto do padrinho—do mesmo, precisamente o mesmo que na vespera, ao lado do beato pançudo, tivera já o seu chapéu atravessado e franzira tanto o sobr'olho.

—Comprehendo!—rosnou este individuo, livido. E á noite, no café, dirige-se á mesa onde o snr. Paulo absorvia o seu grog, exhalando o seu socialismo, e accusa-o, friamente, «de lhe querer tirar a vida de um modo desleal e infame»!

—Pois atreve-se?...—ruge o snr. Paulo.

—Sei o que digo; infame e desleal!

—Insolente!

—Garoto!

Novo duello. Mas então os padrinhos assistiam de longe, estirados entre as hervas altas, como lagartos assustados. Por precaução tinham-se recoberto de colchões... E as duas balas, com effeito, perderam-se pela amplidão dos ceus. De uma dizia-se no café que fôra parar a Pekin; da outra corria que, por um funesto habito adquirido, andava ainda pelo bosque de Bolonha, procurando entre os arvoredos o chapéu alto para se alojar.

Taes fôram os combates do snr. Paulo, discipulo de Proudhon.

Os conflictos de honra que têm este final de vaudeville são, por fim, os mais acceitaveis.

Ha-de haver sempre duellos. É evidente que, emquanto os jornaes publicarem em lettra gorda e glorificadora as actas do desafio: emquanto os olhos das mulheres sorrirem ao ferido interessante que atravessa a sala pallido e de braço ao peito, ou ao espadachim feliz que retorce o bigode; emquanto na rua burguezes pararem pasmados, murmurando ao ouvido da familia: Lá vae elle! Foi aquelle que se bateu! nem o codigo, nem o bom senso, nem melifluas maximas humanitarias impedirão jámais que o homem, publicamente ridicularisado ou publicamente injuriado, salte sobre a sua espada gritando á turba: «Cá vou defender a minha honra!»

Haverá sempre quem consinta em esvaír-se em sangue—tendo em redor as acclamações d'um circo.

No mais grave dos homens ha uma fibra de histrião.

O que convém, pois, á sociedade e que, n'estes conflictos impostos pela exigencia da vaidade e pelo despotismo do prejuizo, o sangue derramado se limite ás tres ou quatro gottas que um lenço de cambraia estanca.

No fim, a moralidade dos duellos está toda n'um dito de Rochefort.

—Tem sido feliz em seus desafios?—perguntava-lhe alguem.

—Felicissimo. Tenho-me batido vinte e tantas vezes e volto sempre com a consciencia serena e uma ferida séria...

Não se póde realmente vir almoçar com a «consciencia serena», quando se deixou um homem a agonisar n'uma pôça de sangue; mas é triste tambem que para se poder gosar, com a alma tranquilla, a omellette do almoço, se deva voltar do campo de ventre rasgado ou com a clavicula em pedaços.

De sorte que o sujeito, que quer defender a sua honra a serio por estes meios, tem deante de si duas perspectivas amaveis: ou a permanente tortura de um remorso, ou a eterna paz de uma campa; e quando se é muito feliz, como Rochefort, dois mezes de cama com uma viscera despedaçada.

Bem hajam, pois, os que nos seus duellos, como no caso do snr. Paulo, atiram as balas para Pekin ou se arranham ligeiramente nos cotovelos! Comprehendem a sabedoria: a sociedade, a vaidade, os jornaes, a opinião, as mulheres pedem-lhes sangue? Bem! vão a um recanto do Bosque, e extráem-se um ao outro, da ponta do dedo, a gotta reclamada pela honra. A sociedade, a vaidade, etc., sorriem satisfeitas; e elles, serenos de consciencia, curam-se, pondo uma dedeira. Salutar prudencia! E são egualmente heroes nas gazetas!

Foi votada na camara a amnistia, e sel-o-ha certamente no senado. Nenhum vestigio, pois, restará da insurreição da Communa em 1871. As casas ardidas fôram reedificadas; ha longo tempo que seccaram as pôças de sangue nas ruas; a hera disfarça poeticamente as ruinas das Tulherias; os fuzilados d'então são hoje terra fertil onde a herva cresce, alta e vasta; os degredados, os fugitivos reentram na vida legal; a questão da amnistia, que se arrastava nas controversias dos jornaes como um farrapo sinistro de guerra civil, é varrida para o lixo; e sobre aquella pavorosa loucura cahe, emfim, solemnemente uma lapide d'esquecimento. Viva a França!

Tudo isto é excellente: não haveria mesmo o direito de vencer, se não houvesse o direito de perdoar.

O snr. Grevy, que restituirá a patria a centenares de communistas por compaixão—não podia deixar outros centenares no degredo, por legalidade. Não era logico que os que fuzilavam os dominicanos pudessem fumar o seu cigarro no boulevard, emquanto Rochefort, que a Communa condemnou á morte, soffria o melancolico exilio de Genebra, e Trinquet, rehabilitado publicamente por Gambetta, fabricava tamancos nos presidios da Nova Caledonia. Mas dá-se uma circumstancia singular: ha tres mezes o ministro Freycinet declarava, entre as acclamações da maioria, que a França não estava sufficientemente pacificada, nem a republica talvez bastante forte, para deixar voltar a legião da Communa, e hontem, o mesmo snr. Freycinet, aos applausos da maioria, affirmava que era tão solida a unidade da republica, tão completa a quietação dos espiritos, que não se podia addiar por mais um dia esta larga absolvição das barricadas de 1871.

Em março a amnistia era uma imprudencia, em junho é uma necessidade! Noventa dias não são sufficientes para que mudassem assim tão radicalmente a opinião da França e o interesse da Republica. Portanto, aqui, como se dizia nas operas comicas da minha infancia, ha um mysterio. Qual é, pois, esse mysterio? É a vontade do snr. Gambetta. Foi elle, esse todo poderoso, esse Deus d'Israel, esse Luiz XIV da Republica, esse augusto dono de França—que assim o decidiu. Elle via que a recusa da amnistia o despopularisava já na forte maioria da democracia: percebia que ia sendo ahi considerado como a encarnação mesma da Republica burgueza e o continuador do doutrinarismo do sr. Thiers; sentia que os seus bairros proletarios, Montmartre e Belleville, já lhe retiravam os votos e a confiança para os darem a Clemenceau.

Gambetta conhece bem que, hoje, a burguesia já não é um terreno sufficientemente solido para edificar nelle uma fortuna politica; é na força do proletariado que se quer apoiar—e, portanto, resolveu, como um Jehovah prudente, readquirir a devoção do seu povo, restituindo-lhe os prophetas exilados. E ahi está como a amnistia não é um grande acto de reconciliação publica, mas uma astuta manha do dictador, para não ser perturbado na lenta jornada que o vae levando á presidencia da Republica, se não a um Cesarismo jacobino. Para mudar a opinião do ministerio Freycinet bastou-lhe ordenar; e para convencer a camara bastou-lhe fallar.

No dia da discussão do projecto da amnistia deixa melodramaticamente a sua cadeira de presidente, e de gravata branca, rubro como uma papoila, com a sua cabelleira solta á maneira de uma juba, apparece na tribuna; e não creio que desde os Gracchos, ou desde Mirabeau, jámais a palavra d'um homem revolvesse tanto um paiz! Todos os jornaes, os mais hostis, reconhecem que nunca Elle fôra tão poderoso.

Vae o E maisculo, porque parece que se trata verdadeiramente de um Deus.

Na rua vê-se gente de olho esgazeado, e arripiada de emoção murmurando: Gambetta fallou! Assim se devia dizer em Israel, quando corria voz pelas tendas dispersas das tribus que Jehovah perorava d'entre a sua sarça ardente. Eu não o ouvi. O seu discurso, lido aqui no jornal, affigura-se-me uma prosa resoante e oca como um tambor, mais propria da emphase castelhana que da lingua lúcida e disciplinada em que Voltaire escreveu. Parece, porém, que a sua formidavel figura, os accentos pungentes da sua voz captivante, soltando os grandes nomes de França e Patria e Republica, os seus gestos de apostolo possuido do espirito; a maioria de pé, n'uma acclamação, como nos dias patheticos da Convenção; a direita muda e aterrada, as galerias n'um extasi vibrante—tudo isto formou um quadro grandioso, quasi heroico.

Eu espero, para o admirar, que um mestre o immortalise na téla e o popularise pela lythographia. Até lá, por Jupiter, sustento que esta arenga não me parece do meu Gambetta, do antigo e forte Gambetta; dir-se-ia antes ser do copioso Odilon Barrot. Não vejo aqui as ideias que fundam, nem as palavras que ficam. O que abunda, sim, é o emprego triumphante do pronome pessoal eu.

«Eu consultei o paiz! Eu disse á Europa! Eu quero!» E assim se desfaz, emfim, o equivoco enorme; é elle realmente que governa, possue a França: o snr. Grevy está alli como uma figura ornamental; o snr. de Freycinet e o seu ministerio são o côro explicativo; a camara, um mero serviço de votação. Só elle fica acima d'estas fracções, como a mesma alma da Republica. E pela segunda vez, desde Mazzarino, com respeito o digo, um italiano é o senhor das Gallias.

Não creio, porém, que esta amnistia, tão generosamente concedida pelo snr. Gambetta, desarmará o socialismo, e o reconciliará com a Republica conservadora. Espanto-me mesmo que haja velhos jornaes, cobertos de experiencia e de cans, que o acreditem, com a ingenuidade de tenros enthusiastas. E o mesmo Gambetta parece crêl-o quando exclama que, eliminada esta questão irritante, haverá só uma Republica e uma só França!

Rhetorica! A questão da amnistia era, decerto, nas mãos da esquerda intransigente uma arma util: «Vêde essa Republica de conservadores que deixa nas galés os vossos irmãos, os vossos maridos!» Este grito ia direito á indignação dos homens e á sensibilidade das mulheres.

Para resolver o operario era, sem duvida, um optimo grito: mantinha-o em desconfiança e em hostilidade; e nas eleições proximas levaria de certo a turba proletaria para os candidatos do socialismo. Mas, perdida esta arma contra a republica do Justo-meio, esta Durindana brilhante do Rappel e do Mot d'Ordre, restam innumeraveis machinas de guerra no vasto arsenal da questão social. Basta, por exemplo, pôr em posição a famosa catapulta da separação da egreja e do estado, para abalar a fragil muralha do Gambettismo.

Os conservadores, para se conservarem a si mesmos, terão de ceder: e de concessão em concessão, como um sapo aos saltinhos successives, irão cahir na guela escarlate da serpente socialista. Todas as medidas d'estes ultimos dois annos, depuramento do funccionalismo, expulsão dos jesuitas e volta dos communistas, têm sido exigencias da extrema esquerda, do mundo do Rappel, da Justice e do Mot d'Ordre.

E outras reclamações virão—todas necessariamente satisfeitas—e cada uma tirando um cabello a Samsão e uma parcella da sua força á Republica... A questão está collocada entre o proletario e o burgues. É Clemenceau contra Gambetta. E isto, que é o socialista Clemenceau, matará fatalmente aquillo, que é o jacobino Gambetta: e isto, que é o sapateiro Trinquet, eliminará mais tarde aquillo, que é o philosopho Clemenceau.

Mas, por estes dias ao menos, esta Republica moderada está solida. Tem por si a burguezia: os burguezes de hoje são a antiga população das Gallias—que já no tempo de Cesar amava sobretudo as palavras sonoras e as espadas atrevidas. Por isso a burguezia se sente segura, apoiando-se na oratoria de Gambetta e no sabre de Gallifet.

Para nós que não somos francezes, preparam-se-nos horas de jovialidade, porque vêm ahi os exilados e á frente Rochefort. Se o grande pamphletario, o gaiato sublime como lhe chamou Michelet, o ardente sagitario, não perdeu nas amarguras do desterro a sua verve prodigiosa, o ardor acerado, as luminosas flechas que feriram de morte o Imperio—vae ser curioso vêl-o erguer-se no boulevard, como nos dias inolvidaveis da Lanterna, com a face pallida e a sua gaforina de Satanaz, heroico e agil diante do pesado presidente Gambetta.

O jornal que vae fundar chama-se o Intransigente. Já é bom! E vem azedado por dez annos de exilio injusto, porque (ninguem o ignora) foi a Lanterna e a sua lucta contra o Imperio que o levaram á Nova Caledonia por sentença de um conselho de guerra, composto dos velhos generaes de Cesar, e não a sua participação na Communa, que elle combateu implacavelmente e que o condemnou á morte. Por isso elle permaneceu querido de toda a França, esse homem que tem o espirito de Voltaire, a temeridade heroica, a honradez de um Bayard; este marquez de Rochefort e de Luçay, que as duquezas chamam o primo Rochefort, generoso paladino dos humildes, que foi durante os ultimos annos de Napoleão a alegria viva da França e uma das honras da liberdade. Os seus mesmos inimigos o admiram: e foi por terror ao seu espirito que a republica conservadora o manteve no exilio perpetuo, excluido de todos os perdões. E vem ahi! Positivamente, vamos rir.

Os communistas entram e os jesuitas sáem. Nada me parece mais insensato que esta expulsão.

Deus sabe que eu não amo os jesuitas: tudo n'elles me é antipathico—a sua face descahida e olho obliquo, a roupeta lugubre, a sua moral, a sua abominavel summa theologica, a sua sciencia secca e hieratica, o seu frio estylo d'architectura, a sua maneira de enriquecer, com contabilidade escripta em grego, a sua grosseira e equivoca idolatria pela Virgem Maria, a sua organisação tenebrosa e conspiradora, que faz assemelhar a companhia a um carbonarismo theocratico. Mas dispersal-os parece-me singularmente impolitico, illogico e pueril; se se pretende destruir a sua funesta influencia na sociedade franceza—então é necessario expulsar o clero inteiro, pois ninguem ignora que a egreja hoje está totalmente penetrada do espirito jesuitico. O catholismo é o jesuitismo.

Quem governa a egreja não é Leão XIII, o Papa Branco, é o Papa Negro, o padre Beckx. E esta solidariedade com a companhia—o clero regular acceita-a, reveste-se d'ella como d'uma insignia, e considera-se ferido pelas leis dirigidas contra o instituto de Santo Ignacio. Se se quer eliminar o ensino dos jesuitas fatal á alma das gerações novas, recahimos na mesma necessidade logica de supprimir todo o ensino clerical, semelhante, parallelo, ao que dimana dos jesuitas. De que serve fechar tres ou quatro estabelecimentos da companhia—se fica todo um clero compacto para os substituir como pedagogos, como conspiradores e como inimigos da democracia?

Além d'isso, os jesuitas expulsos das suas grandes residencias irão ensinar particularmente, dispersos pelas cidades e pelos campos; em logar da roupeta, vestirão a quinzena—e nem por isso o seu ensino será mais democratico. E se ainda lhe fôrem arrancados os livros da escola—lá ficam os dominicanos, os maristas, os lazaristas, os franciscanos, os irmãos christãos, e outros innumeraveis, para ensinarem o mesmo com a exaltação de quem espalha uma ideia perseguida.

É pueril. Os republicanos que hoje governam, riam, quando o imperio imaginava extinguir o socialismo dispersando a internacional; e recahem no mesmo erro, pensando aniquilar o clericalismo com o encerramento de tres conventos de jesuitas!

Será necessario eliminar as mães devotas e os paes catholicos, prohibir que haja almas que, por debilidade ou religiosidade terra, se precipitem para as lições da Mystica de S. Thomaz, como para o melhor alimento terrestre. Se o ensino theologico é perigoso, opponha-se-lhe o ensino scientifico. Esmaguem o padre com o philosopho. Mas não é rasgando uma roupeta que se reprime um ideal.

E depois, para quem ama realmente a liberdade, é repugnante estar lendo todos os dias nos jornaes que já os jesuitas e as outras congregações ameaçadas começam a encaixotar os seus livros, a enfardelar tristemente os seus trapos, a despregar um ou outro painel da sua cella, porque se approxima o dia 29, em que dois gendarmes, de espadão á cinta, virão arrancal-os aos conventos que são seus, edificados pela sua diligencia, pagos com o seu metal e tantos annos habitados pela sua devoção.

Ha n'isto um sabor desagradavel á revogação do edito de Nantes, á expulsão dos judeus, a missionarios apupados pela população chineza.

Ha dias vi um velho frade franciscano, assustado e melancolico, comprando timidamente uma maleta; havia tanta amargura no olhar, que o pobre mendicante dava áquelle sacco de couro que ia ser seu companheiro d'exilio—que me veio uma colera, uma revolta contra o snr. Julio Ferry e o seu nacionalismo prouddhomesco.

Ora nada mais impolitico que provocar este sentimento: o frade torna-se assim mais interessante; e os fracos, os sentimentaes, os religiosos; as mulheres são attrahidas para este exilado, este martyr errante, esta victima dos Dioclecianos de chapéu alto, que se lhes afigura a encarnação mesma do crucificado.

Eu não sou um devoto, mas parece-me impio exilar aquelles que não têm as nossas opiniões. E uma republica que expulsa uma classe inteira de cidadãos por acreditarem na graça, accenderem luzes á Virgem Maria e considerarem o conde Chambord como um sêr providencial e um Messias forte—mostra uma grande falta de senso politico, e pratica um vergonhoso abuso da força.

Mas supponhamos que elles são grandes criminosos. Pois bem! estamos agora n'um momento de clemencia publica, perdoou-se hontem áquelles que consideram Deus um tyranno; perdõe-se hoje áquelles que consideram Luiz XVI um santo. E aqui está o que eu humildemente proporia;—que a amnistia dada aos communistas se estenda ás congregações religiosas!

Ainda n'esta carta, lhes não fallo da Inglaterra. A culpa é toda d'ella. Caso extraordinario! ha já semanas que este grande e amado paiz não produz um acontecimento, um escandalo, um livro, um systema philosophico, uma religião, uma machina, um quadro, uma guerra ou um dito! Está n'esse brando repouso a que se abandona sempre aos primeiros calores de junho. Deixemol-a descançar sob a sombra da frondosa faia, n'estes ocios que lhe faz a suprema liberdade na suprema força.


III. O IMPERADOR GUILHERME.

«Lui, toujours lui!...—Elle, sempre elle!...»—Assim, no tempo das Vozes interiores, clamava Victor Hugo, cançado, quasi estafado de que ao seu espirito de poeta, que tantos problemas divinos e humanos solicitavam, se impuzesse ainda com imperiosa insistencia, monopolisando os pensamentos melhores e os melhores alexandrinos, a imagem atravancadora de Napoleão, o Grande. Nós hoje tambem podemos murmurar com impaciencia: «Lui, toujours lui!... Elle, sempre elle!»—perante esse outro imperador que ainda não venceu a batalha de Marengo, nem a de Austerlitz, e que todavia, em meio de todos os problemas sociaes, moraes, religiosos, politicos e economicos que nos devoram, tão estranha e ruidosa expansão dá á sua individualidade e tão confiadamente a arremessa atravez dos nossos destinos, que elle proprio se tornou um Problema Europeu—e occupa tanto o nosso pensamento como o socialismo, a evolução religiosa ou a crise capitalista! Talvez mais—porque até o proprio snr. Renan, cuja alma, pelo exercicio constante do scepticismo, ganhou a impermeabilidade e a dôce indifferença de uma cortiça, para quem toda a vaga é embaladora e bôa, declara, na sua derradeira epistola aos incredulos, que só lhe pesa morrer (e pelas suas confissões bem sabemos quanto a vida lhe corre deliciosa e perfeita!) por não poder assistir ao desenvolvimento final da personalidade do imperador da Allemanha!

Com effeito, desde que subiu ao throno, Guilherme II, imperador e rei, ainda não deixou de attrahir e reter sobre si a curiosidade do mundo, uma curiosidade divertida e arregalada de publico que espera surpresas e lances—como se esse throno da Allemanha fôsse na realidade um palco vistosamente ornado, no centro da Europa. E esta é até agora a obra pittoresca de Guilherme II—o ter convertido—o throno dos Hohenzollerns n'um palco onde elle constantemente e soberbamente se exhibe, com caracterisações inesperadas. Bem póde, pois, o sentimental heresiarcha da Vida de Jesus lamentar que a morte lhe não consinta assistir, no quinto acto, á solução d'este imperador problematico! Pois que, por ora, n'este primeiro acto de tres annos, desde que elle trilha o seu palco imperial, Guilherme II, pela diversidade e multiplicidade das suas manifestações, só tem revelado que existem n'elle, como outr'ora em Hamlet, os germens de homens varios, sem que possamos preconceber qual d'elles prevalecerá, e se esse, quando definitivamente desabrochado, nos espantará pela sua grandeza ou pela sua vulgaridade. Realmente, n'este rei, quantas encarnações da realeza!

Um dia é o Rei-Militar, rigidamente hirto sob o casco e a couraça, occupado sómente de revistas e manobras, collocando um render-da-guarda acima de todos os negocios de estado, considerando o sargento-instructor como a unidade fundamental da nação, antepondo a disciplina do quartel a toda a lei Moral ou da Natureza, e concentrando a gloria da Allemanha na mechanica precisão com que marcham os seus galuchos. E subitamente despe a farda, enverga a blusa, e é o Rei-Reformador, só attento ás questões do capital e do salario, convocando com fervor congressos sociaes, reclamando a direcção de todos os melhoramentos humanos, e decidindo penetrar na historia abraçado a um operario como a um irmão que libertou. E logo a seguir, bruscamente, é o Rei-de-Direito-Divino, á Carlos V ou á Phillippe-Augusto, apoiando altivamente o seu sceptro gothico sobre o dorso do seu povo, estabelecendo como norma de todo o governo o sic volo, sic jubeo, reduzindo a Summa Lei á vontade do Rei e, certo da sua infallibilidade, sacudindo desdenhosamente para além das fronteiras todos os que n'ella não creem com devoção. O mundo pasma,—e, de repente, elle é o Rei de Côrte, mundano e faustoso, attento meramente ao brilho e ordem sumptuosa da Etiqueta, regulando as galas e as mascaradas, decretando a fórma do penteado das damas, condecorando com a Ordem da Corôa os officiaes que melhor valsam nos cotillons, e querendo volver Berlim n'um Versailles d'onde emane o preceito supremo do cerimonial e do gosto. O mundo sorri—e repentinamente é o Rei-Moderno, o Rei-Seculo-Dezenove, tratando de caturra o Passado, expulsando da educação as humanidades e as lettras classicas, determinando crear pelo parlamentarismo a maior somma de civilisação material e industrial, considerando a fabrica como o mais alto dos templos, e sonhando uma Allemanha movida toda pela electricidade...

Depois, por vezes, desce do seu palco—quero dizer, do seu throno—e viaja, dá representações atravez das cortes estrangeiras. E ahi, desembaraçado da magestade imperial, que em Berlim imprime a todas as suas figurações um caracter imperial, apparece livremente sob as fórmas mais interessantes que póde revestir nas sociedades o homem de imaginação. A caminho de Constantinopla, singrando os Dardanellos, na sua frota, é o artista que em telegramma ao chancelier do império (em que assigna Imperator Rex) pinta, n'uma fórma carregada de romantismo e côr, o azul dos céus orientaes, a doçura languida das costas da Asia. No Norte, nos mares scandinavos, entre os austeros fjords da Noruega, ao rumor das aguas degeladas que rolam por entre a penumbra dos abetos, é o Mystico, e prega sermões sobre o seu tombadilho, provando a inanidade das cousas humanas, aconselhando ás almas, como unica realidade fecunda, a communhão com o Eterno! Voltando da Russia é o alegre Estudante, como nos bons tempos de Bonn, e da fronteira escreve para S. Petersburgo ao marechal do Palacio uma carta em verso, fantasistamente rimada, a agradecer o kaviar e os sandwichs de foie-gras, collocados no seu wagon como provido farnel de jornada. Em Inglaterra está em um luxuoso centro de sociabilidade, e é o Dandy, com os dedos faiscantes de anneis, um cravo enorme na sobrecasaca clara, borboleteando e flirtando com a veia soberba de um D'Orsay!...—E subitamente, em Berlim, por alta noite, as cornetas soltam asperos toques de alarme, todos os fios da Agencia Havas estremecem, a Europa assustada corre ás gazetas, e um rumor passa, temeroso, de que «haverá guerra na primavra»! Que foi? No es nada, como se canta, no Pan e Toros. É apenas Guilherme II que resubiu ao seu palco—quero dizer, ao seu throno.

O mundo perplexo murmura:—«Quem é este homem tão vario e multiplo? O que haverá, o que germinará dentro d'aquella cabeça regulamentar de official bem penteado?» E o snr. Renan geme por morrer talvez antes de assistir, como philosopho, ao desenvolvimento completo d'esta ondeante personalidade! Assim Guilherme II se tomou um problema contemporaneo,—e ha sobre elle theorias, como sobre o magnetismo, a influenza ou o planeta Marte. Uns dizem que elle é simplesmente um moço desesperadamente sedento da fama que dão as gazetas (como Alexandre o Grande que, em risco de se afogar, já suffocado, pensava no que diriam os Athenienses) e que, mirando á publicidade, prepara as suas originalidades com o methodo, a paciencia e a arte espectacular com que Sarah Bernhardt compõe as suas toilettes. Outros sustentam que ha n'elle apenas um fantasista em desequilibrio, arrebatado estonteadamente por todos os impulsos de uma imaginação morbida, e que, por isso mesmo que é imperador quasi omnipotente, exhibe soltamente, sem que uma resistencia vigilante lh'os cohiba e lh'os limite, todos os desregramentos da fantasia. Outros, por fim, pretendem que elle é apenas um Hohenzollern em que se sommaram e conjunctamente affloraram com immenso apparato todas as qualidades de cesarismo, mysticismo, sargentismo, bureaucratismo e voluntarismo, que alternadamente caracterisavam os reis successivos d'esta felicissima raça de fidalgotes do Brandeburgo...

Talvez cada uma d'estas theorias, como succede felizmente com todas as theorias, contenha uma parcella de verdade. Mas eu antes penso que o imperador Guilherme é simplesmente um dilettante da acção—quero dizer, um homem que ama fortemente a acção, comprehende e sente com superior intensidade os prazeres infinitos que ella offerece, e a deseja portanto experimentar e gosar em todas as fórmas permissiveis da nossa civilisação. Os dillettante são-n'o geralmente de ideias ou de emoções—porque para comprehender todas as ideias ou sentir todas as emoções basta exercer o pensamento ou exercer o sentimento, e todos nós, mortaes, podemos, sem que nenhum obstaculo nos coarcte, mover-nos liberrimamente nos illimitados campos do raciocinio ou da sensibilidade. Eu posso ser um perfeito dillettante de ideias, modestamente fechado, com os meus livros, na minha bibliotheca:—mas se tentasse ser um dillettante da Acção, nas suas expressões mais altas, commandar um exercito, reformar uma sociedade, edificar cidades, teria de possuir, não uma livraria, mas um imperio submisso. Guilherme II possue esse imperio; e hoje que se libertou da dura superintendencia do velho Bismarck, póde abandonar-se ao seu insaciavel dilettantismo da Acção, com a licença «com que o corsel novo (como diz a Biblia), galopa no deserto mudo». Quer elle o goso de commandar vastas massas de soldados, ou de sulcar os mares n'uma frota de ferro? Tem só de lançar um telegramma, fazer resoar um clarim. Quer elle a delicia de transformar, nas suas mãos potentes, todo um organismo social? Tem só de annunciar: «Esta é a minha ideia»—e lentamente a seus pés começará a surgir um mundo novo.

Tudo póde, porque governa dous milhões de soldados, e um povo que só zela a sua liberdade nos dominios da philosophia, da éthica ou da exegese, e que quando o seu imperador lhe ordena que marche—emmudece e marcha.

E tudo póde ainda porque inabalavelmente acredita que Deus está com elle, o inspira e sancciona o seu poder.

E é isto o que torna, para nós, prodigiosamente interessante o imperador da Allemanha:—é que, com elle, nós temos hoje n'este philosophico seculo, entre nós, um homem, um mortal, que mais que nenhum outro iniciado, ou propheta, ou santo, se diz, e parece ser, o intimo e o alliado de Deus! O mundo não tornára a presencear, desde Moysés no Sinai, uma tal intimidade e uma tal alliança entre a Creatura e o Creador. Todo o reinado de Guilherme II nos apparece, assim, como uma resurreição inesperada do mosaïsmo do Pentatheuco. Elle é o dilecto de Deus, o eleito que conferencia com Deus na sarça ardente do Schloss de Berlim, e que por instigação de Deus vae conduzindo o seu povo ás felicidades de Canaan. É verdadeiramente Moysés II! Como Moysés, de resto, elle não se cança de affirmar estridentemente, e cada dia, para que ninguem a ignore, e por ignorancia a contrarie, esta sua ligação espiritual e temporal com Deus, que o torna infallivel, e portanto irresistivel. Em cada assembleia, em cada banquete em que discursa (e Guilherme é de todos os reis contemporaneos o mais verboso) lá vem logo, á maneira de um mandamento, esta affirmação pontificial de que Deus está junto d'elle, quasi visivel na sua longa tunica azul dos tempos de Abrahão, para em tudo o ajudar e o servir com a força d'esse tremendo braço que póde sacudir, atravez dos espaços, os astros e os sóes, como um pó importuno. E a certeza, o habito d'esta sobrenatural alliança vae n'elle crescendo tanto que de cada vez allude a Deus em termos de maior igualdade—como alludiria a Francisco d'Austria, ou a Humberto, rei de Italia. Outr'ora ainda o denominava, com reverencia, o Amo que está nos céus, o Muito alto que tudo manda. Ultimamente porém, arengando com champagne aos seus vassalos da Marca Brandeburgo, já chama familiarmente a Deus—o meu velho alliado! E aqui temos Guilherme e Deus, como uma nova firma social, para administrar o Universo. Pouco a pouco mesmo, talvez Deus desappareça da firma e da taboleta, como socio subalterno que entrou apenas com o capital da luz, da terra e dos homens, e que não trabalha, ocioso no seu infinito, deixando a Guilherme a gerencia do vasto negocio terrestre:—e teremos então apenas Guilherme e Cia. Guilherme, com supremos poderes, fará todas as operações humanas. E «companhia» será a fórmula condescendente e vaga com que a Alemanha de Guilherme II designará Aquelle para quem todavia, segundo crêmos,—Guilherme II e a Allemanha toda são tanto, ou tão pouco, como o pardal que n'este instante chalra no meu telhado!

Um magnifico e insaciavel desejo de gosar e experimentar todas as fórmas da Acção, com a soberana segurança que Deus lhe garante e promove o exito triumphal de cada emprehendimento—eis o que me parece explicar a conducta d'este imperador mysterioso. Ora, se elle dirigisse um imperio situado nos confins da Asia, ou se não possuisse na Torre Julia um thesouro de guerra para manter e armar dous milhões de soldados, ou se estivesse cercado por uma opinião publica tão activa e coercitiva como a da Inglaterra, Guilherme II seria apenas um imperador, como tantos, na historia, curioso pela mobilidade da sua fantasia, e pela illusão do seu messianismo. Mas, infelizmente, plantado no centro da Europa trabalhadora, com centenares de legiões disciplinadas, um povo de cidadãos disciplinados tambem e submissos como soldados—Guilherme II é o mais perigoso dos reis, porque falta ainda ao seu dilettantismo experimentar a fórma da Acção mais seductora para um rei—a guerra e as suas glorias. E bem póde succeder que a Europa um dia acorde ao fragor de exercitos que se entrechocam—só porque na alma do grande dilettante o fogoso appetite de «conhecer a guerra», de gosar a guerra sobrepujou a razão, os conselhos e a piedade da patria. Ainda ha pouco, de resto, elle assim o promettia aos seus fieis solarengos do Brandeburgo:—«Levar-vos-hei a bellos e gloriosos destinos». Quaes? A varias batalhas de certo, onde triumpharão as Aguias germanicas... Guilherme II não o duvida—pois que tem por alliado, além de alguns reis menores, o Rei Supremo do Céu e da Terra, combatendo entre a Landwehr allemã, como outr'ora Minerva Athenea, armada da sua lança, combatia contra os barbaros em meio da phalange grega.

Esta certeza da alliança divina!... Nada póde dar mais força a um homem, na verdade, que uma tal certeza, que quasi o divinisa. Mas, tambem, a que riscos ella arrasta! Porque nada póde fazer tombar mais fundamente um homem do que a evidencia, perante a crua contradição dos factos, de que essa certeza era apenas a chimera d'uma desordenada fatuidade. Então verdadeiramente se realisa a quéda biblica do alto dos céus. Houve um povo que se proclamava ortr'ora o Eleito de Deus—mas apenas se provou que Deus não o elegera, nem o preferia a outro, por isso que o abandonava desdenhosamente—foi desmantelado com incomparavel furor, disperso e apedrejado por todos os caminhos do mundo, e encurralado em Ghettos, onde os reis lhe estampavam sobre a casa e sobre a campa uma marca como a que se estampa sobre a moeda falsa.

Guilherme II corre este lugubre perigo de cahir nas Gemonias. Elle assume hoje, temerariamente, responsabilidades que, em todas as nações, estão repartidas pelos corpos de Estado—e só elle julga, só elle executa porque é a elle, e não ao seu ministerio, ao seu conselho, ao seu parlamento, que Deus, o Deus de Hohenzollern, communica a inspiração transcendente.

Tem, portanto, de ser infallivel e de ser invencivel. No primeiro desastre, ou lhe seja infligido pela sua burguezia ou pela sua plebe nas ruas de Berlim, ou lhe seja trazido por exercitos alheios n'uma planicie da Europa, a Allemanha immediatamente concluirá que a sua tão annunciada alliança com Deus era uma impostura de despota manhoso.

E não haverá, então, da Lorena á Pomerania, pedras bastantes para lapidar o Moysés fraudulento! Guilherme II está na verdade jogando contra o destino esses terriveis dados de ferro, a que alludia outr'ora o esquecido Bismarck. Se ganha dentro e fóra da fronteira, poderá ter altares como teve Augusto (e de facto tambem Tiberio). Se perde, é o exilio, o tradicional exilio em Inglaterra, o cabisbaixo exilio, esse exilio que elle hoje tão duramente intima áquelles que discrepam da sua infallibilidade.

E não se mostraram já os prenuncios vagos do desastre? O grande imperador, ha dias, recebeu apupos nas ruas de Berlim. As plebes desconfiam de Guilherme e do seu Deus. E (signal temeroso) os pensadores e os philosophos que foram sempre, na muito intellectual Allemanha, os formidaveis esteios do despotismo militar dos Hohenzollerns, começam a amuar com o throno, e a retroceder, pelos caminhos vagarosos do liberalismo, para o povo e para a justiça social de que elle tem a consciencia ainda tumultuosa, mas exacta. Onde estão os tempos em que Hegel considerava a autocracia prussiana quasi como uma parte integrante da sua philosophia e da ordem do Universo? Onde estão as admirações de Herbat pelo «Estado concentrado no Soberano?» Onde estão esses altos entendimentos ensinando nas universidades que a summa da sapiencia politica na Prussia era—Deus salve o Rei? Onde estão esses louvores ao direito divino dos Hohenzollerns, cantados por Strauss, por Mommsen, por Von Sypel? Tudo passou! A metaphysica rosna descontente. Das duas grossas pedras angulares da monarchia prussiana, o philosopho e o soldado, Guilherme II hoje só tem o soldado:—e o throno, sobrecarregado com o imperador e o seu Deus, pende todo para um lado, que é talvez o do abysmo...

Conseguirá o philosopho persuadir o soldado a sacudir, por seu turno, o peso sob que geme, é mesmo sob que sangra, se são veridicas as accusações do principe Jorge de Saxe? O soldado sáe do povo, e sabe lêr. E se, como a Allemanha toda affirmou, foi o mestre-escola quem venceu em Sadowa e em Sedan—é talvez elle ainda, com o seu novo livro e a sua nova ferula, que vencerá em Berlim.

O snr. Renan tem, pois, razão, grandemente: e, nada mais attractivo, n'este momento do seculo, do que assistir á solução final de Guilherme II. Dentro em annos, com effeito (que Deus faça bem lentos e bem longos) este moço ardente, imaginativo, sympathico, de coração sincero, e talvez heroico, póde bem estar, com tranquilla magestade, no seu Schloss de Berlim gerindo os destinos da Europa, ou póde estar, melancolicamente, no Hotel Metropole em Londres, desempacotando da maleta do exilio a dupla corôa amolgada da Allemanha e da Prussia.


IV. O GRAND-PRIX-A ESTATUOMANIA-OS COCHEIROS-VICTOR HUGO-O CAMPO EM PARIZ.

Na semana passada o Grand Prix—que é a solemnidade official do sport, do jogo e das toilettes. Todos estes elementos estiveram magnificamente representados na planicie de Longchamps, sob um sol mais severo que o de Java. Os cavallos eram tão bons que o vencedor, um cavallo francez com o nome de um heroe hungaro, venceu apenas por uma quarta parte do focinho. As apostas elevaram-se a mais de seis milhões. E havia toilettes portentosas, entre as quaes unn vestido negro, todo ornado de crysanthemos brancos.

A tribuna republicana do presidente estava salpicada de sangue real: a rainha-mãe de Portugal, D. Maria Pia; a duqueza d'Aosta, cunhada do rei de Italia, uma mulher esplendida, que parece uma Venus de Millo mettida dentro de um vestido da Laferriere, e que seria realmente digna da Grecia se não fosse um não sei que de japonez nos olhos obliquos; e depois um principe indio, o Mararajah de Lhaore, infelizmente de sobrecasaca preta e sem diamantes. (Que diriam a esta sobria sobrecasaca os seus rutilantes avós, que já reinavam muitos seculos antes de Christo?)

O calor era horrifico. Á noite, no Jardim de Paris, houve, sob as arvores e os bicos de gaz, a orgia tradicional. Toda a mocidade estava brilhantemente borracha, sicut licet. A unica innovação foi a troca geral de chapéos: os homens tinham coroada as cabeças, frisadas ou calvas, com os floridos e emplumados chapéos das mulheres; e ellas, as dôces creaturas, arvoraram todas chapéos altos. Este modesto delirio não deve fazer suppôr que Pariz perdesse a seriedade.

Nunca existiu cidade mais grave do que Roma (a verdadeira, a romana). Pois no dia das Saturnaes, que era uma especie de Grand Prix, os cidadãos mais circumspectos, mesmo magistrados, bailavam nas praças, de toga arregaçada:—e o austero Catão apparecia no senado com um grande nariz postiço.

N'esta semana festiva não ha politica. Os ministros andam todos pelas provindas, fazendo inaugurações e discursos. Um americano, muito engenhoso, já affirmou que o que caracterisava a civilisação franceza era ser uma civilisação completa, acabada, com todos os pontos sobre todos os ii. O conceito é agudo e brilhante. Mas não parece verdadeiro; porque cada semana, atravez da França, se inaugura alguma cousa que faltava—uma estrada, um aqueducto, um porto, um pharol. Sobretudo, estatuas de grandes homens. A França não acaba realmente de fundir em bronze todos os seus benemeritos.

Desde 1875, o anno em que começou a estabilidade republicana, cada mez,—que digo eu? cada semana!—se desvenda algures uma estatua d'alguem, entre discursos, tambores e champagne. Já lá vão quasi vinte annos d'este fervente trabalho, e ainda ha todavia genios que não têm estatua. Em compensação, ha outros que têm duas, como um certo Guerin de quem fallava recentemente Julio Simon. Digo um certo Guerin, porque eu não lhe conhecia a existencia antes d'essa allusão de Julio Simon, que foi o inaugurador dos dois monumentos, um em Pontivy, outro em Nantes. De resto, talvez Guerin seja amplamente merecedor de campear assim em duas praças, sobre dois pedestaes de granito. Ha ahi alguem que saiba quem é Guerin? Em França, para que um grande homem consiga estatua é essencial, sobretudo, que tivesse deixado um filho com influencia na politica ou na sociedade. Dumas, pae, arranjou o seu monumento da praça Malesherbes, menos por causa de D'Artagnan que por causa de Dumas, filho. E Balzac, como não deixou filho, ainda não tem estatua. Nem Chateaubriand. Nem Victor Hugo. Quem tem já duas é Guerin.

Não sei se fallei já do calor. Está asphyxiante. E o que o torna mais duro de atravessar é a grève dos cocheiros. Pariz está sem tipoias—o que é, sobretudo n'este momento, como o deserto sem camelos. Se n'esta super-civilisada cidade o serviço dos omnibus ou dos bonds fôsse facil, exacto e rapido, a falta de carruagens não causaria desgostos—e seria mesmo uma salutar instigação á economia. Mas o omnibus e o bond, em Pariz, são instituições rudimentares. É mais facil para um pariziense entrar no céu do que n'um omnibus. Para obter o logar na bemaventurança basta, segundo affirmam todos os santos padres, ter caridade e humildade. Para obter o logar do omnibus estas duas grandes virtudes são inuteis e, mesmo, contraproducentes. Antes o egoismo e a violencia. Depois de conquistar o logar, a outra difficuldade insuperavel é sahir d'elle—por aquelle meio natural e logico que consiste em chegar e apear. Nunca se chega—senão quando já é desnecessario. Eu e um amigo partimos um dia da gare d'Orleans, á mesma hora; eu no comboio para Portugal, elle no omnibus para o Arc de L'Étoile. Quando eu cheguei a Madrid soube, por um telegramma, que o meu amigo ia ainda na Praça da Concordia. Mas ia bem. O omnibus em Pariz é o grande refugio e o local do namoro. Quanto mais comprida a jornada, mais demorado portanto o encanto. O meu amigo encontrára no seu omnibus a creatura dos seus sonhos. Era uma loura com sardas promettedoras. Quando, emfim, chegaram ao Arco da Estrella estavam noivos—ou peior. São estas pequenas commodidades da vida sentimental que conservam a freguesia aos omnibus.

Uma das causas, ou antes a causa da grève é que os cocheiros querem ser funccionarios publicos. Nem mais, nem menos. A sua pretenção é que a municipalidade de Pariz se torne proprietaria das tipoias de praça e que elles passem, portanto, a ser empregados municipaes, com ordenado e aposentação. Cada carruagem constituirá assim uma verdadeira repartição de que o cocheiro será, a todos os respeitos, o director geral. Não sei o que o publico lucraria em se ligarem todos os carros ao carro central do Estado. O funccionario francez é um sujeito tremendamente impertigado. O cocheiro de Pariz já é horrivelmente impertinente. O que será quando fizer parte da administração? Accresce que a famosa administração franceza envolve e embaraça todos os actos da vida do cidadão com formalidades innumeraveis. É peior que a administração chineza—e menos pittoresca. Basta lembrar que quem queira canalisar gaz para sua casa tem de implorar licenças successivas a vinte auctoridades successivas—entre as quaes o ministro do interior! É pois quasi certo que, quando os serviços dos trens de praça passarem para o Estado, o cidadão que aspire a occupar um d'esses trens publicos terá de metter préviamente requerimento, e em papel sellado! O cocheiro, por outro lado, ha-de querer manter o seu direito de deferir ou indeferir. Estou pois já vendo, n'um dia de dezembro, uma familia á hora do theatro, com os pés na lama, apresentando humildemente a um cocheiro a sua petição para occupar a tipoia—e o digno funccionario, com as rédeas embrulhadas no braço, depois de percorrer o documento, respondendo com superioridade: Indeferido, por causa da distancia e do mau tempo!

Não sei porque, fallando de omnibus, me lembro de Victor Hugo. De certo porque o divino poeta gostava de percorrer a seu Pariz, meditando e compondo versos, no alto desses pachorrentos vehiculos.

Victor Hugo publicou este mez mais um volume—Toute la Lyre. Como o Cid, que ainda vencia batalhas depois de morto, Hugo cada anno atira de dentro do seu sepulchro um radiante e victorioso poema. A proposito d'este, de novo se discutiu se estas publicações posthumas de versos, que elle em vida atirava para o canto, augmentam realmente a gloria poetica de Hugo. Discussão ociosa. De certo não augmentam a sua gloria. Essa já está estabelecida e fixa, no seu maximo esplendor, com as Contemplations, a Légende des Siècles e os Châtiments. Mas augmentam o nosso conhecimento do poeta, revelando novos pensamentos, novas emoções ou fórmas differentes no exprimir as emoções e os pensamentos que lhe eram habituaes. Victor Hugo era um grande espirito que sentia e pensava em verso. Cada verso novo, que nos é desvendado, constitue pois um documento novo sobre o poeta—sobre a sua visão espiritual ou sobre o seu verbo lyrico. Ora quantos mais documentos se reunem sobre um homem de genio como Hugo, mais completo se torna o trabalho critico sobre a sua individualidade e sobre a sua obra. Para alargar e completar o conhecimento dos grandes homens, publicam-se-lhe as cartas, todos os papeis intimos—até as contas do alfaiate. Assim se tem feito para Lamartine, para Balzac, etc.

Ainda ha pouco foi estabelecido, e provado com documentos, o numero, de pares de meias de sêda que Napoleão usava cada anno. Eram 365. Ninguem se queixou. Foi um detalhe historico, geralmente apreciado. Ora se, para proveito da historia, se põem assim á mostra as piugas d'um grande homem de guerra, que tem iguaes—é bem justificado que se publiquem os versos, todos os versos, ainda os menos interessantes, d'um poeta que, sem contestação, é o maior de todos, em todos os seculos.