Eu tenho a sizudesa de poupar o leitor ao muito mais estirado discurso do bacharel. Fallou muito, como fallam os misanthropos quando uma luzinha de esperança lhes lampeja na sua escuridade. A sua esperança sorria-lhe d'além-mar, do ceo hospedeiro do novo-mundo.
V.
Dizia Gastão de Noronha á filha Corinna:
—Vi-te hontem á noite muito distrahida, menina, e gostei que te inclinasses áquelle rapaz...
—A qual, papá?
—A qual ha de ser?!—tornou o pae com um gesto de intelligencia e comprazimento—é o unico com quem te detiveste uma boa hora...
—Ah! já sei... o Taveira?
—Alli tens um excellente marido, Corinna! Trezentos e cincoenta contos... Não sabias?
—Não, meu pae—respondeu a menina, indecisa se devia desenganal-o, ou evadir-se á continuação das perguntas.
—É necessario—proseguiu Gastão em tom solemne—acabar com as distincções de raças. A velha nobreza é um merito relativo que o progresso acata, se outros meritos de natureza commum a sustentam na altura d'onde procede. As altas linhagens predominavam, quando eram as representantes dos illustres nomes e das grandes riquezas. Porém, depois que as industrias abriram fontes de ouro, sem terem de o fazer á ponta da espada e da lança, a fidalguia baixou muito do seu quilate, e teve de associar-se com ellas para não ficar sósinha, estacionaria e dessociavel. Tu viste como em França as netas dos grandes titulares de Luiz XIV vão casando com os netos dos plebeus d'aquelle tempo. Ennobrecer-se de veneras e titulos custa tão pouco, ou vale tão pouco no bom juizo dos governos illustrados, que já hoje póde cada homem rico abrir a sua burra, e fazer com que ao mesmo tempo se abra o cofre das graças. Muita gente irreflectida diz que isto é um mal; e os atilados acham que a depreciação dos fóros de fidalguia é coisa de incalculaveis vantagens para o adiantamento da humanidade. Entendem elles avisadamente que só assim, egualando os homens pela nobilitação, já que elles não querem egualar-se pelo plebeismo, conseguiremos ser todos eguaes. Ora nós, filha, que vivemos em França, onde as fitinhas são respeitadas, porque todos as desejam e trabalham para ganhal-as, vencendo uma batalha, apedrejando um rei, ou inventando uma machina de fazer colchetes, devemos ter na devida conta de desprêso uma chimera que, felizmente, em Portugal preoccupa todas as cabeças para, a final, as nivelar todas na mesma linha...
Corinna da Soledade estava ouvindo e recolhendo as sentenças do pae, com o proposito de responder com ellas ao mesmo apostolo da egualdade, se alguma vez carecesse d'isso.
Gastão continuou no mesmo tom de circumspecta gravidade:
—Accrescem razões d'outra ordem no caso especial em que estamos, Corinna. A nossa casa está desfalcada a ponto de eu não poder remediar com a mais apertada economia o mal que vem de avós, e eu continuei na emigração, para vos dar decencia, educação e prazeres. Moços eguaes a ti em nascimento muitos haverá; mas, pouco mais ou menos, empobrecidos como nós, e retirados como realistas á obscuridade dos seus solares e da sua inactividade. Uns por inercia, outros por ignorancia, todos se devem considerar formando á parte uma phalange de estatuas d'algum devastado jardim que não ha de mais florir. Já vês, Corinna, que ha difficuldade em achar-se um marido como teus bisavós o desejariam; mas facil te ha de ser encontral-o como teu pae t'o deseja. Felisberto Taveira, sobre ser rico, é um gentil moço, é doutor, revela fina educação, e... não é assim?
—Parece-me excellente sujeito—disse Corinna.
—Bem: eu não podia enganar-me—tornou com alegre semblante o pae—Já te disse elle que... sim... manifestou-se-te?
—Nada me disse com relação a casamento, papá.
—Não admira: era a primeira vez que fallava comtigo; mas que te amava...
—Tambem não disse...
—Pois sim; convenho em que o respeito e a delicadeza o contivessem; porém tu deves conhecer, depois de uma hora de conversação...
—Não fallamos a nosso respeito, papá—disse candidamente Corinna.
—Pois então?!
—Eu lhe digo: apresentaram-me um sujeito que me disse umas palavras muito amarguradas, e sahiu do baile. Fiquei pasmada e curiosa de saber quem era o tal sujeito. O Antão de Menezes, que m'o tinha apresentado, trouxe-me o Taveira para me dar as informações que eu desejava. Ficamos a fallar d'elle todo aquelle tempo que o papá viu. Ahi tem vossa excellencia o que foi.
—E quem era o sujeito? que te disse elle? e porque ficaste tu assim curiosa de o conhecer?!—perguntou Gastão com demudado rosto.
—Era um doutor Azevedo Barbosa, de Barcellos, hospede do Felisberto Taveira...
—E que mais?—atalhou o pae precipitadamente.
—E que mais?! o papá que deseja que eu lhe diga mais?
—Se é rapaz de fortuna... Em Barcellos não sei que haja...
—É pobre, e vive muito penalisado, porque tem quatro irmans, e cuida que o persegue uma má estrella.
—Pois sim, não duvido que o persiga uma má estrella, e que seja pobre e tenha quatro irmans; mas que tens tu que ver com isso? Em que se funda a tua interessante curiosidade?!
—Tive compaixão d'elle, papá.
—E gastaste uma hora a colher informações!... O Taveira havia de persuadir-se que tamanho interesse significava alguma coisa mais que simples curiosidade. Se assim foi, como havia de elle dizer-te que te amava?! Ora, minha filha, nunca faças praça d'essas tuas compaixões sem utilidade. Se o Taveira te procurar nos bailes, agradece-lhe a preferencia, e não lhe faças suspeitar que o escolhes por medianeiro: isso não só desanima, mas offende o amor-proprio. Teu pae pede-te que olhes com toda a seriedade ao teu futuro, que por em quanto se figura triste. Com um bom casamento davas-te, e davas á tua familia a felicidade.
Corinna da Soledade, ausente o pae, scismou largo tempo com muita tristeza, e meditou em fingir-se doente para não ir, na seguinte noite, ao baile da Torre da Marca.
O fingimento era facil; porém o bom ou mau anjo d'ella segredou-lhe seducções, que a deliberaram a conservar-se no goso de sua perfeita saude para ir ao baile dos condes de Terena.
Antonio d'Azevedo, sinceramente violentado, entrou na sala em que estava Corinna, e foi ao lado de Taveira cumprimental-a. Momentos depois, Felisberto ia retirar-se, crendo que assim comprazia a Corinna. Chamou-o ella, e disse-lhe a resguardo de Azevedo:
—Desagrado a meu pae, que está aqui defronte, se ficar conversando com o seu amigo. Peço-lhe que me não deixe só com elle, e, quando meu pae estiver jogando, então...
E de feito, Gastão de Noronha fitava os olhos na filha, e perguntava á pessoa com quem fallava, se o sujeito que entrara com Taveira era um tal Azevedo, de Barcellos.
Dizia Taveira ao seu hospede:
—Aposto mil contra um... aposto!
—O que?—perguntou Azevedo.
—Que Corinna te ama, e te ama de véras! A esconder-se do pae para te fallar! ha nada mais persuasivo! Quando uma menina se confia n'um confidente, e desconfia de seu pae, e se esconde d'um terceiro para dizer ao medianeiro que volte com o outro quando o papá estiver jogando; e quando esse outro... és tu!...
Antonio d'Azevedo ergueu os hombros, e disse:
—Valha-te Deus! Cuidas tu que eu tenho espirito bem folgado para entrar n'estes brinquedos pueris, em que a tua seriedade corre perigo de sahir-se mal!... Queres tu que eu me capacite de que estamos figurando n'uma das graves comedias humanas? Pois sim, meu amigo: figuremos e discutamos. Tu já disseste áquella senhora que eu sou um pobre bacharel que consumiu sua sensibilidade, fazendo a côrte aos ministros da justiça?
—Não lhe disse tudo isso, nem parte d'isso. Como ella me não perguntou se eras rico, dispensei-me de ser o inventariante dos teus pares de botas e dos teus camapheus. Perguntou-me se eras bom, e eu disse-lhe que eras um moço honrado, e o coração d'um anjo. Tudo o mais que dissemos foi commentar o que é ser-se honrado e ser-se anjo. Provavelmente Corinna, que viu tudo em Paris, não achou lá a exquisitice do anjo-coração, e está em ancias de saber em que tu te apartas do restante do genero humano. Esta curiosidade é já uma escolha, e a escolha, se a tua modestia m'o consente, é o amor com todos os seus recatos e astucias.
Proseguiram n'esta contenda, até que Taveira viu abancar ao jogo o pae de Corinna; mas, momentos antes, observara elle que o fidalgo segredara com sua mulher, olhando o bacharel de travéz com o sabido disfarce dos que olham de travéz. D. Mafalda fizera um gesto, que vinha a dizer que estava sciente.
—Vejo que a familia está de sobre-rolda!—disse Taveira ao seu amigo—mas ainda assim avisinhemo-nos cautelosamente da praça.
Corinna acabara de dansar, e passeava pelo braço do parceiro, que por fortuna era Antão de Menezes, o apresentante emérito. Este, que adivinhava todas as subtilezas do coração dos seus apresentados, approximou-se de Azevedo, e disse-lhe com mui galharda cortezania:
—O thesouro não me pertence. Aqui o tem, que eu sou apenas o indicador dos thesouros.... sou uma especie de S. Cyprianno, que descobre as riquezas encantadas.
Antonio d'Azevedo deu o braço a Corinna, e Felisberto Taveira retirou-se com Antão.
Agora é que havia de ser umas delicias ouvil-os, se D. Mafalda, vigilante observadora da passagem innocente, não mandasse um cavalheiro dizer a sua filha que fosse fallar-lhe.
Corinna respondeu:
—Queira dizer á maman que eu vou já.
—Vá, minha senhora—disse Azevedo. Não seja eu causa de sua mãe a desgostar.
—Não importa.... Eu queria pedir-lhe que não fosse tão infeliz...
—A mim?!—atalhou Azevedo suavemente enleado pela musica d'aquella voz, em que o tom da supplica tinha o mavioso do carinho filial.
—Sim... pois não me disse que era muito desgraçado?...
—Sou.... era muito desgraçado; mas condoeu-se vossa excellencia a tal ponto de mim que....
—Que lhe peço com instancia que se não deixe vencer do tedio da sociedade; não fuja das pessoas que imagina felizes... Olhe que não encontra seis que o sejam n'estes centenares de pessoas. Eu, se fosse senhora das minhas acções, tambem aqui não vinha, e ficaria a soffrer sem nada remediar... Não posso demorar-me, que minha mãe está impaciente... Olhe que eu desejo a sua amizade... Conduza-me a minha mãe... e não se esqueça...
Este lance, que, a dar-se uma vez na vida do homem, nunca se repete, foi uma especie de vertigem, que deixou o espirito de Azevedo na indecisão de quem, a sonhar, a si mesmo se pergunta se está sonhando.
Corinna sentou-se ao lado de sua mãe, e o bacharel com os braços pendentes e a boca descerrada para tragar fôlego que lhe alargasse o peito, ficou, tres passos distante, arrobado na contemplação da gentil menina.
Taveira, que não os perdera de vista, estava-se deliciando no espectaculo que só elle via. Quando achou que era tempo de acordar o amigo de um extasis desagradavel a D. Mafalda, tomou-o pelo braço, e disse-lhe simulando seriedade:
—Quando quizeres vamos embora. São duas horas da manhan.
—Já!—murmurou Azevedo.
—Vê lá.... se queres sonhar mais alguns minutos....
Azevedo comprehendeu a intenção de Taveira, e disse com uma voz que não era a sua, e com um brilho d'olhos que nunca tivera:
—Nasce o novo homem... Sinto o coração... Agora sei que ha uma felicidade commum de todos os desgraçados. Se isto não é uma sensação passageira, hei de beijar-te as mãos, que me arrancaram do meu abysmo.
—A beijares as mãos de alguem—disse Taveira, sorrindo—é melhor que beijes as mãos de Corinna.
Antonio d'Azevedo deteve-se um pouco de tempo em recolhimento silencioso, e disse de sobresalto:
—Isto é uma nova desgraça!
—O quê? uma desgraça beijares as mãos de Corinna?
—Vê tu—proseguiu elle como se não ouvisse a pergunta galhofeira do amigo—que engenhosa é a minha funesta estrella! Hontem tive um pensamento que me deu vigor novo para crer e esperar. Projectei ir ao Brazil, e logo os horisontes do meu futuro se rasgaram, e não sei a que luz a esperança me mostrou dias ditosos. Sonhei com as alegrias do meu plano, e acordei hoje com um alvoroço estranho. A desgraça viu que eu tive algumas horas menos negras, e duvidou da sua omnipotencia. Trouxe-me aqui para eu sentir que o apartar-me hoje do local onde ouvi aquella mulher me ha de ser um tormento.
—Melhor!—interrompeu Felisberto—Ella e os teus amigos não querem que vás ao Brazil procurar a felicidade que deixas cá. Onde a procuramos é que ella não está.
—Entendes tu—disse o bacharel—que se é feliz, amando, na minha posição, uma senhora na posição de Corinna de Noronha, filha do nobre Gastão de Noronha...
—Nobre e pobre, accrescenta. Se elle fosse rico como foi, dizia-te que, a não quereres renunciar aos teus austeros principios de dignidade, convinha-te esmagar o coração debaixo da barra d'oiro que ella valesse; mas, segundo as informações que hoje me deram, a filha do fidalgo não tem mais do que tu. Entre ti e ella está estabelecida a egualdade humana, no maximo rigor da palavra.
—Ainda não—atalhou Azevedo—Eu sou filho de um lavrador de Barcellos.
—Vai tu perguntar aos lavradores de Barcellos se elles dão seus filhos ás filhas dos fidalgos que não tem terras que lavrar.
—Essa é outra questão, meu amigo. Não te esqueças que eu sou um homem sem occupação. Tão reprehensivel seria eu disputal-a ao pae sendo ella rica e eu pobre, como se quizesse associal-a á minha pobreza. Que faria eu d'aquella menina se me fosse permittido casar com ella?
—O que fazem das esposas os maridos que casam pobres. Amam-as como se costumam amar os pobres; por amor d'ellas redobram de vigor para luctarem com a adversidade; por amor dos filhos nunca esmorecem no desalento em que tantas vezes se nos deparam os celibatarios, que apenas luctaram um anno com as contrariedades. A familia é uma accumulação de forças no braço do seu chefe. O pae nunca succumbe; o marido tem uma força providencial que o ampara.
Este dialogo, o primeiro que n'este genero talvez se travou n'um baile entre dois rapazes menores de vinte e cinco annos, foi interrompido por Gastão de Noronha, que quiz ser apresentado a Felisberto Taveira.
VI.
Quiz o fidalgo do Minho apalpar o coração do filho do millionario, pessoalmente. A sua prosapia soffria-lhe que, ageitando-se o ensejo, elle mesmo se offerecesse para sogro, e poupasse o timido moço aos embaraços de pedir-lhe a filha, e aos receios de ser mal acolhido.
Ouviu Felisberto Taveira uma longa e não falsa descripção das virtudes e prendas de Corinna da Soledade. Aqui se dá um fragmento da paternal exposição:
—Minha filha, posto que vivesse na melhor roda de Paris, e a rodeassem os mais graduados moços d'aquelle viveiro da elegancia, nunca se captivou d'algum. Não lhe direi que ella se isentasse por soberba do seu nascimento, bem que pudesse tel-a, porque meu quinto avô sahiu da casa dos marquezes de Villa-Real, por onde somos Noronhas; todavia, não era vaidade a frieza de Corinna. Bem póde saber vossa senhoria que o coração é de essencia democrata, e ao coração se deve o triumpho da democracia, em virtude de se irem a pouco e pouco amollecendo as durezas de que as antigas educações callejavam o coração da mulher de linhagem. O que minha filha tinha e tem, era um juizo prudencial á prova de todas as velleidades e pompas, que seduzem o vulgar das meninas. Os seus gostos foram sempre moderadissimos; riquezas nunca a deslumbraram; os bailes e os banquetes era preciso obrigal-a a gosal-os; tudo lhe era pesado, menos a solidão, a meditação e a obscuridade. Cuidei sempre que minha filha seria insensivel ao prazer de se ver amada, e mais ainda ao de receber satisfeita a côrte de algum moço. Em Portugal, principalmente, é que não devia esperar vel-a possuida de sentimentos amorosos; porque, sem desaire da nossa patria, devemos confessar que nós, os portuguezes, temos em amor uma certa gravidade, que toca a extrema do aborrecimento. Falta-nos um certo espirito pétillant, um não sei quê de que as mulheres se deixam seduzir. Não acha?
—Sim, senhor... nós temos isso...—respondeu Felisberto Taveira, descobrindo um grande fundo de ridiculez através do aspeito encanecido do fidalgo.
—Sem duvida nenhuma... Pois, meu caro senhor Taveira, penso poder affirmar-lhe que a minha filha está pagando o universal tributo. Descobri que ama! Só o Porto podia fazer tal milagre!
—É muita honra para o Porto, senhor Noronha! e muita mais ainda para o homem escolhido.
—Que vossa senhoria conhece perfeitamente...
—Eu?...—balbuciou Taveira, quasi convencido de que o fidalgo alludia a Antonio d'Azevedo.
—Sim, senhor: conhece-o como ás suas mãos, porque vossa senhoria e elle formam dois seres n'um só ser: são inseparaveis.
Isto acabou de persuadir Taveira, que, na mais candida boa fé, accrescentou:
—E creia vossa excellencia que a pessoa preferida pela senhora D. Corinna tem virtudes e coração dignos d'ella.
—Creio, creio, e o meu maior prazer era vel-os unidos, em quanto eu tenho vida e alegria para poder felicitar-me de tão boa união.
—Agora me convenci—acudiu Felisberto—de que vossa excellencia ama sinceramente sua filha, e viu com benignos olhos a inclinação desegual que ella manifestou.
—Inclinação desegual! Eu não sou parvo de fidalgas desegualdades, senhor Taveira! Soberania ha uma só, que é a da virtude: o resto são convenções humanas sem criterio nem fundamento real. O que eu quero é ver minha filha feliz. Se os meus appellidos valem alguma coisa, meus netos hão de chamar-se Noronhas, e a todo tempo que elles queiram humilhar arrogancias d'outros nobres, poderão sempre abrir a historia, na certeza de que encontram o nome d'um avô em cada pagina. Os tempos são outros, senhor Taveira, porque são outros os corações. Violentar a vontade de minha filha!... Deus me feche os olhos antes que eu tal faça! Respeito-lhe a inclinação, que ella manifestou, porque sei que a sua dignidade foi a primeira voz que lhe deu conselho.
—Admiro a grandeza de sua alma!—tornou Taveira com mui sizuda e admirativa satisfação—E mais me espanta que vossa excellencia, antes de acceder á vontade de sua filha, não curasse de saber se o homem escolhido é bastante rico a mantêl-a na decencia com que foi criada.
—Não, senhor, não quiz saber se era rico: o que perguntei foi se era bem comportado, se tinha grangeado a estima publica, se seria um bom marido e um bom pae. Unanimemente me disseram que sim.
—E disseram-lhe a verdade, senhor Gastão de Noronha—confirmou Taveira—A riqueza de Antonio d'Azevedo só bem lh'a podem avaliar os que mais perto vivem de sua nobre alma.
—A riqueza de quem?—atalhou Gastão de Noronha com um gesto de irrisorio espanto.
—De Antonio d'Azevedo Barbosa—tartamudeou Taveira, corrido do engano em que tinha estado.
—Não nos temos entendido!... Pois vossa senhoria cuida que eu estou fallando d'esse tal sujeito?
—Cuidava... Pois não é elle a pessoa distinguida por sua filha?!... Perdão! eu entendi mal.
—Vejo que sim; e eu peço tambem perdão de entender mal, cuidando que era outra a pessoa... Ora esta!... Pois não é o senhor Felisberto Taveira?
—Eu!
—Sim, o senhor!
—Não pensei tal... e creio que vossa excellencia entendeu mal a propensão da senhora D. Corinna, posto que a escolha me daria muita gloria.
—Muito bem: façamos de conta que estivemos a fantasiar—tornou Gastão simulando um desenfado risonho, que lá por dentro era accesso de zanga e vergonha.—Pelo que diz respeito ao senhor Antonio de... como é?
—Antonio d'Azevedo.
—Ah! sim, d'Azevedo... filhote de Barcellos?
—Justamente.
—Não sei quem são os Azevedos de Barcellos... Sejam lá quem forem, meu caro senhor Taveira... tenho a dizer-lhe...
—Os Azevedos de Barcellos—interrompeu com louvavel desabrimento Felisberto—são tão nobres como os Taveiras do Porto. Meu pae veio da lavoira de Fafe para aqui; o pae do bacharel Antonio d'Azevedo morreu na lavoira de Barcellos.
—Sim, senhor: convenho em que tão nobres são uns como outros; mas a minha filha não ha de, creio eu, illudir-me mais uma hora. Queira desculpar um engano, em que vossa senhoria nada perdeu, e rogo-lhe que diga ao senhor Antonio d'Azevedo que se preoccupe com aspirações mais rasoaveis, se não interessa em dar graves desgostos a uma familia que vive tranquilla.
Quando as ultimas linhas d'este dialogo se trocavam entre os dois, qual d'elles mais corrido do seu equivoco, outro dialogo terminava entre Corinna e Antonio d'Azevedo por estas palavras d'ella:
—Eu receio que meu pae se não demore no Porto, e Deus sabe se nos veremos mais! Olhe: se tiver precisão de queixar-se da sua má estrella, faça-o a mim, que sou, desde hontem, desde sempre, desde que nasci sua amiga, e talvez sua irman por sympathia de dores. Escreva-me: eu lhe direi de Vianna em que nome me ha de escrever. Vá visitar-me em espirito á minha soledade: lá me verá sósinha por entre as arvores, em quanto minhas irmans, quasi tão infelizes como eu, procuram ao menos entreter-se umas com as outras em volta das suas saudades de Paris... Eu nem isso trouxe de lá... Não se demore, que vejo meu pae...
Felisberto chegou diante de Antonio d'Azevedo, e disse com forçado riso:
—Estás outra vez somnambulo, Antonio? Eu estou peor, porque venho estupido de spasmo!
—Que é?
—Querem casar-me com a tua Corinna!
Azevedo ergueu a fronte avincada, e disse:
—Pois é costume offerecerem-se assim as filhas n'um baile ao homem a quem se é apresentado?!
—Não é costume: é moda agora... O Gastão vai sahir com a familia—ajuntou Felisberto—Podemos ir, e lá fóra conversaremos.
Ouviu o bacharel o dialogo em resumo; contou ao seu amigo as ultimas palavras de Corinna; e adorou a imagem da primeira mulher amada nos alvores da aurora que repontava. O que elle então disse, em arrobos de poesia, era o sublime represado n'aquelle coração em sua primeira primavera.
Perguntou-lhe Taveira se pensava ainda em ir ao Brazil.
—Hoje mais que nunca—respondeu elle.
—Como assim?! Aquella mulher não te prende á patria?
—Prende-me sobre tudo a um sacratissimo dever. Até agora pensava em ir ao Brazil para segurar o futuro de quatro irmans pobremente criadas e boas de contentar com pouco; d'hora em diante hei de ver no horisonte das minhas ambições, além de minhas irmans, Corinna da Soledade, educada com as regalias da sua condição, e só digna do homem que a não obrigar a descer de posição aos olhos da sua sociedade.
—E quem te assevera—redarguiu Felisberto—que voltas rico a Portugal? De que genero de trabalho fias tu a tua prosperidade?
—De todos os generos honestos. Se não valer como advogado, valerei como caixeiro; se não tiver aptidão para o negocio, ensinarei o que sei; se tiver de descer, descerei sem vergonha; se descer tão baixo que nunca possa erguer-me d'entre os ultimos operarios, ahi ficarei, e lá morrerei: ninguem dirá, depois, que transigi com a minha inutilidade.
—Quer-me parecer—retorquiu Taveira—que a linda Corinna está sendo ainda pouquissima coisa na tua alma! Dar-se-ha caso que, em verdade, tu sejas refractario ao amor, ou que a tua sensibilidade, como disseste, se consumisse em galantear os ministros da justiça!? Qualquer homem, que não fosse tu, forte do amor inspirado por um anjo como Corinna, e com as tuas habilitações, cuidava desde já em agenciar na patria uma mediania, que a doçura da vida intima convertesse em opulencia invejavel aos mais opulentos. Suppondo que tu não pudesses, n'um ou dois annos, alcançar emprego, ou clientela como advogado, é de crer que tivesses um amigo a quem pedisses um, dois, ou mais contos de reis para te estabeleceres aqui, em Lisboa, na tua terra, ou onde quizesses viver. Suppondo mais que tu me tivesses na conta do teu primeiro amigo, era a mim que tu pedias esse emprestimo, e eu com mil vontades te servia agora, e depois, e sempre.
Antonio d'Azevedo, após algum espaço de reflexão, respondeu:
—Meu caro amigo, se o verdadeiro amor é uma desordem da razão, esse não é o amor que eu sinto. Que a minha vida está passando por nova phase, é certo: esta excitação d'alma, que eu não sei se deva chamar alegria da juventude feliz, nunca a experimentei. Porém nenhuma das minhas faculdades, que pensam, julgam, e antevêem os successos, se escureceu: ouso até affirmar-te que o juizo se revigora, e a previdencia se aclara mais. Depois d'isto, imaginemos que tu me emprestas o cabedal necessario para eu ter uma casa, uma esposa, e a subsistencia certa de algum tempo. A esposa devia ser necessariamente a filha de um homem que cahiu da sua dignidade offerecendo-t'a porque és rico, e que se dignou recommendar-me que não perturbasse o socego de uma familia, que vive tranquilla. Não foi isto?
—Pouco mais ou menos.
—Bem: e não entendes tu que seria uma indignidade ir eu perturbar o socego do pae de Corinna, casando-lhe com a filha, por meio d'um rapto ou da intervenção da justiça?
—Não entendo assim a dignidade. Se Corinna consentir em ser raptada para o mais santo dos intentos a que o coração a pode impellir; e, se ella rasoavelmente se não quizer sacrificar á ambição do pae, nem a tua honra, nem a sua, nem a da familia illustre ou não illustre, soffrem desaire.
—Discordamos—replicou Azevedo—Gastão de Noronha quer que sua filha case rica: entende elle que sua filha só póde ser feliz sendo rica. Será absurdidade uma tal opinião? Vai tu perguntar a qualquer pessoa estranha a Corinna, se a julga feliz na pobreza: ha de responder-te que a julga mais feliz sendo rica. Pois se os estranhos pensam assim, que fará um pae?
—Convenho; mas sobejam exemplos de mulheres sacrificadas por esse erro dos paes.
—Deixal-os sobejar: ainda mesmo que todos os exemplos fossem contra os paes, nem por isso a vontade bem intencionada d'elles deixava de ser respeitavel; mas crê tu, meu amigo, que o maior numero de casos justifica o arbitrio dos paes. Eu tenho vivido muito arredado d'estes estudos da sociedade em que tu deves saber muito; assim mesmo, se tu quizeres posso recordar-te de os ter ouvido a ti e aos outros, alguns casamentos mal agourados por terem sido contra vontade das filhas, arrancadas por força a affeições de moços pobres para serem adjudicadas a homens odiados com toda a sua riqueza. Pois, com o rapido andar de alguns mezes, se não dias, as esposas violentadas apparecem radiosas de alegria nas suas carruagens, nos seus camarotes e nos seus salões; em quanto os mocinhos pobres e amantissimos, ou porque emmagrecem, ou porque engordam muito, chegam a passar por as noivas, que os poetas denominam martyres, sem ellas os conhecerem.
Felisberto riu-se do semblante grave com que o seu amigo proferiu as ultimas palavras.
Após breve pausa, Antonio d'Azevedo continuou:
—Estamos aqui a fallar de casamento, como se Corinna me tivesse dito que quer casar comigo!... O que ha entre nós é uma ligação das que se desligam no intervallo de dois bailes, meu amigo. Lembra-te que eu não sou de todo hospede n'estas materias: traduzi vinte ou mais volumes de romances, e acredito nos romances, cujas passagens a minha razão explica. Dado, porém, que a magîa é duradoura, e que este amor encerra em si um drama, que ha de fechar pelo casamento, eu só poderei ser marido de Corinna quando opae me acolher, sem equivoco, como te acolheu a ti ha poucas horas. É preciso que a justiça não interceda a favor do meu coração. Quando eu puder dizer a Corinna que sou bom, e ao pae de Corinna que sou rico, então verei se este presentimento da felicidade era mais que um sonho dos que os grandes desgraçados convertem logo em excruciante realidade da vida. Por ora, nem bom nem rico. Para a bondade falta-me ter esgotado as forças que ainda sinto em adquirir meios com que sustente uma grande porção do bem-estar, impossivel de alcançar-se sem elles. Eu não sei que merecimentos póde ter, no conceito d'uma mulher, o homem pobre que, em nome da sua desvairada paixão, a convida a ser pobre com elle, e a receber da sociedade as, talvez involuntarias, desattenções que necessariamente avexam o pobre, se elle não está santificado pela paciencia. Ora, a santificação n'estes nossos dias, meu amigo, nem o muito amor a póde dar aos casados pobres.
—Do teu arrazoado—disse Felisberto—concluo, e toda a gente ha de concluir, que amas Corinna como um inglez, estabelecido nas Antilhas, amaria a sua noiva, que elle nunca viu, estabelecida em Londres. Dentro de quinze dias estás mudado, ou então ha ahi grande aleijão na tua alma! Hei de dar-te um conselho, se não mudares.
—Então dá-m'o já, que eu fico pela minha constancia.
—Ordena-te, faz-te conego, bispo, patriarcha, cardeal, e não vás ao Brazil.
VII.
Gastão de Noronha, poucos dias depois do baile da Torre da Marca, sahiu do Porto apressadamente com a familia, por saber que chegara a Vianna um seu parente de Lisboa, com o intento de passar a estação da primavera na quinta das margens do Lima.
Momentos antes da partida, Corinna da Soledade escreveu esta carta:
«Vamos partir. Lembre-se d'esta sua outra irman para lhe contar os seus dissabores. Póde parecer-lhe que este desejo das suas cartas é desejo de quem vai viver na solidão da aldeia, e precisa distrahir-se seja com o que fôr. Talvez a sua bondade me não recusasse tal distracção, ainda mesmo tendo o meu amigo a certeza de ser tamanho e tão de gelo o meu egoismo. Não, não é assim. Eu, sem pejo, lhe confessei que o estimava quanto podia, e nenhum accidente da minha vida me fará mudar. Se vir o caminho da felicidade, siga-o, meu irmão, e não volva a face lá para a minha soledade, para aquelles arvoredos onde eu hei de esconder-me com as suas cartas. Adeus.==«C. da S.»
Na carta ia incluido um bilhete com um nome de homem, a quem deviam ser subscriptadas as cartas de Antonio d'Azevedo.
Agora sabe a sensivel leitora se Corinna da Soledade tinha razão de estar triste mais que suas irmans, quando, idas do tumultuoso Porto, se viram outra vez no ermo, quando as arvores mal sacudido tinham os gelos do inverno, e começavam a abrolhar os gomos da sua nova folhagem.
O parente, que esperava em Vianna, Gastão, era um fidalgo sexagenario, filho de Lisboa, grande morgado no Alemtejo, e muito amigo de divertir-se, do que dera cabal prova no decurso de sua vida celibataria. Chamava-se D. João de Mattos e Noronha, e vinha a ser segundo primo de Gastão, ou coisa assim parecida. O ir elle ao Minho, na primavera d'aquelle anno, posso asseverar-lhes que não era movido por desejo de vêr florido o jardim de Portugal, nem se lhe a elle dava que as claras aguas do Lima corressem para baixo ou para cima. O caso era todo medicinal. Como sentisse as pernas fracas, e o estomago preguiçoso, consultou varios medicos, e todos lhe disseram que fizesse exercicio, e bebesse bons ares, especialmente os do Minho. Occorreu logo a D. João de Mattos que tinha um parente nos suburbios de Vianna; e, posto quenunca se vissem nem correspondessem, entendeu elle que, a toda a hora, um Noronha seria bem recebido no solar do fidalgo minhoto. Outra razão vem condizendo para explicar a escolha da provincia, e era que o velho fidalgo de Lisboa, na ultima decada da vida, se fizera tão economico e aváro, quanto fôra prodigo e dissipado até aos cincoenta annos: d'onde resultava que o seu grande prazer seria achar bom gasalhado gratuito em casa de parentes, que se dariam por bem pagos com a honra de o terem hospede.
Cresceu de ponto a satisfação do velho, quando se viu alegremente acolhido nos braços de seu primo, dando a beijar a mão ás cinco formosas meninas, que lhe chamavam tio D. João.
A medicina teve um triumpho. O estomago de D. João activou admiravelmente suas digestões; as pernas pareciam recaldeadas de aço; movia-se o remoçado velho com a flexibilidade dos seus quarenta annos. A natureza brindou-o com as suas urnas aromaticas: eram tudo tapetes e doceis de flores a festejal-o; as calhandras e os rouxinoes desgarravam-se em cantilenas quando o velho passava com as sobrinhas pelos braços; até o Lima, recobrando a primitiva magîa de dar o esquecimento a quem o transpunha, parecia ter matado no sexagenario saudades, e renascido esperanças em novo começar de vida.
Esperanças! ora, esperanças aos sessenta annos, (diz o leitor) em que, a não ser na salvação de sua alma?
Verão o que d'alli sáe. Hão de maravilhar-se do influxo d'aquelles ares e aguas do Minho, nas fibras revelhas de um peito ido de Lisboa, onde as cachexias do coração vem muito mais temporans—o que, a meu ver, se deve ao mau ar e á pessima agua, elementos importantissimos do sangue.
D. João de Mattos, conversando, uma vez, a sós com seu primo Gastão, disse ao correr do dialogo:
—Olha, primo, o celibato dá aos moços vantagens, que, no velho, são amargamente descontadas. Mil vezes, nos ultimos vinte annos, me tenho arrependido de não haver casado. Desprezei grandes fortunas, porque era rico, e formosas mulheres, porque era um estroina de pessimos costumes: parecia-me que a belleza é uma flor boa para se aspirar e deixal-a ainda viçosa para que nol-a invejem e furtem; em quanto que a obrigação de conservar em casa a flor murcha é um pesadelo. Isto é que eu pensava com a minha libertina philosophia dos vinte, dos trinta e dos quarenta annos. Quando orcei pelos cincoenta, lembrou-me que, aos sessenta, precisaria de uma familia, de uma esposa, de filhos, de carinhos e das doces illusões da velhice. Pensei em casar-me. Procurei as mulheres que amara aos trinta, e achei-as mães e avós; algumas que se conservavam solteiras estavam feias e velhas. Veja o primo o poder dos maus habitos!—quando assim as vi, ainda cá disse de mim para mim: «olha se eu tenho casado, que bonitas creaturas estas para me ajudarem a bem-morrer!» Muito custa a purgar a peçonha dos mausprincipios, primo Gastão! Aqui tem, pois, vossa excellencia que por um triz não cedi á tentação de casar com uma menina de vinte e cinco annos, filha segunda da casa da Trofa em Evora, a qual os paes me davam com a melhor vontade, e ella tambem não mostrava sombra de constrangimento; mas um dia, não sei como, vou a casa d'um tenente de cavallaria, ainda nosso parente, e vejo-lhe sobre uma mesa um ramo de flores velhas atadas com uma fita de setim verde que eu mandara á minha futura, atando outro ramilhete, em dia dos seus annos. Pensei no que vi sem dizer nada. Faz lá ideia do castigo dos meus erros começados n'aquella hora de ciume! Ninguem imagina a dor de um velho ludibriado, se elle ainda conserva coração com bastante memoria para lembrar relances reprehensiveis de sua mocidade!... Fui para Lisboa sem me despedir da noiva, e de lá escrevi ao pae, dizendo-lhe que seria grande acerto casar sua filha com o tenente de cavallaria. Como de facto acertaram casando, e lá estão felizes com muitos filhos. O que eu nunca pude acabar de entender é como podia aquella menina acceitar-me, e com que vistas o faria? Dispunha-se a ser feliz comigo, e vai depois ser feliz com o outro! Entendam lá as mulheres d'agora tão differentes das do meu tempo! De maneira, meu caro primo, que a minha decrepitude será triste a mais não poder. Á hora da morte hei de ver-me rodeado dos successores do morgadio, sobrinhos que aborreço, porque os vejo sempre a contarem-me as rugas novas da cara, e sei que tem o lisongeiro cuidado de perguntarem por mim, todos os dias, aos medicos. Tenho accumulado os rendimentos por não saber em que dispendel-os; e tudo isto ha de ir dar áquellas mãos ávidas de meus sobrinhos, e depois elles é que hão de saber gosar o que eu já não posso.... Triste, tristissima coisa, primo Gastão!
—Isso é assim, primo D. João....—murmurou com doloroso tregeito de beiços e olhos o pae das cinco meninas solteiras; e proseguiu—O primo, ainda assim, por causa de uma é injusto com as outras mulheres. As de hoje são como as de todos os tempos: ha bom e mau. Ora assim como D. João deu com uma das más, podia ter encontrado uma das muitas que ha boas, e estar a esta hora muito satisfeito, e ter já um herdeiro dos seus vinculos.
—Palavra de cavalheiro!—exclamou com alvoroço D. João—quando penso que podia ter um herdeiro dos meus vinculos, e arrancar a minha casa das garras famintas de meus sobrinhos, morro de desesperação por me não ter casado! Que contentamento seria o meu, ó primo! um filho! um herdeiro!
—Pois ainda está em tempo—atalhou Gastão—case-se; não hão de faltar-lhe noivas, sem sahir da sua qualidade. Ha de achal-as mesmo na sua parentella, dignas, formosas, capazes de lhe honrarem a velhice, e encherem de alegria e mocidade os seus ultimos annos.
D. João fitou os olhos descorados e franzidos no rosto do primo, estendeu-lhe a mão cortada de cordoveias, e tartamudeou:
—Se eu tivesse vinte annos menos, pedia-lhe uma de minhas sobrinhas, primo Gastão.
—Escolha, primo—disse o pae de Corinna apertando-lhe affectuosamente a mão.
—Não escolho nem peço nenhuma—tornou o velho—Veja se me tira vinte annos das costas, e depois pedirei a nossa Corinna, que é um anjinho, mas não para mim, que posso ser avô d'ella. Nada, primo, nada: para desgraçado basto eu.
—Façamos um contracto. Eu tracto de sondar a vontade de minhas filhas, e especialmente de Corinna. Se esta, ou alguma das outras se mostrar bem disposta a ser sua esposa, o primo D. João não se nega.
—Palavra de D. João de Mattos e Noronha, que não me nego; pelo contrario, morrerei de felicidade, porque, além da esposa e da sobrinha, levo comigo a mulher, cujos costumes tenho apreciado em mez e meio de convivencia a todas as horas.
Fechou-se o dialogo com poucas mais palavras de reciproca satisfação dos dois fidalgos. Em quanto elles praticavam, lia Corinna da Soledade a decima carta de Antonio d'Azevedo, que dizia assim:
«Esta é a ultima carta que lhe escrevo em Portugal, minha amiga. O navio parte depois de ámanhan de tarde. Agora vou a Barcellos abraçar minhas irmans, e despedir-me das memorias da minha infancia. Sinto um prazer amargo em me ir approximando do seu ermo. Cinco leguas apenas nos hão de separar quando ler esta carta. Dê-me uma lagrima como retribuição da angustia com que eu hei de lançar a derradeira vista ao ceo que cobre os seus arvoredos. Quando eu era criança, ia tantas vezes d'um alto, onde ha ruinas d'um castello, olhar para esses sitios! Que visão seria aquella da minha alma, então magoada como se presentisse a saudade de hoje!
«Mande-me ter coragem, minha querida amiga: diga-me antes, como tantas vezes me tem dito, que a dignidade excessiva me tem dado ao coração liga de bronze. Ai! quanto se engana, Corinna! quanto se enganam os mesmos amigos de quem não escondo um pensamento!
«Levo alegres esperanças. Os bons Taveiras tem-me dado cartas de summo valor de pessoas muito importantes d'aqui para outras do Rio de Janeiro. A mim não me ha de custar a merecer a bem-querença de todos: levo comigo a segurança no firme proposito que fiz de não sahir do caminho dos meus deveres. O que fui comsigo, minha amiga, hei de sêl-o em todas as situações da minha vida. Se esta estrada me não guiar á felicidade sem remorsos, é que não ha nenhuma.
«Vou no intento de advogar. Em poucos annos, com o auxilio de amigos e fervor de trabalho, posso ganhar a mediania que basta aos nossos moderados desejos. Poucos annos, Corinna, que rapidos hão de ir como vão os annos dos felizes. Verá que a esperança lhe aligeira o tempo, e as minhas cartas lhe hão de acudir nas más horas da desanimação. TemosDeus por nós. Deus, minha Corinna! Escrevo-lhe estas quatro lettras com quanta uncção póde dar a fé ardente d'um homem sem culpa. O premio que Deus me dá é a consciencia de poder assim fallar de mim; e chego a crer que este dom me basta para valer muito em seu conceito. Se me não sentisse puro de vergonhas e remorsos, Corinna, julgar-me-ia indigno de si.
«Eu quizera poder dizer a todo o mundo, e a todos os desventurosos escravos de suas paixões, que nenhum amor, por mais desmedido que seja, carece de provar que o é com destinos e excessos censuraveis. É a primeira vez que amo, Corinna, e amo-a muito: pois, por sua vida lhe juro, que ainda leve sombra de intenção culposa me não nubelou a limpida esperança de a ver minha esposa. Estou chorando e estas lagrimas não sei se qualquer amante as verte. Sei que muitos as fariam chorar de sangue a outrem, para se esquivarem ao trance que me está fundamente doendo no coração. E eu, por mim, antes quero padecer agora, porque sei que hei de ser consolado. Os dias prosperos não vem do acaso: são grangeados, como as searas, a muita fadiga e com muitos intervallos de desalento: a final a colheita de fructos e de bençãos; o coração ainda novo para saborear os fructos, e o espirito cheio de santa vaidade por ter merecido as bençãos.
«Espere-me, minha doce amiga; seja o meu anjo animador; mostre-me de cá sempre a patria á luz da sua alma allumiada de graça divina.
«Escreva-me, e mande as suas cartas ao nosso bom amigo Taveira; as minhas, por mediação d'elle, todas receberá, e muito longas, para lhe encurtar as horas, e dar alguma alegria ás minhas noites.
«Corinna, minha querida esposa, não posso continuar. Sejamos dignos um do outro. Offereço a Deus as lagrimas que hei de chorar, pedindo-lhe que enxugue as suas com as consolações da esperança. Tenha muito animo. A religião ha de dar-lhe o que o meu amor não puder. Estarei sempre com a sua alma, e Deus será sempre entre nós, porque muito do intimo creio que entre dois infelizes sem culpa está sempre um bom anjo. Adeus.»
VIII.
O jubilo de Gastão de Noronha, causado pela proposta de D. João de Mattos, foi, n'aquelle mesmo dia, aguado por extraordinaria e imprevista angustia.
Os vinculos que administrava o descendente dos marquezes de Villa Real, trouxera-os sua mulher, D. Mafalda de Athaide, natural de Ponte do Lima, havidos de um tio, que morrera sem descendencia directa.
Em quanto Gastão estivera no estrangeiro appareceu um filho natural do antecessor dos vinculos administrados por D. Mafalda, allegando o seu direito á successão dos bens de Fernão d'Athaide. O fidalgo não deu pezo ás consideraveis provas de habilitação do contendor. De mais a mais, como o seu nome de liberal valesse muito a favor do pretendente, o pleito decidiu-se contra Gastão em primeira instancia. Seguiu o processo os termos de appellação para as superiores instancias. Gastão tinha parentes nos altos cargos da judicatura, liberaes rebuçados, que protegeram o réo ausente, contra o favorecido author. O pleito ficou alguns annos trancado no desembargo do paço, até que o emigrado voltou. Os primeiros annos, que seguiram a restauração, foram tumultuosos e favoraveis em todo o sentido para os que, mais ou menos prestantes, se diziam restauradores. Como em tudo assim era desleixado e imprevisto, o fidalgo não curou de rematar o litigio, destruindo as provas do filho natural, nem mesmo quiz averiguar a sua plausibilidade, ou fazer que o processo se perdesse.
Em 1840 requereu novamente o filho natural, documentando o seu arrasoado com uma carta de perfilhação concedida por D. João VI no Rio de Janeiro, para onde Fernão de Athaide, pae do habilitando, fôra com o rei em 1807. Ajuntava este aos autos reconstruidos cartas escriptas por seu pae, tanto a elle, como a sua mãe, portugueza de origem, que fallecera no Rio de Janeiro, casada e dotada pelo fidalgo de Ponte do Lima. Accrescia a isto o depoimento de doze testemunhas de ouvirem dizer ao moribundo Athaide que tinha no imperio do Brazil um filho natural, chamado Fernando de Athaide, ao qual testava todos os seus bens livres e vinculados.
Este legado, com quanto em principio devesse tornar duvidosa a successão de D. Mafalda aos vinculos de seu tio, foi pouco no conceito dos principaes lettrados, quando Gastão de Noronha os consultou: diziam que os bens vinculados não podiam ir ao filho natural, nema declaração do velho á ultima hora da vida podia esbulhar da successão a legitima descendencia.
Em 1829 viera Fernando de Athaide a Portugal a tomar conta da herança: achou sua prima empossada n'ella, e a favor d'elle os jurisconsultos que tinham dado por boa e legitima a espoliação.
Em 1832, enfadado das delongas da decisão e do patronato que sua prima tinha em Lisboa, voltou para o Brazil onde tinha o seu florente commercio de café, herdado de sua mãe, que morrera abastada, e universal herdeira de seu marido.
Voltara novamente Fernando á patria de seu pae, depois de visitar as capitaes da Europa, e mais por brio do seu appellido, que por necessidade de duas duzias de contos de reis, instaurou segunda vez o pleito, confiou-o a habeis advogados e procuradores, e seguiu viagem para o Rio de Janeiro.
Esta noticia, com os accessorios funestos de um presumivel perdimento da causa, foi surprender Gastão de Noronha, quando elle cogitava no melhor modo de fallar a Corinna em casamento com o tio D. João. Sahiu o fidalgo para Vianna a ouvir o parecer de advogados, que lhe foram desfavoraveis. Voltou a casa mais firme na resolução de segurar a futura subsistencia da familia, casando uma das filhas com o provecto primo, cuja abastança daria para viverem todos largamente.
Chamou Corinna a mui secreta prática, e contou-lhe em miudos a historia do filho natural, as probabilidades da perda da demanda, a irremediavel pobreza da familia e a precisão de ella se sacrificar á decencia de seus paes e suas irmans, casando com o tio D. João, por ser das cinco a menina que elle preferia, posto que se não despedisse de casar com uma das outras.
—E nenhuma de minhas manas quer casar com o tio D. João?—perguntou Corinna.
—Ainda as não consultei; eu é que desejo que sejas tu.
—As boas intenções de meu pae são providenciar ao futuro de nossa familia por meio d'este casamento?
—Sim, minha filha.
—Eu com lagrimas lhe digo que não posso servir a esse bom intento.
—Porque?—atalhou o pae entre pasmado e colerico.
—Porque morro, porque hei de morrer antes de ser mulher do tio D. João. Não me recuso, meu pae: faça vossa excellencia o que quizer.
—Ora!—tornou o pae modificado em sua ira—Não morres, não, filha. Isso é o que te parece agora; tu verás que todos te ajudaremos a levar a cruz. E, depois, cuidas que teu tio ha de viver muito? Está alli e está na cova. As escripturas hão de ser feitas de modo que, ainda mesmo que tu fiques viuva sem filhos, has de ficar riquissima.
—O pae não quer acreditar-me...—atalhou, soluçante, Corinna.
—Acreditar o quê?
—Que me mato, se Deus me não levar para si.
—Sei o que é isso...—tornou Gastão escarlate de ira—É o homemzinho de Barcellos que te ha de fazer perder de todo a minha estima. Não tem duvida: tu te arrependerás!... Cuidas que, por ser a mais velha, tens os vinculos? Já te disse que não tens nada. Quando quizeres um vestido, e não haja em casa um objecto que se venda para t'o comprar, veremos como te vestes com o amor do valdevinos de Barcellos.
Disse, e sahiu enfurecido.
A irman de Corinna, sua immediata em idade e formosura, era Emma. Esta menina parecia a mais meiga, docil e resignada. Devia estas virtudes á brandura de sua indole fleugmatica e um tanto fria. O seu prazer era a quietação, que parecia uma invencivel preguiça. Bem que estranhasse tanto como as outras a mudança de Paris para a quinta do Lima, foi a primeira a conformar-se, e achar certa suavidade no socego e silencio, que affligia as irmans. Era esta tambem a que dava mais trela ao palavriado do tio D. João, e por vezes se ria a bom rir das baforadas de juventude que ainda, a tempos, sahiam mornas lá das cinzas do coração do velhusco. Como amiga de estar em casa, sentada ao piano, ou amezendrada n'um tapete, D. João tinha sempre certa a palestra com aquella pachorrenta sobrinha.
Gastão foi ter com Emma, e encontrou-a aparando as unhas a D. João, e a rir-se muito das caretas, que o velho fazia, receando que a tesoura lhe entrasse pelo sabugo. Gastão tomou como de bom agoiro a scena intima das unhas. Compoz o semblante de risos, avisinhou-se do grupo, e achou tambem graça aos chistes da filha e aos esgares do primo.
—Ahi está o nosso D. João—disse elle—gosando um dos milhares de prazeres da vida domestica. Quando era moço, e requestava damas, sentiu alguns d'esses innocentes jubilos, primo D. João?
—Já estive a pensar n'isso, primo Gastão; mas o diacho da Emma não me deixa pensar em nada se não em guardar os dedos da implacavel tesoura d'esta linda parca... Olhe que já me quiz cortar a ponta do nariz, a traquina, que só não tem preguiça para cortar narizes... e corações.
Accrescentou D. João ao galanteio um regougo de riso, com o que a menina desatou uma gargalhada tão pachorrenta, que acudiram as irmans, salvo Corinna, a rir sem saber de quê. D. João cuidou que ella se desmanchava assim, á conta da ultima e novissima careta que elle fizera.
Logo que o ensejo se proporcionou, Gastão de Noronha perguntou ao primo se Emma seria uma digna esposa d'elle. O velho acudiu logo, dizendo:
—Estava eu para lhe dizer, primo, que, a não ser Corinna, de boa vontade casaria com Emma. Acho-a mais dada que as outras; mais socegada e amiga da casa. A creatura passa horas e horas sentada no tapete, em quanto as outras me estão sempre a convidar a passeios, e querem que eu salte portellos e vallados como ellas, senão fazem-me apupadas as doidinhas! Corinna agradou-me pelo seu juizo; mas, a dizer-lhe a verdade, acho-a triste de mais; e esposa triste não serve para velho, que bem lhe basta a rabugice e pezo dos annos. Em fim, primo, se Emma me quizer, aqui estou.
Poucas horas depois, Gastão encerrado com Emma, perguntava-lhe se ella quereria segurar uma enorme fortuna, casando com seu tio D. João.
—O papá está a mangar comigo!—disse ella rindo.
Com poucas palavras a convenceu da seriedade da proposta. Emma ouviu tudo com desusada seriedade. Viu no rosto do pae signaes não fingidos de atribulado, fallando da imminente ruina de seus haveres, e da recusação de Corinna. O tom com que elle pedia a Emma o sacrificio era já supplicante. A menina respondeu primeiro com lagrimas e depois com a promessa de satisfazer os desejos de seu pae.
Nunca pae algum beijou sua filha com tamanho transporte de ternura!
Foi logo avisado D. João da resposta de Emma. O velho desenvolveu de repente um pudor senil de muita graça! Estava, como noiva que se peja de apparecer ao noivo, na sala onde o papá a manda chamar, a fim de, em presença de ambos, confirmar vocalmente os anhelos de todos tres. Esquivava-se D. João de encontrar a sobrinha; e, quando lhe ouvia a voz, córava! Era a segunda infancia a fazer milagres de remoçar corações mumificados!
Desde este incidente, Corinna da Soledade nunca mais viu um sorriso, nem ouviu palavra carinhosa de seu pae. As caricias, repetidas até ao extremo da ridiculez, eram todas para Emma, a quem elle chamava a salvadora da familia. Pensava já Gastão no processo de defraudar a filha mais velha dos vinculos, como esquecido da demanda em que os vinculos estavam tão arriscados, que nem o seu proprio advogado lhe dava esperanças de vencimento.
Cuidaram desde logo os fidalgos em requerer dispensa, que o Nuncio apostolico residente em Lisboa concedeu.
Em seguida usou o pae da noiva de ardilosos rodeios para levar o futuro genro a dotar a filha com os bens livres, que valiam muito, e grandes arrhas. D. João de Mattos, ao principio irresoluto, porque o animo sovina lhe inspirava duvidas, deu-se a final por vencido, e dotou a noiva com avultado cabedal em dinheiro depositado em bancos de Inglaterra, e estabeleceu-lhe arrhas mais que sobejas para uma viuva se não lembrar mais dos sessenta annos do seu defuncto marido, ao ver-se sósinha n'este valle de lagrimas.
Estava resolvido que as nupcias seriam celebradas em Lisboa, para onde iria toda a familia, excepto Corinna, que pedira licença ao pae, e facilmente a obtivera, de ficar n'um mosteiro de Vianna, em companhia de uma prima de sua mãe.
A noiva encarava o futuro com a salutar pachorra de sua compleição, e continuava a aparar as unhas do noivo e a rir-se das muito engenhosas visagens com que o bom do velho julgava bem merecer da estimação da menina. As outras tres meninas, a cuidarem nos arranjos da partida para Lisboa, andavam alvoroçadas e felicissimas. Corinna esperava a vespera da partida, com não menos alvoroço, para entrar no mosteiro de Santa Anna.
Sorriam-lhe lá da sua cella as tristezas e a soledade em que o desafogado coração se gosaria livre, livre para ir-se além-mar, nas longas cartas, escriptas sem medo de ser surprendida, pedir ao digno moço que lhe acceitasse a reclusão, tão voluntaria, como prova de seu esperançado amor.
Estava marcado o dia da partida, tomadas as liteiras, as cavalgaduras, e convidado o prestito dos parentes, que desceriam do alto-Minho para acompanharem os noivos até ao Porto. Quatro dias antes do designado, D. João de Mattos e Noronha, assignadas as escripturas, foi para a mesa, que n'esse dia era lauta e muito concorrida.
Um dos pratos mais de cobiça, e ingratos a estomagos fatigados, era o salmão, o salmão de Vianna, famoso em toda a parte onde a gastronomia tem sacerdotes e martyres.
Entrou o noivo pelo salmão com a voracidade dos vinte e cinco annos, não obstante o cauteloso primo lhe haver dito que se abstivesse de competir com a sua Emma em materia tão indigesta. Parece que Emma gostava muito do appetitoso pescado, e devemos suppor que o velho, por comprazer com o paladar da noiva, quiz fazer heroismos de deglutição. Perdoavel excesso para quem sabe o que é amar!
Declarou-se a indigestão, quando ainda se estava á sobremesa. D. João pediu genebra, bebeu em proporção com o volume do bolo indigesto, e, dando-se alta na incipiente molestia, comeu ovos mexidos em grande porção, e correspondeu a todos os brindes com absorvente enthusiasmo.
Estavam todos admirados do vigor digestivo do sexagenario, e do rubor juvenil que lhe ressumava nas faces, quando o velho se sentiu anciado, e pediu um vomitorio prompto. Cada pessoa de familia lhe ministrava um remedio, e Gastão, mais que todos, mostrava sua inquietação, mandando chamar medico a Vianna. Foram logo sensiveis os symptomas de apoplexia. D. João tinha os olhos injectados de sangue, e a cabeça em brazas vivas. Votaram todos pela sangria; mas não havia sangrador, nem sequer lanceta. O abbade da freguezia estava presente, e, como bom pastor, foi de parecer que seria muito util ministrar os sacramentos ao enfermo, visto que as apoplexias eram summarias n'aquellas idades e por taes causas.
Redobraram os sustos de Gastão de Noronha. A morte, anticipando-se quinze dias, dava um golpe terrivel em toda aquella familia. O menos damnificado seria de certo o morto. Quem mais soffria as angustias do moribundo era Gastão! Perguntou elle ao abbade se seria acertado dizer a D. João que recebesse as bençãos nupciaes.
O clerigo encarregou-se de lh'o propor. O enfermo, já quasi desaccordado, ouviu a pergunta e estorceu-se em desesperada afflicção. Foi então que elle viu a morte na pessoa do inoffensivo abbade. Á segunda instancia, D. João fez um esgar repellente, e sacudiu vertiginosamente os braços e as pernas. Gastão disse a Emma que se approximasse do leito, e lhe dissesse algumas palavras confortadoras. Emma foi com semblante de medo. As feições do velho, já lassas e lividas, para assim o dizermos, cheiravam a cadaver. A pallida menina foi tremendo.
—Dá-lhe a mão—disse-lhe o pae ao ouvido.
Tocou ella na mão tepida e insensivel do agonisante com repugnancia.
O abbade, instado por Gastão, disse:
—Senhor D. João de Mattos, vossa excellencia recebe como sua legitima esposa a senhora D....
O velho deu um sacão, e esgazeou os olhos espavoridos.
Emma retrahiu-se aterrada, e o abbade sahiu a ir buscar os santos oleos.
—Vai-se embora, abbade?!—perguntou o fidalgo furioso de sua afflicção.
—Não ha que fazer aqui, senão cuidar-lhe da alma—disse o padre—O homem já não dá accordo de si: o casamento n'este estado ficaria canonicamente nullo, fidalgo!
Sahiu o abbade da egreja com o viatico, e recolheu logo, por lhe dizerem que D. João tinha expirado.