«
«Ás seis horas da tarde, quando vou do
escriptorio, encontro sempre a minha Corinna sentada n'um pequenino
ressaio, como se lá diz no meu Barcellos, que tenho
á porta da chacara. Alli é a minha
primeira paragem, em que o espirito se desfadiga do pesadello das leis:
o coração toma absoluto
imperio sobre as minhas outras faculdades, e todo me deixo adormecer na
quietação d'um bem-estar, que
só podem conhecer os operarios d'um dia inteiro, quando ao
cahir da noite, se repousam ao lado da companheira,
por amor da qual se cansam e recobram.
Os nossos frugaes jantares são rapidos, e assazoados dos
infantis gracejos da minha Corinna, que os tem sempre novos para
encarecer a profusão das iguarias. Depois vamos por esses
caminhos fóra, admirando tudo que nos vem ao encontro a
sorrir: são as arvores e flores de todas as ricas vivendas
d'este luxoso torrão: tudo é nosso, porque, meu
amigo, nada
ambicionamos do que vamos vendo.
«Corinna está-me sempre repetindo a historia dos
nossos amores, que eu acho sempre nova. Os dois bailes do Porto em que
a vi; as primeiras palavras que eu lhe disse, com destemperada lamuria;
os seus pensamentos lá no Lima, dia por dia, e hora por
hora. Sinto-me duplicadamente viver na sua vida passada; parece-me que
estou tomando posse d'uma existencia que devia ser minha desde
então.
«Deito-me cedo para me levantar com a aurora. Corinna
lê até tarde: lê alto em quanto
vê que eu a escuto; depois, vai diminuindo gradualmente a voz
até me ver adormecido. Rirás tu d'esta miudeza de
traços no quadro da felicidade domestica? Se ris, visconde,
mal de ti, que os não has de saber gosar. Uma coisa
magnifica, estrondosa, e apparatosa, que vai pelo mundo, chamada
Felicidade, feitas as
contas,
sabes o que é? É isto, são os
singellos prazeres, que não valem nada descriptos, e
são a
bemaventurança sentidos. E não valem nada, porque
a gente que os lê, pensa que pouco vai de desejal-os a
tel-os.
Que engano! A mais facil
felicidade é a que requer mais grande
coração e pura consciencia. Se estes bens fossem
communs, todos eramos felizes. Nós antes queremos ser todos
ricos.
»
Valentim da Costa foi, um domingo, jantar com os
seus
filhos, termo de muita amizade
com que elle os acarinhava. N'esse dia se completavam os setenta e nove
annos do ancião. Depois do jantar, desceram a sentarem-se
debaixo das quatro palmeiras, que davam o usurpado titulo de chacara
á casinha dos venturosos. Ahi fallou sempre o velho, com a
perdoavel vaidade de quem sabe tudo do passado, e possue a chave dos
futuros. Ora! por onde elle andou! Foi cavar na raiz da
revolução franceza, contou a vida de
Napoleão, a fuga de D. João VI, as anecdotas da
côrte, a infancia e
juventude do senhor D. Pedro IV, a mocidade estudiosa e as virtudes
civicas do actual imperador do Brazil, e tudo isto para concluir que o
presente era melhor que o passado, e que o futuro será
melhor que o presente. E a tal proposito ajuntou:
—Vossês não façam caso do que
eu
disser, quando elogiar as coisas e pessoas do meu tempo. O
seu
tempo é a balda dos velhos, que, ao
verem-se carregados de tempo, não só querem que
seja
seu—o que ninguem lhes
contesta—;
mas até querem que o tempo d'elles fosse a melhor quadra dos
dezenove seculos que já
lá vão. Ora eu, que sou velho e ao mesmo passo
rasoavel, se duvidasse das virtudes d'este tempo, duvidaria das vossas,
meus filhos. Dizem que a velhice é egoista,
e morre devorada de odientos ciumes da
geração nova, não só porque
é boa de indole,
que tambem por ser inventora das regalias que vieram tarde para ella.
Deus me livre de ir á eternidade com este trambolho agarrado
ás pernas: bem me basta a gotta! Eu cá
de mim até folgo de acabar, quando começa uma
transfiguração na face da terra, coisa nem sequer
sonhada ha quarenta annos, quando eu e os meus contemporaneos
motejavamos o desconfortavel viver de nossos paes. Não me
dirão o que nós tinhamos mais
do que elles, ha quarenta annos?! Vossês é que
podem rir-se de
mim e dos meus; mas nem por isso lhes quero mal de inveja. O meu amor
á gente nova chega a ponto de eu me desejar morrer no meio
d'ella. Querem-me os meus filhos trazer para sua casa? Eu
estou por alli
sósinho n'aquella rua do Ouvidor, muito rica, e muito
bulhenta. Tenho lá tres pretos e tres pretas a quem quero
dar a liberdade, e os diachos não a querem! Olhem que
é forte mania a dos que dizem que a
escravidão é o antagonismo permanente com a ideia
de Jesus! Se os meus pretos fossem novos, e eu lhes désse
liberdade, os pobresinhos, em vez de irem aos seus sertões
respirar ar livre, assoldadavam-se a senhor que os carregava de
trabalho; ora, como os meus escravos são velhos, os coitados
não querem a liberdade, que para os de sua especie
é uma palavra van. Pois se eu me não posso, nem
devo desfazer d'elles, peço-vos
que m'os deixeis trazer comigo para a vossa companhia. Verdade
é que esta casa é mui estreita para tanta
negraria,
e commodidades d'um hospede
octogenario. Aqui é que o meu Azevedo ha de mostrar-se amigo
do seu velho. Está alli abaixo uma boa casa, com muito
arvoredo em roda. Vai o meu filho arrendar aquella casa, e recolher-se
a ella com o seu mestre de leis. Faça de conta que eu sou um
pulvereo praxista que vossê tem na sua livraria... O ingrato
não me
responde. Vou voltar-me para a minha filha Corinna. Faz-se o que eu
peço?
—Faz—disse Corinna, sorrindo ao esposo.
—Pois então—tornou o
velho—já d'aqui
não saio. Onde me dais agasalho esta noite? Quero
já saber onde está o meu quarto.
No dia seguinte, Azevedo arrendou a chacara magnifica, mudou para ella
com o ancião, e com os seis velhos escravos e amigos de
Valentim. Logo ao segundo dia, o hospede chamou Azevedo, e disse-lhe:
—Eu tambem tenho a minha dignidade, a minha vaidade e o meu
orgulho.
Quero entrar com a minha quota parte para as despezas da casa, minhas e
da minha pretaria. Arrendamento da chacara, a meias; o importante da
cozinha, isso é cá com o anjo dos
lares, com a nossa Corinna.
Antonio d'Azevedo ia contrariar o velho, e reteve-se ante um gesto de
desagrado, e logo esta risonha exclamação:
—Vossê cuida que tem mais pundonor que eu!
Este viver continuou assim seis mezes. Corinna tinha ouvinte certo
ás suas leituras em quanto o marido
dormia. Valentim repousava tres horas em cada
noite, e velava as outras, folheando papeis, e dando expediente a
negocios attinentes aos seus haveres. Algumas vezes ia á
cidade em carruagem que comprara n'este ultimo praso da vida,
não tanto para elle, como para os passeios de Corinna.
Valera-lhe a gotta para colorir o presente aos seus queridos
commensaes.
N'este tempo as cartas vindas de Portugal davam a noticia confirmada
dos casamentos de Emma e Leonor. As duas noivas tinham ido para o Porto
com seus maridos, e Felismina com seu marido e o primogenito estavam
nas margens do Lima, ou no palacio reconstruido de Fernão de
Athaide, onde o filho natural mandara acastellar os telhados. Fernando
era já visconde do Ameixial, e estava pasmado da barateza da
coisa, em comparação do muito que dera por uma
commenda cinco annos antes. Tinha sido logrado pelo procurador.
Gastão de Noronha, D. Mafalda e a menina mais nova tinham
ido a Paris comprar mobilia para renovar a
decoração do palacio de Lisboa. Esta era a
razão ostensiva que o publico deve acceitar por ser melhor,
se não a mais ajuizada; mas os indiscretos portuguezes que
então estavam em França, disseram que o ainda
robusto Gastão de Noronha fôra espairecer saudades
de uma duqueza, ou duas duquezas, ou mais seriam, que, pelos modos, em
Paris, isto de amar quatro duquezas é coisa mais que
frequente a quantos portuguezes
lá vão, como eu tenho visto nos apontamentos de
pessoas
que lá estiveram quinze
dias. D. Mafalda é que ha
de saber a verdade de tudo.
Com estas noticias chegou outra concernente a Francisco d'Azevedo. O
caixeiro chegou a Lisboa, pagou a sua divida, mandou o recibo ao
irmão, foi a Barcellos, vendeu a pequena legitima,
abraçou suas irmans, e tornou a Lisboa, d'onde partiu para a
Africa.
As quatro meninas das margens do Cávado viviam
abundantemente. Seu irmão Joaquim, já
estabelecido e coadjuvado pelos Taveiras, occorria-lhes a todas as
necessidades, dava-lhes tudo, menos o prazer de leval-as ao Porto,
porque o irmão do Brazil, em todas as cartas recommendava
instantemente, que as deixasse estar em Barcellos com as arvores e
flores da casa paterna. Outros dois irmãos de Azevedo, sem
importancia n'esta chronica de familia, exerciam probamente a
profissão do commercio.
—Todos felizes!—exclamou o velho, que ouvira
attentamente
lêr as cartas, como se fossem de familia sua—Todos
felizes!
Só o meu pobre Azevedo ainda a trafegar para o
pão de cada dia! Os dois contos de reis, ganhados nos
primeiros mezes, lá se foram na
restituição do Francisco. Desde então
para cá as economias são impossiveis! Esta
Corinna é uma grande
avára! Tem alli na gaveta trinta contos, que ella chama os
seus alfinetes de noiva, e não os quer arriscar nas despezas
da cozinha! Ora deixa-te estar, minha sovina, que te não hei
de deixar em testamento as minhas tres pretas velhas!
—O Antoninho não quer o
dinheiro...—disse ella, afagando o
cabello do marido, que ria muito do sainete comico do
velho—Ha que
tempos—continuou ella—eu não vi o meu
thesouro! Vou-lhe
desafiar a inveja, doutor, a mostrar-lhe as minhas notas! ora espere...
Foi Corinna a uma gaveta de sua commoda, e voltou pallida, exclamando:
—Ó Antoninho! mudaste o dinheiro da gavetinha do
meio?
—Eu nunca soube onde tinhas o teu
dinheiro—respondeu placidamente o
marido.
—Não está lá...
roubaram-m'o—bradou
ella.
Dias antes tinha fugido uma negra, alugada para a cozinha.
—Seria a preta?—perguntou tranquillamente o
bacharel—Póde
proclamar-se rainha nas suas senzalas a negrinha!
Corinna mostrava-se afflicta. O marido chamou-a a si, encostou-a ao
seio, e disse-lhe com muita meiguice:
—A tua grande alma, minha filha? Então! ha ahi
dinheiro que
valha uma lagrima tua, Corinna? Imagina que Deus te experimentava,
privando teu marido da saude de tres dias! Que farias então,
minha amada?... Quantas vezes darias os teus trinta contos por uma
tisana que me restaurasse?! Quero só ver-te lagrimas, quando
eu as chorar.
—Tens razão!—exclamou
ella—Estou alegre!
perdoa á minha fraqueza de mulher, sim?
Quem me visse chorar, julgaria que eu amava aquelle dinheiro inutil!
—Pois sim; tudo isso é muito
admiravel—exclamou o
velho—mas é necessario annunciar a fuga da ladra,
agarral-a
e despedaçal-a com o azorrague!
Antonio de Azevedo ergueu os hombros e sorriu. Corinna fitou os seus
humidos e negros olhos em Valentim, e murmurou:
—Despedaçal-a! Coitada da infeliz!
—Essa agora é que não é
piedade
irreprehensivel, menina!—redarguiu o velho—Chama
coitada
infeliz á negra que lhe rouba uma quantia
que em Portugal se chama
uma
fortuna!... Eu tomo a
negra á minha conta! Ha de ser cortada pelo azorrague!
—Não deixes, Antoninho!—clamou Corinna,
tomando-lhe o
rosto entre as mãos.
—Não deixo, não, filha. O doutor
está
feroz; mas aquillo passa-lhe.
—Ora, senhores—tornou o velho tregeitando
espanto—O nome, que isso
tem em boa hermeneutica, é
fomentar o
crime! A
sociedade não se serve assim! É preciso que cada
qual contribua com o cauterio para lhe extirpar os cancros que a
corroem.
—Parece que está no tribunal,
doutor!—disse Azevedo—A
velha eloquencia é ainda brilhante; mas a lei nova, a lei do
justo que os fariseus azorragaram, manda cahir o azorrague das
mãos do offendido, e castigar moralmente o culpado.
—Moralmente!—retorquiu o doutor—Com que
então
vossê crê no moral dos negros?!
—Creio na alma dos negros.
—Isso é uma impiedade!
Azevedo riu-se, e, por momentos, duvidou do concerto intellectual do
velho.
Mas, a esta injuriosa duvida, ergueu-se o velho, e caminhando para
elles, com os braços abertos, exclamou:
—Não calumniemos a negra, meus filhos!
Abraçai-me, anjos! Eu quiz experimentar a vossa caridade!
Abraçai-me, —Não calumniemos a negra,
meus
filhos!
Abraçai-me, anjos! Eu quiz experimentar a vossa caridade!
Abraçai-me, santos da honra e da misericordia, que os vossos
trinta contos quem os furtou fui eu!
XX.
Em uma tarde de maio de 1849, ao oitavo mez de ceo sem nuvens n'aquella
chacara, onde á competencia os tres ditosos moradores se
davam alegrias, chegou o anjo pallido da morte, e sentou-se no limiar
d'aquelle éden, como para vedar o accesso ao anjo do
contentamento.
A um lado do leito de Valentim da Costa estava Corinna da Soledade, com
o cotovello apoiado no travesseiro e a face na palma da mão
esquerda, orvalhada de lagrimas.
Do outro lado Antonio de Azevedo, com as mãos
entrelaçadas debaixo do rosto que encostava á
borda do leito, erguia a espaços os olhos lagrimosos, e
cravava-os
nas faces emaciadas e lividas do ancião.
Aos pés do leito estavam sentadas duas velhas negras
soluçantes, com os rostos escondidos entre os joelhos.
Na ante-camara moviam-se pé ante pé os restantes
dos antigos servos de Valentim, e cada um por sua vez, de instante em
instante, vinha, por entre os cortinados de cassa, espreitar o enfermo,
e retirava com as mãos postas e o
coração em ancias e
suspiros.
Valentim da Costa tinha sido confessado e ungido n'aquella tarde. A
sciencia retirara ante a irremediavel
decomposição dos oitenta annos.
Mas Corinna e Azevedo não podiam convencer-se de que o seu
amigo havia de morrer assim, quando, a intervallos, o ouviam discorrer
com o socego e energia moral dos mais saudaveis dias. Era a alma
imperecedoira allumiada já pela claridade do empyreo: era a
prova suprema que ella estava dando de sua immortalidade. A cryzalida
desfazia-se, e a borboleta do ceo, n'aquelles assomos de intelligencia,
ensaiava seu voejar para o alto.
O moribundo descerrara as palpebras, e dissera:
—Não devia eu esperar tão suave morrer.
Homem
que viveu sósinho os annos da juventude e força,
morrera sósinho. Não quiz o Altissimo que eu
pagasse amargosamente a minha incuria. Eis-me com filhos e amigos em
volta do meu leito. Bemdito seja o Senhor!
Falleceram-lhe forças, e descahiram as palpebras
transparentes, flacidas e azulejadas.
D'ahi a pouco reabriu os olhos, fez signal a Antonio d'Azevedo, e
indicou-lhe o travesseiro, que forcejou por levantar.
Azevedo correu a mão por debaixo do travesseiro
e tirou papeis, que offereceu ao ancião. Este
não
pôde erguer os braços quebrantados, e disse:
—Um é o meu testamento; o outro papel é
a minha
despedida de vós. Está escripto ha quinze dias:
escrevi-o quando conheci o fim. Lêde-o vós,
filhos; quero ouvil-o; o coração quer ainda o
goso de se
escutar.
Antonio d'Azevedo abriu vagarosamente a folha dobrada em oitavo, e leu
com tremor de suspiros:
«Um secreto aviso me manda preparar. Não posso
dizer como o santo:—O meu coração
está prompto—; mas vejo o termo da viagem sem
susto. A face
do Juiz transluz misericordia. O meu Creador foi para si que me creou.
«É dôr deixar-vos, filhos;
porém saudades haverá mais pungentes entre os
vivos que se apartam. A providencia divina permitte que o aspeito da
morte seja menos afflictivo, quando em verdade ella está
comnosco. Ai de nós, se este desapego da terra, onde se
é feliz ou se espera sel-o, não existisse! O
morrer custa ruins quebrantos da materia; mas a alma como que se
está despenando e alegrando para ir ao seu destino.
«Vou deixar-vos, meus amigos. Chorai-me, porque vos quiz
muito, e vos fui grato ás doces horas que me
déstes. Chorai-me, porque ao moribundo é
consolador o pranto dos que lhe deram os risos da ventura.
«Ficaes novos e ricos. Pela vida além haveis de
encontrar muita gente affligida: sêde valedores de todos, e
associai sempre o meu nome á vossa beneficencia. Assim
viverá comvosco uma faisca d'esta chamma, que não
póde ser toda vossa, por ser de Deus.
«Dai-me sepultura, e ide depois para a patria e para os
vossos. Empregai lá a vossa actividade menos em accumular,
que em repartir a sobejidão de vossa riqueza. Quando
houverdes filhos não lhes ensineis a honra do rico, que essa
é facil: ensinai-lhes a honra do pobre, a honra de Antonio
d'Azevedo e a abnegação de Corinna. Vivei de modo
que a vossa descendencia se glorifique do exemplo, quando vossos nomes
estiverem já esquecidos.
«Estou a dar-vos conselhos, como se carecesseis d'elles:
desculpai ao velho este fraco da muita idade. É uma
missão paternal que cumpro. Se eu tivesse dois filhos,
exemplares em virtudes, havia de fallar-lhes assim. Deixai-me acabar
n'esta abençoada illusão.
Admoesto-vos, meu Antonio d'Azevedo, a que deis de mão ao
grande pezo do trabalho. O que hontem era precisão,
será ámanhan
sêde sobre sêde de riquezas inuteis. O bastante
é muito pouco. Da riqueza de vossa alma é que
deveis ser grande dissipador: derramai-a em preceitos, conselhos,
allivios e censuras. O solitario virtuoso é um egoista do
ceo. Ide ao meio do povo e fallai. O homem sósinho
póde ter muito de que alegrar-se; mas não alegra
os milhares
de infelizes que gemem, e a
gemer se vão
despedaçando.
«Sabei que eu, á custa de sessenta annos de
trabalho, cheguei a esta hora podendo dizer que não tenho um
ceitil. Tudo dei a uns, e perdoei a outros. Os bens de fortuna, que vos
lego, deu-m'os uma herança, no ultimo quartel da vida. Ahi
vol-a transmitto. Foi sempre meu intento deixal-a a pobres: sei que
fica sendo vossa e d'elles.
«Agora abraçai-me, e dai-me o vosso
adeus.»
Antonio d'Azevedo fôra algumas vezes embargado pelas
lagrimas, e Corinna, com os labios postos na mão do
moribundo, soluçava mui anciada. No final da leitura,
Valentim fez um vão esforço de levantar os
braços para receber os dois filhos que se achegaram ao seio
d'elle. Os escravos tinham entrado todos de roldão, e
beijavam-lhe os pés por cima da coberta. O agonisante
relanceou os olhos de sobre elles para a face d'Azevedo, e murmurou:
—Serão vossos amigos tambem... Levai-os... Os
pobrezinhos
morreriam de saudade... e miseria.
Os negros ajoelharam de mãos postas, e oraram. Corinna
insensivelmente ajoelhou tambem, conservando entre as su
Os negros ajoelharam de mãos postas, e oraram. Corinna
insensivelmente ajoelhou tambem, conservando entre as suas a
mão do moribundo.
CONCLUSÃO.
Passados seis mezes, á porta do quinteiro de uma pequena
granja, visinha de Barcellos, parou uma liteira, d'onde apearam Antonio
d'Azevedo e Corinna da Soledade. Logo em seguida, chegaram algumas
cargas, acompanhadas por negros, em volta dos quaes o rapazio de
Barcellinhos fizera grande alarido de apupos e espirros. Das tres
escravas, uma só resistira á
saudade do senhor; os pretos viviam todos, amparados pelo bom tracto
dos novos amos.
As irmans do bacharel vestiam as suas mais vistosas e secias galas.
Eram quatro frescas moças, robustas, côr escarlate
de quem vende saude, alegria a desbordar do
coração aos olhos, e um rir franco e aberto de
innocencia, e felicidade expansiva.
Corinna abraçou-se n'ellas, que a levaram em andor para o
primeiro sobrado. N'este sobrado, algum
tanto escuro, rescendia um acre de rosmaninho e alecrim, como em
festividade de presbyterio. Por cima de mesas, commodas, e banzos das
janellas, tudo eram jarras de louça ordinaria com grandes
feixes de dhalias, rozas e folhudos gira-soes. O oratorio estava
aberto, e allumiado o crucifixo com a lampada usual, e mais duas vellas
de cera de meio arratel, voto da mais nova das meninas. Os frizos do
sanctuario eram grinaldas de flores, atadas pelas hastes umas n'outras,
enfeite de menos engenho que apparato.
Antonio d'Azevedo entrou depois de sua mulher; sentou-se em um
tamborete de coiro; descobriu-se, quando deu pela imagem do Christo, e
murmurou:
—Finalmente!
Corinna da Soledade sentou-se á sua beira, e disse-lhe:
—Que celestial graça tem isto tudo, ó
filho!
—Aqui tens a pobre casa onde nasci.
Corinna!...—disse Azevedo,
relanceando em redor os olhos humidos—Isto póde
explicar a
estreiteza das minhas ambições. Moldou-se-me a
alma nas
dimensões acanhadas d'esta casinha. Olha as flores de que eu
tinha tantas saudades! Alli tens a minha banca de estudo...
Lá estão ao lado do oratorio os meus primeiros
livros... Mas como isto é pequeno! Como caberemos aqui!
—Perfeitamente, Antoninho!—disse Corinna.
Entrou, n'este ensejo, Joaquim d'Azevedo, o negociante
do Porto, que ficara arrumando n'outro sobrado os
bahus.
—Não sei, não sei como hão
de caber
aqui, meus irmãos—disse elle, rindo—Tu
já
sabes, Antonio, que, além d'esta saleta, e dois quartos,
segue-se um casarão velho, e umas oito alcovas, de que os
ratos
estão de posse immemorial. Ora vem ver! Estou certo que a
nossa Corinna vai ficar espavorida!
Abriu Joaquim de Azevedo a porta que abria para o casarão.
Antonio fez pé atraz de maravilhado.
Tinha diante de si uma sala luxuosamente trastejada, com janellas
lateraes rasgadas em arco, e envidraçadas a cores. A
jardineira central estava cogulada de flores raras, e ricas
encadernações de albuns. A um lado
o piano. A outro a othomana e as cadeiras de respaldo em setim
amarello. No centro, o lustre pendente do estuque primorosamente
lavrado da mais engenhosa filagrana. Ao fundo d'esta sala estava um
quarto com recamara, espaçoso, alegre, com alfaias de muito
valor e gosto.
—É o vosso quarto, meus
irmãos—disse
Joaquim—Ao lado tendes outro: será o do vosso
primeiro
filho. Quando os filhos augmentarem, iremos rompendo com o edificio
pelo campo, ou daremos á casa a largura que precisa para
corresponder ao comprimento. O defeito não foi do mestre
architecto: foi meu por tua causa. Era preciso, cá para o
meu plano um pouco de peça magica, que tu visses a frontaria
da velha casa, e não podesses ver o fundo. O que era de
nossos paes,
está em
pé; tens que farte onde ver o teu
passado; tudo se conservou por amor de ti, que tens lá essa
poesia das casas velhas. Mas has de perdoar que eu tenha destruido o
casarão, antes que os ratos devorassem as nossas irmans.
Antonio abraçou Joaquim de Azevedo com fervorosa alegria, e
este, com o outro braço, apertou Corinna ao peito.
Seguiu-se um dia e muitos dias de contentamento incessante. A cada hora
em que se encontravam juntos, á mesa, no jardim, nos campos,
ou á margem do Cávado, era uma festa, uma alegria
de crianças!
Gastão de Noronha estava já em Lisboa, de volta
de França, onde se deteve um anno a comprar a mobilia.
Aquellas duquezas eram os seus peccados!
Fernando de Athaide desceu do alto-Minho a receber seus cunhados na
quinta do Lima. Tambem Corinna queria ir reconhecer os arvoredos de sua
infancia, e mostrar ao marido os logares onde chorara mais lagrimas de
saudade. N'esta quinta se reuniram as quatro irmans casadas.
Emma, viscondessa da Cruz, tinha nutrido muito; e, com quanto o jubilo
lhe désse azas, não
cessava de queixar-se dos incommodos de tamanha viagem, desde o Porto
alli! Leonor, casada com Luiz Taveira, ria muito da irman gorda,
chamava-lhe o ideal da preguiça, e saltava muito, pendurada
no braço do marido, que era doido por ella. O velho Bernardo
Taveira seguiu os filhos, e fazia discursos, que ninguem lhe ouvia,
excepto Antonio d'Azevedo, que via
n'elle um dos classicos velhos talhados a molde das virtudes de
Valentim da Costa. Dias depois, chegou Gastão de Noronha,
Mafalda e Elisa, a mais nova, e ainda solteira das meninas.
Gastão, com todo o aprumo de sua fidalga altivez,
approximou-se do genro Azevedo, abraçou-o cordialmente, e
disse-lhe:
—Meu caro commendador!
—Vossa excellencia está enganado!—disse
o attonito
Azevedo—Eu sou, salvo a pequena differença de
alguns
cabellos brancos, o Antonio de Azevedo de 1844.
Gastão tirou da algibeira uma chapa refulgente da ordem de
Christo, e disse:
—Aqui tem! É o meu presente de noivado.
—Muito agradecido a vossa excellencia—disse Antonio
d'Azevedo—Qualquer dadiva de vossa excellencia me alegra; e
esta, que
tanto luz, deve ser muito agradavel entre os brinquedos de meu primeiro
filho.
—Mas eu quero que a use—tornou o sogro.
—Na minha aldeia?—perguntou o genro.
—Em Lisboa, para onde eu quero que o senhor vá
gosar a vida
e a riqueza que tem. A minha Corinna não se fez para o mato
de Barcellos. Não
é assim menina?
—Respeito muito a vontade de meu pae—disse Corinna
com
submissão—mas a nossa casa é em
Barcellos, e as minhas flores estão lá por
aquelles matos. Tenho lá uma segunda familia que me chama, e
á
qual eu tenho escrupulos de
roubar por mais dias o seu irmão querido. Ámanhan
partiremos.
Antonio de Azevedo, sem temer reparos, cedeu á alma
reconhecida, e deu um beijo na face de sua mulher.
EPILOGO.
Lá vão quatorze annos.
Não me consta que tenha morrido algum dos personagens que ha
instantes vimos tão alegres nas margens do Lima.
Conhecem romance em que tenha morrido tão pouca gente? Eu
não! Se aquelle santo do Rio de Janeiro não
vergasse debaixo dos oitenta annos, ainda agora podia estar no seio da
patriarchal familia de Barcellos, onde elle tencionava acabar seus
dias.
As irmans de Antonio de Azevedo estão todas casadas, e
senhoras de boas casas de lavoira e numerosa descendencia.
Está ainda solteira Eliza, a irman mais nova de Corinna. Tem
hoje trinta e um annos. É ainda formosa. Se o leitor
é solteiro e rico... (não
será mau que seja rico, para maior segurança)
póde dar a este
romance um supplemento, casando com aquella senhora,
que está aqui em Lisboa. Eu de muito boa
vontade, na segunda edição d'este romance, darei
a possivel
immortalidade ao acto.
Pude tambem saber que o menino mais velho de Antonio d'Azevedo amolgou
a commenda na borda de um tanque, e acabou por atirar com ella a um
poço. Que grande democrata se está alli criando!
FIM.
Notas:
[1]
O
Snr. Antonio Pereira da
Cunha.
[2]
O
Snr. José Barbosa e
Silva, author do romance==
Viver
para soffrer.
Lista de erros corrigidos
Aqui encontram-se
listados todos os erros encontrados e corrigidos:
Foram mantidas as
variações de nomes
próprios.