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Humus

Chapter 10: PAPEIS DO GABIRU
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About This Book

A sequence of intimate sketches portrays a provincial town slowly consumed by habit, neglect and the steady work of mortality. The narrator records small rituals, resentments and the petrifying rhythms of daily life, finding psychological detail in repetitive gestures and social postures. Recurrent images of damp stone, cobwebbed rooms, abandoned gardens and crumbling monuments evoke a landscape where hopes and memories lie buried beneath domestic tedium. The tone balances melancholic description with compact insight, tracing how patience, deception and custom both preserve and suffocate a narrow community.

18 de dezembro


Em logar do uso de palavras fazia isto melhor com o emprego de dois tons—cinzento e oiro: uma nodoa que se entranha noutra nodoa. O sonho turva a villa. A primavera toca n'este charco só lôdo e azul: tinge-o e revolve-o. Mas o habito de tal forma se entranhou na vida, que cohabitam com o espanto e continuam a ir á repartição. Horas na torre. Mais silencio. A morte roda aqui por perto, alguem fala:—Então como passou? passou bem?—O habito tem profundidades de legoa.

A principio olham-se desconfiados, com medo uns dos outros. Sem duvida gostam de viver mais um seculo, mais dois seculos, mas não sabem ainda que emprego hão-de dar á existencia. Não se lhes dava mesmo de morrer com tanto que continuassem a jogar o gamão no infinito. O que lhes custa mais a perder não é a vida, são os habitos. Veem-se e não se reconhecem. Há almas embrionarias, velhos lojistas que olham para si proprios com terrôr. A maior parte da gente, nasce, morre sem ter olhado a vida cara a cara. Não se atrevem ou ignoram-na: a outra existencia falsa acabou por os dominar. Não há mascara que não custe a arrancar—há mentiras que teem raizes mais fundas que a verdade. Por isso, para uns não morrer é continuar a jogar o gamão pela eternidade, para outros é juntar uma moeda a outra moeda, um dia a outro dia inutil. Sempre... Já na botica dois idiotas recomeçaram com escrupulo uma partida que deve durar cem annos, e o bocal amarello, as moscas mortas estão alli com outro ar. Fixaram-se. Estão alli embirrentas e sordidas para toda a eternidade.

Pouco e pouco o sonho dissolve, a nodoa d'oiro alastra. Vae mexer com o subterraneo, acorda os mortos, desenterra o sonho submerso há dois mil annos, sobresalta o instincto, bole com todas as almas sobrepostas até ao fundo da vida. Transforma, volta a existencia do avesso, deita o muro abaixo. Por ora é só uma idéa, mas sae-nos de cima o peso do mundo... Mexe em tudo, revolve todas as raizes que se apoderaram da villa. O sonho cae na regra, no charco de interesses, na hypocrisia que se não atreve, nos dentes afiados que se transformaram em sorrisos, na paciencia de quem espera uma herança com vagares de quem tece uma teia. Certas existencias são formidaveis, outras existencias são como alcovas onde nunca entrou a luz (cheiram a relento) e onde agora se agita e gesticula um sêr desconhecido. Certas existencias são feitas de odio minusculo, de inveja que sorri—porque nem a inveja se atreve. Certas existencias são crepusculares. Em certas existencias são os mortos que ordenam, muito mais vivos e imperiosos depois que estão no sepulchro. Quasi toda esta gente se desconhece. Nunca se atreveram e agora perguntam-se:—Sou eu? sou eu?

Aqui estou eu que finjo que sorrio, e acabo por fingir toda vida. A minha vontade era anular-te—e finjo, e o sorriso acaba por ganhar cama, a bocca por se habituar á mentira, a ponto de já não saber discernir o meu sêr, do sêr artificial que criei peça a peça.—Pois sim... pois sim...—Mas atraz disto há outra coisa—há fél; E quando tiro a mascara? Mas eu já não posso tirar a mascara, mesmo quando me fecho a sete chaves: a mentira entranhou-se-me na carne. Este phantasma chegou a ter mais vida que a propria realidade. E aqui andam outros sêres. Eu não sei quem sou e até o meu metal de voz estranho. Eu não sou quem falo. A meu lado, atraz de mim, vem um cortejo de phantasmas, uma cauda disforme que me conduz e empurra, e adiante de mim há uma projecção de vida até aos confins dos seculos.

Acaba a hypocrisia. Acaba principalmente a hypocrisia para comnosco, mais dificil de largar que a propria pelle. Eu minto mais a mim mesmo do que minto aos outros, finges tanto com a tua alma como com a minha. Primeiro é a hipocrisia que descasca. Acabou! acabou! E com espanto ouço e desconheço a minha propria voz.


É que a morte regula a vida. Está sempre ao nosso lado, exerce uma influencia oculta em todas as nossas acções. Entranha-se de tal maneira na existencia, que é metade do nosso sêr. Incerteza, duvida, remorso... Nunca se cerra de todo a porta do sepulchro, sentimos-lhe sempre o frio. Agora não, a vida pertence-nos. A morte não existe, desapareceu a morte...


Ali a um canto um sêr desata a rir, a rir, a rir como nunca ninguem se riu.

E, atravez da pedra d'estas physionomias, transparecem já outras physionomias: as velhas, como uma roda de aranhas de penante na cabeça, apertam o circulo em volta da magestosa Theodora. São annos de paciencia, d'inveja e de fél—são annos de tragedia. Sobresaltam-se as futilidades que estavam para durar seculos, mas ninguem arrisca ainda um gesto que o comprometa. Teem-lhe obedecido de rastros. O tempo passa, e com o tempo esta lucta entre o inferno e o sonho revestiu-se de cimento e de grandeza.

Obedece e sorri a Eleutheria. Moe, tem moido a vida inteira. Moe-se a si e aos outros.—E o tempo passa...—Obedece e sorri a Adelia, que esperou, tem esperado a vida inteira. A miseria conserva: tem os cabelos pretos. Seis, doze vintens desiquilibram-lhe o orçamento: perde-os todas as noites com um sorriso d'angustia. Obedece e sorri a Porphiria, que é a peor de todas; é feita de destroços e de restos. A aquiescencia tambem está presente com a D. Restituta, de guardachuva na mão, acenando sempre que sim á vida:—Pois sim... pois sim.—Faz-se um pouco surda para só ouvir o que lhe convem. Nunca diz mal dos outros, nunca repete n'uma casa o que ouviu cá fóra. Ás vezes, de noite, vira-se revira-se na cama, mas nem sósinha se explica: suspira. É na aparencia um pouco trôpega, um pouco adoentada e surda: tem uma saude de ferro e um filho escondido. E ao passo que a D. Restituta, tendo dito a tudo que sim, tendo dito a tudo e a todos que sim, já não pode dizer, com o mesmo esgare, senão que sim:—Pois sim... pois sim...—a Adelia é rispida: um vestido, um chale, um chapeu de plumas, e o desejo exasperado de toda a sua vida (tem sessenta annos) de ter uma sala de visitas com dois castiçaes de prata e um album. O album lá está, na sala que cheira a bafio, e há vinte e dois annos que dois paninhos redondos de crochet esperam os castiçaes de prata. Obedecem as figuras secundarias, atentas e imoveis sobre o jogo, dependentes umas das outras, ligadas pelo mesmo interesse. A alma d'esta velhas chegou assim a ser prodigiosa. Façam o favor de entrar... Algumas flôres murchas n'um cantinho com môfo. Depois paciencia, avareza, depois um vasto campo funerario, onde passa o vento da desolação como na retirada da Russia. E dominando a paisagem dois ou tres marcos geodesicos. Lá no fundo uma pégada de vida empoçada e que reflecte o céo: alli se miram e remiram na sua mocidade. Notem: nenhuma disse uma palavra mais alto. Tudo isto se fez pelo lado de dentro—tudo isto cresceu pelo lado de dentro, de tal forma que se fosse material não cabia no mundo, com colunatas, porticos, destroços e subterraneos, como uma cathedral gotica. Aqui nesta cripta está o relento, branco e molle, creado na escuridão e no silencio, branco e molle, branco e sem olhos. Varias sepulturas com estatuas jacentes e, mais adiante, sobre sarcophagos, a Tradição e a Formula, que durante os annos que durou a bisca, defenderam a magestosa Theodora d'um envenenamento. Aqui agora—cuidado!—a escuridão é viva, a escuridão é sonho, é sonho requentado, como um acrescento de todos os dias, sonho com que não podem mais ao lado da vida quotidiana. Como sempre as velhas deitam-se cedo, rezam o terço, e antes de dormir juntam um pormenor ao sonho inutil, uma figura aos nichos, um portico aos porticos, um terraço aos terraços—até que adormecem com um sorriso candido e um cheiro pela bocca que tresanda... Aqui com o tempo acrescentou-se um alto relevo esquecido; aqui as figuras são figuras de delirio; aqui a nave atinge alturas desconexas sustentada n'um unico pilar; aqui abre-se uma ogiva com vitrais, que esclarece a uma luz funerea um quadro indistincto, e que é talvez a recordação d'um amôr já morto—porque ellas tambem amaram—aqui o misterio envolve-se em sombras condensadas, onde agoniza um Christo exanime que mete medo. Adiante n'um friso incompleto com uma cidade phantastica, campeia o diabo; depois um remate enfumado, cachorros sustentando uma arcatura, onde se admira a delicadeza e a abundancia de ornamentação (é a paciencia); e, n'este canto, mais sonho, entre negrume acumulado, treva viva num buraco de treva, que a si propria se enovela num desespero, até que não cabe na cathedral, irrompe para o lado de fóra e chega n'um jacto ao céo... Isto não é a cathedral de Burgos—é a cathedral do fél e vinagre.


Todas aceitavam, a morte e a vida quotidiana. Resignavam-se. Mas o que esta palavra representa de sonho desfeito em fumo, de coleras inuteis, de inveja inutil, de bolôr e de despeito, tradul-o a paciente D. Herminia por este grito feroz:

—Estou farta senhor padre Ananias! Estou farta de o aturar a si, de aturar os outros, e de me aturar principalmente a mim mesma!


Toda a gente dá a mesma ferocidade, odio e instincto. Espremidos deitam as mesmas paixões. Uns ignoravam-se. Outros usavam a vida em manias. Outros gastavam-na em grotesco. Outros habituavam-se. A paciencia era pegajosa. A paciencia tinha uma côr especial, verde desbotado, que mal feria a vista, e um filho, a cobiça, tal qual como a D. Restituta, que encrespa o pello e se põe de pé com o guarda-chuva em riste.

Cada sêr me perturba como se contivesse em si o céo e o inferno. Bem sei que a formula não é inutil: ao contrario a mascara é indispensavel e é por ella que nos julgam. Mas, apezar de crearmos o mesmo bolôr e e nos sepultarmos ao mesmo tempo com certa comodidade sob alguns palmos de terra, há qualquer coisa que remexe e que faz parte integrante da vida. Até o escuro se eriça—até a grande sombra se deforma.—Muita gente na vida só conta com a morte. A D. Desideria desata aos ais. E é com secreta satisfação que vejo esfarelar-se este edificio tão bem construido sobre bases, que pareciam inabalaveis, do interesse, da hipocrisia e das conveniencias... Impelidos por uma mola dão todos um passo em frente, e há tres dias que os padres se descompõem na colegiada sem se chegarem a entender:—Lá vae o inferno! lá vae o inferno!—E, efectivamente, d'um instante para o outro, lá vae o inferno que tanto custou a fazer, e outras sombras temerosas reduzidas a cisco. Lá vae o scenário admiravel e monstruoso, todas as regras, todos os papeis pintados, que atravancavam o mundo, e eram pelo menos metade da nossa existencia. O que tinha uma importancia extrema passou a não ter importancia nenhuma; o que parecia indispensavel á vida, e sem o que se não dava um passo na vida, reduziu-se n'um minuto a zero. E outras coisas insignificantes assumiram proporções enormes... Os padres clamam n'um côro desesperado:—Acabou o inferno acabou tudo!—Descompõem-se na sala da colegiada que deita para o passado—o claustro com um pé de oliveira, e dois tumulos encravados na parede, scenographia para o Hamlet,—sêr ou não sêr eis a questão... Cheiram a ourina e a ranço.—A religião sem inferno está perdida.—Mas lá por o homem ter suprimido a morte, não deixa de haver inferno—observa o estupido conego Fazenda.—Isso está claro que não deixa, obrigado pela observação, mas é um inferno tão distante que não mete medo a ninguem.—Protesto!—Lá vae o inferno! acabou o inferno!

Lá vae tambem o céo, mas o céo não faz falta nenhuma.


Já não há esforços que contenham o mundo subterraneo que se pôz a caminho. Aos mortos cheira-lhes a vida, a saque, a infamia. A poeira remexe. Por mais que queiram conter a vida dentro de certos limites, ella extravasa, e vem á supuração; por mais que a queiram comprimir estala por todas as costuras. É inutil. Alem da vida aparente, há outra vida de odio, de sonho, de interesses occultos. É a vida, é o que eu scismo de noite e me sustenta de dia. É o desejo de exterminio, é o sonho que arredo e que me pega fuligem: são os restos de sonho de toda a gente. Em todas as almas, como em todas as casas, além da fachada, há um interior escondido. Saem dos antros entontecidos e respiram, olham o céo e respiram. Saem dos buracos e põem-se a rir, ou falam só, o que é a primeira vez que succede na villa. Emergem da noite e vão deixando cahir os farrapos. Respiram com sofreguidão, os gadanhos afiam-se-lhes, e o mesmo desejo os domina: a vida! a vida! a vida!

Só esta velha parou de remexer nas cinzas frias. Petrificou-se mais, petrificou-se mais ainda, e a figura curva exprime, na imobilidade tragica, sonho e desespero, dôr e desespero, noite e desespero...


É um erro supôr que o homem ocupa um espaço limitado no universo: cada homem vae até ao interior da terra e até ao amago do céo. A parte de cima foi cortada, mas o que resta da alma é um poço sem fundo. Uma obscuridade. Por vezes fala a lei e o habito. Intrometem-se coisas abjectas a que não sei o nome. Agora é a vez de impulso—agora é a vez do interesse. A mania tambem tem os seus direitos. De mais baixo ascendem ordens que se não chegam a formular. Desço mais fundo no poço e encontro restos sordidos e candura. Por baixo sonho—por baixo fragmentos e gritos... As velhas, por exemplo, não são más, mas teem atraz de si seculos de ruina e de destroços. Há-as que acordam sempre com a bocca amarga. Já tiveram vinte annos, e cada uma d'ellas suporta uma cauda de desespero, de ilusões desfeitas, de ilusões intactas, de desejos irrealisados, que lhes peza como chumbo. Cada velha arrasta comsigo uma porção de cadaveres... De mais fundo vem outro impulso... Começo a ouvir vozes que supunha de todo extinctas. Acordam e de tal forma se impõem, que a D. Procopia desata a falar sem tom nem som. Nessa vaga, n'esse lôdo adormecido, jaziam sêres ignorados que veem á superficie: sente-se no silencio as mãos agarrando-se ás paredes. Um a um todos deitam raizes tremendas. E a nodoa immensa alastra, a nodoa desordenada, que satura d'oiro a insignificancia e o genio, a nuvem que envolve a D. Inocencia, encrespa os cabellos á D. Leocadia, fez esquecer a dispepsia ao D. Prior, arreganha os dentes a D. Restituta. Pega-se. Torna uns mais ridiculos, concentra outros. Vae remexer no que estava sepultado há dois mil annos, no bolôr e no bafio, nas paredes compactas da Sé, nos santos immoveis nos seus nichos, na inutilidade e no habito. E doira, doira, doira, doira o Telles e o Reles, doira a hipocrisia e o medo, o egoismo e o interesse. E ao mesmo tempo que os transforma, põe-nos frente a frente a uma coisa estranha que não admite subterfugios—á realidade.

Desaparecendo a convenção e as palavras, que vae sahir d'aqui de temeroso e de ridiculo? Transformado o mundo, com que olhos vamos vêr o mundo? Tudo isto eram phrases e só existem instinctos? A honra era uma phrase, o dever uma phrase e a vida um scenário? Cada sêr é capaz de todas as perguntas e de todas as respostas. Escorre todas as tintas e possue todas as côres, e só por habito adquirido há seculos é que conseguimos olharmo-nos cara a cara, quanto mais alma a alma.

Há dialogos na obscuridade em que se empregam palavras que nunca se usaram, e figuras que já não são as mesmas figuras. Todos nós somos disformes.—Deixem-me! deixem-me!—Agora quando falam já não é para dizer coisas convencionaes.—Estou á espera, tenho estado aqui á espera toda a minha vida.—Á espera de quê?—Á espera deste hora suprema, á tua espera...—Mas fala...—Não posso, só com gritos é que posso falar...—A outra coisa temerosa sacode-os...—Tu ouves?—Não te quero ouvir. Se consegues ficar comigo sós a sós, sinto que estou perdido. Tudo que me deu tanto trabalho a construir, alue-se n'um unico minuto. Teimo em me defender—teima em se fazer escutar...—Tu ouves? tu ouves?...—Mas tu não existes... Ou tu não existes ou só tu existes no mundo...—Estremecem até á base da vida, e, n'este cataclismo, ainda se lhes pégam coisas vulgares e coisas inuteis—o que se faz e o que se não faz, o que se usa e o que se não usa, as conveniencias e os habitos rançosos. Há dialogos formidaveis na obscuridade. Há almas extacticas, há-as reduzidas ao espanto.—Ouves?—tu ouves?—Não tenho a que me apegue, mal ouso pôr os pés. Até agora sabia quem era, ou fingia sabel-o, agora pergunto se sou a D. Leocadia, a D. Procopia e a D. Penaricia? Só posso viver ligado a certas palavras, a certos factos, a certas bases que julgava indestructiveis, e um nada destruiu tudo isto, transformou de todo a vida. O sonho tem outra côr, e a nodoa de oiro alastra, corroe, mistura-se a nodoas mais escuras e mais fundas, penetra, dissolve, produz logo manchas corrosivas como ulceras.—Phrases ainda elles as teem, mas o peor é que cada um sente com espanto que já não subverte a verdade. Pergunto a mim mesmo se a deixo morrer, ou se a deixo viver mais duzentos, mais trezentos, mais quatrocentos annos? Agora que a sua vida só depende de mim, pergunto a mim mesmo se a deixo viver—contra os meus interesses? Eram tremendas as questões de dinheiro que a morte resolvia. Quem as resolve agora? Debatem-se em cada consciencia problemas que só teem uma solução—a morte. Excusas de desviar o olhar: só teem uma solução—a morte. E de mais fundo ascendem outras vozes e falam cada vez com maior desespero.—Não desvies o olhar. Tu ouves?...

Assim como esta clamam as vozes interiores, mais alto, sempre mais alto, imperiosas, as vozes da multidão que constitue a tua alma. Isto coincide com o grotesco dos homens de calva e ventre gorduroso, meios nus em plena praça, sem se atreverem a vestir-se ou a largar de vez os trapos convencionaes; isto coincide com uma primavera antecipada, em que as arvores, sentindo talvez que vão ser a nossos olhos apenas coisas utilitarias, se apressam a dar flôr, em que os céos nocturnos e sem macula parecem ter gelado em azul com fundos d'oiro revolvido...

Alguns põem-se a caminho e marcham com olhos inquietos. Passa essa sombra tragica, a mulher do Anacleto. Estes dois que foram sempre pessoas consideradas, com assento na existencia, e que usam a cabeça como quem usa um resplendôr, o Elias de Mello e o Melias de Mello, sentem um baque que os amolga. Porquê? Elles teem tudo em dia, as contas, os livros, os escrupulos. A praça considera-os, Deus considera-os.—A nossa mãe morre...—E não tiram o lenço dos olhos.—Veneram-na. Mas o respeito pelos paes só resiste emquanto os paes respeitam o interesse dos filhos. Há decerto uma lei moral, mas há sempre por traz uma bocca a prégar. Uivos, gritos, exasperos. É a transformação do grotesco em ferocidade, é a camada de hipocrisia que custa a romper. Imaginem isto: imaginem o lojista em debate com a vida subterranea, o lojista deparando pela primeira vez com uma alma esplendida, e a D. Adelia, de chinó postiço, fechada n'uma gaiola com a verdade, e aos saltos uma á outra.

Foi grotesco, começou por ser grotesco. Mas escuta-te: é um mundo que lá tens dentro, é uma multidão que se prepara para o assalto. Estava adormecida, acordou. Mete medo. E prégam, açulam-se, avançam direitos aos seus apetites, ao saque, á guerra, á luxuria. Continham-na arames enferrujados, o medo da morte, o habito de crêr em Deus (sabendo bem que Deus já não existia) phantasmas, cacos d'armadura que derruiram d'um dia para o outro. Descobrir que não há Deus que alegria! Põe a gente á vontade. Respira-se d'outra maneira. Descobrir que a morte não é inevitavel endurece. O mundo muda d'aspecto. Agora é que eu contemplo a vida—e me perco na vida. Começo a ter medo de mim mesmo e não me posso olhar sem terror. Que é isto, este sonho, esta dôr, esta insignificancia entre forças desabaladas? Onde hei-de pôr os pés? Eu sou a arvore e o céo, faço parte do espanto, vivo e morro ligado a isto. Sou temeroso e ridiculo. Não me desligo do turbilhão azul, sem nome, que me leva arrastado, estonteado, iludido, e ao mesmo tempo discuto, nego e afirmo. Sou ridiculo e construi o mundo. Sonho e acabo reduzido a pó. Sou capaz de tudo e um nada me abate. Sou sordido e futil e não tenho limites—vou de mundo a mundo e de espirito a espirito. Dei alma ás coisas inertes, significação ao universo, vida ao que não existe, luz ás estrellas—e no fim acabo grotesco. Sou nada entre o pelago e sem mim tudo se afunda no pelago. O que olhava com indiferença mete-me agora medo. Não posso com o mundo transformado, com outros sêres, e onde não me desligo d'uma força cada vez maior e mais desabalada.

Preciso de olhar para mim, sou forçado a olhar para dentro de mim mesmo, a encarar comigo mesmo, e ou desato a rir ou fujo transido de pavôr. Não me posso comprehender no universo, não entendo esta luz insignificante no negrume gelado, nem esta discussão interminavel no silencio absoluto, nem este ridiculo, nem esta figura mesquinha que representa o mundo. Com que destino rio ou choro entre o enxurro de oiro e os impulsos tremendos que veem não sei d'onde e caminham desabaladamente para um fim que não distingo? Tenho medo de mim mesmo! tenho medo de mim mesmo! Nunca o acaso pariu nada tão monstruoso e tão grotesco como isto a que se chama a vida. Tenho medo de mim mesmo! Cada vez me sinto mais abjecto e mais transido—cada vez me sinto maior e mais capaz de tudo. Não me posso olhar nos olhos, com medo de vêr o que nunca vi, em todo o seu horror e em toda a sua nudez. Grito.

Gritos—gritos—gritos ainda sufocados. Ouço-os na noite imperturbavel, na harmonia esplendida, na arvore e na pedra. Mais gritos no turbilhão dos mundos, e atraz desse turbilhão outro maior—e mais gritos ainda. A ternura sou eu que a presto ao absurdo e á dôr. O que fica na realidade são gritos. A harmonia parece immensa porque as coisas não teem bocca para prégar—ou não as sabemos ouvir. Tudo isto se reduz a dôr muda, a dôr intoleravel n'um escantilhão de desespero—de desespero sem significação—de desespero cada vez maior. E sempre outras boccas prégam mais alto na noite que não tem limites, outras boccas que nem sequer existem. Levanta-se a poeira tragica, a poeira que anda espalhada há milhares de annos, a poeira dos mortos e a poeira dos vivos. Mais poeira ainda, que vem dos confins, toda a poeira dispersa, que já foi ternura e desgraça, poeira desaparecida que foi sonho, poeira inutil que foi dôr.


Os maiores dramas passam-se porém no silencio.


23 de dezembro


«Se ella morresse...» Esta ideia ao menor obstaculo, esta ideia a que eu fujo e a que tu foges, e que ambos arredamos, mas que se obstina até a proposito dos que mais amamos—esta ideia transforma-se logo em acção:—Vou matal-a.


Desapareceu a morte e eis-me aqui preso a esta creatura de olhos tristes fitos em mim. Para sempre! Até as coisas mais bellas se transformam em absurdo e me pesam como chumbo. Peza-me a tua amizade, peza-me o teu amôr—para sempre.


A pobreza e a humildade não se toleram para sempre.


A ninharia a poder d'annos e de persistencia impõe-me respeito. A ninharia um seculo, outro seculo, transforma-se em grandeza.


Quanto menos sinto a morte necessaria para mim, mais a julgo necessaria para o outros. É um muro que é forçoso deitar abaixo. Para respirar é preciso deital-o abaixo.


Muitas vozes, a d'este, a d'aquelle, a de tantos mortos, a imporem-me a sua lei... Agora só eu falo e com a minha propria voz.


Agora só eu mando. A vida vou julgal-a com os meus proprios olhos. Vou tomar folego, vou tomar peso á vida. Sei-a de côr e salteado. Sei o que valem os preconceitos, as ilusões e as palavras—sei o que vale o dinheiro. Não torno a ser iludido.


A vida é um combate, que só se vence pela bajulação, pela manha ou pela audacia—todos os meios são bons. Os escrupulos não servem para nada, a convenção tolhe-nos os braços. Meia duzia de regras afiadas bastam. Honestidade a precisa para que confiem em nós—piedade a bastante para que não nos assaltem os cofres. Fóra d'isto logro.


Se tenho forças uso-as.


A vida n'estas bases é talvez monstruosa, mas não posso modifical-as. Aproveito-as. Tiro da vida o que ella me pode dar. Com ilusões podia-se ser pobre—sem ilusões só se pode ser rico.


25 de dezembro


O peor é que se passa no silencio. É a outra coisa que acorda, é a outra coisa desconhecida que começa a empurrar o tabique. Deitamos-lhe todos as mãos para o segurar, mas, no escuro e no silencio, a pressão redobra... Está outra coisa por traz do tabique, outra coisa que eu não quiz vêr, e que o sacode com desespero. Bem sei, bem sei que existes! Bem sei que estiveste sempre ao pé de mim. Nunca te deixei discutir comigo. Senti sempre que estava perdido se te deixasse abrir a bocca. Há tragedias de que desviava o olhar, fingindo não as vêr. Agora hei-de vel-as por força. Há misterios que não queria debater e agora se me impõem. Há vozes que não queria escutar e que falam mais alto que a minha voz. Há sêres que não queria conhecer e que discutem agora tu cá, tu lá comigo. Tenho de os aceitar. Romperam pelos sepulchros fóra—despedaçaram todas as tampas. E esta intrusão na vida modificou de todo a vida.

Cada um vê doirado. Tem de pôr o problema alli na frente e de o resolver. Tem de ir até ao mais profundo do inferno e até á vacuidade do céo. Cada um tem de se olhar a si mesmo, nu e ridiculo, nu e esplendido. Cada um vê por uma fresta a força desabalada, e põe-se a scismar como Dante com a mão ferrada no queixo. Temos todos de resolver o problema. Debalde amontoamos inutilidades ou palavras, ahi está na nossa frente o mundo real, o mundo da verdade, o mundo sem subterfugios. Traz flôres como uma primavera, traz enxurro. Arrastou-se pelas folhas apodrecidas e pela lama. É doirado—é feroz. Tem todas as tintas e todas as côres, e sobre isto phrenesi. É humilde, leva comsigo no mesmo impeto ternura, dôr e desespero. Está dorido e vae tão fundo como a propria desgraça. Impele-nos. É a vida e o sonho, é a tragedia—não existe. Não tem nome. Chama-se a vida e a morte. É uma coisa absurda. Mete-me medo e extasia-me.


As velhas já não dizem:—Jogo!—Houve uma coisa que se meteu de permeio. Os passos aproximam-se e o esforço augmenta. Sinto-lhe o bafo monstruoso, sinto-o mais perto de mim e encostado ao meu sêr.

As velhas ouviram passos apressados dentro das proprias almas, o sonho veio á tona, e ficam absortas com as mãos agarradas aos queixos e as boccas espremidas a remoer em secco...

O medo acabou, e o escrupulo, a hipocrisia da gente que vive á roda d'uma ideia sem atrever a encaral-a.—É preciso matal-a!—São annos e annos, são seculos de inveja paciente, que sobem á superficie: até as figuras de pedra ressumam dôr e desespero. Agora metem-me medo. As velhas somem-se, e ficam gritos, fica o espanto, ficam phantasmas.


O que se passa em cada casa, dentro de cada sêr, no fundo de cada poço? Ouve-se as almas, como se fossem facas, afiarem no escuro. Estão promptas. Bem sei, falam ainda enteramelado, não dizem o que sentem, mas já caminham segundo o interesse, o odio e o sonho. As resmas de papeladas são inuteis, a lei todos os dias se reduz a zero. A nodoa alastra. E agora é que se vê bem o que cada um trazia dentro de si. Nesta primavera há duas primaveras. Agora é que eu comprehendo que as palavras que se pronunciavam eram rituaes, que os gestos, com seculos de existencia, eram necessarios e significativos. As phrases rançosas das velhas nos dias de enterro, as phrases banaes, eram as unicas capazes de amortecer a dôr; este habito ridiculo de jogar o gamão um opio, como esta historia que a Bacellar conta a si mesmo, com um ar idiota, um principio de sonho. Tanto vale uma tragedia. É preciso fugir á realidade. Comprehendo tudo. O que ellas odeiam no Gabiru é a sua immensa capacidade de sonho; o que a villa escarnece é o que a villa inveja. Bem se importa esta roda de velhas, em volta d'uma meza de jogo e o candieiro ao centro, com a bisca lambida: durante algumas horas esqueceram a mediocridade da vida—esqueceram tambem a morte. O chale velho a que a D. Leocadia se achega todas as tardes mesmo no pino do verão, pego n'elle e, quanto mais no fio, mais peso tem: está encharcado de sonho...



PAPEIS DO GABIRU



26 de dezembro


O que me impede de vêr a tragedia da vida, é a ninharia da vida.


A alegria é a luz. A luz suprema é Deus.


Se elle não existe—nós creamol-o.


Cheguei a um ponto da vida em que nem os outros me interessam, nem eu interesso os outros. Não falamos a mesma lingua. Só entendo alguns desgraçados.


Tudo na natureza são fórmas da minha alma. Minha alma passa como uma luz em frente da escuridão. Extincta só resta a treva.


Se não fosse o habito uma arvore matava-me. Não posso olhar o céo sem terror, e tenho de fechar todas as portas para voltar á vida comesinha.


Para o outro mundo é preciso uma iniciação.


Sinto que cada passo que dou é irremediavel.


Se me perguntassem o que queria ser—queria ser isto mesmo. Assim na eternidade te queria, minha alma, com o mesmo sonho, a mesma vida e os mesmos erros. Não te troco por outra alma.


Não há belleza completa sem uma pontinha de saudade.


A pobreza, a desgraça e a dôr metem-me medo. Mas que prestigio! Ser alimentado pela desgraça dá outra fibra, que só á desgraça pertence. Faz-se parte d'uma legião esplendida.


Há uma porção melhor do nosso sêr, não há negal-o. Luz entre residuos, gritos e instinctos. Se não existe outra vida, pergunto para quê?


Se fosse possivel suprimir a ilusão—morriamos todos á uma. Vivo entre quatro paredes, e entre quatro paredes analizo e commento e construo o universo. Fora d'esse casulo nada existe para mim. Succede, porém, que da parte de fóra é que está o resto...


Se me perguntam o que é a vida—não sei o que é a vida. Sei que me devora—sei que tenho ao pé de mim a morte.


Que faz de nós a vida? A vida gasta-nos, reduz-nos a linhas essenciaes. Habitua-nos a viver, e, quando estamos habituados a viver, suprime-nos.


Sei que tudo são aparencias, com uma unica realidade, a morte. Para morrer não valia a pena viver, para me encher de saudade não valia a pena viver. Só para ser mistificado não valia a pena viver.


A melhor parte da vida—é a saudade da vida.


A que se reduz afinal a tua vida? Algumas ideias mesquinhas—e a uma coisa que não cabe cá dentro.


Sim a vida tem minutos bellos, quando a gente a esquece. E acima de tudo o sonho. O sonho vale a vida.


É nada e menos que nada. Impulso, desconcerto e logica, e no fundo do teu sêr uma ancia superior a tudo, que é a melhor parte do teu sêr. Melhor, que te faz desgraçado. Melhor que teima em querer um universo a seu modo, e que pouco e pouco, apezar de tudo, contra tudo, tem construido o mundo a seu modo. Foi ella que fez Jesus. É ella que te impele para cima, cada vez mais para cima.


Ouço-me viver com terror—e caminho nas pontas dos pés para a morte.


Se a vida futura é um absurdo, esta vida é um absurdo maior. É tudo uma questão de habito. Tanto sonhei comtigo que te construi.


Sou aqui tão necessario como as estrellas do céo. Aqui estou, creatura mesquinha, com a dôr a meu lado, com sonho a meu lado. Hei-de acabar por te dominar. Não há morte que te valha!


Isto é abjecto, ás vezes é grotesco—mas se isto desaparecesse, desaparecia Deus, e, com o maior dos sonhos, todos os outros sonhos.


30 de dezembro


A vida é tecida como o linho: um fio de dôr, um fio de ternura. Eu intrometo-lhe sempre um fio de sonho. Foi o que me perdeu.


Só dei por ella depois de morta. As horas mais bellas perdi-as a sonhar, quando a vida estava a meu lado. Eu não vivi! eu não vivi!


Agora é que me lembro della, como d'uma tarde que viesse devagarinho na ponta dos pés, e se fixasse n'um minuto, no silencio, nas coisas suspensas na luz—nos botões quasi a abrir.


Estraguei tudo, estraguei a minha vida e a sua vida.


O dia d'hoje não existe para mim: só penso com sofreguidão no dia d'amanhã. Ora amanhã é a morte. E succede tambem que só dou pelas coisas bellas da vida, depois que passaram por mim, e que as não posso ressuscitar.


Há na vida um unico momento. Um momento que sorri. Que concentra em si todos os momentos. Troquei-o pelo absurdo. Troquei a vida pela morte.


Só agora seus olhos verdes d'espanto me chamam, seus olhos que exprimem o irreal e o mundo todo, seus olhos cheios de dôr represa e de sonho coado por lagrimas...


Agora é que ella está viva! agora é que ella está viva! E tão viva que a confundo com a morte.



ATRAZ DO MURO



10 de janeiro


O tabique cahiu, e contemplo a vida. Mas entre mim e mim interpõe-se um muro. O drama não tem personagens nem gestos, nem regras, nem leis. Não tem acção. Passa-se no silencio, despercebido, entre mim e mim. É um debate perpetuo.


Que duvidas? Pois se a minha vida é esta e não há outra vida; se o minuto é este e não há outro minuto, que força me póde deter para que eu não realise o meu destino contra ti e contra todos?


Há um sêr que ocupa o meu sêr e me domina quer eu queira ou não queira. Quem há ahi capaz de dizer que a mesma ideia o não persegue?—Se ella morresse...—Arreda-a. Tambem eu. Mas saio d'isto aos gritos. Esfacelado. Tenho por força de o admitir na minha companhia. Subjuga-me. Peor: faz-me falta quando o não tenho ao pé de mim.


Talvez eu seja um sêr complexo, talvez os outros sejam tão complexos como eu. Tudo me faz sofrer—mas metade do meu sofrimento é representado. Tenho é certo duvidas—mas metade das minhas duvidas são postiças. Hei de acabar por não crer em mim como não creio nos outros.


Eterna contradição de todo o teu sêr. Não sabes o que queres nem como o queres. Não sabes no que crês nem no que não crês. És um impulso. Vaes até á cóva levado por todos os ventos, sempre a barafustar sem sentido. Explicas tudo, ignoras tudo, adivinhas tudo. És um mar d'inverno n'um dia de verão.


Está tudo decidido—dizes—está tudo prompto. Só uma coisa me falta: pôr isto em acção. E essa coisa, que é um nada, tem o infinito de comprido.


Desde que este phantasma se pôz a caminho nunca mais consegui detel-o.


Começa por uma idéa que afugento. Começa por um pensamento tenue, por uma simples palavra que afasto.


Insiste. Há ainda dias em que discuto. E por fim domina-me, tem mais vida que a minha vida, tem mais realidade, mais sonho e dôr, do que eu.


Assisto á sua acção e não o posso conter. Acaba por acampar entre os destroços do meu sêr como um dominador.


Mas eu não o criei! não fui eu que o criei! Não só o não tolero como lhe tenho horror. Mas para ser sincero devo dizer que há occasiões em que me submeto com alegria. Para ser sincero até ao amago, devo dizer que n'esta dôr, n'este desespero, é que me sinto inteiramente viver. Com elle é que eu grito. Decerto eu não sou isto—não quero ser isto. Tenho-te medo e pertenço-te. És a melhor e a peor parte do meu sêr.


Felizmente não vemos senão detalhes. Se alguem podesse encarar uma alma até ás maiores profundidades, e vêr ao mesmo tempo de que ternura, de que ancia, de que desespero e de que tempestades essa alma é capaz, nunca mais podia desviar os olhos d'esse espectaculo. Fosse ella a minha alma ou a tua alma. Era o mundo todo, era o universo. Era Deus.


Que posso eu contra a vida? E se me recuso, se lucto, que me espera? A renuncia? A estupida renuncia, e cada minuto que passa me aproxima do nada, me leva, queira ou não queira, para o nada? Na cóva, na podridão, desfeito em pó, arrastado por todos os ventos, d'aqui a um seculo, d'aqui a milhares de seculos, ainda todas as particulas do teu sêr, que não soubeste impregnar de vida e alimentaste de simulacros, te hão de prégar:—Estupido! estupido!


Remorsos? Eu não tenho remorsos. Duvidas? Eu não tenho duvidas. Desde que te vi—vi o universo. Comprehendi tudo. Comprehendi que não tinha vivido, e que toda a minha existencia tinha sido ficticia—que mais valia um minuto na vida, que cem annos de vida. Que só há uma hora na existencia e que é preciso aproveital-a. Que tudo é simulacro e só tu és a verdade. E apercebi o universo como força e destino a tal profundidade, que n'esse rapido segundo passou por mim n'uma rajada todo o turbilhão da vida, com as suas vozes, os seus misterios e toda a sua grandeza feroz. Vi tudo. Senti tudo. Bastou vêr-te. Portanto não tenho duvidas nem remorsos. Ao contrario estou calmo, ao contrario estou decidido.


Mas há uma coisa temerosa, uma coisa inexplicavel e immensa—um fio que não posso cortar. Tenho a sensação de que, cortando-o, aniquilaria a vida. Não a minha vida, que não importa—mas o que há de mais extraordinario e de mais tenue na vida. Se houvesse Deus, diria que aniquilaria Deus.


Há uma atmosphera de mentira que ninguem deve ultrapassar—há uma atmosphera viva que todos nós respeitamos.


Mergulho. Mergulho mais fundo ainda e não encontro nada. E no entanto tu existes. És muda e existes. Quando me imagino livre de ti, é que tu tens mais força. Procuro explicar-te por palavras, por convenções, por regras aprendidas, por habilidades... És muito maior do que eu.


Ponho o ouvido á escuta d'encontro ao mundo, ouço-me para dentro, para surprehender as coisas fundamentaes que elle me ordena e são duas ou tres simples, d'instincto e ferocidade. E além d'isso outra coisa immensa—que não existe.


Como te chamas tu? E tu, dôr, como te chamas?