16 de setembro
O desabar da chuva lá fóra dil-o-hieis não
exterior, mas ligado ao teu proprio sêr: são lagrimas
que tenho ainda para chorar. Da escuridão
opaca resurgem e rodeiam-me os mortos:
o montante que rachou a alvenaria, e os cavadores
que lavraram a mesma terra e curtiram a mesma
dôr. Este cheiro a pobre, estes traços corroídos
pelas lagrimas, estes typos amolgados pela desgraça,
povoam-me a noite toda e dizem bem com
o desabar ininterrupto de lagrimas lá fóra. Outra
coisa exprimem as figuras denegridas que vão
aparecendo por traz da figura da Joanna...
Some-se a mulher da esfrega, e primeiro vem
um velho que móe e remóe obstinado uma codea
de pão. O pae de Joanna tinha oitenta annos quando
morreu. Deram com elle cahido sobre o lar,
levaram-n'o em braços para a enxerga. Quatro paredes,
duas caixas de castanho, e junto ao catre,
junto ao peito, a pedra secca, o granito. Uma
mulher desata aos gritos debruçada sobre o catre:
—Vocemecê conhece-me? vocemecê conhece-me?
Os olhos não se lhe despegam da arca. Ao
fim da vida tem de seu o alvião, a enxada e a
manta no fio. A cabeça branca mirrou, a pelle é
como a crosta que calcamos. Tem não sei quê
de raiz, tem não sei quê de tronco, afóra os
cabellos brancos que o tornam humano. O tempo
revestiu-o da mesma côr dos montes. Deshabituou-se
de falar, e pela grandeza e pelo silencio
só o comparo á pedra. Tudo isto foi pedra. Elle
e os seus, a poder d'annos, moeram-n'a. Sua vida
está ligada á vida da terra. Creou-a. Á terra só
falta comel-o.
Terra, terra negra e ingrata, terra de detrictos
de rocha e mortos, poeira d'arvores, suor de pobres,
terra que tudo gastas e consomes, há muito
que o fizeste teu egual. Nem sei distinguir-vos,
mãos como pedras, pelle como a tua pelle.
A terra come e desgasta. A terra apega-se e
encarde. Deforma-o. De revolver a terra criou
cascão e um olhar profundo. Só o comparo a
Christo, a um Christo que tivesse vindo até á velhice,
de desilusão em desilusão e de desamparo
em desamparo.
Na noite negra desfilam outras figuras. Um
chega e diz:—O corpo pede-me terra:—A pobre,
com um sacco de estopa ás costas, espera a esmola
e reza. Agora este... Este resequiu como os
morros de pedra, como a lage compacta. A pedra
pega pedra. As mãos tem terra nas rugas
desde que lidaram com terra. Curtiu annos de
fome e de terra entranhada na pelle, entranhada
na alma.
O casebre é de pedra, é de pedra o lar, e arrima-se
d'um lado ao coração do monte. Por tecto
uma trave e colmo, por chão terra batida. A casa
tambem entra aqui. Pedras, ternura, aflição, tudo
no mundo deita as mesmas raizes. Uma casa não é
só alvenaria: é dôr e vida e morte. A arvore tambem
aqui entra: a arvore é uma construcção viva.
A mãe ficou prenhe. Eram tão pobres que,
para o que havia de nascer, só amanharam um
panninho, duas camisas e um lenço. Vieram as
dôres e nasceram dois gemeos. Repartiu as camisas,
rasgou o lenço e o panno ao meio, e, no
casebre perdido, entre a natureza bruta, a mulher
poz-se a chorar dando um seio a cada um.
Mais outras figuras se destacam ainda da
noite. São de terra e pedra, são figuras deshumanas.
Remóem o pão devagar, e o fumo sobe pela
parede e enegrece-a, camada atraz de camada.
Aquecem-se ao lar. A pedra é um calháo arrumado
á parede, uma lasca negra e resequida. E
agora, noite funda, todos os mortos estão alli presentes
e atendem... A pedra tosca do lar, a pedra
salitrosa á volta da qual se juntam, é muito mais
que um calháo. A pedra é sagrada.
Está alli o montante que acometeu a pedra do
monte dura como aço, e dias após dias curvou-se
sobre a fraga e meteu-lhe o ferro até á raiz.
Um delles cavou e escavou o sobrado e dorme
com a cabeça encostada ao granito. A terra desgasta-o,
a terra imprime-lhe relevo e caracter.
Cerra-se-lhe a bocca, greta-se-lhe a pelle. Elle e
o monte suportam a mesma dôr, que não sabem
exprimir.
A côr é a côr da fome, o frio o da pobreza.
Gasta-o e desgasta-o o uso da vida e a terra entranhada.
É o cavador... Tudo que era exterior puiu-o
no cavador a terra, na mulher as lagrimas.
Ficou só a expressão descarnada, como nos montes,
como na propria casa onde as coisas são
simples e eternas. Pariu-lhe alli a mulher, entrou-lhe
lá dentro a morte. E as palavras reduziram-se
tambem a esqueleto e teem o mesmo
emprego sobrio: nem o cavador nem a femea teem
que dizer um ao outro. Só o môrro consegue deitar
um fio d'agua, que lima alguns palmos d'herva.
Concentrou-se em muda aflição para produzir
essas gotas geladas e um lameiro verde.
O escuro gera uma serie infinita de mulheres...
Há em todas um momento de ternura
antes da terra se lhes entranhar. Aos trinta annos
a femea encardida está velha. Está velha
de fome. Está velha de trabalho. Ella carrega.
Ella levanta-se de noite para coser a fornada
ou para ir á villa. Ella quando tem um dia
de folga vae ganhar seis vintens de jornal. Ella
pesa o pão e reparte-o, ficando com o quinhão mais
pequeno. Com isto gasta-se. Nasceu com a pobreza,
dormiu com a desgraça, e com os annos
uma figura se foi sobrepondo a outra figura.
Apagam-se linhas, salientam-se traços, e a mesma
côr humilde reveste a mulher e a alvenaria. Ella
e a pobreza, ella e o dia d'hoje, o dia d'hontem
e o dia d'amanhã; ella e os filhos para crear,
os carretos para fazer; ella e a vida, todos os
dias se vão amalgamando, luctando, empurrando
com desespero, até se crear esta figura e se apagar
a outra, gasta pelo uso da dôr e pelo uso
das lagrimas.
Sósinhas luctam, sorriem, amparam. Velhas e
exhaustas espalham ainda ternura. Curvam-se
sobre os berços, vão pedir pelos homens. E sobre
isto ignoram-se.
—Mãe—pergunta a filha mais moça—mãe
que coisa é casar?
E ella responde como sua mãe lhe respondera:
—Filha, é fiar, parir e chorar.
A vida é uma coisa seria e por isso emudecem.
Guardam para si o bocado mais amargo, a tarefa
peor de fazer. Se choram, choram baixinho para
que as não ouçam chorar, alli nas quatro paredes
de alvenaria, alli onde as trouxeram pela mão,
entre as coisas familiares, o fôrno, o lar, os potes,
a enxerga... Na enxerga onde morreu a mãe,
nasceram tambem os filhos.
Há seculos que a mesma serie de figuras repete
os mesmos gestos. Há seculos que a mesma
mulher esfarrapada pare e o mesmo cavador revolve
a terra. Há seculos que comem o mesmo
pão e a mesma usura os leva até á cova. Há
seculos que choram as mesmas lagrimas e o
monte deita a mesma agua. As mulheres trazem
os pequenos ao collo e falam-lhes como lhes falaram
a ellas. O que se gasta, o que a dôr e a
vida consomem, é a parte externa: as lagrimas
renovam-se sempre. As leiras dão sempre o mesmo
pão escasso, no monte não se estanca o fio
d'agua, que, como o fio de ternura reproduz a
vida e remoça sempre quatro palmos d'herva. A
mulher, esta ou outra, chora, debruçada sobre a
maceira, pare com dôr no mesmo catre, morre
com dôr na mesma enxerga.
E no fim de todas, apagada e sumida, surge
outra, a serva. Do escuro saem gemidos. A casa
desapareceu: só correm lagrimas. Sinto uma mão
que procura a minha mão, e uma voz que me
diz ao ouvido:
—Escuita! escuita!
É a creada que serve o cavador desde pequena,
a pobre que só tem de seu a saia que traz
vestida, que mistura lagrimas ás minhas lagrimas.
—Escuita! escuita!
E aquece-me as mãos com bafo.
E se remexo o brazeiro—vejo outras figuras,
outras ainda, até ao inicio da vida. Estão alli
o avô, os avós, os jornaleiros. A um, tão entranhado
de terra, mal o descortino. E atraz
d'estes, ainda outros, mudos e disformes—outros
como terra—outros como arvores decepadas—outros
como fome e que mal sabem exprimir-se—outros
a quem só se vêem as mãos nodosas—e
a serie sumida de mulheres, bronco e dôr, que
a vida consumiu, e que procuram debruçar-se
para ouvir... Tão longe! tão longe!... Mal descortino
já a luz tão pequenina e humilde, mal
distingo a vida na treva condensada—uma luzinha
de candeia, que há seculos vem de mão de
mulher em mão de mulher... Tudo volta á cinza.
Diante de mim está sosinha a Joanna, que me
mostra as mãos roídas, as mãos enormes, as
mãos só dôr...
O mundo é feito de dôr—a vida é feita de
ternura.
20 de novembro
Chove um dia, outro dia, sempre... Amanhece
um dia nublado, outro dia alvoroce negro e aspero.
O vento abala a pedra sobre que é construido
o casebre. O inverno tem a sua voz propria,
a sua côr, o seu vestido em farrapos com
que agasalha os montes deixando-lhe os ossos de
fóra. Mas o inverno é sonho. Só agora o comprehendo.
É sonho concentrado: sob esta casca resequida
está uma primavéra intacta. Esta voz clamorosa
é a voz dos mortos. Uma pausa, a prostração
da tempestade, e depois redobra o clamor...
Andam aqui as suas lagrimas... Na sufocação
reconheço esta voz que me chama. E depois a
tempestade, novos gritos, a escuridão profunda...
Lá andaremos todos não tarda! lá andaremos
todos não tarda!
E ouço sempre a mesma voz:
«Que frio o outro mundo! Que impassibilidade
a do outro mundo!
Saudade, saudade de tudo, até do fél, saudade
de te não sentir ao pé de mim. Tenho saudade
da vida. Só poder aquecer-me ao lume, só sentir
o lume n'este inverno sem limites, n'este frio de
morte—sem outra primavéra! O que a vulgaridade
sabe bem! o que a materia sabe bem!
Não vejo. Ceguei.
Disperso-me, e por mais esforços que faça,
sinto-me desagregar: perco pouco e pouco a consciencia
de mim mesma. Sou ainda ternura e
pouco mais. Já não tenho lagrimas.
Quem me dera a desgraça!
E uma pena da vida! uma saudade da vida!
uma tristeza de não poder misturar-me á vida!
A vida—e um cantinho do lume, a vida banal,
a vida comesinha... Tenho saudades do muro a
que costumava queixar-me.
Vive devagarinho. Aquece-te á restea do sol
como quem nunca mais tornará a aquecer-se;
perde todas as horas a trespassar-te da vida.
Deixa que sobre ti caia o pó d'oiro. Vive-a.
Tu és a nuvem, tu és a arvore. Enche a
consciencia
de todas estas coisas, porque não tardarás
a perdel-a.
Vive—não tornas a viver. Põe d'acordo a tua
alma com a pedra, extrahe encanto do céo e
da miseria. Pudesse eu gritar! pudesse eu ter
fome!
Só agora dou pelo sabor das lagrimas.
Sorri, esquece, dorme, sonha...»
21 de novembro
Não me comprehendo nem comprehendo os
outros. Não sei quem sou e vou morrer. Tudo
me parece inutil, e agarro-me com desespero a
um fio de vida, como um naufrago a um pedaço
de taboa.
Nem sei o que é a vida. Chamo vida ao
espanto. Chamo vida a esta saudade, a esta dôr;
chamo vida e morte a este cataclismo. É a immensidade
e um nada que me absorve; é uma
queda immensa e infinita, onde disponho d'um
unico momento.
Talvez o mundo não exista, talvez tudo no
mundo sejam expressões da minha propria alma.
Faço parte duma coisa dolorosa, que totalmente
desconheço, e que tem nervos ligados aos meus
nervos, dôr ligada á minha dôr, consciencia ligada
a minha consciencia.
Estou até convencido que nenhum d'estes sêres
existe. Este fél é o meu fél, este sonho
grotesco o meu sonho. Estou convencido que tudo
isto são apenas expressões de dôr—e mais nada.
Nós não vemos a vida—vemos um instante
da vida. Atraz de nós a vida é infinita, adiante
de nós a vida é infinita. A primavéra está aqui,
mas atraz d'este ramo em flôr houve camadas
de primavéras d'oiro, immensas primavéras extasiadas,
e flôres desmedidas por traz d'esta flôr
minuscula. O tempo não existe. O que eu chamo
a vida é um elo, e o que ahi vem um tropel,
um sonho desmedido que ha-de realizar-se. E
nenhum grito é inutil, para que o sonho vivo
ande pelo seu pé. A alma que vae desesperada
á procura de Deus, que erra no universo, ensanguentada
e dorida, a cada grito se aproxima de
Deus. Lá vamos todos a Deus, os vivos e os
mortos.
O mundo é um grito. Onde encontrar a harmonia
e a calma n'este turbilhão infinito e perpetuo,
n'este movimento atroz? O mundo é um
sonho sem um segundo de paz. A dôr gera dôr
n'um desespero sem limites.
Eu não sou nada. Sou um minuto e a eternidade.
Sou os mortos. Não me desligo disto—nem
do crime, nem da pedra, nem da voragem. Sou o
espanto aos gritos.
Cada vez fujo mais de olhar para dentro de
mim mesmo. Sinto-me nas mãos d'uma coisa desconforme.
Sinto-me nas mãos d'uma coisa embravecida
pela eternidade das eternidades. Sinto-me
nas mãos d'uma coisa immensa e cega—d'uma
tempestade viva.
Toda a vida está por esplorar: só conhecemos
da vida uma pequena parte—a mais insignificante.
E o erro provem de que reduzimos
a vida espiritual ao minimo, e a vida material
ao maximo. O homem é um S. F. ligado a todo
o universo.
Deus é eterno com a mascara sempre renovada.
A alma há-de acabar por se exprimir,
Deus, que olha pelos nossos olhos e fala pela
nossa bocca, há-de acabar por falar claro.
Está tudo errado. Só há um momento em
que o comprehendemos. Mas n'esse momento já
não podemos voltar para traz. É quando, fazendo
ainda parte dos vivos, fazemos já parte
dos mortos.
Não só a sensibilidade é universal—a inteligencia
é exterior e universal.
O universo é uma vibração. A vida é uma
vibração na vibração.
A materia tambem existe em estado de nublosa—isto
é um estado de dôr.
Toda a theoria mechanica do universo é
absurda. D'ahi a alguns annos todos os systemas
serão ridiculos—até o systema planetario.
O sonho completo é o universo realizado.
23 de novembro
Há dias em que me sinto envolvido pela
morte e nas mãos da morte. Há dias em que não
distingo a vida da morte, e agarro-me como um
naufrago a este sonho...
...Cheguei ao ponto, Morte. Cheguei onde
queria. Tu és o meu sonho phrenetico. Não há
outro maior. Cheguei ao ponto em que te não
distingo da vida. Tu és a vida maior. Por vezes
vejo o grande mar, onde a lua deixa o seu rasto,
caminhar direito a mim. Vagueia a floresta adormecida
e avança desenraizada para mim... Cheguei
ao ponto, Morte, em que não me metes
medo. Acceito-te. De ti me vem a vida. Absorve-me.
Só tu agora me prendes os olhos e de ti
não posso arrancal-os. És o unico misterio que
me interessa. Confio em ti. Cheguei ao ponto,
Morte, eu que só de ti espero. Só tu resolves e
explicas. Só tu acalmas. Acceito-te mas intimo-te.
Toma a forma que quizeres, mais negra,
mais tragica, mais torpe—bem funda é a noite e
está cheia de luzeiros:—recebo-te, mas como um
passo a mais para outra iniciação, para outro
assombro, e até para outra dôr se quizeres, porque
da dôr extraio mais belleza, mais vida e
mais sonho.
...E contudo esta resignação é ficticia... Não,
nunca acordei sem espanto nem me deitei sem
terror. Ainda bem que o digo!
Siga a vida seu curso esplendido. Sabe a sonho
e a ferro. É ternura, desgraça o desespero.
Leva-nos, arrasta-nos, impele-nos, enche-nos de
ilusão, dispersa-nos pelos quatro cantos do globo.
Amolga-nos. Levanta-nos. Aturde-nos. Ampara-nos.
Encharca-nos no mesmo turbilhão do lodo.
Mata-nos. Mas, um momento só que seja, obriga-nos
a olhar para o alto, e até ao fim ficamos
com os olhos estonteados. Eu creio em Deus.
25 de novembro
Ha no mundo uma falha. Os poentes são labaredas
rôxas com resquicios de escarlate e dois,
tres grandes jactos violetas que se estendem pelo
céo—uma maravilha chimerica. A outra primavéra
prolonga-se: superabundancia de flôres nas
arvores, espiritualidade na materia, como se as
arvores antes de morrer se exgotassem em sonho.
Mais flôres, mais poentes onde o oiro e o
rôxo predominam, mais gritos no mundo, mais
vulcões de côres, que presagiam catastrophes, e
um ruido apagado, esquisito, insuportavel dentro
de nós proprios, que comparo ao som d'uma borboleta
esvoaçando contra as paredes d'um vaso.
É a morte que faz falta á vida.
Paira sobre o mundo uma alma monstruosa,
um fluido magnetico, onde se misturam todas as
coleras, todos os interesses e todas as paixões, e
essa alma envolve, penetra e reclama dôr. Formam-se
tempestades e terrores electricos. Anda
ávida, desencadeia catastrophes, desaba desgrenhada,
com uivos nocturnos de desespero. Cala-se—é
peor: ninguem lhe suporta o peso. Produz
jactos d'oiro, auroras boreaes, grandes incendios
no céo, como se o globo ardesse. Despenha-se em
montanhas de côr, em abismos rôxos, paira em
campos ethereos de uma serenidade elysea. São
talvez os mortos que reclamam mortos. É talvez
a vida universal perturbada. São outras gerações
esquecidas, camadas informes de que ninguem
suspeita o nome, legiões sobro legiões incognitas—é
a vida embrionaria que reclama a sua entrada
na vida.
E, no fundo, sob este subterraneo, ha outro
subterraneo: ouço passos e vozes de mais outros
ainda que sobem para a superficie. Todos os
mortos se misturam aos vivos. Arrombaram de
vez os sepulchros. Tu que não viveste queres
agora por força viver; tu que não mataste queres
agora por força matar. Mais mortos desde o inicio—maior
mixordia. Todo o esforço era para
virem á supuração. Atraz d'uma camada havia
outra camada. Ha seculos que carregamos nas
tampas dos sepulchros para os não deixarmos sahir.
Na realidade nunca se jogou o gamão, nem se
disseram palavras vulgares. Atraz d'essa aparencia
estava intacta uma coisa desconforme, e ás
vezes por uma fresta irrompia a claridade do inferno...
Agora a terra desfaz-se em mortos,
como uma acha se desfaz em fumo.
O que era vida irreal, é agora realidade, o que
era vergonha, ninharia e ridiculo, com mancha
em cima] é a vida agora.
O que toma pé são os sonhos, o que se agita são
as paixões desregradas. Não ha limites nem peias.
Vêem-nos como eu te vejo a ti. Tenho deante de
mim este espectaculo, como se fosse possivel aos
homens desdobrarem-se, e tomarem corpo ideias
e paixões. Elles são aquillo que ocultamente desejavam
ser, são o que não se atreviam a ser.
Sob um mundo de verdade ha outro mundo de
verdade. É esse mundo invisivel e profundo que
passa a ser o mundo visivel. É esse. Todo o
homem é uma serie de phantasmas e passa a vida
a arredal-os. Chegou a vez dos phantasmas. As
nossas ideias e paixões é que formam as figuras
que actuam na vida.
Terceira noite de luar. O perfume estonteia.
Terceira noite de luar branco, indiferente, coalhado,
terceira noite de espanto. Redemoinhos
de figuras e d'acção até aos confins dos seculos.
Outr'ora, n'uma vida monotona e incerta, só se
realisavam duas ou tres horas de exaltação. A
vida agora é uma exaltação perpetua.
Tudo mudou: a arvore não existe como a pedra
não existe. O unico mundo real é o mundo
irreal. Todos nós andamos a crear um mundo
que é o unico verdadeiro—os vivos e os mortos.
Todos trabalhamos com o mesmo afan para o
mesmo fim. Já a materia se adelgaçava... O
mundo ideal é o mundo da dôr, do sonho, e o
universo reconstruido, é o maior dos dramas—com
a vida oculta ao lado—e cada dia tem o peso
d'um seculo.
As creanças e os passaros emudeceram, o que
produz na terra um silencio atroz. Os olhos encheram-se-lhes
d'uma tristeza irreflectida, inocencia
e extracto de vida, sentimentos que se não coadunam.
Tenho vontade de fugir para onde não ouça
o silencio... Avança direita a mim a floresta apodrecida.
Mais perto! mais perto!
Ri-te agora se podes da D. Leocadia, que rumina
como lady Machebeth as peores ruinas.
Esta vida é feita de todos os nossos esforços e
dos esforços do fundo. Somos apenas um reflexo
dos mortos, e agora que tu queres falar com
a tua voz, é que as ordens são mais cathegoricas
e o conflicto monstruoso. Terceira noite de luar,
branco, estranho, inefavel. Toda a noite o rouxinol
cantou. Duas, tres horas, e canta ainda apaixonado
e phrenetico... Debalde quero libertar-me
dos phantasmas, debalde quero viver da minha
propria vida!...
É que a vida não és tu nem eu, a vida é
uma massa confusa e heterogenea, um pesadelo,
uma nuvem negra ou uma nuvem d'oiro, uma
tempestade electrica, com boccas abertas para risos
e boccas abertas para gritos. Não é um detalhe—é
um panorama. É um immenso farrapo
dorido. Anda aqui a alma de Joanna e a seccura
das velhas mesquinhas. É tão necessaria a este
fluido a dôr muda do cavador como o sonho desconexo
do Gabiru. Anda aqui a primavéra, as
lagrimas que tenho chorado e as que tenho ainda
para chorar. Anda aqui a tragedia, a pedra, a
arvore, a tua inocencia e a minha desventura.
Tudo isto se congrega, e esta alma não vive
sem a tua alma, este grotesco sem o teu genio,
esta vida sem a tua morte. Andam aqui os mortos
e os vivos, a arvore que há-de ser arvore
e o tronco que se desfez em luz. É um sêr immenso
a que não vejo senão partes. Anda aqui
a luz e a sombra, e a luz não se distingue da
sombra nem a vida da morte. A vida está tão
feita adeante de nós como atraz de nós. Está
tão feita no passado como no futuro. Se o futuro
ainda não existe, o passado já não existe.
E tudo isto se congrega. A vida absorve-me e
ponho-a em acção. Impregna-me e faço-a caminhar.
Pertence-me e pertenço-lhe. É o passado
e o futuro—Jesus Christo vivo, Jesus Christo
morto, e Jesus Christo resuscitado.
26 de novembro
Estamos á superficie d'esse oceano embravecido,
e o impulso vem das camadas mais profundas,
das camadas informes. São todos. São
até os que nunca tiveram olhos para vêr, os
sêres esboçados, com mãos rudimentares, aparencias
d'arvores e de figuras mutiladas. É a terra
viva.
É só sonho, é sonho estreme e dôr estreme.
Cada um assiste á projecção da sua propria figura monstruosa
no passado e no futuro, cada
figura tem emfim as dimensões de dôr, que as
palavras, as regras e os habitos lhe não deixavam
ter. Cada alma é desmedida e tragica e vem
desde os confins da vida até ao infinito da vida.
Cada um na floresta entontecida representa o
maximo de sonho e o maximo de ternura. Cada
sêr é emfim um sêr completo e doirado, atinge
a belleza e Deus.
As florestas já mortas, a luz das estrellas
desaparecidas no cahos—tudo aqui está presente.
O esforço dos mortos, o sonho dos mortos, o desespero
dos mortos sobre mortos, o reflexo de
ternura, a mão que amparou, a bocca que sorriu,
levadas pelo vento que soprou há dez mil annos,
aqui estão vivos. Aqui está vivo o sonho que
sonhamos todos, o primitivo sonho humilde e o
sonho repercutido de seculo em seculo, assim
como a tua voz compadecida. O sonho sepultado
nas profundidades da terra, o primeiro resquicido,
o nada e o sonho phrenetico, tudo aqui está
na floresta embravecida. E, com ou sem bocca,
com ou sem consciencia, nunca mais deixarei de
andar n'isto, disperso, amalgamado, confundido,
de fazer parte d'este drama, queira ou não queira,
proteste ou não proteste. Tudo é inutil, todo
o esforço inutil, todas as palavras inuteis. Reconheço-o.
Mas não me canso de prégar, não posso
deixar de prégar, até cahir vencido e exhausto
dominado e deslumbrado. Na floresta embravecida,
em que todos participam do mesmo sêr,
até a mulher da esfrega encontra emfim Jesus:
—Será vocemecê o José do Telhado que o
tira aos pobres para o dar aos ricos?
—Sou um pobre de pedir.
—Será vocemecê Nosso Senhor Jesus Christo
que veio ao mundo para nos salvar?
30 de novembro
Chega o momento em que me perco, em que
tenho medo de mim mesmo, em que me atemorisa
o som da minha propria voz. Quem sou eu?
Os outros? Sou os outros? São elles que falam,
que ordenam, que me impelem? Eu sou os mortos!
eu sou os mortos! Eu sou uma serie de
phantasmas, que se açulam entre mim e mim.
Reconheço-os. O gesto esboçado há milhares d'annos,
e perdido, consumido, consegue hoje realisar-se,
o grito que a morte calou n'uma bocca
ignorada, faz écho no mundo. Todos os sonhos
são realidades, os mais altos, os mais humildes,
os mais bellos e os mais grotescos. Só os sonhos
são realidade n'esta noite quieta e caiada, com
uma mancha vermelha de polo a polo.
Aqui está agora isto a que se chama noite
de luar, branca, inerte, passiva, com a lua espargindo
luz sobre o doirado. Aqui está a arvore, e
era a isto que se chamava a arvore! Aqui está
a pedra e era a isto que se chamava a pedra!
Aqui está o céo e era a isto que se chamava
o céo! Reconheço-vos.
A morte encontra-se só—cortaram a arvore
pelo meio. Anda pelo céo como um cometa que
desatasse aos tombos e aos gritos—de desvario
em desvario. A cada grito empallidece, esbrazeia,
muda de côr, abre a cauda de oiro, de trambulhão
em trambulhão...
A morte faz estremecer o mundo até á raiz.
A morte já não tem a mesma significação. A
morte é agora inutil e anda á solta no infinito,
desgrenhada, dorida e doirada. Desespera-se. Tenho
medo de lhe tocar. O drama que se passa
em cima é maior que o que se passa em baixo.
É peor este tumulto de inferno, este clamor de
que me não chegam as vozes, esta força incoherente
de pé—todas as forças de pé—posta a
caminho para o desconhecido. É peor. E a cada
grito em baixo corresponde um grito em cima.
Reconheço o grito que sae da noite. São os
vivos e os mortos... Mas então que significação
tem isto no universo, a dizer palavras inuteis no
meio d'esta balburdia, d'esta escuridão cerrada,
d'este doirado feroz, d'este redemoinho sem nome?
Para que é que eu existo e tu existes? Para
que é que eu grito e tu gritas? Isto não és
tu! isto não sou eu! Isto é a vida temerosa, de
que não representas senão uma insignificante
particula. Tu não és nada, a vida é tudo. O combate
é incessante entre os vivos e os mortos,
entre os mortos e os vivos. Todos gritam ao
mesmo tempo, todos caminham ao mesmo tempo
para o mesmo fim esplendido.—Oh eu quero
crêr!—Porque é que gritas?—Fecha os olhos!
fecha os olhos!—Agora sou eu quem falo! Agora
são elles que falam!...
Oh minha alma pois eras tu! Agora te reconheço!
Capaz de tudo, capaz de baixezas e capaz
de sacrificios. Tão pequena! tão tranzida! Não
vales nada e pudeste tanto! Oh minha alma, pois
eras tu, eras tu! Pudeste arcar com o universo,
olhar Deus, construir Deus. Devo-te tudo: a ilusão,
a tinta do céo, o sonho erratico das vastas
florestas. Eras tu! eras tu!... Tem-me custado a
dar comtigo, tão mesquinha e capaz de
povoares
o céo de estrellas e o mundo de sonho.
Atreveste-te
a tudo. Afirmaste. Negaste. Eras tu, sempre
dorida, sempre anciosa, nunca satisfeita, e
coubeste dentro de quatro paredes. Tornaste-me
a vida amarga. Encheste-me de ridiculo. Atiraste-me
aos encontrões contra a massa cega e compacta,
levaste-me como restos de folhas n'esta
procella de sonho. Fôste a melhor e a peor parte
do meu sêr.
Eras tu! E pude com esta enxurrada de côres,
de tintas, de impulsos, a instigar-me e a
deslumbrar-me! E pude ao mesmo tempo com a
dôr! Fiz parte da dôr. A desgraça viveu comigo
e o sonho viveu comigo. E pude com a vida!
Atravessei este mar monstruoso, servindo-me de
meia duzia de palavras. Que importa ser ridiculo?
Que importa ser a D. Idalina ou a D. Ingracia?
Suportei a vida—suportei tudo. Que importa
a tua mentira, se atravessaste a labareda
e ainda conservas o chale tisnado?
Para onde vamos aos gritos? para onde vamos
aos gritos?
E cada grito em baixo corresponde um grito
em cima, a cada grito um estremeção no mundo,
que se repercute de universo em universo. Um
grito que acorda mais sonho e gera novo desespero.
Outro grito, outro mundo doirado, outra forma
dorida que se deita a caminho.
O pezo da vida e o pezo dos mortos sente-se
cada vez mais. Todos clamam ao mesmo tempo
de pé para essa coisa immensa e doirada, n'um
deslumbramento. Os mortos que nos pareciam
mortos, camada sobre camada, estão aqui de pé
ao nosso lado.
E o pezo é cada vez maior. Até agora viviamos
com elles, respiravamos com elles, mas não
sentiamos o pezo d'essa poeira viva que é a sombra
e a luz. Agora não podemos com elles...
E o lamento, o uivo sobe cada vez mais alto.
Debalde tapamos os ouvidos: o uivo penetra nas
almas. E a um grito em baixo corresponde logo
um grito em cima.
E as mulheres das viellas põem-se a chorar,
os ladrões das estradas desatam a chorar...
O uivo não cessa. Irrita. Enche o mundo todo.
Quem grita? Nós proprios? O homem que range
por não poder suportar a vida? O grito domina
tudo, trespassa o globo e echôa no mundo.
E outra coisa monstruosa tomou o lugar da
morte, outra sombra se entranhou de salto na
vida, outro turbilhão arrasta os homens. Modificaram-se
as estrellas com os sentimentos. A outra
coisa no infinito reflecte-se na vida dos astros
que mudam de côr, na dôr que tomba desgrenhada
de quéda em quéda. Todo o mundo se
transforma a nossos olhos. Cada sêr augmenta
como se encerrasse em si a vida até aos confins
dos seculos. O passado não existe, o futuro redobra
de proporções. Perdeu-se a noção da desgraça
e a noção do tempo, e a nodoa de sangue
da Via-Lactea, onde se concentra toda a sensibilidade
do mundo, alastra entre os astros, de lez
a lez, na profundidade do céo.
Ouves o grito? ouvel-o mais alto, sempre
mais alto e cada vez mais fundo?...—É preciso
matar segunda vez os mortos.
INDICE
|
|
Pags.
|
|
|
|
| A villa
|
9
|
| O sonho
|
25
|
| A villa e o sonho
|
43
|
| Papeis do Gabiru
|
63
|
| Atraz do muro
|
67
|
| O sonho em marcha
|
77
|
| Fevereiro
|
95
|
| A mulher da esfrega
|
101
|
| Papeis do Gabiru
|
117
|
| Outra villa
|
123
|
| Deus
|
133
|
| O dever
|
141
|
| A velha e os ladrões
|
149
|
| Dialogo dos mortos
|
159
|
| Primavera eterna
|
167
|
| Deus
|
191
|
| Céo e Inferno
|
197
|
| A arvore
|
211
|
| Papeis do Gabiru
|
221
|
| Terceira noite de luar
|
227
|
ACABOU DE SE IMPRIMIR
ESTA 2.ª EDIÇÃO
NA TYPOGRAPHIA DO ANNUARIO DO BRASIL,
(ALMANAK LAEMMERT)
R. D. MANOEL, 62—RIO DE JANEIRO
AOS 5 DE JANEIRO DE 1921
Lista de erros corrigidos
Aqui encontram-se
listados todos os erros encontrados e corrigidos:
Nesta obra surgem variações de palavras, como por exemplo,
"sobterraneo" e "subterraneo".
Mantivemos as variações como as encontrámos no original.
Na
página 38 encontramos linhas repetidas.
No original lia-se "(...) a meu lado.
É a essa
ninharia que é a vida
que deito as mãos com sem a sombra da morte a meu lado. É a essa(...)".
Após verificação de diversas versões, removemos a frase a negrito,
por considerarmos que se tratou de um erro na impressão.
Na
página 149 encontramos linhas repetidas.
No original lia-se "(...) enrodilhadas.
Duas, tres horas da madrugada talvez,
dilhadas. Duas, tres horas da madrugada talvez... (...)".
Após verificação de diversas versões, removemos a frase a negrito,
por considerarmos que se tratou de um erro na impressão.
Em situações pontuais substituímos vírgulas por pontos
e vice-versa, para respeitar a capitalização presente no original.
Adicionámos o capítulo
«Atraz do muro» uma vez que este não figurava no índice.