7 de fevereiro
Do sonho que revolve o mundo cabe tambem uma parte á mulher da esfrega. Arrasta tudo comsigo. Cae o inverno dentro da primavera. Engrandece-a, espalma-lhe os pés, esfarrapa-lhe os vestidos.
Está aqui a figura—está aqui outra coisa. Muda de expressão, como se fosse possivel as lagrimas usarem por dentro as figuras humanas, como a chuva ou os passos gastam a pedra. Aquillo dura um momento, transparece um minuto, mas esse minuto chega. Logo á submissão e á humildade se mistura um nada de entontecimento. Quasi nada. Trouxe sempre comsigo debaixo do chale um resto de sonho amargo. Remoeu-o transida de frio pela vida fóra, quando fez recados, aqueceu a agua e rachou a lenha. É um nada e ampara-a. Atreve-se... Toda a gente precisa de qualquer estonteamento para suportar a vida. Sonho gasto que andou por todos os caminhos, com pés espalmados como a recoveira. Há sonhos humildes que ninguem quer sonhar: servem á Joanna que quando os usa os vira do avêsso.
Velha quer dizer experiencia e seccura, e a Joanna não tem experiencia nenhuma da vida. Conserva a ternura intacta. Ninguem na ouve. Tem uma filha, nunca fala na filha. Ás vezes pousa em mim os olhos turvos:
—O corpo pede-me terra.
Ainda hoje não comeu senão uma côdea que lhe deram. Aproveita tudo. Anda sempre absurda a fazer contas como um avaro. Os trapos são sempre os mesmos: secca-os no corpo. O monologo é sempre o mesmo com que enche a vida toda. É sempre a mesma obstinação desconjunctada, como se as palavras gesticulassem para o lado de dentro, e a mesma ideia que a persegue o que debalde repele. Seja o que fôr, a Joanna esconde-o muito fundo. Ás vezes fica suspensa e alheada. Mal pode arrastar as pernas trôpegas. É pelle, meia duzia d'ossos, um cangalho, que sente uma absoluta necessidade de repouso, de terra para dormir. O frio é de morte. Entranha-se-lhe até aos ossos, e a velha lá segue com o saquitel de borôa e os olhos turvos de tanto ter chorado. Vê sempre não sei quê que a não larga.
—A tua filha?...—E nunca fala da filha.
N'aquelle desespero percebo uma palavra outra palavra. Sobre isto choro, sobre isto lagrimas em barda, como se nascesse uma fonte na escuridão. A Joanna chora sempre, chora por tudo e por nada, chora por si e pelos outros. Não se sabe onde vae buscar tantas lagrimas.
A ternura é humida.
Não comprehendo este sêr. Viro-o, reviro-o. É um nada com duas ou tres idéas no caco. Cheira mal, cheira a aziumado. Passou a vida a aturar os doentes e a vida repele-a. Apega-se e a vida acaba por fazer de Joanna de unhas roídas, pelles no pescoço e olhos turvos, uma figura disforme. Irrita-me e prende-me. Sei como a Joanna se encortiça d'um lado e se faz sensibilidade do outro. Posso dizer quasi dia a dia como as mãos se lhe deformam, como os olhos se lhe aguam, explicar como a mulher da esfrega se parece com o panno da esfrega. Não sei explicar o resto. Com este molho d'ossos e alguns farrapos no corpo, há um fiosinho d'oiro a reluzir, um fio que teima em aparecer á tona e em se misturar a agua de lavar a louça. Annos, velhice, desgraça—e teima. Teima até ao caixão. Reluz sempre. Tem o mundo contra si, a vastidão sofrega, o rodilhão do universo em perpetuo inferno. Resiste. Parece facil de suprimir n'um sôpro. Resiste a tudo, esse pó necessario como o polen á aza para voar. Um nada com a noite deante de si, com a voragem deante de si. Tudo se gasta e desgasta—não o usam.
Tenho passado noites em debate com este sêr absurdo. Acabo pelo desespero. Enfurece-me e apega-me ternura. Uma bocca enorme que se fecha sem emitir palavras, os mesmos olhos inocentes de pasmo, e um ronco que lhe vem dos gorgomilos como do fundo dum fole. Mais nada. Sacudo-a—deita sempre a mesma agua. O mundo é uma voragem. Tanto faz. A vida é uma mistificação. Debalde. Responde-me com ternura. Responde-me com uma vida humilde de desgraça e lagrimas. E outra coisa exprime a figura: surprehendo atravez dos farrapos e do ridiculo, um nada immenso, uma força immensa que transmite outro nada: algumas lagrimas para chorar, outro ventre para parir. Um poder de se perpetuar—para gritos. Impelem-na—impele. Debalde a dôr sua, a Joanna caminha molhada e tropega, mas caminha. É inutil a desgraça agarrar-se-lhe. Mais funda porque é muda como a noite. Faz parte da velha. Envolve-a, cresce, enrodilha-se-lhe. Sua. Só geme:—Anh...—Resiste á desgraça, resiste á vida, resiste ao ridiculo. A velha consegue ser maior que a desgraça. Nem toda a agua de lavar a louça suprime este facto.
O meu desespero termina aqui, deante d'esta creatura que não comprehendo, de mãos roidas e um chale velho sobre o corpo mirrado de ternura. Estraga-me a vida toda. Perturba-me a logica. Mete-me medo. Tanto faz que a Joanna viva ou morra, que grite ou se cale: as mesmas estrellas no céo, a mesma grandeza absurda, o mesmo mudo espanto. E no entanto n'esta confusão esplendida só a sua alma comunica com a minha alma. A sua dôr, a sua mentira é que importam á minha vida e á tua vida. Negrume e um arranco: exaspero para manter de pé um resto de ilusão. Mal se fecha abre os olhos atonitos. Não diz palavra. Por fim chora, as lagrimas correm-lhe pelos sulcos das lagrimas e mistura-as ao pó de sonho com que foi entretendo a vida, a pequeninas coisas gastas e poidas—ao sonho que ninguem quer, ao sonho que ninguem usa, o que em todo caso a sustenta e a enleva, como as bonecas das creanças pobres, de trapo e com dois olhos abertos a retroz, que se lhes afiguram rainhas.
Há um misterio na vida de Joanna, e no entanto na sua alma lê-se como atravez d'um vidro. Tudo n'ella será falso excepto a dôr. Não sei, ninguem sabe o que tem. Sinto que se obstina como se fosse de pedra e dentro houvesse outra Joanna a dar com a cabeça pelas paredes. Não ouço o que diz, nem sei o que sofre—mas a desgraça sua n'aquelle monologo sem pés nem cabeça, a que não ligo sentido. Debalde o sonho se encarniça. O sonho, que não cabe no mundo, cabe entre as quatro paredes daquelle caco e revolve-a. Fecha a bocca como se tivesse medo de falar. Não quer vêr—e há-de por força vêr. Persiste em manter de pé o resto da ilusão em que passou a vida, obstina-se o ciclone vivo em pol-a frente a frente á desgraça. É sonho contra sonho. O que ella não quer é vêr, e só ella sabe o que não quer vêr. Não pode com o pezo desconforme que a torna grotesca, e de todo se assemelha agora á arvore do quintal: mais sonho—mais flôr. Abre uma bocca enorme, fecha-a sem emitir som. Mostra as mãos, aperta os gorgomilos e o sonho arranca-lhe farrapos. Há-de acabar por lhe extorquir a dôr...
Sua vida é um monologo, que eu não sei traduzir. Nossa vida é sempre um monologo de interesse e de sonho. Sempre o mesmo monologo interior, de dia, de noite, quando acende o lume ou quando põe em mim os olhos turvos. Talvez os bichos monologuem assim, muito baixinho, p'ra dentro, só dôr, sem entenderem a vida nem explicarem a vida. A desgraça está alli ao pé, cada vez mais secca, e nem o sonho nem a desgraça conseguem arrancar-lhe aquillo de vez para fóra.—A minha filha...—Mas isso não basta! não chega! Mais dôr, mais sonho. Abre a bocca cada vez maior e não tira outro som dos gorgomilos: só emite um ronco. A desgraça e o doirado tingem e entranham-se na agua de lavar a louça. Há-de acabar por falar... Até agora por mais que faça sae-me das mãos ridicula.
—E vae eu disse-lhe...—E estaca, esfarrapada e atonita. Sacode-a o sonho com desespero.—Anh...—E como n'aquelle caco espesso só há duas ou tres idéas como traves mestras, e ternura n'aquella alma obscurecida, não avança mais palavra. E a desgraça sua e tresua. Grotesco, grotesco, e desespero n'este grotesco, e dôr n'este manequim desconjunctado, com um chale a esvoaçar e a bocca espremida. Anda aqui um sêr immenso que lucta com um sêr humilde e o amolga até á caricatura. Não pode mais—e ainda aperta a bocca... O que tu lhe fizeste, sonho! o que tu lhe fizeste!... Tornaste-a disforme como a sombra d'um bonifrate projectada sobre um ecran.—Creou aquillo a bafo, trouxe-o sempre comsigo debaixo do chale, com olhos agudos e tal ar de aflição que parece tonta.—A minha filha...—e tu arrastas-lho com um trapo por todos os esgotos. Debalde se debate: tem de falar...
—A minha filha casou rica, a minha filha tem uma sala de visitas (é o que a Joanna mais admira no mundo) como a das outras senhoras. A minha filha... não posso! não posso!...
E para não avançar mais a Joanna ri-se de si propria. Quem a não soubesse capaz de exagerar, diria que exagera. Ajunta pormenores embaraçosos a essa historia que se parece com a mulher da esfrega pelos empurrões e pelos trapos. Repete-se, hesita, volta ao principio, sem termos para se exprimir. E atraz das palavras sem ligação sente-se cada vez mais dôr: o panno sujo da esfrega está embebido de lagrimas.
—Tenho uma tristeza metida em mim...
A narrativa desconjuncta-se: ganha em dôr e em grotesco. Enche a bocca, perde em naturalidade, adquire em imponencia. O tom carregado é de farça com residuos de lagrimas. A desgraça ri-se da desgraça. Augmenta as côres de exagero, carrega o traço, e a tinta engrossa:
—A sala de vizitas! a sala de vizitas!...—Representa com ademanes e mesuras grotescas a sua entrada n'uma sala em passo medido de procissão. Avança um passo, recua um passo. E ahi surgem agora as vizitas da filha, umas atraz das outras com espalhafato. A Joanna prolonga demasiado a scena para as velhas se rirem—e tem os olhos arrasados de lagrimas. Insiste, para-lhe na bocca o riso desdentado como se tivesse um nó no gorgomilo. Teima, e desata a chorar.—E vae eu disse-lhe...—Reage e começa logo a rir. É um quadro extranho e sem realidade. No fundo, a tintas que resumam desespero, agitam-se figuras com penantes desconformes e sedas amarellas. Primeira dama, segunda dama—e os chapeus teem penachos doirados, os vestidos recortes de espanto. E as mesuras repetem-se n'um acesso. Terceira dama de cauda a rasto, outra dama, cumprimentando para a direita e para a esquerda, e já nos longes enfumados, sempre com exagero e grotesco, outras damas de espavento—da alta roda... E o sêr esfarrapado mexe o craneo, para cima e para baixo, com um sorriso á sobreposse. Postiço sobre postiço. Representa—e todas estas figuras parecem sufocadas, todas estas figuras que ella cria ridiculas, mal dão dois passos, estão mortas por desatar aos gritos—todas estas damas inverosimeis, de rôxo, de amarello e de verde, pariu-as o grotesco com dôr. A Joanna imita as contumelias, olha em roda, e recebe-as pé atraz pé adeante. E já o absurdo augmenta, a dôr augmenta e trasborda, quando outras damas de farça, outros manequins forjados pelo sonho, se agitam de cá para lá na sala de vizitas, engrandecida e transformada na sua bocca n'um salão doirado. É o ponto em que as velhas gosam, sentadas á roda da Joanna, em que a D. Felicidade exclama:—Ai que eu não posso mais! ai que eu até fico doente! Vem-me a sufeca.—Estão ali todas. Está a D. Herminia, e com a D. Herminia um mundo de inveja paciente; a D. Penaricia, e com a D. Penaricia uma alma onde repousam exhaustos, como n'um vasto dormitorio, todos os despeitos d'uma existencia inutil; a D. Fufia com os cabelos arripiados, e por traz da D. Fufia as ruinas devastadas de Carthago. Está a mulher tropega, amachucada, com olhos aguados de cão. E com isto ridiculo, e sobre esta tragedia ridiculo.
Já a historia entra n'outra phase. Tantas vezes se lhe tem perguntado porque é que a filha a deixa andar na esfrega, que a velha acrescenta pormenores embaraçosos. A narrativa torna-se obscura, dolorosa, hesitante, como se fosse arrancada aos pedaços d'uma alma espesinhada.—E vae eu disse-lhe...
—Hoje é que ella está que até parece o Taborda!
Na realidade a Joanna é insuportavel. Repete sempre as mesmas coisas, depara-se por todos os cantos como um trambolho. De noite, quando se pilha na enxerga, cuido que moe ainda o mesmo sonho:—A esta hora lá está ella... a esta hora... A esta hora a minha filha...—E os olhos cerraram-se-lhe de extasi, de dôr ou de espanto no sordido buraco.
Todas as noites a velha, quando sae da esfrega, dá uma grande volta no negrume, alta, ossuda, molhada até aos ossos. Ninguem sabe onde a conduzem os passos tropegos, a falar só, a remoer o sonho que a sustenta e ampara. Por vezes palpa um pilar de granito, por vezes debate com um sêr mysterioso, uma questão insoluvel. Sigo a sombra esgalgada, que gesticula e reza. Pára n'uma ruella, senta-se á porta d'um casebre. Bate, não lhe respondem. Espera, e outra vez timidamente se atreve a chamar...—De dentro sacodem-na palavras bruscas, e a velha torna por o mesmo caminho, encharcada até aos ossos... Esta casa não é como as outras casas, esta sala não é como as outras salas, nem esta rua como as outras ruas.
8 de fevereiro
O sonho é um—a realidade é outra: a realidade é uma figura só dôr. Remoeu aquelle sonho quando seguiu a filha pelas viellas. As mãos seccas de desespero tentaram em vão arrancal-a á desgraça. A filha desceu mais fundo, a Joanna desceu mais fundo. Deu-lhe a vida e suportou o escarneo. Andou nas mãos dos ladrões e tem tal ar de aflição, que parece tonta. A desgraça pega-lhe pela mão e leva-a mais fundo ainda: aperta-a de encontro ao peito descarnado... Não faz idéa nitida da vida e da morte, nem d'aquella viella com mulheres. Atura a miseria e a desgraça. Suporta os vestidos encharcados no corpo. Foi d'isto que ella fez sonho—das noites de dôr e do riso dos ladrões.—A usura da vida e a dôr represa, engrandecem-na. Nunca se queixou. Escondeu de todos a sorte da filha. Guardou aquillo para si, noite a noite, toda a vida. Bronco e dôr, uma carcassa e farrapos, e nos olhos não sei que expressão que a faz mais baixinha:—Aqui estou para te servir.—Passou por tudo, e um resto d'ilusão bastou-lhe para poder viver. Sós a sós a figura tem uma expressão descarnada e reflectida.
Nessa noite, á meia noite, nasce o menino entre ladrões. Vem morto ao mundo. A Joanna pega-lhe a tremer com as mãos da esfrega e deita-o no chale. Quatro cabeças se curvam á luz do candieiro de petroleo para verem o menino—tres cabeças de ladrões e a cabeça da velha.
—O menino está vivo!—afirma a Joanna.
—É preciso enterral-o de caminho—diz o ladrão mais velho, encolhendo os hombros. E juntam-se á porta falando baixo, enquanto a velha lhe aquece o corpo pegajoso com o bafo. Dentro a mãe geme.
—Vamos.
Os gritos cessaram de todo.
—Venha d'ahi.
E, tomando o braço de Joanna, que achega a si o menino embrulhado no chale, levam-na para a rua. Vão adiante o ladrão e a velha. Caminham até um terreno de construcção, lama calcada e recalcada: ao fundo o panno d'um muro e um resto d'arvore mutilada. Escolhem o sitio e o pae abre a cóva com o alvião. Nenhum diz palavra. Só a Joanna aperta mais o menino de encontro ao seio murcho, como se fosse possivel aquecel-o. Agazalha-o dando voltas ao chale roto, e vae depois no escuro palpar a terra encharcada. Tira-lho o pae para o meter na cóva, e ella ainda protesta:
—O menino está vivo.
Nenhum dos ladrões se ri. O que ella quer é outra vez crear. Está disposta a recomeçar a vida, a deitar mais ternura, a tiral-o á bocca para o dar aos outros. E insiste:
—O menino está vivo.
—Vamos embora.
Sacodem as mãos: só a Joanna conserva nas mãos a terra da cóva. Rodeiam-na tres sombras enormes e ella sente-lhes no escuro o bafo monstruoso. A seu lado caminha o ladrão mais velho. Os outros adiantam-se.
—O estafermo da velha rica está só. Tu podes abrir-nos a porta...
—Roubar!...
—Ouve o que te digo... Tu não sentes o frio e estás molhada até aos ossos, tu de tanta fome já não sentes a fome.
—Ainda hoje comi uma tigela de caldo que me deram.
—Nem dás pela desgraça. Tu não vês a tua filha n'uma viella e nas mãos dos ladrões?
—As bagadas que eu tenho chorado, senhor ladrão!...
—A desgraça tral-a escripta na cara. Ainda hontem lhe bateram. Nem a lama das ruas é mais baixa e mais calcada. Tu ouves?...
E a Joanna mastiga:
—N'aquella terra tão fria, chegado á terra...
—Para não sofrer. Deixa lá os mortos. Os mortos podem mais que os vivos. Ouves o que te digo?... O menino matou-o ella ao parir...
—Jesus!
—Matava-o eu para não ser ladrão. Deixa lá o menino que está na terra. Excusa de ser ladrão... O estafermo da velha rica está só. Tu podes fazer-nos a entrega...
—Senhor ladrão, vossa senhoria... Assim Deus me ajude... Como a terra está fria!...
—Que me importa a terra! O que me importa é o dinheiro do estafermo. Ouve! ouve! ouve! Ella é rica, tu és pobre...
—O Senhor fez os pobres para servirem os ricos, e os ricos para ajudarem os pobres...
—A minha vontade era esganar-te... Por tua filha! Se não nos abres a porta elle estorcega-a. A tua filha é menos que nada nas mãos d'elle...
—A minha filha... Vocemecê, senhor ladrão, tambem teve uma filha, que eu sei...
—Cala-te! Esta noite é por força noite de desgraça. Tive uma filha e não lhe pude valer. Vi-a morrer com os olhos enxutos. Morreu tisica, morreu-me á fome e não lhe pude valer! Fiz-me depois ladrão. Deixemos os mortos... Uma madrugada fui de prego em prego. Tinha despido o casaco para o pôr no prego. Á porta d'um estava um cavallo á carroça, com a cabeça metida n'uma ceira, a comer. O que eu invejei aquelle cavallo! Morreu-me. Foi n'esse dia que me fiz ladrão.
—A sua filha morreu-me nos braços...
—Tu não te calarás! Esta noite já me não serve. É noite de desgraça. Vae-te p'r'o diabo!
Repele-a, e ao por-lhe a mão no hombro, repara que só traz a camisa extreme sobre o corpo:
—O chale? que é do chale?
—O chale dei-o ao menino.
—Fizestel-a bonita!
Tal é a figura esfarrapada. Maior. Maior pela desgraça e pela mentira. A Joanna, quando faz rir as velhas de cuia postiça, mente. Tem duas existencias, uma vulgar, outra oculta. Lava as escadas, calada e submissa: á noite vive com os ladrões e as mulheres das viellas. E mente. Mentiu sempre. Mentiu emquanto pôde. Mentiu a si e aos outros. Fez da dôr mentira e da mentira sonho. Quanto mais desgraça, mais exagero e mais grotesca a sala de vizitas—maior a sala de vizitas—mais doirada a sala de vizitas. A Joanna não se atreve a sonhar a felicidade: contenta-se em sonhar a desgraça, e não lhe tira os olhos de cima, para não vêr outra desgraça maior. Ilude-se. E debate-se n'uma cogitação profunda como a noite. Toda a noite lhe parece negra. É como se pela primeira vêz désse com a vida. Deita as mãos, não encontra a que se apegue, e faz gestos para repelir o negrume. Remoe coisas que não percebe bem, que se lhe confundem na alma e que traduz em palavras descosidas e sem significação. De quando em quando pára, com os olhos fixos, e diz uma phrase fóra de propósito, a scismar com obstinação n'outra coisa:
—Casa de mulheres, casa de ladras.
Ou monologa parada a um canto:
—O Senhor lá sabe porque a gente anda n'este mundo e para que se criam estas coisas... Estas coisas...—E abre os olhos espantados.—Tudo está escripto no livro do futuro... Sempre elle há gente muito boa n'este mundo! É o que vale á pobreza.—Depois um salto dentro d'ella:—Onze, não, doze vintens é que são. Quatro vintens, do bahu que levei á cabeça, seis vintens da esfrega...—E conta pelos dedos:—Seis, sete, nove vintens... Depois aquillo remexe, vae ao fundo do fundo:—A desgraça não nasceu comigo nem há-de morrer comigo.—Ou explue n'um grito de quem não pode mais:—Não posso com este peso, com esta desgraça, com esta desgraça sobre esta desgraça, e com isto!... A dôr que a gente cria aos seus peitos! E ainda por cima isto!
Depois cala-se. É peor. Fica confundida e atonita, como um cavallo prostrado, que não sabe porque sofre e mantem os olhos abertos—ridicula deante da desgraça e deante do assombro. Cala-se e outro sêr immenso começa a falar dentro d'ella. É um debate ao mesmo tempo futil e cheio de grandeza, que não posso fixar, mesquinho pelas palavras que emprega e grande pelo sentimento que o reveste. É uma coisa triste, uma coisa dolorosa, uma coisa desconexa, feita de nadas, de gritos, de mudez. A Joanna fala com o Sonho tu cá tu lá e atira-se ao Sonho. E quando emfim o espanto se acumula sobre ella, a Joanna dispõe-se a arrancar-lhe farrapos. Misturem a isto a dôr, misturem a isto ridiculo, porque a Joanna revolve tudo, phrases, sentenças, palavras que lhe acodem e que não formam sentido—veem de muito longe...—lagrimas, sonho, e ranho. Assoa-se ao avental.
—Eu não sei dizer! eu não sei dizer!...
E sem falar á sombra que a não larga, a velha gesticula para o escuro: a desgraça tapou-lhe a bocca, meteu-lhe outra vez a bocca para dentro. Avança com as mãos abertas. A noite é immensa. Cabem na noite os mundos infinitos, mas só me interessa a alma de Joanna. Quer comprehender e não pode. Peor: o sonho humilde já lhe não é possivel. Parece perdida, tão inutil no mundo! A ternura não lhe serviu de nada. E há outra coisa em que é preciso insistir: não sabe porque sofre, não lhe cabem lá dentro a desgraça e a explicação da desgraça. Outra vez recorre á perlenga com que amortece a dôr:—A sala... a outra sala...—Mas na sala disforme vomitam-se injurias e as boccas transformam-se em bocarras monstruosas, que a Joanna não consegue tapar. Está só e a noite, só e o sonho. Fica dôr pelo lado de dentro, como a fuligem d'uma chaminé quando se incendeia e fica doirada pelo lado de dentro. O negrume é cada vez mais compacto e o esforço da velha cada vez maior. Quanto mais negra é a sala, mais a Joanna insiste. Augmenta-a, e agitam-se as vizitas em delirio: quem as recebe de pé a fazer cortezias de espalhafato é a propria desgraça vestida de amarello. As cadeiras tomam outra expressão, o doirado dos moveis apega-se á noite espessa. Estes cacos são expressões de dôr e é a desgraça quem os arruma.
A noite irrita-me com a sua imobilidade imperturbavel, e ao lado este sêr que só tem uma forma grotesca de exprimir o que sofre. Esta sala com um gato bordado a retroz, interessa-me muito mais que a noite negra, a noite funda, a noite cahotica com esta vida e outra vida. A noite é inutil.
PAPEIS DO GABIRU
10 de fevereiro
Ella foi uma flôr que se aspira e se deita fóra—quasi sem reparar—scismando na imortalidade da alma.
Se eu pudesse cinematographar a vida e a morte d'uma flôr, cinematographava a sua vida.
Não sei dizer se existiu se a criei, e o que na realidade me interessa, é o que ella disse á grande nodoa de humidade da parede.
Sei que chorou mas não a ouvi chorar. Ninguem a ouviu, ninguem deu por ella. Passou como uma sombra. Habituou-se. As lagrimas sumiu-as, meteu-as para dentro. A dôr aprendeu a contel-a. Habituou-se a queixar-se á grande nodoa de humidade da parede.
Entre mim e ella interpoz-se o sonho.
A ternura tambem cansa. Deixem-me! deixem-me sonhar!
O principal para mim foi a queixa que ninguem ouviu no mundo; foi o que os seus olhos verdes d'espanto decifraram n'aquelle arabesco da parede. Podes por ventura conceber isto? Uma dôr que não deixa vestigio, um sonho ignorado que não deixa vestigio, que passa no mundo e não deixa vestigios—a dôr despercebida, as lagrimas contidas que se não chegam a chorar?
Não valia nada o que vale um passaro, e em questões afectivas, em ternura, tinha a profundidade do mundo—a do silencio—a do sonho.
Tanto se queixou baixinho que morreu de frio!
Deito-me debalde aos encontrões á noite. Nem um grito. Os remorsos são inuteis. Um passo na vida é sempre irremediavel: não há forças humanas que o possam apagar.
11 de fevereiro.
A vida tem dois periodos: o do entontecimento, o da saudade. Não sei qual é melhor. Talvez aquelle em que se ouvem os passos da morte, mais perto! mais perto! O frio da morte dá á vida um encanto superior e um prestigio maior.
Deixem-me! deixem-me! Deixem-me só com isto, deixem-me viver para isto. Deixem-me fechado a sete chaves com o sonho que me enche de ridiculo, que não existe e é a razão da minha vida. Deixem-me ir para a cóva agarrado a este nada immenso, que me doirou as mãos e me deixou atonito. Só no fundo da cóva é que estou bem, sós a sós, fechado com elle para sempre.
Se o sentimento de belleza é a unica coisa humana que não nos engana—se só a isto ficamos reduzidos—como não prever outra belleza maior?
De sobresalto em sobresalto, de assombro em assombro, de vulgaridade em vulgaridade e de contradição em contradição, assim vim até ao fim. Não consigo desprender-me de um, nem libertar-me do outro.
Atraz d'este assombro há outro assombro—e depois outro assombro ainda.
Qual é a minha experiencia da vida? Nenhuma. Qual é a lei que extraes da vida? Nenhuma. Só o espanto. Só uma coisa cada vez maior, sempre assumindo maiores proporções, que sinto desabar no silencio, mais doirada e phrenetica que o sonho. Tudo se reduz a coisas a que damos valor, e a coisas a que não damos valor. E entretanto ao nosso lado passa o tropel magico, desesperado e cahotico. Alli fóra desabam os seculos e a torrente misteriosa que leva comsigo estrellas em vez de calhaus. O jacto de portento vem do infinito e caminha para o infinito, levando comsigo a alma, o universo, o logico e o ilogico, o absurdo e Deus.
Uma vida resume-se em duas linhas, synthetisa-se em dois ou tres factos. Se a vida fosse só isso não valia a pena vivel-a. A vida é muito maior pelo sonho do que pela realidade. Pelo que suspeitamos do que pelo que conhecemos. Se nos contentamos com a superficie, não há nada mais estupido—se nos quedamos a contemplal-a faz tonturas. É por isso que eu teimo que a Morte não tem só cinco lettras, mas o mais bello, o mais tremendo, o mais profundo dos misterios. Prepara-te.
O problema capital da vida é o problema da morte. Elle resolve tudo. Não há factos isolados; não há acontecimento no universo que não gere outro acontecimento. O inconsciente não pode criar o consciente. É impossivel dar um passo a que não succeda outro passo. A vida gera a morte—a morte gera a vida. Mas que vida?
Sou nada diante do universo. Mas teimo, mas discuto comigo e comtigo, ó espanto, mas defronto-me com o enigma, encarniço-me e saio d'aqui esfarrapado, despedaçado—mas teimo e hei-de vencer-te. Não quero morrer de vez. Não quero perder a consciencia do universo nem a sensibilidade do universo. Eu sou o nada, tu és o infinito—hei-de por força vencer-te!
E no entanto sinto-me tocado de hesitação e de duvida. Do que tenho saudades é d'esta vida. Ao que eu aspiro é a esta vida. O gesto que o moribundo faz ao arrepanhar o lençol é um gesto de naufrago.
D'um lado a materia, do outro o espirito. D'um lado consciencia, debate, lucta, do outro a impassibilidade, a fatalidade inexoravel. Nenhum grito a perturba. D'um lado a vida gasta n'um segundo, do outro a successão ininterrupta dos seculos, indiferente e eterna. Como acaso é atroz, a não ser que outra coisa nos espere.
Se não nos detivessemos com palavras, se avançassemos todos ao mesmo tempo, esquecendo o que é inutil, para esta coisa que nos devora, subjugavamol-a. Conquistavamol-a por uma vez, por maior que ella fosse. Mas nenhum de nós se atreve e passamos a vida a fingir que não existe. E só ella existe.
OUTRA VILLA
12 de fevereiro
O tempo era limitado, a paciencia pegajosa, o gesto lento. Agora que a vida dura seculos ninguem espera um minuto.
Tenho aqui a villa sufocada de espanto, e, n'este momento de silencio e mudez, todos encaram com desespero os proprios phantasmas. Está aqui o fel—e o fel está vivo. Está aqui a mentira—e a mentira está viva. Está aqui a D. Leocadia e o dever, a D. Bibliotheca e o postiço, o Anacleto e as conveniencias. Estão todos. Não falta ninguem á chamada. Está aqui tambem o espanto e a mania, e a mania tem os cabellos em pé. Custa-me a admitir-te na minha companhia, custa-me a arrancar-te de profundidades ignotas... Tudo o que fiz era um simulacro, reconheço-o. Passei a vida a arremedar a vida. Passei a vida com uma voz a prégar-me:—Não metas ahi o nariz.—E a minha vontade era meter alli o nariz.—Passei a vida a cumprir o meu dever e a amargar o meu dever. Passei a vida a arredar-te e agora tenho por força de viver comtigo. E tu?—e tu?—e tu?...—Gastei-me, gastei-a...—exclama a D. Leocadia. Cumpri sempre o meu dever. Cumpri-o com fel. Para cumprir o meu dever lhe repeti a toda a hora que os pobres teem um logar marcado na vida. Fil-o por dever. Não transijo nunca com o meu dever. Assim como devia tiral-a do asilo por ser do meu sangue, assim o meu dever era educal-a para pobre e reduzil-a a um sêr passivo e inerte. Vesti-a com um sacco e gastei-me um dia, gastei-a outro dia, a ponto de usarmos as feições e de não nos reconhecermos. Espiamo-nos ambas, uma em frente da outra, no silencio gelido da villa, onde se ouvia o trabalho lento das aranhas no fundo dos saguões.—Dei-te o sustento, tens de ser agradecida. Tirei-te do nada, livrei-te da fome, é preciso seres agradecida. Cumpre o teu dever. Eu cumpri sempre o meu dever. Cumpri-o contrariada, n'um perpetuo dize tu direi eu, n'uma eterna contradição, mas cumpri-o. Cheguei a tiral-o á bocca para a poder manter. Cumpri o meu dever e amarguei o meu dever. Usei assim a vida a arremedar a vida. E tenho-a aqui na minha frente, com a barriga á bocca, á espera que eu cumpra o meu dever até final. Qual é o meu dever? Reconheço que a odeio—odiei-a sempre. Mas qual é o meu dever? pergunto. Qual era afinal o meu dever? Se fazia o bem, amargava o bem; e tu não me largavas se tentava o mal. A minha vida tem sido um perpetuo inferno, contrariada e impelida, e sempre a cumprir o meu dever amargo, o meu dever estupido.—E os olhos não se lhe despegam do phantasma coçado e verde, de ferro e verde. Grita-lhe:—Cumpri sempre o meu dever! Se não cumprisse o meu dever ia parar a uma viella.—Queda-se estrangulada e surpreza, mais estrangulada e surpreza ainda, diante da voz que lhe diz não sei o quê de temeroso...—E tu?—pergunto—tiveste inveja?—Tive e recalquei-a. Arranquei tudo, destrui tudo, por ti que não existias.—Mas isto é infame, isto não sou eu!—És, és, mais do que nunca o foste.—Eu mesmo reconheço que sou outra casta de intrujão. Tenho outros preconceitos, falo outra lingua e julgo-me superior. Na realidade sou outra casta de intrujão. O que me falta é desplante. Prendo-me a inutilidades, e, para me engrandecer, admiro os meus escrupulos e dou importancia ás minhas teias de aranha. A minha vida é uma serie de transigencias secretas—e por cima medo...—Fala mais alto! fala mais alto!—A minha vida tão bem construida é uma aparencia, a minha serenidade, aparencia. Talvez um pouco de logica, um pouco de acaso e mais nada. No fundo de mim mesmo tudo isto me parece um sonho monstruoso e sem nexo, e ás vezes surprehendo-me a pensar:—Sou um doido? sou um doido?—É que me vem não sei d'onde, não sei de que confins ou de que recanto d'alma que tenho medo de explorar, um bafo que me entontece. Serei eu doido?—Cada velha se põe a recuar deante de si mesma; cada sêr procura afastar-se; cada um a si proprio se repele. Mas todos são enrodilhados no pé de vento, que os leva sufocados e atonitos, balouçados entre a vida e a morte, entre o assombro e o inferno. E é grotesco este encarar com o sonho, pé atraz pé adeante, esta hipocrisia que teima em ser hipocrisia, esta mentira que quer ser mentira até á ultima extremidade.—Tu não deste um passo na vida sem obedeceres ás conveniencias e sem consultar o teu codigo de meticulosidade. Tens um Devee Haverdo tamanho d'um predio. A praça considera-te, Deus considera-te. E tu torturaste-a segundo as conveniencias, habituaste-a a conter as lagrimas e a ser correcta com o mesmo grito recalcado ao fundo do coração. E esse drama correcto, torna-se mais correcto ainda, e, seculo atraz de seculo, há-de acabar por atingir a correcção suprema.—Não tenhas medo, avança um passo, outro passo ainda...—Que é isto? que é isto que se me pega, diz a Telles, diz a Reles—e que me não deixa pensar na mania?—E nos olhos de idiotia, a vida, camada atraz de camada, chega a vir á superficie.—Ah, a mania D. Telles, das Telles das Reles, a mania! Pensar n'este trapo um dia, e só pensar n'este trapo! Fazer de ti e de mim mania e só mania!—Dois castiçaes de prata foram a minha vida. Pensei n'elles com minucia. Um nada—ou Deus—bastou para me encher a vida. Acordei com elles, dormi com elles. Taparam-me o mundo. Isto foi o meu sonho e a razão do meu sêr. Criei-o. Dei-lhe o meu leite. Vivemos juntos; ia morrer com esta mania, levava-a para a cóva, sem ter pensado no resto, e agora encontro-me sós a sós comtigo, desprevenida e sósinha. Foste para mim um filho. Alimentei-te e alimentaste-me. Reservei-te sempre o melhor cantinho do meu sêr. Salvaste-me do desprezo de mim propria, peor que o desprezo alheio. Quando me sentia mais humilhada e mais pobre, recorria a ti, e encontrei-te nas horas em que a gente até de si duvida, quanto mais dos outros. Trouxe-te sempre comigo. Sorrias-me. Foste a carne da minha carne e o osso do meu osso. Um filho podia-me morrer; tu não me deste um desgosto. Escondeste-me a vida e a morte—e eras um trapo, uma corôa de lata, dois castiçaes de prata! Agora mesmo procuro agarrar-me—mas isto pega-se-me, deslumbra-me e ofusca-me... Há só uma coisa que eu queria ainda dizer, e não a sei dizer diante de isto que tenho ao pé de mim, dentro de mim e me não larga...—Ai! ai! ai!—Tambem tu, tambem tu, prima Angelica, que passaste a vida debruçada sobre a meia, tambem tu te ergues n'um arrebatamento, passa-te não sei que dôr na escuridão cerrada, e procuras, com a agulha afiada como um punhal, furar os olhos de todas as pessoas que te fizeram bem!... Mas tanta inveja ruminaste que sorris e te curvas submissa sobre a mesma meia eterna, a que mãos caridosas já não desfazem as malhas, e que tem tres metros de comprido...—A meza da bisca lambida cahiu por terra, e de tal maneira se olharam nos olhos, que não foi possivel tornar a juntal-as. Só a mesma voz persiste dentro de nós mesmos, no silencio e na mudez da noite infinita, tal qual a D. Leocadia:—Mas eu não posso! eu não posso! Tu obrigas-me a fazer o que não devo! Tenho aqui fel e hei-de, para cumprir o meu dever, fazer o contrario do que sinto: dominar-me todos os dias, moer-me todos os dias, prégar-me todos os dias:—A gente só vem a este mundo para cumprir o seu dever!...—O que há de peor no mundo é arrancar os desgraçados á desgraça! O que há de peor no mundo é não haver outra vida e passar esta vida a arremedal-a!
15 de fevereiro.
Até agora a mentira fez-me suportar a vida, a insignificancia e as palavras tornaram-me a vida possivel, a vida onde á custa de palavras cheguei a ser Eleutheria da Fonseca, Balsamão, Elias de Mello ou Melias de Mello. Só á custa d'isto pude aturar a vida e o horrôr da vida. Só por não a vêr, pude encaral-a. Só emquanto fui feito de pequenas miserias e de palavras inuteis a pude suportar. Mas agora que me resta se tudo é vazio de significação?
Custa muito a construir uma vida ficticia, a ser Telles ou a ser Santo, a crear um Deus ou uma mania. Custa a melhor parte do nosso sêr. É certo que metade d'isto—metade pelo menos—é representado. Se te confessasses dirias:—Eu sou um actor, eu sou um actor de mim mesmo: represento sempre até quando sou sincero; até quando digo o que sinto, é outro, e noutro tom de voz, que diz o que sinto... Cá estou a vel-o representar... Mais de metade, muito mais de metade dos meus sentimentos, são postiços. Todos estamos ligados por compromissos, aceitamos certas leis e vivemos de aparencias. Existe entre nós e dentro de nós um acordo tacito. No fundo bem sei que o que me dizes é mentira, mas sei tambem que tenho obrigação de ajudar a mantel-a. Respeitamos um compromisso vital. Mais alto! mais alto!... Para podermos viver só lidamos com uma parte convencional da vida. A outra não existe: se existisse seriamos bichos. Esta vida é uma mentira—a outra vida é monstruosa. Desabada a architectura aparente, ficamos ignobeis. Isto que ahi está por terra custou muito desespero, primeiro na inconsciencia e na obscuridade, atravez da inconsciencia e da obscuridade, e depois atravez de terrores e de indescriptiveis esforços. Custou aos vivos e aos mortos a dôr das dôres, poderem discernir dois ou tres factos essenciaes na treva condensada, na treva compacta d'uma noite que durou seculos. Esforço inconsciente de larva, com um destino a cumprir e legoas de granito a romper. Tiramos o mundo do nada. Levou seculos e seculos—mas tiramol-o do nada. No principio só fomos almas, creamos depois a casca. Tambem as arvores só a poder de tempo se revestiram d'um envolucro. Eramos todos phantasmas. Creamos tudo—e a mentira. Tudo—e o habito. Tudo—e a paciencia. O sonho não é senão uma reminiscencia. Todas as inutilidades não passam de adaptações á vida. Essas pequenas coisas são ao mesmo tempo temerosas e ridiculas. Bem encarada a ninharia é uma tragedia. D'estes sêres saem outros sêres grotescos e terriveis—terriveis e grotescos. No silencio a mania toma proporções chimericas, e não sei como hei-de juntar estas duas coisas—mania e desespero.
Dentro de cada sêr resurgem os mortos. Crescem dentes ás velhas, afiam-se-lhes as unhas debaixo dos chales. Adquiriram outra expressão. Quasi toda a gente emagreceu. Aguçam-se ferros no escuro. Procuram-se. Qual é o teu verdadeiro ser? Eu mesmo não sei. Dá-me um trabalhão encontral-o e acho-me sempre em frente de cacos, a que não consigo dar unidade. Uma ninharia—um impulso—um habito. É isto que constitue o meu ser, ou é esta serie de imagens, já desaparecidas, que formam a minha e a tua vida? Não, o meu verdadeiro sêr sacode a poeira na colera, na paixão, no amor ou no odio,—porque aos sentimentos tambem é preciso desenterral-os—e actua n'um phrenesi. Acabaram as hesitações e as duvidas, porque já não sou eu quem mando, a minha razão ou a minha vontade: são os mortos. E é quando me sinto viver.
E a insignificancia? Até a insignificancia. A insignificancia com orgulho, a insignificancia com desespero.