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Humus

Chapter 17: DEUS
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About This Book

A sequence of intimate sketches portrays a provincial town slowly consumed by habit, neglect and the steady work of mortality. The narrator records small rituals, resentments and the petrifying rhythms of daily life, finding psychological detail in repetitive gestures and social postures. Recurrent images of damp stone, cobwebbed rooms, abandoned gardens and crumbling monuments evoke a landscape where hopes and memories lie buried beneath domestic tedium. The tone balances melancholic description with compact insight, tracing how patience, deception and custom both preserve and suffocate a narrow community.

21 de fevereiro


Aqui está a villa toda—mas as figuras mudaram. São disformes. O proprio Santo cheirou as velhas, sacudiu as velhas e atirou com as velhas á rua. Do alto dos montes vomita coleras sobre a villa passada de terrôr. O silencio redobra, a dôr redobra. E com isto uma alegria a que falta o resaibo de tristeza que se misturava a todos os nossos sentimentos. Falta-lhe equilibrio e harmonia. Tem a maior ferocidade. E produz o mesmo efeito que este scenario d'assombro, que o vento e a chuva esfarelam, e onde sobrenadam restos. E com isto a voz que não nos dá tregoas e que atinge o desespero:—Não grites, D. Leocadia, não grites. Reconheço que és feita d'uma peça só. Foste sempre inteiriça.—Tirei-o á bocca para a manter...—Tiraste-o. Tomaste a vida a serio. Entendeste sempre que pobres se educam como pobre, passaste a vida a azedar a vida, e o dever, que fizeste amargar aos outros, começou por te amargar a ti. E a esta luz intoleravel as coisas tomam a teus olhos aspectos ignorados...—Mas então não há dever nenhum e eu não sou a D. Leocadia, 29-3.º-D.?—Outro passo, D. Leocadia, mais outro passo ainda...—Que exiges tu de mim então, que não comprehendo? Que exiges tu de mim contra a minha vontade? Que me aniquile? Que me dispa para te vestir?—Não grites...—Que exiges tu de mim de absurdo com que não posso arcar? Um esforço sobrehumano? Ou exiges apenas que eu faça o bem que posso, uma parte do bem? Ou é o mal que tu exiges de mim e o bem é um pecado? Melhor será deixar a cada um a sua parte de desgraça e de colera?... Eu posso talvez despir-me, posso cumprir o meu dever, mas que mais exiges tu de mim com que, ainda que queira, não posso! Que exiges tu de mim?!—Mas, D. Leocadia, eu não exijo nada de ti, cada um se aguenta conforme pode n'este balanço...

—Mas então não há dever nenhum? não há bem nenhum? Que fiz eu d'este sêr apagado e inerte com um filho do meu filho na barriga?—Oh D. Leocadia como tu educada sempre com as mesmas palavras e no mesmo dever, um dia de dever, outro dia de dever, e erguendo, no silencio e no tedio, uma construcção de trapos e de palavras que chegou ao céo e substituiu o céo—como tu tapas os olhos com desespero para não vêr! Hás-de aguentar com este pezo, que não podemos suportar... Talvez fiquemos cegos, talvez saiamos d'aqui aos gritos, os maniacos sem a sua mania, os bons sem a sua bondade, e os pobres só fél e vinagre, mas temos de ver o que não nos estava destinado. Para largar a pelle, D. Leocadia, até a cobra adoece. Tanto importa que resolvas como que não resolvas o problema—todos temos de dar o passo. A villa é a mesma villa, as pedras as mesmas pedras. Nós mesmos não mudamos. A nova vida obriga-nos apenas a discutir o que estava ao nosso lado. Tudo existia no mundo, até este desespero; tudo estava vivo, até este grotesco. Nós é que estavamos mortos.


Passou no mundo a extranha ventania, e a morte de tal maneira se entranhou na vida que custa a separal-as. Mas já lá vão as formulas, os alicerces e os usos... No alto, sobre este absurdo, entre o borralho remexido, com a cinza e as faulhas atiradas indiferentemente para a escuridão, só a Via Lactea mudou de côr e alastra de lez a lez na aboboda recurva uma nodoa viva de sangue.



DEUS



25 de fevereiro


Dormi n'um taboado, cingiu-me uma cadeia. Vesti-me com um sacco. Todos os dias arranquei de mim proprio um farrapo e um grito. Arredei tudo para ficar só comtigo no mundo. Sacrifiquei-te tudo. Fiquei nu e Deus, nu e a vida eterna. Tinha o horrôr da lepra, vivi com os leprosos. Calquei todas as afeições inuteis, e se uma andorinha me fizesse ninho na banca, como ao frade d'Assis, torcia-lhe o pescoço. Encheste-me a vida toda.


E agora a morte não existe, Deus não existe, a vida eterna não existe. Uma luzinha e depois a escuridão!


Tenho diante de mim esta força cega, este absurdo a escorrer ternura e lepra, como uma primavéra escorre morte, a irromper contra tudo e apezar de tudo, d'uma profundidade cada vez mais sofrega e cada vez maior. Não quero vêr e hei-de por força vêr!


Este inferno, a que dei vida e a melhor parte do meu sêr, não existe! Tinha conseguido só te vêr a ti no mundo. Com uma palavra enchi o vacuo. E este Deus por quem sacrifiquei toda uma vida e a melhor parte da vida, não existe! Foi tudo inutil. Dilacerei-me. Dei-me a mim proprio em espectaculo. Assisti a esta tortura, e tu não existias! Vivi fóra de mim mesmo e de repente tive de me aceitar a mim mesmo. Toda a minha vida foi inutil! tudo o que fiz foi inutil! Foi grotesco e inutil!


Sacrifiquei tudo a quê? Sacrifiquei o melhor da minha vida ao vacuo. Ofereci-lhe em espectaculo a minha dôr. Mas então que existe? Qual a directriz da minha vida? Qual a ilusão com que hei-de encher isto? E para que hei-de viver? Qual o sonho immenso capaz de substituir este sonho? Que é Deus agora? Deus é tudo e nada. É uma força. Deus é uma lei inexhoravel. Mas então tu que podes tudo—tu não podes nada. És uma lei—e hás-de cumprir essa lei. És um destino e não podes dar um passo fóra d'esse destino. Não vês, não ouves, não sentes. Eu sou uma insignificancia, e valho mais do que tu. Porque eu grito, eu sofro, eu atrevo-me. Amanhã quebro o meu destino. Tenho uma consciencia. Sou ilogico e absurdo. Debato-me. E tu, Deus, não passas d'uma força cega e estupida. Não me serves de nada.


Preciso d'um Deus que me atenda, que me escute, que saiba que sofro e que me veja sofrer. Preciso d'um Deus que me salve ou que me condemne. Preciso d'um Deus que me ampare. Preciso d'uma inteligencia superior á minha e em comunicação com a minha.


Um Deus-força, um Deus que não se comove com os meus gritos nem com as minhas suplicas, não me interessa. Um Deus que caminha para um fim que não atinjo, é um Deus absurdo. De que me serve este Deus? Não ouve os gritos—destróe; não sente a dôr—destróe. Destróe e caminha. É inalteravel. Ilude-nos. Deixa-nos um segundo deante d'este espectaculo, para nos mergulhar no nada. A nossa aspiração não cabe aqui: entrevêmos, sonhamos, e, a meio do caminho, talvez no inicio de sonho maior, destróe-nos. Peor: tem uma necessidade de sofrimento cada vez maior, de sofrimento inocente ou culpado. Revê-se na dôr. Deus é cego.


Debalde grito—não há quem me ouça. Debalde sofro—ninguem o detem. Tanto faz viver como morrer. Deus, tu és monstruoso! Destróes—caminhas. Destróes e não sentes. Vens do infinito, e atraz de ti fica um infinito de dôres, uma massa de gritos e de sêres espesinhados. Segues e destróes. Constróes não sei o quê de portentoso com que não posso arcar. D'essa pata monstruosa escorre sempre ternura. Não é indiferente que calques e recalques. Quanto mais espesinhas, mais gritos, mais ternura nas arvores, mais estrellas nos céus. Parece que a dôr é inseparavel da ternura, como a morte é inseparavel da vida.—Até aqui eu tinha uma taboa a que deitar a mão. Até agora tinha um nome—agora não sei como me chamo. Agora tenho medo de mim mesmo, agora sinto-me isolado n'este cahos infinito, n'este repelão desabalado, que me leva sem sentido e sem fim. Eu e a noite—eu e o doido! Até agora supunha-me tudo, eu e Deus, eu e a mão enorme que me conduzia e amparava.—Sofras ou não sofras, vaes para a mesma cóva, para o mesmo nada, para o mesmo silencio. Antes o inferno! antes o inferno! Tu que foste desgraçado, ou tu que foste feliz, tu que te descarnaste até á medula e tu que passaste indiferente pela desgraça—vaes para a mesma cóva profunda, inutil, absurda e muda. Antes o inferno, antes a dôr pelos seculos dos seculos a vir, do que a mudez e o horrivel silencio atroz!—Tudo foi indiferente tudo é indiferente ao monstro que passa e esmaga, que não ouve e esmaga, que não vê e esmaga. Indiferentes os teus gritos e as tuas suplicas; indiferentes a tua renuncia, a tua dôr, as tuas lagrimas. Foi indiferente que fosses bom ou mau, que tentasses subir ao topo do calvario. Não existe na realidade nem vida nem morte—não há na realidade senão chimera e dôr—não há na realidade senão este monstro que passa e esmaga, que caminha e esmaga.


Deus é cego! Deus é cego!


Emquanto te importaste comigo no mundo, foste o meu unico pensamento e só tu me importavas no mundo. Agora não posso, agora não dou comtigo. Agora não te encontro. Agora sou mais pequeno, e maior. Agora meto-me mêdo. Que voz pode echoar e sobresaltar esta solidão infinita, este mundo infinito, onde os gritos se não ouvem a cem passos, e tudo que chamamos amargura, dôr, grandeza, se apaga logo e se reduz a zero? O meu dever já não é o mesmo dever, a minha consciencia já não é a mesma consciencia. Só os meus instinctos se conservam de pé.


Acuso-te de teres comprometido a minha situação no universo. Acuso-te de não me deixares ser infame. Acuso-te de me dares o remorso. Acuso-te de impedires o instincto. Acuso-te de teres transformado a vida e criado a consciencia. Acuso-te de me deixares sósinho com este peso em cima, com a ideia da vida e com a ideia da morte. Acuso-te de me levares para um calvario como o teu, para me tornares grotesco, e de me colocares em frente de ideias com que não posso arcar. Acuso-te de não poder mais, e de me instigares a mais ainda. De me obrigares a olhar cara a cara o assombro que não existe; a morte que não existe; a consciencia que não existe. Subverteste o mundo. Forçaste-me a criar outro mundo, a olhar para cima e a clamar no vacuo. Acuso-te de não me deixares atascar á minha vontade em lôdo, de não me deixares mentir, matar, chafurdar. Acuso-te de me impelires para cima, quando a minha vontade era ir para o fundo. Acuso-te de não me deixares ser bicho.


Estou prompto para tudo. Desde que não há Deus tudo são palavras. Desde que não há outra vida, só há esta vida. Só há este minuto, esta hora presente. Sinto-me capaz de tudo. Estive annos a rezar a uma comoda, a falar a uma comoda, a sofrer deante de uma comoda. Fui grotesco! fui grotesco e tu não vias! fui grotesco e tu não ouvias! fui grotesco e tu não existias!


Doe-me tudo, doe-me principalmente sentir-me grotesco! sentir que perdi a vida e sou grotesco! sentir que me deti e fiquei descarnado, impotente e grotesco!


Por uma palavra fui absurdo. Por uma palavra tenho atraz de mim uma architectura desconforme e destroços que enchem o mundo—por uma palavra e mais nada. Tu não existias!


Mas então—pergunta esta voz colerica—todo o esforço é inutil? todo o sacrificio é inutil? Creaste estas ideias falsas de dôr, de renuncia—e não existes! Um santo viveu sobre uma columna: «Desde que se punha o sol até que amanhecia o dia seguinte, estava de pé na columna com as mãos levantadas ao céo». Oitenta annos de grotesco. Outro amaldiçoou-te: «Ai de ti cidade sensual onde os demonios fizeram sua habitação!»—Grotesco! grotesco! grotesco! Tu não existias! Que se levantem todos do sepulchro, uns atraz dos outros, que se erga o pó e te grite:—Tu não existias! Chamaram-te. Imploraram-te. Carregaram com a tua cruz. Andaram de rastros, reduziram-se a osso e a lepra. Foram indiferentes ao sofrimento e ao sarcasmo. Renunciaram á vida, deram-te o espectaculo da sua dôr, a ti que não existias! Das profundas do mundo vem sempre a mesma ancia, das profundas da dôr ergue-se sempre o mesmo grito. Isto tem alicerces como nunca se cavaram alicerces. Cimentaram-n'os os vivos e os mortos. E por mais esforços que empregue—tu na realidade não existes. Há outra coisa peor que está viva, outra coisa monstruosa que avança dentro de nós e direita a nós e que ninguem pode deter. Tu não existes e eu tenho de caminhar por força, não sei para que estupido destino. Tu não existes e obrigas-me a avançar para um fim grotesco—desmedido e grotesco—que não comprehendo nem abranjo. Tu não existes—e estou nas tuas mãos. Tu não existes e n'este mundo absurdo, onde não encontro quem me condemne e quem me salve, há ainda quem me empurre, quem me arraste e me faça sofrer, uma força cega que trago comigo, que me rodeia e me não larga!—Tens de existir por força. Tens de existir pelo que sofremos e pelo que creamos. És a unica luz n'esta escuridão cerrada, a unica razão como verdade ou como mentira. Existe aquillo que eu quero que exista, é verdade aquilo que eu quero que seja verdade, aquilo que eu e os meus mortos transformamos em verdade. A fé é maior que todas as forças desabaladas, mais viva que todas as vidas. Comprehendo a inutilidade de todos os esforços e faço pela mentira, o esforço que fazia pela verdade. Tenho de te manter á custa de desespero.


Se não existes é forçoso que exista um dictador moral, que extirpe sem piedade o pecado da terra. Que não ouça os gritos e condemne, que realise o pensamento de Saint-Just e obrigue os ricos a trabalhar nas estradas, e cujo poder ignorado e oculto submeta a humanidade a uma lei de ferro, e a salve pela mentira, já que a não pôde salvar pela verdade. Cinja-me a mesma cadeia, durma no mesmo taboado, e empregue o mesmo esforço, por um sentimento de desespero contra ti que me iludiste. Por mim proprio, para fugir de mim e de ti que não existes! Resisto, teimo. Só vejo treva e teimo. Levo-me todos os dias ao mesmo espectaculo. Rasgo-me com gritos. Ó desgraçado, aquillo em que tu crês é mais negro que o negrume!


A mesma força cega nos impele. Queira ou não queira sou levado para um fim que não comprehendo... Cahi nas suas mãos! Outra coisa me envolve a que não sei o nome, outra coisa que espera de mim uma acção que ignoro, outra coisa a quem eu me quero manifestar e que talvez se queira manifestar, sem nos chegarmos a entender. Rodeia-me. Sinto-a. Há occasiões em que me toca. Ouço-lhe os passos. Debato-me. Constrange-me. Há momentos em que me iludo, para fingir que estou sósinho. Há momentos em que me escarnece. Sufoca-me: vou ouvir-lhe os gritos—tenho medo que me fale! Só ella vive no mundo, só ella anda á tôa no mundo! Debalde apélo para mil manhas, debalde tento mil explicações. Estou nas suas mãos! estou nas suas mãos! Outra coisa inexplicavel e immensa, temerosa e immensa, anda por traz de mim, dentro de mim, outro abysmo maior, outra coisa que sua e me escalda até á medula. Procuro esquecer-me—ella aqui está ao pé de mim. Na vida e na morte estou nas suas mãos monstruosas. Sou a consciencia—tu és o impulso. Sou a razão—e não sou nada. Lucto até á morte, finjo até á morte, vou até ao fim dilacerado, escarnecido e iludido.


Estou nas tuas mãos! estou nas tuas mãos!



O DEVER



1 de março


D. Leocadia o dever é um contrato. Um contrato com um ente superior ou um contrato com os outros. Há deveres para com Deus e deveres para com os homens. O contrato com Deus falhou, porque Deus não existe; o contrato com os homens não o cumpro, porque, se me sujeito a respeitar-lhe as clausulas sósinho, expoliam-me. Restam os deveres para comtigo, os deveres perante a tua propria consciencia. Oh D. Leocadia, eis o fundamento da questão!... Tu tens passado a vida com uma personagem importante, que te julga, te aplaude ou te condemna, e para ella, e só para ella, deste as tuas melhores representações. Para a enganares, enganaste-te, mentiste para lhe mentires. E reduzida a trapo, só desespero e orgulho, atiraste-te aos pés d'essa avantesma que não existe, D. Leocadia—que afinal não existe! Como se consegue edificar uma vida sobre um broche com um sujeito de suissas e uma redoma de vidro com a imagem d'um santo, e intercalar-lhe um drama baseado na ideia do devêr, até ao ponto de se apoderar de ti até ao amago, é que eu não comprehendo e admiro, ó sordida antrópopiteca com uma cuia de retroz! O devêr era frio e amargo e tu cumpriste-o; o devêr era coçado e hirto e tu cumpriste-o. Foi a razão da tua vida. Azedou-te e sustentou-te. Quando te vencias, vencias-te com orgulho. Deu realidade á tua existencia ephemera. Fôste ao mesmo tempo actor, tablado e publico. Sem esse dialogo entre ti e ti, entre uma D. Leocadia de cuia de retroz e outra D. Leocadia de cuia de retroz, desesperado e pertinaz, articulado ou mudo, que te fez de fél e vinagre, a tua vida não tinha tido directriz. Nas noites solitarias, em que não conseguias aquecer os pés com dois pares de coturnos, aqueceu-te. Deante do frio da pobreza teimaste:—Cumpri sempre o meu devêr.—Deante da sordida velhice, avançaste com autoridade:—Cumpri o meu devêr.—E até deante da imagem pavorosa da morte, exclamaste sem receio:—Cumpri sempre o meu devêr!—E só tu sabes o que é cumprir o devêr dos devêres, o que é tiral-o á bocca para o meter na bocca que se detesta, entre quatro paredes d'um terceiro andar (29-3.º-D), desde o principio da vida até ao isolamento da cóva. Cumprir o devêr minucioso e exigir o devêr minucioso. Com elle dominaste-te e dominaste-a, gastaste-te e gastaste-a, esqueceste a vida e a ti propria te esqueceste. Com uma palavra e mais nada. Arreganha os dentes se queres ao teu proprio phantasma... Com uma palavra e mais nada. Subordinaste a tua vida ao devêr, e o devêr não existe: é um mundo d'orgulho e de escrupulos. Custa a entrar na cachimonia que a côdea que tiraste á bocca para a mantêres, o vestido que cortaste ao teu proprio vestido para a vestires, as noites de discussão interminavel, tu e o devêr—tudo fôsse irrisorio e inutil. Mas foi. O devêr não existe, o mundo construido com alicerces por omnia seculo seculorumnão existe D. Leocadia. Perdeste a vida e transtornaste a vida atraz d'uma sombra. Restam-te mil annos e um dia, para cumprires, se queres, o teu devêr inutil, o teu devêr atroz, para obedeceres a um phantasma absurdo, a quem dás o ultimo leite d'um peito exhausto. Repara bem, atende bem... Chegou o momento em que vaes aparecer deante do universo com as tuas ideias fundamentaes e sem o teu vestido de lemistre, e, se te obstinas, mesmo no fundo da cóva e com a bocca cheia de pó, hás-de gritar de desespero, quando te compenetrares de que o devêr postiço, o estupido devêr, fede que tresanda. Queiras ou não queiras chegou a ocasião de me rir de mim e de ti com dôr e lagrimas, e de te expôr tal qual és, nua e reles, nua e grotesca... Despe-te D. Leocadia!

Mas a figura verde não cede: traça o chale como quem se fecha com os sete sêlos do Apocalipse e exclama do alto do seu pedestal:—Eu sou de muito bôa familia!


(O peor foi d'ella, o peor foi d'esta figura secca e coçada, desagradavel e sêcca, que eu conheço desde que me conheço, sempre a prégar contrariada o seu devêr, sem um dia de descanço e na eterna duvida:—Cumpriria eu afinal o meu devêr?—Vai para a cóva farta de cumprir o seu devêr e ignorando se na realidade cumpriu o seu dever nem para que serve cumpril-o. Ninguem a pode aturar. Odeia o devêr que cumpre, e cumpre-o sem desviar um passo como quem cumpre um destino. Até te digo mais: o que lhe custa a abandonar na hora extrema não é a tua, mas a sua companhia. Olha-o com desvanecimento. Faz-lhe falta. Mais falta do que Deus, essa avantesma de cuia de retroz com quem passou os melhores dias d'uma existencia incerta. É talvez o seu verdadeiro Christo, que continua, mesmo sem existencia real, a reclamar que cumpra as clausulas d'um contrato já rôto. Tem de cumprir o seu devêr não acreditando no seu devêr. A D. Leocadia é uma figura secca e coçada, enorme e secca, vêrde e grotesca, que desvia o olhar da vida, para cumprir, seja como fôr, o devêr estupido, o devêr atroz. Tenho vontade de chorar)...


Foi buscal-a ao asylo e trouxe-a para casa, com o cabelo cortado como um recruta. Deitou-lhe a mão e fechou-se com ella por dentro. As paredes tomadas de frio salitroso, transiram de frio sepulchral. Quando se atreveu a rir, cortou-lhe logo o riso cerce—para não se tornar a rir, ao primeiro assômo de vontade, cortou-lhe logo a vontade rente—para não tornar a ter vontade; e, quando cahiu de cama, postou-se dia e noite á sua cabeceira, hirta e solemne como o devêr. Um pobre não tem vontade, um pobre não tem orgulho. Nem pode tel-o; veio ao mundo para cumprir o seu devêr. Veio ao mundo para sêr obediente. Pobres educam-se como pobres e ricos educam-se como ricos.

Só tu D. Leocadia te deste ao goso superior de têres uma alma á tua descripção. E isto sem gritos, com um ou outro soluço logo represado, noite e dia, dia e noite, e um olhar d'espanto, uma luz que se extingue até á impassibilidade, n'um terceiro andar de rua da Bitesga. Levou tempo a morrer essa ternura dorida, que teimou em vir á superficie, até que a D. Leocadia a conseguiu esmagar sob o calcanhar de ferro—para sempre, para todo o sempre. Por fim uma curvou a cabeça submissa, e a outra ergueu a cabeça triumphante.—Para a livrar da fome, para a subtrahir á desgraça. Se não fosse eu ia parar a uma viella. Cumpri o meu devêr.—Sim, e para a crear, para que não fosse parar a uma viella, o vestido que lhe durava uma eternidade, teve de lhe durar outra eternidade ainda; a côdea, que mal chegava para lhe matar a fome, repartiu-a com a orphã, guardando para si o bocado mais pequeno. Cumpriu o seu devêr de ferro, o devêr que pesa toneladas, e cumpriu-o sem desviar uma polegada da linha do devêr. Obrigou-a a levantar-se de noite, mas levantou-se primeiro do que ella. Pobres querem-se como pobres, sempre na regra e no devêr e sem levantarem a cabeça. Quando a orphã a olhou transida de dôr e a D. Leocadia lhe bradou:—Cumpre sempre o teu devêr!—já ella tinha cumprido o seu devêr até final. Passaram-se annos ou seculos, morreram as aranhas de velhice no fundo dos saguões deshabitados; nas paredes mestras de granito a camada de frio salitroso juntou-se camada de frio sepulchral, e a camada do frio sepulchral sobrepoz-se camada de frio deshumano. E sempre tu cumpriste o teu devêr e ella cumpriu o seu devêr d'hora a hora como um pendulo. Incutiste-lh-o tão fundo que ahi a tens na tua frente, palida e inerte, com um filho do teu filho na barriga...


Não te queixes D. Leocadia, porque afinal foste buscal-a ao asylo para te sentires maior no teu orgulho. A desgraça dos outros não comove, a desgraça alheia consola. Mas tinhas de cumprir o teu devêr: ao magestoso edificio que architectavas, faltava-lhe ainda o remate. A côdea que tiraste á bocca manteve-te melhor que se a comesses, e o vestido que lhe deste, agasalhou-te melhor que se o vestisses. Engrandeceste. Amargaste e doiraste. É verdade que tambem resequiste. Espera, espera... Resequiste, mas como o mundo é extraordinario, como a vida é prodiga e teimosa e irrompe até das pedras, extrahiste não sei que ternura azêda do mais duro de todos os peitos—ó contraditoria D. Leocadia, 29-3.º-D., que eu não chego a decifrar. Não podes com isto, não explicas isto, não aturas isto! Não comprehendes. Nem eu.—Tambem eu D. Leocadia! Lé com cré. Tambem eu, se me liberto d'isto que não tem significação, não encontro nada que tenha significação. Chegamos ambos ao ponto e estamos ambos estarrecidos. Moeste-te e moeste-me por uma palavra apenas... Olha bem para ti! olha bem para dentro de ti! Moras na rua da Bitesga, entre duas ou tres curiosidades seculares. Usas um vestido de lemistre, luvas d'algodão no fio e um broche pendurado ao pescoço. Não sei por que bamburrio se te encasquetou no toutiço a ideia de Deus e do devêr, e de que o infinito tem de dar importancia ao teu problema, aos teus flatos e ao teu broche, onde um retrato de suissas não tira de mim os olhos de peixe... Não mastigues. Bem sei que só nós, tu e eu, eu e tu, com o teu vestido de lemistre, é que somos capazes de contrahir noções, talvez erroneas mas profundas, do bem e do mal. Os outros bichos teem mais que fazer. Mas é por isso mesmo D. Leocadia que te cahiram os dentes postiços e que começas, n'esta nova situação, a comprehender que o bem e o mal é tudo a mesma coisa. Talvez a gente não possa fazer o bem senão a si mesmo...—Mas então—e crispa a mão sobre o broche—talvez o bem seja uma monstruosidade, talvez todos tenhamos de destruir. O mal é que eu sinto. Para o mal é que eu fui creada!—E sua d'aflição toda a tinta que lá tem dentro, quando outra D. Leocadia irrompe da carcassa da D. Leocadia:—Pergunto-te se o que tu não consegues é prolongar o mal. Pergunto-te se esse orgulho humano, se esse orgulho sobrehumano, não é um mal maior, e essa piedade que sentes não é por ti que a sentes.—E eu, e eu pergunto-te se a minha verdade falsa não me serviu melhor que a tua verdade amarga.—Pergunto-te a ti—e sacode-a—se não é isto que eu sinto cá de dentro, do fundo dos fundos. Pergunto-te de que te serve a mentira com que cohabitavas. Nunca conseguiste bem nenhum, nunca cumpriste o teu devêr. Logo que te puz a ti e a ella na mesma situação de egualdade já não pudeste cumprir o teu devêr.


D. Leocadia, quem recebe o bem fica sempre humilhado. O bem constrange. O que tu chamas a piedade, e o bem põe quem o recebe na situação de te morder as mãos. E continuar a fazer o bem é elevar-te pelo bem que fazes e rebaixar-me pelo bem que recebo. Acabas por gastar o que em mim há de melhor. Oh D. Leocadia, se eu podesse—eu é que te fazia o bem, para tu veres o que é o bem recebido, o bem agradecido e o bem amargurado. Antes tu me fizesses mal, D. Leocadia, porque o mal põe-me ao teu nivel, e o bem acostuma o desgraçado a ser mais desgraçado ainda. Degrada-o. Põe-no na tua dependencia e na dependencia da desgraça. Cria uma superioridade, a tua, e um azedume, o meu. Classifica para todo o sempre. Estou perdido se não reajo em odio.—Mas então...—e a D. Leocadia atira-se com desespero á outra D. Leocadia, e interrompe-a, primeiro com mudez, depois com gritos:—Ia parar a uma viella!—Avança e repete mais alto:—Ir parar a uma viella é o que há de peor no mundo!—E a outra torna com escarneo e diz-lhe ao ouvido não sei que segredo temeroso—e a D. Leocadia torce-se com pavor mas sustenta:—É o que há de peor no mundo! é o que há de peor no mundo!—E com dôr, com angustia, com desespero, pergunta a si propria (a outra teima e não a larga):—É o que há de peor no mundo!?—Eu não sei se é o que há de peor no mundo, não sei se reduzir uma creatura, a trapo é o que há de peor no mundo. A tua piedade amesquinha-me. O que eu reclamo é o meu logar na vida e o meu quinhão de desgraça. Não m'o tires! Mas ella é d'aço. Não transige e protesta:

—Matei-lhe a fome.

—Mataste-lhe a fome mas não podeste amal-a.

—Nem posso! nem posso! nem posso!

E encara-se mais atonita e mais verde, mais resoluta e mais verde, sem desviar o olhar.



A VELHA E OS LADRÕES



3 de março


Sombras. Tres cabeças monstruosas projectadas n'um muro, que se aproximam e afastam depois de confundidas. A velha a um canto agacha-se aos pés da filha. E ao lado as tres sombras fundem-se n'uma unica sombra disforme. Duas, tres horas talvez... A sombra da velha reduz-se a nada, a menos que nada, á sombra da dôr. Por fim erguem-se, mergulham e dissolvem-se na caligem da noite, as tres sombras dos ladrões e as sombras das mulheres, a quem não distingo as feições... Eu já vi isto algures, em outro mundo onde me custa a entrar. Metem-me medo. E não é só medo, é dôr. Vivi com estas sombras n'um pesadelo, de que sahi atonito e exhausto, n'um sonho em que tudo isto fazia parte integrante da minha propria alma, e que sonhei lavado em lagrimas. As tres grandes sombras levam, não sei para que destino, as outras enrodilhadas. Duas, tres horas da madrugada talvez... Caminham sem se lhes ouvir os passos á beira do rio que corre para o mar desde o principio do mundo.

E o silencio é cada vez maior. Só a agua fala nos buracos poidos das pedras, em dialogos que nunca cessam, n'um côro de vozes ininterruptas e indistintas—ameaças, suplicas e gemidos. A Joanna cala-se: só se lhe ouve um anh... anh... de cançasso, como se arrastasse na escuridão uma cruz do tamanho da escuridão. A seu lado o côro inutil da agua corre sempre para o mar, com gritos, risos, vaias e apupos.

Uma voz, a do velho ladrão compadecido, diz-lhe baixinho:

—A tua filha... Se teimas levantas a desgraça a teus pés.

E lá deslisam no escuro, e o rio sempre a correr e a prégar o mesmo presagio de dôr no chape que chape onde se percebem échos de todas as desgraças que sucederam no mundo, levando para o mar todas as lagrimas que se choraram no mundo.

Outra vóz no escuro:

—Ou tens de sofrer mil mortes na tua filha, ou tens de me fazer a entrega. Agora escolhe. Uma ou outra. Agora ouve: ella é nada n'estas mãos.—E pergunta-lhe:—Tu és ou não uma coisa que me pertence? Posso matar-te?—Podes—E essa voz rouca, essa voz implacavel torna:—E ou... Tu ouves velha? A mim ninguem me engana... Tu riste? (Ella faz anh... anh...—cançasso ou dôr)—Aqui tens... Ouve mais... Tu ouves ou finges? Tu que dizes? A velha é rica tambem te cabe uma codea. Ninguem te pede mais nada. Eu cá é que executo.

E lança a dois metros um jacto de saliva.

A Joanna recua: avançam logo e não a largam as sombras que a envolvem.

—Tu hás-de abrir-nos por força a porta!

—Estafermo! estafermo!

—Tu abres-nos a porta. Á velha deito-lhe a mão ao gasganete e não dá pio. Aperto no escuro—eeeh...—e sinto no escuro um estremeção e mais nada...

—Jesus!...

—Ó pandorca! És um trapo! és peor que um trapo!...

—Deixem a velhota sósinha comigo, que nós dois entendemo-nos—intervem o ladrão mais velho. E leva-a suspensa pelo braço como quem leva uma pluma.

Cobre-os o céo profundo, onde palpita uma vida intensa. Arqueia-se sobre a velha e o ladrão de lez a lez a abobada recurva. Ao longe seguem-n'os sempre as outras sombras temerosas.

—Estupida! estupida! Passaste a vida a servil-os. Aproveitaram-te e deitam-te fóra. Só te deram restos e enchiam-se até aos gorgomilos. E tu apegaste e tu defendel-os!... Ouve tu abres-nos devagarinho a porta...

—Jesus Christo veio ao mundo para nos salvar!...

—Isso! Até me metes nojo! Isso! Até me fazes rir! Só tu, calhordas, eras capaz de me fazer rir n'esta hora aziaga. Pilhasse-te eu no meu tempo!...—E aperta-lhe o braço contra o peito, leva no ar aquelle molho de ossos e ri-se com escarneo.—Tu lavas, tu esfregas, tu comes os restos, tu até cheiras mal! Tu metes nojo. E hesitas... Que se te pede? Que nos abras a porta e mais nada. Só há uma ocasião na vida, toca a aproveital-a.... Se nos abres a porta, ficamos ricos.—Abraça-a. Vomita uma risada. Peor que matal-a, enlameia-a. Aquillo vem do fundo da terra, vem do boqueirão da noite e traz escarneo pegado. Sobre isto chove: parece que toda a lama fetida da rua subiu ao céo para tornar a cahir. A Joanna geme. Uma risada e um gemido que se amalgamam, gemido que se extingue para depois subir mais alto, para se confundir com a risada, sempre o mesmo gemido, sempre a mesma risada. E a noite é pó de desgraça, cada vez mais moído e mais negro.

—Não te cabe n'esse caco que ninguem tem pena de ti. Escuta o que te digo. Rouba-a, estupida! rouba-a! Na cadeia tambem se come pão. Ao menos lá enches essa barriga. Abres-nos devagarinho a porta...

—O que havia de dizer a minha senhora!

—Ninguem no sabe. E ouve: se não nos abres a porta, a tua filha nunca mais a vês.

O silencio e a noite com outras noites em cima, as sombras que caminham, e aquella sombra humilde cada vêz mais pequena, reduzida á sombra da sombra e do escarneo. E teima, e teima contra a desgraça, contra as injurias e as vozes do rio. Há milhares d'annos que o dialogo nas pedras dura, sempre nas mesmas ameaças, que vem do fundo da agua e a Joanna não ouve. Devagar palpa a algibeira e tira do bolso e entranha na pele um pedaço de ferro gasto e poido.

Outra vóz na noite:

—Mãe!

A vida d'essa mão de rachar lenha, d'essa mão de arvore e dôr! Como ella se contrae, emquanto a Joanna caminha absorta. Talvez uma hesitação instantanea, e depois, sem que ninguem repare, a mão abre-se e deixa cahir a chave nas profundas da agua, que continua a correr e a prégar, a correr e a falar ás pedras e ás estrellas nas mesmas palavras inuteis, ao lado da vida sem destino.

Chegam emfim á muralha do predio, e outra vêz as sombras se juntam n'uma unica sombra, outra vêz se ouve aquella vóz sahir da noite:

—Mãe, olhe p'ra mim! olhe bem p'ra mim!

E a velha sente na cara tres bafos monstruosos, ao mesmo tempo que as vozes roucas reclamam:

—A porta... Depressa! depressa!

—A chave perdi-a.

Um repelão e um grito, um grito que se afasta e sae da noite, cada vez mais longe e cada vêz mais alto...


Sobre este sêr humilde encarniça-se mais o sonho. Lá vae a mulher da esfrega empurrando o farrapo monstruoso que se agita na noite. A sombra e a mulher da esfrega, o espanto e a mulher da esfrega, o sonho doirado de grandes azas esfarrapadas no negrume e as mãos encortiçadas de lavar a louça, a vida phrenetica e a vida humilde. Uma bocca enorme d'um lado, a voz da Joanna do outro, sentimentos cahoticos impossiveis de traduzir em palavras, o que exprime a natureza impulsiva, o que responde uma creatura agarrada á ideia do sacrificio.—Anda para deante.—Estupida! estupida!—A bondade entranhou-se-lhe até ao amago. Tudo está nos seus logares: as coisas simples e as coisas eternas, e há outra coisa que ella não sabe exprimir, que a alma d'esta mulher não abrange: a intrusão do sonho na sua vida humilde. Bronco e sonho. Até agora só com a desgraça arca, agora o doirado tinge-a. Sacode-se como um cão molhado. Debalde tenta desfazer-se do sonho immenso que se lhe pega: irrompe em palavras baixinhas, hesitantes, que voltam atraz. Uma pausa e o monologo recomeça logo. Há não sei que de monstruoso no mundo, que bebe todas as lagrimas e leva todos os gritos. E não se farta. Há não sei quê que reclama dôr. Toda a noite se desespera. A desgraça sua, a desgraça trôpega e ridicula. A desgraça enche a noite de esgares. Depois o sonho desgrenha-se. Depois sacode-a uma rajada, e lá torna, sem uma palavra, sem um grito, a grande sombra que se envolve em si mesmo e a si mesmo se estorcega. A desgraça sua de aflição sem poder exprimir-se. E quando a dôr se concentra, quando a dôr se torce como quem torce um farrapo e a velha não pode—a velha irrompe n'uma toada estupida. Mais doirado, mais fundo...

Caminha e depara com a D. Restituta, que atravessou a vida com o guarda-chuva incolume e que faz gestos desordenados no escuro:

—Acuso! acuso! acuso!

—Senhora D. Restituta...

A senhora D. Restituta está cheia de lama. Tem a penna do quico partida: é uma figura feita com tres traços de tinta e algumas manchas de desespero. O sonho doira-a, esfarrapa-a tambem. A penna em frangalhos agita-se como um pendão de revolta, esgarçado e chamuscado. Todas as vontades a compeliram e a esmagaram—quer retomar a forma primitiva. Dir-se-hia que cresce na noite, e que a sua bocca é uma bocarra cada vez maior, para prégar, para açular, para vomitar injurias. Sómente não emite outro som senão este:—Acuso!—a velha gasta, a velha inutil, a D. Restituta da Piedade Sardinha.

—Senhora D. Restituta...

A outra não vê, não ouve, não mexe.

—Minha senhora...

—Acuso!

—...para o que se vive n'este mundo não paga a pena ruindades.

Debalde a Joanna lhe fala. Resta deante do sonho com a mandibula despegada e o velho guarda-chuva que conserva intacto desde a primeira virgindade—teve duas—metido debaixo do braço. Nem uma nem outra entendem aquillo. Uma empurra, afasta de si o sonho com as mãos de lavar a loiça, a outra com as mãos pacientes, as mãos diaphanas da mentira. Tem feito sempre todas as vontades, e se a figura um momento se engrandece, amarfanha-se logo, como um trapo suspenso que se deixa cahir ao chão.

—Acuso! acuso! acuso! De repelão—mete para dentro! uma vergonha mete p'r'o sacco! desprezo, escrupulo, fome—mete tudo p'r'o sacco! Para um sacco sem fundo. Passei tudo, passei mortes para o poder crear e nunca pude dizer que tinha um filho. Para o crear, para o poder crear nunca pude vêr o meu filho. Meti tudo p'r'o sacco, sem poder abrir bico, senão matavam-me á fome... E nunca pude vêr o meu filho, senão matavam-me á fome. Criei-o longe para o poder crear, criei-o como pude, de vergonha, de restos, de codeas, de dizer a tudo que sim. E este filho! este filho que nunca pude vêr, vi-o agora! Este filho que criei de mentira, este filho que criei d'abjecção, sem nunca o poder vêr, vi-o agora! Este filho que tinha sonhado ás escondidas, com a bocca tapada para não gritar: Tenho um filho, tambem tenho um filho!—vi-o! vi-o! vi-o! Meti tudo p'r'o sacco! meti o diabo no sacco! Só a noite me ficava livre para sonhar com elle, para o vêr rico, para o vêr como os filhos das outras... Aqui está a Restituta que é idiota, aqui está a Restituta que é um poço sem fundo. Deante d'ella pode dizer-se tudo, a Restituta serve para tudo, a Restituta mete tudo para o saco. Cala-se que é o que lhe vale—mete a viola no saco. Só a Restituta sabe o que se passa, o que está no prégo e o que está no fundo das almas. Calei tudo, disse a tudo que sim para o poder crear. Mete p'r'o saco! mete tudo p'r'o saco! mete a viola no saco!—E n'um crescendo de desespero:—Acuso! acuso! acuso!


Debate-se a Joanna n'uma cogitação a que não suporta o pezo. É como se pela primeira vez désse com a vida e quizesse atalhar a vida. Tudo para ella mudou de expressão: a desgraça muda de expressão, a filha muda de expressão. E o sonho envolve-a, deforma-a, besunta-a. Sente-se-lhe o ranger dos gorgomilos.

A dôr descarna-a e redul-a ás linhas principaes, á secca realidade. Um ulular de tempestade, e tudo quieto. Nunca o concavo se concentrou em mais serenidade. Gritos, um desabar monstruoso, e este sêr abjecto, que, como uma coisa que andou a rasto por todos os sitios suspeitos, não tem fórma nem côr: tem cheiro, e dois olhos de tanto pasmo que fazem aflição. Desapareceu tudo: ficou a velha, ficou a desgraça aos tropeções pela vida fóra.

É como se tivessem metido a dôr dentro de um saco e déssem com elle pelas paredes.

Aqui está a mulher da esfrega e a desgraça que tem os seus direitos e não os perde nem transige. Não a larga tambem o sonho. Agora é que ella destinge todo o doirado e toda a agua de lavar a louça. Agora é que ella ouve uma bocca enorme falar no escuro, e queda-se atonita e confusa feita trapo e horrôr.

—Para que é que vocemecê me creou?

Um soluço, um ranger d'arvore que se deita abaixo, um estalido de cruz que não suporta o pezo.

—Antes vocemecê me tivesse esganado ao parir. O que eu tenho chorado!

—Anh!...

—Olhe p'ra mim! olhe p'ra mim!

É um sêr diferente, um sêr aparte, que a Joanna vê pela primeira vez. Como pôde creal-o aos seus peitos? Crear vida é crear um grito que não se extingue? que nunca mais se cala? Sempre o mesmo grito:—Para o que tu me creaste! para o que tu me creaste!—Juntem a isto o escarneo e todas as vózes que lhe prégam:—Estupida! estupida! Toda a gente se ri de ti!—Andou nas mãos dos ladrões.—Rouba! rouba!...—E sente ainda nas mãos um pedaço de ferro gasto e poido como o aço, que entranha na pelle. Um gemido lucta com uma risada e tenta subir mais alto, cada vez mais alto... Juntem a isto que a Joanna quer ser má e não pode, e misturem a isto humildade. Aqueceu a vida a bafo. Incutiram-lhe para sempre a subordinação, só lá tem dentro ternura. Faz o gesto de quem tenta abrir uma porta; quer levantar a cabeça, mas tanto tem obedecido que curva logo a cabeça. Ridiculo sobre ridiculo.


Agora vejo a figura, vejo-a agora completa. Pouco e pouco tomou relevo, tornou-se humana. Sumiu-se a velha tonta, caldeou-a a desgraça. Á força de gritos represados obsidia-me. Engrandece-a a mentira e a dôr. E aquillo persegue-a, encarniça-se sobre a velha tropega, n'um espectaculo ao mesmo tempo desmedido e reles. A velha d'um lado, do outro a grande sombra tragica que subverteu o mundo; o escantilhão sôfrego, e o gesto que a mulher da esfrega faz para o afastar de si. Ao mesmo tempo a alma dorida, a ternura que a não larga, e o contacto feroz que não explica e a que sente o pezo.—Para o que tu me creaste! para o que tu me creaste!—Atormenta-a, sufoca-a, e como não pode mais, como não comprehende—não consegue—e como aquillo se encarniça, a Joanna mostra-lhe as mãos enormes, as mãos roídas, as mãos só dôr...


Tem as mãos como cepos.



DIALOGO DOS MORTOS