12 de março
Há em mim varias figuras. Quando uma fala a outra está calada. Era suportavel. Mas agora não: agora põem-se a falar ao mesmo tempo.
Sintiste-o avançar, pouco e pouco, no silencio? Sentiste o teu pensamento disforme avançar mais um passo no silencio? É porventura possivel que o que se passa no mais recondito do teu sêr, alguem o presinta e o ouça avançar no silencio?
Perpetuo combate a que bem quero pôr termo e que só tem um termo—a cóva. Eu e o outro—eu e o outro... E o outro arrasta-me, leva-me, aturde-me. Perpetuo debate a que não consigo fugir, e de que sahimos ambos esfarrapados, á espera que recomece—agora, logo, d'aqui a bocado—porque só essa lucta me interessa até ao amago... Estou prompto!
Todos nós pelo pensamento somos capazes de hecatombes. Detinha-nos a vida artificial, uma architectura mais temerosa que todas as cathedraes do globo postas umas em cima das outras.
Se me esqueço o meu pensamento disforme deita-se logo a caminho...
Vejo-o caminhar e não o posso deter. Por mais esforços que faça não o posso deter. É como se eu creasse figuras, que se puzessem logo a caminho. Todos os phantasmas se dissolviam á luz da madrugada. Agora estas figuras teem de cumprir um destino. E pergunto a mim mesmo baixinho se na verdade eu não desejo que avancem um passo—e outro passo ainda...
Tinha medo de aparecer no outro mundo deformado e grotesco, e agora tanto faz entrar na morte repulsivo, como transfigurado e só dôr.
Olhava este momento que ia desaparecer, com saudade—porque nunca mais se repetiria no mundo. Nunca mais outro segundo igual nem na luz, nem vibração, nem na ternura... O momento em que me sorriste, balouçado entre o nada e o nada, nunca mais se tornaria a repetir, identico e completo, em todos os seculos a vir! Estava alli a morte—está aqui a vida. Agora pergunto a mim mesmo se te deixo morrer; e a pergunta obsidia-me e exige resposta imediata. Sei tudo, tudo o que me podes dizer—já eu o disse a mim proprio. Até hoje falava a alguma coisa que me ouvia, hoje só interrogo a mudez, a mim mesmo me interrogo.
Tu luctas contra esta figura que dentro de ti te impele;—tu queres fugir de ti proprio, queres separar-te de ti mesmo, e não podes. Só consegues, á custa de esforços desesperados, manteres-te dentro da formula ou da mascara que escolheste, e arredar o crime e a loucura, e fingir e sorrir; tu podeste iludir o phantasma, seguindo pelo caminho trilhado. Iludiste os outros e a ti proprio te iludiste. Agora não. Agora sentes-te capaz de tudo. As grandes sombras que te entravaram a vida, eil-as reduzidas a dois punhados de cinza. Valia a pena a lucta? O homem é sempre a mesma lama, os mesmos despeitos e os mesmos rancôres, com resquicios d'oiro á mistura. O que pode fazer é dominal-os. Mas sae sempre da lucta esfarrapado e perguntando a si mesmo baixinho:—Valeu a pena? valeu a pena?—Depois que se venceu que lhe resta? Elle e o vacuo, elle e a saudade da lama que fazia parte integrante do seu sêr. Ficou diminuido. A escuma tambem tem os seus direitos.
Há entre as figuras que compõem o meu sêr, duas encarniçadas uma contra a outra. Há uma que crê, outra que não crê. Há uma capaz de todas as cobardias, outra capaz de todas as audacias. Há uma prompta para todos os rasgos e outra que a observa e comenta.
Mas há entre as figuras que compõem o meu sêr, uma que está calada. É a peor. Olha para mim e basta olhar para mim para que eu estremeça.—Por muito que me accuses, já eu me tenho accusado muito mais!
Olhas-me e eu estremeço. A sofreguidão dos teus olhos, a sofreguidão verde dos teus olhos, que me reclamam como um abysmo de dôr e de espanto onde encontro emfim a vida!
Se te quizesse descrever, não te podia descrever. Sei que me pertences e que te pertenço.
Talvez as almas fossem mal conduzidas, talvez já adivinhassemos o universo e depois o esquecessemos. Creio que se não complicassemos a vida e a dirigissemos n'outro sentido, presentiriamos tudo e resolveriamos tudo. Há em todas as existencias alguns segundos em que sentimos o contacto do mysterio—de que nos separam logo leguas de impenetrabilidade.
Alguma coisa porem se interessa pela minha dôr. Todas as noites grito, todas as noites sufoco os gritos. Todas as noites me debato com o mesmo problema e a mesma angustia. E há uma coisa que assiste a este espectaculo e se interessa, que cada vez me mergulha mais fundo para que eu me despedace—e se interessa...
15 de março
Com que saudades me aparto da mentira! Dos nadas, das pequenas coisas que dão sabôr á vida. Já reparaste que são as pequenas coisas da vida que nos fazem chegar as melhores lagrimas aos olhos? Na natureza os ultimos dias d'outomno que se despedem de nós com saudade, o oiro humido, o ultimo sol nas fôlhas molhadas; as noites cheias de estrellas, em que se adivinham outras estrellas ainda; a ternura que não tem existencia real, a sensação que passou por nós n'um segundo, sem deixar vestigios; e as horas que creamos, esquecidos e penetrados um do outro, ao pé do lume, já sumidas tambem na voragem. Nada—tudo. A tua expressão em certos momentos, em que uma figura transparece sob outra figura, como se me fôsse dado contemplar, n'um rapido instante, a tua alma limpida—todos os sentimentos que geramos de ilusão, de sonho e de tristeza. Tudo e nada.
Agora a vida é amarga. Acabou a saudade e este sabôr amargo é o sabôr da vida nova que começa.
Até hoje bastava uma palavra tua para me prender, ou a ternura que os teus olhos exprimiam. Um fio detinha o meu horrivel pensamento. Tu sorrias... Um sorriso e mais nada, ternura e mais nada. Uma forma transitoria, sonho e mais nada.
Das estrellas a luz phosphorescente envolvia o mundo. A noite tinha é certo negrumes profundos e espaços tão negros, que n'elles só morava o vacuo, mas no silencio a vida das estrellas estava mais perto do meu coração. A impressão que me sufoca deante da eternidade sem limites e da duração da vida astral, misturava-se a ternura de teus olhos, que me faziam ascender do subterraneo para a luz, que me ensinavam a soletrar o abcdo céo, que antes de mim, na vida ephemera, outros tentaram decifrar, levando-o impresso na alma para o tumulo.
Ilusoria irrisão. Tudo isto não existe, ou só existe como agitação e desespero frenetico. Tudo isto desaba há milhares d'annos n'uma queda infinita, n'um grito que nunca cessa nem echôa. Que desapareças amanhã e as mesmas estrellas indiferentes luzirão no céo, o mesmo impeto de vida galopará no espaço. Só os teus olhos não procurarão os meus cheios de sofreguidão e espanto... Arredo a tua figura, a figura palida que teima em me acompanhar sem palavra, a figura transida e palida de que desvio o olhar. Encontrei-te n'outra luz, n'outra vida, n'outro mundo talvez, e os teus olhos tristes enchem-me de inquietação e terrôr. Tu não existes! tu não existes! Escusas de soluçar. Não te tolero. Não sei quem és e conheço-te. Tens vivido na minha companhia, e és uma fórma transitoria e mais nada, um sorriso de ternura e mais nada.
Espera... Quantas vezes me tens confessado, sufocada de lagrimas, que te vem, não sabes d'onde, uma vontade do fugir pelo mundo fóra para onde ninguem te conheça, deixando tudo, e abandonando tudo—fugindo a ti propria?... Para isso bastou aquella folha doirada, que o primeiro arripio de vento léva sem destino. É essa mesma sensação que todos experimentamos a certas horas em que o universo se nos afigura monstruoso e inutil, com uma unica certeza—a de caminharmos todos, atravez da incoherencia, para a morte. Felizmente essa impressão dura um segundo. Num segundo todos ouvimos os passos da morte.
20 de março
Agora não contenho a multidão que constitue a minha alma. Nunca estou só e ouço-os que clamam cada vêz mais alto. Sinto phantasmas até á raiz da vida. Minha alma é um tablado onde todos os mortos se degladiam. Ouço-os! ouço-os! são impulsos, são sêres que actuam e falam como se eu não existisse. N'esses momentos sou apenas um espectador que os vejo a caminho sem me poder defender. Ouço-os! ouço-os!
Se Deus não existe e a outra vida não existe—se disponho só d'esta vida, os deveres que tenho a cumprir são apenas os do instincto. Só tenho deveres emquanto não me pezam. Não te deixes iludir.
Era sempre com secreta irritação que eu fazia o bem. O bem contraria. Fugi sempre a este problema... Era sempre n'um impulso de paixão—e com todo o meu sêr, que eu fazia o mal... O sacrificio, a piedade, a bondade só teem logar no mundo como culturas artificiaes.
Repete isto: a bondade é um sentimento falso e o mais artificial de todos os sentimentos.
Ah, a ironia... Há de te servir agora de muito a ironia!
O dever acabou, o estupido dever, o dever que me dominava, a vida com um pezo de chumbo, o dever de fazer todos os dias as mesmas coisas inuteis. Respiro.
Sim, a amizade... Falemos aqui baixinho um com o outro. Essa amizade era o meu interesse ou o teu interesse. Dominavas-me ou dominava-te. Passei annos sob esse jugo, e agora descubro com alegria que te detesto. Detestei-te sempre.
Odeio-te porque vales mais do que eu; odeio-te porque podes mais do que eu.
Assistir á ruina dos nossos amigos é talvez melhor do que assistir á ruina dos nossos inimigos.
Eu sou a unica consciencia n'esta barafunda cega e sofrega.
Temos de fabricar novas leis. Façamos leis para as classes superiores, e leis para as classes inferiores—leis para os pobres e leis para os ricos. As leis modificam-se com as consciencias, e as consciencias modificaram-se.
Formemos classes—as de cima e as de baixo. O problema da educação é um problema capital.
O amor é um unico minuto. Um minuto esplendido. O resto é habito, palavras, hesitações, trampolinice, livros de capa amarella...
E o peor é que isto não são phrases, o peor é que isto existiu sempre e impôz-se-me sempre. O peor é que quando eu te falava e sorria, e tu me sorrias extenuada e palida, o meu pensamento era sempre o mesmo, e só a custo continha o tumulto dos mortos. O peor é que eu sei que desde que este phantasma se pôz a caminho, não o posso deter. O peor é que eu li hoje nos teus olhos ternura e espanto. O peor é o que os teus olhos exprimem—e eu não o posso deter...
PRIMAVERA ETERNA
5 de abril
Segunda noite de luar, segunda noite de espanto. As arvores são phantasmas—os homens são phantasmas. Á noite a velha cerejeira é uma aparição. A mesma febre devora no quintal friorento as macieiras anãs. O respeitavel Elias de Mello recusa reconhecer-se: assiste com uivos ao desmoronar da propria respeitabilidade. Chegou a primavéra. Deita flôr a D. Leocadia, a D. Herminia e a D. Penaricia. Todas as arvores do monte se consomem de sonho.
Primavéra entontecida de gritos e rancôres, É a villa feita sonho; são aspirações ridiculas, restos trôpegos que procuram adaptar-se. Para resistir forjaram a mentira, forjaram a mania, forjaram a abjecção, e essas pequenas coisas sem existencia chegaram a ter um logar mais importante que muitas outras a que chamamos reaes.
Phisionomias de dôr, phisionomias concentradas, phisionomias de desespero e paixão, vão aparecendo sob cada phisionomia, e todos deparam com sentimentos e palavras que nunca tinham encontrado.—Dez annos, vinte annos de galeras, deixa-me, vae-te, some-te!—O homem roe dentro do homem: criam-se olhos que veem na obscuridade. Começam a distinguir na massa confusa, no cahos, nas duvidas, e descem a profundidades que não lhe estavam destinadas. Não é só o homem d'um momento, é uma série de figuras ainda por crear: é o homem do futuro.
Mais braços na monstruosa arvore de sonho, mais braços que atingem o céo, mais tinta forjada de desespero. A propria noite escorre pus doirado...
Na pequena villa já havia, como em todas as almas, um Robespierre, um cadafalso, um Shylock interior, odios, ganancia e uma serigaita a cantar. O quinhão é igual para todos—o que pode é estar sepultado. A questão era de proporções: os valores já não estão na mesma escala. Desapareceu o ridiculo. Pensem n'isto: desapareceu o ridiculo. Num minuto acordou toda a peste, sobresaltou-se toda a peste, todo o ferro velho, toda a mania resignada á força, comprimida á força, levada á força para a velhice e para a morte. Todas as velhas se ergueram, impelidas pela mesma mola. Todo o scenario era scenario, toda a regra regra, todas as cerimonias que nos ensinam, se conservavam ainda de pé, quando o mesmo furacão revolveu, arrastou tudo e levou tudo adiante de si. Tudo se varreu no mesmo instante, todos largamos a scena no mesmo instante. Todos, com velha baba a escorrer, com velhos tumores abertos, com velhas dentaduras postiças, o mistiforio e a obscuridade, o pó inutil que largaste pelo caminho até chegar á velhice, a vida consciente e a velha Eulalia, cuja existencia é um subterraneo e que mal sabe falar, todos ficámos estonteados...
A villa entrou em plena primavéra. Eis a D. Procopia, eis a mulher da esfrega. Aqui estão alimentadas a mentira, tendo passado a vida no testamento, na cortezia e na colica; aqui está o topete, a filha para casar e as faltas de dinheiro—aqui estão todas enrodilhadas de pavor, mas cheias de decisão deante do céo e do inferno. Já abrem aquellas ventas. Aquillo cheira-lhes a coisas prohibidas, que passaram a vida a desejar e a temer. Aquillo cheira-lhe ao suspeito e ao reles. Aquillo cheira-lhes bem. De pupilas dilatadas embebem-se no sonho. Até as pennas velhas se encrespam, até nos restos de chales sem pello, o pello se põe de pé.
Todos nós somos arvores. Há que tempos que deitamos flôr pelo lado de dentro. Fomos sempre construcções vivas, arvores estranhas que bracejavam para o interior do tronco, ramos e tinta, mais ramos desmedidos e tinta, revestidos de casca pelo lado de fóra. Foi por dentro que crescemos, e só por dentro nos era licito crescer, cada vêz mais alto até a morte intervir.
Até as arvores estranhas, até as arvores só tronco, que metiam os ramos e a tinta para o interior, bracejam á custa de gritos ramos e tinta, ramos desmedidos e tinta para o lado de fóra.
Este é nosso sonho, esta é nossa vida oculta, nossa vida de desespero, nosso sonho desgrenhado e immenso, doirado e immenso, amargo e immenso. Bem sei que isto doe. Bem sei que isto me custa a encontrar e a reconhecer n'esta noite de luar e espanto. Bem sei que isto de sêr homem é d'uma grande responsabilidade. Tem prós e contras terriveis. Tambem sei que o que nos separa dos bichos não é a inteligencia: a inteligencia é o menos. O que nos separa dos bichos é o esforço dos vivos e dos mortos, o compromisso de aceitarmos a mentira como se fôsse verdade. O que nos mantem n'este inferno é a architectura artificial, é o facto de não nos vermos tal qual somos, baseados n'uma convenção que julgamos indestructivel. De não nos vermos a nós e de não os vermos a elles. Porque o homem por dentro é desconforme. É elle e todos os mortos. É uma sombra desmedida. Encerra em si a vastidão do universo. Agora somos phantasmas, somos afinal só phantasmas, e o que construimos não cabe entre as quatro paredes de materia.
Ouvel-os? ouvel-os? Passaram seculos e seculos no fundo da terra. Levaram seculos a comprehender que foram iludidos. Redobraram seculos de desespero no interior das cóvas, até se compenetrarem de que todo o sacrificio foi inutil, de que toda a dôr foi inutil. Ouvel-os com dôr e desespero?...
Queira ou não queira tenho de dar o passo, tenho de me desentranhar em amargura e sonho. Bem vês, a insignificancia vae durar mil annos, a vulgaridade e a ternura teem seculos deante de si, de forma que tanto me peza uma como a outra. Abafo. Tenho de durar mil annos, tenho de durar dois mil annos, com estas coisas deante de mim, hoje, amanhã, sempre. É escusado luctar. Emquanto era a razão que me guiava, andava ás apalpadelas: agora é o inconsciente e cessaram de todo as duvidas. Tudo se ilumina a outra claridade. Tudo me é permitido. Respiro d'outra maneira, olho d'outra maneira o que me atravanca o caminho. Toda a pergunta obtem logo resposta imediata. Todos os sonhos estão de pé para mil annos e um dia.—Ouvel-os? ouves o grito dos mortos?...—A outra coisa não nos dá treguas. Vira-nos e revira-nos. Mete-se como piolho em costura. Põe-nos a contas com a questão das questões, com a questão insoluvel. Tudo que estava n'um plano secundario passou para um plano principal. O meu interesse, o teu interesse, ó D. Penaricia, é matal-a sem que se venha a saber. Escusas de arreganhar os dentes descarnados pela gengivite expulsiva, esse passo tens de o dar contra o que se chama a tua consciencia. Ergue a cabeça D. Lambisgoia e recorda-te que já foste féra. Podêmos suprimil-a sem remorsos. Matar é uma palavra e mais nada. Por causa d'uma palavra nos arriscamos, é certo, a ir para a cóva inuteis e grotescos, com sonhos remoidos durante noites e noites gelatinosas como velhas mestras de piano que tocam sempre as mesmas escalas. Mas hoje tudo se reduz a metêl-a n'um jazigo selado e chumbado, com a chave entregue ao juiz de direito. Põe em mim teus olhos turvos, ó D. Desideria e reconhece-te e reconhece-me. O que estava por baixo está agora por cima. Á roda da meza do jogo nunca pensamos senão em anulal-a. O remorso não existe, o crime não existe, a formula não existe. O passo nem tu o deste nem eu o dei presos a algumas palavras convencionaes. Agora estamos fartos. Sim, sim, podes matal-a á tua vontade. És um producto fetido do acaso. Não duvides. Se Elle existe, nem suspeita sequer que existimos. Com que direito a esta luz que nos ilumina de chapa, queres que eu me subordine e submeta? Ou não existindo ainda exiges que proceda como se existisses?... Não duvides. Nada. Só algumas palavras formaram a tua consciencia. Duas palavras e o habito, duas palavras e a regra. Posso tudo o que quero. Pezo tudo, calculo tudo sobre esta base: o que me convem e o que não me convem. Eu sou eu. O egoismo é a suprema lei da vida. A honra não é essencial. Ao contrario o meu interesse é mentir, o meu interesse é trahir-te. É indiscutivel que tenho devêres para comigo, mas não é indiscutivel que tenha devêres para comtigo. Primeiro eu, depois eu. Todos os crimes me são permitidos com tanto que se não venham a saber. Serves-me ou não me serves? És meu escravo ou meu senhor? Serás tu meu inimigo?...
Que riso que nunca vi (é a cóva que se ri)! que bocca que nunca vi e que me cheira a defunto! Um passo ainda, outro passo, velhas lambisgoias, D. Insolencia e D. Ninharia. Chegou a primavéra. Vamos entrar n'outra vida sem Deus e sem regras, n'outro mistiforio que o instincto nos impõe, ó D. Telles das Reles de Meireles, e talvez seja essa a tranquibernia suprema porque suspiramos sempre. Vamos vêr que proporções atinge a langonha e a D. Herminia, o fél e a D. Penaricia. Acabaram os escrupulos e a lucta constante que nos deixava esfarrapados. Tenho-vos aqui na minha frente com as boccas murchas de mentir, a suar grotesco e a gritar de desespero; tenho-vos aqui só bichos em frente da necessidade fatal, da verdade iniludivel, nus uns ao lado dos outros, nus e reles, com o esplendor cada vez maior, cada vez mais sôfrego deante de nós. Estamos promptos. Estamos fartos. O que resta é o sonho de pé, só sonho e doirado, fétido e doirado, cahotico e doirado. Está rôto o contracto.
A primavéra atingiu o auge nos vivos e nos mortos. Tinta sobre tinta, dôr sobre dôr. Resuscitam todas as primavéras, as primavéras successivas, as primeiras primavéras em que a ternura se confunde com a fealdade e a fealdade é já ternura, outras primavéras, e outras oiro e verde, em que a tinta escorre do negrume. O que custou á arvore a transformar-se em sonho, á arvore dorida com a flôr recalcada, até se desentranhar em emoção!... Mais outras primavéras phreneticas, mais outras timidas e delicadas, mais outras que não chegaram a abrir cobrem os vivos e os mortos...
Mais braços na monstruosa arvore do sonho, mais braços que atingem o céo. E ahi estão todas as flôres e todos os gritos, a tentativa ridicula da flôr e a flôr esbraseada das noites sobre noites de concentração.
Todos anciamos por este dia. Nós e os outros do fundo da sepultura contamos sempre com a primavéra eterna—nós e a cohorte muda cujo esforço senti sempre, muda e desesperada, cega e desesperada. Gritos que vem de longe, expressões mutiladas que tentam impor-se. Este sonho não era só meu. Arredei-o e pegou-me fuligem. Trouxe-o n'um cantinho do meu sêr como uma coisa prohibida. Nunca me atrevi a olhal-o frente a frente, até que surgiu das profundas, cahotico e doirado, de dôr e de restos, coçado e doirado. Pertence-me e pertence-te. Vem do céo e do inferno. É nosso e dos mortos. É o patrimonio da vida, e do tumulo.
E os mortos estão arrependidos! os mortos estão arrependidos!
20 de abril
As velhas encarniçadas são outras, são velhas em sonho vivo.—Mata! mata! mata!—Aqui de rastros, anno atraz d'anno, para ser comida!—Aqui a levar pontapés n'este sitio, aqui a crear rugas e fél!—Pois eu não fui eu, e agora estou deante d'isto, d'este assombro e d'este desespero!—Gritam porque se não podem vêr. Gritam porque a realidade e o sonho tomaram proporções que lhes não cabem nas almas. Gritam porque não lhe entrevêem o fundo. A D. Penaricia tirou a cuia postiça, e atirou com a cuia ao chão. Depois fitou os olhos na cuia enrodilhada, e absorveu-se na cuia de retroz, como se tivesse alli em frente o symbolo do universo:—Não posso desfazer-me d'isto! não posso desfazer-me d'isto! Toma! Eu não sou isto, e hei-de estar aqui sufocada a aturar-te para não morrer á fome. Hei-de ver-me e ver-te e hei-de dizer:—Jógo!—Hei-de fazer-te as vontades e ver-me tal qual sou, tal qual era e tal qual hei-de ser?—Á espera de quê, se nem da morte podemos esperar?—Então este esforço para ter uma alma não se conta? Este esforço para não andar de rastros como a cobra? Para viver com isto e com isto? Com esta amargura, o fél, o que é mesquinho e com Deus? Eu não posso com o que não comprehendo, com o que está por traz de mim, com o que está a meu lado e com o que tenho de fazer todos os dias...—Falo!—Falo eu agora!—A tragedia é que eu iludia-me, mentia a mim mesmo e agora não posso mentir. Não há gritos que te valham e a ninharia desapareceu do universo. A insignificancia acabou.—O peor drama—exclama outra—é que eu vejo o que fiz de mim propria.
—A inveja que eu te tenho! a inveja que eu te tive sempre! E tenho que sorrir para ti, de dizer a tudo que sim!
—Jogue!
—Então eu passei a minha vida a ter paciencia, á espera, passei-a a mentir e obedecer, e tu a mandares, e agora hei-de continuar a ser abjecta quinhentos annos, seiscentos annos?
—E eu! o pão que me deste amarguei-o sempre. Cada dia que passava mais me sabia a zinavre. Não te matei porque não pude!
—Corte!
—Tu não és mais do que eu!
—Ai! Tambem eu, tambem eu tenho a dizer uma coisa. É que eu sabia bem tudo isto, há que tempos que o sabia!... Mas não sei que era que me obrigava a fingir. Corto!
Avante! avante! Um cordão de velhas, como um cordão de sentinelas, não desampara o quarto onde a magestosa Theodora agonisa. Chove. Entre estas paredes forradas de papel doirado já não se moem as palavras de uso. Alumia-as o candieiro a escorrer petroleo, e a luz fixa as arestas das figuras de cerimonia, todas vestidas de preto, a calva d'um homem gordo, a quem só se veem as mãos esponjosas, os bicos das velhas retesas, cujas boccas remoem no escuro, a Adelia mais safada e mais sofrega, e o padre no meio da sala dominando-os a todos. Onde vae o ridiculo da D. Penaricia, as mesuras da D. Andreza, o riso idiota da D. Idalina, a langonha da D. Herminia? Parecem forjadas de novo. Até as prégas dos vestidos cahem como prégas de estatuas. Cada velha resolve que a colica da Theodora seja a sua ultima colica; em cada velha cresce, augmenta, trasborda, n'um tumulto, o inferno. Ao saque! ao saque!—É para mim. Eu é que sou a prima mais chegada.—Eu é que lhe tenho aturado tudo, é a mim que ella deixa os trezentos contos, os quatrocentos contos, ninguem sabe o que ella tem.—Nenhuma admite que a magestosa Theodora escape. Veem de muito longe estas figuras—veem das profundas... Nos olhos da D. Penaricia há claridades do inferno. Ganharam todas em fixidez e audacia. O sarcasmo não me chega á bocca, passou-me a vontade de rir.
Desapareceram seculos de paciencia e astucia, surgiram figuras novas. Para as comprehender pergunto a mim mesmo o que é isto embrulhado n'um chale, e não me atrevo a contemplal-o. Ridiculo e ferocidade? Uma coisa sem nome, producto do acaso, ou uma coisa abjecta? Uma alma ou um resultado de formulas? Está aqui a D. Penaricia e a D. Eulalia ou Deus e o Diabo? Um mundo novo e um mundo atroz? Estão aqui perguntas vivas e respostas vivas:—Abra lá essa porta para traz!—Essa porta deita para a parte prohibida da vida. O mal, suspeitam-no, talvez seja a melhor parte da vida.—Abram lá essa porta para traz!—Não lhes parece que esperam há annos, parece-lhes que esperam há seculos, e tem alli deante de si estateladas, as cortezias que fizeram á velha,—o pois sim que disseram á velha—os sorrisos com que sorriram á velha—as vontades que fizeram á velha. São tragedias. Veem de muito longe, d'uma vida sem limites. Em cada uma se representa um drama atroz, o drama do interesse e do calculo, o drama da vida. Nuas, as velhas que estão na minha frente, são infinitas de grotesco e dôr. Duram há seculos. Há seculos que teem paciencia para viver e para sofrer. A D. Penaricia mente desde os confins do mundo: representa gritos, mais gritos represados. É um poço donde só saem ais e mais ais. O dificil é a gente habituar-se a viver esta vida e a outra vida: carregar com este pezo desde o infinito e lidar e falar e viver.—Oh morte que tão bem cheiras!...—Bem sei, os seculos imprimiram-lhes dedadas, os seculos deformaram-nas... Mas agora estão aqui desesperos em frente de desesperos, e desatam a berrar umas ás outras:
—Tem paciencia, tem sempre paciencia. Doe-te? tem paciencia; amargas? tem paciencia...
—Todos os dias da vida, todos os dias da minha vida á espera da morte. Estou farta! estou farta de despejar bacios, de dizer que sim, de dizer a tudo que sim, de ser a sombra de mim mesma. Agora está aqui a vida. Esta vida e todas as vidas. É preciso que ella morra, e se não morre é preciso matal-a. Ouve senhor padre Ananias, senhor padre unguento, senhor padre e as suas comidelas, senhor padre e o seu inferno?... Mentira! mentira! Eu propria era uma mentira. E só me aterra a ideia de acordar tarde, de acordar na morte, com a certeza de que era tudo mentira e só mentira...
Abrem as boccas desmedidas, fecham logo as boccas desmedidas.
—Bem vê que não posso mais. Eu que mentia não posso mais mentir. Como hei-de viver?
—Tem paciencia, tem mais paciencia, tem paciencia por todos os seculos a vir...
Estão alli dispostas a morrer e a matar. Está alli um cordão de velhas como um cordão de sentinelas á porta do quarto da magestosa Theodora. Duas, ambas de quico, ambas de mitenes, ambas impenetraveis, trazem na algibeira o lenço com que hão-de amarrar-lhe os queixos. Todas esperam que ella se decida a expedir. Nenhuma abre o bico, mas apalpam os vestidos como se trouxessem um punhal escondido. D'um lado as gulas exasperadas, a hora extrema—chamem o tabelião! chamem o tabelião!—o testamento, a sorte grande—emfim! emfim!—os chapeus de plumas, o oiro mexido e remexido, as gavetas arrombadas, as salas do tapete, o vicio e o goso—do outro a vida nova, o todas as abjecções inutilizadas.
Ó morte que tão bem cheiras, aqui me tens para te servir. Como esta casa cheira bem! como cheira bem aqui dentro!—Ó morte que tão bem cheiras, tu dilues o travor de fél e acalmas a acidez da inveja. Resolves tudo, realisas tudo, os mais ignobeis pensamentos, as mais secretas aspirações, que nem a Deus se confiam, ó morte que tão bem cheiras!—E calcando a alma que se atreve, dizem compungidas, por habito secular:—Coitadinha já tem panella!...
Agora aguenta-te, magestosa Theodora! N'alguns minutos esse craneo obtuso com uma cuia em cima, tem de luctar com o crêr ou não crêr, com a vida antiga e a vida que antevê; tem de desfazer a unhadas um edificio mais vasto que o Colyseu e de deitar abaixo pedra a pedra todas as pedras que cimentou durante a existencia; tem de se entregar ao sonho sem capacidade para o sonho; e tem, ainda por cima, de esquecer as inscripções e as decimas. Para escapar com vida, arrosta com a vida passada e com a vida futura. Tudo n'ella era imperativo. Decidia por uma vez: um passo, e é o inferno pela eternidade, o inferno com o sitio imovel, com o tormento da vista, com o tormento dos ouvidos. Escapar á morte é fugir á lei de Deus.—E d'um dado puxa por ella a vida, do outro puxa por ella o inferno—e as velhas lá fóra esperam e desesperam. Sente as labaredas do sitio imovel por a eternidade das eternidades; envolve-a, toca-a, engrandece-a tambem o sonho, e o inferno não cessa de reclamal-a, o inferno que foi o unico deus que temeu n'este valle de lagrimas. E esse debate esplendido n'uma alma estupida, deixa vestigios profundos: aquellas raizes não se arrancam sem produzirem buracos. E as velhas lá fóra esperam, emquanto a magestosa Theodora desata aos gritos, balouçada—e com a cuia a desfazer-se-lhe—entre a realidade e o sonho, entre o inferno e a vida nova que começa. Mas como a estupida vida de caldo e pão que levou antes de enriquecer, lhe deu fibra e caracter e não sei que de solido e amargo, a velha póde salvar-se, com um resto de chale e a cuia amolgada. A velha resiste, e ao abrir a porta exclama para o cordão das outras estupefactas:
—Atravessei viva o inferno. Agora nem do diabo tenho medo!
25 de abril
E o doirado não cessa. Doira o luar e a inepcia, doira a tragedia e o ridiculo... Teçamos, teçamos todos a nossa teia... A minha prendo-a ás arvores, ao céo e ás coisas eternas. Todos os sonhos se põem a caminho. É uma coisa equivoca. É uma coisa desgrenhada e fétida. É o sonho lastimoso das velhas, o sonho que não chega a ser sonho, onde boiam mortos informes, com laivos verdes, com tentaculos esbranquiçados que se prolongam no escuro. Toda a gente fala só. E o luar intoleravel, o luar indiferente, derrete-se sobre as ameias, sobre a cathedral, sobre os santos imoveis nos seus nichos. Dão horas, mas as horas acabaram. Coisa singular: esta gente só fala comsigo mesma, em monologos roucos, desesperados, infindaveis. Os olhos da D. Fufia ganham em fixidez e concentração; a D. Herminia começa uma tragedia, que dura uma noite inteira com a mesma palavra obscena.
A alma sordida, o fluido que envolvia a villa, a atmosphera parda, feita de pequenos odios, de pequenos interesses e d'habitos concentrados, encrespa-se e cresce em vagalhões magneticos. Modifica todos os sêres e abala as paredes mestras. Embebe-se no salitre e roe os santos nos seus nichos: até na imobilidade entranha desespero. Quedam-se estonteados e transidos, como se a vida fosse uma mera creação do luar e da loucura... A alma da villa é sacudida por uma tempestade de espanto. A botica está deserta, com o bocal, o passaro empalhado, as moscas mortas.
Um momento angustioso não se ouve rumor, depois um tumulto, um clamor, um ah! A villa toda grita:—Eil-o! aqui está o meu sonho, aqui está como o trouxe toda a vida, escondido, dorido, fruste, immenso ou humilde; aqui está a minha verdadeira figura—a figura do Melias e a figura do Melambes; a velha n'um debate perpetuo, a velha e as suas manias, o desespero e a Ursula, o grotesco e o pó doirado que não sei d'onde se me pegou; aquillo de que te rias e eu me ria, e que todos nós escondiamos, cada vez mais oculto, cada vez mais para dentro, como somiticos... Lá vae a Adelia, com o chapeu ás tres pancadas, lá vae um logista que parece Napoleão Bonaparte, e as Souzas armadas de ponto em branco—lá vae o inferno de luxuria e de egoismo. O muro não existe—derrubaram o muro.
Nesse momento pezado de angustia todas as mãos se agitam no ar diante da outra coisa que no silencio e na noite estende os farrapos das azas cada vez mais disformes. Está sofrega. Cresce, grita, avança direita para nós. O que se pôz em marcha não vem de fóra, mas de dentro de ti mesmo, da mais cerrada das noites. Há muitas camadas de mortos. Há-as a legoas de profundidade e até de lá sobem os gritos. O homem é o mais profundo, o mais vasto de todos os sepulchros.
Põe este homem vestido em frente d'este homem nu, a fama o credito, a praça, ao pé desta coisa desordenada que se encarniça e não nos larga, ó Elias, ó Melias, ó Melambes! A consideração não existe! a praça não existe! aqui estamos todos bichos em frente de bichos, os que pagam as lettras e os que teem as lettras protestadas, nós e nós, nós e os ladrões das estradas, nós vestidos e grotescos, nós nus e tragicos—nós e o universo monstruoso! Nós correctos e nós disformes, nós e o céo profundo na sua temerosa realidade. Salta laré, perirone, perirote! Mas salta com desespero, salta com as tuas eternas explicações, o subterfugio e o grotesco. Agora não nos servem de nada os relatorios, nem as razões dispostas como formulas algebricas—agora estamos aqui nós e o problema desalinhado e feroz, que nos impõe uma solução imediata. Salta laré, perirone, perirote! Se ella vive mais quinhentos annos lá se vae o dinheiro por agua abaixo. Peor: se ella remoça lá se vae o nosso credito na praça. Mas—pergunto—posso porventura deixal-a morrer quando está nas minhas mãos salval-a? Não sou eu por acaso um homem de bem? Tu és um homem de bem, eu sou um homem de bem, nós somos todos homens de bem—depende das circunstancias. Os paes são paes, mas deixam de ser paes se nos dão cabo de tudo—e da firma. Por outro lado há a contar com o credito. Pensem n'isto, no credito. O credito pode perder-se de um dia para o outro, e sem credito um homem não vale nada na praça. Meditem e atendam. Acima de tudo está o credito. Está talvez acima de Deus, ainda que a minha consciencia seja religiosa. Sem Deus ainda posso viver, sem credito não dou um passo na vida.
—Além da firma que nos resta na vida? Fóra da praça não existimos. Pense que logo, amanhã, hoje mesmo, a nossa mãe remoçada deixa de sêr a nossa mãe. Que quer o mano fazer? que pode o mano fazer? Destruir por suas proprias mãos o nosso credito na praça?
Um defronte do outro abanam as respeitaveis cabeças, com calva e risca, com risca e calva, aquella distinção de porte e de vinco, aquella ponderação de estilo, aquella correcção de maneiras, aquella seriedade das seriedades, que a praça honra, que as firmas honram, que a Egreja honra, e de que até o proprio Deus do céo já está á espera com o palio meio aberto. A firma Elias & Melias tão correcta, com livros, ripolin nos caixilhos e nas almas, vê-se descascada até á medula e treme nos seus fundamentos. Está encalacrada. E o peor é que não são só elles que estão encalacrados, estamos todos encalacrados. Na verdade o que importa não é o que tu me dizes: é o que eu digo a mim mesmo... Ó Rinhe como tu rinhes com dôr, com desespero, n'uma forma pastosa, a que se misturam já palavras vivas, em logar das phrases dos relatorios e dos bancos! Decerto te sentes bem no pegajoso, mas por traz não te dá tregoas o impulso. Neste conflicto delicado só tu vinhas a tempo, ó morte que tão bem cheiras, e, cumpridas as formalidades do estilo, entregavas-me, com o testamento, a chave do cofre. Agora esta coisa encarniçada e feroz, sofrega e imunda, leva-nos a mim e a ti, com desespero e gritos, com as formulas e o vinco, com a praça e o credito!...
Agora não, D. Bibliotheca das Bibliothecas, já preparada com todos os requesitos e unguentos para o horror do nada! Agora não! Já tentaram desligar-te da vida com as palavras unctuosas do ritho e promessas de outra vida melhor. Que te resta? A vida eterna. Pôço p'ra a vida eterna! O que tu queres é esta vida, esta insignificancia e estes restos—e está aqui a morte inexhoravel. Tanta saudade! tanto apêgo! Tudo te doe e do fundo d'essa miseria e d'essa pelle engelhada vem um gemido baixinho diante da figura tremenda que não sae de ao pé de ti... Ó carne putrefacta, como tu te apegas a um resquicio d'esperança, a um só que seja! O que te custa a largar o brazão na fralda da camisa, o postiço de toda a tua existencia inutil, o alto da lista de subscriptores—tres tostões, seis tostões, um quartinho! ó carne fedorenta, ó carne já preparada para o mausoléo, com a gaveta aberta, latim e agua benta, dois involucros, um de mogno, outro de chumbo, e o picheleiro á espera!
E ahi os tens sem piedade, inexhoraveis como o destino. Agora não Elias & Melias, agora não D. Bibliotheca das Bibliothecas, estaes frente a frente com a realidade e a morte. Salta laré, perirone, perirote!
—Não quero morrer! não me deixem morrer! Chamem os meus filhos, chamem toda a gente. Não me deixem morrer!
Todos os apetites, todas as sensações que pareciam extinctas, assobiam como viboras. Horas antes de morrer ainda essa mulher está tão intacta por dentro como aos vinte annos. Ninguem a pode conter. Quer saltar pela cama fóra.
—Chamem os meus filhos! chamem os meus filhos!
—Chamem o procurador!
Mas o que ella exprime por palavras, pelo olhar, pelos gestos, é a ancia de viver.
— Não, não. Tirem-me para lá esse homem. O que eu quero é viver.
Vê no ultimo desespero a face estupida do procurador dizer-lhe coisas grotescas:
—Ó minha senhora cheguemo-nos á razão. Seja razoavel.
—Quero viver.
—Temos em primeiro logar a Egreja. Apelo para os seus sentimentos religiosos, que os teve sempre, e deante dos quaes me curvo respeitosamente. Apelo...
—Dêm-me o remedio! Quero viver!
—Segundo lembro a V. Ex. que tem sido até agora mãe extremosa dos seus filhos. Se volta aos vinte annos, pergunto respeitosamente a V. Ex.a, Ex.ma senhora, que é que V. Ex.a é aos seus filhos?
—Quero viver!
—Perdão minha senhora! Esta fortuna tão bem administrada pelo casal de que tenho sido bastante procurador a que mãos irá emfim parar? Peço-lhe que reflicta. Peço-lhe que se submeta. Lembro-lhe que estão alli fóra seus respeitaveis filhos subjugados pela dôr, lembro-lhe a sociedade, e atrevo-me a lembrar-lhe que não tarda ahi o D. Prior.
Um fio, falta só um fio, e ainda aquella figura grotesca se debruça para lhe dezer:—V. Ex.a...
—Fechem as portas! fechem as janelas! fechem tudo!—exclama o honrado Elias de Mello, com a calva arripiada.
—Não quero morrer!
Tem forças para saltar da cama, para se arrastar até á porta, e toda a noite no casarão echoam gritos.
Não quero morrer! Um minuto e mais nada. Um minuto e, contido n'esse minuto, o universo desabalado, a morte, o desespero e o procurador com o sêlo da lei e a saliva da lei. Tu d'um lado decrepita—e do outro a sofreguidão cahotica para mastigares com o unico dente que te resta na bocca. Um minuto e contido n'esse minuto os vivos e os mortos, o teu phantasma e todos os phantasmas, a realidade e o sonho,—tu ungida e tingida, nós e nós—nós correctos e grotescos—nós Melias e doirado, nós Melambes e phrenetico!