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Humus

Chapter 23: CÉO E INFERNO
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About This Book

A sequence of intimate sketches portrays a provincial town slowly consumed by habit, neglect and the steady work of mortality. The narrator records small rituals, resentments and the petrifying rhythms of daily life, finding psychological detail in repetitive gestures and social postures. Recurrent images of damp stone, cobwebbed rooms, abandoned gardens and crumbling monuments evoke a landscape where hopes and memories lie buried beneath domestic tedium. The tone balances melancholic description with compact insight, tracing how patience, deception and custom both preserve and suffocate a narrow community.

30 de abril


Donde emerge esta figura encharcada de lama, menos a sombrinha, que, apezar da dôr, conseguiu atravessar incolume todos os solavancos? A que se atreve depois de ver o filho? Cheguei a ter a visão nitida da montanha de pó acumulada sobre ella, e do desespero immenso para a romper.

Sabe tudo, vae dizer tudo. Tem alli as cautellas do prego e a malinha de mão onde levava escondidos, a enterrar, os fetos da D. Engracia; só ella pode desvendar os vicios occultos e o sitio onde a D. Bibliotheca tinha a sua fistula. Conhece as miserias e os segredos das familias correctas. Vae emfim dizer tudo, quando lhe surge o filho que não via há annos. Eil-o creado de orgulho e de codeas. Submete-se logo, mais coçada e mais gasta, diante d'aquella obra prima real e tangivel.—Pois sim, pois sim...—Ahi tens tu o teu sonho alimentado de codeas e transformado em realidade. Ahi está patente o sonho que sonhaste com inveja, o sonho que sonhaste com fél, aos ais, com a bocca tapada, o sonho feito de farrapos, que ocultaste de toda a gente para poder viver. Ahi está patente, á luz do sol, como os sonhos dos outros, de ambição e de imperio, o sonho que ninguem viu sonhar, e que sustentaste á custa da tua propria alma—ó Restituta da Piedade Sardinha!

...—Sejamos logicos mãe—diz elle—na vida é preciso ser logico. A mãe creou-me escondido, eu, por meu lado, disse sempre que não tinha mãe. Não hei-de agora que vou casar apresental-a:—«Aqui está a minha mãe que me creou de esmolas, que me creou escondido».

—Tens razão, filho.

—O que é preciso é que a mãe desapareça. O que é preciso é que a mãe, que tem sido logica deixando-me fazer carreira, não estrague agora tudo. Quem soube sacrificar-se para me engrandecer, deve continuar a sacrificar-se. Não lhe peço mais nada: desapareça.

—Desapareço.

Ella propria tem por aquella obra monumental de egoismo, o respeito que teve sempre por as pessoas consideraveis. Está alli na sua frente de chapeu lustroso e luvas esticadas. Acrescentem a isto amor. Levou annos a creal-o escondido, e revê-se embevecida nos cartões em que elle assigna Monfalcão dos Monfalcões (Sardinha). De resto não lhe custa nada desaparecer. Não lhe custa mesmo nada. É mais uma ordem a cumprir. Obedece. Obedece, como obedeceu sempre a D. Hermengarda, á D. Theodora, á D. Herminia, como obedeceu a todas as pessoas ricas e de consideração, como obedeceu á vida que fez d'ella um trapo. Apenas um minuto e esse minuto chega. Um minuto e mais nada. Nesse minuto a figura contrahida reconhece a figura de trapos e de restos. Nesse unico minuto de duvida a D. Restituta vive mil annos e um dia e concentra-se em horror e desespero. É o minuto supremo em que a velha Pois Sim se sente arrastada ao céo e ao inferno, ouve vozes que falam ao mesmo tempo, e ella mesmo pronuncia palavras que nunca ousou pronunciar, nem no recanto mais obscuro da sua alma.—Vi-o! vi-o! vi-o! Que é isto? que é isto que se me péga e se me entranhou na obediencia e na mentira? O que é isto que não comprehendo e que me doe? Desespero e pois sim, sofreguidão e pois sim, doirado e pois sim! Eu não posso com isto amargo e doirado! Eu só posso mentir, só posso obedecer, só posso com restos, com os restos dos restos. Tenho vivido desde o principio do mundo a escorrer fél e pois sim. Tenho sido sempre Pois Sim, só Pois Sim, e agora sou Pois Sim e desespero!

Desespero, e n'este desespero uma primavéra de restos, uma primavéra abortada, que só chega a deitar uma flôr miudinha como a flôr do escalheiro.—Mente! mente! mentir não custa nada!—Mas a D. Restituta já não pode mentir ainda que queira. Quer dizer que não, e com ella todos os mortos, todos os mortos que não se atreveram a sonhar, que não abranjeram o sonho, dizem á uma que sim, dizem com desespero que sim. Sonho e pois sim não cabem no mesmo sacco. Não cabem no mesmo sacco primavéra e pois sim. A sofreguidão atingiu o auge e tu viste-o! viste-o!...

Salta laré, perirone perirote!... A sacudidela de revolta extingue-se, sae da lucta exhausta, com todo o pezo da montanha em cima, diminuida, reduzida outra vez a pois sim... Esses minutos que passou só e contemplando a ruina de toda a sua vida foram amargos como fél.—Mete o diabo no sacco!—Tão cansada e tão gasta que nem as feições lhe reconheço; tão amarga e tão ridicula, tão pois sim, que da D. Restituta só resta uma expressão de dôr, de dôr mutilada a dizer que sim, sempre que sim—a dizer a tudo que sim.

—Mete tudo no sacco, mete-o com lagrimas requentadas e o fél da submissão. Mete a tua alma e a minha alma, gastas de dizerem a tudo que sim. Mete o diabo no sacco! mete tudo p'ra o sacco, desespero e doirado, sofreguidão e pois sim!


Balouça ao vento, a uma restea de luar, pendurado n'uma corda, o cadaver da D. Restituta, que parece dizer pela ultima vez que sim—para que o filho possa casar com a filha do conselheiro Barata. Balouça ao vento n'um sexto andar—esquerdo. Morre ignorada e desconhecida quem toda a vida viveu de codeas, para lhe assegurar o futuro e a assignatura com brazão e elmo, Monfalcão dos Monfalcões (Sardinha). Da mão crispada ninguem lhe arranca a photographia de quando elle era pequeno, com o fardamento da Escola Academica, como um guarda-portão em miniatura. A sombrinha lá está aberta ao lado da cama, por causa da humidade, e pela janela, aberta sobre o luar, veem-se os montes onde o Santo colerico não cessa de latir injurias sobre a villa agachada de terror.


6 de maio


Chegou. Abriu a mais bella, a mais fecunda, a mais doirada de todas as primavéras—a primavéra eterna. Revolveu a terra e cobriu os sêres e as coisas de flôres, por camadas ininterruptas e successivas, com todas as côres e todos os entontecimentos, todas as infamias e todas as tintas—com todos os desesperos. Está aqui tambem presente a floresta apodrecida... As arvores não se veem, mas estão tambem aqui... Está aqui a floresta apodrecida, e com ella as fórmas de sonho e as fórmas de dôr mutilada que vagueiam na profundidade das profundidades, os contactos viscosos, as mãos geladas ainda em esboço, os sêres cegos e com gritos, porque não sabem ainda viver, as fórmas hesitantes do pezadelo...

É aqui que corre e escorre o verde, o roxo e o lilaz—os tons violentos e os tons apagados. Até as arvores são sonhos. Atravessaram o inverno com sonho contido, com o sonho humilde com que carregam há seculos. E até esses sonhos se transformaram em realidade. Realisou-se emfim o milagre: as arvores chegam ao céo.



DEUS



10 de maio


O que eu sinto é o desespero de não haver dôr eterna. A dôr pela eternidade das eternidades era ainda viver. Sofrêr sempre, com a consciencia do sofrimento, é viver sempre. Antes o inferno! antes o inferno! o inferno em logar do nada.


O inferno era ainda o céo.


Alguma coisa nos conduz e nos leva até á morte. Rodeia-nos. Impele-nos. Não a vêmos e está ao nosso lado. Só ella existe no mundo. Estou nas suas mãos com desespero. Extasia-nos. Aturde-nos. Escarnece-nos.

Tu não existes! tu não existes! E não há mãos mais crueis que as tuas. És abjecta. És cega e phrenetica. Levas-nos enrodilhados e envolvidos. E queira ou não queira estou nas tuas mãos. Só tu existes no mundo.


Nem a vida nem a morte, nem o tempo nem Deus. A unica realidade és tu—fétida e immensa, sofrega e horrivel. Gritas? hás-de gritar pela eternidade das eternidades. Fazes parte para todo o sempre d'esta força que vem do principio da vida e se projecta nos confins da vida, com bocca ou sem bocca, capaz de todo o sonho e de toda a belleza—para nada! para nada!... Na minha alma reflecte-se o dialogo do universo como a claridade na agua para me entontecer.


Cheguei ao ponto em que tenho medo. Fecho as janellas, fecho tudo. Outra vêz a primavéra! outra vêz o escarneo! O que tu queres é iludir-me. A um dia de nevoa sucede um dia doirado. E extasias-me. Se abro a porta, a noite está cheia de estrellas e de vozes. No fim da tarde, quando a agua tem um som mais lindo, a neblina dá encanto á minha vida e aos grandes montes compactos. Alheias-me, fazes-me sonhar, levas-me escarnecido até á morte. Atraz de ti só há dôr e o desconhecido. Mascaras-te para me iludires. Mais uma vez tentas inebriar-me com o teu arôma; mais uma vez os pinheiros sacodem no ar o seu polen sulfuroso... Não quero vêr! não posso vêr! Não te posso vêr! A vida é amarga, a primavéra é secca e inutil. Fecho tudo para não te vêr. Fecho tudo para não vêr a primavéra e sinto-a atravez dos muros.


Oh o grande oceano, a torrente impetuosa—sempre! sempre—o mar de mãos fluidas que me envolvem—o mar do silencio, o grande mar inexgotavel que deslisa no silencio—como tudo isto me mete medo!


Reconheço-te força, mas não me importas nada. Este deus faz o que elle quer e não o que eu quero. Este deus desordenado e imenso, não é feito á minha imagem e semilhança. Não me ouve nem me atende. Não o posso desviar da sua marcha á custa de suplicas e de gritos. Não se apieda. Não sei se tem o sentimento da justiça. Talvez tenha outro sentimento de justiça—outro maior—outro que não abranjo. Este deus não me é nada. Para elle é vão tudo o que se grita no mundo, tudo o que se sofre no mundo é vão. Todos os santos são grotescos. Todos, os que te chamaram e suplicaram, todos os que te ofereceram a renuncia e a dôr, o fizeram no vacuo. Pai, tu não existias! E não existindo impeles-me, entonteces-me e esmagas-me. Estou nas tuas mãos e não as vejo. Crias-me e não existes.

Eu sei, eu sinto que estás ahi desconforme, vivo, e obstinado—mas não és o meu deus. Tanto faz esfacelar-me contra este muro compacto, como conservar-me quieto, indiferente e calado. Tu estás ahi patente, vivo como a vida, mas não me conheces nem eu te conheço a ti. Não nos chegamos a entender. Não tens nome. E estou nas tuas mãos.


Estou nas tuas mãos e não me interessas. O que me interessava eras tu. Tu, que não existes, entranhaste-te-me na carne e no osso, de tal forma que não me livro de ti. Não existes e dominas-me. Não existes e torturas-me. Não existes e só tu és a razão da minha vida, dos meus actos, e do meu sêr. Não existes e só tu existes. Tenho mil annos e um dia para prégar deante do vacuo que não existes. Para te chamar sabendo que não ouves. Disponho de mil annos e um dia de desespero, de mil annos e um dia deante da mudez, a clamar, a prégar, a mentir.


O resto são phrases e mais nada. Só a vida futura, só a vida presente sob o teu olhar tinha finalidade e razão de sêr. O resto são phrases com que me procuras iludir e com que te procuro iludir. Porque se um dia, sós a sós com a tua alma, te detiveste deante d'estas palavras—a vida eterna e a morte eterna, não como palavras mas como realidades, nunca mais podeste desviar o olhar.


O que me interessava eras tu porque para, que tu existas é preciso que eu exista tambem. Eu não posso passar sem ti, mas tu não podes passar sem mim.


Se tu não existes, estou nas mãos da força obstinada e cega. O que me interessava era o espectaculo da minha propria alma, o dialogo dos dias e das noites entre mim e ti, a immensidade temerosa mas viva, de que eu fazia parte.


E agora, reconheço-o, toda a dôr resulta de eu criar um universo que não existe. De tu me creares a mim e de eu te crear a ti. O resto do universo ignora a vida e a morte. Toda a dôr resulta d'este esforço para a mentira. De eu não não me submeter á força desabalada e cega. De eu têr inventado um Mundo maior que o teu e diferente do teu, para o sobrepor ao mundo cahotico, ao mundo atroz. De mentirmos com obstinação até á cova, ao céo e ás estrellas. D'estas duas creações antagonicas resulta a maior dôr humana. Se eu não tivesse criado outra vida imaginaria, tu passavas e calcavas-me, tu passavas e esmagavas-me, mas não me cabia em lote a morte e a consciencia da morte, a vida e a consciencia da vida. Mas creando a mentira tragica sou maior do que tu.

Resta-me o bem. Mas fazer o bem para quê se tudo acaba alli, se não ha outra vida consciente, se não tenho de responder perante ti pelos meus actos? E mesmo diante do escantilhão sofrego, o que é o bem e o mal? A que eu tenho de obedecer é ao instincto e mais nada. Se não estás ahi para me julgar e para me ouvir, que importa fazer isto ou fazer exactamente o contrario? Só uma coisa resta: iludir os desgraçados, leval-os para uma mentira cada vez maior, para que possam suportar a vida. Não se trata do bem ou do mal, do justo ou do injusto—trata-se de mentir, de mentir sempre—de mentir cada vez mais.


Estou nas tuas mãos... Esta noite limpida como um diamante polido não existe. O que existe é atroz... Nem a primavéra existe, e tudo se entreabre em entontecimento azul. Nem esta harmonia dos mundos, que eu criei, existe. O que existe é atroz. Nem este sonho em que ando envolvido e iludido. Só tu existes no mundo e me trazes estonteado no mundo. Fecho-me para te não vêr e estou nas tuas mãos. Se eu pudesse ouvir-te, ouvia todos os gritos que se soltaram no mundo, se eu pudesse encarar-te em toda a tua plenitude—via o negrume monstruoso e cahotico avançando para mim, o repelão doirado levando tudo diante de si, no desespero, na vida e na morte, esmagando sempre e renovando sempre, para crear mais dôr. Não te fartas. Isto é desconhecido, é absurdo, é eterno—mas a belleza tragica da vida ephemera consiste em te resistir, todo o nosso afan em crear uma mentira para opor a tua verdade—de que resulte dôr. Tu podes tudo como verdade. Estou nas tuas mãos. Eu posso tudo como mentira, e só assim saio das tuas mãos. A verdade é a dissolução e a morte, és tu; a mentira é a vida. Resisto-te para poder viver; para poder viver crio a mentira tragica. Se cedo ao teu impulso, se escuto as tuas vozes, levas-me para uma vida inferior; se te oponho a mentira, caminho por uma via dolorosa: engrandeço-me. Estou nas tuas mãos—e nego-te. E o homem é tanto maior quanto mais alto afirma que existes. Crispa-se-lhe a bocca, dilacera-se até ás ultimas fibras, lucta, grita e sae em farrapos das tuas mãos.


Todos os heróes são martyres, todos os santos foram iludidos até á morte.



CÉO E INFERNO



20 de maio


Toda a villa, a villa toda, a que a luz artificial dava relevo, desata a gritar como se lhe arrancassem a pelle. Gritam as velhas, grita o Santo em frente da sombra que se lhe introduziu na vida. Grita a paciencia e a mentira, grita a hipocrisia. Desapareceram as figuras e só ficam gritos na noite. Outro passo—outro grito. É a custo que me separo d'este sêr com quem cohabitei sempre. O escarneo está aqui; está aqui o escarneo e o rancor. Gritam no mundo subvertido. Mais gritos. Que dever? O dever de te matar? O dever de te cuspir? Matal-a, mas matal-a é até um caso de consciencia, para que a minha vida seja a minha vida.—E os gritos augmentam—gritos de dôr, gritos d'espanto, gritos sufocados de colera, mais gritos de sêres que se não querem separar da antiga carcassa.

Tudo isto caminhava para um fim, tudo foi desviado ao mesmo tempo d'esse fim; tudo isto se alimentava de certas regras, tudo avança desesperado, aos gritos, ancioso e doloroso:—Pois és tu! és tu! E o interesse és tu! e o amor és tu!—O desespero augmenta, os gritos redobram. As creaturas com que deparo são temerosas. Uns desatam a rir com rancor e sarcasmos sobre sarcasmos. Há-os que se reduzem a baba e a pó.—O quê, tudo isto era tão pequeno! Pois passei metade da existencia, annos atraz do annos, ao lado d'esta coisa feroz e esplendida, absorto em ninharia! E nunca dei pelo assombro, pela vertigem! Atrevo-me a matar, atrevo-me a odiar, atrevo-me a escarnecer-te...—Mas então—pergunto—eu fui o homem escrupuloso, eu fui o homem honesto que luctei toda a vida com os maus instinctos, n'um combate perpetuo—para isto? Pergunto—para isto? Alli aquella desata aos berros e sêres caminham transfigurados; sêres que nunca sonharam, materia impenetravel, deparam pela primeira vez com o sonho, o que os deixa atonitos. Ninguem pode encarar-se até ao fundo. A tua meticulosidade é de ferro, está de tal maneira entranhada no teu sêr que sem ella não existes. Pois até a tua meticulosidade se há-de dissolver. E tu sem o habito não existes, nem tu sem o dever, nem tu sem a consciencia. A D. Ursula que passou a vida a esfregar, a polir, a limpar os moveis reluzentes, deita-os todos a esmo do terceiro andar á rua.—Adoro-a mas não posso separar o interesse do amôr—não posso separal-os. Está dito e redito. No fundo do meu pensamento, bem no fundo de meu horrivel pensamento, uma outra ideia lucta, avança e não a posso arredar. Estraga-me a vida toda.—O mundo moral está com escriptos e reduz-se a uma loja escura, com teias de aranha no tecto.


Vemo-nos! vemo-nos que é o peor! Porque na verdade eu nunca me tinha visto n'esta horrivel nudez sem arrepanhar á pressa os vestidos. Eu metia-me medo. E agora vemo-nos! vemo-nos! Todos os sêres são temerosos. Mesmo grotescos são tragicos. Há n'este trapo que creaste, n'esta corôa de lata que foi a tua vida, não sei o quê que sua espanto. E dôr! e dôr na tua duvida ridicula, no vislumbre, no minuto de sonho que entrevi nos teus olhos. Este momento tragico, esta pausa, este horror em que cada um se vê na sua essencia, em que cada sêr se encontra sós a sós com a sua propria alma, reduzido sem artificios á sua propria alma, só tem outro a que se compare, aquelle em que cada um vê a alma dos outros. Porque, por melhor ou peor que tenhamos julgado os outros, vimol-os sempre atravez de nós mesmos.


O que ahi está é temeroso, sêres estranhos; sêres que, se dão mais um passo, nem eu nem tu podemos encarar com elles. Andam aqui interesses—e outra coisa. Com mil palavras diversas e ignobeis, mil boccas que te empurram para a infamia—outra coisa. Tens de confessal-o. Não é a consciencia—não é o remorso—não é o medo. É uma coisa inexplicavel e immensa, profunda e immensa, que assiste a este espectaculo sem dizer palavra—e espera... És immundo, és a vida. Não te sei definir, não te comprehendo. Se te levo até ao ultimo extremo perco o pé... Não sei até onde vae o meu horrivel pensamento. Até aqui tinha limites, agora nem o meu pensamento nem o teu encontram limites. Matar ou deixar de matar é tudo a mesma coisa. É tudo inutil. Agora não! agora não me quero ver nem te quero ver! Estamos no céo; e no inferno, D. Idalina e a langonha. Estamos no céo e no inferno, Anacleto, e tu ainda te enroscas na tua inalteravel correcção. Não te desmanches! Estamos emfim todos no céo e no inferno, e todos á uma percebemos que a vida foi inutil. É com gritos que a D. Leocadia reconhece que o escrupulo não existe; é com espanto que ella percebe que o bem que fez foi inutil; é com horror que a D. Leocadia comprehende que só lhe resta o vacuo. A inteiriça D. Leocadia berra no infinito, depois de se desfazer de todos os sentimentos falsos:—Mas eu cumpri sempre o meu dever!—Há-de-te servir de muito!—E aqui te encontras diante desta coisa que não foi feita para ti, aqui estás tu atirada de repente para uma acção sem limites, com os cabelos em pé,—tu D. Leocadia e o infinito; tu D. Leocadia que moravas entre quatro paredes a rever salitre, e agora tens de morar no céo e no inferno. O drama é tu, D. Leocadia, não te poderes desfazer da outra D. Leocadia; o drama supremo é tu seres ao mesmo tempo, D. Leocadia 29-3.º-D e D. Leocadia Infinito.—Reduzi-me a isto e reduzi-a a isto! Cheguei ao ponto! cheguei ao ponto! Cheguei ao ponto em que te vejo cara a cara e percebo que tudo é absurdo e inutil! Talvez o meu dever fosse fazer o mal. Atraz de mim, atraz de ti, andavam duas figuras, que, por mais esforços que fizessem, nunca se chegaram a entender!—A tua vida, a minha vida, foi um perpetuo inferno. Tiveste um filho e apegaste-te mais ao teu dever que ao teu filho. Dedicaste-lhe as tuas economias. Por o dever esqueceste interesses e paixões, e na tua alma solitaria só coube o exaspero e o dever. Mais nada. E á medida que a vida te inutilisou as ambições e te gastou os sonhos, mais te apegaste a essa palavra, que foi a unica razão da tua existencia. Tambem eu! tambem eu! Fechaste-te com ella no silencio gelido da villa, onde, nas noites sem fim, se chegava a ouvir o contacto das aranhas devorando-se com volupia no fundo dos saguões. Todos os dias pezaste o pão que lhe déste, mas déste-lho. E, tendo perdido tudo, só o dever te restou no mundo—e a orfã, a quem já não consegues reconhecer as feições. A mesma coisa nos dilacerou a ambos, a mesma coisa dolorosa nos encheu de colera, á medida que caminhavamos para a velhice e para a morte. E aqui chegaste, aqui cheguei, ambos ridiculos e amargos, sahindo d'uma lucta desesperada com outra coisa que nunca quizemos vêr. Ambos grotescos e de pé, tu e eu, eu e tu, com o teu broche, onde o mesmo sujeito de suissas—lembrança do primeiro matrimonio!—não tira de mim os olhos aguados de peixe. Ambos tendo atravessado n'uma taboa o mais tragico de todos os mares, e no fundo a mesma dôr, no fundo o mesmo fél, no fundo o mesmo esforço para sustentarmos sobre a cabeça esta abobada que não existe. O que não queriamos vêr era a noite...—Vontade tinha eu de fazer o mal, o que me não atrevia era a fazel-o.—Oh D. Leocadia dá um passo, outro passo ainda e mergulhas na beatitude como quem cumpre um destino.—Cessou o debate.—Não fales mais, D. Leocadia. Está tudo dito...

A figura que ahi vem mastiga em secco, com uma camada de verde e outra camada de sonho. A figura que ahi vem, d'um egoismo concentrado, e a que adherem ainda os mil e um nadas da sua existencia anterior de molusco, avança hirta para mim, inteiriça como uma barra de ferro. Ainda cheira a môfo, mas os olhos entranham-se-lhe n'um vasto panorama inexplorado. Vê para dentro, cada vez mais sofrega e o seu sonho não tem limites. O mal não tem limites. Tem diante de si mil annos e um dia para essa absorpção dolorosa e tragica. Abarca o mundo. Ó D. Leocadia agora é que tu chegaste ao amago! É um conflicto entre ti e os outros mortos, uma lucta num tablado que abrange o universo. D'ahi o seu prestigio—d'ahi o immenso scenario que se desdobra deante da D. Leocadia absorta n'esse panorama sem limites...


Só há no céo e no inferno outro espectro peor. É este sêr sem nome, pedra e desespero, noite e desespero, que se imobilisa na inutilidade de todos os esforços.


Todos gritam de desespero no céo e no inferno. Confundem-se mil boccas, as coisas mais altas e as coisas mais reles. Aqui está a villa toda, virada do avesso, os ridiculos sem vergonha do ridiculo e os infames lambendo a infamia. Aqui está a ilusão—e aqui está em pello a D. Possidonia, que ainda conserva na cabeça o chapeu de plumas. Aqui está a ordem e aqui está a desordem, as palavras inuteis e a inutil burandanga, toda a formula, todo o calvario da vida para subir até a morte—e aqui nos vemos uns aos outros tal qual somos, admiraveis, obscenos, reles, todos da mesma lama e com as mesmas chagas.—Eras tu força estupida e cega que me enchias de ilusão para poder suportar a vida? Eras tu o interesse, eras tu o amôr?... Aqui estão d'uma banda as formulas (e só agora comprehendo a sua necessidade) aqui está do outro lado a vida; aqui está o que se chamava a honra, e o que se chamava o dever. Ó amigos eis aqui todo o nosso grotesco, todas as nossas ambições, todas as nossas vaidades—e com ellas o absurdo e a logica. E eis aqui o meu drama e o teu drama. Os grandes desmoronamentos, a colera duns e o terror dos outros. Eis aqui o céo e o inferno, o maximo de ilusões e a ausencia completa de ilusões. Aqui as vaias, o sarcasmo, os apupos, os grandes insultos e a suprema mixordia. Desmoronou-se tudo, todas as fachadas e todos os artificios. Gritos, mais gritos, mais sarcasmos e insultos.—Como eu te reconheço! e a ti! e a ti!—E a ti que és a figura silenciosa que há tanto tempo me persegues, calada e triste, o que eras a peor. Tu que curvas a cabeça, sem nunca te pronunciares, tu que sofres quando eu sofro, que te envolves em silencio quando persisto n'este caminho doloroso—como te reconheço!—Dá gritos! podes gritar á tua vontade!


Agora estou nu e toda a mentira me é impossivel; agora estou nu e todas as palavras são inuteis; agora estou nu deante da immensidade e não posso ao mesmo tempo com o céo e o inferno. Agora é peor, agora tanto faz resistir um dia como um seculo. Agora é peor: não nos podemos ver. Como dois amigos que se encontram passados muitos annos, perdemos todos os pontos de contacto. Estamos aqui a representar: a verdade é que não nos podemos ver. Eis-nos bichos em frente de bichos.


25 de maio


Eis emfim a villa sonho, a villa phantasma. Reparem nas pedras e no que ellas exprimem, na alvenaria e castanho assentes com outro destino... Ruas lageadas, recantos onde nunca entrou o sol. Paredes mestras. Silencio e humidade até á medula, gestos lentos, habitos regrados. Uma rua desce até á egreja de cantaria lavrada. Um predio enorme avança sobre a ruella onde os passos echoam. Cresce aqui uma vegetação especial de sepulchro, e a sombra absorvida pelas muralhas da Sé exhala-se em bafo passado um seculo. Os alicerces são temerosos, as traves d'uma casa davam para a construcção d'um bairro. E tudo isto se entranhou de salitre, de interesse e de odio. Em tudo isto há uma mescla de inutilidade, de fé e de sonho. Tudo isto está cimentado para seculos. Cada barrote foi pregado com um destino, cada bloco metido na terra para se lhe erguer em cima não uma parede, mas uma ideia, uma vida, uma alma—tudo isto tem uma camada de bolor e se impregnou de desespero. Até os sepulchros foram construidos para a eternidade. A pedra depois de talhada, é uma expressão. Entro na cathedral. Silencio e um cheirinho a floresta apodrecida. As lages estão gastas d'um lado pelos passos dos vivos, do outro pelo contacto dos mortos. Tudo aqui gira em torno da mesma ideia... A pedra esboroa-se, mas eu contemplo-a viva, com um povo de estatuas em cima, com um povo de mortos em baixo. Nos alicerces uma geração, outra geração, todos apodrecendo juntos na mesma terra misturada e revolvida. A parte exterior é maravilhosa, a parte subterranea é mais maravilhosa ainda. É a unica raiz que se conserva intacta.

Aqui não andam só os vivos—andam tambem os mortos. A villa é povoada pelos que se agitam n'uma existencia transitoria e baça, e pelos outros que se impõem como se estivessem vivos. Tudo está ligado e confundido. Sobre as casas há outra edificação, e uma trave ideal que o caruncho roe une todas as construcções vulgares. Sob um grito outro grito, sob uma pedra outra pedra. Debalde todos os dias repelimos os mortos—todos os dias os mortos se misturam á nossa vida. E não nos largam.


Eis a villa abjecta, a villa banal onde se praticam todos os dias as mesmas acções e se repetem todos os dias os mesmos gestos... Aqui só há um pensamento fundamental: fugir á morte, protestar contra a morte, que é a mais viva de de todas as realidades, que é talvez a unica realidade. Protestar, contra as forças desabaladas, pelo sonho, em espirito ou em pedra, que se erga deante do Destino e desafie o Destino. Atravez da paciencia e da mentira, todo o esforço do homem tende para outro homem, para o homem ideal, para a figura de sonho, que há-de sêr um dia a creação dos vivos e dos mortos—o sonho realisado—o universo realisado. A vida ideal, a vida artificial, como a do granito, representa a mesma tentativa da mentira contra a verdade e a obstinação sobrehumana dos mortos para suprimirem a morte.

A vida em si é o mais profundo de todos os horrores, é o esforço inconsciente da larva repetindo as mesmas acções instinctivas, que o destino nos impõe. Tudo que nos rodeia é monstruoso; o que nos rodeia de negrume vae desabar sobre nós, reclamando dôr, reclamando gritos e sustentando-se de gritos. Separa-nos um fio. Só com a condição de não vermos a realidade é que podemos viver. Para a esconder erguemos a cathedral immensa, reconstruimos o universo todos os dias pelo esforço dos vivos e das gerações passadas. E toda esta mentira tragica a levantamos até ao céo a poder de palavras e com a força magnetica das palavras.


Não só os sentimentos criam palavras, tambem as palavras criam sentimentos. As palavras formam uma architectura de ferro. São a vida e quasi toda a nossa vida—a razão e a essencia d'esta barafunda. É com palavras que construimos o mundo. É com palavras que os mortos se nos impõem. É com palavras, que são apenas sons, que tudo edificamos na vida. Mas agora que os valores mudaram, de que nos servem estas palavras? É preciso crear outras, empregar outras, obscuras, terriveis, em carne viva, que traduzam a colera, o instincto e o espanto.


Mas se tudo são palavras e de palavras nos sustentamos, o que nos resta afinal? Gritos em frente de gritos, instinctos em frente de instinctos. Fica a morte á solta e o instincto á solta. Ficam os mortos de pé—a cohorte que não queriamos vêr, erguida, como o vento ergue a poeira, até aos confins da vida.

A D. Adelia não existe, o que aqui está vem de muito longe. Está aqui a paciencia com um chale, a mentira com uma cuia de retroz—estão aqui espectros. O que aqui está, com o infinito em cima e o infinito em baixo, são phantasmas. Todos praticam as mesmas acções banaes entre a vida e a morte, mas eu vejo o riso sem boca e ouço o grito de dôr, emquanto as mascaras se transformam e a materia se decompõe. Eu vejo o que ha dentro deste sêr, que não tem limites, o que ha dentro deste sêr de real e verdadeiro. Cada um assume proporções temerosas. Cahem lá dentro palavras, sentimentos, sonho—é um poço sem fundo, que vae até á raiz da vida. Á superficie todos nós nos conhecemos. Depois ha outra camada, outra depois. Depois um bafo. Ninguem sabe do que é capaz, ninguem se conhece a si proprio, quanto mais aos outros, e só á superficie ou lá para muito fundo, é que nos tocamos todos, como as arvores duma floresta—no céo e no interior da terra. Do mais baixo ainda veem terrores, ancias, desespero...


Agora o homem existe em toda a sua plenitude. Anda hoje no universo como andou sempre no universo. Para elle não há passado nem futuro porque elle é o passado e o futuro. A villa tomou outras proporções e sente-se n'outras mãos. Quem lhe dera ser insignificante e grotesca! quem lhe dera não vêr! Para não te aturar vida sôfrega e doirada, tive de me revestir de casca como as arvores, porque no principio todos fomos phantasmas. E agora não sou eu quem falo—são elles que falam! O que as figuras representam vem do fundo dos fundos—o que ellas teem de transitorio e o que ellas teem de temeroso, desde o homem que não bole junto das fazendas petrificadas, até á impenetravel D. Ursula, que remoe entre dentes o pavôr. O que me parecia gelatinoso é uma fôrça immensa, este habito ridiculo um principio de sonho. A paciencia e a mentira são aspectos da dôr, e a bisca joga-se entre o pelago e o pelago. Os penantes usados, as ceremonias grotescas, passam-se entre phantasmas e phantasmas, n'um ciclone de desespero e gritos. Cada boca fala por outras bocas, e a D. Penaricia, columna de Israel do fel e vinagre, é uma figura tremenda. Todos os dramas teem a mesma assignatura—Shakespeare. As acções veem dos confins dos seculos e o proprio mal não é um acto individual. O crime é sempre a acção impulsiva ou premeditada dos mortos. Para praticar um crime é preciso revolver camadas de phantasmas. Desperta echos adormecidos até não sei que profundidades. Põe em debate este mundo e o outro mundo, e d'ahi a fascinação que exerce em todas as almas. A vasa não na jogam só figuras somiticas: de cada sêr paciente e sordido arranca-se outro sêr ilimitado. Vejo no escuro as outras figuras atentas sobre o jogo... Estão aqui as velhas amarradas por quinhentos annos á mesma mesa da bisca. Está a inveja, e a inveja esverdeada torce-se sob o olhar da magestosa Theodora. Está a paciencia, e a paciencia sorri deante da magestosa Theodora. Está aqui a mesa de jogo projectada no infinito, com sêres que se não podem vêr, e que hão-de cohabitar acorrentados por quinhentos annos. Ha ocasiões em que vomitam as peores injurias; ás vezes torcem-se e soltam ais sobre ais represos.—Jogo!—E a bisca segue pela eternidade fora.—Corto!—Tambem eu atravessei o inferno e tenho saudades do inferno!—E a magestosa Theodora parece calcinada pelo fogo do inferno. É o momento decisivo, quando, de pé, em roda da mesa, onde fôram insignificantes, se vêem umas ás outras. Peor momento é quando a si proprias se vêem, quando se chocam como ferros, e seus olhos adquirem tal percepção que não são só ellas que olham, quando ao espanto se junta espanto e não são só ellas que falam, mas muitas outras vozes, e não só as suas figuras gesticulam mas muitas outras figuras. Um momento, um seculo, e eil-as até aos confins. Todas as bôccas prégam de cada vez mais fundo...

Cada bocca se abre no escuro como se fosse o abismo; as boccas falam por muitas boccas que não tem nada de humanas e que moem e remoem com escarneo e baba; por boccas franzidas só pelle e espuma; por boccas sem dentes; por boccas ascorosas que tentam ser boccas e que escorrem veneno; por boccas que se desesperam de ser boccas, para se fazerem ouvir.

E o candieiro escorre o mesmo petroleo sobre ellas e sobre as figuras invisiveis que arfam de desespero até á raiz da vida...


N'esse instante vêmos todos os sêres extraordinarios que não tinham entrada no mundo; n'esse instante toda a villa está de pé, a villa tragica, com os vivos e os mortos e o drama profundo das almas que toca no céo e no inferno. Eis a villa como não torna a aparecer outra na terra, e que dura um minuto e um seculo. Cada figura escorre dôr, não só a dôr propria, mas a do tumulo, cada figura é um sêr d'espanto. Até tu, no relampago antes de te curvares sobre a meia que já tem vinte metros de comprido, ó prima Angelica, ó figura tremenda de inepcia, que tambem achaste sabôr á vida e logo te fechaste com elle na escuridão cerrada da idiotia—até tu, pela maneira como apertaste a mandibula, pelo olhar que se fitou no meu olhar e veio da espessura dos seculos, descobriste não sei que mar nunca d'antes navegado, não sei que dôr transida e doirada, não sei que mysterio que não fala, que não pode falar, mas que está, real e patente, aqui ao lado e na nossa companhia...


Há—sentimol-o! vêmol-o!—forças que tacteiam para lá e augmentam o nosso desespero. É talvez Deus que nos quer falar e que não pode, ou que fala e não o entendemos.


Não são só os grandes fluidos que se entrechocam sobre a villa, há outra coisa que a todos os momentos nos reclama... E é um milagre que toda esta architectura—que não existe! que não existe!—se sustente de pé e no vacuo, baseada em palavras e sons, e que joguemos a bisca de tres na encrusilhada da vida e da morte. Mais: é um milagre muito maior ainda que consigamos cerrar os ouvidos á força que bate estonteada á nossa volta e que faz esforços desesperados para communicar comnosco. Não tem bocca para falar, mas tenta, n'uma dôr muda, fazer-nos comprehender algumas noções que transformariam o universo. Ás vezes estamos por um fio...—perdemo-nos logo n'uma escuridão que tem leguas de distancia. Bom é cerrarmos os ouvidos. Se chegassemos a entendel-a tudo isto desaparecia no ar...


Chegamos ao ponto! chegamos ao ponto em que não nos distinguimos na floresta apodrecida! A vila é immensa, as figuras são immensas, só dôr e sonho—jacto que vae de polo a polo e onde não existe nem vida nem morte. Na floresta putrefacta o tempo e o espaço desapareceram: só existem sêres estranhos e arvores estranhas. O que nós viamos eram sombras projectadas n'um muro. Mais um passo e todos sahimos doirados d'este mergulho no sonho—outro passo ainda e só existe uma fôrça frenetica e immensa, desesperada e immensa...


Agora é que ella anda á solta! agora é que ella anda á solta!



A ARVORE



15 de setembro


Preciso aqui duma arvore... Uma arvore que dê sombra e ternura—uma velha arvore carcomida. Nunca pude passar sem essa sombra inocente. Meio morto de cansaço e de mentira deito-me ao pé d'ella e renasço. Todos a aproveitam—para o lume—para traves—para o caixão.


É filha de cavadores e neta de pedreiros: obstina-se e por fim afaz-se.


A dôr afeiçoa-a. Aceita tudo: a vida e a morte com a mesma resignação. E depois desta vida acceita ainda outra com o purgatorio e o inferno.


Pouco e pouco a ternura torna á supuração. A filha desapareceu. Sabe que a D. Hermengarda, pobre e cachetica, pára n'um hospicio, e vae lá buscal-a. Caso extraordinario: vê mais naturalmente a desgraça da filha do que a pobreza da D. Hermengarda. É a sua senhora. Limpa-lhe a baba e cata-lhe o piolho; bezunta-a de pomada, e nos seus olhos de cão há uma inexprimivel serenidade. A D. Hermengarda ainda tem exigencias. Manda e a Joanna obedece. Melhor: trabalha para lhe dar de comer. Está afeita. Faz mais: a Joanna agora rouba. Ella, que sacrificou a filha, rouba seis vintens, doze vintens... De dia carrega bahus, á noite o quadro é este: a veneravel D. Hermengarda n'uma cadeira de rodas, com um resto de quico na cabeça, e a Joanna extactica a satisfazer-lhe as impertinencias.

Não ouve, creio mesmo que não pensa. Os seus gestos são conduzidos por outras mãos, atraz d'ella há outras figuras até á raiz da vida, que embalaram berços, choraram sobre a desgraça e tomaram para si o quinhão mais pesado. Até já nem é Joanna que fala, mesmo para contar a sua historia. Ou só, ou quando encontra alguem, a Joanna divaga:

—E vae eu disse-lhe... Fui ter com a filha e vae eu disse-lhe:—Deita-me ahi pão quente n'uma malga com meio quartilho de vinho.—E vae ella disse-me:—Tenho ahi pão velho, não enxerto o outro.—E vae eu disse-lhe:—As bagadas que tenho chorado caiam sobre ti.

Não sabe mais que dizer. Aquella fastidiosa perlenga ouviu-a a outras velhas e vem do principio do mundo: aplica-a para exprimir a sua dôr. Se lhe falam dos ladrões finge que não entende. Se insistem, a Joanna responde com olhos de pasmo:

—Os ladrões davam-me uma tigela de caldo.

Não soube nada na vida, não foi nada na vida, não percebeu nada da vida. Oh vida denegrida, monotona e sem sabor, de louça para lavar, de carretos para fazer, afundaste-a, esfarrapaste-a, amarfanhaste-a, engrandeceste-a!...


Deante do universo é menos que um caco, é um pobre coração usado pela dôr. O ultimo gesto que a Joanna faz, é o seu primeiro gesto, mas esboçado apenas, como quem segue um fio já muito tenue de sonho que não tem força para levar até ao fim, o de aconchegar uma creança ao peito—gesto que vem de seculos em seculos, desde o inicio do mundo, repetido pelas successivas imagens de mulheres já desfeitas em pó, repetido no futuro por milhares de sêres incriados.

O trabalho da vida é persistente e occulto. Gasta, desgasta, como uma pedra sobre outra pedra Não é só por fóra que creamos rugas: por dentro a usura é immensa. Só a Joanna conserva a ternura intacta. O que havia a dizer era como se formou esta alma e eu não sei dizel-o. Por fóra farrapos, por dentro vida. O tojo mais bravio deita mais flôr. Um fio d'agua que reluz prende-me horas e transforma as pedras. A ternura da Joanna modifica-lhe a fealdade, pega-se-lhe ás mãos e aos trapos que a vestem. O que eu não dou é a expressão, o que eu não dou é a luz. Afundo-a, amolgo-a. E no entanto a figura impõe-se-me pela expressão maxima da dôr. A Joanna debruça-se sobre uma grandeza com que não posso arcar. Resiste, lucta e atreve-se. Augmenta. E tambem só ella no mundo não se importa de morrer.


Talvez a morte seja para ella a vida.


Esta luzinha viaja há muitos milhares d'annos. É como a faúlha d'uma estrella, perdida na immensidão, que lhe custa a chegar á terra. E caminha sempre, humilde e obstinada, atravez do infinito—sempre. Por isso ella teimava:—O menino está vivo!...—Por vezes parece que se apaga. Reaparece atravez da obscuridade espessa acumulada há seculos. Talvez toda a grandeza d'esta mulher esteja n'isto: é que ella é conduzida por uma mão enorme. A sua ternura é instinctiva, a sua humildade é instinctiva... Pare. Pare a desgraça. Cria. É a velha que tira a codea á bocca para a dar aos netos. É a velha que encontraste há bocado no caminho, do olhos aguados. Cada vez maior; traz este carreto á cabeça desde o principio do mundo, e ainda o não poude pousar. Embala os berços. Pega nas creanças ao collo. Desde o principio do mundo que estas mãos asperas amparam. Não é uma figura—é uma serie de figuras...