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Rita
Farinha (Maio 2012)
Reservados todos os direitos de reproducção nos
paizes que adheriram á Convenção de Berne;
Brasil: Lei n.º 2577 de 17 de Janeiro de 1912;
Portugal: Decreto de 18 de Março de 1911.
HUMUS
DO AUTOR
EDIÇÕES DA RENASCENÇA PORTUGUESA
O Cerco do Porto, contado por uma testemunha,
o Coronel Owen—Prefacio e notas (2.ª ed.).
1817—A Conspiração de Gomes Freire (3.ª ed.).
El-Rei Junot (2.ª ed.).
Memorias, 1.º vol. (2.ª ed.).
Humus (2.ª ed.).
1817—A Conspiração de Gomes Freire (3.ª ed.).
El-Rei Junot (2.ª ed.).
Memorias, 1.º vol. (2.ª ed.).
Humus (2.ª ed.).
RAUL BRANDÃO
Humus
O que tu vês é bello; mais bello o
que suspeitas; e o que ignoras muito
mais bello ainda.
D'um autor desconhecido.
2.ª EDIÇÃO
EDITORES
Renascença Portuguesa—Porto
ANNUARIO DO BRASIL—RIO DE JANEIRO
AO MESTRE COLUMBANO
A VILLA
13 de novembro
Ouço sempre o mesmo ruido de morte que devagar roe e persiste...
Uma villa encardida—ruas desertas—pateos de lages soerguidas pelo unico esforço da erva—o castelo—restos intactos de muralha que não teem serventia: uma escada encravada nos alveolos das paredes não conduz a nenhures. Só uma figueira brava conseguiu meter-se nos intersticios das pedras e d'ellas extrae succo e vida. A torre—a porta da Sé com os santos nos seus nichos—a praça com arvores rachiticas e um coreto de zinco. Sobre isto um tom denegrido e uniforme: a humidade entranhou-se na pedra, o sol entranhou-se na humidade. Nos corredores as aranhas tecem imutaveis teias de silencio e tedio e uma cinza invisivel, manias, regras, habitos, vae lentamente soterrando tudo. Vi não sei onde, n'um jardim abandonado—inverno e folhas seccas—entre buxos do tamanho d'arvores, estatuas de granito a que o tempo corroera as feições. Puira-as e a expressão não era grotesca mas dolorosa. Sentia-se um esforço enorme para se arrancarem á pedra. Na realidade isto é como Pompeia um vasto sepulchro: aqui se enterraram todos os nossos sonhos... Sob estas capas de vulgaridade ha talvez sonho e dôr que a ninharia e o habito não deixam vir á superficie. Afigura-se-me que estes sêres estão encerrados n'um involucro de pedra: talvez queiram falar, talvez não possam falar.
Silencio. Ponho o ouvido á escuta e ouço sempre o trabalho persistente do caruncho que roe há seculos na madeira e nas almas.
15 de novembro
As paixões dormem, o riso postiço creou cama, as mãos habituaram-se a fazer todos os dias os mesmos gestos. A mesma teia pegajosa envolve e neutralisa, e só um ruido sobreleva, o da morte, que tem deante de si o tempo ilimitado para roer. Há aqui odios que minam e contraminam, mas como o tempo chega para tudo, cada anno minam um palmo. A paciencia é infinita e mete espigões pela terra dentro: adquiriu a côr da pedra e todos os dias cresce uma polegada. A ambição não avança um pé sem ter o outro assente, a manha anda e desanda, e, por mais que se escute, não se lhe ouvem os passos. Na aparencia é a insignificancia a lei da vida; é a insignificancia que governa a villa. É a paciencia, que espera hoje, amanhã, com o mesmo sorriso humilde:—Tem paciencia—e os seus dedos ageis tecem uma teia de ferro. Não há obstaculo que a esmoreça.—Tem paciencia—e rodeia, volta atraz, espera anno atraz d'anno, e olha com os mesmos olhos sem expressão e o mesmo sorriso estampado. Paciencia... paciencia... Já a mentira é d'outra casta, faz-se de mil côres e toda a gente a acha agradavel.—Pois sim... pois sim... Não se passa nada, não se passa nada. Todos os dias dizemos as mesmas palavras, cumprimentamos com o mesmo sorriso e fazemos as mesmas mesuras. Petrificam-se os habitos lentamente acumulados. O tempo moe: moe a ambição e o fel e torna as figuras grotescas.
Reparem, vê-se daqui a villa toda... Lá está a Adelia, o Pires e a Pires como figuras de cera. Ninguem mexe. N'um canto mais escuro a prima Angelica não levanta a cabeça de sobre a meia. Tanta inveja ruminou que desaprendeu de falar. Chega o chá, toma o chá, e apega-se logo á mesma meia, a que mãos caridosas todos os dias desfazem as malhas, para ella, mal se ergue, recomeçar a tarefa. Um dia—uma semana—um seculo—e só o pendulo invisivel vae e vem com a mesma regularidade implacavel—p'ra a morte! p'ra a morte! p'ra a morte!
Passou um minuto ou um seculo? Sobre o granito salitroso assenta outra camada denegrida, e as horas caem sobre a villa como gôtas d'agua d'uma clepsydra. De tanto vêr as pedras já não reparo nas pedras. A morte roda na ponta dos pés e ninguem ouve seus passos. Todos os dias os leva, todos os dias toca a finados. O nada á espera e a D. Procopia a abrir a boca com somno, como se não tivesse deante de si a eternidade para dormir. Tudo isto se passa como se tudo isto não tivesse importancia nenhuma, tudo isto se passa como se tudo isto não fôsse um drama e todos os dramas, um minuto e todos os minutos...
Não há annos, há seculos que dura esta bisca de tres—e os gestos são cada vez mais lentos. Desde que o mundo é mundo que as velhas se curvam sobre a mesma meza do jogo. O jogo banal é a bisca—o jogo é o da morte... O candieiro ilumina e a sombra roe as phisionomias, a magestosa Theodora, a Adelia, a Eleutheria das Eleutherias, o padre. Salienta-se do escuro uma boca que remoe, a da D. Bibliotheca. Os padres exaltam-na, a Egreja exalta a sua caridade, que rebusca a desgraça para lhe dar tres vintens. Só destingo, despegadas dos craneos, as orelhas do respeitavel Elias de Melo e do impoluto Melias de Melo, lividos como dois fantasmas. Ambos regulam a consciencia como quem dá corda a um relogio. Dividas são dividas. Tudo isto parece que fluctua debaixo d'agua, que esverdeia debaixo d'agua. A luz do candieiro ilumina as mãos da D. Leocadia, que põe acima de tudo o seu dever, e que leva para casa uma orfã a quem sustenta e que lhe entrapa as pernas: osseas e seccas enchem a sala toda, o mundo todo...
Não sei bem se estou morto ou se estou vivo... Decorre um anno e outro anno ainda. O relento sabe bem, e o tempo passa, o tempo gasta-as como o salitre aos santos nos seus nichos. Se o desespero augmenta não se traduz em palavras. A D. Procopia odeia a D. Bibliotheca, mas nem ella sabe o que está por traz d'aquelle odio, contido pelo inferno. Toda a gente se habitua á vida. Matar matava-a eu, mas varias palavras me deteem. Detem-me tambem um nada... Chegamos todos ao ponto em que a vida se esclarece á luz do inferno. Mas ninguem arrisca um passo definitivo.
As velhas com o tempo adquiriram a mesma expressão, com o tempo chegaram a temer um desenlace. Debruçadas sobre a meza as figuras não bolem. Não bolem outras figuras que se envolvem no escuro, e o que me interessa não são as palavras do padre—Jogo;—nem o que a Adelia diz baixinho á Eleutheria, para que a velha temerosa ouça:—A nossa Theodora está cada vez mais moça!...—o que me interessa são as figuras invisiveis: é a dôr d'essas figuras imoveis, e sobre ellas outra figura maior, curva e atenta, que ha seculos espera o desenlace.
A villa petrifica-se, a villa abjecta cria o mesmo bolor. Mora aqui a insignificancia e até á insignificancia o tempo imprime caracter. Moram na viella ingreme e cascosa, que revê humidade em pleno verão, velhas a quem só restam palavras, presas, alimentadas, encarniçadas, como um doido sobre uma corôa de lata que lhes enche o mundo todo. Mora d'um lado o espanto, do outró o absurdo. E todos á uma afastam e repelem de si a vida. Mora aqui a Telles que passa a vida a limpar os moveis, só e fechada com os moveis reluzentes, talvez resto d'um sonho a que se apega com desespero, e velhas só mesuras, só baba, só rancor. Ter uma mania e pensar n'ella com obstinação! Creal-a. Ter uma mania e vêl-a crescer como um filho!... Mora aqui a D. Restituta, sempre a acenar que sim á vida, e a Ursula, cuja missão no mundo é fazer rir os outros.
Cabem aqui sêres que fazem da vida um habito e que conseguem olhar o céo com indiferença e a vida sem sobresalto, e esta mixordia de ridiculo e de figuras somiticas. Mora aqui, paredes meias com a colegiada, o Santo, que de quando em quando sae do torpôr e clama:—O inferno! o inferno!—Moram as Telles, e as Telles odeiam as Souzas. Moram as Fonsecas, e as Fonsecas passam a vida, como bonecas desconjuntadas, a fazer cortezias. Moram as Albergarias, e as Albergarias só teem um fim na existencia: estrear todos os semestres um vestido no jardim. Moram os que moem, remoem e esmoem, os que se fecham á pressa e por dentro com uma mania, e os que se aborrecem um dia, uma semana, um anno, até chegar a hora pacata do solo ou a hora tremenda da morte.
Mora aqui o egoismo que faz da vida um casulo, e a ambição que gasta os dentes por casa, o que enche a existencia de rancores e, atraz d'anno de chicana, consome outro anno de chicana. Cabem aqui dentro as velhas scismaticas, atraz de interesses, de paixões ou de simples ninharias, dissolvendo-se no ether, e logo substituidas por outras velhas, com as mesmas ou outras plumas nos penantes, com os mesmos ou outros ridiculos, fedorentas e maniacas; os homens a quem se foram apegando pela vida fóra dedadas de mentira, promptos para a cova—e o Gabiru e o seu sonho. Cabe aqui o ceu e as lambisgoias com as suas mesuras, a morte e a bisca de tres. E cabe aqui tambem uma velha creada, que se não tira deante dos meus olhos. Obsidia-me. Carrega. Obedece. Serve as outras velhas todas. A Joanna é uma velha estupida.
Serviu primeiro na villa, serviu depois na cidade. Serviu um anthropologista exotico, que fundira cem contos a juntar caveiras, e de quem a Joanna dizia ao amollecer-lhe os edêmas dos pés:—Este senhor é um 2.º Camões!—Serviu a D. Herminia e a D. Hermengarda. Serviu com uma saia rôta, as mãos sujas de lavar a louça, uma camisa, os usos e seis mil reis de soldada. Lavou, esfregou, cheira mal. Serviu o tropel, a miseria, o riso, que caminha para a morte com um vestido d'aparato e um chapeu de plumas na cabeça. Para contar fio a fio a sua historia bastava dizer como as mãos se lhe fôram deformando e creando ranhuras, nodosidades, codeas, como as mãos se foram parecendo com a casca d'uma arvore. O frio gretou-lh'as, a humidade entranhou-se, a lenha que rachou endureceu-lh'as. Sempre a comparei á macieira do quintal: é inocente e util e não ocupa logar. A vida gasta-a, corroem-na as lagrimas, e ella está aqui tal qual como quando entrou para casa da D. Hermengarda. Faz rir e faz chorar. Os meninos borraram-na—adorou os meninos. Os doentes que ninguem quer aturar, atura-os a Joanna. Já ninguem extranha—nem ella—que a Joanna aguente, e a manhã a encontre de pé, a rachar a lenha, a acender o lume, a aquecer a agua. Há sêres creados de proposito para os serviços grosseiros. Por dentro a Joanna é só ternura, por fóra a Joanna é denegrida. A mesma fealdade reveste as pedras. Reveste tambem as arvores.
É uma velha alta e secca, com o peito raso. O habito de carregar á cabeça endireitou-a como um espeque, o habito das caminhadas espalmou-lhe os pés: a recoveira assenta sobre bases solidas. Parece um homem com as orelhas despegadas do craneo e olhos inocentes de bicho. É d'estas creaturas que dão aos outros em troca da soldada o melhor do seu sêr, que se apegam aos filhos alheios e choram sobre todas as desgraças. E ainda por cima dedicam-se, e quando as mandam embora, porque não teem serventia, põem-se a chorar nas escadas.—É preciso escodeal-a—asseverou a D. Hermengarda quando lhe foi em pequena para casa. Escodeia-a. Noite velha e já ella bate de cima com a tranca no soalho, a chamal-a.—E não te servindo a porta da rua é a serventia dos cães.—Mas ella apega-se. Nunca teve outra ama como aquella senhora. Venera-a. Annos depois diz das pancadas:—Merecia-as.—Já não é preciso chamal-a: a Joanna ergue-se n'um sobresalto, alta noite, noite negra, e dorme com um olho fechado e outro aberto. Velha, tonta, abre de quando em quando os olhos, põe o ouvido á escuta num movimento instinctivo, á espera de uma imaginaria ordem: ouve sempre a voz da D. Hermengarda a chamal-a.
Mal se comprehende que depois d'uma vida inteira, esta mulher conserve intacta a inocencia d'uma creança e o pasmo dos olhos á flôr do rosto. Trambulhões, fome, o frio da pobreza—o peor—e, apezar de amolgada, com uma saia de estamenha, no pescoço pelles, as mãos gretadas de lavar a louça, uma coisa que se não exprime com palavras, um balbuciar, um riso... Misturou á vida ternura. Misturou a isto a sua propria vida. Aqueceu isto a bafo.
Tem as mãos como cepos.
16 de novembro
Debaixo d'estes tectos, entre cada quatro paredes, cada um procura reduzir a vida a uma insignificancia. Todo o trabalho insano é este: reduzir a vida a uma insignificancia, edificar um muro feito de pequenas coisas deante da vida. Tapal-a, escondel-a, esquecel-a. O sino toca a finados, já ninguem ouve o som a finados. A morte reduz-se a uma cerimonia, em que a gente se veste de luto e deixa cartões de visita. Se eu podesse restringia a vida a um tom neutro, a um só cheiro, o môfo, e a villa a côr de mataborrão. Seres e coisas criam o mesmo bolôr, como uma vegetação cryptogamica, nascida ao acaso n'um sitio humido. Teem o seu rei, as suas paixões e um cheirinho suspeito. Desaparecem, resurgem sem razão aparente d'um dia para o outro n'um palmo do universo que se lhes afigura o mundo todo. Absorvem os mesmos saes, exhalam os mesmos gazes, e supuram uma escorrencia phosphorecente, que corresponde talvez a sentimentos, a vicios ou a discussões sobre a imortalidade da alma.
Sempre as mesmas coisas repetidas, as mesmas palavras, os mesmos habitos. Construimos ao lado da vida outra vida que acabou por nos dominar. Vamos até á cóva com palavras. Submetem-nos, subjugam-nos. Pesam toneladas, teem a espessura de montanhas. São as palavras que nos conteem, são as palavras que nos conduzem. Toda a gente forceja por crear uma atmosfera que a arranque á vida e á morte. O sonho e a dôr revestem-se de pedra, a vida consciente é grotesca, a outra está assolapada.
Remoem hoje, amanhã, sempre as mesmas palavras vulgares, para não pronunciarem as palavras definitivas. Toda a gente fala no céo, mas quantos passaram no mundo sem ter olhado o céo na sua profunda, na sua temerosa realidade? O nome basta-nos para lidar com elle. Nenhum de nós repara no que está por traz de cada sylaba: afundamos as almas em restos, em palavras, em cinza. Construimos scenarios e convencionamos que a vida se passasse segundo certas regras. Isto é a consciencia—isto é o infinito... Está tudo catalogado. Na realidade jogamos a bisca entre a vida e a morte, baseados em palavras e sons. E, como a existencia é monotona, o tempo chega para tudo, o tempo dura seculos. Formam-se assim lentamente crostas: dentro de cada sêr, como dentro das casas de granito salitroso, as paixões tecem na escuridão e no silencio, teias de escuridão e de silencio. Na botica somnolenta ao pae succede o filho sobre o taboleiro de gamão. Quero resistir, afundo-me. Começo a perceber que o habito é que me fez suportar a vida. Ás vezes acordo com este grito:—A morte! a morte!—e debalde arredo o estupido aguilhão. Choro sobre mim mesmo como sobre um sepulchro vazio. Oh como a vida peza, como este unico minuto com a morte pela eternidade peza! Como a vida esplendida é aborrecida e inutil! Não se passa nada! não se passa nada e eu sinto aqui ao lado outra vida que me mete medo e que não quero vêr. Essa vida talvez seja a minha verdadeira vida. Mas o peor é que eu percebo que, se se apodera de mim, não posso mais viver. Agarro-me com desespero ao habito e ás palavras. Tu não existes! tu não existes! O que existe é isto com que lido todos os dias, as palavras que digo todos os dias, os sêres com quem falo todos os dias.—E tu rodeias-me, tu reclamas-me e queres viver comigo para todo o sempre. Não te posso vêr!...
Se há momentos em que o caixão que um galego leva ás costas me chama á realidade, ao espanto, desvio logo o olhar e reentro á pressa na vida comesinha. Finjo que sorrio e esqueço. Mas sempre não posso! Anno atraz d'anno não posso! Não há mais nada! não há mais do que estas figuras paradas, e as horas verdes que de espaço a espaço caem como gôtas d'agua no fundo d'um subterraneo. Outro anno ainda! outro passo ainda para a morte! Sinto uma dôr sem gritos por traz da immobilidade. Cada hora é menos uma hora na minha vida. E o tempo foje, o tempo côr de mataborrão que ao granito salitroso junta camada denegrida, e ás almas sepultadas outra pazada de cinza... Há momentos em que as figuras teem tanta vida como os santos imoveis nos seus nichos—mas há momentos em que cada um redobra de proporções, há momentos em que a vida se me afigura iluminada por outra claridade. Há momentos em que cada um grita:—Eu não vivi! eu não vivi!—Há momentos em que deparamos com outra figura maior que nos mete medo. A vida é só isto? Por mais que queira não posso desfazer-me de pequenas acções, de pequenos ridiculos, não posso desfazer-me de imbecilidades nem d'este sêr esfarrapado que vae de pólo a pólo. Tenho de aturar ao mesmo tempo esta idéa e este gesto ridiculo. Tenho de ser grotesco ao lado da vida e da morte. Mesmo quando estou só o meu riso é idiota. E estou só e a noite. Por traz daquella parede fica o céo infinito. Para não morrer d'espanto, para poder com isto, para não ficar só e o doido, é que inventei a insignificancia, as palavras, a honra e o dever, a consciencia e o inferno.
E ainda o que nos vale são as palavras, para termos a que nos agarrar.
É então um mundo de formulas a que eu obedeço e tu obedeces? Sem elle não poderiamos existir. Se vissemos o que está por traz não podiamos existir. O nosso mundo não é real: vivemos n'um mundo como eu o comprehendo e o explico. Não temos outro. Estamos aqui como peixes n'um aquario. E sentindo que há outra vida ao nosso lado, vamos até á cóva sem dar por ella. E não só esta vida monstruosa e grotesca é a unica que podemos viver, como é a unica que defendemos com desespero.—Pois sim... pois sim...—Estamos aqui a representar. Estamos aqui todos ao lado da morte e do espanto a jogar a bisca de tres. Estamos aqui a matar o tempo. Este passo, que é unico e um só, damol-o como se fosse uma insignificancia. Mais fundo: não existem senão sons repercutidos. Decerto não passamos de echos. Submeto-me, subjugas-me. Já não reparo, já vejo turvo.—Jogo!—E de repente todo o meu sêr é sacudido pelo espanto que tacteia á minha roda. Raras vezes entramos em contacto, mas sinto-o aqui ao meu lado—sem nos chegarmos a entender. Nem quero! nem quero! Se me alheio um momento dou um grito de dôr. Escaldo-me.
Na verdade o que eu não posso é vêr, o que eu não quero é vêr! A villa regula-se por habitos e regras seculares—mas há outra coisa enorme para lá do scenario de que me rodeio. Para não ter medo criei eu isto, para a não vêr criou o Santo o inferno. Há outra coisa esfarrapada e dorida.—Jogo!—Cada vez me sinto mais reles, cada vez as palavras me parecem mais gastas. Há outro sêr que vae de pólo a pólo... Esta figura grotesca não é a minha figura. O salitre roeu os santos nos seus nichos—roeu-os tambem o sonho... Curvado sobre a mesa repito os mesmos gestos inuteis para não desatar aos gritos.—Jogo!—Isto para fingir que é indiferente o que nos rodeia, que estamos habituados ao que nos rodeia, que sorrimos ao que nos rodeia! Está alli a morte—está aqui a vida—está aqui o espanto—e só a ninharia consegue deitar raizes profundas.
20 de novembro
Fecho os olhos. A chuva desaba interminavelmente do céo, e na luz turva vejo sempre a villa, com as mesmas figuras de museu sentadas na mesma sala... Insignificancia, insignificancia, insignificancia. Portas chapeadas que rangem nos gonzos como portas de prisão, fachadas com os vidros partidos, e uma, duas, tres camadas de pó sobrepostas. Lojas terreas d'onde vem um bafo humido que trespassa... Como todas as almas, todas as janelas estão perras, e o tempo vae substituindo uma figura por outra figura, uma pedra por outra pedra. Ponho-as em fila deante de mim, com os seus penantes usados, grotescas e maniacas. Considero. Vejo vir os gestos, as cortezias, as acções do confim dos seculos. Isto é nada—é vulgar e quotidiano. É uma aparencia.
A villa é um simulacro. Melhor: a vida é um simulacro.
Atraz desta villa há outra villa maior. A lentidão, o gesto usado, a meia tinta mesmo em plena luz, toldam-me a visão. Sobre cada sêr cahiu uma camada de pó. A villa é isto—e a villa não é isto. Que me importa a Adelia, um dia d'inveja, um dia de aquiescencia, um sorriso, baba, mesura atraz de mesura? Outra velha mexe por traz desta velha mesquinha. As lettras assignadas, as lettras protestadas d'este sêr absorto, o exagero minusculo, teem outra significação. A realidade é a manha, a astucia que cada um põe em jogo. Não há velhas com cartas na mão; há orgulho, soberba, inveja paciente. Há intuitos, cautela de quem caminha na ponta dos pés. Há forças e experiencia, avareza e astucia. E mais fundo outro, outro sobterraneo... Todas as palavras que se empregam teem, além da significação banal, uma significação que cada um peza e calcula,—e outra significação superior. Há palavras que requerem uma pausa e silencio, e há palavras que é preciso afundar logo n'outras palavras. Há pelo menos dois sêres n'este homem que toda a gente conhece, pautado, regrado, methodico. Elle e o doido morto por fazer esgares. Elle e o doido que só consegue comprimir á força de pontualidade. Esta velha não é a velha com quem lidamos—é outra. Tem tido um trabalhão para fazer mal, nunca conseguiu fazel-o. Se se arrisca, há-de contar comsigo mesma para se contrariar. É uma discussão que não acaba, com a bocca amarga, arrependimento—e por fim não realisa uma catastrophe authentica, que a engrandeça. Curvada sobre o lar remexe sempre as mesmas cinzas frias...
Todos se defendem. Por isso existe uma certa grandeza em repetir todos os dias a mesma coisa. O homem só vive de detalhes e as manias teem uma força enorme: são ellas que nos sustentam.
Reparo melhor na vida secreta e na vida subterranea. Comprehendo como é dificil viver todos os dias e todas as horas, como atravez de tudo é forçoso seguir um fio invisivel—e ser reles e sorrir. Gasta-me uma força superior, e com todas as chagas e todos os vicios, com a vida mesquinha e a vida quotidiana, o nada, o penante usado, o fel e o vinagre, tenho de arcar com uma coisa immensa de que me separa apenas um tabique. Tudo o que faço é um arremedo. Está alli outra coisa quando falo, quando me calo, quando me rio. E falo mais alto porque a ouço mexer... Todos suportam o drama de todos os dias, o cinzento de todos os dias, as aflicções e a usura que tornam as figuras ridiculas e coçadas. Todos suportam os tratos que envelhecem e preparam para a cóva, os pequenos interesses, a inveja, a ambição, a dôr phisica. Todos os dias a Hermengarda amarga os brazões da Bibliotheca, a Bisborria todos os dias scisma na sua respeitabilidade, e aturam o azedo que pouco e pouco se deposita nas almas—e com isto uma coisa desconforme, que se levanta e deita comnosco, não se tira do nosso lado, em quem ninguem fala e com quem temos por força de cohabitar; deante de quem é forçoso ser vulgar e dissimulado, fazendo que a não vemos e com ella á cabeceira da cama...
Atraz da insignificancia andam os céos, os mundos, os vagalhões doirados. Anda o desespero. Anda o instincto feroz. Atraz disto andam as enxurradas de soes e de pedras, e os mortos mais vivos do que quando estavam vivos. Atraz do tabique e das palavras anda a Vida e a Morte e outras figuras tremendas. Atraz das palavras com que te iludes, de que te sustentas, das palavras magicas, sinto uma coisa descabelada e phrenetica, o espanto, a mixordia, a dôr, as forças monstruosas e cegas.
Em certas ocasiões, se as palavras e a insignificancia desaparecessem da vida, só ficava de pé o espanto.
Só a insignificancia nos permite viver. Sem ella já o doido que em nós prega, tinha tomado conta do mundo. A insignificancia comprime uma força desabalada.
Para não vêr, para não ouvir, é que nos curvamos sobre a mesa de jogo. Para te não ouvires a ti mesmo, para não vêres o que te gasta a todos os minutos e a todas as horas, usura immensa que não sentes e que te vae levar para o escantilhão sofrego, que te vae mergulhar no silencio profundo. Usura de todos os instantes. Gasta-nos, desgasta-nos. E todos os dias acordamos mais velhos, todos os dias acordamos mais inuteis. Todos os dias acordamos com mais fél. E todos os dias com mesuras, sem gritos de terror, nos curvamos sobre esta mesa de jogo, não vendo, fingindo que não existe, o espanto que está ao nosso lado, e o espanto peor que trazemos comnosco. Chama-se a isto o quotidiano. Isto não tem importancia nenhuma. Com isto enchemos a vida até chegar a morte. Esta mesa de jogo é a nossa existencia vulgar, a vida de todos os dias, com o galope da outra vida ao lado. Não se passa nada! Não se passa nada! No verão o calor sufoca, d'inverno a mesma nuvem impregna o granito, e apega-se, amollece, dissolve pilares das janellas, casebres e a oliveira da praça, só tronco e duas folhinhas cinzentas. Em volta um circulo de montanhas, descarnadas e atentas, espera a tragedia—e as montanhas não desistem. De quando em quando, na solidão que á noite redobra, cahem do alto da Sé as badaladas, uma a uma, pausa a pausa. O som tem um peso desconforme.
Estamos aqui todos á espera da morte! estamos aqui todos á espera da morte!
O SONHO
6 de dezembro
Chove. Cada vez vejo mais turvo, cada vez tenho mais medo. Estamos enterrados em convenções até ao pescoço: usamos as mesmas palavras, fazemos os mesmos gestos. A poeira entranhada sufoca-nos. Pega-se. Adhere. Há dias em que não distingo estes sêres da minha propria alma; há dias em que atravez das mascaras vejo outras phisionomias, e, sob a impassibilidade, dôr; há dias em que o céo e o inferno esperam e desesperam. Presinto uma vida oculta, a questão é fazel-a vir á supuração.
Esta manhã de chuva é um minuto no rodar infinito dos seculos, e os sêres que passam meras sombras. Tudo isto me pesa e pesa-me tambem não viver. Do fundo de mim mesmo protesto que a vida não é isto. A arvore cumpre, o bicho cumpre. Só eu me afundo soterrado em cinza. Terei por força de me habituar á aquiescencia e á regra? Crio cama e todos os dias sinto a usura da vida e os passos da morte mais fundo e mais perto.
—É necessario abalar os tumulos e desenterrar os mortos.
É o Gabiru que se põe a falar sem tom nem som. Um homem absurdo. Olhos magneticos de sapo. É uma parte do meu sêr que abomino, é a unica parte do meu sêr que me interessa. Ás vezes deita-me tinta nos nervos. Fala quando menos o espero. Chamo-o, não comparece. Se quero ser pratico, gesticula dentro do casaco arripiado:—A alma! a alma!—Singular philosopho! É capaz de desejar a morte para vêr o que há lá dentro; é capaz de achar vulgares até as coisas eternas. Ao lado da vida constroe outra vida. Sonha, e os seus sonhos são sempre irrealisaveis, transformam-se-lhe nas mãos em barro informe. Toda a gente se ri—já sonha outra vez... Para elle a vida consiste, encolhido e transido, em embeber-se em sonho, em desfazer-se em sonho, em atascar-se em sonho. Mezes inteiros ninguem lhe arranca palavra, dias inteiros ouço-o monologar no fundo de mim proprio. Ignora todas as realidades praticas. Na arvore vê a alma da arvore, na pedra a alma da pedra. Deforma tudo. Põe a mão e molha. Destinge sonho...
—A alma—diz elle—ao contrario do que tu supões, a alma é exterior: envolve e impregna o corpo como um fluido envolve a materia. Em certos homens a alma chega a ser visivel, a athmosphera que os rodeia toma côr. Há sêres cuja alma é uma continua exhalação: arrastam-na como um cometa ao oiro esparralhado da cauda—immensa, dorida, phrenetica. Há-os cuja alma é d'uma sensibilidade extrema: sentem em si todo o universo. D'ahi tambem simpathias e antipathias subitas quando duas almas se tocam, mesmo antes da materia comunicar. O amor não é senão a impregnação d'esses fluidos, formando uma só alma, como o odio é a repulsão d'essa nevoa sensivel. Assim é que o homem faz parte da estrella e a estrella de Deus. Nos vegetaes, nas arvores, a alma é interior, pequenina emoção, pequenina alma ingenua e humilde, que se exteriorisa em ternura a cada primavera: tocada pelo grande fluido esparso, onde andam as nossas lagrimas, vem á tona em oiro e verde, em deslumbramento. Nos mineraes, na pedra concentrada e recalcada, que dôr inconsciente, que esforço cego e mudo por não poder abalar as paredes e comunicar com a alma do universo! A pedra espera ainda dar flôr.
Para elle estas coisas ethereas são visiveis. Vê tão exactamente como eu te vejo a ti a paixão, o odio, o amor, os grandes fluidos desgrenhados d'oiro, de piedade e de genio. Há noites em que não resisto: fecho-me com elle a sete chaves. Tem-me estragado tudo. É o doido que em nós préga e nos deixa aturdidos. Ás vezes consigo afastal-o, mas succede que fico sempre com pena: se o ouvisse talvez fosse mais feliz e mais desgraçado... Desdenho-o, e sinto-lhe a falta quando o não tenho ao pé de mim. Deita-me a perder se me apanha desprevenido. Quasi sempre é elle quem manda em minha casa, e, mesmo quando falo como toda a gente fala, e quando rio como toda a gente ri, só a elle o ouço no mundo. Diz-me coisas que nunca ouvi, isola-me n'um valle apertado e scismatico, longe de toda a terra, arrasta-me, ou desespera-me. Desaparece como um cão vadio, e quando volta, com lama de todos os caminhos, folhas de todas as florestas, reflexos de todos os enxurros, vem exhausto, mudo e feliz. Vem feliz! É elle que me préga:—Toda a agitação é inutil. Não tenhas medo da desgraça!—E eu tenho medo da desgraça. Á força de habito cheguei a mantel-o no seu logar, mas nunca o pude suprimir, e quanto mais me aproximo da morte, mais saudades levo do Gabiru, que me estragou a vida toda.
Mora n'um velho pardieiro encostado á muralha, abafado d'um lado pela muralha da villa, que á noite redobra de porporções. O granito enegreceu, poliu-o a chuva, e a escadaria de pedra dá calafrios a quem entra.
—Essa alma, essa alma disforme, que vae de mundo a mundo, e que em cada sêr realiza uma primavera é que é tudo. O resto insignificancia. É ella que nos devora e faz da morte a vida e da vida a morte...
D'um lado a muralha de dentes arreganhados para o céo, do outro o sordido pardieiro, no alto a noite de luar como uma camelia gelada. Dentro d'isto sonho.
Ponho-me a olhar para elle—ponho-me a olhar para mim. Passou a vida n'aquella inutilidade, de que sae a revêr sonho, e com os côtos partidos a esvoaçar na noite dorida. Primeiro afundou-se em experiencias do laboratorio, á procura da pedra philosophal.—Ridiculo. Depois na aplicação da electricidade aos vegetaes, que se consomem de febre, que se desentranham em flôr, sem produzirem fructo.—Grotesco. Agora ninguem o arranca a infindaveis monologos cahoticos:—A morte! a morte! a morte!— Incongruencia, obscuridade e dôr tambem; a dôr de quem vem da irrealidade, encolhido e transido; a figura estranha de quem se debate com o sonho e sae da lucta esfarrapado e doirado. Se o tiram do sonho titubia e não sabe onde põe os pés. Tem as azas partidas. Comprehende então a sua inutilidade e desespera-se até reentrar na nuvem que o envolve. Puxa a si o misterio, e, entre as arvores e os fios eletricos que correm todo o quintal e ligam todas as arvores, ouço a sua voz magnetica, que impregna de sonho o luar todo branco:
—Isto é um fluido dôr, falta-me condensal-o. É uma nuvem que envolve tudo, que vem do turbilhão da Via Lactea, arrasta tudo comsigo, e ascende em espiral até Deus. Não, a sensibilidade não é individual, é universal. Basta ferir a sensibilidade, que vae dos nossos nervos até á Via Lactea, para transformar as noções do tempo, do espaço, da vida e da morte—basta deitar dentro d'um tanque uma gota de vermelho para tingir toda a agua. Deito-lhe sonho dentro...
7 de dezembro
A villa é tumular e encardida, mas oculta dentro dos seus muros um sonho desconforme. Talvez desconexo, mas desconforme. O sonho é d'elle: a propria casa de granito revê sonho. O Gabiru mistura, revolve, extrahe sonho do sonho. Debalde o que é mesquinho lhe mostra os dentes: o Gabiru não ouve, não vê, não sente. O sonho isolou-o da propria mulher transida de frio, no casarão que deu á costa como uma nau do passado, com o cavername roido pelo mar das trevas.
É um sêr quasi ethereo. Nem sei dizer se existiu, se a criei; sei que se sumiu n'um sôpro cada vez mais ephemera, com dois olhos verdes de espanto. Sei que me pegou sonho, e que fui levado, perdido, como uma coisa inerte...
Morreu transida de frio. Uma mulher palida—o que vale um passaro. Ternura e dois olhos verdes de espanto. Hesita, mal pousa os pés no chão, chora baixinho, e vae talvez acordal-o, queixar-se... Não se atreve, e esboça um sorriso logo molhado de lagrimas. Morre de frio. Agosto—morre de frio. Até para lhe sorrir se esconde, e põe-se então a olhar o muro (vou-te dizer o sitio) a falar com o muro, a queixar-se á grande nodoa de humidade da parede. Dois olhos verdes de espanto, um vestido de seda, e as meias rotas nos calcanhares. Um nada de ternura tel-a-hia salvo—ninguem o arranca áquelle sonho informe. Morta...
Ninguem. Depois que a perdeu tresvariou. Estende fios no chão entre as arvores, e as arvores, sob o fluido electrico, todo o inverno se desentranham em flôr. Pegou-lhes sonho tambem. É um desbarato, uma profusão que as devora. Absurdo. O quintalorio ao pé da muralha, que há seculos revê humidade, não é maior que um lenço; a primavera só chega aqui tarde e de mau modo, com pena das arvores de saguão. Arrepende-se logo. Já veem que o absurdo é maior ainda... Dezembro e primavera. O céo gelado, um brilho de estrellas em engastes novos, e, entre a carie das paredes, as macieiras baixinhas e humildes como exhalações de ternura. Mortas. Mortas, seccas de sonho. Mortas as arvores desfeitas em flôr.
—Este efluvio é que é tudo: a torrente de ideias e a torrente de paixões. A minha athmosphera, a alma, penetra a tua athmosphera, e dissolve-a, domina-a, conquista-a. Recua, tacteia, hesita. Mas escusas de falar para que eu te entenda. A materia muitas vezes não me deixa comprehender, mas é raro que eu não saiba logo quem tu és, e, mesmo que seja a primeira vez que te fale, as vezes que te tenho encontrado no mundo.—E logo:—A vida perdi-a a sonhar. Depois de morta é que dei com ella. Mas que importa! Acabei com a morte, vou resuscital-a. Viveremos sempre, amar-nos-hemos sempre...
A noite é d'aparato. A lua de coral sobe por traz da montanha em osso, e depois na chanfradura das ameias. Mais flôres—todos os galhos dão flôr. Sente-se, quasi se ouve, a dôr das arvores, dos sêres vegetativos, ao terem de apressar, de modificar a sua vida lenta, dispersos em ternura.
—Perdi-a, perdi a vida! Esqueci-a como esqueci tudo. Perdi-a e mais dois dias e tinha suprimido a morte!
Sob o fluido electrico o quintal tresnoita. Cae neve e abrem os primeiros botões. A arvore transforma-se n'um sêr dorido e esplendido—transforma-se em sonho—em sonho desfeito em flôr, em flores espezinhadas uma atraz das outras por camadas sucessivas. Os ramos espremidos escorrem dôr. Até as pedras deitam tinta. O quintal escorre sonho como a alma do Gabiru. Atrevem-se e acordam as coisas apodrecidas, e velhas pedras iludidas põem-se a cantar n'esse pio triste dos sapos, que sae da fealdade como uma inutil queixa de desventura. A noite concava e branca—gelada—cobre indiferentemente tudo isto. Que não cobre a noite? Quatro paredes negras, no fundo remexe o sonho. Perco tambem a noção da realidade.
—Tanta flôr!
—Para a sua cóva.—E pondo em mim os olhos atonitos:—O que é preciso é ir buscal-os ao fundo da mixordia, arrancal-os á obscuridade, juntar outra vez as boccas dispersas. Não morrer é nada: vou resuscital-os...
Imagina o negrume d'um poço—imagina dentro o espanto, e não sei que luz viva, não sei que dôr recalcada, não sei que de humilde, que quer viver apesar de dorido. Vivo, e a pata enorme que espezinha e esmigalha. Escuridão e oiro—silencio e oiro—espanto e oiro.
—Vê tu a arvore... Uma camada de flôr—um grito; outra camada de flôr—outro grito. Vê tu a arvore como se transforma n'um phantasma d'arvore, e depois em emoção!...
Suprimir a morte! É uma coisa grotesca. O sonho transborda, o luar transborda—branco e dôr—branco e sonho. Depois o silencio, depois a sua voz magnetica—depois a sombra immensa que ameaça desabar sobre nós, no quintal do tamanho d'um lenço. Desato aos gritos quando todas as roseiras, fartas de dar rosas, seccam, quando da cathedral e do silencio caem uma, duas, tres badaladas, que me apertam uma, duas, tres vezes o coração. E o Gabiru com olhos de phrenesi insiste:
—Não morrer é nada, suprimi a morte. O que é preciso é arrancar os outros ao silencio. É uma coisa simples, é uma questão de synthese.
—A morte,—afirmo-lh'o—é o repouso eterno.
—Repouso eterno, estupido! É exactamente o que está vivo, a morte. É o que está mais vivo.
10 de dezembro
Na escuridade e no silencio o sonho deita braços desconformes. Pega-se-me. Debalde lucto contra o fluido que avança para mim como uma exhalação de phrenesi e de nervos. A teia invisivel rodeia lentamente a inutilidade, a teia dissolve as almas, e fios impalpaveis apoderam-se da villa quieta e absurda onde só elle se atreve e scisma... Isto é possivel ou isto não passa d'um sonho grotesco, de mais outro sonho grotesco?
De que é feita a tibornea, o liquido viscoso, côr de sabão, com filamentos verdes, que o Gabiru com olhos de sapo revê no vidro, atravez da luz—a maior descoberta do seculo, o sôro que acaba de vez com a velhice e arreda a morte para confins ilimitados? Alguns saes, o sodium, o enxofre, o magnesio, o bromio, o carbone—e sonho. Dezasete elementos, entre os quaes a prata, o cobre, o oiro, o arsenico—e dôr. Materia, espirito e concentração. O misterio é este e mais nenhum: é exprimir como o que é espirito se transforma em materia, como a poeira se condensa, como a alma se faz corpo. Gritos, mais desespero. Contar o quê? As noites infinitas, as mãos que tentam arrancar farrapos ao manto em que o misterio se envolve e procuram retel-o quando elle se dissipa? Outra vez absorpção, outra vez o rebuscar em ti mesmo o inexplicavel, e os nervos que tendem e quebram o cerebro que doe, o lento acordar das vozes submersas, a discussão, o tumulto, e poder distinguir entre tantas boccas que falam, a unica que tem direito a falar. É d'esta obscuridade, d'esta discordancia, que emerge a ideia de suprimir a morte. Não te rias. Já t'o disse: é um sêr aparte com côtos em vez d'azas, que se agitam n'um desespero para voar. Não se contenta com esta vida nem dá por ella, mas fica sempre a meio caminho, e tão dorido que não é possivel tocar-lhe. Já t'o disse: é um sêr grotesco que põe em mim os olhos turvos e teima, insiste, repete:
—Sobre a villa, repara, paira uma athmosphera cinzenta, composta de todas as athmospheras: é a alma da villa.—E afirma cheio de convicção:—Deito-lhe sonho dentro.
Queira ou não queira faz-me scismar... Na realidade morrer é absurdo. Nunca me capacitei a serio que tivesse de morrer. Morrer é estupido. Não comprehendo a morte, e, por mais que desvie o olhar, prendo-me sempre a essa hora extrema, só essa hora me interessa... Um sêr grotesco, um unguento verde, e aquella voz aos meus ouvidos. É caricato e pega-me doirado.
E o peor é que este sonho é afinal o meu sonho e o teu sonho. Ninguem o confessa senão a si proprio. O nosso sonho é não morrer. Quando a gente se esquece a vida tem já passado. E quando a vida tem já passado é que nos agarramos com mais saudades á vida. A resignação custa muitas horas doridas em que ficamos alheados e suspensos. A morte... A morte é inevitavel?—pergunto baixinho. E como a morte é inevitavel, como não lhe posso fugir, para não perder tudo, criei a outra vida. E afinal quem sabe se este sonho que a humanidade traz comsigo desde que pôz o pé no mundo não é o maior de todos os sonhos e o unico problema fundamental?
A verdade é que teima. Não nos larga na vida e levamol-o escondido para a cóva. A verdade é que foi esta sempre a nossa maior aspiração, que há-de acabar talvez por se converter em realidade. Temos construido o universo assim, podemos construil-o de outro modo. Falta só um passo... A vida eterna admitimol-a, mas, no fundo, o que nós queremos é este sol, esta pobreza, esta dôr, estas ilusões moídas e remoídas. Deixem-nos a vida que acceitamos tudo. Aqui há, portanto, um erro primario. Protestas do fundo do teu sêr: a morte é absurda. É preciso cortar um nó que não existe. E passar do imperio do possivel para o imperio do impossivel é talvez uma questão de vontade. A vida é um acto de fé de todos os instantes. Acordo e grito:—Eu não vivi! eu não vivi!—E cada vez o meu protesto ascende mais alto. Quero tornar a viver a mesma vida aborrecida e inutil, quero recomeçar a desgraça.
Ninguem pode com semelhante peso. Não há quem possa com elle. Na solidão, a primeira coisa que procuro é a ninharia para esquecer a morte. Um minuto sós a sós com o espanto, recamado de mundos, que caminha desabaladamente no silencio, dura um seculo e outro seculo ainda. Não posso, nem tu nem eu, viver sobre o fio d'uma espada e olhar para a voragem d'um e d'outro lado; não posso arcar todos os dias com esta usura que me gasta sem mergulhar na insignificancia. E agora até a insignificancia me é impossivel. O silencio... O peor de tudo é o silencio e o que se cria no silencio, o que eu sinto que remexe no silencio...
Carrega em cima de nós tal peso que ninguem o suportava se désse por elle. É o peso do espanto.
Juntem a isto a villa comesinha, e o negrume que levanta os côtos esfarrapados, como se fosse voar, quando o padre Thimotheo dá o seu passeio habitual no pateo da Misericordia, e, na meia duzia de metros quadrados com arvores ethicas do jardim, as Souzas arrastam os vestidos, ultima moda do Grandella. Juntem a isto a grande nodoa de humidade a que ella costumava queixar-se. Juntem a isto a Morte e aquela voz de desespero cada vez mais phrenetica, que não cessa de prégar, e que me põe em frente de mim mesmo, que é o que mais temo no mundo.
—O que eu quero, é tornar a viver. A minha saudade é esta. O que eu quero é recomeçar a vida gota a gota, até nas mais pequenas coisas. Não reparei que vivia e agora é tarde. Sinto-me grotesco. Recomeçal-a nas tardes estonteadas da primavera e na alegria do instincto. Encontrei há pouco uma arvore carcomida: deixaram-na de pé, e um unico ramo ainda verde desentranhou-se em flôr... Podesse eu recomeçar a vida!—Cala-te!—Terei de confessar a mim proprio que nunca amei, que nunca fui arrastado até ao amago pelo desespero ou pela paixão e que de tal forma se me entranharam as palavras e as regras, que passei a vida a mascar palavras e regras? Terei de confessar a mim mesmo que vou para a cóva com a bocca a saber-me a vulgaridade e a pó? Antes me soubesse a fél—antes a dôr!...—Mas sonhaste, estupido!—Sonho. E o que me resta nas mãos inermes, nas mãos para que olho com espanto e terror, nas mãos de velho, senão grotesco, farrapos de grotesco, restos de grotesco, com alguma tinta em cima?... Não; viver é que é bom, viver com o instincto, como os ladrões e os bichos, os malfeitores e as féras, sem pensar, sem sonhar, sem palavras nem leis, até cahir a um canto, morto e feliz, de barriga para o ar. Isso sim! isso sim!...—Quantas conversas temos tido juntos! quantas discussões inuteis! quantos desesperos de que não há sahir, batendo com a cabeça na mesma parede! Ás vezes subjugo-o:—Cala-te! cala-te!—Ás vezes fala elle mais alto e domina-me. Rio-me de ti e impões-te-me. És ridiculo e só tu te atreves; só tu és feliz porque te atreves a dizer inconveniencias sem fé nem lei. Só tu não tens methodo, só tu te fechas a sete chaves á tua vontade, livre, feliz e despresado. No fundo invejo-te.
Aquilo incha, trasborda, como um rio que alaga tudo. Pega-se-me e molha-me. Aturde-me. É só elle que fala no mundo, cada vez mais obsecado e mais alto, com interjeições e gestos desordenados pelo meio:—Estupido!—Hei-de falar! quero falar! hei-de por força falar!—E há aqui dôr e ridiculo. Há um esgrouviado a dizer vulgaridades, e uma coisa que vem da raiz da vida n'um fremito e que me mete medo. Um bafo, e logo mil vozes que aproveitam o momento e desatam a prégar sem tom nem som.—Toda a gente se ri de ti...—Deixal-o.—Toda a gente se ri! toda a gente se ri!—Quero por força tornar a viver! hei-de por força tornar a viver! Sinto que a minha vida não termina aqui. Este sonho hei-de leval-o a cabo.
Debalde lhe aconselho calma, o Gabiru insiste:
—Entrevejo na morte um sofrimento atroz. O inferno não é uma palavra vã. É um desespero sem consciencia nem gritos. A vida não é senão uma tregua—um ah—e logo um mergulho n'esse inferno de dôr. Na dôr estreme. Eis o que é a morte: a dôr estreme, a dôr emudecida. O terror instinctivo da morte é uma advertencia. Não quero morrer e vou resuscital-os!... Viver sempre! amar sempre! sonhar sempre!—que esplendido sonho! A vida é quasi nada. Tudo que custou tanto desespero, tudo sumido n'um buraco para sempre. Ouves? Para todo o sempre. De que serviram os gritos, as lagrimas, subir, trepar, chegar ao tôpo do calvario? Para todo o sempre! Bem sei: aquillo a que me apego é impalpavel: é a mulher que passou, assomando-lhe ao focinho uma expressão de ternura, e que nunca mais tornarás a encontrar; é aquella manhã de chuva em que nos molhamos juntos (e ainda me sinto molhado) e que se não repete, é o minuto que nos escorre das mãos como um fio d'agua, mas doira-o o sol, e é esse mesmo minuto translucido que quero tornar a viver, sem a sombra da morte a meu lado. É a essa mesma ninharia que é a vida a que deito as mãos com desespero. A vida é nada—é esta côr, esta tinta, esta desgraça. É saudade e ternura. É tudo. É os meus mortos e os meus vivos. Levo pena de tudo, até da fealdade. Agarro-me a tudo, tudo me prende, o sonho que não existe, as horas inuteis, o possivel e o impossivel. A floresta não faz parte do meu sêr, e eu tenho aqui a floresta, o som e o aroma da floresta, a vida da floresta; o céo não faz parte do meu sêr, e eu sou o céo profundo, o céo tragico e o céo esplendido. Dá-me a vida—dou-te tudo em troca... Agarro-me como um naufrago, agarro-me com uma saudade, que vem não só de mim, mas de muito mais longe, da base mesmo da vida. Para sempre! para todo o sempre!—E, com um suspiro mais fundo, repete:—Suprimi a morte, vou resuscital-os!
Trago comigo um pó capaz de doirar a propria eternidade. Não sei d'onde me vem, nem porque nome lhe hei-de chamar. Todas as noites sufoco deante do negrume—elle reanima-me. Insiste deante das forças desabaladas e da imagem da morte. Quero a vida! quero-a! quero-a vulgar, tumultuaria e cega. Inerte não! inconsciente não! Tenho-lhe horror.
Se com o nosso esforço colectivo forjamos o mundo, porque deixamos a morte de pé? Criei o universo. Destaquei da massa confusa o tempo—destaquei o sonho.
Fui eu que dei valôres e perspectiva ao quadro. Fui eu que lhe entornei ilusão. Na verdade só existem côres como só existem gritos. Porque não hei-de acabal-o? É talvez uma questão de vontade. Se até para dar o primeiro passo precisamos de crêr, porque não havemos de dar o ultimo passo? Ilusão, mentira? Mas eu é que faço a verdade e a mentira. Dou-lhes o meu bafo. Deus cria-me a mim, eu crio Deus. Uma verdade pode não existir. Com uma mentira posso forjar outro mundo. Arredemos de vêz este suor frio.
A noite vem, a noite avança. Sinto os mortos. Ainda vivo, já estou em seu poder: faço parte da legião. Noite immensa sem gritos. Peor que sofrer é não sofrer—para sempre. É nunca mais sentir. É ter as orbitas vazias voltadas para o céo e n'ellas não se reflectir a luz das estrellas. Mais um passo e é o silencio absoluto. Mais um passo e tapas-me para sempre a bocca.
Não me importa ser feliz—não me importa ser desgraçado. O que me importa é o que há depois, é o que está por baixo da terra e o que está por cima da terra.
Já não lucto. E elle insiste e cada vez préga mais alto:
—Eu não vivi. Que importa, vaes morrer! Para sempre, para todo o sempre, o mesmo buraco d'onde não sae rumôr. Escuta isto: d'onde não sae rumôr. Repete isto: para todo o sempre. Nenhuma explicação te é licita, nenhuma transacção é possivel. A morte não espera nem atende. É estupida. Primeiro é estupida, depois é incomprehensivel. É tremenda porque contem em si mistificação ou belleza. Absurdo ou uma belleza com que não posso arcar. O nada ou uma coisa que a minha imaginação não atinge. Se é o misterio, e se desvenda d'um golpe, apavora-me. Se é o nada repugna-me. Apenas um minuto, e lá em cima as mesmas estrellas, e outros vagalhões de estrellas... Para ella tanto vale um segundo como um seculo, carrega um sêr inutil ou um sêr delicado com a mesma indiferença para o tumulo. Tens passado a vida a esperal-a. Que outra coisa fizeste na vida senão esperar a morte? É a tua maior preocupação. Debalde a arredamos: a vida não é senão uma constante absorpção na morte. Então para que nasci? Para vêr isto e nunca mais vêr isto? Para adivinhar um sonho maior e nunca mais sonhar? Para presentir o misterio e não desvendar o misterio? Levo dias, levo noites a habituar-me a esta ideia e não posso. Tenho-te aqui a meu lado. Nunca se cerra de todo a porta do sepulchro. Estou nas tuas mãos... Adeus sól que não te torno a vêr, e agua que te não torno a vêr. Arvores, adeus arvores que minha mãe dispôz; adeus pedra gasta pelos seus passos e que meus passos ajudaram a gastar. Para sempre! para todo o sempre! Tenho-te horror e odeio-te. Interrompes os meus calculos. És o maior dos absurdos. Vêr para não vêr, ouvir para não ouvir, viver para morrer!...
E aqui te faço uma confissão: o que mais me custa a largar é, como á cobra a pelle, a vida comesinha. Se é a vida superior é tambem o meu lume. É o ruido monotono da chuva nas vidraças. Além da alma há outra alma que se apega ás pequenas coisas, á columna d'oiro perfumada que me entra de manhã pela janella—outra alma humilde e pequenina, que se acomoda com um fio d'agua, um cantinho de lume... É a alma da materia. Não, o fim logico da vida não é morrer, é viver sempre, é ascender sempre. Até onde? Até Deus. Vou resuscital-os! Vou resuscital-os! E em elles se pondo a caminho vaes vêr doirado. A vida toma novo impulso. Desaparecendo a morte é que tu abranges a vida. Vaes vêr a côr que toma o mundo, as tintas que o mundo escorre, e as flôres que as arvores criam... Vou resuscital-os! Vou resuscital-os!...
A terra remexe. Sinto um esforço e revive o suor da desgraça; um arranco na profundidade, e todas as primaveras dispersas não tardam, uma atraz de outra, a reflorir. Há sepulchros até ao fundo do globo. De mais longe vem um impeto—são outros mortos ainda. Uma sombra desmedida, uma sombra que se despega da obscuridade, com todas as lagrimas que se choraram no mundo condensadas, vae desabar sobre nós. As suas palavras criam. O peor foi tocar-lhe! Neste debate entra agora o mundo todo. Entram as arvores e as pedras. Não há duvida para mim: quando sahir disto tenho renascido: o mundo não é o mesmo mundo, o céo o mesmo céo, a vida a mesma vida. O que existe é outra coisa doirada e immensa, esfarrapada e immensa. Põe-se a caminho outro panorama, como se todo o infinito de repente se aproximasse de nós, com os seus mundos, o seu misterio indecifrado. Põe-se a caminho a immensa floresta apodrecida, outras arvores como nunca vi arvores, e outros sêres desmedidos e phreneticos. Põe-se a caminho uma vida que há muito sentia aqui ao lado, sem me atrevêr a olhal-a. Tudo mudou de repente. Repara que o céo augmentou em profundidade. O que existe são gritos, o que existe é o espanto. O peor foi tocar-lhe...
Um remexer de treva, que até agora podémos recalcar, soltou-se da escuridão e pôz-se a caminho. Já não há esforços que a contenham... Um borrão tragico avança—outro borrão informe prepara-se. Os mortos empurram os vivos—desde profundidades desconhecidas...
Passa no mundo a estranha ventania: é a morte que custa a separar da vida. O rasto que fica atraz, a perspectiva que fica adiante foi cortada. A morte está aqui d'um lado, está do outro a vida. Tinha raizes enormes: arrancaram-lhas de vez. Agora atrevo-me a tudo. O turbilhão colerico abala o mundo, oiro e negro, esplendido e feroz. Desenraiza tudo. As almas acordam n'um sobresalto, e não há homem que se não ponha á escuta. Passa no mundo a doida ventania das nossas aspirações secretas, das nossas duvidas, dos nossos desesperos. É uma voz—são muitas vozes. É um grito—são muitos gritos.—É o grito contido há milhares d'annos, o grito dos mortos libertos.