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Idyllios á beira d'agua / Romance original cover

Idyllios á beira d'agua / Romance original

Chapter 20: XVII
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About This Book

A narrative set around a shaded riverside retreat follows a circle of characters whose conversations, recollections, and sentimental encounters unfold against woods and flowing water. The narrator frames scenes of pastoral solace, describing how nature soothes inner turmoil, and recounts meetings among relatives and acquaintances—young men facing melancholy, family negotiations about marriage, and a cleric who prompts memory-driven storytelling. Episodes alternate calm idylls with introspective prologues and modest domestic tensions, with prose that emphasizes landscape, seasonal mood, and the restorative effects of solitude and companionship.

No meio do clarão veio no throno
Cercado d’esplendor Miguel Primeiro.

João Nicolau apenas consentiu no casamento quando as instancias da esposa, estremosa pela filha, e o caracter decisivo da lucta civil não lhe permittiram resistir por mais tempo. Quando porém admittiu á sua presença o bacharel, disse-lhe de sobr’ôlho carregado:

—Pode levar minha filha, se a quizer sem dote. Não sou rico e os meus padecimentos obrigam-me a despesas constantes; não posso desviar o que tenho. Em eu morrendo, e minha mulher tambem, levem tudo, que tudo lhes pertencerá então.

Com o decorrer do tempo foi-se diminuindo a distancia respeitosa que separava sogro e genro, a ponto de João Nicolau tomar sob sua responsabilidade a educação do neto.

Postas estas explicações, voltemos ao anno de 1851 em que se passa este caso que vimos historiando.

Sebastião Valladares conservava com os seus dois amigos e correligionarios os estreitos laços d’amizade vinculados ao coração nas horas melancholicas do exilio. Almeida Garrett escrevia-lhe frequentes vezes. O bacharel, quando abria as cartas assignadas por João Baptista, costumava dizer:

—Os amigos que se adquirem na desgraça são os verdadeiros.

Manuel Rodrigues da Silva e Abreu estava a esse tempo exercendo o cargo de primeiro bibliothecario da Bibliotheca de Braga[4]. Dos tres amigos era o bacharel Valladares o menos favorecido da fortuna, mas não era o menos venturoso. Recusou sempre a protecção que os seus amigos lhe offereciam, nomeadamente Almeida Garrett. Costumava dizer o bacharel:

—Trabalho todo o dia para viver, mas adormeço á noite tranquillo, e vivo escondido do mundo. O Garrett, tanto o Garrett politico como o Garrett litterato, tem soffrido que farte. Não lhe invejo a sorte.

Tres annos depois, em 1854, expirava o reformador da litteratura portugueza; e só então, cerrado o tumulo, principiava a ser julgado como devia, no tribunal da posteridade, o que tanto merecera da patria e tamanhas injustiças colhêra na sua esplendida carreira.


XVI

O bacharel Valladares escreveu a Manuel Rodrigues da Silva e Abreu solicitando a graça de allumiar com bom conselho a estrada em que o inexperiente estudante arriscava os primeiros passos da sua mocidade.

O bibliothecario de Braga, coração sem mancha e intelligencia distinctissima, acolheu o moço com a amenidade de tracto que lhe era peculiar. Eduardo Valladares, terminadas as aulas, subia ordinariamente á bibliotheca onde o velho amigo de seu pae estava labutando em azafama continua, e sobremodo se deliciava á sombra d’aquella arvore vetusta meio tombada para o chão.

O auctor d’este livro reiteradas vezes teve a felicidade de, na sala da bibliotheca bracharense, ouvir a palavra sempre fluente e amena de Rodrigues Abreu. Infundia respeito ver levantar-se aquelle busto venerando, coberto de cans, d’entre montões de livros a que elle chamava a sua familia. Uma vez bibliothecario, empenhou-se afanosamente pela causa da bibliotheca. Não se cansou de pedir os indispensaveis melhoramentos materiaes, dos quaes o primeiro era inquestionavelmente maior espaço para a conveniente arrumação de preciosos livros que jaziam a monte. A sua voz clamou no deserto e nem a palavra auctorisada de tão respeitavel varão nem repetidos artigos da Revista Universal Lisbonense lograram obter despacho favoravel.

Como se este constante e baldado empenho não fôsse canseira de sobra, Rodrigues d’Abreu entregava-se a trabalhos de bibliotheconomia e chegou a publicar sobre este assumpto um opusculo que denominou Novidades bibliotheconomicas.

Para daguerreotyparmos o homem, que já hoje é da historia, aproveitemos os traços caracteristicos que nos offerece o sr. Soares Romeu Junior: «... Era alto de estatura, rosto claro e comprido, nariz proeminente, olhos escuros e a fronte espaçosa, coroada de alvissimas cans.»

Do escriptor diremos apenas que trasladou o Eliezer, de Florian, a versos portuguezes, dos quaes o leitor pode avaliar o sabido quilate pela apreciação que de tão notavel obra fez no Panorama[5] o sr. Alexandre Herculano.

Consagradas estas poucas linhas á memoria de Rodrigues d’Abreu, prosigamos em a nossa narrativa.

Eduardo Valladares refez o seu espirito, nas horas feriadas de canseiras amorosas, em proficua leitura que lhe ministrava Rodrigues d’Abreu. Se levantava os olhos dos livros era para os fitar na imagem radiosa que lhe flammejava auroras no coração; e como quer que os livros substanciosamente doutrinarios tenham o seu tanto de agri-doces, Eduardo repousava da leitura nas amenidades do amor.

O bibliothecario bracharense, quando escrevia ao bacharel Valladares, costumava dizer-lhe: «O teu filho é uma perola, mas receio pela felicidade d’um espirito que, em tão verdes annos, tamanhos merecimentos revela. Já que me arvoraste em medico espiritual, direi que o seu temperamento requer brandura.»

No fim do anno lectivo de 1851 a 1852, Rodrigues d’Abreu abraçou jubiloso o estudante que sahia premiado das aulas preparatorias.

Decorrido tempo, no fim de setembro de 1852, Eduardo Valladares subiu á sala da bibliotheca evidentemente sombrio, a ponto de inspirar sobresalto ao seu velho e dedicado amigo.

—Recebi ordem terminante de meu avô para me ir matricular no Seminario, e o meu coração não pode resistir ao supplicio que esta resolução lhe impõe, disse com accento melancholico Eduardo Valladares.

Na casa da rua do Carvalhal ouvia-se a esse tempo a voz atroadora de João Nicolau clamando:

—Amanhã vae o rapaz matricular-se no Seminario. Lá o Rubicon do lyceu, vencido está. Agora vamos a vêr como se sae da theologia, que sempre é coisa mais séria...

—É pois chegada a occasião de reflectires maduramente, respondia D. Maria d’Assumpção. D’esta decisão depende o futuro de teu neto, e não deves ser precipitado. É conveniente pensar.

—Já pensei e tornei a pensar. Está dito, está dito. Vae matricular-se no Seminario.

—Sondaste lhe porventura a vocação? Quem sabe se lhe repugnará o futuro que tu despoticamente lhe preparas, homem?

—Despoticamente! Essa agora é muito boa! Pois é despota quem faz um beneficio?

—Não digas beneficio. De quem ha de vir a ser tudo o que nós temos, pouco ou muito, senão d’elle ou dos paes?

—Quem sabe o que Deus fará, mulher? O que é que nós temos? Algumas propriedades em Braga e uma quinta em Vianna! Olha a riqueza! E se vier uma doença prolongada não havemos de gastar quanto fôr preciso? Lá do Sebastião tenho pena, por que não é mau rapaz, á parte o ter desembarcado em 32 com não sei quantos outros mindelleiros que vinham estropeados a ponto de mal poderem com a arma ás costas! Por isso é que mandei vir o rapazinho, e já que o pae m’o confiou posso pôr e dispôr á minha vontade.

—Reflexiona, homem de Deus, reflexiona.

—Mas que destino queres tu que se dê ao rapaz? Pensas que temos dinheiro para o mandar a Coimbra? Olha que um patrimonio fica em conta, mas uma formatura compra-se a peso d’ouro. E demais a mais fica-nos aqui debaixo da vista, e pouco será o que houvermos de gastar em livros. Está decidido. Amanhã vae matricular-se no Seminario.


XVII

Estamos em novembro de 1852.

Na alameda da Mãe d’Agua respira-se no ar balsamico a suavidade d’uma primavera perpétua.

Após dias de cerrada invernia, mostra se no formoso céo do norte este sol esplendido de Portugal, que é a delicia de nacionaes e extrangeiros.

Esperava-se por um dia alegre e sereno para remoçar o espirito, cansado da monotonia da chuva.

D. Maria d’Assumpção tinha falado n’um passeio ao Bom Jesus logo que o tempo estiasse; as meninas Machados receberam, por escripto, participação do alvitre e applaudiram-n’o sobremodo.

Lampejaram n’um domingo clarões de formosissima aurora; deu-se rebate e preparou-se alegremente o rancho.

João Nicolau subiu a montanha abordoado á sua bengala de canna da India, galhofando com ares de sincero e expansivo contentamento. Eduardo Valladares parecia, ao contrário de todos, entre concentrado e triste. O avô olhava para elle de soslaio e dizia de si para si:—«Lá vae o rapaz com a maldita poesia!»

D. Maria d’Assumpção, que de sobra conhecia as angustias do neto, pensava compadecida:—«Pobre martyr!»

Maria Luiza reprimia no coração dolorosas tempestades, e desabrochava nos labios um sorriso que daria fel bastante para muitas lagrimas.

Cêrca do meio dia, Eduardo Vallares e Maria Luiza puderam encontrar-se na Mãe d’Agua.

Foi dolorosamente triste o mudo dialogo d’uns olhos que, n’um momento de silencio, resumiram as mais pungentes expansões.

Olharam-se, e não puderam articular uma unica palavra. Decorreram alguns momentos que valiam seculos d’angustia. O filho do bacharel Valladares pôde alfim dominar a commoção que lhe estrangulava a voz na garganta.

—Esperava por este momento anciosamente, disse elle. Escrevi-te, procurei no écho da tua alma um allivio para os meus infortunios, mas escrever-te não bastava. Era preciso ver-te, ouvir-te, escutar-te. Ha dois mezes que eu abafo no coração a procella do desespêro. Oh! Dá-me um raio d’esperança para eu não morrer, dize-me ao menos que me amas para que eu tire das tuas palavras a coragem que me falta. Ha dois mezes que eu esperava a hora de poder escutar a tua voz como a alma condemnada aos tormentos do purgatorio deve esperar o momento de subir, expurgada das suas culpas, á bem-aventurança do Céo. Oh! isto é horrivel, meu Deus!

A pobre menina tremia agitada pela convulsão dos nervos, e sentia fugir-lhe a voz e a vista.

—Dilacera-me o remorso, continuou elle com violenta commoção—dilacera-me o remorso de ter acorrentado a tua alma angelica ao poste da minha desgraça. Sacrifiquei a tua alegria, a tua tranquillidade, o teu futuro, a tua vida ao egoismo do meu coração. Amar-te não bastava? Quiz tambem ser amado, e despenhei-te, anjo innocente, das paragens remançosas onde te libravas descuidosa e tranquilla. Quiz tambem ser amado e impuz á tua alma o sacrificio de exgottar o calix da amargura ao tempo que o teu amor dulcificava os filtros celestiaes que me embriagavam. Perdôa-me, oh! perdôa-me, por que o meu amor era immenso, indomavel, e eu preferia morrer, a ver desfeita a minha esperança, a ver desabar o meu sonhado paraiso...

—Se te perdôo! murmurou maviosamente Maria Luiza. Perdôa-me tu, que é por mim que tu soffres...

—Ah! interrompera a elle de golpe. Pois é certo que me perdôas? Que importa então que imponham á minha alma um futuro que ella não pode acceitar! O escravo, o humilde, o servo de gleba ha de erguer-se soberbo da riqueza da sua alma, e repellir a mão que ao mesmo tempo empresta um futuro que nos repugna e exige como hypotheca a felicidade de duas existencias consubstanciadas n’uma unica. Irei trabalhar para onde a sorte me levar; procurarei em toda a parte o que me vendiam aqui a trôco de lagrimas, mas terei no meu coração a dulcissima alegria da esperança, da esperança que me queriam roubar para me garantirem a felicidade material da vida, como se a vida sem a esperança não fôsse uma ironia cruel e deshumana! Irei, é preciso fugir...

—Fugir! fugir! Dize antes que me queres roubar a consolação de compartilhar as tuas angustias. Fugir e deixar-me sósinha, entregue á minha saudade, á minha desventura, ao meu desespêro! Dize antes...

—Cala-te, por alma do anjo que morreu beijando-te, cala-te. Peço-t’o eu.

—Fugir! E querias assim despedaçar as ternas cadeias que nos prendem um ao outro, só para alimentares no coração a esperança de reatal-as um dia?

—Perdôa-me, que eu fui cruel, porque me enlouqueceu a dôr. Não te ver, não te ouvir! E poderia eu viver? Iria morrer longe de ti, anjo do meu coração, sem ouvir na hora derradeira, á beira do meu leito, o murmurio das tuas orações...

—E depois, com que profundissimas dôres não irias despedaçar o coração estremoso de tua mãe! com que maldito tormento não irias infernar a velhice de teu pae e levar a desgraça á serenidade alegre da tua casa!

—Comprehendo a nobreza da tua alma, anjo. Agradeço-te por mim, por minha mãe, por meu pae, por Deus. Ficarei. Acceitarei resignado o sacrificio que me impõem e appellarei para a Providencia, que vela por todos os desgraçados. Juro-te que serei submisso.

—Obrigada. Pertence-me metade das tuas afflições e como poderia eu luctar com o destino se me faltasses tu a dar-me alento nas horas attribuladas da nossa commum desventura?

—E has de soffrer tu, santa do martyrio, que merecias a felicidade na terra? E hei de eu ser teu algoz, eu, que te amo até á loucura? E hei de eu ser teu algoz e sacrificar a tua alma immaculada, exigindo que soffras, que chores, que morras na lenta agonia dos desgraçados, só por que eu tambem agoniso, e choro e soffro? E não ha de Deus escutar-nos e não ha de o céo condoer-se das nossas afflicções! Oh! sinto na minha alma a labareda maldita do inferno!...


XVIII

Não tinham decerto escutado ainda mais doloroso idyllio as arvores sombrias da Mãe d’Agua.

Eduardo Valladares esperava com febril anciedade, como dissera, aquelle momento que se lhe afigurava decisivo. Durante dois mezes, apenas pudera entregar ao papel as pungentes confidencias da sua alma.

Quando, nos ultimos dias de setembro, João Nicolau de Brito o chamou á puridade para ordenar-lhe, severo e inexoravel, que immediamente fôsse abrir matricula no Seminario, escutou o submissamente, abafando no coração a tempestade revôlta que, n’aquelle momento, fibra a fibra lh’o estava despedaçando.

Sahiu da sala para correr á Bibliotheca, onde lhe ouvimos o brando queixume que o coração amigo de Rodrigues d’Abreu recolhera compadecido.

João Nicolau, matriculado Eduardo no primeiro anno do curso de theologia, jubilava com o bom rumo que os seus planos tomavam hora a hora.

Esperava talvez resistencia da parte do neto e cabalmente se enganou. Todos os dias o observava com olhos perscrutadores; via-o triste e sombrio, mas não extranhava.

Não era elle de natural melancholico?

Estas investigações quotidianas levaram-n’o a modificar as suas conjecturas. «O rapaz, dizia de si para si, acceita com boa disposição a vida ecclesiastica, esperançado talvez em alliar a poesia com o sacerdocio. E d’ahi quem sabe? Pode ser um vulto distincto em eloquencia sagrada.»

E, uma vez possuido d’esta idéa, empenhava-se pelo destino do neto, no intuito de o ver ainda prégador da Real Capella, no que n’esse tempo consistia e ainda hoje consiste a maxima distincção com que podem ser galardoados os oradores sagrados portuguezes.

Já é incentivo!

João Nicolau não curava de razoar sobre a mesquinhez ou exorbitancia do galardão, nem cuidava de tirar a limpo que proventos e honras importava. N’isto se assemelhava com os mil e um pretendentes que sollicitam mercês honrosas actualmente; querem a venera seja qual fôr e custe o que custar. Com João Nicolau acontecia exactamente o mesmo. Firme no seu designio, declarou solemnemente á mulher e ao neto a suspensão temporaria de visitas com o proposito de não distrahir o espirito do futuro prégador da Real Capella. Queria-lhe parecer que esta medida de segurança attingia dois fins egualmente appeteciveis:

Primo: Concentrar a attenção do novel seminarista nas materias theologicas.

Secundo: Afastar cuidadosamente as distracções mundanas, que não só prejudicariam a regularidade do estudo mas até insinuariam na alma do neto philtros que não devem perturbar o espirito d’um sacerdote.

D. Maria d’Assumpção andava sobremodo condoída das angustias do pobre Eduardo. Vira nascer a chamma do amor e confiava na brevidade com que usam levantar-se e morrer labaredas em corações que desabrocham.

Era este o segredo da sua medicina. O amor passageiro dos dezeseis annos esperava ella que fôsse antidoto efficaz ás asperezas d’uma vida nova, e sobremodo aborrecida, em que o neto ia entrar.

O que porém não pensou aquella boa alma foi que poderia tornar-se incendio o que se lhe afigurava chamma e que o coração dos dezeseis annos, como o coração de todas as edades, tanto procura o sol para aquecer-se n’uma hora de desconfôrto como para inflammar-se n’um momento de febril anciedade.

Em Eduardo Valladares o amor não era devaneio; era a paixão intensa, a paixão que perde ou que salva.

Estão-me agora cahindo dos bicos da penna uns certos dizeres de D. Francisco Manuel, que veem de geito: «Persuado-me que esta cousa a que o mundo chama amor, não é só uma cousa, porém muitas com um proprio nome. Poderá bem ser, que por isto os antigos fingissem haver tantos amores no mundo, a que davam diversos nascimentos; e tambem pode ser venha d’aqui, que ao amor chamamos amores: pois se elle fôra um só, grande impropriedade fôra esta. Eu considero dois amores entre a gente. O primeiro é aquelle commum affecto com que, sem mais causa que sua propria violencia, nos movemos a amar, não sabendo o que, nem por que amamos. O segundo é aquelle, com que proseguimos em amar o que tratamos, e conhecemos.»

Eduardo Valladares amava Maria Luiza antes de a vêr. Em horas de dulcissimos arroubos creara a sua phantasia uma visão aerea, formada de perfumes e de estrellas, meio anjo meio mulher, meio do céo meio da terra... Este era o primeiro amor de que fala D. Francisco Manuel, o amor do ignoto e do intangivel. Depois, um dia, por acaso, encontrara a consubstanciação de todas essas particulas aereas, deixem-me assim dizer, encontrára na terra a realidade dos seus sonhos queridos e absorvera n’aquelle sentimento impetuoso toda a vida de que uma organisação extremamente delicada pode dispor.

Para aquella alma ardente e sonhadora o amor não podia ter a serenidade das estrellas n’uma noite d’estio: devia de ser violento como as convulsões do vulcão que levanta ao céo as lavas encandescentes.

D. Maria d’Assumpção enganava-se pois, como todas as almas que nasceram, dedicadas e boas, para o remanso dos affectos vulgares.

Rodrigues d’Abreu, coração aquecido ao fogo da poesia posto que duramente provado pelas amarguras do mundo real, Rodrigues d’Abreu é que se não enganava assim, nem se deixava cegar pela tranquillidade apparente do filho do bacharel.

O bibliothecario de Braga, que tinha tanto de poeta como de christão, andava sobremodo inquieto com os soffrimentos d’aquella alma cujos soffrimentos devassava. Lembrou-se de escrever a Sebastião Valladares com a rude franqueza de homens que choraram juntos as lagrimas do exilio. Escrever-lhe seria, porém, mostrar ao pae a profundidade do abysmo em que se debatia a alma do filho. Este alvitre rejeitou-o o honrado bibliothecario por demasiadamente impiedoso e cruel.

Rodrigues d’Abreu bem comprehendera que Eduardo Valladares amava, e sabia que era coagido a seguir a carreira ecclesiastica. Não bastava todavia comprehender e saber isto; era preciso mais.

Era preciso ao medico espiritual ouvir a exposição circumstanciada do doente. Receava porém provocar as labaredas do incendio latente, e este receio acobardava-o. Mas como deixaria consumir-se lentamente aquella alma cuja pureza aquilatara tantas vezes, elle, que era bom, dedicado e nobre? O velho bibliothecario, n’essas horas de attribulada incerteza, pedia ao Céo a luz da inspiração.


XIX

Rodrigues d’Abreu costumava abraçar-se, quando a sua alma carecia de confôrto, ao esteio d’um coração amigo, que era urna de balsamos para todas as afflicções.

Frei Domingos do Amor-Divino, o conselheiro, o arrimo, o cyreneu do bibliothecario bracharense, tinha purificado o seu coração nas asperezas da disciplina conventual, nas tribulações da miseria e nas lagrimas choradas na solidão, deante d’um crucifixo.

Carmelita descalço, foi sempre modêlo e exemplo nos cargos que teve de exercer em hospicios differentes por decisão do definitorio geral da sua ordem.

Na rigorosa observancia do regimen monastico e na prática constante da virtude lentamente se mundificara a alma do religioso carmelita, já de natural propensa ao bem.

O convento foi-lhe sempre chrysol desde que solemnemente professou no convento de Nossa Senhora dos Remedios, em Lisboa, até que, silencioso e compungido, sahira com o resto da communidade do convento do Carmo de Braga, dizendo para sempre adeus á casa que lhe devia ser tumulo.

Nunca Frei Domingos do Amor-Divino se entrincheirou com as reixas do mosteiro para, a coberto de perseguições, accender odios partidarios e soprar injurias a qualquer das duas facções que por longo tempo se degladiaram em accêsa lucta civil.

Não lhe ouviram nunca razoamento, nem sequer monosyllabo, que denunciasse o rumo das suas inclinações politicas.

Quando chegava ás cellas do convento um echo das tempestades exteriores, costumava dizer Frei Domingos do Amor-Divino:

—Não curemos de profundar essas negruras. A porta que se fechou sobre nós é uma como barreira que nos separa das desgraças que pesam sobre Portugal. Que o espirito do Senhor desça sobre nós e seja comnosco, irmãos.

Retumbou finalmente aos ouvidos do carmelita um como trovão que parecia abalar os alicerces do convento: era a voz de debandada que se repercutia ao mesmo tempo no seio de todos as ordens religiosas de Portugal. Frei Domingos do Amor-Divino cruzou com os seus confrades um olhar afogado em lagrimas e desceu á claustra para se despedir da lage sob a qual esperava dormir o somno eterno. N’esse momento, voltavam umas andorinhas que tinham fabricado o ninho no friso da crasta.

Foi dilacerante aquelle lance. As andorinhas, ficavam e a communidade... sahia.

Frei Domingos do Amor-Divino foi um dos religiosos portuguezes que emmudeceram na sua dôr, e procuraram na solidão o refugio que não podiam encontrar em qualquer outra parte.

Dissolvida a grande familia monastica portugueza e serenadas as tormentas politicas que mergulharam em rios de sangue as decantadas boninas das varzeas de Portugal, Frei Domingos do Amor-Divino assentou residencia em Braga.

—Quero vêr a toda a hora o ninho das andorinhas, dizia elle referindo-se ao convento do Carmo. Ali lhes escutei o alegre chilrear e alli esperava morrer com ellas. O meu coração precisa d’este consôlo.

Sua grande affeição á casa onde tinha vivido, esquecido do mundo, levou o a escolher cubiculo d’onde ao menos pudesse espreitar as torres do seu convento. Recolheu se Frei Domingos a uma pobre mansarda da rua do Carvalhal e ahi viveu a vida angustiada da miseria e da solidão. Muitas pessoas, que ajoelharam a seus pés com o coração requeimado, levantaram se do confessionario com os olhos marejados de lagrimas.

Isto diz-se para até certo ponto se explicar o respeito com que os vizinhos o olhavam e cumprimentavam quando sahia e entrava.

João Nicolau, se acertava vêl-o, dizia ordinariamente:

—Ó mulher, estes pobresinhos dos frades, sem casa e sem pão, fazem realmente despedaçar a alma a quem os vê. E olha como o nosso vizinho vive resignado, que até se lhe rie o semblante! Deus perdôe a quem...

E deixava quasi sempre a phrase incompleta para não evocar recordações pungentes que tinha recalcadas no coração.

Um dia uma viuva desvalida, mãe de quatro filhos, ajoelhou supplicante aos pés de Frei Domingos.

O virtuoso carmelita levantou-a compassivo e disse-lhe:

—Se na minha mão estivesse remediar a vossa miseria, remediada estava. Não desanimemos porém. «Pedi e dar-se-vos-ha, buscae e achareis, batei e abrir-se-vos-ha» disse o Divino Mestre no sermão da Montanha. Sigamos pois o conselho de quem nol-o podia dar.

E foi-se de porta em porta, seguido da viuva e das creancinhas, esmolando para a mãe e para os filhos.

Rodrigues d’Abreu foi um dos não muitos corações que se enterneceram a lagrimas deante d’aquelle edificante e extranho espectaculo. Desde então nunca na alma do bibliothecario bracharense passava uma dôr intima, que elle não fôsse desafogal-a no coração de Frei Domingos do Amor-Divino.

A sorte desventurosa do filho do bacharel Valladares trazia trabalhado de crueis angustias o espirito do bibliothecario bracharense. Foi pois n’umas das horas de doloroso cogitar a tal respeito, que na alma de Rodrigues d’Abreu passou um lampejo d’esperança, ao lembrar-se do muito que podia fazer, em tão apertado caso, Frei Domingos do Amor-Divino.

Não hesitou um momento. Tinha pedido ao Céo a luz da inspiração e á conta d’inspiração celeste tomara elle o pensamento que o impellia para o religioso carmelita.

Foi procural-o, falou-lhe, desdobrou-lhe o quadro das afflicções que eram d’outrem e que sentia como suas. Frei Domingos attendeu-o e escutou-o humilde e compassivo, respondendo finalmente:

—É grave e trabalhoso demover o proposito d’um ánimo resoluto. Operemos e esperemos todavia. Deus autem noster in cælo; omnia quæ cumque voluit, fecit.[6]

Depois que Rodrigues d’Abreu sahiu do cubiculo da rua do Carvalhal, Frei Domingos do Amor-Divino ajoelhou-se deante do seu crucifixo invocando as graças do Céo. Durante a oração illuminou-se-lhe o espirito, e quando o carmelita se levantou, tinha já traçado o plano da obra espinhosa que tomara sobre si, esperançado no auxilio divino, como revelam estas palavras que murmurara ao oscular o crucifixo:

In tribulatione mea invocavi Dominum, et ad Deum meum clamavi.[7]

Depois desceu as escadas com extranhavel vigor, atravessou a rua e aldravou á porta de João Nicolau de Brito.


XX

Eduardo Valladares e Maria Luiza, na impossibilidade de fallar-se, viam-se apenas. Triste correspondencia era essa escripta com lagrimas de dois corações que se deviam estar inflorando, n’aquella sazão, em jubilosas primaveras. Não acontecia assim, porém.

As cartas de Maria Luiza principiavam por palavras de resignação e fechavam com outras d’esperança; as de Eduardo Valladares tinham longo prefacio de desalentos e terminavam com assomos de mal contido desespêro.

Demoremo-nos um momento a medir a profundeza de dois abysmos.

Maria Luiza, alma que se desatara em perfumes e amores ao sôpro virginal do primeiro affecto, conhecia de sobra os despenhadeiros que lhe estava cavando um amor desventuroso, e resignadamente se deixaria despenhar só para não arrastar na queda outra alma que vivia sob o influxo d’uma estrella commum.

Por isso, com o coração despedaçado, aconselhava a medicina da resignação e deixava entrever diluculos d’esperança através de uma chuva de lagrimas que não podia reprimir.

Os vestigios das lagrimas choradas desvelariam a um espirito desassombrado o segredo que o coração de Maria Luiza com tamanho empenho recatava; bastariam para eloquentemente denunciar os soffrimentos crueis que ella procurava dissimular trocando em flores o orvalho dos seus olhos.

Eduardo Valladares, moralmente sobreexcitado, lia as cartas e, diga-se a verdade, encontrava n’ellas um como refrigerio ministrado por mão do anjo da guarda; por momentos se tranquillisava com as esperanças a que o estava convidando o ánimo apparentemente tranquillo de Maria Luiza.

Durava apenas momentos, como dissemos, a acção benefica da leitura. Após aquelle instantaneo repouso, rugiam de novo as mesmas tempestades e era então o revolver se no mesmo leito de Procusto, em desesperadora ancia. O que elle claramente via n’esses angustiosos momentos era o infernal dilemna que comprimia a sua vida entre dois estiletes rubros de fogo maldito:—Succumbir ou rebellar se.

Succumbir era amortalhar se na batina do sacerdote; dilacerar o coração, dia a dia, hora a hora; despenhar em abysmo insondavel as mais formosas visões do céo da sua mocidade; separar-se d’ella, da mulher adorada, para nunca mais aspirar o perfume dos seus labios, e não só separar-se mas tambem infelicital-a; e depois passar sereno e tranquillo, aconselhando esperança, por entre os que se ajoelhassem para beijar-lhe a fimbria da batina. Rebellar-se era ter de fugir, levando para toda a parte o remorso de haver envenenado a tranquillidade do lar paterno; era ter de abandonar o anjo que na linguagem dulcissima do Céo lhe pedia que ficasse; era dar á sociedade o direito de insultar as suas dores mais santas; era finalmente faltar á promessa, que fizera, de esperar resignado o momento em que chovesse do Céo o refrigerio que só o Céo podia ministrar em tão difficil conjunctura.

Ficou pois; como havia promettido.

Approximam-se as férias do Natal de 1852 e Eduardo Valladares denunciou vontade de não vir ao Porto, pretextando trabalhos escholares, especialmente o de redigir duas dissertações.

É que se não via com a coragem precisa para abeirar-se de sua mãe sem revelar os segredos que lhe corroíam o coração, sem lhe dizer que tudo quanto parecia sujeição voluntaria era sacrificio de victima impotente, e sem lhe attribular para sempre as horas que á boa senhora corriam remançosas ao lado do marido.

Em meado de dezembro, n’uma quinta-feira que amanhecia radiosa como para descoalhar as neves que alvejavam nas agulhas das serranias, especialmente no Gerez, Eduardo Valladares deixou-se ir, de rua em rua, absorto nos pensamentos que lhe preoccupavam o espirito.

Ao desemboccar no Campo de Sant’anna, sahiu-lhe ao encontro um seminarista seu condiscipulo, um tal Mendonça, natural de Guimarães, talento contubernal de homens devassos nos alcouces bracharenses, brigão de emboscadas nocturnas, que seguia a carreira ecclesiastica para acobertar com a batina as ulceras d’uma alma devastada pelo vicio.

A approximação d’este sujeito façanhoso, que apregoava, chanceando-se, as repugnantes aventuras de sua chronica, entediava sobremodo Eduardo Valladares, o qual pensava, ao vêl-o, na maneira por que a sociedade costuma encarar o padre que sacrifica a propria felicidade aos pés de Deus, e o padre cujos dedos empeçonhados da lepra do crime devem macular a alvura do amicto.

Eduardo Valladares pensava n’isto e conhecia que a sociedade não levantava entre um e outro barreira que pudesse distancial-os, para que a lama, levantada na passagem do mau padre, não fôsse salpicar a face do sacerdote exemplar.

Esta distancia conservava-a Eduardo Valladares no seu espirito, que é unicamente onde se pode distinguir vicio e virtude quando é uso confundil-os e tomal-os um pelo outro só para se não castigar o vicio nem premiar a virtude.

N’aquella dolorosa introversão do seu espirito, via se Eduardo Valladares já sacerdote, offerecendo todos os dias a Deus no calix do sacrificio a vida que lentamente lhe arrancavam e, como se isto não fôsse provação de sobra, via-se tambem exposto aos chascos da sociedade que insulta um raro exemplo de virtude, quando elle apparece, por estar habituada a encontrar a torpeza, a cada hora, nas praças como nos templos.

Corroendo a arvore sacrosanta do evangelho, regada pelo suor dos virtuosos cultores e mimosa dos cuidados d’elles, descobria o ominoso áspide, o verme da reacção, que contramina a obra piedosa e envenena com a baba immunda os fructos que puderam ser opimos, damnificando a colheita. Quando apparece o modêlo das verdadeiras virtudes evangelicas, quando surge, de longe a longe, um Frei Domingos do Amor-Divino, a sociedade, na maxima parte, repelle-o e vitupera-o e apedreja-o irreverentemente.

No dia em que o religioso carmelita sahira a mendigar de porta em porta para a viuva e para os quatro orphãos, não muitos, como já dissemos, foram os corações que se abriram ao benefico influxo d’aquelle espectaculo edificante. Muitos o repelliram com desamor e remoques d’esta laia:

—Que peça para um, que já não é pouco. A gente não tem obrigação de sustentar as familias dos frades pobres e devassos...

E Frei Domingos sahia, com a sua velhice e com a sua humildade, chamando mentalmente o medico divino para o coração empedrenido.

O seminarista de Guimarães abeirou se de Eduardo Valladares com rude familiaridade:

—Ó homem! estava longe de te encontrar aqui! Tão recatado vives, que não ha pôr-te a vista senão á hora da aula! Ora dize-me uma coisa. Tu levas isto a sério ou usas de santimónias de Tartufo?

O filho do bacharel fitou com admiração o de Guimarães e ponderou entre delicado e digno:

—Não comprehendo, como desejava, a referencia da palavra isto. Tens a bondade de m’a explicar?

—Isto, replicou Mendonça desfechando uma gargalhada, isto, é a alienação do direito de ser homem, que a sociedade nos quer impor, a nós, os que seguimos a vida ecclesiastica; isto, é a investidura ridicula da batina; isto, é a tonsura com que nos cerceiam os cabellos emparelhando-nos aos scelerados que estigmatisavam nos logares publicos; isto, é este assentamento de praça na milicia sagrada, que não pode deixar de ter as liberdades de todas as milicias...

—E isso, o que tu disseste, replicou Eduardo Valladares, é a linguagem desbragada do soldado que veste as armas, não para militar pela causa que jurou, mas unicamente para ter direito á pilhagem...

—Santimónias de Tartufo, bem dizia eu! Olha que nem tu nem eu havemos d’enriquecer com a pilhagem. E d’ahi, pode ser que tu chegues a fazer casa... Quantas missas tencionas dizer por dia?

Eduardo Valladares ia denunciar o asco que lhe estava causando aquelle falar licencioso, quando um maltrapilho, que passava, bateu familiarmente no hombro de Mendonça e apostrophou:

—Ó homem! eu dormi quatro horas e tu não havias de dormir muitas mais! Perdi tudo... A sorte negou-se, e deixou-me a tinir!

Eduardo Valladares foi seguindo seu caminho, sobremodo entendia da approximação d’aquelle repulsivo caracter. O de Guimarães e o maltrapilho ficaram conversando e revendo provavelmente as paginas ascorosas da historia d’uma noite passada em qualquer espelunca de jôgo.

O filho do bacharel foi seguindo sempre pelo Campo de Sant’Anna adeante e, transposta a egreja de S. Victor, sentou-se no caminho desfrequentado a olhar para o arvoredo que ao de leve ondulava na encosta do Bom Jesus. Ahi, n’esse cogitar em si mesmo, passou duas horas que tanto tiveram de tribulação como de doçura. N’aquelle seu ermar havia um misto d’esperança e desespêro, que praza a Deus que os que hoje se julgam felizes nunca possam comprehender.

O leitor, que se defrontou já com o perfil respeitavel de Frei Domingos do Amor-Divino, ponha os olhos no reverso da medalha, n’este seminarista de Guimarães, que já cem vezes ou mais deve ter levantado com mãos impuras o calix que Frei Domingos offerecia a Deus todos os dias, e depois volte a pagina e leia o capitulo seguinte para restituir á sua alma as doçuras religiosas que os labios de nossa mãe coáram aos nossos ouvidos quando nos ensinaram as primeiras orações.


XXI

João Nicolau vinha, com uma braçada de flores, de jardinar nos seus canteiros, quando ouviu bater á porta. Foi elle mesmo abrir e entre admirado e contente se mostrou ao dar de rosto com Frei Domingos do Amor-Divino. Não teve mão em si que, ao conduzir para a sala o carmelita, não fôsse gritando com alegre alvoroço:

—Anda cá, Maria, anda cá. Está aqui o nosso vizinho Frei Domingos; não te demores, anda de pressa...

D. Maria d’Assumpção acudiu pressurosa ao clamoroso chamamento e, quando encarou no marido que embraçava ainda as flores, pediu desculpa após desculpa de tão descerimoniosa recepção.

Frei Domingos respondeu com jovialidade:

—Com flores me receberam; não pode haver mais galhardo acolhimento. O snr. João Nicolau está-me fazendo recordar agora d’uma passagem de Salomão. Ora lá vae e tenham paciencia; isto é veso incuravel de frade velho: «Desci ao jardim das nogueiras para vêr os pomos dos valles e para examinar se a vinha tinha lançado flor e se as romãs tinham brotado». Foi o sr. João Nicolau vêr as flores do seu jardim e mimosas as encontrou, a julgar pelas que trouxe. Não ha, pois, razão para desculpas e não falemos mais n’isso.

—Ó sr. Frei Domingos, replicou João Nicolau, nunca eu desço ao quintal que não sinta um peso na alma ao deitar os olhos para as torres do Carmo. Ai que tristes recordações!...

—Não podes falar n’outra coisa! atalhou D. Maria d’Assumpção.

—Não me molesta, antes me consola o assumpto, respondeu Frei Domingos. É sempre doce para o coração d’um filho ouvir falar da casa paterna; e tanto eu quero ainda áquelle tecto, que me fiquei por aqui para o estar namorando a toda a hora...

—Perseguirem os frades! regougou João Nicolau. Que mal lhes faziam? Não houve delicto de que os não accusassem!...

—Não sejamos tão severos, não sejamos. Nos conventos, como em todas as sociedades, havia trigo e joio.

—Isso assim é, acudiu João Nicolau. Lá diz o que escreveu Os frades julgados no tribunal da razão[8], curioso livrinho que tenho alli, lá diz elle: «A primeira familia do mundo teve um Caim».

—Bem disse o auctor e com verdade falou. No convento havia homens e por tal razão idéas e sentimentos diversos. Mas entre tantas cabeças e tantos corações alguma cabeça haveria que pensasse reflectidamente, algum coração haveria propenso ao bem e ao justo. A obra d’esse varão aproveitaria ao mundo. Muito melhor o diz o livro sagrado: «Pequena é a abelha entre os animaes volateis, e com tudo isso logra o seu fructo a primazia da doçura»[9].

D. Maria d’Assumpção escutava enlevada e ao mesmo tempo compadecida das angustias do frade.

—Tudo quanto havia de bom, fora e dentro dos conventos, tudo a guerra nos levou, ponderou João Nicolau. Perderam-se vidas, correram rios de sangue, consumiu-se, matou-se, espoliou-se... As consequencias fôram tristes como os factos.

—Sou extranho a tudo o que respeita a politica; no convento desconheci-a sempre; fora do convento egualmente a desconheço.

—Ler a historia da guerra civil, disse João Nicolau, é doloroso; feliz quem se puder forrar a semelhante leitura.

—D’essa historia, respondeu Frei Domingos, sei apenas que o sr. D. Pedro era um principe portuguez, que já morreu e que o sr. D. Miguel, seu irmão, é outro principe que vive em terra extranha.

—Pobre e saudoso, elle, o sr. rei, o rei legitimo, como provou José Agostinho, como provou Frei Matheus da Assumpção, e como provaram tantos outros!

—Pobre e saudoso se me afigura que deve viver. Mas, exclamou Frei Domingos com ar prazenteiro, fechemos as chronicas nacionaes que estão ainda a rever sangue. É tempo de expor o motivo que me levou a entrar na casa desconhecida...

—Muito prazer nos deu a sua visita, sr. Frei Domingos, apostrophou D. Maria d’Assumpção.

—Não sabe quanto me apraz relacionarmo-nos! accrescentou João Nicolau. Espero que continuará a dar-nos o gosto de o vermos e ouvirmos. E depois tenho cá um meu neto que anda no Seminario e que precisa de pedir sombra a boa arvore. O sr. Frei Domingos sei eu que não se recusa a uma obra piedosa.

—Nada sou e nada valho. Se não é molesta a minha presença, virei. Não ha melhor asylo do que o aposento do varão honesto e honrado. Ah! mas reatando a conversa... Costumam alguns corações piedosos encarregar-me, n’esta grandissima festa do Nascimento, de distribuir esmolas por pessoas realmente carecidas. Sempre é bom prevenir, e mais sabem tres do que um. Não tem o snr. João Nicolau pessoa de suas relações que se veja em estado d’acceitar a moeda abençoada da caridade?

—Oh! sr. Frei Domingos! A sua lembrança penhora-nos! exclamou D. Maria d’Assumpção. Temos, sim, senhor. A Joaquina, que fez em tempo os recados da nossa casa, está pobre e entrévada ha dois annos e, se lhe não valesse o auxilio da caridade, já teria morrido de doença e miseria.

—É verdade, a Joaquina! bem empregada esmola! confirmou João Nicolau.

—Pois esperemos o Natal, e da colheita repartiremos pela entrevada Joaquina, perorou Frei Domingos, levantando-se para sahir.

Á despedida, João Nicolau e D. Maria d’Assumpção reiteraram instancias que demovessem o frade a prometter nova visita e, quando elle transpunha o limiar, ficaram ambos dizendo:

—Frei Domingos é uma santa alma!

As mesmo tempo ia monologando o carmelita:

Dominus Deus auxiliator meus[10]. Deus me guiará pelo caminho appetecido.


XXII

—Temos passado as férias,—disse D. Maria d’Assumpção a João Nicolau, sem darmos um unico passeio! Eu acho que já estou trôpega. Nada! É preciso aproveitar estes dois dias. Em se abrindo as aulas, começa a gente a cabecear com somno como se a casa fôsse de ermitões. E agora, que são férias, parece que tambem era prohibido falar em passeios para não distrahir o nosso estudante!...

—Ó mulher! tu não tens lembrado... Eu estou por tudo.

—Pois não vês que este rapaz, de genio triste, não pode supportar semelhante viver de velhos?

—Olha que é preciso educal-o para a vida que ha de levar. A vida do bom sacerdote deve ser a vida do descanso e da meditação... Põe os olhos em Frei Domingos...

—Pois quando elle fôr padre, falaremos. Guiemol-o por bom caminho, mas não o opprimamos. A oppressão dá causa, por via de regra, á reacção.

—Reagir, elle! Não se reage contra as proprias inclinações. Em tempo pareceu-me que era avesso á carreira ecclesiastica. Hoje estou completamente convencido de que sonha com as glorias do pulpito e com o renome conquistado pelas suas homilias futuras. É que o chama para alli o coração, e esta coincidencia de encontrar o animo do Eduardo affeiçoado á minha vontade, só a Deus a posso agradecer. Por isso, para satisfazer aos deveres que me aconselha a consciencia, é que já lhe comprei outro dia os sermões do Padre Antonio Vieira...

—Por mais audaciosas que sejam as aspirações do rapaz, por maior que seja a sua tendencia para a vida ecclesiastica, sempre te direi que a leitura de sermonarios deve ser muito indigesta para um espirito de dezesete annos.

—Sim! hei de talvez dar a ler essa praga de romances, que se introduziu em Portugal ha poucos annos, a um rapaz que eu educo para ser um padre digno dos respeitos da sociedade! Que mau padre não o quero eu. Prefiro vel-o morrer. Frei Domingos é o typo que eu escolho como padrão do bom clerigo.

—Ora essa! Pois tu imaginas que ha muitos Frei Domingos?! Uma alma assim manda-a Deus á terra para allivio dos infelizes.

—Não digo que seja egual, que eu sou o primeiro a reconhecer em Frei Domingos virtudes excepcionaes. Ninguem tem por elle mais respeito e mais dedicação do que eu. Quero porém que o exemplo do nosso vizinho aproveite á sociedade; bem sabes que deve ser de bençãos a sombra d’aquella arvore veneranda.

—Disseste «sociedade» e querias referir-te ao Eduardo. Percebi a tua intenção. Pois se tu dissesses a Frei Domingos: «Tenho aqui encarcerado a sete chaves este rapaz de dezesete annos, só para que não se acalente ao sol do mundo» verias como elle te havia de responder: «Deixe-o entregue ás alegrias castas da sua idade, e não opprima o coração delicado.»

—Ó mulher! pois eu opponho-me? Valha-me Deus! Passeiemos. Já agora encarreiramos para o Bom Jesus. Pois vamos lá; e se queres ir para outro sitio, dize.

—Vamos ao Bom Jesus que é mais commodo e menos dispendioso. Vamos lá depois d’amanhã passar o dia. Visto que está em costume, mando dizer ás Machados.

—Pois manda. Depois não me chames ermitão...

D. Maria d’Assumpção vingára o seu proposito. O que ella queria era alliviar por um momento as sombras espessas que ennoiteciam dia a dia, cada vez mais, a alma do neto. Tanto lhe bastava, e para isso era preciso não dissipar as illusões do marido, o que seria o mesmo que fazer subitamente estalar uma tempestade. João Nicolau, inimigo figadal do romantismo, andava acumulando de velharias mysticas a estante de Eduardo.

A pobre senhora conhecia a inconveniencia, mas nem se oppunha, nem sequer mostrava desagrado. Esperava em Deus. Era para o Céo que ella appellava na impossibilidade de suster a marcha de acontecimentos a que era contraria.

A antipathia de João Nicolau pelo romantismo, aquelle odio explosivo votado ao romance tal qual o architectára Garrett no Arco de Sant’Anna e principalmente na historia da Joanninha das Viagens, póde explicar se ainda pela cega dedicação a José Agostinho de Macedo e á seita litteraria seguida pelo auctor da Viagem extatica.

Tudo o que não fosse a declamação emphatica vasada nos velhos moldes aristotelicos, era somenos para João Nicolau. Bem se lembrava elle de que o seu auctor favorito escrevera: «Depois da praga gazetal o romancismo é a peste litteraria, que mais tem grassado por toda a Europa. Assim que W. Scott, e o Byron em Inglaterra, e em França seus macaquinhos, Lamartine, d’Arlincourt, Victor Hugo e outros de igual jaez publicaram seus monstruosos delirios, logo houve em Portugal quem os imitasse.» Estas palavras, e as mais que se seguem, e não nos permittimos transcrever, acepilhadas de quejandas blasphemias, eram doutrina corrente e moente para o velho absolutista.

D’aqui, e da esperança de vêr o neto prégador da real capella, provinham as frequentes compras de sermonarios e chronicas milagreiras para a estante, dia a dia enriquecida, do filho do bacharel.

No quarto de Eduardo Valladares havia, porem, um livro não recheado de erudição fradesca nem modelado pelos velhos paradigmas litterarios. Esse era o livro querido, o livro sempre lido, sempre veneno e sempre balsamo: era o Eurico, do sr. Alexandre Herculano. João Nicolau, indifferente senão adverso aos applausos que esta obra notavel despertara, suppunha o neto, por via de regra, absorvido em leituras devotas, á hora em que elle aliás estava vendo a sua alma no espelho em que se projectava o perfil do presbytero de Carteia.

Não era Eurico um desgraçado como elle ou elle um desgraçado como Eurico?

Ambos amavam, ambos soffriam, ambos choravam, e ambos podiam perguntar a si mesmos: «Que fôra a vida se n’ella não houvera lagrimas?»[11]

A viuva Machado, convidada de vespera para tomar parte no passeio ao Bom Jesus, respondeu que gostosamente iria se, d’um dia para o outro, se não aggravassem uns leves incómmodos que todavia a não deixavam sahir. D. Maria d’Assumpção ficou muito contrariada, mas não era conveniente transferir o passeio, e foi.

Eduardo Valadares chegou á floresta do Bom Jesus com o coração despedaçado. Era a primeira vez que alli entrava sem Maria Luiza, e a folhagem verde da encosta, quando elle passava, parecia murmurar este nome; d’aqui o olhar para si mesmo e fugir apavorado da solidão dolorosa da sua alma. Mas o que era isto, esta saudade ao mesmo tempo suavisada pelas doces recordações que lhe eram socias, o que era esta triste solidão a par da solidão perpetua a que a sua alma se via condemnada; das infinitas dores curtidas nas longas horas das noites de vigilia, das lagrimas choradas, das esperanças para sempre perdidas, das lacerantes recordações que elle em vão tentaria abafar, e que de si mesmas resurgiriam, umas após outras, no espirito do presbytero?

Insensivelmente foi procurando o trilho da Mãe d’agua; ia-o guiando o coração, sem que elle désse por isso.

Era aquella a mesma alameda, aquella a mesma cupula de verdura, o mesmo cedro em cujo cortix entalhara as iniciaes M. L., o mesmo ar cheio de murmurios, a mesma corrente suspirosa, a mesma sombra e a mesma suavidade. Mas faltava ella, a doce companheira, a visão formosa d’aquella tão doce estancia, e a solidão era triste, pesada, esmagadora.

Um livro, o livro de todos os dias, de todas as horas, fôra mais uma vez aberto no momento em que mais era preciso.

Eduardo Valladares folheava o Eurico, e os seus olhos deletreavam estas palavras:

«Outras noites, em que mais tranquillo podia a sós comigo engolfar-me nos pensamentos de Deus, a tua imagem vinha interpôr-se entre mim e a lampada mortiça que me allumiava, e o hymno do presbytero de Carteia, que devia talvez escrever-se nos livros sagrados das cathedraes de Hespanha, ficava incompleto, ou terminava por uma blasphemia secreta; porque te via tambem sorrir, mas a outrem, mas a homem feliz com o teu amor, e eu tinha então sêde... sêde de sangue... Era uma lenta agonia! E sempre tu ante mim: nas solidões das brenhas, na immensidade das aguas, no silencio do presbyterio, nos raios esplendidos do sol, no reflexo pallido da lua, e até na hostia do sacrificio... sempre tu!... e sempre para mim impossivel!»

—Impossivel! repetia Eduardo Valladares. Impossivel!

E no seu hombro pousára a mão d’alguem que elle não vira.

Quem era?


XXIII

Era ella, Maria Luiza.

Eduardo Valladares, por um momento, julgára sonhar. Todavia o seu anjo adorado, entre o qual e elle se ia cavar o abysmo insondavel do impossivel, estava alli, soluçante, convulso, com os olhos merejados de lagrimas.

A viuva Machado, restabelecida da ligeira indisposição da vespera, accedera ás instancias das filhas e resolvera ir, posto já não pudesse acompanhar D. Maria d’Assumpção.

O moço seminarista, na violenta sobreexcitação que o agitava, deixara assomar aos labios a tempestade que lhe refervia na alma.

—Impossivel! murmurava elle. E sabes tu o que é o impossivel? Sabes o que é a distancia infinita que separa o reprobro da estrella polar que elle vê através das reixas do carcere? Sabes o que é morrer abafado na propria dôr, na dôr que não tem linitivo, que não tem cura, que não tem um só momento de repouso, um só instante d’esquecimento? Pois bem, entre nós que nos amamos e que vivemos a mesma vida, vai abrir-se a voragem do impossivel, como se dissesse que vai sentar-se o espectro da morte, para o vêrmos a toda a hora em glacial immobilidade, sem querer condoer-se das nossas afflicções. Morrer! Que influxo benefico não coaria a morte aos nossos corações calcinados por metal candente! Que felicidade não sorri na morte ao desgraçado! Será fraqueza pedil-a? Pois se o coração trasborda de lagrimas como o oceano na tormenta, pois se a alma foge de si mesma amedrontada, como do espectaculo sombrio d’um tumulo aberto, porque não hade perdoar o Deus de misericordia a quem fica prostrado na via dolorosa exclamando: Senhor! os meus olhos cegaram de chorar; illuminae em troca a minha alma com o resplendor das vossas eternas auroras?! Não sabes tu que o Salvador da humanidade, alanceado o coração de supremas angustias, elevava o seu espirito attribulado ao Deus das alturas, cujo filho era, exclamado exhausto: «Meu Deus, meu Deus, porque me desamparastes?» E não havemos nós, corações terrenos, pedir ao Céo, na cerração da vida, que nos aproxime do tumulo, da porta que se abre sobre nós dando passagem aos fulgores inextinguiveis da eternidade?

Maria Luiza, pendida sobre o hombro de Eduardo Valladares, orvalhava-lhe as faces de lagrimas abrasadoras.

Sentira-as elle, e procurara dominar os impetos da sua alma, envenenando-a com o trago das lagrimas reprimidas.

—Choras! E sou eu, e é o meu amor que te enche os olhos de pranto! Tremo da justiça dos Céos, Maria! Quem me deu a mim o insolito direito de te lembrar que tambem és desgraçada? Como ouso eu arrancar as flores da tua esperança, para calcal-as aos pés, sem me lembrar de que estou calcando com ellas o teu amantissimo coração. Oh! sim, tu esperas, não é verdade? Não é certo que tens no thesouro da tua alma a esperança que me offereces e queres repartir comigo? Enganares-me tu... Não, não, perdoa-me o que ha de injustiça n’estas palavras. Se a esperança ou se Deus, que tudo vem a ser o mesmo, te houvesse desamparado, não ousarias insinuar-me nova fé com receio de que eu descobrisse a verdade, a verdade negra e terrivel, sob os teus hymnos de mentirosa crença... Tu esperas, não é verdade? Deus, que formou de essencia divina as almas dos anjos como tu, não podia roubar-lhes a esperança, condemnando-as ao desespêro dos réprobos... Não chores...

—Não choro. Promette tu dominar a exaltação do teu espirito, que eu prometto não provocal-a de novo com as minhas lagrimas. Chorar eu! Passou acaso no nosso coração o sôpro devastador da descrença? Só os que não esperam, os que não crêem, é que choram, por que esses devem ser muito desgraçados, pois não devem?

E rolavam-lhe pelas faces copiosas lagrimas, como se Maria Luiza nem sequer soubesse que estava chorando e desvendando os dolorosos segredos da sua alma.

—Ah! pois tu choras! Estás involuntariamente denunciando com as tuas lagrimas que tambem és desgraçada, porque não esperas, porque não crês...

—Meu Deus! Eu enlouqueço! Dizes-me que choro e não sinto as lagrimas!...

—É que a tua alma verga n’este momento ao peso d’um presentimento que a domina, e que ella está revelando sem que tu mesma tenhas consciencia da propria existencia. Ah! como nós somos ambos infelizes, meu amor. Bem m’o dizia o coração, bem m’o disse ainda ha pouco, antes d’abrir este livro, n’um momento que não sei se foi de sonho se de meditação. Meditação, não; não foi. Eu estava quasi adormecido... Meditação, não. Queres que te conte o meu sonho, como o estou recordando n’este instante?

—Oh! conta, conta...

—Um camponez, que tinha vivido expatriado em longes terras, privado dos carinhos da esposa, saudoso dos filhos que deixara no berço, do torrão que o vira nascer, da cabana onde amara e vivera, das serras da sua patria, de tudo o que é doce e consolador, voltava em demanda do tugurio querido, e a todas as horas recordado, após os lacerantes soffrimentos d’um longo exilio. Quando vinha transpondo a serra do tôpo da qual se avistava a sua cabana, coberta de colmos como a tinha deixado, desciam do céo as sombras da noite e, quanto mais veloz elle caminhava, mais o arvoredo se perdia n’um fundo negro. Era a noite que descia. Fumegavam ao longe as casas d’aldeia disseminadas na encosta; a sua tambem. Áquella hora devia estar repartindo a triste mãe com as desmimosas creanças o pão da ceia amassado nas lagrimas de todos os dias. Elle, o caminheiro, vinha descendo a encosta, offegante e quasi exhausto. A sua choupana ficava na vertente fronteira. Entre a aldeia e a serra corria um rio, largo e caudaloso, que mugia no valle engrossado pelas chuvas torrencias do inverno. Era preciso chegar á ribeira antes do barqueiro ter amarrado a barca do outro lado. «Depressa!» dizia o caminheiro a si mesmo. E não corria, voava. A meia encosta, chamou. Ninguem respondeu. Brilhou-lhe nos olhos um clarão de desespero. A barca da passagem estava decerto amarrada a um salgueiro da outra margem, e já o barqueiro devia ir em caminho do seu palheiro que ficava ao centro da povoação. Afflicto, desesperado, chamou, gritou.

O sussurro da corrente impetuosa abafava a sua voz, tanto mais debil, quanto maior era a commoção. Depois...

—Depois?

—Via fumegar ainda no tôpo da serra fronteira o tecto do seu lar, e uma voz interior lhe estava dizendo que no coração de sua pobre mulher passava, n’aquelle instante, o presentimento de que nunca mais o tornaria a vêr. Como ella havia de reprimir a sua dôr, para que as pobres creanças a não vissem chorar e lhe perguntassem: «Virá hoje, virá?» Que alegria, que felicidade se elle os pudesse ouvir, e vêr, e abraçar para dizer-lhes: «Aqui está o vosso pai; eil-o aqui está». E a escuridão da noite era cada vez mais profunda e o estrepito das aguas tinha um não sei que de lugubre que punha medo. O fumo branco das casas d’aldeia foi rareando a pouco e pouco. Dissipou se lentamente a coluna ondulante que sahia do seu tecto. Acabava a ceia. Iam adormecer as crianças, sem terem sido abençoadas pela mão paterna. E, recolhidos os pequenos, deitava-se a mãe para desvellar as horas da noite em mil tumultuosos pensamentos. E elle separado de tudo isto, dos seus filhos, da sua mulher, do seu lar, por uma barreira que não podia transpôr e que se não abria para lhe dar passagem, como as aguas do mar Vermelho, por mais dolorosos que fossem os seus gritos, por mais impias que fossem as suas blasphemias! Aqui tens o impossivel, Maria; o impossivel é tudo isto, este desespero, este abrasar da alma em lavas incandescentes. Um genio mau desenhou decerto este quadro d’incomparavel afflicção para que eu experimentasse o duplo martyrio de vêr e sentir, deixando ao meu espirito, meio adormecido, o trabalho de, quando despertasse, procurar a relação que para logo denuncía que este desespero é o seu proprio desespero, que este inferno é o seu mesmo inferno.

Maria Luiza soltou um grito d’angustia; Eduardo Valladares ficou extremamente prostrado d’aquella dolorosa excitação.

—Meu Deus! murmurára ella vendo-o com a cabeça febril mal amparada nos braços tremulos.

—Meu Deus! repetia elle em brando echo. Não fujas de mim, doce amor, e pede ao teu Deus, que é tambem o meu, que me perdoe estes desvarios d’uma alma atormentada. Enlouqueceu-me a dor. Perdôa-me tu; que Elle, o Senhor de misericordia, me perdoará tambem. Não fugas de mim como se foge do precito. Desde que minha mãe infiltrou na minha alma o balsamo sacratissimo das doces orações da infancia, conheço e amo Deus. Depois, desde que sigo o rumo da minha desventurosa estrella, sempre o invoco em horas de desconfôrto e afflicção. Vale-me, Tu, Senhor! que abençôas os que choram.