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Itinerario da viagem, que fez a Jerusalem o M.R.P. cover

Itinerario da viagem, que fez a Jerusalem o M.R.P.

Chapter 5: FIM.
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About This Book

The author recounts a devotional pilgrimage to the Holy Land, narrating the journey from Iberian cities through Mediterranean ports to Jerusalem, with stopovers in Venice and Levantine harbors. He combines practical travel notes—routes, lodging, costs—with vivid descriptions of sacred sites such as the Mount of Olives, Bethany, and the place of the Ascension, and records liturgical practices and musical associations tied to these locations. The account aims to guide future pilgrims, offer devotional reflections, and preserve observations on rites, geography, and local customs.

Da nossa viagem de Tripoli atè Veneza.


Sahidos do porto de Tripoli, navegámos, e pouco a pouco chegámos à Ilha de Chypre, passando à vista de Famagusta, Cabeça deste Reyno; e démos vista de Candia, costeando pela Turquia, até chegar à Morea, à vista de Modon. Daqui caminhámos a Zante, em que estivemos dez dias, e logo a Corfu, adonde estivemos e celebrámos a Festa do Nascimento de Christo Senhor nosso. He esta Ilha de Corfu, huma das mayores forças, que os Venezianos tem na Grecia; e como tal, he de muita consideraçaõ, por ser como chave de Italia.

Passámos a costa de Esclavonia, Albania e Dalmacia, e chegàmos à agradavel Ilha, e Cidade de Lesna, e nos hospedáraõ os Religiosos de Saõ Francisco no seu Convento por espaço dos cinco dias em que houve no mar grande tormenta. Fallaõ aqui os naturaes a lingua Esclavonica, ainda que entendem a Italiana. A Cidade he pequena; tem boas, e fortes casas, e bom porto. Daqui viemos pela costa de Istria à Cidade, e Bispado de Parenço, e sahindo da nao em hum barco, passámos a Veneza, a que ha quarenta legoas, adonde chegámos com saude, e alegria, e a Deos démos as graças por nos levar, e trazer de taõ Santa viagem, e jornada taõ perigosa por mar, e terra. Gastámos de Tripoli a Veneza a sessenta e seis dias. Entrámos na Cidade em 19. de Janeiro do anno 1589. e desde que della sahimos, atè que tornàmos, passáraõ cinco mezes, e cinco dias.



Da jornada, que fizemos de Veneza atè Sevilha.


Detivemonos mez e meyo em Veneza, por repararmos a saude, e socegarmos do trabalho do caminho, recolher, e emendar os meus livros, que achey estampados. Hospedou-nos hum Cantor da Senhoria, chamado Antonio de Ribera, que me regalou de modo, que meus pays se foraõ vivos, e alli se acháraõ, o naõ fariaõ melhor, nem com mais amor, o que foy causa, de que nos restituissemos ao que eramos, pois vinhamos muito maltratados.

Sahidos de Veneza, viemos a Ferrara, Bolonha, Florença, e Pisa, Cidades principaes de Italia. Chegámos a Leorne, porto de Toscana, procurando as Galés do Graõ Duque de Florença, que partiaõ para Marselha, a buscar a Graõ Duqueza sua esposa, filha do Duque de Lorena. Estava o Graõ Duque em Leorne, e me fez a merce de me admittir a beijarlhe a maõ. Mandoume aposentar, e dar o necessario com toda a grandeza; e me prometteo de me accómodar nas Galés do Papa, que estava esperando por instantes para hirem em companhia das suas, que jà tinhaõ partido com as de Genova, e Malta, que por todas eraõ dezaseis, adornadas, e armadas com toda a magnificiencia, como para a occasiaõ de bodas de taõ grande Principe.

Chegàraõ as Galés do Papa, e o Capitaõ General a rogo do Graõ Duque, me recebeo, e me regalou na sua Capitania, trazendo-me na camera de popa, e dandome a sua mesa, e tambem tratado cheguey a Marselha, que naõ estranhey o mar, pois nelle tive todos os regalos da terra.

Na Semana Santa entrey em Marselha, e nella tive a Paschoa; e como as Galés ficáraõ esperando a Duqueza, fretámos hum Bergantim para virmos a Barcelona, em que embarcámos dous Genovezes, (hum se chamava Joaõ Ansaldo) dous Italianos, e dous Hespanhoes.

Sahimos do porto com hum pouco de mao tempo, e com o desejo de tornar para Marselha, tanto que nos fizemos ao largo; e tendo caminhado como cinco legoas; entrámos no abrigo de huma calheta, por naõ podermos passar a diante. Apenas puzemos os pés em terra, quando vimos junto a nòs hum Bergantim, que entendemos, vinha, como o nosso, a esperar, que o tempo melhorasse. Vinha elle cheyo de arcabuzeiros ladroens, e muitos Lutheranos; e descubrindo-se com os arcabuzes à cara, lhes dissémos, que se detivessem, que nos dávamos por rendidos, porque se nos puzessemos em resistencia, nos perdiamos, pois em o nosso Bergantim sómente havia espadas, e dous arcabuzes mal preparados; e ainda que fossem mais, eraõ poucos; e assim melhor era salvar as vidas. Estes soldados (ou ladroens, por melhor dizer) entraraõ no nosso Bergantim, tomáraõ-nos as chaves dos nossos alforges, e maletas, e tudo revolveraõ, naõ deixando cousa em seu lugar. Estavamos nòs em terra, vendo o que passava, e esperando o fim destes ladroens, com taõ pouca esperança de vida, olhando huns para os outros sem dizer palavra. Era já quasi noite, quando nos mandáraõ entrar em o seu Bergantim, e tomáraõ posse da nossa roupa, e armas; e nos fizeraõ tornar a traz a huma Fortaleza em que viviaõ, e donde sahiaõ a fazer estes roubos. Antes que a ella nos levassem, nos puzeraõ em huma camara cheya de palha, e junto a ella muita lenha, e todos estiveraõ de fóra fallando na sua lingoa: e nòs encomendando-nos a Deos, com o temor de que aquelles Hereges nos queimassem; porèm Deos nosso Senhor nos tirou deste temor, e perigo.

Levaraõ-nos dahi a pouco à Fortaleza, deraõ-nos de cear, e as suas pobres camas; e começámos a perder o medo. Démos à mulher do Capitaõ alguns escudos de ouro, e ella nos assegurou, que naõ haveria perigo em nossas vidas. Trez dias estivemos desta maneira, sem nos deixarem sahir, nem aos nossos marinheiros, que tambem estavaõ prezos comnosco; e começámos a tratar da nossa liberdade, sendo medianeiro hum Francez que hia, e vinha. Pedio o Capitaõ por cada hum de nòs cem escudos, e que nos daria a roupa; ao que respondemos, que os naõ tinhamos, que fizesse o que quizesse.

Neste tempo chegou hum homem de Marselha desta companhia; e naõ soubemos que ordem trouxe; porèm o Capitaõ disse logo, que de nòs naõ queria cousa alguma, porque elles eraõ Christãos, e nòs tambem; mas que como pobres soldados necessitavaõ. Cada hum deu o que pode; a mim me custou a minha roupa vinte e cinco escudos; e deramos no dia, em que nos prenderaõ, pela segurança da vida, quanto nos pedissem. Aqui estivemos oito dias, e nos embarcámos com seu beneplacito, acompanhando nos o Capitaõ, e companheiros trez, ou quatro legoas no seu Bergantim, e nòs no nosso. Quando se apartou nos disse, que naõ tornassemos a Marselha; porque se tornassemos, e elle nos colhesse, nos cortaria as cabeças; e certamente o fariamos se podessemos, para que se soubesse de semelhantes Hereges ladroens.

Caminhámos dous dias por esta costa de França, e na Provincia de Languedoc em huma manhãa, caminhando nòs a remo, vimos sahir outro Bergantim com muita pressa de hum rio, e que nelle entrava alguma gente de terra, e começou a remar para o nosso, porèm os nossos marinheiros tanto trabalháraõ, que nos naõ puderaõ alcançar; porèm quando cuidámos, que estavamos livres delle, appareceo hum navio à vèla, que vinha contra nòs. Entendemos, que seria navio, que caminhava para Levante; mas logo que emparelhou com o nosso Bergantim, amainou, e mandou que parassemos, e se descubriraõ doze arcabuzeiros ladro[~e]s, e Lutheranos, que com as armas à cara nos renderaõ, e entraraõ o nosso Bergantim, e de nòs, e da roupa fizeraõ o mesmo, que os outros ladroens Lutheranos, ainda depois de lhe darmos o que levavamos nas bolças. Ataraõ o nosso Bergantim ao seu navio, e nos leváraõ como huma legoa, rio acima, junto ahuma Povoaçaõ, que chamaõ Cirinhan. Esta segunda prizaõ nos deu mais temor da morte, porque como disse hum dos soldados a Joaõ Ansaldo, teve o arcabuz à cara para me matar, e disparando-o, errou o tiro, ou passou por alto; o que todos attribuimos, a que neste tempo nos encomendámos à Virgem Senhora de Monserrate, fazendo voto de ir visitar a sua Casa, e de lhe dizer Missa. Passadas quatro horas, estando assim, veyo hum Cavalheiro, Alferes desta terra, e tomou por conta em hum rol toda a nossa roupa, e ordenou se guardasse no navio; e logo nos levou a huma Villa distante huma legoa, rogando-me, para que aceitasse o seu cavallo, e que elle como mais moço caminharia a pè, de que todos lhe démos o agradecimento, e chegados ao lugar, a todos deraõ pousada, e a mim me levou para sua casa, adonde me regalou.

Neste lugar reside hum Cavalheiro, Senhor de dous lugares, este nos recebeo alegremente, e dando-nos palavra de segurança (porque era Catholico Romano) nos disse escreveria ao Duque Motmoranci, Senhor da Provincia de Languedoc. Era Secretario deste Duque hum Genovez parente, e amigo de Joaõ Ansaldo; e tanto que soube da nossa prizaõ, fez toda a diligencia pela nossa liberdade; e por elle nos mandou despachar o Duque, e nos deu hum passaporte, para que se encontrassemos outros navios do seu destricto, tivessemos segurança; pelo que sahimos alegres, ainda que alguns escudos nos ficáraõ nas mãos dos soldados.

Sahimos daqui, e em quatro dias chegámos a Barcelona, aonde démos graças a Deos por nos livrar destes ladroens Francezes Lutheranos, e de muitas Galeotas de Turcos, que andavaõ por esta costa, das quaes tomou nove o filho de Andrè Doria. Digo certamente, que tendo andado por tantos, e taõ varios caminhos entre Turcos, Mouros, e Arabes, naõ tivemos o perigo, e pezar que padecemos na França. Visitámos a Virgem Santissima de Monserrate, e lhe démos as graças pelas merces que Deos nosso Senhor nos fez, por sua intercessaõ; e logo tomámos o caminho de Valença, Murcia, Granada, e chegámos a Sevilha, eu, e meu companheiro Francisco Sanches, com saude, adonde com muito contentamento fuy recebido de todos, especialmente do Illustrissimo Cardeal, o Senhor Dom Rodrigo de Castro, e do Cabido da Santa Igreja.

Dey conta neste breve tratado da minha viagem à Terra Santa, com toda a verdade Christãa, a todo o que desejar saber o caminho. De Sevilha a Jerusalem ha mil e quatro centas legoas de ida; e pela volta, que dey, pela Cidade de Damasco, entendo, que de ida, e vinda, ha trez mil legoas. He facil andar este caminho, pois eu o andey, tendo sessenta annos; pelo que se animem os moços, e que tem possibilidade, a fazerem taõ Santa viagem; que eu lhes certifico, que depois de vistos taõ Santos Lugares, seja tal o seu contentamento, que o anteponhaõ ao de possuirem todos os thesouros do Mundo.

FIM.







Lista de erros corrigidos

Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


Original Correcção
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