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Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1 (of 3): Parte I, II cover

Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1 (of 3): Parte I, II

Chapter 60: D. Affonso V. duodecimo Rey.
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About This Book

The work offers a systematic geographical and historical survey of Portugal, pairing detailed local descriptions and river, town, and provincial notices with political and secular history. It explains mapmaking principles—latitude and longitude, meridians, tropics, poles, and the use of lunar eclipses to estimate longitudes—and discusses variations among cartographers' coordinates. The author aims to correct foreign misconceptions by providing precise measurements, comparative tables of coordinates, and annotated maps. The text combines practical instructions for reading maps with regional topography and place-by-place entries intended for both native and foreign readers.

Pedro, que amores teve com a Justiça Real, e naõ cruel inclinaçaõ.

63 Socegada a indignaçaõ delRey, passou a mostrar ao Reino com toda a legalidade como Dona Ignez de Castro tinha sido sua legitima mulher, fazendo depois de morta que a reconhecessem como Rainha, e ordenando lhe humas honras funebres nunca até aquelle tempo vistas com tanto apparato, e pompa. Como era taõ amante da Justiça, fez leys para a boa administraçaõ della, que com temor, e reverencia se observava, administrando-a elle muitas vezes, como se fora particular Ministro. Ordenou que naõ houvesse Letrados, que advogassem, e assim evitou as dilações, que costuma haver nos litigios por causa delles.

64 Admiraõ-se com razaõ os nossos Chronistas, quando caracterizaõ o genio delRey D. Pedro; porque sendo por huma parte muy severo, por outra era muy affavel, amigo de festas, e alegrias; muy liberal, de fórma que lhe parecia dia perdido aquelle, em que naõ fazia mercês: e unidas estas boas qualidades com a paz, que conservou no seu reinado, soube infundir em seus vassallos hum tal amor, que depois da sua morte diziaõ, que taes dez annos, como os de seu governo, nem os tinha visto Portugal, nem esperava de os tornar a ver. Achando-se na Villa de Estremoz, faleceo aos 18 de Janeiro de 1367 em huma segunda feira pela madrugada. Viveo quarenta e seis annos, e nove mezes justos; reinou nove annos, sete mezes, e vinte e hum dias. Está sepultado em Alcobaça junto de sua amada esposa a Rainha Dona Ignez de Castro.

D. Fernando, nono Rey.

65 Em huma segunda feira, que se contavaõ 31 de Outubro de 1345, vespera de todos os Santos, nasceo em Coimbra ElRey D. Fernando, conforme a Chronologia mais bem averiguada.[639] A natureza o dotou de taõ gentil, e regia presença, que ainda disfarçado entre muitos era logo conhecido como Rey pela magestade da pessoa.[640] O genio, e condiçaõ era muy suave, e branda: froxo, e remisso lhe chamou Camões,[641] e totalmente diverso do rigor delRey D. Pedro. Esta brandura ajudada com o assenso, que deu a validos, o fizeraõ arruinar, e correr quasi a mesma fortuna delRey D. Sancho II.

66 Subio ao throno em o mesmo dia, que faleceo seu pay, contando vinte e dous annos de idade, e começando a governar o mais rico, e opulento Rey, que até alli conheceo Portugal, pelos grandes thesouros, que tinhaõ junto seu Pay, e Avós.[642] Cuidou logo em reedificar as Fortificações do Reino, e guarnecer as Praças com o preciso, fazendo mercês com profusa liberalidade.

67 Mal aconselhado intentou a conquista de Castella por morte de D. Pedro o Cruel, tendo por injusto possuidor a ElRey D. Henrique, como bastardo, e fratricida, e pertendendo D. Fernando aquella Coroa como bisneto delRey D. Sancho. Para esta guerra fez liga com ElRey de Granada, e tambem com ElRey D. Pedro de Aragaõ, a quem pedio sua filha Dona Leonor por mulher; e durando algum tempo a guerra com mortes, e damnos de parte a parte, veyo a cessar por intervençaõ do Papa Gregorio XI. fazendo-se o Tratado de paz com Castella na Cidade de Evora no ultimo de Março de 1371.[643]

68 Esquecido ElRey de huma taõ ratificada promessa, rendendo-se ao forte amor de Dona Leonor Telles de Menezes, mulher de Joaõ Lourenço da Cunha, Senhor de Pombeiro, taõ cegamente se namorou della, que buscando pretextos para lhe annullar o matrimonio, a usurpou, e recebeo por mulher propria, atropelando todos os inconvenientes, e naõ fazendo apreço da murmuraçaõ do povo amotinado.[644] Joaõ Lourenço da Cunha se passou para Castella, e de lá se oppoz quanto pode a ElRey, já militando nas tropas inimigas, já intentando darlhe peçonha, por cujos crimes lhe foraõ confiscados seus bens, que tinha neste Reino.

69 Recebido ElRey D. Fernando, e vendo o de Castella a falta da sua palavra, o repudio, que havia tambem feito da sua filha, e a infracçaõ da paz, porque novamente aliado com o Duque de Lencastro, filho delRey Duarte III. de Inglaterra, que por ser casado com Dona Constança, filha delRey D. Pedro o Cruel, se intitulava Rey de Castella, e pertendia a Coroa, por todos estes motivos estimulado ElRey D. Henrique delRey D. Fernando, ao mesmo tempo que esperava delle satisfaçaõ, entrou por Portugal com grande exercito, dizendo, que naõ embainharia a espada, sem que vingasse primeiro os aggravos recebidos.

70 Chegou até Lisboa, deixando primeiramente devastadas muitas povoações da Provincia da Beira com igual ruina, e estrago dos moradores de tal fórma, que, como bem diz Camões,[645] esteve perto de destruirse o Reino totalmente. ElRey de Castella se alojou no Convento de S. Francisco, e a Cidade, e seus habitadores padeceraõ tanta oppressaõ, que já como desesperados pozeraõ fogo a parte della, e os Castelhanos ajudaraõ a executar, e augmentar o incendio.[646] Achava-se ElRey D. Fernando neste tempo na Villa de Santarem muy socegadamente, vendo correr para Lisboa as bandeiras inimigas, e subir ao Ceo o fumo, e as lavaredas de huma boa parte desta Cidade queimada, e elle com tanto descuido, como diz Manoel de Faria,[647] sem dar providencia, ou remedio a tanta ruina, e insultos, que os Castelhanos commettiaõ já com soberba descuberta por falta da opposiçaõ.

71 Quiz Deos que o Papa Gregorio XI. que neste tempo ainda residia com toda a Curia Romana em Avinhaõ de França, atalhasse com sua intervençaõ promptamente tantas hostilidades, expedindo para ajustamento de pazes ao Cardeal de Santa Rufina Guido de Monforte, que fez a composiçaõ entre ElRey Henrique de Castella, e o nosso D. Fernando pacificamente aos 19 de Março de 1373, avistando-se ambos os Monarcas no meyo do Tejo defronte de Santarem com grande, e vistosa comitiva de pequenas embarcações, e jurando nas mãos do Cardeal Legado a observancia dos artigos das pazes, e o ajuste dos casamentos da irmã, e filha de D. Fernando.[648]

72 Toda a frouxidaõ, e infelicidade, que ElRey tinha nas emprezas militares, emendou no governo da paz, executando acções muy benemeritas de o constituirem por este lado glorioso. Mandou cercar de novos muros muitas Cidades, e Villas: os de Lisboa, que principiando-se no ultimo de Setembro de 1373, se viraõ de todo acabados no mez de Julho de 1375. Santarem, Obidos, Ponte de Lima, Viana, Almada, Torres Vedras, Leiria, Almeida, com outros muitos Castellos, e fortificações por todas as Comarcas do Reino. Promulgou tambem leys muy uteis; e para que houvesse mais Letrados, tornou a mudar a Universidade de Coimbra para Lisboa no anno de 1377, em razaõ de que alguns Lentes, que mandara vir de Reinos estrangeiros, naõ queriaõ ler senaõ em Lisboa.[649] Inventou novos arbitrios sobre a utilidade do commercio,[650] e fez varias mercês com liberalidade regia.

73 Porém novamente inquieto, renovando a liga com Inglaterra, e rompendo a paz, continuou a guerra contra Castella no anno 1381, e padeceo Portugal tanto damno dos amigos Inglezes, como dos inimigos Castelhanos,[651] concluindo-se finalmente com o casamento de Dona Brites, filha delRey D. Fernando, com ElRey de Castella D. Joaõ I. que se effeituou no anno 1383, e neste mesmo anno faleceo ElRey na Cidade de Lisboa nos Paços do Limoeiro aos 22 de Outubro, tendo de idade trinta e oito annos, menos nove dias, e de governo dezaseis annos, nove mezes, e quatro dias. Jaz no Coro novo do Convento de S. Francisco de Santarem.

D. Joaõ I. decimo Rey.

74 Com a morte delRey D. Fernando se originaraõ no Reino grandes inquietações pela falta de Principe legitimo, que succedesse na Coroa. A mayor parte dos Portuguezes receava muito que o Reino fosse recahir no dominio dos Castelhanos; e ainda que a Rainha D. Leonor ficou por Governadora, e Regente de Portugal, em quanto sua filha Dona Brites, que havia casado com ElRey de Castella, naõ tinha filho capaz de empunhar o Cetro, ella usando de toda a jurisdiçaõ, e poder, mandou acclamar, ainda que infaustamente, em algumas Cidades, e Villas do nosso Reino a ElRey de Castella, e sua mulher por legitimos successores.[652]

75 Por esta causa se fez a todos odiosa a Rainha, e muito mais pela grande attençaõ, que ella dava ao Conde de Ourem Joaõ Fernandes Andeiro, seu escandaloso valido, por cujas mãos corriaõ todos os negocios, naõ sem murmuraçaõ do povo, e inveja dos Grandes, os quaes julgando o valimento culpa, e os grandes favores, que a Rainha fazia ao Conde, infamia da Magestade, induziraõ ao Infante D. Joaõ, Mestre de Aviz, irmaõ do Rey defunto D. Fernando, e filho natural delRey D. Pedro, que havia nascido em Lisboa aos 11 de Abril de 1357, a que obviasse as fatalidades, tropeços, e perigos, em que se via titubear a Monarquia, matando ao Conde Joaõ Fernandes Andeiro, pedra de tanto escandalo, como com effeito executou o Infante dentro dos proprios Paços da Rainha, (que hoje servem de Limoeiro) em 6 de Dezembro de 1383.[653]

76 Executou-se esta fatal acçaõ com grande alvoroço, e contentamento do povo, o qual estava taõ affeiçoado ao Infante Mestre de Aviz, que publicamente, e com grandes vivas o declarou Defensor, e Governador do Reino em 16 de Dezembro do mesmo anno de 1383. Este honroso emprego começou a exercer o Infante com muita felicidade, sem embargo de ter contra si a mayor parte da Nobreza, que toda estava pela Rainha, e o grande poder de Castella, o qual intentando opprimir a liberdade do nosso Reino, entrando com violencia pelas suas fronteiras, e pondo sitio a Lisboa por mar, e por terra, foy obrigado a se retirar sem fazer nada depois de perder bastante gente.[654]

77 Com esta retirada dos Castelhanos, e conseguindo os Portuguezes algumas vitorias, em que teve grande parte o invencivel valor do famoso Heroe Nuno Alvares Pereira, estando na Cidade de Coimbra o Infante Regente D. Joaõ Mestre de Aviz, foy em acto de Cortes acclamado Rey de Portugal em huma quinta feira, que se contavaõ 6 de Abril de 1385 pelas nove horas da manhã,[655] tendo entaõ de idade o novo Rey vinte e sete annos, menos cinco dias, conforme o calculo de alguns,[656] ou vinte e oito, conforme outros,[657] ou, o que temos por mais certo, vinte e sete annos, onze mezes, e vinte e seis dias, concorrendo tambem muito para esta acclamaçaõ o talento do insigne Jurisconsulto Joaõ das Regras com as efficazes razões, que allegou neste caso.[658]

78 Depois de taõ gloriosa exaltaçaõ, occupado ElRey com mayores cuidados da guerra, e de segurar na cabeça a Coroa, distribuindo primeiro algumas mercês pelos benemeritos, passou o seu valor a occupar aquellas Praças fortes, que conservavaõ o partido de Castella, reduzindo-as à sua antiga obediencia; e ainda que ElRey de Castella continuando os seus projectos veyo atacar Portugal com hum formidavel exercito, o novo Rey lhe desfez inteiramente as forças na celebre, e grande batalha de Aljubarrota, em que triunfou de mais de oitenta mil homens, sendo os nossos em numero taõ desproporcionado, que por isso ajudaraõ a augmentar no mundo a fama de vitoria taõ celebrada, e gloriosa em todas as memorias,[659] e succedida a 14 de Agosto de 1385, vespera da Assumpçaõ gloriosa da Senhora.

79 Na Cidade do Porto, e em 2 de Fevereiro de 1387 se recebeo com a Senhora Dona Filippa, filha do Duque de Lencastre em Inglaterra, e com esta alliança pode recuperar todas as Povoações, e Praças, que nos tinha usurpado ElRey de Castella, com o qual ajustando o Duque hum tratado de paz, houve tambem entre nós, e os Castelhanos huma suspensaõ de armas, que interrompida depois com alguns successos, se veyo finalmente a segurar a paz no anno 1399 entre os dous Reinos.

80 Desta sorte restabelecida a tranquillidade em Portugal, se resolveo ElRey ir pessoalmente expugnar Ceuta, Cidade famosa de Africa, para cuja gloriosa facçaõ mandou compôr huma armada de duzentas e vinte vélas, que com grande estrago dos Mouros, e credito da Naçaõ Portugueza conseguio por augmento da Fé o fim de taõ santa idéa dentro de hum dia, que foy 21 de Agosto de 1415, accrescentando depois aos titulos de Rey de Portugal, e do Algarve o de Senhor de Ceuta.[660]

81 Para evitar a confusaõ, que havia em contar os annos, pondo-se muitas vezes a Era de Cesar juntamente com o anno de Christo, de que resultavaõ embaraços, e duvidas nos documentos, e escrituras publicas, mandou esquecer, e supprimir aquella antiga, e praticada computaçaõ da Era de Cesar, e que se usasse em todas as escrituras calendar o anno pela Epoca do Nascimento de Christo Senhor nosso, passando para isto huma Ley escrita em 22 de Agosto de 1420,[661] que parece só teve pleno effeito do anno 1422 por diante, conforme o daõ a entender quasi todos os Escritores.[662] Nisto imitou o exemplo delRey D. Joaõ I. de Castella, que tambem havia seguido o delRey de Aragaõ, como dizem Yañes, e o erudito Gerardo Casteel na Controversia 1.

82 Continuando ElRey na boa administraçaõ da Justiça, dando com igualdade o premio, e o castigo a quem o merecia, promulgou leys muy uteis, e mandou observar as que havia feito em lingua vulgar o celebre Joaõ das Regras.[663] Para testimunhas da sua grande devoçaõ sublimou à dignidade Metropolitana a Cathedral de Lisboa por Bulla, que o Papa Bonifacio IX. passou à sua instancia em 10 de Novembro de 1394,[664] servindo de iguaes monumentos da sua piedade a erecçaõ de edificios sacros, como foy o Regio Convento da Batalha, o Mosteiro de Penha-Longa da Ordem de S. Jeronymo, o de S. Francisco de Leiria, o de Santa Clara do Porto, o da Carnota junto de Alenquer, a insigne Igreja de Nossa Senhora da Oliveira em Guimarães, a Igreja de Nossa Senhora da Escada junto à de S. Domingos de Lisboa, e outras muitas fundações, para que concorreo com magnifica generosidade, admittindo tambem no Reino os Conegos Seculares de S. Joaõ Evangelista, chamados commummente os Loyos.[665]

83 Além de obras taõ santas fez outras, ainda que profanas, magestosas, e taes foraõ os Palacios de Lisboa, Santarem, Cintra, e Almeirim. Instituio o tribunal da Relaçaõ, e fez outras doações, e mercês, que depois revogou naõ sem escandalo.[666] Finalmente no dia 14 de Agosto de 1433, a tempo que a terra padecia hum tenebroso eclypse do Sol, exhalou o espirito, deixando de si feliz memoria, e tendo vivido setenta e seis annos, quatro mezes, e tres dias, e reinado quarenta e oito annos, quatro mezes, e oito dias.[667] Foy seu corpo depositado na Igreja da Sé, onde esteve dous mezes, e dez dias, e a 25 de Outubro foy transferido com pompa magestosa em hum carro triunfal até o Convento da Batalha, onde jaz em sumptuosa sepultura, que elegantemente descreve Fr. Luiz de Sousa.[668]

D. Duarte, undecimo Rey.

84 Era o Senhor D. Duarte filho terceiro delRey D. Joaõ I. e havia nascido em Viseu a 31 de Outubro de 1391. Os dotes naturaes, e adquiridos foraõ nelle taõ excellentes, como mal logrados. Foy destrissimo, e singular no exercicio nobre de andar a cavallo; muy eloquente, e vigilante da Religiaõ Christã; grande favorecedor dos homens doutos, como particular professor, e amante das boas letras, em cujo estudo se aproveitou de modo, que pudera ser Mestre. Delle existem alguns Tratados, e fragmentos, irrefragaveis provas do seu juizo, e sciencia.[669]

85 Succedeo a ElRey seu pay, tendo de idade quarenta e hum annos, nove mezes, e quatorze dias,[670] e foy acclamado aos 15 de Agosto de 1433 nos Paços do Castello de Lisboa. Havia casado a 22 de Setembro de 1428 com a Rainha Dona Leonor, Infanta de Aragaõ; e subindo agora ao throno, começou a governar com tanta prudencia, que se dizia delle, (talvez por influxo de lisonja) entendia melhor a arte de reinar, que ElRey seu pay.[671] Mandou reduzir a hum só tomo todas as Leys, que andavaõ dispersas, para facilitar a sua liçaõ: promulgou tambem Leys contra o luxo, embaraçando os excessivos gastos dos Grandes, aos quaes ordenou fossem residir nas suas terras para os livrar da assistencia da Corte, que os obrigava a empenhos,[672] excepto aquelles Fidalgos, que por turno lhe haviaõ de assistir por obrigaçaõ de seus cargos.

85 Neste Monarca naõ houve que desejar senaõ melhor fortuna, porque os unicos cinco annos, que reinou, foraõ todos cheyos de desgraças; e bastava para fazer infausto o tempo do seu reinado o cativeiro do Infante D. Fernando seu irmaõ; porque emprendendo os Infantes D. Henrique, e D. Fernando conquistar aos Mouros a Cidade de Tangere, e ficando vencidos, e prisioneiros no anno de 1437, para salvarem as vidas prometteraõ aos Mouros entregarlhe Ceuta, de cuja palavra ficou em refens dos mais o Infante D. Fernando; porém como os Conselheiros de Portugal foraõ de parecer, que naõ convinha entregar todo hum povo Christaõ ao furor dos barbaros pela liberdade de hum só homem, de cujo acordo dizem que tambem fora o Papa, e o mesmo Infante generoso,[673] determinou-se em Cortes, que para isso fez convocar em Leiria ElRey D. Duarte, ficasse o Infante no cativeiro, onde morreo depois de falecer o mesmo Rey, que todavia no seu testamento mandava se resgatasse o Infante seu irmaõ por todo o dinheiro, e ainda a troco da mesma Cidade de Ceuta.[674]

87 Mons. de la Clede[675] accrescenta, que ElRey D. Duarte sem embargo do que determinaraõ as Cortes, excitado do affecto de seu irmaõ cativo, e da justa paixaõ de se vingar dos barbaros, com o desejo de procurar tambem a liberdade dos Portuguezes, que os infieis retinhaõ em suas infames prizões, mandara pedir ao Papa huma nova Bulla da Cruzada, que se publicou pelas Provincias do Reino, e ajuntando tropas, e apparelhando náos para a expediçaõ desta grande interpreza, foraõ todos os preparos inuteis por causa da peste, que sobreveyo ao Reino, occupando-o de lamentavel consternaçaõ, como bem o descreve Vasco Mousinho no canto 5. do seu admiravel Poema; pois derrubando todas as idéas delRey, o obrigou a andar vagando de Villa em Villa, naõ só para consolar os povos em aperto semelhante com a sua presença, mas para evitar aquelle contagio; até que achando-se na Villa de Thomar, e abrindo huma carta, que vinha inficionada da corrupçaõ venenosa, poz fim aos dias de sua vida afflicta aos 9 de Setembro de 1438, tendo vivido quarenta e seis annos, dez mezes, e nove dias, e reinado cinco annos, e vinte e seis dias.[676] Jaz no Convento da Batalha.

D. Affonso V. duodecimo Rey.

88 Havia nascido o Principe D. Affonso nos Paços de Cintra aos 15 de Janeiro de 1432, e quando morreo seu pay ElRey D. Duarte, contava seis annos, sete mezes, e vinte e cinco dias, e desta idade foy acclamado logo herdeiro da Coroa na Villa de Thomar; porém o governo ficou à disposiçaõ da Rainha Dona Leonor sua mãy, e tutora com a assistencia do Infante D. Pedro, irmaõ delRey D. Duarte, com o titulo de Defensor do Reino, da qual regencia foy depois a Rainha exclusa, e o governo entregue ao Infante D. Pedro, de que se originaraõ tantas perturbações, e de que existem memorias taõ lastimosas.[677]

89 Continuava o Infante o manejo dos negocios, e regencia do Reino com applauso commum, quando fazendo quatorze annos ElRey, e sendo preciso entregarse-lhe o Cetro, seu tio Regente o fez com a Solemnidade de Cortes no anno 1446, e ElRey lhe agradeceo muito o bem, que o servira, de cujos louvores existe huma carta delRey escrita ao Infante cheya de grandes, e honrodas expressões,[678] encommendando-lhe, acabado o acto da entrega, que fosse continuando na mesma fórma, dimittindo de si totalmente o regimen, e ratificando o casamento, que tinha feito com a Senhora Dona Isabel, filha do mesmo Infante D. Pedro.

90 Porém a inveja dos emulos fazia taõ máos officios para arruinar a felicidade do Infante, que lhe maquinou, e conseguio a desgraça delRey, o qual intempestivamente passado hum anno mandou dizer ao Infante, que o dava por absoluto, e desobrigado da incumbencia do governo, que lhe encarregara. Daqui procedeo recolherse o Infante às suas terras, nas quaes, declarado ElRey seu inimigo por crimes falsos, que imputaraõ ao Infante, inconsideradamente o foy buscar com maõ armada, e pondo-se o Infante em defensa, foy morto em o sitio de Alfarrobeira a 20 de Mayo de 1449.[679]

91 Desejando depois ElRey expressar o seu animo zeloso da Fé no convite, que o Papa Calixto III. lhe propoz, e tambem a outros Principes Christãos de ir contra o Turco, para o que mandou para este Reino a Bulla da Cruzada no anno 1457, começou ElRey a fazer para esta empreza huns grandes preparos. Escusaraõ-se os outros Principes; porém ElRey naõ resfriando da santa idéa, transferio a guerra para Africa, onde parece que a voz do justo D. Fernando ainda clamava vingança; e encaminhando primeiramente as proas de duzentas embarcações cheyas de gente para as prayas de Alcacer, o mesmo foy chegar, que vencer no anno de 1458 em Sabbado 30 de Setembro. Com a mesma felicidade ganhou a Praça de Arzila em 24 de Agosto de 1471, e se lhe entregou a de Tangere, cujas gloriosas vitorias lhe adquiriraõ a antonomasia de Africano, e aos titulos da sua grandeza accrescentou elle o daquem, e dalém mar em Africa.

92 Morto ElRey de Castella Henrique IV. que tinha sido casado com a Rainha Dona Joanna, irmã do nosso Rey D. Affonso V. lhe ficou huma unica filha, chamada Dona Joanna, herdeira daquelle Reino. Com ella se dispoz casar ElRey D. Affonso V. seu tio já neste tempo viuvo da Senhora Dona Isabel. Para isto passou a Castella com hum exercito de vinte mil homens, porque assim o pediaõ as contradições, que sobre esta successaõ se levantaraõ, e em Placencia se desposou com sua sobrinha no anno de 1475. Os Castelhanos, que disseraõ naõ era a Senhora Dona Joanna filha delRey Henrique, e que por isso naõ lhe pertencia a herança da Coroa, nomearaõ herdeira a Dona Isabel, irmã delRey Henrique, e a casaraõ com D. Fernando de Aragaõ.

93 Daqui nasceraõ muitas calamidades em Castella. e Portugal; porque nosso Rey D. Affonso, querendo defender o que era seu, como de sua sobrinha, e esposa, foy justamente demandar a D. Fernando de Aragaõ para litigarem este ponto em argumento de armas. Naõ o levou a ambição, como lhe attribue Camões,[680] mas sim razão justificada, sem embargo de ficar desbaratado na baralha de Toro, em que o ajudou valerosamente seu filho o Principe D. Joaõ.

94 Depois desta memoravel batalha succedida em Mayo de 1476, passou ElRey logo a França no mez de Agosto, onde se deteve até Outubro do seguinte anno de 1477; e vendo frustrada a negociaçaõ, a que lhe faltou ElRey Luiz XI. com pouca fé, se resolveo ElRey D. Affonso a deixar o mundo, e ir peregrinando até Jerusalem. Desta resoluçaõ deu parte a seu filho por huma carta, em que lhe ordenava se fizesse logo jurar Rey de Portugal, que em cumprimento della assim o fez em Santarem a 10 de Novembro do proprio anno.[681]

95 Teriaõ passado quatro dias depois desta solemnidade, quando sabendo o Principe Regente que seu pay tornava outra vez para Portugal, porque ElRey de França lhe embaraçara politicamente a jornada, o foy buscar a Oeiras, e com solemne procissaõ entrou em Lisboa, e continuou a governar como de antes, sem o generoso Principe se intrometer em cousa alguma, proseguindo D. Affonso em executar acções de liberalidade Regia, e tantas, que affirmou hum Escritor nosso[682] fora entre os Reys de Portugal o que fez mayores mercês a seus vassallos, assim de honra, como de fazenda; em tal modo, que dizia o Principe seu filho. quando lhe succedeo: Meu pay me deixou feito Rey das estradas, e caminhos de Portugal; porque quasi todos os Lugares, e terras tinha dado.

96 O Real genio deste Monarca tambem se deixava ver na grande propensaõ, e amor das sciencias, applicando-se aos estudos, e favorecendo aos estudiosos. Elle foy o primeiro, que no Palacio de Evora ajuntou copiosa livraria, e o que determinou se escrevessem na lingua Latina as Historias Portuguezas, mandando para este effeito vir de Italia a D. Fr. Justo Baldino, Religioso Dominico, e insigne Latino,[683] que morreo sem fazer cousa alguma por embaraços de molestia. Finalmente vendo ElRey que os negocios das suas pertenções se naõ concluiaõ, e achando-se quasi obrigado a convir em hum Tratado de paz, que se publicou em Outubro de 1479, e com o justo sentimento de ver a Senhora Dona Joanna sua esposa com huma honesta violencia da parte de Castella obrigada a entrar em Religiaõ com o unico tratamento de Excellente Senhora, se retirou melancolico a Cintra, e alli na mesma casa, onde nascera, enfermou, e morreo aos 28 de Agosto de 1481, em numa Terça feira, contando de idade quarenta e nove annos, sete mezes, e treze dias, e de reinado quarenta e dous annos, onze mezes, e dezanove dias.[684] Jaz no Mosteiro da Batalha na Casa do Capitulo.

D. Joaõ II. decimo terceiro Rey.

97 Nasceo ElRey D. João II. na Cidade de Lisboa nos Paços da Alcaçova a 3 de Mayo do anno 1455, e a 25 de Junho do mesmo anno foy jurado Principe herdeiro do Reino com todas as ceremonias costumadas. Teria quinze annos, quando, na Villa de Setubal a 12 de Janeiro de 1471 recebeo por esposa a Senhora Dona Leonor de Lancastre sua prima com irmã, e a 15 de Agosto acompanhou seu pay ElRey D. Affonso na gloriosa conquista de Arzilla, onde obrou acções mayores que a sua idade promettia.[685]

98 Depois da morte de seu pay, achando-se em Cintra, e passados os tres dias de nojo, foy acclamado Rey em 31 de Agosto do anno de 1481, e foy esta a segunda acclamaçaõ, que teve. Cuidou logo em dar cumprimento aos legados de seu pay, e applicando-se a conhecer as pessoas, que se sabiaõ distinguir pela sua capacidade, e talento, as honrava, e premiava de sorte, que se fez amar, e estimar de todos, especialmente do povo.

99 No principio de seu reinado aconteceraõ grandes desasocegos nascidos da altivez dos Nobres, que sahindo da brandura delRey D. Affonso, e dando na integridade do filho, mal sabiaõ viver em taõ desconformes extremos, de que procederaõ conjurações contra elle, que severamente punio, e com grande excesso no Duque de Bragança D. Fernando II. mandando-o degollar na praça de Evora em 21 de Junho de 1483, tragedia reputada horrivel, como effeito da causa, cujas circunstancias naõ mereciaõ tanto rigor,[686] sendo na verdade o Duque Cavalheiro, conforme o juizo de todos, merecedor de melhor fortuna, como bem adverte o elegantissimo Marquez de Alegrete.[687]

100 Foy ElRey D. Joaõ Principe de coraçaõ intrepido, como o deu a conhecer em varias occasiões;[688] de hum engenho muy vivo, e desembaraçado, que nunca se deixou governar de outrem, parecendo-lhe que naõ merecia chamarse Rey aquelle, cuja vontade pendia de arbitrio alheyo. Nunca tardou em fazer mercês, e remunerar serviços, e o que havia de dar, o dava logo, e muitas vezes sem lho pedirem, trazendo occultamente hum livro com os nomes das pessoas benemeritas. As mesmas dadivas mandava distribuir por outras pessoas de outros Reinos, que lhes serviaõ de promptas, e diligentes espias, ardil, que lhe grangeou a sciencia politica de muitos negocios, e segredos reconditos.[689]

101 Attendeo muito ao bem publico, e por conta desta conservaçaõ desfez muitos abusos, e fez com que se evitassem as casas de jogo, mandando queimar huma, onde concorria mais gente, em cuja acção deixou aos vindouros hum exemplo mais digno de se imitar, que imitado.[690] Publicou tambem leys, em que prohibia todo o excesso de galas, e tudo o que podesse causar destruiçaõ na fazenda, e bons costumes de seu povo. Deu muitas provas da verdade, com que amava a Religiaõ Christã: fez todo o excesso, para que os Judeos, que se vieraõ refugiar em Portugal, se reduzirem à Fé de Christo, obrando a generosa acção de lhes mandar dar embarcações para se irem os que não quizeraõ converterse.

102 As fundações dos Templos saõ tambem sufficiente prova da sua Religiaõ. Elle deu principio à magnifica Igreja do Hospital Real de Lisboa, e lançou a primeira pedra nos alicerces do Mosteiro de Jesus de Setubal, e deu nova Casa às Commendadeiras de Santos no Convento, onde hoje existem em Lisboa. Dispoz que na sua Capella Real se rezassem em Coro as Horas Canonicas, estabelecendo rendas para isso. Aspirando à gloria de fama perduravel, descubrio com suas frotas o Reino do Congo, e nelle fundou Igreja, onde se bautizou o Rey com seus filhos, e bastante parte do povo. Abrio o caminho à navegaçaõ das Indias Orientaes, e solicitou descubrir incansavelmente por mar, e por terra a costa de Africa até aquelle tormentoso Cabo, a que chamou de Boa Esperança, pelas que se abriaõ do descubrimento da India.

103 Taõ grandes brados tinha dado a fama das suas acções, que alguns Principes estrangeiros vieraõ a Portugal de proposito somente para o ver; porque sem duvida na liberalidade, na justiça, na piedade, na generosidade, e na Religião foy singularissimo, recto, admiravel, pomposo, e Catholico, e assim acabou com a fama de Principe perfeito em 25 de Outubro de 1495 na Villa de Alvor com suspeitas de lhe terem dado veneno. Viveo quarenta annos, cinco mezes, e vinte e dous dias: reinou quatorze annos, hum mez, e vinte e cinco dias. Foy sepultado na Sé de Sylves, donde passados quatro annos, ElRey D. Manoel lhe trasladou seu corpo para o Convento da Batalha, onde se conserva incorrupto, sinal, que alguns pertendem attribuir aos que saõ predestinados.[691]

D. Manoel decimo quarto Rey.

104 Parece, como bem disse o nosso Homero,[692] que Deos tinha escolhido a ElRey D. Manoel para ser Monarca entre os de Portugal o mais venturoso. Logo no seu nascimento começou a experimentar o Ceo propicio; porque achando-se na Villa de Alcochete sua mãy a Infanta Dona Brites vencida das dores de parto, e com evidente perigo, quasi milagrosamente o deu à luz no mesmo ponto, que lhe passava pela porta o Santissimo Sacramento na Procissaõ solemne do Corpo de Deos, por cuja mysteriosa causa se lhe impoz o nome de Manoel, e por cuja notavel circunstancia de Festa, e Procissaõ infere, e assina judiciosamente o Beneficiado Francisco Leitaõ Ferreira,[693] que o verdadeiro dia natalicio deste Monarca foy no primeiro de Junho de 1469, porque a letra Dominical daquelle anno, que foy A, assim o insinua, prova irrefragavel, que convence a contraria opiniaõ de todos os que collocaraõ este feliz nascimento no ultimo de Mayo do mesmo anno.

105 Era D. Manoel Duque de Béja, e de Viseu, filho do Infante D. Fernando, e neto delRey D. Duarte; e com haver nascido sem esperança de reinar, succedeo no Reino depois de ver como para conseguir esta felicidade lhe hiaõ fazendo lugar com a morte algumas pessoas, a quem tocava a successaõ. Subio finalmente ao Throno em 27 de Outubro de 1495, estando em Alcacer do Sal, donde veyo logo a celebrar Cortes na Villa de Montemór o Novo, dando principio ao governo mais feliz, que vio o Reino com a reforma, que fez dos Ministros, e Officiaes de Justiça, e boa arrecadaçaõ da fazenda.[694]

106 Como bom Catholico se lembrou logo da obediencia à Igreja, e assim despedio para Roma promptamente hum Embaixador, para dar noticia ao Pontifice da sua investidura do Reino de Portugal, mandando tambem pedir ao mesmo Papa, que era Alexandre VI. a impetra, para que os Cavalleiros das Ordens Militares podessem casar, como com effeito lhes concedeo,[695] e com a mesma protecçaõ augmentou a Ordem de Christo em gloria, e renda.

107 Imitando o louvavel exemplo dos Reys de Castella, mandou expulsar fóra do seu Reino aos Mouros, e Judeos, excepto os que se quizeraõ converter à Fé de Christo;[696] e logo em Outubro do anno 1497 recebeo por mulher a Senhora Dona Isabel, viuva do nosso Principe D. Affonso, filho delRey D. Joaõ II. e ella filha dos Reys Catholicos D. Fernando, e Dona Isabel.

108 Se pertendessemos narrar todas as acções memoraveis deste Monarca, fariamos hum grande volume; sirva ao menos a expressaõ desta impossibilidade, segundo a ligeireza do estylo, que guardamos, para provar a sua grandeza. O certo he, que na regencia delRey D. Manoel foy o Reino de Portugal elevado ao mayor gráo do seu esplendor. Então se viraõ quebrantadas as forças dos Reys Africanos; entaõ se acabou de descubrir a navegaçaõ da India Oriental, que ElRey D. João II. havia premeditado, sendo o inclyto Heroe Vasco da Gama o primeiro, que no anno de 1497 logrou a gloria de abordar as prayas de Calecut, e introuduzir o commercio das suas preciosas especiarias em Portugal, naõ obstante a grande resistencia, e embaraço, que a isso fizeraõ os Venezianos.[697]

109 Accrescentou D. Manoel a seu Imperio naõ pequena parte da Ethyopia, Persia, India, dentro, e fóra do rio Ganges, o Brasil, e innumeraveis Ilhas do Oceano até alli incognitas. Sujeitou, muitos Reys; e estando taõ apartados por tanto espaço de mar, e terra, os fez tributarios: outros se fizeraõ confederados, e amigos. Venceo muitas vezes na India as armadas do Soldaõ de Babylonia, e de outros poderosissimos Reys Orientaes. Plantou a Religiaõ Christã na Ethyopia, India, e outras partes do mundo ainda naõ allumiadas com a luz do Evangelho, favorecendo, e amparando aos convertidos. Libertou o estado Ecclesiastico de tributos, e pensões, e dos mesmos aliviou aos mais vassallos, dando novos foraes às terras, de que mandou formar cinco livros, que se conservaõ na Torre do Tombo.

110 Para mayor augmento da sua felicidade se vio jurado Rey de Castella em 28 de Abril de 1498,[698] cuja posse, e titulo brevemente possuio pela intempestiva morte da Rainha Dona Isabel sua esposa, herdeira daquelle Reino. Fundou Templos, que podem competir com os melhores de Roma.[699] Fez nadar em ouro o Reino, e quasi chover em Portugal perolas, e diamantes; em tal fórma, que se chamou idade de ouro a em que reinou D. Manoel como bem mostra Manoel de Faria.[700] Agradecido aos continuados beneficios com que Deos lhe dilatava o Imperio, quiz religiosamente gratificallos ao Senhor, mandando ao Papa Leaõ X. entaõ reinante, offerecerlhe, e tributarlhe como a Vigario de Christo na terra, as primicias das riquezas da India, e Etiopia. Para isso dispoz huma Embaixada, que a 12 de Março de 1514 fez Tristaõ da Cunha com tanta magestade, pompa, e grandeza, que nunca se vio semelhante em Roma.[701] Em fim naõ houve prosperidade, que elle naõ abraçasse, parecendo ser disto auspicio a grandeza dos braços, que tinha mayores que nenhum outro homem. Tambem amparou as letras grandemente;[702] e cheyo de taõ heroicas acções fechou o gyro de seus dias aos 13 de Dezembro de 1521 pelas nove horas da noite, achando-se em Lisboa nos Paços da Ribeira, tendo de idade cincoenta e dous annos, seis mezes, e dous dias, dos quaes reinou vinte e seis annos, hum mez, e dezoito dias. Jaz no Real Convento de Belém extra muros de Lisboa, que elle mandou edificar para seu jazigo.

D. Joaõ III. decimo quinto Rey.

111 Succedeo no Throno a ElRey D. Manoel seu filho D. Joaõ III. que havia nascido em Lisboa a 6 de Junho de 1502, dia memoravel pela horrivel tempestade, que houve no Reino de trovões, rayos, e coriscos.[703] Foy acclamado a 19 de Dezembro de 1521, fazendo-se o acto à porta do Convento de S. Domingos de Lisboa. Os principios do seu reinado foraõ tecidos com egregias acções de piedade, clemencia, e generosidade, adquirindo-lhe estas virtudes amor de seus vassallos, e a estimaçaõ de todos os Principes da Europa.

112 Foraõ os seus primeiros cuidados proseguir logo vivamente as conquistas da India, em que os Portuguezes obraraõ façanhas de eterna memoria, e este mayor projecto lhe fez relaxar aos Mouros de Africa quatro Praças principaes, Alcacer, Arzila, Çafim, e Azamor, de que tanto se lamenta Manoel de Faria,[704] e a cujo consentimento attribue o mayor desacerto deste Rey, ou de seus Conselheiros. Melhorou esta acçaõ, impetrando do Papa Clemente VII. o veneravel Tribunal da Inquisiçaõ para este Reino. Reformou muitas das Religiões, que hiaõ descahindo da sua primitiva observancia. Admittio em Portugal a Religiaõ denominada da Companhia de Jesus, e lhe instituio em diversas partes do Reino Collegios; devendo-se a este Monarca a gloria da conversaõ da gentilidade em taõ continuados progressos na Asia, Africa, e America, que naquelles primeiros tempos souberaõ plantar com zelo aquelles Religiosos.

113 Descubrindo ElRey alguns inconvenientes de haver na Corte estudos publicos, removeo a Universidade outra vez para Coimbra no anno de 1534 conforme dizem huns,[705] e segundo outros no de 1537,[706] mandando vir a este respeito, e com grandes dispendios os melhores Mestres de letras, que havia na Europa,[707] de sorte que restabeleceo em Coimbra a mais florente Academia das sciencias; e extendendo-se este louvavel affecto para as Conquistas, mandou estabelecer tambem na India escolas para as artes, e sciencias.[708]

114 Por sua instancia se erigiraõ no Reino os tres Bispados de Leiria, Portalegre, e Miranda, e outros nas Conquistas; e levantando em Metropolitana a igreja Cathedral de Evora, reedificou o sumptuoso aqueducto desta Cidade, que se hia arruinando. Continuou o edificio Regio de Belém, e fez outros de novo em publica utilidade, como foy a Alfandega, as Tercenas, os Armazens, e a Torre do Tombo.[709] Para a boa administraçaõ da Justiça instituio o Tribunal da Mesa da Consciencia, e Ordens, e para os mais Tribunaes teve o dom de saber escolher Ministros proporcionados. Amou muito a paz, e por isto dizia, que mais perdia no que se gastava na guerra, ao que lucrava com o que alcançava na vitoria. Finalmente assim nas cousas da paz, como nas da guerra foy ElRey D. Joaõ Principe admiravel, nascido para beneficio dos homens, amparo dos humildes, e estranhos, verdadeiro conservador do culto Divino, e propugnaculo da Religiaõ Catholica. Morreo em Lisboa aos 11 de Junho de 1557, e aos cincoenta e cinco annos, e cinco dias da sua idade, e de governo trinta e cinco annos, e seis mezes. Jaz no Convento de Belém junto de seu grande Pay. Foraõ muitas as lagrimas, que o povo derramou na sua morte, a qual foy tida por termo, que o Ceo punha às felicidades do Reino.

D. Sebastiaõ, decimo sexto Rey.

115 Foy ElRey D. Sebastiaõ filho do Principe D. Joaõ, e da Princeza Dona Joanna, e neto delRey D. Joaõ III. Nasceo em Lisboa posthumo a 20 de Janeiro de 1544, e dahi a tres annos, morrendo seu Avô, ficou herdando o Cetro, mas sujeito à tutoria da prudentissima Rainha Dona Catharina, e aos preceitos de seu Ayo D. Aleixo de Menezes, e dos do Padre Luiz Gonçalves da Camera, ambos Fidalgos illustres, os quaes em toda a sua educaçaõ lhe inspiraraõ o amor da justiça, e o zelo da Religiaõ Christã.

116 Como os espiritos deste Principe eraõ generosos, e cheyos de hum grande, e admiravel desejo de aquirir gloria, começou logo a idear emprezas verdadeiramente temerarias para a sua idade; de sorte, que chegando aos quatorze annos, se resolveo tomar posse do governo em 20 de Janeiro de 1568, e entaõ dando-se todo ao aspero exercicio das armas, e da caça, fazia brio de se mostrar intrepido, e destemido em todas as occasiões. Quando os ventos, e as ondas andavaõ mais irados, então sahia fóra da barra a lutar com a tempestade; e em fim as suas acções eraõ todas imagens de seu precipicio, como bem diz Manoel de Faria.[710]

117 Tanto confiava em seu valor, que tinha para si podia conquistar todo o mundo; e como sempre sahia bem dos perigos, em que se mettia, se lhe augmentavaõ cada vez mais os desejos de principiar pela conquista de Africa. Este santo intento trouxe quasi do berço, e para o executar se dirigiaõ os seus cuidados, e pensamentos, que assoprados com a lisonja dos que se queriaõ conformar com o seu fogoso genio, mais lhe accendiaõ no peito deliberações temerarias. Praticou-as, passando primeiramente no anno de 1574 a discorrer pelas terras de Tangere, e Ceuta, onde fazendo differentes correrias, e escaramuças, assustou os barbaros, mas vio a difficuldade, a que a sua ambiçaõ aspirava.

118 Todavia succedendo despojar Muley Maluco dos Reinos de Marrocos, e Fez a seu sobrinho Muley Hamet, este se veyo valer do nosso Rey, offerecendo sua pessoa, e os que o seguiaõ. Preparou-se D. Sebastiaõ para soccorrer a Hamet, e atropellando todos os conselhos prudentes, que lhe dissuadiaõ esta perigosa, e incauta jornada, sahio do porto de Lisboa em 24 de Junho de 1578, anno, e dia taõ infaustos para Portugal.[711] Compunha-se o exercito delRey de dezoito mil homens, dos quaes eraõ tres mil Castelhanos, tres mil Alemães, novecentos Italianos, e os mais Portuguezes, gente a mais luzida, e lustrosa, que havia no Reino, mas sem exercicio militar.

119 Chegou a Arzila, e logo achou aqui na mostra, que mandou passar, diminutos os Regimentos, que naõ passavaõ de doze mil homens. Constava porém o exercito inimigo de cento e cincoenta mil, a mayor parte de cavallo, de cujo fatal numero opprimidos os nossos ficaraõ vencidos a cinco de Agosto do mesmo anno de 1578, dia de Nossa Senhora das Neves, eclipsando-se nesta infeliz, e lastimosa batalha toda a gloria, e lustre Portuguez nos campos de Alcacere, os quaes ficaraõ memoraveis pelos tres Reys, que alli morreraõ. Bem he verdade que ninguem verifica ter visto morrer na batalha a ElRey D. Sebastiaõ, nem depois com certeza o tornaraõ a ver, donde tomaraõ alguns motivo para esperar por elle, delirio, que com teimosa tradiçaõ permaneceo bastante tempo, pertendendo os seus sequazes em taõ fanatica esperança fazer verdadeiramente crer, que este lamentavel Monarca fosse entre os homens outra ave Fenix, da qual dizem que existe, mas ninguem a vio. Mons. de la Clede assenta,[712] que ElRey naõ morrera no conflicto de Alcacere, mas sim no Castello de San Lucar de Barrameda, opiniaõ, que os nossos Escritores naõ admittem.

120 A noticia desta fatalidade trouxe a Portugal grande confusaõ; porque depois della naõ se via, nem ouvia em todos mais que lagrimas, e impaciencia pela perda geral de hum Reino sem successaõ, e de hum Rey extincto na flor da sua idade, e com elle a flor da Nobreza, vindo-se a concluir todo este catastrofe com as exequias, que se celebraraõ com a possivel expressaõ de sentimento, até que passados quatro annos chegou a Lisboa, mandado pelo Xarife, o corpo, que diziaõ ser delRey D. Sebastiaõ, e se mandou sepultar no Convento de Belém, onde jaz todavia com a incerteza, que indica a inscripçaõ do seu epitafio,[713] o qual dia assim:

Conditur hoc tumulo, si vera est fama, Sebastus,
Quem tulit in Lybicis mors properata plagis.
Nec dicas falli Regem qui vivere credit,
Pro lege extincto mors quasi vita fuit.

D. Henrique, decimo setimo Rey.

121 Tanto que a triste nova da perda delRey D. Sebastiaõ chegou a Portugal, elegeraõ, e acclamaraõ os Tres Estados do Reino ao Cardeal D. Henrique, filho delRey D. Manoel, que entaõ se achava na avançada idade de sessenta e seis annos, contados desde 31 de Janeiro de 1512 em que nasceo. Era elle ornado de excellentes dotes, e virtudes, muy pio, e temente a Deos, e em tudo mostrou quanto era capacissimo para o Baculo, e para o Cetro. Amou as sciencias, amparou a orfandade, soccorreo a pobreza, confundio as heresias, restaurou Templos, e em fim foy Pastor, e Rey sem embaraçar com as desculpas de Monarca os empregos de Sacerdote.[714]

122 Acclamado porém a 28 de Agosto de 1578 por legitimo Rey, e successor de Portugal, cuidou logo no resgate dos Fidalgos, e mais gente, que ficaraõ cativos na fatal batalha de Alcacere, em que dispendeo muito dinheiro; porém como os achaques, e a idade já decrepita lhe diminuiaõ as forças attenuadas, e comprimidas tambem pelas negociações, e governo de huma Monarquia decadente pela falta de successaõ, muitos Principes da Europa estavaõ attentos naõ só ao fim, que por instantes esperavaõ haver no Reino, mas como se Portugal fora herança, que a todos lhes pertencesse.

123 Eraõ os oppositores cinco descendentes delRey D. Manoel, que pertendiaõ herdar o Reino por linha transversal, além de outros pertendentes, que todos fizeraõ sua opposiçaõ, como foy a Rainha de França Dona Catharina, por allegar que descendia delRey de Portugal D. Affonso III. e de Dona Matilde sua primeira mulher, mas foy exclusa sua pertençaõ por improvavel. Tambem a Sé Apostolica pertendia que fosse huma Coroa o espolio de hum Capello vago, mas naõ se fez caso da pertençaõ do Pontifice, porque na presente opposiçaõ só se tratava dos descendentes delRey D. Manoel, como se vê na Taboa seguinte.

ElRei D. Manoel entre outros filhos teve A Infanta Dona Isabel Imperatriz, que casou com Carlos V. Imperador, e teve aFilippe II. Rey de Castella 1. pertendente
A Infanta Dona Brites, que casou com D. Carlos Duque de Saboya, e teve a Manoel Filisberto Duque de Saboya, e Principe de Piemõte 2. pertendente.
O Infante D. Luiz Duque de Béja naõ casou, mas de Violante Gomes, chamada a Pelicana, teve a D. Antonio Prior do Crato, 3. pertendente.
O Infante D. Duarte Duque de Guimarães casou com Dona Isabel filha de D. Jayme Duque de Bragança, e teve a D. Maria, q casou com o Principe de Parma, de quem teve aRainucio Principe de Parma, e 4. pertendente.
D. Catharina que casou com D. Joaõ Duque de Bragança 5. pertendente.

Destes foy excluido o Prior do Crato por illegitimo, o Duque de Saboya por estrangeiro, o Principe de Parma por falta de representaçaõ, pois já era bisneto, e tambem porque sua Mãy, casando fóra do Reino, perdeo o direito, que a elle podia ter, como se mostra das Cortes de Lamego; de sorte que só ElRey Filippe, e a Senhora Dona Catharina, como estavaõ em igual gráo, tinhaõ jus para a pertençaõ, e mayor a Senhora Dona Catharina.

124 Naõ queria ElRey D. Henrique decidir este ponto, e assim nomeou em Cortes Juizes para a decisaõ delle, e cinco Governadores para sentenciarem a quem verdadeiramente tocava o Reino; e depois passando-se para Almeirim por causa da peste, que já lavrava em Lisboa, veyo a falecer em 30 de Janeiro de 1580 com sessenta e oito annos de idade, e dezasete mezes de governo. Houve hum grande eclipse da Lua na mesma noite, em que espirou, e hum geral sentimento, porque todos viaõ com aquella morte o Reino tambem eclipsado. De Almeirim foy conduzido seu corpo para Belém, onde agora jaz em nobre sepultura, que lhe mandou fazer o Senhor Rey D. Pedro II. no anno de 1682, e por causa da trasladaçaõ foy visto, e achado seu corpo inteiro, depois de terem passado cento e dous annos, por cujo sinal he crivel esteja gozando da Bemaventurança.

125 Com a morte delRey D. Henrique começaraõ os cinco Governadores a usar do Cetro; mas taõ desunidos, temerosos, e abalados, que cada hum seguia o partido dos oppositores, a que a propensaõ o inclinava, ou talvez o attractivo do interesse. Muito mais ficaraõ perplexos, quando viraõ que ElRey D. Henrique no seu testamento naõ attendera mais que às cousas da sua alma, deixando as do Reino ao arbitrio dos Juizes.

126 O Prior do Crato, ainda que estava excluido, tornou a fomentar a sua pertençaõ; e adquirindo algum sequito de gente popular, esta o acclamou Rey em Santarem a 14 de Junho de 1580,[715] e logo passando-se a Lisboa, soltou os prezos do Limoeiro, aposentou-se nos Paços da Ribeira, começou a passar Provisões, mandar bater moeda, e finalmente a intitularse Rey, seguindo a sua facçaõ algumas Villas do Reino.

127 Sabendo ElRey D. Filippe de Castella as operações, que em Lisboa executava o Prior do Crato, despedio hum sufficiente corpo de exercito de mais de vinte mil homens,[716] e dous mil gastadores, commandados pelo grande General o Duque de Alva; e chegando a Setubal sem resistencia alguma, fez transito a Lisboa, onde alojou suas tropas junto da ponte de Alcantara. No dia seguinte, que se contavaõ 26 de Agosto de 1580, pelas dez horas da manhã atacou D. Antonio, Prior do Crato, ao exercito Castelhano; porém este desbaratou os esquadrões Portuguezes,[717] e D. Antonio se poz em salvo, passando ao depois varia fortuna até vir a morrer em Pariz no anno de 1595.

128 Pacificada algum tanto a furia dos vencedores, que naõ fez pequeno damno aos arrabaldes de Lisboa, os Governadores della entregaraõ as chaves ao Duque, o qual mandou logo presidiar o Castello com tres mil Castelhanos, e muita artelharia, e a Nobreza do Reino foy à sua presença dar obediencia ao novo Rey introduzido, que à força de armas, invadindo o Reino, decidio o litigio a seu favor, sem esperar pelo acordaõ dos Jurisconsultos contra todo o Direito, e boa consciencia.[718]