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Memoria sobre a cultura, e productos da cana de assucar

Chapter 8: PROEMIO.
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About This Book

The work provides a practical manual on sugarcane cultivation and product manufacture, combining a botanical description of the cane with detailed guidance on planting, spacing, propagation, harvesting and mill and distillation techniques for producing sugar and aguardente. It critiques prevailing local practices and management, attributing low yields to poor organization and ignorance, and advocates empirical trials, clearer oversight and adoption of improved methods. Detailed observations and comparative recommendations aim to help plan experiments, reduce waste and increase productivity across plantations and processing facilities.

Nota de editor: Devido à quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.

Rita Farinha (Abr. 2008)



MEMORIA
SOBRE A CULTURA, E PRODUCTOS
DA
CANA DE ASSUCAR

OFFERECIDA

A S. ALTEZA REAL.

O PRINCIPE REGENTE
NOSSO SENHOR.
PELA
MESA DA INSPECÇAÕ DO RIO DE JANEIRO.

APRESENTADA POR
JOZE CAETANO GOMES,
E DE ORDEM DO MESMO SENHOR PUBLICADA
POR Fr. JOZE MARIANO VELLOSO.




LISBOA:
Na Offic. da casa litteraria do arco do cego.


Anno M. D CCC.




SENHOR.



A Mesa da Inspecção do Rio de Janeiro, desejando conformar-se com os ardentes desejos, que V. A. R. tem de fazer felices os Habitadores do Brasil, por huma bem entendida Agricultura, e desta sorte satisfazer tambem as suas Reaes Ordens, recomendou a Jose Caetano Gomes, que lhe apresentasse as reflexões, que os seus vastos conhecimentos lhe tivessem subministrado, sobre a factura do Assucar nos Engenhos do Rio de Janeiro, a que elle satisfez no dia 16 de Março do anno proxime passado de 1799., lendo perante ella a presente Memoria, que, sendo dirigida a V. A. R., se dignou ordenar-me, que houvesse de a fazer imprimir, em beneficio de seus fieis vasallos dos vastos dominios, naquelle Continente.

Como pois André João Antonil no seu livro da Cultura, e opulencia do Brasil, não faz mais, que dar huma simples relação do modo de cultivar a Canna, extrahir Assucar no Brasil, creio, SENHOR, ou talvez posso assegurar, que, sobre este objecto, esta he a primeira cousa, ou a unica melhor escripta em nossa linguagem pelas sabias, e luminosas reflexões, com que a enriquece, e que seu Author he digno das Soberanas vistas de V. A. R., a cujos pés se prostra

O mais humilde vassallo

Fr. Jose Mariano da Conceição.



PROEMIO.



Sendo a Provincia do Brasil considerada como melhor Colonia do Mundo, não se sentindo em toda ella nenhum dos flagellos da natureza, pois não há terremotos, furacões, volcões, fomes, nem pestes; gozando de hum clima benigno, e, á excepção de poucas trovoadas, que servem de depurar o seu ár, e concorrendo todas as causas fysicas, com huma vegetação sempre activa, para fazerem a felicidade dos seus habitantes, não se poderia comprehender, o não ter chegado este bello paiz ao maior gráo de prosperidade possivel, se se não soubesse, que as causas moraes, podem tanto, ou mais que as fysicas, para deteriorar o melhor terreno.

A Agricultura, a primeira, a mais util das Artes, que nutre a todas, e faz a base da prosperidade, e força dos Estados, não sahio ainda da infancia no Brasil; todas as plantas são cultivadas por costume, e sem principios; as luzes da Europa culta chegão cá tão fracas, que não podem aclarar-nos; as couzas mais triviaes, de que podíamos ter abundancia, não se sabem trabalhar. A Canna de Assucar sendo o vegetal mais precioso, comparado o seu producto, com o que tirão os Estrangeiros das Antilhas, he menos de ametade. Entregue a sua cultura á escravos conduzidos por hum feitor, sem mais talentos que, os que lhe suggere a sua ferocidade; a manufactura do Assucar, e da aguardente, executada por ignorantes, que não sabem a razão dos factos, nem conhecem a natureza das differentes partes, que constituem os liquidos, sobre que trabalhão; os donos das fábricas olhando com indifferença para todos estes objectos, julgando-os indignos da sua applicação; não he de admirar, que desta sorte haja o atrazamento, que se vê na cultura, e producto da Cana de Assucar.

Conheço alguns Senhores de engenho, que se distinguem pela sua instrucção; para estes não he que escrevo; a minha obra he dirigida sómente, aos que sabem ainda menos do que eu, e que estão inteiramente entregues á disposição dos seus obreiros. A cultura actual, respeito á que se propõem, faz huma grande differença. Quem está costumado a plantar Cana na distancia de hum, a dois palmos, e que assim se dá bem, difficilmente poderá conceber, que, plantando na de seis, lucrará mais. Ainda que a razão, e a experiencia fação conhecer, que as plantas devem ser afastadas humas das outras, segundo a sua grandeza, e a quantidade de succos, de que carecem, não pertendo que se adopte o novo methodo, sem que cada hum se convença por si mesmo da sua efficacia. Plante-se hum quadrado de doze braças, que deve conter quatrocentas covas de Cana, segundo o methodo que se propoem; plante-se outro quadrado igual, na mesma qualidade de terra, segundo o methodo que se pratica; faça-se assento da despeza de huma, e outra cultura separadamente; apure-se o producto destas duas especies de plantação; deduzão-se-lhe as respectivas despezas e a resulta que se achar he o que se deve seguir. As experiencias em pequeno não arruinão a alguem, e podem ser seguidas de grandes utilidades. O que digo sobre a cultura da Cana, e lembro a respeito ás suas dependencias, manufactura do Assucar, e aguardente; he o que me parece melhor; porém cada hum deve ver por si mesmo, e fazer tudo o que a experiencia lhe mostrar mais util.


DESCRIPÇAÕ
DA
CANNA DE ASSUCAR,

SEGUNDO A VISTA
QUE APPRESENTA.



A canna de Assucar, tem a apparencia das outras cannas destituidas de medulla; he huma planta da familia das gramineas; como ellas, he cheia de articulações, ou nós, que distão huns dos outros, de meia até quatro pollegadas, segundo a bondade do terreno, produzindo huma folha em cada articulação, ou nó, cercada de pequenas raizes, onde há hum botão, ou olho, destinado a ser canna, se se deposita na terra. Estes espaços entre cada articulação, a que se chama gomos, são cheios de huma medulla esponjosa, elastica, succosa, doce, cuberta de huma casca pouco dura, lenhosa, que se deixa penetrar pela unha; destinada a se extrahir della hum sal essencial, que se chama Assucar. O seu comprimento, ou altura, he de seis, a doze palmos, segundo o terreno, na Cappitania do Rio de Janeiro, e de oito, a doze linhas de diametro. Succede adquirir algumas braças de comprido, se cahe, e as raizes, que circundão os nós, introduzindo-se na terra, fazem collos; porém só o que sobe ao ár depois da ultima raiz, he que tem doçura, tudo o mais he perdido. A Natureza tem destinado dezoito mezes a esta planta para chegar á sua perfeição; se he colhida antes, ou depois deste termo, o rendimento he menor em proporção que delle se afastão; porém com maior prejuizo depois, que antes da madureza. Isto he relativo á Estação; grandes sêccas, ou grandes chuvas, accelerão, ou retardão esta colheita.

Ainda que, como outra qualquer planta, a Canna de Assucar floreça, e dê semente, a fórma de se multiplicar, he lançar na terra pequenas estacas tiradas da parte superior da Canna, onde não tem doçura; porém isto só póde fazer-se, quando a plantação he ao mesmo tempo, que a colheita, fóra disto toda a Cana desde a raiz he empregada em estacas.

Como se cultiva actualmente a Canna de Assucar.


Cada plantador de Canna, segundo as suas faculdades, vai com dez, vinte, quarenta, ou mais escravos com enxadas, limpar de todas as hervas huma certa porção de terra, onde quer fazer aquillo a que se chama partido.

As plantas, ervas, ou capins arrancados, ou cortados com a enxada, são sacudidos da terra pelos mesmos escravos, que trabalhão enfileirados, juntos em pequenos monticulos, para no caso de sobrevir chuva, não pegarem as raizes na terra. Depois da terra capinada, ou limpa de plantas, vão os escravos abrir covas com a mesma enxada; cujas covas são huma especie de regos, de duas, a tres pollegadas de profundidade, na distancia huns dos outros, de hum palmo, a palmo e meio; e se suppõem a terra muito boa, chegão a dois palmos. São lançadas nestes regos duas estacas de Canna, de palmo e meio de comprido, e se cobrem com a mesma terra, que se tirou da cova. Faz-se esta plantação em dois tempos; hum quando se moe para aproveitar os olhos da Canna, que he a parte superior della, de Junho até Setembro; o outro em Março, que se tem pela melhor plantação, a qual se faz então com as estacas tiradas de toda a Canna, que se não moeo, com o fim mesmo de se plantar neste tempo. He de costume a qualquer das duas plantações dar duas capinas, ou limpas. A Canna plantada de Junho a Setembro, he moida no anno seguinte com doze a quatorze mezes; a plantada em Março, de dezoito a vinte mezes; huma, e outra se deixa ficar por não se poder moer, para Canna velha; planta-se, ou moe-se na safra subsequente. Da Canna, que se cortou, colhe-se a sócca no anno seguinte, e dahi todos os annos as ressócas, em quanto no terreno brotão Cannas. Ainda que se conheça, que estas ressócas rendem progressivamente ametade, as ultimas em respeito ás antecedentes, todos as aproveitão quanto podem. Alguns lavradores, rarissimos, se tem servido do arado para fazer os regos, e de algum estrume nas terras já cançadas, porém o numero he tão diminuto, que não merece entrar em linha de conta; o geral he limpar a terra a braço, ajuntar o capim, fazer covas com a enxada sem ali huns dos outros, de hum palmo, a palmo e meio; e se suppõem a terra muito boa, chegão a dois palmos. São lançadas nestes regos duas estacas de Canna, de palmo e meio de comprido, e se cobrem com a mesma terra, que se tirou da cova. Faz-se esta plantação em dois tempos; hum quando se moe para aproveitar os olhos da Canna, que he a parte superior della, de Junho até Setembro; o outro em Março, que se tem pela melhor plantação, a qual se faz então com as estacas tiradas de toda a Canna, que se não moeo, com o fim mesmo de se plantar neste tempo. He de costume a qualquer das duas plantações dar duas capinas, ou limpas. A Canna plantada de Junho a Setembro, he moida no anno seguinte com doze a quatorze mezes; a plantada em Março, de dezoito a vinte mezes; huma, e outra se deixa ficar por não se poder moer, para Canna velha; planta-se, ou moe-se na safra subsequente. Da Canna, que se cortou, colhe-se a sócca no anno seguinte, e dahi todos os annos as ressócas, em quanto no terreno brotão Cannas. Ainda que se conheça, que estas ressócas rendem progressivamente ametade, as ultimas em respeito ás antecedentes, todos as aproveitão quanto podem. Alguns lavradores, rarissimos, se tem servido do arado para fazer os regos, e de algum estrume nas terras já cançadas, porém o numero he tão diminuto, que não merece entrar em linha de conta; o geral he limpar a terra a braço, ajuntar o capim, fazer covas com a enxada sem alinhamento, plantar sem estercar, fazer toda a plantação em hum, ou dois partidos, fugindo de terras virgens, porque, assim como as muito estercadas, ou estrumadas, fazem a Canna, a que se chama taioba, quero dizer, muito aquosa, muito oleosa, e pouco assucarada.

Notas sobre esta fórma de plantação.


Sendo a Canna de Assucar huma planta, destinada pela Natureza a alcançar doze, dezaseis, vinte, e mais palmos de altura, segundo o terreno, e até pollegada e meia de diametro, não he possivel que possa prosperar plantando-se tão junta; porque rouba huma a substancia da outra. Tambem as covas, ou regos, em que se planta, não tem bastante profundidade; duas, ou tres pollegadas não bastão para a suster.

Plantando-se sem alinhamento, em confusão, nunca o sol, e o vento podem aperfeiçoar o seu succo. Fazendo-se a plantação em hum, ou dois partidos, póde pegar o fogo em ambos, o que succede algumas vezes, e fica seu dono empobrecido. A experiencia tem feito conhecer, que todos os fructos doces carecem do Sol, e ár para alcançar a sua perfeição, e que o mesmo sol bata a nu sobre a terra, que cobre as suas raizes; não se reunindo estas circumstancias, os fructos se deteriorão á proporção. Em Portugal as uvas, a que chamão de forcado, são sempre imperfeitas, porque as arvores, que as cobrem, lhes roubão a luz. As larangeiras no Brasil, cubertas de erva de passarinho, dão, pela mesma causa, laranjas pouco doces.

Ainda que estas larangeiras estejão limpas da mesma herva, ainda que estejão n'hum campo solitarias; se a terra, por onde estão permeadas as suas raizes, está cuberta de herva, ou capim, que impeça a luz de bater sobre ella, os fructos são sempre azedos.

Nenhum author, que trate da Canna de Assucar, manda plantalla em menos distancia, que a de tres pés, e alguns querem seis, e sete, que são nove, e dez palmos e meio de cova a cova: isto ha de parecer hum paradoxo aos nossos lavradores, que até tem hum ditado: quero canna mil, e não gentil. Porém da perfeição, com que nas Colonias estrangeiras se faz esta cultura, a mais preciosa d'America, he que tem procedido o gráo de prosperidade, a que se tem elevado, e de que somos privados, por seguirmos sómente hum trilho cégo, e sem reflexão.

Theoria para a cultura da Canna de Assucar.


O Que vou dizer he hum extracto do que tenho visto sobre esta materia. Os principios para a cultura da terra, segundo os Antigos, que suppunhão as raizes das plantas, como os unicos orgãos para receber a sua nutrição, consistião em lavrar a terra com diversos instrumentos para a pôr bem movel, estrumalla, e depois de hum certo numero de colheitas, dar-lhe descanço, quero dizer, conservalla limpa sem nutrir planta alguma. Os estercos, e estrumes de que se servião, era toda a especie de excrementos de animaes, e vegetaes podres. Os modernos adoptando os mesmos principios, instão por mais lavras; dão o descanço nos grandes intervallos, que deixão entre planta e planta; estes intervallos são lavrados durante a vegetação; além dos estrumes de que se servião os Antigos, accrescentárão o dos marnes, ou terras saponaceas, e o dos rebanhos nas terras que se propõem cultivar; e alguns Authores não querem esterco, que substituem com lavras, e mais lavras, origem da immensidade de instrumentos, que se tem inventado a este fim. Estes principios são certos em parte, e em parte diametralmente oppostos ao fim que se busca. A quem ignorar os descobrimentos mais modernos, ha de parecer paradoxo o dizer-se, que a terra natural não concorre para a vegetação das plantas; que estas não tirão della alimento algum, e que só serve de alicerce para suster a sua corporeïdade. Há terra vitrescivel, terra calcarea, terra argillosa, ou barro, marne, e humus.

A terra vitrescivel absolutamente esteril, he aquella de que foi composto, e faz a solidez do nosso Planeta. A terra calcarea he o residuo da decomposição dos corpos animaes. A terra argillosa he o residuo da decomposição dos vegetaes.

O marne, ou terra saponacea, he a combinação destas duas especies de terra, variado a infinito com a arêa, ou terra vitrescivel, segundo as proporções da sua mistura. O humus, materia tão preciosa para a vegetação, he a combinação da decomposição dos corpos organisados, vegetaes, e animaes de recente data, que tem a propriedade de dissolver-se n'agua, pelo oleo animal, e sal do vegetal, e com este liquido formar hum sabão, que se transforma em seiba, que he o sangue da planta.

A argilla, ou barro de todas as especies, e as terras calcareas, são humus envelhecido, a quem a decomposição dos animaes phlogisticou, e com o seu gluten, fez tão tenazes as suas partes, que são impermeaveis ás raizes das plantas; porém combinadas com a arêa, ou terra vitrescivel, ficão terras proprias á vegetação. As plantas são viventes,
que tem a faculdade de se reproduzir pela semente, pelo tronco, e pela raiz. A experiencia de Boyle, milhares de vezes repetida, e sempre confirmada, prova com evidencia, que tirão a maior parte da sua nutrição do ár; ellas tem vasos absorventes para receberem o alimento, e vasos exhalantes para se alliviarem do superfluo; ainda que estes orgãos se não percebão á simples vista, a existencia delles he huma verdade. Assim como os animaes dão pasto a differentes especies de insectos, tambem os vegetaes sustentão huma innumeridade delles; cada hum tem os seus. Huma folha que cahe de qualquer planta, causa a morte a milhares de entes invisiveis. O fogo, o ár, a agua, o humus, e a terra concorrem para a vegetação. O fogo he o motor, o ár o agente, a agua o vehiculo, o humus o que faz a seiba.

O fogo como calor, e como luz, faz subir os fluidos nas plantas desde a raiz; a frescura da noite os faz descer, fazendo assim huma especie de circulação, e desta sorte capazes de receber pelos vasos absorventes das suas folhas, do seu tronco, da sua raiz, as partes que os meteoros atmosphericos lhe communicão. A agua muito composta, como elemento, faz com o gáz, ou ár fixo, a parte mais consideravel da planta. O ár como atmospherico, e o receptaculo onde se combinão todas as emanações da natureza, serve de todas as sortes á planta; e o humus faz as partes fixas della. A terra he a matriz da semente, ou planta, que serve de cadêa, ou alicerce para esta se desenvolver, e suster; e a fertilidade que se lhe suppõem, he devida sómente ás partes do humus, que em si contém, boa, ou má, segundo a maior, ou menor quantidade, que encerra desta preciosa materia, segundo a planta; que deve nutrir; deve ser trabalhada, dividida, ter toda a facilidade para receber as aguas das chuvas, dos orvalhos, dos outros meteoros aquosos, todos os principios fecundantes espalhados na atmosphera, e deixar-se penetrar das raizes, que se vão estendendo á proporção que a planta cresce. A abundancia do humus nos terrenos cubertos de mato virgem, quando este mato se derruba, e se põem a terra em cultura, faz prosperar extraordinariamente os vegetaes nella cultivados. Este humus, convertendo-se nas partes solidas das plantas, vai diminuindo a pouco, e pouco; e passados annos fica a terra exhaurida desta preciosa materia, e por consequencia esteril. A experiencia fez conhecer em todos os tempos, que os estrumes, e materias estercoraes reparavão de alguma sorte esta falta, e se usou delles com bom successo; porém que não bastando, era preciso dar descanço a esta terra, descobrindo-a de todas as plantas, lavrando-a muitas vezes, esperando que a atmosphera a fecundasse. Isto he hum grande erro, porque o calor do Sol batendo a nu sobre esta terra, a faz arida, e vindo depois huma chuva, a pequena porção do humus, que em si contém, he levado a outra parte, e por consequencia fica ainda mais empobrecido o mesmo terreno, que com este methodo se quer enriquecer. He evidentemente demonstrado, que para a terra não cançar, adquirir, e conservar o seu humus, e fertilidade, he preciso que esteja sempre cuberta de plantas. Devem cultivar-se aquellas de que se pertende utilidade; quando estas se colherem, lançar a semente de outras de prompto crescimento, que tenhão grandes, e brandas raizes, que cubrão bem a terra, taes como nabos, rabãos, cenouras, batatas, aboboras, etc. e antes de chegarem ao seu total crescimento, serem lavradas, enterradas; e quando tiverem apodrecido, ou estiverem reduzidas a humus, plantarem-se, ou semearem-se aquellas, de que se pertende redito.

Trabalhando-se continuada, e alternativamente desta sorte, podem evitar-se todos os estrumes, e estercos; estes são inventados pelos homens, e o humus he o da natureza. As vargens que estão cercadas de serras, collinas, montes, se estas eminencias se conservão coroadas de matto, são sempre ferteis, porque o humus, que estes mattos estão continuadamente depositando na terra, dissolvido pelas chuvas, vai enriquecer as vargens. As fraldas destas eminencias podem ser cultivadas para pequenos vegetaes, se o angulo, que fizerem, não passar de quarenta, e cinco gráos porque então só grandes arvores lhes convém.

Os proprietarios destas eminencias, que as descoroão de mattos, empobrecem o Estado a perpetuidade; a coroa sendo descuberta, apresenta huma superficie nua aos raios do Sol, e passados poucos tempos ficão reduzidas a escalvados; porém a perda que não se repara mais, he a das chuvas, que os grandes vegetaes tem a propriedade de chamar.

O humus não basta só para conduzir as plantas á sua perfeição; ellas carecem ainda da luz, 3, do ár renovado, 4, de ter a superficie da terra até onde podem extender-se as suas raizes, despida de plantas; esta mesma terra revolvida, bem dividida, e haver entre planta, e planta huma certa distancia, proporcionada aos succos, de que carecem, segundo a sua natureza; haver huma escolha escrupulosa na semente, ou planta, e conhecer qual he o tempo proprio para se lançar na terra, etc. etc.

Como se deve cultivar a Cana de Assucar.


A Experiencia tem feito conhecer, que o melhor tempo de plantar a Canna na Capitania do Rio de Janeiro, he de Dezembro a Março, para ser moida de Junho a Septembro do anno subsequente, com dezoito mezes de idade. Como nestes mezes não há olhos de Canna, usa-se cortar da Canna, que se deixou para velha, pequenas estacas; porém esta Canna velha, que está deteriorada por ter passado do ponto da sua madureza, tem sim bastante doçura, porém os botões, ou olhos dos seus nós, ou articulações, que he o que deve ser Canna, huns estão já murchos, outros podres, e por consequencia perdidos; e só a parte superior da Canna, que sempre conserva verdura, pouca doçura, e mesmo acidez, he o que nasce facilmente.

Ainda que os botões estejão em bom estado, devem desprezar-se as Cannas velhas, porque em quanto tem doçura, não nascem, e he preciso hum mez, e mais tempo para a perderem. Para se fazer huma plantação perfeita, he preciso fazer a planta. No principio da moagem, devem plantar-se os olhos, ou parte superior da Canna, n'huma terra de muita substancia, lodosa mesmo, em terreno virgem, que tenha bem humus, ou seja bem estercado, para a Canna, que nascer, ser bem ataiobada, ou selvagem. Desta Canna sem doçura, e bravia, he que se tirão as estacas para fazer a plantação; cujas estacas devem ter o comprimento, que alcancem quatro nós, que segundo a distancia de nó a nó, serão mais compridas, ou mais curtas. Esta Canna plantada n'hum terreno tão pouco proprio para se lhe extrahir o Assucar, não he perdida; além da utilidade da boa planta, no fim de dois, ou tres cortes, póde servir para Assucar; porém deve haver o cuidado de renovar a Canna para a planta. A Canna de Assucar cresce em todas as especies de terra; porém as que são gordas, fortes, baixas, lodosas, novamente roteadas, quero dizer, donde se derrubou matto virgem, a pezar do comprimento, ou altura, que alcanção, tem o succo aquoso, oleoso, pouco assucarado, difficil de cozer, de purificar, sem rendimento. Hum terreno ligeiro, poroso, profundo, inclinado até quinze gráos, he aquelle que a natureza tem destinado a este rico vegetal. Deve-se dividir o terreno destinado para a Canna em tres partes, e cada huma destas partes, subdividir-se em pequenos quadrados de doze braças cada hum; qualquer que seja a exposição do terreno, sempre estes pequenos quadrados hão de ser alinhados de Norte a Sul, de Leste a Oeste.
Veja-se a Estampa I. Cultivão-se estes pequenos quadrados, deixando os lados de cada hum delles para todas as partes, livres da planta da Canna; porém podem occupar-se em mandioca, carás, batatas, feijão, milho, aboboras, ervilhas, etc. Cada hum dos quadrados, se tiver doze braças de frente, e doze de fundo, deve conter quatrocentas covas, na distancia humas das outras de seis palmos. Para se fazerem estas còvas, não he preciso que todo o quadrado esteja descuberto de capim, basta que seja limpo pouco mais que o tamanho dellas, que devem ter dois palmos de comprido, hum palmo de largo, e seis pollegadas de fundo. Comparadas estas covas com as que se fazem actualmente, hão de parecer muito grandes, e muitos fundas; e na realidade o não são, respeito ás que fazem os Colonos das Antilhas, e o mesmo digo sobre a distancia dellas; pois elles chegão a afastallas humas das outras, até dez palmos e meio, e a dar-lhe dezoito pollegadas de comprido, doze de largo, e oito de fundo. O milho para prosperar de serra acima, para os seus cultores colherem duzentos por hum, he preciso fazerem as covas na distancia de cinco a seis palmos, nas quaes lanção quatro, ou cinco grãos; ora este vegetal não tem o corpo da Canna de Assucar, nem como ella carece de tanta substancia, e alimento; a cova de milho he para quatro, ou cinco pés, a da Cana para oito, ou dez, que tantas são as que devem nascer, dos olhos, os botões das duas pequenas estacas, que se deitão nas covas, e se devem conservar, cortando todas as que demais nascerem, porque como ladrões lhe roubão a substancia.

He certo que com a enxada, que se usa no Brasil, que he talvez a primeira que se inventou, e onde não chegou ainda a enxada de Luca, Franceza, ou Ingleza, he hum pouco difficil fazer esta especie de covas; são precisas de vinte a trinta golpes, quando com qualquer das mencionadas, bastão tres, ou quatro. A nossa enxada he fatigante, o trabalhador anda curvado; e tendo o ferro de cinco a seis libras, elle carrega com vinte, ou mais nas cadeiras; nesta especie de serviço o homem baxo tem vantagem ao homem alto, a quem he preciso maior curvatura, e por consequencia dobrado esforço. Na Republica de Luca, e em algumas Provincias de França, não se usa de arado, nem de charrua, porque a sua enxada equivale ao trabalho destes instrumentos, e fica a terra mais bem trabalhada.

No Brasil onde os mesmos instrumentos pouco uso podem ter, he de huma grande vantagem o adoptarmos a enxada Luqueza, ou outra com pouca differença, que he huma especie de pá, com dez pollegadas de altura, nove de largura em cima, oito em baxo, com a grossura de meia pollegada, a acabar em huma linha, bem temperada de aço, com hum alvado de seis pollegadas, quatro a meio ferro, e duas sobresahindo, e com a vacuidade de pollegada e meia de diametro, que vai diminuindo insensivelmente, com dois furos no alvado, para com huma cavilha se fazer firme o cabo, que deve ter oito palmos de comprido. Veja-se a Estampa II. Fig. I. e II. O trabalhador com este instrumento tem o corpo direito, virado para o Norte, os calcanhares afastados pouco mais de meio palmo; a enxada afastada quasi hum palmo do pé esquerdo; a mão esquerda por todo o comprimento do braço, pegando no cabo; e a mão direita pegando no mesmo cabo, quasi no hombro direito Fig. III. A mão esquerda levanta a enxada até onde póde hir, sem que o antebraço se desuna do corpo. Fig. IV. A mão direita da altura, a que chegou, impelle a enxada com toda a força, e a esquerda deixa escorregar o cabo, segundo a ferida que a enxada fez na terra. Para se tirar esta terra, serve de apoio a mão esquerda, e a direita carregando no cabo, levanta a pá, e ambas a guião para lançar a terra a qualquer parte; porém deve ser regularmente para Oeste, ou Leste. No segundo movimento, deve chegar-se o calcanhar do pé esquerdo ao do direito, e este ladear para a direita tanto quanto a enxada cava, e assim progressivamente.

Designados os quadrados para a plantação da Canna, vão a cada hum vinte trabalhadores; o seu feitor os deve pôr enfileirados olhando para Oeste, na distancia de seis palmos huns dos outros; manda-os andar á direita para ficarem virados para o Norte; manda-lhe passar o pé direito a perfilar com o esquerdo, na distancia pouco mais que meio palmo; e desta sorte principião o trabalho, abrindo as covas de Oeste para Leste, de manhã até ao meio dia, servindo de guia a sombra do corpo; e do meio dia para a noite virados para o Sul fazem o mesmo; ou tambem podem trocar as mãos, porque se trabalha para o lado direito, assim como para o esquerdo; devendo buscar-se de qualquer sorte o alinhamento perfeito das covas de Norte a Sul, e de Leste a Oeste, o que he essencial para a perfeição da cultura deste rico vegetal.

Feitas as covas, devem lançar-se nellas duas estacas de Canna, que não tenhão menos de quatro, nem mais de cinco botões, para quando nascerem, fazerem huma soqueira de oito, ou dez Cannas. Cobrem-se estas estacas com duas pollegadas de terra, e quando tem nascido a Canna, e alcançado dois palmos pouco mais de altura, enchem-se as covas com o resto da terra. Limpão-se as Cannas de todas as hervas que podem roubar-lhe a substancia, á proporção que forem nascendo. Esta plantação deve fazer-se de Janeiro até Março, e não antes, nem depois. Qualquer que seja a qualidade da terra, não deve pretender-se mais, que dois cortes; o primeiro dahi a dezoito mezes, o segundo a que se chama sóca, dahi a quinze, ou dezaseis mezes. Depois deste segundo córte, deve occupar-se o terreno em que esteve a Canna, com aboboras de todas as especies, que tem a propriedade de cubrir bem a terra, para que as raizes da Canna apodreção, e depois de convertidas em humus, ficar a terra apta para receber nova Canna, que dahi a mais de hum anno se lhe póde confiar. De Janeiro a Março do segundo anno, cultiva-se a segunda divisão, e no anno seguinte a terceira. A quarta plantação faz-se nos mesmos quadrados da primeira; a quinta, nos segundos, a sexta nos terceiros, a setima nos primeiros da primeira, a oitava nos da segunda, a nona nos da terceira, e assim alternativamente; de sorte que a Canna de cada quadrado tenha intervallo bastante, que a livre de plantas, que lhe roubem a luz. Esta fórma de plantação póde variar-se a infinito, segundo a quantidade de terreno, e intelligencia do cultor.

Em lugar de quadrados perfeitos, podem ser quadrados longos etc., com tanto que se busque sempre o dar á Canna, a maior quantidade de ár, e luz possivel; porque a experiencia faz ver com evidencia, que só a dos aceiros, que recebe continuadamente a influencia destes dois agentes, he que alcança perfeição no seu succo; a que está para dentro, fica sempre esverdeada, o seu succo mal digerido, difficil de cozer, e de purificar; por consequencia o fim do lavrador deve ser quanto lhe for possivel, fazer todo o Canaveal em aceiro.

Vantagens desta fórma de plantação.


Se há fogos por accidente, he moralmente impossivel, que passem de huns a outros partidos, tendo tão grande separação entre si. Nunca os carros, nem animaes pizão o Cannaveal, quando se conduz a Canna á fábrica. Há facilidade para se verem as Cannas de todos os pequenos partidos, para se cortarem os filhos que brotão, que como ladrões lhe roubão a substancia.

Quasi todo o Cannaveal está em aceiro, quero dizer, está apto para receber a influencia, e nutrição, que lhe communica a atmosphera. A renovação, e correnteza do ár impede a geração, e propagação de insectos, taes como baratas, e outros, que a sua corrupção tem a propriedade de chamar. Pelo alinhamento de Norte a Sul, de Leste a Oeste, recebem as Cannas os raios da luz, que o Sol póde communicar-lhes, e que lhes são tão precisos para a depuração do seu succo.

Facilita o tarefar o trabalho, etc. etc.

Córte das Cannas.


A Canna de Assucar gasta dezoito mezes a chegar ao seu ponto de perfeição, porém se há seccas, anticipa-se; o gosto, e a vista he que decidem a colheita; quando está bem doce, e tem a côr amarellada, he tempo de cortar. He sabido de todos, que principia a ser doce do pé, e que esta doçura vai diminuindo gradualmente para a parte superior, e que junto á bandeira, ou olho, não só não tem doçura, porém mesmo tem acidez, e he por consequencia hum erro, o aproveitalla até ás folhas. Deve sim cortar-se bem rente á terra sem ferir as raizes, porém o palmo junto ás folhas, deve-se desprezar. Segundo a sua grandeza, se ha de cortar em huma, duas, e talvez tres partes, servindo de ballisa, o não ter mais de cinco, ou seis palmos, para se appresentar á moenda. Usa-se, quando se corta, fazer feixes de seis, ou oito Cannas, segundo a sua grossura, cujos feixes são amarrados com os olhos das Cannas que se cortárão. Esta especie de atilhos he tirada dos feixes de Canna, quando se appresentão á moenda, porém escapão muitos, que se espremem com a Canna; ora, tendo elles acidez, vão deteriorar o sumo, de que se ha de fazer Assucar, gastar mais decoada, e lenha, além do tempo, e serviço que se perde; porque no acto de cortar a Canna, são precisas quasi tantas pessoas para amarrar, como para cortar; e para a conducção tanto importa estar em feixes, como solta, e o mesmo para se meter na moenda, onde o trabalhador póde regular o pegar em seis, ou oito, doze, ou dezaseis, para as appresentar. Deve haver cuidado de não se cortar mais Canna, que a que póde moer-se em vinte e quatro horas, principalmente se o calor he intenso, porque o sumo fermenta na mesma Canna, o que arruina a sua qualidade.

Construcção dos engenhos actuaes.


Todos os engenhos de fazer Assucar na Capitania do Rio de Janeiro, qualquer que seja a potencia, agua, bestas, ou bois, tem a mesma construcção, á excepção de tres modernamente feitos, que reunem algumas vantagens, todos os mais he hum grande pião, que faz fazer huma casa de sessenta palmos livres, acabando em varandas á roda, algumas subdivididas; cujas varandas são maiores, ou menores, segundo o destino, que se lhes dá, de picadeiro, casa de caldeiras, casa de purgar, casa de encaixe, casa de aguardente, fornalhas, e varandas de carros; com algumas trapeiras para dar sahida ao fumo, e luz. No centro desta grande casa de sessenta palmos, se o engenho he moido por animaes, está a meza com as moendas; na moenda do meio, vulgarmente chamada a moenda grande, que pela sua dentadura faz moer as dos lados, há quatro aspas, ou almanjarras, a cada huma das quaes puxão dois animaes, formando hum circulo á roda da meza, de cincoenta e seis palmos de diametro, vindo a ter as almanjarras por onde puxão os oito animaes, vinte e oito palmos de comprido; os dois palmos que faltão para os trinta, ou quatro para sessenta da capacidade da casa, he folga para os animaes, que não devem roçar pelas paredes.

Se o engenho he de agua, na moenda do meio há huma grande roda, de trinta e seis a quarenta palmos de diametro, a qual está n'hum eixo horisontal, e nelle huma roda vertical, de trinta a trinta e seis palmos, que nos cubos da sua circumferencia recebe a agua, que he a potencia. Há hum engenho de agua com rodizio, ou roda horisontal, que reunindo a vantagem de tocar dois ternos de moendas, e ser obra tão perfeita neste genero, não tem tido imitadores, por parecer á primeira vista, ser a roda vertical de maior força que a horisontal, o que he engano, como farei ver.

Notas sobre esta fórma de construcção.



Para se fazer huma casa de sessenta palmos livres, são precisas vigas de sessenta e quatro palmos de comprido, que ficão fracas, se não tiverem dois palmos por cada face; he custoso achar estes madeiros, difficultosa a sua conducção, perigoso o levallos acima do edificio, que fica sobrecarregado com este desmarcado pêso, e por consequencia fraco. As trapeiras, de que usão para dar sahida ao fumo, e entrada á luz, são insufficientes, e há occasiões, em que quasi se he suffocado pela fumaça, e sempre he precisa a candêa para se verem os objectos. Os animaes no seu giro, circulando as moendas, estorvão a passagem, aos conductores da Canna, que algumas vezes succede serem atropellados; os picadeiros de sobrado, que se fizerão n'hum engenho, para evitar estes accidentes, não tiverão imitadores; e o mesmo engenho os abolio por incommodos. O sumo, que sahe das Cannas pela expressão das moendas, he conduzido por huma calha ao parol, a que chamão de caldo frio; no circulo, que fazem as bestas, atravessão esta calha, o que fórça pôlla junto á terra, e o dormente dos moendas com pouca altura, e por consequencia o não se poder moer Canna, como deve ser. Ainda que o engenho seja de agua, como estas fábricas forão feitas por imitação de humas a outras, o prospecto he o mesmo, e não tem os commodos, que se devião buscar; multiplica-se serviço, por ser preciso usar de pótes, e barris para levantarem os liquidos, que devião ser conduzidos por bicas, ou calhas, até cahirem nos alambiques.

Nova construcção de engenhos.


Em mechanica o ser senhor da potencia, para augmentar, diminuir, e modificar a força ao seu arbitrio; ajuntar a estas vantagens a da elegancia, commodo, e economia, parece que he tudo, quanto se póde desejar.

O engenho, que se propõem para modello, não tem hum páo de maior comprimento, que o de quarenta e quatro palmos, com huma face de palmo e meio, e outra de hum palmo, e estes são os tirantes; todos os mais páos são de hum palmo, tres quartos, meio palmo, com menos comprimento, á excepção dos esteios, com palmo e meio de face, e de quarenta para cima de comprido.

O edificio por dentro, debaxo de huma cumieira, tem cento e sessenta palmos de comprido, quarenta e dois palmos de largura, e trinta e tres de altura em pé direito.

Na altura de trinta palmos está hum segundo frechal, que cinge todo o edificio, e serve sômente, para encabeçar os caibros das varandas, e deixar hum claro de tres palmos, para dar luz, e sahida ao fumo.

Este engenho he para o trabalho de bestas, ou bois, porém a sua construcção he, como se fosse para agua, girando tudo sobre pião. Na moenda do meio tem huma roda com oito aspas, a que se chama bolandeira, com trinta e seis palmos de diametro de centro de dente, a centro de dente, e noventa e seis dentes na sua circumferencia, que ficão na distancia de pouco mais de palmo huns dos outros; os dentes desta roda são de coroa. Esta roda he movida por hum rodete estrellado de trinta e dois dentes, cujo eixo em pião tem duas almanjarras; da ponta de cada huma das quaes ao centro do eixo, são quatorze palmos. Os animaes trabalhão nesta máquina, em huma especie de pôço calçado, com oito palmos de profundidade (póde ser mais, ou menos) cercado com huma varanda. Esta especie de pôço he formada pelo aterro da casa, onde gira a máquina, e estão as moendas. Já se vê que, tendo o rodete a terça parte da bolandeira, he preciso que dê tres voltas para a bolandeira dar huma; e, como os animaes puxão na distancia de quatorze palmos do centro, devem fazer tres circulos de vinte e oito palmos de diametro, que fazem oitenta e quatro palmos, para as moendas darem huma volta, o que faz puxar por huma almanjarra, ou alavanca de quarenta e dois palmos. He certo que oitenta e quatro palmos de diametro fazem oitenta e quatro passos de circumferencia; e, tendo os engenhos communs as suas almanjarras em cincoenta e seis palmos de diametro, que fazem cincoenta e seis passos de circumferencia, parece que farão em menos tempo virar as moendas; porém não he assim; porque a pezar de serem oito os animaes, que puxão estas almanjarras, e poderem só quatro, e menos puxar as outras, por ter a sua alavanca mais quatorze palmos de comprido; attendendo ás paradas, que os oito animaes fazem a cada passo, para vencer a resistencia, e á suavidade, com que os quatro andaráõ, sem nunca achar obstaculo, que faça retardar o seu passo natural, fica igualado o serviço, e talvez superior o dos quatro: além disto, ainda que eu não conheça no Rio de Janeiro, quem possa occupar sempre, e no seu devido tempo, esta máquina trabalhando assim, mettendo Canna como deve metter-se; quem quizer andar mais veloz, encurte as almanjarras, e augmente o numero de bestas, e póde levar isto ao ponto, que lhe parecer; vantagem de que são privados os engenhos actuaes, que hão de restringir-se ao numero de oito sómente.

Por esta nova fórma cada hum póde trabalhar, segundo as suas forças: se em lugar do rodete pela terça parte, o fizer pela quarta, conservando as almanjarras no seu comprimento, faz puxar as bestas por huma alavanca de cincoenta e seis palmos, e se ha de moer com quatro, póde fazello com duas, e mesmo huma. Assim como póde diminuir; se fizer o rodete por ametade, augmenta o movimento, e fica a almanjarra de vinte e oito palmos, e tem a vantagem de meter oito, dez, doze, dezaseis bestas, o que não póde fazer na construcção actual; porque então não terião passagem os carregadores de Canna para as moendas, que estão sempre desembaraçadas na construcção, que se propõem; porém a proporção da terça parte, he, segundo o meu cálculo, a mais ajustada.

Veja-se a Estampa III.

Sobre o movimento das moendas.


Eu não tenho noticia de que houvesse ainda quem regulasse o movimento das moendas, para fazerem o maior effeito possivel n'hum termo dado, sendo isto hum objecto, que merece toda a ponderação. Vendo que em hum engenho movido por bois, dão as moendas huma volta por minuto; n'hum por bestas quasi volta e meia; nos de agua duas, tres, quatro, e mais voltas; pensando todos geralmente, que quanto maior numero de voltas der em menos tempo, mais moerá, fiz exame a este respeito, e achei que o movimento de duas voltas por minuto, he o ponto de perfeição; e que tanto menos se moerá, quanto se afastarem delle para mais, ou para menos. Quando boas bestas, e descançadas, excitadas pelo açoite puxão pelas almanjarras a trote, e fazem dar ás moendas duas voltas e meia por minuto, a Canna fica esmagada, e não espremida; porque o sumo não tem tempo da cahir, e passa em cima da Canna para a outra parte; e como ella he hum corpo esponjoso, e elastico, logo que cessa o aperto, torna a beber o mesmo sumo, do qual só numa pequena parte cahe na meza; e se em duas voltas e meia succede isto, peior em tres, quatro, e mais. N'hum engenho movido por bestas, não póde haver excesso no movimento, poderia talvez prejudicar por defeito, se houvesse quem tivesse forças para fazer de dez a doze mil arrobas de Assucar annualmente, o que nunca succedeo; porém havendo quem possa fazellas, ou ainda mais, póde pôr dois ternos de moendas, que o mesmo rodete faz moer, segundo o modello que se propõem. Com a roda vertical dos engenhos de agua, he hum pouco dificultoso regular o movimento das moendas; só se a agua he muito alta, o que raras vezes succede; sendo baxa, e muita, que possa dar-se-lhe toda a força que se precisa, o rodete he muito grande, e faz que a bolandeira dê tres, e quatro voltas por minuto, o que retarda o serviço, como acima se diz; só se a roda vertical tivesse de cincoenta
a sessenta palmos de diametro, o que não póde ser sem muito incommodo. Com a roda horisontal, vulgarmente chamada rodizio, he facil graduar o movimento.

O maior, ou menor declivio na bica de ferir as pennas; maior, ou menor diametro no rodete, ou no mesmo rodizio, faz conseguir o que se quer sem custo.

Comparação da roda vertical com a horisontal.


He sabido de todos, que em qualquer máquina, a agua obra sómente pelo seu pêso. Supponho ter huma bolandeira com trinta e seis palmos de diametro, movida por
hum rodete de oito; a roda vertical de trinta e seis; a agua na altura de vinte palmos, com quatro pollegadas cubicas, que são sessenta e quatro, e pesão quasi tres libras. Onde a vertical recebe o impulso com a maior força, he no semidiametro, e fim da linha horisontal do eixo, em dezoito palmos; a agua cahe com dois palmos de ferida, e doze libras de pêso no principal cubo; nos que se enchêrão, pésa com tres libras em linhas mais curtas. Se os cubos tem capacidade para receber mais agua, e o pêso desta nos mesmos he preciso para o movimento, fica a máquina vagarosa, e sem o effeito que se quer. Tem mais o defeito de ficarem as moendas baxas; não se poderem dar as proporções que se precisão; estar tudo cheio de agua, e a roda afeiando o edificio, estorvando passagens, etc. O mesmo diametro na bolandeira, e na horisontal, quero dizer, trinta e seis palmos o diametro da bolandeira, e trinta e seis o do rodizio, o rodete deve ter a oitava parte, ou doze dentes estrelados, tendo a bolandeira noventa e seis de coroa, e a agua na mesma quantidade, e altura. Vinte palmos que a agua tem de altura, são quarenta vezes tres libras, ou cento e vinte libras, que pésão sobre as pennas do rodizio com hum jacto de quasi vinte palmos, se sahisse horisontalmente, porém como deve ter quinze gráos de declivio para ferir as pennas, fica em dezaseis.

Este jacto de quinze gráos communica hum movimento mui veloz ao rodizio, que póde ser moderado, segundo a necessidade, e o podemos levar até quarenta e cinco gráos com toda a vantagem. Podemos augmentar o diametro do rodizio; diminuir, ou accrescentar o do rodete; levantar, ou abaxar as moendas á nossa vontade, fazendo mais curto, ou mais comprido o eixo do rodizio; cujas pennas, sendo feitas de páos firmes, tudo cerne, com tres palmos de comprido, e hum em quadro, as cavas em meia lua, para receber a agua, com seis pollegadas pelo comprimento da penna, cinco na largura, e cinco em profundidade, tem toda a solidez, e duração possiveis; quando pelo contrario a roda vertical, composta de muitas taboinhas, e pequenas juntas, em poucos tempos fica fóra de serviço.

O modello, que se propõem, para moerem bestas, serve para o de agua com rodizio, só com a differença do rodete ser mais pequeno, e a especie de pôço ser cuberta de sobrado, que dá passagem ao eixo; reunindo esta fórma de máquina além das mais vantagens, a de poder ser movida por animaes, se por accidente falta a agua, o que succede algumas vezes, e causa prejuisos.

Não fallo nos engenhos de vento para moer Canna, porque a instabilidade, e irregularidade deste agente no Brasil, o faz inutil. Ainda mesmo os de agua, se esta for difficultosa, ou que faça precisar grandes despesas; pondo-se em prática o modello, não causará muito pesar o moer sem ella.

A Estampa III. mostra o interior, o plano, e o exterior da casa do engenho.

Preciso sobre a dentadura das rodas.


A falta de conhecimento de mechanica nos mestres de engenhos do Rio de Janeiro, aos quaes com mais propriedade se pódem chamar curiosos, á excepção de alguns, e bem poucos, que tem merecimento, me faz dizer o que sei a este respeito, por me parecer que será de alguma utilidade. Quero fazer huma roda grande, que tenha trinta e seis palmos de diametro, de centro de dente, a centro de dente; sabe-se que a devo armar de oito curvas, ou cambótas, que tenhão de testa, a testa trinta e sete palmos; porque a dentadura devendo estar no centro da cambóta, para esta ficar com fortaleza, deve ter meio palmo para dentro, e meio para fóra. Huma roda com este diametro não se póde fazer sem oito aspas. Devo repartir o circulo em oito partes perfeitamente iguaes, que assignallo; e como quero pôr neste circulo noventa e seis dentes, já se vê que pertencem doze a cada oitavo.

O sintel tem feito descrever a linha onde devem ser postos; reparto em doze partes o oitavo, e assignallo cada huma com seu ponto, que serve de centro ao furo para o dente, cujos pontos ficão distando huns dos outros nove pollegadas e meia com pouca differença.

Deve haver o maior cuidado, em que estes pontos fiquem perfeitamente iguaes, e que não desmintão nem a grossura de hum cabello; e que os furos, que se fizerem para os dentes, fiquem perpendiculares.

O circulo deve ser fixo nas aspas por cavilhas; quatro destas aspas o sustem, e as outras quatro prendem-no.

Estas aspas devem assentar no circulo entre os dentes com huma medida perfeitamente justa, para a roda não ficar com o que se chama peito. Se quero fazer huma roda mais pequena, que não careça de oito aspas, e sim de seis, reparto o circulo em seis partes iguaes, e procedo da mesma sorte que para a antecedente; lembrando-me sempre de não fazer os pontos para os dentes em menos de nove pollegadas, e podem hir a dez, que he erro fazellos mais proximos, porque fica a cambóta fraca; e que nunca deve haver dente, onde a aspa assentar. Regra geral, o numero das aspas, he o das divisões, e em cada divisão hum numero certo de dentes, o que faz ver que nenhuma roda, tomada no todo, tem os dentes impares. He sabido de todos, que duas rodas, tendo huma de fazer mover a outra, ainda que as dentaduras sejão certas, se forem perfeitamente iguaes, não podem trabalhar; he preciso que aquella, que está unida á potencia, tenha huma certa folga nos dentes, que devem ficar mais largos, que os da outra, para trabalharem suavemente; a esta folga, ou maior distancia dos dentes de huma, respeito aos dentes da outra, he ao que os mestres chamão compasso. Ora para acharem este compasso
nas medidas, que fazem, usão das maiores extravagancias; e o que tem encontrado melhor, depois de muitos erros, encobrem-no com mysterio até aos seus aprendizes. Depois de ter feito a roda, e graduado os seus dentes, para compassar os do rodete, ou roda que trabalha com a potencia, abro o compasso (cujas pontas devem ser bem agudas) e com toda a certeza as assento nos pontos de dois dentes, o que me dá a distancia de dente a dente. No centro de huma regoa comprida traço huma linha, e por esta linha messo, ou conto quinze compassos; a distancia destes quinze compassos deve ser signalada por dois pontos. Abro agora o compasso mais, e a linha descripta dos quinze divido em quatorze; esta pequena differença de quatorze a quinze he o apartamento, ou folga, que devem ter de mais os dentes do rodete, respeito aos da roda. Se tenho graduado o rodete primeiro, faço o mesmo que na roda; mésso pelo compasso a distancia de hum dente a outro; na linha traçada conto quatorze compassos, aperto o compasso hum tanto, para que a distancia dos quatorze se reduza a quinze: esta pequena diminuição he, o que devem ter de menos distancia, os dentes da roda aos do rodete.

Devo lembrar, que estas medidas devem ser exactas, e que os pontos signalão o centro dos dentes. Se as rodas, ou rodetes tem os dentes em coroa, a medida, ou compasso deve ser tomado na cambóta; se os dentes são em estrella, deve o compasso ser tomado no centro da ponta do dente. Segundo o destino da máquina, que se quer fazer, póde o rodete ser pequeno, e a roda grande; o rodete ser grande, e a roda pequena, ou ambos de igual tamanho; porém he regra geral, que a roda, onde trabalha a potencia, seja grande, ou pequena, he a que deve ter folga nos dentes, quero dizer, serem mais apartados, o que vai de quatorze a quinze, que a outra roda, qualquer que seja a grandeza.

Os dentes das rodas podem ser todos de coroa, e todos estrelados; em humas, de coroa, e em outras estrelados; porém observando-se as regras dadas, he facil fazellos de qualquer sorte. He indifferente, que os dentes de qualquer roda sejão delgados, ou grossos, com tanto que sejão iguaes em grossura. Hum terno de moendas com tres palmos de diametro, e oito dentes cada huma, graduados estes dentes pelo centro da sua ponta, regidos pela moenda do meio, que he a motora, e a que deve ter a folga, podem ser os dentes de cada huma desiguaes, respeito ás outras, sem defeito no trabalho; todos os dentes da moenda do meio podem ser muito grossos; menos grossos os da de hum dos lados, e mais delgados os da outra, e assim mesmo podem trabalhar com perfeição. Os dentes das rodas de coroa devem ser redondos a torno; os em estrella tambem a sua ponta deve ser redonda, acabando em semicirculo, segundo o seu diametro. O aguilhão do eixo, onde anda o rodete, não deve ser fixo nelle, ha de andar junto n'huma caixa de bronze; porque, como se ha de gastar pelo movimento, para o recalçar, basta levantar com huma alçaprema o mesmo eixo, e logo o aguilhão cahe, oppõem-se-lhe outro, que deve haver de sobrecellente. As almanjarras hão de ficar n'huma altura tal, que os tirantes, por onde puxão as bestas, corrão em linha horisontal ao seu peito; puxão mais desta sorte, e fatigão-se menos. A besta puxa com o seu pêso, e o esforço dos seus musculos serva para renovar este pêso, se os tirantes estão muito baxos, o pêso, que devia empregar-se a puxar, perde-se em levantar o eixo, e se estão muito altos, a besta he levantada por diante, e as suas mãos não achão na terra hum apoio sufficiente para renovar o seu movimento.

Como se moe Canna actualmente.


As moendas, de que actualmente se usa na Capitania do Rio de Janeiro, tem de tres a quatro palmos de diametro, e outro tanto, pouco mais de altura.

A sua dentadura he no meio da moenda; alguns engenhos, rarissimos, tem as moendas dentadas na parte superior, e aguilhões inteiros de ferro; porém o commum he terem os dentes no meio do corpo da moenda, e meios aguilhões de ferro, e na parte superior hum pescoço, que faz as vezes de meio aguilhão, feito de hum páo solido. Saõ chapeadas de ferro meio largo: estas chapas tem hum palmo de comprido, e são afastadas humas das outras a quarta parte de huma pollegada, ou tres linhas; e pregadas no madeiro da moenda com seis pregos curtos, e grossos. A meza, em que estão assentadas estas moendas, não tem mais altura, que a de quatro a cinco palmos. Qualquer que seja a potencia que as faça mover, a Canna he sempre mettida nellas da mesma sorte. Hum Escravo appresenta hum feixe de Canna pela sua ponta em linha horisontal, entre a moenda do meio, e huma das dos lados; continua a metter segundo, terceiro, quarto, quinto, e sexto e outro Escravo da parte opposta, á proporção que os feixes de Canna passaõ, depois de espremidos na primeira, os appresenta da mesma sorte á segunda: tornão a passar pela primeira, e repassar pela segunda, o que faz que esta Canna seja espremida quatro vezes, sempre em linha horisontal. Em alguns engenhos chegão a passar cinco, e seis vezes, porém o commum são quatro. Sobre estas quatro passagens, e suppondõ tres palmos de diametro nas moendas, he que eu faço o meu cálculo; e tambem supponho, que hum carro de Canna contém cento e cincoenta feixes; de seis Cannas, se são grossas, de oito, se saõ delgadas, e do comprimento de seis palmos. Tres palmos de diametro são nove de circumferencia, dando quatro voltas a moenda, tem passado, e repassado os seis feixes; dando outras quatro voltas, tem feito passar os seis feixes reduzidos a bagaço, por consequencia, para se espremerem seis feixes de Canna, he preciso que as moendas dem oito voltas, as quaes n'hum engenho de bestas bem corrente se não dão em menos de seis minutos, o que faz precisar duas horas e meia para se moer hum carro de Canna, com o numero de feixes, e comprimento acima ditos, e nove para dez carros, em vinte e quatro horas.

Notas sobre esta fórma de moer


As moendas tem pouca altura da dentadura para baxo, onde anda a chapeação, e póde metter-se Canna, que não deve chegar aos dentes; e para isto se conseguir, he preciso que os feixes se appresentem á moenda em linha horisontal. A meza he muito baxa, e como o Escravo, curvando-se hum pouco, chega com as mãos á moenda, onde as costuma ter para amparar, e empurrar as partes minimas da Canna, a que se chama bagaço, he causa de accidentes, e de muitos Escravos ficarem sem mãos, o que todos os annos succede em hum, ou outro engenho.

A chapeação das moendas he grande erro; huma moenda de tres palmos de diametro, que fazem nove de circumferencia, precisa de vinte chapas; a seis pregos, são cento e vinte pequenas cunhas, que mettidas com muita força pelo comprimento do madeiro da moenda, a faz abrir em pequenas raxas, onde póde introduzir-se alguma porçaõ de sumo de Canna, e não póde chegar a lavagem; porque he agua simplesmente lançada, e a quem falta o aperto, que soffre o sumo da Canna entre as moendas.

Esta pequena porção de sumo huma vez introduzida nestas raxas, azéda, e serve de fermento para fazer desmerecer o sumo que se espreme; e todos sabem, que huma mui pequena porção de acido impede o fazer Assucar, e deteriora a sua qualidade. Ainda mesmo que o madeiro esteja perfeito, sempre o sumo se introduz por baxo das chapas, e a agua da lavagem não póde lá chegar.

Esta chapeação não impede que as moendas sejão torneadas todos os annos, ou todos os dois annos; he preciso arrancar as chapas, e depois de torneado o madeiro, repregallas em outro lugar, tapando com tornos, os buracos, onde estiverão os pregos; por mais solido que elle seja, não póde resistir a tres, ou quatro operações destas, sem que fique fóra de serviço. Vinte chapas, de mais de duas linhas de grossura, são quarenta angulos, ou cunhas, que cortão, ou mordem as Cannas, que á terceira passagem ficão reduzidas a partes minimas, cujo bagaço, para passar a quarta vez, he preciso que o Escravo o empurre, e ampare com as mãos entre as moendas, para poder espremer-se, e ainda nesta quarta passagem sahe humido. As ultimas vezes, que este bagaço passa nas moendas, faz tanta resistencia, que se são de meios aguilhões, succede aluirem para os lados, e se são inteiros, quebrarem. O bagaço, quasi reduzido a pó, só serve para estrume depois de ter apodrecido na bagaceira, o que infecta o ár, que se respira á roda da fábrica, e faz sempre sentir hum máo cheiro.

Nova fórma de moer.


As moendas devem ter tres palmos, e pouco mais de altura, até á dentadura; devem ter tres palmos de diametro, ser feitas de hum páo bem firme, e bem lisas, sem chapeação. A meza deve dar pelos peitos de hum homem, e ter cinco palmos de largura, inclusos os taboleiros. A Canna ha de ser appresentada á moenda em linha obliqua, fazendo hum angulo de quarenta e cinco gráos, com pouca differença, e perto da dentadura. Assim que esta Canna passou, o Escravo da parte opposta deve dobralla, e appresentalla á moenda pela sua curvatura, tambem em linha obliqua. Com estas duas passagens fica a Canna melhor espremida, que com as quatro, ou mais, que actualmente se usão.

Para que este serviço continue sem interrupção, he preciso que o Escravo, que mette Canna, appresente á moenda de doze a dezaseis de cada vez, segundo a sua grossura; o Escravo, da parte opposta, pega em seis, ou oito destas Cannas, dobra-as, e appresenta-as á moenda pela sua curvatura, e faz o mesmo ás outras seis, ou oito, e assim continua o serviço; porque tendo a Canna seis palmos de comprido, dobrada fica em tres, e he preciso que as moendas estejão sempre cheias. Por mais molle que seja hum páo proprio para moendas, sempre he muito mais duro que a Canna, que, sendo hum corpo esponjoso, deprime-se facilmente; o muito uso poderá gastallo, e será preciso torneallo, porém creio certamente, que ha de precisar muito mais tarde deste beneficio, que as moendas chapeadas, e ha de conservar mais annos a sua solidez. Conheço huma fábrica de Estampas, que imprime de oito a dez mil todos os annos, e trabalha há mais de vinte; que os dois cilindros, que fazem a fieira, e apertão entre duas taboas a chapa da impressão, ainda não forão torneados, nem o precisão; accrescendo ser isto hum trabalho de páo contra páo, muito differente da Canna, que he hum corpo muito mais molle. A Canna, appresentada em linha horisontal, faz aperto n'huma parte da moenda sómente, e, appresentada em linha obliqua, trabalha com todo o corpo. He certo que as moendas de páo são hum remedio; devião ser tambores, ou cilindros de ferro, assim como se pratica nas Antilhas, despesa que se faz por huma vez, porém em quanto se não põem em prática, deve degradar-se a chapeação, por ser desnecessaria, e nociva.

Comparação da moagem actual com a que se propõem.


Pelo methodo usado, dando a moenda quatro voltas; são trinta e seis palmos de superficie; tendo os feixes seis palmos de comprido, e, appresentando-se em linha recta, ou horisontal, passaõ, e repassão seis feixes; dando outras quatro voltas, passão, e repassão em bagaço, são precisas oito voltas para moer seis feixes de Canna, o que não póde fazer-se em menos de seis minutos. He certo que estes feixes de Canna só tem os seis palmos de comprido na primeira, e segunda passagem, ficando reduzidos a pequenas partes para a terceira, e quarta, o que fará parecer gastarem menos tempo nas duas ultimas; porém isto deve considerar-se nullo, pelas paradas que nestas occasiões fazem as bestas, por ser preciso redobrar o seu esforço para vencer a resistencia, que o bagaço, ou Canna, reduzida a pequenas partes, lhe offerece. Pelo methodo proposto, appresentando-se a Canna á moenda em linha obliqua, tendo seis palmos de comprido, fica reduzida a quatro e meio, e he preciso nas quatro voltas fazer oito entradas, para ganhar a superficie das moendas, cujas entradas sendo de doze a dezaseis Cannas, que são dois feixes, fazem dezaseis; e como passão, e repassao simplesmente, em quanto nos seis minutos, pelo methodo usado se moem seis feixes; moem-se pelo methodo proposto trinta e dois, e por consequencia hum carro de cento e cincoenta feixes em menos de trinta minutos, que em vinte e quatro horas faz mais de cincoenta carros. Pelo methodo usado, hum feixe de Canna, appresentado á moenda em linha horisontal, o aperto que soffre faz, que estas Cannas fiquem sobrepostas humas acima das outras; ellas, que tem huma pollegada pouco menos de diametro, ficão bem espremidas, passando por huma fieira de huma a duas linhas; porém do sumo que espremem, que tem de circumdar a superficie de quasi todas as Cannas, sò huma pequena parte cahe na meza, e a maior parte, fluctuando por cima dellas, logo que cessárão de soffrer a compressão, sendo de natureza esponjosa, e elastica, tornão a beber o sumo espremido. Na segunda passagem pouco aperto percebem; porque passão por huma fieira igual á primeira, e por consequencia he preciso que sejão reduzidas pela chapeação a partes minimas, para se lhe aproveitar o sumo. Pelo methodo proposto, appresentando-se a Canna em linha obliqua, quando recebe o aperto, dá sahida ao sumo pela mesma Canna, e deposita na meza todo, o que espreme.

Quando acabou de passar a Canna, e o Escravo da parte opposta a dobra ao meio, para a appresentar na mesma linha obliqua; pelo seu angulo, ou curvatura, recebe na fieira da moenda hum aperto maior que o primeiro; porque em igual ou superior volume, tem partes mais solidas que comprimir, faz ficar o bagaço sècco, inteiro, apto para se fazer em feixes, que podem servir para as fornalhas; o que he impossivel no methodo usado, porque fica reduzido quasi a pó. A differença de hum a outro methodo he de nove a cincoenta, vantagem inapreciavel em semelhantes fábricas. Eu não sei que haja em todo o Brasil, quem reuna forças para moer esta quantidade de Canna de Junho a Setembro, que he o verdadeiro tempo, e são cem dias de serviço; talvez não haverá meia duzia de fábricas, que possão fazer ametade, porque então farião de seis a sette mil arrobas de Assucar. Vejo que há engenhos, que para tres, ou quatro mil arrobas, principião em Maio, e acabão em Dezembro, por não poderem mais, empregando dia, e noite neste trabalho, e assim mesmo perdem Canna, que não podem moer. Trabalhando-se desta sorte, os homens, e os animaes se estragão, o dia he para trabalhar, e a noite para descançar, esta a ordem da natureza, que se não inverte impunemente.

Adoptando-se esta fórma de moer, póde a noite ficar salva. Principia-se das quatro horas da manhã até ao meio dia, das duas horas da tarde até ás dez da noite; nestas dezaseis horas de serviço, cada hum póde trabalhar, segundo as suas forças. Suppondo que quer moer dezaseis carros de Canna, faça appresentar á moenda só seis, ou oito Cannas (que he hum feixe) continuadamente, na repassagem faça dobrar tres, ou quatro, tudo como acima se diz, e desta sorte póde augmentar, e diminuir, segundo as suas forças, e vontade. Nestas duas horas depois do meio dia, e ás dez da noite, basta que sejão lavadas ás moendas, menos que o calor não seja intenso, ou que haja trovoadas; porque então todas as vezes que se enche o cocho, devem ser lavadas.
Veja-se a Estampa IV.

Descripção do que contém a casa de caldeiras actualmente.


A Casa de caldeiras, onde se fabrica o Assucar, he de cinco a oito palmos, mais baxa que a do engenho, e contém o que se segue. Parois de caldo frio, Parois de caldo quente, Rominhois, Espumadeiras, Batedeiras, Repartideiras, Caldeira, e Coxinha, Bangué com suas tachas, Esfriadeira, Fôrmas para lançar a calda, de que se faz o Assucar bruto, Carcanha, Massa de Mamono, Espatulas, Tanque de preparar o barro, que ha de clarificar o Assucar, Vasos com decoada, e Vasos com agua. Parol de caldo frio, he hum cocho, ou especie de tanque, feito de taboas, e pelo commum cavado n'hum grosso madeiro, com maior, ou menor comprimento, e largura, e capacidade de conter tanto liquido, quanto encha a caldeira, sem sobejar. Há alguns engenhos, que já os tem de cobre.

Parol de caldo quente, he o mesmo que de caldo frio, porém maior, por ser destinado a receber o liquido depurado da caldeira, huma, e mais vezes, donde passa para as tachas. Rominhol he huma especie de cassarola de cobre, que pòde conter de quatro a seis libras de agua; quando tem hum cabo comprido, e com elle se tira o liquido da caldeira para o parol de caldo quente, toma o nome de pomba. Espumadeira, todos sabem o que he, a que serve nos engenhos, tem hum cabo até dez palmos. Batedeïra, he huma chapa de cobre circular, com pouco mais de hum palmo de diametro, huma concavidade de duas pollegadas no centro, que vai diminuindo para a circumferencia, com hum cabo comprido. Repartideira, he huma especie de cassarola de cobre, que póde conter até dez libras de agua.

A Caldeira, he pelo commum de ferro, tem de cinco a seis palmos de diametro na boca, outro tanto de altura, sendo menos larga no fundo; he assentada de fórma, que fica a sua boca pouco mais alta que a superficie do terreno, sendo este ladrilhado á roda della, com huma pequena inclinação, que faz correr as espumas que a Caldeira lança a hum receptaculo, a que se chama Cochinha. A Cochinha, he hum pequeno tanque de taboas, que tem seu registo; o liquido que recebe, que não são espumas, torna a passar para a Caldeira; as espumas por huma calha coberta, vão depositar-se ao seu receptaculo na casa da aguardente.

Bangué, he huma fornalha comprida, com quatro palmos de altura, que contém tres, quatro, e cinco tachas de ferro, de tres a quatro palmos de diametro, da maior á menor, que se distinguem com os nomes, quando são tres (o que he o mais commum) de tacha de receber, de cozer, e de bater. No mesmo bangué está outra tacha encravada, que não recebe fogo, que se distingue com o nome de bacia, ou esfriadeira, e he de cobre, para onde passa a calda de Assucar em ponto, e desta bacia he que vai para as fôrmas. As fôrmas são feitas de barro, de figura conica, de dois palmos pouco mais de diametro na boca, acabando para o fundo quasi agudas, com hum buraco de meia pollegada. A Espatula, he huma especie de pá de taboa, que serve de mexer o Assucar nas fôrmas, e impedir a sua mui prompta condensação. A Carcanha, he o aparelho de fazer a decoada, que se faz com a cinza de toda a lenha, preferindo a de gorarema, ou páo de alho, que se tem reconhecido ser rica em alcali; a esta cinza misturão algumas hervas acres, para augmentar o que chamão queimo da decoada; enchem com esta cinza, e hervas, doze a vinte fôrmas, que ficão levantadas do chão alguns palmos, enfiadas em buracos proporcionados feitos em taboas; lanção em cima destas fôrmas agua quente, que, filtrando-se por entre as hervas acres, e a cinza, cahe pelo furo da fôrma gotta a gotta, n'hum recipiente, donde se tira para o uso. A massa de Mamono, são as sementes deste vegetal bem pizadas. O tanque de preparar o barro, he hum cocho, no qual se deita muita agua, e barro, que com hum rodo se faz dissolver, ficando n'huma especie de lodo, que se lança em cima das fôrmas de Assucar bruto. Os vasos, onde está a decoada, e agua para o uso, são fôrmas com algum defeito, a que se tapa o buraco que tem no fundo.

Como se trabalha na fàbrica do Assucar.


Cheio que seja o parol de caldo frio, do sumo das Cannas espremidas nas moendas (o que actualmente se não faz em menos de quatro a seis horas) corre por huma calha para a caldeira, que fica hum palmo por encher.

Esta caldeira, que tem sua fornalha particular, e hum Escravo, que a serve com lenha, principia a receber hum fogo violento; á proporção que o liquido aquece, sobe á sua superficie huma especie de gusmo, a que se chama cachassa, que he tirada com a espumadeira pelo obreiro, que governa
a caldeira, e lançada na cochinha para por huma calha ser conduzida á casa da aguardente. Esta operação, a que se chama descachassar a caldeira, dura tanto tempo, quanto tarda o ferver o liquido, o que pelo commum, segundo o grande calor que recebe, não chega a meia hora. Logo que ferve, principia o uso da decoada; lanção-lhe mais, ou menos rominhois della, segundo que o sumo da Canna contém mais, ou menos partes oleosas, e tem maior, ou menor densidade; e se he muito denso, e rico em sal, interpoladamente se lhe lança agua, e decoada. Esta decoada, combinando-se com o oleo, faz hum sabão, que náda na superficie do liquor em fórma de espuma, que he tirada á proporção, que se ajunta.

Quando a violencia do fogo, dilatando o liquido, o faz sublevar acima das bordas da caldeira, às vezes hum, e dois palmos; huma pitada de massa de Mamono, lançada em cima, instantaneamente o faz abater, e reduz a mais de hum palmo abaixo das bordas della. O signal, para se conhecer se o liquor desta caldeira tem o cosimento preciso, a que chamão estar limpa, ou ajudada, he hum segredo, de que fazem mysterio os Mestres de Assucar; ora isto he huma gente, pretos, pardos, ou Indios, que pelo commum não sabem lêr, e, em quanto a mim, não tem outro merito, e sciencia, que a de serem fiéis, duros ao somno, e terem hum pouco de cuidado, por ser preciso nestas fábricas trabalhar de dia, e de noite. Quando se julga limpo o liquido da caldeira, passa ao parol de caldo quente, onde he lançado a braço, pelo caldeireiro, com a pomba. Continua o trabalho com mais caldo frio; estando prompto, passa ao parol de caldo quente, e quando neste parol há quantidade sufficiente para passar ás tachas, e, que depois destas trabalharem, não possão parar á falta delle, enche-se a primeira tacha, chamada de receber, depois de ter aqui engrossado alguma cousa, passa della a braço para a de coser, e desta para a de bater. Assim que o liquido passou da tacha de receber para a de coser, enche-se a de receber, e assim progressivamente, de sorte que as tachas não fiquem paradas. Todas estas tachas são espumadas, e levão massa de Mamono. A fórma de bater na ultima tacha, he levantar o liquido, que já está em calda, com a batedeira, e virallo com inclinação sobre huma parede alta, forrada de tijolo, que borda, e circumda, mais que ao meio, a mesma tacha, e quando suppõem ter alcançado o ponto necessario, he, desta tacha de bater, passado para a bacia de esfriar, e daqui com a repartideira vai para as fôrmas, que estão no que se chama tendal, que he huma especie de anteparo, cheio de bagaço de Canna, em cima de cujo bagaço estão as fôrmas, que são no numero de sete, a que chamão huma venda; não se enchem de huma vez, he repartida a calda por todas; e como a quantidade, que se apurou, não chega para as encher, completão-se com o segundo, e terceiro cosimento. Esta calda, lançada nas fôrmas, he mexida com a espatula, para impedir a condensação, e agregação mui prompta da gran do Assucar, a que chamão coalhar. Quando as fôrmas ficão cheias, e o Assucar coalha, tira-se a rolha, que tapa o buraco do fundo, para dar sahida ao mel, ou Assucar decomposto, cujo mel he conduzido por huma calha ao seu receptaculo. O Assucar mui trigueiro, que contém estas fôrmas, he o que se chama Assucar bruto. Passão agora do tendal para a casa de purgar. Esta casa he assobradada, e nas taboas do soalho há muitos buracos redondos, de seis pollegadas de diametro, onde se firmão as fôrmas, para serem barreadas.

A coxia, ou casa, que fica por baxo deste sobrado, he ladrilhada com inclinação das paredes ao centro, onde há hum canal, que recebe o mel, que as fôrmas de si lanção, e o conduz a hum tanque, donde se tira para o uso. Do tanque de preparar o barro, se tira em huma vasilha, a especie de lodo, a que he reduzido, e se lança em cima das fôrmas: este lodo, que conserva a agua em si, a vai largando a pouco, e pouco, a qual, introduzindo-se por entre o Assucar, precipita o mel, para sahir pelo buraco do fundo da fôrma. Sêcco que seja este barro, tira-se da fôrma, lança-se segundo, e ainda terceiro. Com estes tres barros, se suppõem ficar a fôrma, como chamão, lavada. Succede poucas vezes ser o Assucar desta fôrma todo branco, o commum he ser branco da superficie, até huma terça parte da fôrma, menos branco a segunda terça parte, trigueiro, dos dois terços para o fundo. Estas tres especies de Assucar, se distinguem com os nomes de fino, ou redondo, batido, e mascavado; este ultimo he ainda subdividido em diversos mascavados, segundo, que he mais, ou menos trigueiro.

O Assucar, assim trabalhado, diminue huma terça parte, pouco mais, ou menos, em quantidade de sorte, que, se as fôrmas contém tres arrobas de Assucar bruto, fica reduzido a duas de todas as qualidades. Depois que o Assucar se suppõem purgado, passa da casa de purgar para o terreiro, ou eira, onde he tirado das fôrmas, e com hum facão divididas as qualidades; e depois de reduzido a pequenas partes, he lançado em differentes toldos, ou lençoes de panno grosso, para que o calor do Sol lhe faça evaporar a humidade, e desseque.

He dalli conduzido á casa do encaixe, onde se deita em caixas, que podem conter de quarenta a cincoenta arrobas; e socado a pilões; e pregadas as caixas, conduzidas ao armazem, ou trapiche, onde, depois de julgadas as qualidades pela Meza da Inspecção, he vendido.

Notas sobre esta fórma de fazer Assucar.


Por não se saber moer Canna, gasta muito tempo o parol a encher-se. Nestas quatro, e mais horas, que o sumo da Canna, liquido mui composto, se deixa em repouso, fermenta; o que deprava o liquor, e diminue a quantidade de Assucar, e sua qualidade.

Se o parol he de madeira, conserva sempre em si hum fermento, que ajuda extraordinariamente esta deterioração. Quando o caldo da Canna passa do parol para a caldeira, vai frio; esta, que he de ferro coado, e está muito quente, recebendo repentinamente huma impressão tão estranha, póde rachar, o que muitas vezes succede. Hum calor moderado, que faz subir á superficie do liquor, as partes impuras, a que se chama cachassa, não dura o tempo que he preciso; logo que a caldeira levanta fervura, todas as partes são confundidas: a decoada, que se lhe lança, tem a propriedade de se combinar com as partes oleosas, e acidas, e de nenhuma sorte com este gusmo, que incorporando-se com o Assucar, o faz trigueiro, e perder a qualidade. O obreiro, que governa esta caldeira, ainda que o descachassalla não dure meia hora, faz hum trabalho fatigante, pela postura curva, em que he preciso estar; e mais se fatiga ainda, quando, julgando-a limpa, lança o liquido a braço com a pomba, no parol de caldo quente. Os parois de caldo quente, tem o mesmo defeito, que os de caldo frio, se são de madeira; e se o liquido, que nelles se deposita, chega a esfriar, o que quasi sempre succede. O bangué, he proporcionado ao pouco, que se trabalha.

A construcção desta fornalha, he positivamente má, o fogo faz o seu effeito inversamente. A tacha, chamada de receber, que póde com mais calor, por ser o liquido que contém, menos denso, he a ultima proxima á chaminé; a de cozer, está no meio, a de bater, e apurar o Assucar, he junto á boca da fornalha.

Para que a tacha de receber tenha maior calor, descobrem-lhe mais o fundo, menos a de cozer, e muito pouco á de bater. Ainda que o liquido, que contém estas tachas, esteja a ferver, a voz do Mestre de Assucar não cessa de dizer: Fornalheiro, deita lenha.

Este fogo demasiado decompõem o Assucar, transforma-o em mel, ou Assucar queimado. Em algumas fábricas há já bangués, em que quatro, e cinco tachas recebem o fogo directamente; porém os obreiros, que as fazem, gente material, e sem principios; os Mestres de Assucar, tirados do seu trilho, sem capacidade para moderar o fogo, que pela fornalha direta, se augmenta muito; huma boca mui pequena, que nellas se pôz, e faz precisar o rachar-se lenha, ou servir-se só de lenha miuda; hum crivo desproporcionado, a boca da fornalha aberta, todas estas cousas fazem, com que a maior parte use das antigas.

A bacia, ou esfriadeira, he inutil. As fôrmas de barro tem pequena base, e muita altura; ainda que estes defeitos não fossem bastantes, a sua fragilidade devia fazellas desprezar. A decoada, e fórma de a fazer, não póde ser mais defeituosa; as hervas acres, só servem de a tingir, e a côr, que lhe communicão, se incorpora com o Assucar. Tenho visto parar engenhos, e bem notaveis, por falta de decoada; ainda que haja cinza, são precisos dois, e tres dias para se fazer; não há regra, humas vezes he forte, outras fraca.

A massa de Mamono, quasi sempre he podre, ao menos conserva hum cheiro detestavel. Não há escolha no barro para clarificar o Assucar; qualquer serve, he sempre de hum cinzento escuro, e quando, depois de sêcco, se tira de cima da fôrma, deixa encostrado sobre o Assucar, hum sedimento negro. A fórma de seccar o Assucar no terreiro, he pessima; além de ser preciso ter sentinela, ainda que quem o vigia, seja hum Argos, não impede, que se furte muita parte; a formiga, a galinha, o cão, o porco, todos o comem; o vento faz depositar nelle mil impuresas; se há chuvas continuadas, o que succede muitas vezes, não podendo as fôrmas sahir da casa de purgar, mélla o Assucar nellas; a estufa salta aos olhos, porém ninguem a pôz ainda em prática. O bater a calda, levantando-a da tacha na batedeira, com inclinação sobre huma parede, onde cahe muita parte della, não sei que isto possa servir para fazer Assucar, vejo que se faz hum encostramento na parede, que he preciso fação para o arrancar; esta especie de Assucar encostrado, a que se chama rapadura, para ter algum valor, he preciso tornar á primeira tacha, e antes que a ella vá, tem mil descaminhos. O tanque do mel, além de ser huma verdadeira sentina, hum aggregado de mil imundicias, o mel faz apodrecer o tijolo, a que faz perder pela terra muita parte, que bem acondicionada, se aproveitaria em aguardente.

Principios, que devem conduzir o fabricante de Assucar.


Quando de hum todo, ou composto, se quer extrahir huma parte, he preciso conhecer esta parte, e as mais, que com ella fazem o mesmo todo, e saber a fórma de as separar. O Assucar purificado, segundo Cartheuser, he hum corpo concreto, salino, formado de huma terra soluvel, de hum acido subtil (de que huma parte he intimamente unida a huma base alcalina, e calcarea) e de huma substancia oleosa inflammavel.

O sumo, ou caldo de Canna, que contém este sal delicioso, he hum composto de agua, mel, oleo, e acido; e das materias extractivas, da casca, dos nós, e das fibras longitudinaes da mesma Canna.

Deve-se buscar na fábrica do Assucar, o separar estas tres especies de materias extractivas, rezinosas, ou feculas (que fazem o que se chama cachassa) o oleo, e acido superabundantes, e evaporar a agua.

Estas operações, que são chymicas, sendo bem feitas, constituem o bom Mestre de Assucar.

O unico meio, até agora conhecido, para separar as tres feculas, que fazem a cachassa, he hum calor, que a mão não possa supportar, porém que de nenhuma fórma chegue ao gráo de fervura. Para separar o oleo, e acido superabundantes, não se sabe de outro meio mais, que os alcalis, vegetal, e calcareo, quero dizer, as decoadas de cinza, e de cal, combinadas.

Qualquer destas duas decoadas por si, tem a propriedade de se unir aos oleos, e acidos, e fazer com elles hum sabão, que se mostra na fórma de espuma; porém Bergman observou, que o alcali calcareo prefere o acido, e o alcali vegetal o oleo; o que faz precisar a combinação destas duas especies da alcalis, para a depuração do Assucar. Se o sumo, ou caldo de Canna he muito aquoso, oleoso, acido, pouco assucarado, quero dizer, produzido por huma Canna taióba, ou selvagem, deve ser servida a caldeira com decoada pura, no ponto, em que fica, segundo a fórma de a fazer, que logo direi.

Se, pelo contrario, he rico em sal, pouco aquoso, muito denso, produzido por huma Canna de boa qualidade, deve a decoada ser enfraquecida com agua pura. Esta maior, ou menor força da decoada, he relativa ao sumo, ou caldo de Canna, por ser preciso ter, onde se empregue, para deteriorar o Assucar, e communicar-lhe hum gosto lexivial.

A evaporação da agua deve ser feita por hum fogo graduado, e poupado; por ser fysicamente demonstrado, que qualquer liquido, chegando a levantar fervura, tem alcançado o maior gráo de calor, de que he capaz, e que he em pura-perda, toda a mais lenha, que se lança na fornalha. Este calor demasiado, perdido para a evaporação, decompõem o Assucar, e o reduz a mel, ou Assucar queimado. A evaporação de qualquer liquido, he em rasão da sua superficie; para esta se augmentar, he preciso levantar o liquido, e deixallo cahir em columna; tanta he a superficie desta, quanta a augmentação da evaporação, respeito á que tinha na tacha simplesmente fervendo.

Todo o liquido mucoso, doce, tendo fluidez sufficiente, ajudado pelo calor, e influxo do ár, entra promptamente em fermentação. Esta fermentação decompõem o Assucar, que tranforma em espirito, de sorte, que certa quantidade de liquido, que produziria vinte, se chega a fermentar, póde dar sómente quinze, dez, e mesmo nada, e esse menos que se fizer, ha de ser de má qualidade. O gráo de frio, que géla a agua, impede a fermentação, porém este meio só a natureza o póde dar, e no Brasil he impossivel; o que temos na nossa mão, e facil, he darmos, e conservarmos hum calor ao liquido, que quasi o faça ferver. A rasão porque se diz, ser bom trabalhar em quente, e muito máo em frio, he por este frio ser o do ár, que no Brasil ajuda prodigiosamente a fermentação, e o quente, he o liquido quasi fervendo, que a impede.

Ora, sahindo o caldo quasi fervendo da caldeira, e passando ás tachas quasi com esta quentura, trabalha-se bem, e apura-se o mais possivel; esfriando no parol, assim que alcança o calor, que favorece a fermentação, entra logo nella, porque a natureza não pára; e quanto mais tempo assim se conserva, tanto mais se deteriora, perde o rendimento, e custa a trabalhar.