NOTAS
QUE PERTENCEM A ESTA OBRA.
Na Provincia do Minho, e em outras partes, há muita
uva, que não pode amadurecer, porque as cêpas
são encostadas
a arvores, cujas folhas impedindo, que a luz toque
nos cachos, não se pode aperfeiçoar o seu succo,
nem alcançar
doçura, condição, sem a qual se
não pode fazer vinho
generoso.
Estas uvas são sempre azêdas, e o seu vinho quasi
não
tem valor, por aspero, e inexportavel. He enriquecer aos
seus habitantes, e por consequencia ao Estado, o dizer a forma,
porque podem fazer vinho generoso, e com todas as
qualidades, que lhe adquirem grande valor, e
exportação.
O meio simples, innocente, e infallivel, para conseguir esta
perfeição, he ajuntar ao mosto máo,
antes da fermentação,
huma certa quantidade de Assucar, maior, ou menor,
segundo a qualidade do mosto; porém que nunca
poderá exceder
a huma arroba por pipa, por mais verde, que elle
possa ser; e governar-se a fermentação, assim
como se diz
nos principios para fazer aguardente. Esta despeza ha de ser
compensada com usura na venda do vinho, pelo excesso de
verde, a maduro, e bom. Macquer chegou a fazer vinho
de verjus, que he huma uva, que nunca amadurece, e se
servem della em França para tempero acido, assim como nos
nos servimos do limão. Fez tambem, com uva muito
má, vinho
liquoroso, vinho como o de Tockay, que he feito de
uva muito doce, quasi em passa, simplesmente com a
addicção
do Assucar. Não he preciso, que o Assucar seja branco,
basta o mascavado, e mesmo o mel, se houver em abundancia.
Boyle pesou huma pouca de terra vegetal, de que encheo
hum caixão; depositou nesta terra huma semente de buxo,
e a regava, quando era preciso.
Passados annos, pesando este buxo, achou, que tinha cento
e tantas libras, e a terra só tinha diminuido algumas
onças.
A luz depura as emanações dos vegetaes, prepara
com
ellas o elemento, que respirão os animaes, e rehabilita o
que a sua respiração tem corrompido; porque o
animal inspira
ár, e expira gás: o vegetal, pelo contrario,
absorve
gás, e transpira ár puro; porem este
ár á sombra, e de
noite, corrompe-se, se a luz o não purifica. A materia, que
vive nos animaes, e nos vegetaes, tem huma dependencia
absoluta da luz; ella tem a faculdade de penetrar os corpos
que toca, produzir nelles calor, desenvolver o que tem no
seu seio, e aperfeiçoar os seus succos. As plantas, que
são
privadas da luz, por muito juntas, ficão delgadas, as
folhas,
e as hastes de hum verde desmaiado, por consequencia enfermas,
e sem darem o producto, que se devia esperar.
O ar he absolutamente preciso para entreter a vida animal,
e vegetal. Se he corrompido, se não se renova, os
animaes, e os vegetaes padecem, deperigão, e morrem.
Já
se disse em a nota antecedente, que os animaes inspiravão
ár, e expiravão gás; e que os vegetaes
absorvião gás, e transpiravão
ár puro. Esta troca reciproca, estabelecida pelo Author
da natureza, he a que faz ser o ár, que se respira no
campo, tão saudavel, e nocivo, o das grandes
povoações.
No campo há toda a facilidade para se fazer esta troca,
que tanto se difficulta nas Cidades.
O gás, ou ár fixo, que os animaes
expirão, e os vegetaes
absorvem, he hum liquido incompressivel, que, não
sendo misturado com sufficiente quantidade de ár puro, mata
os animaes, que o inspirão, afogando-os, assim como faz
a agua, ou qualquer liquido que nos seja visivel; porém elle
se conhece so pelos effeitos, nas victimas que faz perecer,
e não á simples vista.
Franklin navegando em frota na America do Norte, vio
serem maltratados por huma tempestade, todos os Navios, e
so dois novamente concertados, e alcatroados, sentirão muito
pouco os seus effeitos. Vio tambem algumas gôttas de azeite
lançado no mar, cuja reunião encheria apenas huma
colher,
temperar as ondas a mais de cem toezas, com huma
celeridade de expanção tão
maravilhosa, como a sua divisão;
e que este effeito do azeite, ou qualquer oleo, principalmente
do vegetal, era sobre tudo efficaz, para evitar o perigo
dos mares encapelados. Todas as pessoas, que tem sentido
no mar grandes tormentas, sabem, que os mares encapelados
procedem de huma grande serra de mar, que agitado
pelos ventos, forma huma horrorosa columna, a qual
dobrando, ou encapelando, se por desgraça encontra alguma
embarcação, seja ella a maior Náo,
lançando-lhe dentro milhares
de toneis de agua, a faz sossobrar. A pezar de ser
Franklin quem isto diz, eu, que sabia o que erão mares
encapellados,
suspendi a minha crença, parecendo-me impossivel,
que huma tão pequena quantidade de materia, fizesse
cessar hum tão terrivel effeito: porém a primeira
vez,
que vi fazer Assucar, e que hum grande fogo lançado debaxo
de huma caldeira, fazendo sublevar acima das bordas della
alguns palmos o liquido, que continha, e que huma pitada
de massa de Mamono, reduzia repentinamente este liquido
á sua altura natural, lembrei-me logo da
observação
de Franklin, e ainda que eu não possa conceber o porque
isto se faz; se huma pitada de massa de Mamono, que poderá
conter apenas meio grão de azeite, e azeite crasso, he
capaz de impedir a sublevação, e fuga do liquido
de huma
caldeira abrazada, creio certamente, que algumas oitavas de
azeite bem expansivel, tal como o de amendobi, de que há
abundancia em Angola, lançado por huma seringa de delgado
canudo, contra o maior mar encapelado, o reduzirá a
onda simples, que não tem perigo de consequencias para os
Navios.
O ponto indicado por M. Gentil, he para se fazer o vinho
da uva; porém como todos os mostos são compostos
dos mesmos principios, com mui pequenas
modificações, o
que succede no mosto da uva, he commum ao da maçan para
a cidra, ao da cevada para a cerveja, ao sumo, e productos
da Canna de Assucar, para se fazer aguardente. A passagem
da dorna, ou cuba para a pipa, com os acidos mineraes,
para impedir a fermentação ulterior; como do
vinho
de Canna, ou guarápa, o que se pretende he aguardente,
tambem he o ponto desta guarápa, passar ao alambique para
a distilação.
EXPLICAÇÃO
DAS ESTAMPAS.
FIG. I.
Forma dos partidos para a Canna, com
doze braças em quadro, e o mesmo de intervallo
entre cada partido.
FIG. II.
Quadrados longos, que fórmão tambem
partidos, com menos intervallo.
FIG. III.
Quadrados longos, com outra direcção.
A agulha, que está no centro, he para mostrar o
alinhamento, que devem ter os pequenos partidos,
para a Canna ser plantada de Norte a Sul,
e de Leste a Oeste.
FIG. I. A
folha da enxada sem cabo.
FIG. II. A
mesma enxada encavada.
FIG. III. O
trabalhador com a enxada prompto a
trabalhar.
FIG. IV. O
mesmo trabalhador, trabalhando.
FIG. I. He
a vista exterior da casa do engenho,
tomada ao longo.
FIG. II. He
a vista plana da mesma casa.
FIG. III. He
a vista exterior da entrada da casa
do engenho, que mostra tambem as varandas para
picadeiros, e outras serventias.
Mostra a fórma de moer Canna, pelo methodo que
se propõem.
FIG. I. Mostra o bangué de tres tachas,
com as
paredes dos lados abatidas, para se ver o interior;
e o fogo fazendo o seu effeito.
FIG. II. Mostra os dentes em prisma para o ensinho,
vistos de topo, com a grossura, e fórma,
que devem ter, e distancia de huns a outros; o
mais escuro he a espiga, que deve entrar no madeiro,
onde prende o cabo. A. e B. figura dos dezoito
dentes do centro do mesmo ensinho. C. figura
dos dois dentes, que devem fazer os lados.
FIG. I. Mostra hum trabalhador, cavando com a
enxada,
como se pratica em França, Inglaterra, etc.
FIG. II. Fórma do raspador para as
limpas, ou capinas.
FIG. III. O mesmo raspador de perfil, para mostrar
a direcção, que deve ter encavado.
FIG. IV. Figura do ensinho, para arrancar pequenas
raizes.
FIG. V. Mostra o balde de valvula trabalhando; a
polé póde ser feita de taboas, assim como o sexto
circulo, onde se vem os sinaes dos fuzelos,
que sustem as duas cordas que prendem o balde,
e tambem a corda, que levanta a valvula.
O apoio da balança está em tres palmos, e o
trabalhador
puxa por huma alavanca de seis.
FIG. VI. Pessa onde joga a polé, e que
facilita
o seu movimento para todas as partes.
FIG. I. He o alambique na sua fornalha com o fogo
acêzo. O refrigerante deixa ver a figura do
capello, fazendo hum angulo de 65 gráos, e o
petipé mostra as dimensões do alambique, e
fornalha.
FIG. II. He a fôrma de Assucar, vista com
a boca
para cima.
FIG. III. He a mesma fôrma, deixando ver a abertura
do seu fundo.
FIG. I. Faz ver como se fazem cêrcas
vivas.
FIG. II. Mostra os ramos entrelaçados, e
mergulhados
na terra.
FIG. III. Mostra os moirões, e varas para
as
cêrcas
mortas.
FIG. IV. He hum quarto circulo, para dar a conhecer,
o que são gráos de
elevação. Na linha
horisontal do mesmo, se vem duas pollegadas,
repartidas em linhas. Huma pollegada tem doze
linhas, hum palmo tem oito pollegadas, hum pé
tem doze pollegadas.
INDICE
DO QUE CONTEM ESTA MEMORIA.
| Descripção da Canna de
Assucar,
segundo
a vista que
appresenta. |
Pag.
1 |
| Como se cultiva actualmente a Canna de
Assucar. |
2 |
| Notas sobre esta fôrma de
plantação. |
4 |
| Theoria para a cultura da Canna de
Assucar. |
5 |
| Como se deve cultivar a Canna de
Assucar. |
10 |
| Vantagens desta fôrma de
plantação. |
16 |
| Córte das
Cannas. |
Ib. |
| Construcção dos
engenhos
actuaes. |
17 |
| Notas sobre esta fórma de
construcção. |
19 |
| Nova construcção de
engenhos |
20 |
| Sobre o movimento das
moendas. |
22 |
| Comparação da roda
vertical com
a
horisontal. |
24 |
| Preciso sobre a dentadura das
rodas. |
26 |
| Como se moe Canna
actualmente. |
30 |
| Notas sobre esta fórma de
moer. |
32 |
| Nova fórma de
moer. |
33 |
| Comparação da moagem
actual com
a que se
propõem. |
35 |
| Descripção do que
contém a casa de caldeiras
actualmente. |
38 |
| Como se trabalha na fábrica do
Assucar. |
40 |
| Notas sobre esta fórma de fazer
Assucar. |
44 |
| Principios, que devem conduzir o fabricante
de
Assucar. |
47 |
| Preparo para manufacturar o
Assucar. |
50 |
| Fórma
de fazer a
decoada. |
53 |
| Descripção,
e
proporções do
Bangué. |
54 |
| Preparo do barro
para clarificar o
Assucar. |
56 |
| Methodo para
trabalhar na fábrica do
Assucar. |
57 |
| Como se trabalha
na fábrica da
aguardente. |
63 |
| Principios, que devem conduzir o Mestre
Aguardenteiro. |
65 |
| Discurso sobre o
alambique. |
73 |
| Ordem do trabalho para fazer
aguardente. |
78 |
| Sobre o tratamento do gado, e
bestas. |
80 |
| Cêrcas vivas, e
mortas. |
82 |
| Lenhas. |
84 |
| Carros. |
85 |
| Capinas. |
86 |
| Notas. |
88 |
| Explicação das
Estampas. |
92 |
FIM.
Lista de erros corrigidos
Aqui encontram-se
listados todos os erros encontrados e corrigidos:
A numeração das páginas foi alterada
no índice de forma a corresponder à
numeração real das páginas do livro
original.