[1] D. João Soares morreu em 1618, com 38 annos de idade. Escreveu e imprimiu em lingua castelhana: Archimusa de varias rimas y efetos, e La iffanta coronada por el-rei D. Pedro, D. Ignez de Castro, etc. Este poema não devia ser mui lisonjeiro ás tradições de Pero Coelho, avoengo do poeta.
LISBOA
Elucidemos a historia do viajante.
O mordomo-mór que fugia era D. João de Mascarenhas, 4.º marquez de Gouvêa, e 7.º conde de Santa Cruz. Tinha 25 annos, e era casado com uma hespanhola, chamada D. Thereza de Moscoso e Aragão, filha do 7.º conde de Altamira.
A senhora que fugiu com elle era D. Maria da Penha de França, tambem casada com seu primo-irmão D. Lourenço de Almada, muito moço.
Tinham casado em 1722. Em junho de 1723 D. Maria da Penha de França deu á luz uma menina, que se chamou Violante. E, na noite de 11 de novembro de 1724, a esposa, abandonando marido e filha, fugiu com o marquez.
Este desastre não foi precedido de ardentes galanteios e grandes resistencias do pudor vencido pela paixão.
D. Maria foi de visita ao paço, onde havia sido dama, como sua mãi D. Violante Henriques o fôra da rainha D. Maria Sophia de Saboya. Viu o marquez que era galan, audaz, e sem ser milagre, fulminou-o com o relampago da formosura. Fugiram e pararam em Tuy. Não foi em Vigo como diz o viajante. Julgavam-se salvos em terra estrangeira; mas o bispo, por ordem vinda de Madrid, prendeu D. Maria n'um mosteiro; e o marquez fugiu por Hespanha dentro, e mais tarde para Inglaterra.
Tanto que em Lisboa se divulgou a prisão da mulher de D. Lourenço de Almada, certo poeta escreveu um soneto gravido de maus versos e boa moral, que diz isto:
Pia te esconda, oh bella criminosa,
E converta-se em sombra a luz formosa
Que ardeu nos sacrificios da indecencia.
Tolera da prisão toda a violencia,
Perdida já a nobreza generosa;
Fique ainda entre a culpa indecorosa
Benemerita ao menos a paciencia.
Principia a morrer n'essa clausura
Encobrindo um descredito infinito
No antecipado horror da morte escura.
Mas ah! se em ti, por ultimo conflicto,
Como vai sendo de vida sepultura,
Chegasse a ser cadaver o delicto!
Hei de escrever um livro que ha de chamar-se o desterrado. Estes desastres hão de ser esmiuçados compridamente. O Desterrado do meu romance não é o marquez de Gouvêa: é outra casta de personagem. Bem sei que esfrio o interesse do futuro livro, bosquejando-o aqui em poucas linhas. Não importa. A curiosidade do leitor é mais attendivel que as conveniencias mercantis d'uma novella.
Como sabem, D. Maria da Penha deixou nos braços do abandonado marido uma filhinha de onze mezes, que se chamou Violante. Esta menina, ahi pelos dezesete annos, amou seu primo D. Luiz Francisco de Assis Sanches de Baena, alcaide-mór de Villa do Conde, capitão de cavallos, e uns gentilissimos vinte e nove annos. Na casa dos Almadas, onde D. Luiz fôra creado--porque sua mãi casára em segundas nupcias com D. Luiz José de Almada--havia um D. Antão, que se apaixonára por Violante, que era sua sobrinha. A menina esquivara-se ás caricias do tio, e deixou-se arrebatar nos braços do primo D. Luiz, quando uma ordem regia o desterrou para Moncorvo, a rogos de D. Antão de Almada. Os dous fugitivos (que desterro tão semelhante, o de mãi e filha!) esconderam-se e casaram em Zamora; mas ahi mesmo os enviados do cioso tio a foram colher de sobresalto e a trouxeram a Portugal.
Esteve a menina reclusa alguns annos em Marvilla, com o proposito de professar, pois que a lei lhe annullára o casamento com o primo; não obstante, porém, a saudade do desterrado primo, ao fim de onze annos, aceitou seu tio para esposo, do mesmo passo que D. Luiz era banido e desnaturalisado para sempre. Aqui fica muito pela rama o entrecho do livro para o qual se estão aprestando as peças essenciaes da vida tempestuosa de D. Luiz Francisco de Assis Sanches de Baena, fallecido aos 75 annos, e terceiro avô do actual snr. visconde de Sanches de Baena[2].
De D. Violante e de seu tio D. Antão de Almada (sem embargo das amarguras da violentada esposa) nasceu D. Lourenço de Almada, que foi o 1.º conde do seu appellido em 1793.
*
* *
Outra indicação do viajante que estimula a curiosidade:
«A casa da rainha e dos principes são analogas á do rei. O posto de camareiro-mór da rainha vagou por morte do marquez das Minas, assassinado em 1721. Este senhor era genro do marechal de Villeroy; e seu filho, o conde do Prado, está presentemente na côrte de França.»
Já d'este caso dei n'outro livro a noticia que transcrevo do citado periodico de Francisco Xavier de Oliveira:
«Um corregedor guardava uma porta da igreja da casa professa dos jesuitas, quando alli se celebrava grande festividade. Sómente o rei havia de entrar por aquella porta. Chegaram aqui o marquez das Minas e o conde da Atalaya; mas o corregedor com razão lhes vedou o passo. Insistiram elles, dizendo ao ministro que as ordens recebidas não podiam entender-se com pessoas de sua esphera. Redarguiu o corregedor que as ordens ninguem exceptuavam, e por tanto, sem que o rei entrasse, não podia elle permittir que entrasse quem quer que fosse. Aquelles senhores podiam entrar por outras portas francas a toda a gente. Não obstante, pertinazmente exigiram do corregedor uma distincção que elle não podia dar-lhes sem transgredir os deveres... Os dous fidalgos, depois de o terem insultado, passaram ás ultimas. O conde da Atalaya deu com o chapéo na cara do corregedor, e o marquez das Minas traspassando-o com a espada, matou-o. Em seguida cavalgaram, e sahiram do reino. O marquez das Minas foi perdoado e voltou ao reino[3].»
Crê o leitor que, não obstante o perdão, o marquez das Minas passaria o restante da vida sequestrado das graças do monarcha e da convivencia das pessoas de bem? Não faça juizos temerarios o leitor: o marquez das Minas recebeu o indulto, e ao mesmo tempo o bastão de general.
Já vimos a justiça dos homens: agora vejamos a da Providencia. Servia no exercito portuguez um castelhano chamado D. Juan de la Cueva, que não dava excellencia ao seu general, marquez das Minas, sem que este lhe désse senhoria. «Ora, o marquez, assassino do corregedor,--diz o cavalheiro de Oliveira--era soberbo e arrogante. Um dia, ao entardecer, sahia elle da portaria da congregação de S. Philippe Neri, a tempo que desgraçadamente Juan de la Cueva ia entrando. Cortejou elle o marquez, que lhe não deu a pretendida senhoria, e por isso de la Cueva lhe não deu excellencia. O general, grandemente irritado, levantou o bastão e proferiu palavras ameaçadoras. De la Cueva, sem lhe dizer palavra, traspassou-o com a espada. O marquez não tugiu nem mugiu: quando cahiu por terra, já ia morto. O padre, que o acompanhára até á portaria, e era confessor d'elle, apenas teve tempo de lhe apertar a mão. D. Juan de la Cueva pôde escapar-se, e refugiou-se em Hespanha[4].»
Na jurisprudencia divina a justiça mais seguida é a pena de Talião.
[2] Veja Apontamentos biographicos ácerca de D. Luiz Francisco de Assis Sanches de Baena, etc., por Innocencio Francisco da Silva, Lisboa 1869.
[3] O cavalheiro de Oliveira não designa o tempo de expatriação do marquez das Minas, conde do Prado. Deviam ser dez annos, segundo a sentença manuscripta de que dá noticia o snr. Innocencio Francisco da Silva, a pag. 233 do 7.º tom. do Dicc. Bibliog. Diz assim: «Sentença da Relação de Lisboa, contra os condes do Prado e da Atalaya por matarem publicamente o corregedor do Bairro-Alto no exercicio da sua authoridade. O primeiro, tendo-se evadido, foi justiçado em estatua; o segundo condemnado a degredo por dez annos, e ambos em multas pecuniarias». Creio que ha equivoco, na transcripção da sentença. O queimado em estatua foi o conde de Atalaya, que, no dizer do cavalheiro de Oliveira, morreu furioso em Vienna, depois de ter militado no exercito do imperador de Austria. Quanto ao marquez das Minas, presume-se que lhe foi indultada a sentença, visto que o citado Oliveira diz que obteve perdão e voltou a Lisboa.
[4] Amusement, 2.º v. pag. 147 e 148.
LITTERATURA BRAZILEIRA
Longo tempo se queixaram os estudiosos do descuido dos livreiros portuguezes em se fornecerem de livros brazileiros. Nomeavam-se de outiva os escriptores distinctos do imperio, e raro havia quem os tivesse nas suas livrarias. Nas bibliothecas publicas era escusado procural-os. Em compensação, sobravam n'ellas as edições raras de obras seculares que ninguem consulta.
O mercado dos livros brazileiros abriu-se, ha poucos mezes, em Portugal. Devemol-o á actividade inteligente do snr. Ernesto Chardron. Foi elle quem primeiro divulgou um catalogo de variada litteratura, em que realçam os nomes de mais voga n'aquelle florentissimo paiz. Ahi se nos deparam, entre os poetas, Gonçalves de Magalhães, o correcto e sublime author da Confederação dos tamoyos; o lyrico e arrojado Alvares de Azevedo; o primaz dos escriptores brazileiros, e chorado Gonçalves Dias; o esperançoso devaneiador, fallecido no viço da idade, Casimiro de Abreu; Junqueira Freire que primou nos segredos da melodia e já não é d'este mundo; e o severo e cadencioso poeta de Colombo, tão estimado dos nossos. Entre os romancistas o fecundissimo Joaquim Manoel de Macedo, que disputa a supremacia a J. de Alencar, que tanta nomeada grangeou com o seu Guarany. Não lustram menos as novellas mimosissimas de Luiz Guimarães, e as arrobadas mesclas de prosa e verso de Machado de Assis. Em litteratura didascalica sobresahem os valiosos escriptos do professor, o snr. conego Fernandes Pinheiro, nomeadamente o Resumo de historia litteraria, que muito se avantaja a uns esbocêtos que em Portugal circulam nas escólas, e--o que é mais deploravel--nos estudos secundarios. São notabilissimos todos os livros do snr. J. M. Pereira da Silva, já na sciencia historica, já na politica, e ainda no romance, tão prosperamente estreiado na Aspazia. Sobre tudo, porém, os Varões illustres do Brazil e a Historia da fundação do imperio brasileiro são obras que denotam profundo estudo e muito engenho na boa disposição dos elementos e critica dos personagens historicos. Em varia sciencia, em livros elementares, em lexicologia, e ainda sobre motivos de religião é copioso o catalogo da livraria Chardron. Esta variedade argue a fertilidade de intelligencias que ajuntam á riqueza congenial d'aquelle solo os thesouros do espirito. E muito importa e cumpre observar que os brazileiros modernamente nos não cedem no zelo de imitar a linguagem pura dos grandes escriptores portuguezes dos seculos de ouro.
Não esqueçamos, todavia, que o impulsor d'este brilhante movimento litterario no Rio de Janeiro, e por isso em todo o imperio, é o livreiro-editor Garnier, espirito emprehendedor que tanto faz luzir os talentos que divulga, quanto lucra para si a honra de os fazer conhecidos e laureados. Quem calcular o despendio grande de empresas semelhantes n'aquelle paiz, deprehenda o quanto cumpre que seja robusto e afouto o pulso que removeu as immensas difficuldades com que ha trinta annos lutavam os escriptores do Novo-mundo para se fazerem conhecidos. Coube esta gloria e este triumpho ao snr. Garnier.
Falta dizer que os preços dos livros offerecidos no catalogo das casas Chardron, no Porto e em Braga, são modicos, reduzidos, e inferiores ao preço corrente das obras portuguezas de igual tomo.
E, pois que estou agradavelmente recommendando livros de brazileiros, seria injustiça não graduar de passagem ao menos o merito de uma obra que recentemente sahia dos prélos portuenses. É o Estudo sobre a colonização e emigração para o Brazil. É seu author o snr. Augusto de Carvalho, que tão grave e prestadiamente abre carreira de escriptor, em annos ainda muito na flôr, e com o espirito já a fructear as mais sensatas considerações sobre as questões controversas inculcadas no titulo da sua obra. Á substancia do livro allia-se o primor da fórma, a propriedade do termo, a chaneza eloquente, e, a espaços, a elevação do estylo que não innubla a clareza da idéa. É o snr. Augusto de Carvalho um brazileiro que nobilita as letras da sua patria, e está grangeando um lugar entre os melhores escriptores, e, desde já, o tem distincto entre os bons pensadores e cultores de idéas proficuas. Congratulo-me com os seus conterraneos.
Á ACTUALIDADE
O meu nome foi banido das columnas d'aquelle jornal. Assim o rosnou o lebreu por entre os arames da mordaça.
Foi realmente banido?
Então, adeus, desgraçado!
Que o mundo tenha tanta piedade de ti, lazaro, quanto eu me arrependo de te haver baldeado do charco da petulancia para outro peor--o do silencio.
Adeusinho! coça a tua lepra com os teus folhetins; mas sume-te, escalracho!
A EXC.ma MADRASTA D'EL-REI D. LUIZ 1.º CALUMNIADA
Se me arguirem de adulador da senhora condessa, madrasta d'el-rei D. Luiz I, são iniquos. Se esta ditosa dama, em vez de estar no paço das Necessidades, estivesse, a esta hora, em trances de cantora não escripturada, eu sahiria por honra do seu nome de artista contra o calumniador que lhe mareasse os applausos recebidos no theatro do Porto, ha quatorze annos.
Em um numero da Lanterna, periodico truculento, li que a esposa do viuvo de D. Maria II havia sido pateada na rampa do theatro de S. João, em 1859.
É calumnia, que vou desfazer com a imprensa contemporanea.
Conceda-se-me a abstinencia de tratamentos regiamente honorificos, em quanto a nobre condessa de Edla me permitte pleitear em prol dos seus creditos de cantora.
A snr.ª Elisa Hensler cantou, pela primeira vez, no theatro do Porto, na noite de 8 de outubro de 1859. O Nacional do dia 10 escreve o seguinte:
«A companhia italiana estreou-se effectivamente no sabbado, e não se estreou mal. A escolha da opera foi acertada--«O Saltimbanco»; é uma bella partitura... e a prima-dona Hensler é bella, joven, e canta com mimo. A sua voz, se não é possante, é melodiosa e expressiva, tem alcance bastante para o nosso theatro. O publico ficou agradavelmente surprehendido, e deu lisongeiro acolhimento á mimosa cantora... Tanto no duetto como no rondó mostrou a snr.ª Hensler que possue dotes musicaes pouco vulgares. O sentimento com que cantou os andantes do duetto, a bravura e perfeição na execução da difficil parte do rondó, e aquelles trilos tão nitidos e puros, que ella faz em notas tão agudas no rondó, é sufficientemente para corroborar as grandes e vantajosas informações que a precederam; e o publico foi justo com os applausos e chamadas no fim da opera.»
Receio que os detractores da mimosa cantora venham com artigos de suspeição ao Nacional, culpando-o de parcial e apaixonado, já no louvor, já na censura, em juizos theatraes. Contra esses artigos redargúo estampando a opinião do Commercio do Porto, o jornal mais serio do paiz:
«Abriu-se no sabbado com a opera o «Saltimbanco» de Paccini... Fizeram a sua estreia n'esta opera a primeira dama Elisa Hensler, etc. A prima dona Hensler foi applaudida e teve uma chamada no fim.» (Commercio de 10 de outubro). E no folhetim de 15 do mesmo mez, confirma n'estes termos: «A snr.ª Hensler é uma excellente cantora. A sua voz de soprano-agudo é de sonoro timbre; e, ainda que de pouco volume, extensa, flexivel, melodiosa e fresca. Possue, além d'estes dotes naturaes, outros não menos valiosos como cantora: conhecimento do mechanismo do canto, perfeita entoação e expressão. Revela a seu grande merito como cantatriz nos floreios, nas escalas chromaticas, e especialmente nos trinados. Na passagem da 1.ª á 2.ª cavaletta do seu rondó final faz admirar os tres longos e bellos trinados em sol, lá e si agudos. Na difficil cavaletta de sua cavatina do 1.º acto são muito merecidos os applausos que tem colhido. No larghetto e cantabile do duetto do baritono e soprano do 3.º acto, não obstante a agudissima tacitora em que está escripto, não deixa a snr.ª Hensler nada a desejar. A todas estas excellentes condições como artista e cantora reune uma presença sympathica, qualidade esta de muito valor no theatro.»
Já no Nacional de 13 este parecer viera corroborado com estes gabos: «E a prima-dona Hensler? Não desmereceu em nada das primeiras impressões que nos imprimiu.
«É sempre a cantora mimosa e correcta.»
O Commercio de 29 de outubro classifica maviosamente a dôce cantora com esta phrase:... «A prima-dona Hensler é o bijou da companhia.»
Na noite de 6 de novembro cantou a snr.ª Hensler a parte de Lucia. O Nacional diz o seguinte: «A snr.ª Hensler na aria do 3.º acto remiu-se do fiasco do 2.º, e cantou com tal mimo e doçura que a platéa apesar de gelada rompeu então em reiterados applausos.» (Nacional de 7 de novembro). O Commercio, esquivando-se á ingrata e desmerecida palavra fiasco, escreve: «A sr.ª Hensler foi muito applaudida no rondó, e os applausos foram merecidos no andante, que cantou lindamente, executando com admiravel justeza a cadencia em unisono com a flauta... Na cavaletta não foi tão irreprehensivel a execução.» Está de accordo com o Nacional de 8 de novembro: «A snr.ª Hensler continua a ser applaudida no rondó do 3.º acto, onde a bella cantora revela muito talento. Se a sua voz fosse tão volumosa como é suave, seria uma artista de infinito merecimento.»
A 12 de novembro principiam os jornaes a gemer sobre a gaveta do snr. Laneuville, empresario que se dissolvia, com quanto fosse insoluvel. Sem embargo, a snr.ª Hensler, na confirmação dos dous citados jornaes, excedia-se no mimo do canto. Dir-se-hia que attentava em captar com as harmonias dulcissimas da sua voz o archanjo torvo da miseria que espreitava o empresario por entre as bambolinas de cartão esgarçado.
Alguns amadores, que previam o desastre da empresa nas cadeiras vasias da platéa, fermentaram a occultas dous bandos que, mais ou menos ficticiamente, se apaixonassem pelas duas damas. É o que se deprehende das revelações do Commercio de 5 de novembro que reza assim:... «No pessoal da companhia não ha nada que desafie enthusiamo e dê vida animada ao theatro, apesar dos esforços que alguns poucos frequentadores do theatro, dos mais desenfadados, empenham para crear partido ás duas damas.
«Houve já episodios curiosos; porém nem as damas, nem os seus admiradores conseguem fazer móça no indifferentismo do publico, que reconhece superioridade relativa na dama Hensler; mas não vê ainda assim motivo justificado para se enthusiasmar.»
Com a sua usual discrição, omittiu o Commercio os episodios curiosos. Bem é de vêr que o amor, ideal da arte das fusas e semifusas, não seria estranho aos sonegados episodios. A radiosa belleza da cantora sem duvida attrahia umas borboletas, que então douravam o seu polen sob as fulgurações do lustre; todavia, como a dignidade da artista se esquivasse ás intrigas de bastidor que, ás vezes, galvanisam os empresarios oxydados, a empresa falliu.
Decorreram uns quinze dias angustiados para a companhia desvalida. Hermann, aquelle prestigiador cavalheiroso que morreu ha dous annos, estava então no Porto. Foi elle o generoso valedor dos artistas e ainda do empresario. A companhia, em fim de dezembro, estava dispersa, não deixando um vestigio de fragilidade no seu rasto de pobreza.
Em 21 de dezembro d'aquelle anno, uma local do Commercio dizia: «O vapor Lusitania sahido hontem pelas 12 horas da manhã conduziu 118 passageiros, entre os quaes: Elisa F. Hensler, etc.»
Entrou, pois, na manhã do dia 21 em Lisboa a cantora. Devia levar na alma os lutos da natural vaidade ferida pela indifferença gelida d'uns pisa-verdes que honraram grandemente a mulher, menosprezando a artista. Dos frementes applausos, que a victoriaram quando assomou deslumbrante no palco, ao fastio com que as filas dos seus admiradores rarearam, vai a distancia que medeia entre a mulher honesta e a que permitte que lhe abram saldo de contas em que os applausos representam uma verba.
Eu não sei se Hensler, a cantora, escripturada pela empresa de S. Carlos, ao encarar a princeza do Tejo, que devia vestir de negro n'aquelle dia de dezembro, sentiu pavores da sua futura sorte, em theatro de jerarchia tão elevada para suas forças. Não sei porque frontarias de palacios lhe avoejou a vista absorta nas tristezas de quem ia sósinha, forasteira, sem o genio grande que estua no peito as palpitações do triumpho. Não sei; mas, se encarou lá em cima os palacios dos dous reis--com que olhos a esposa do snr. rei D. Fernando avistará hoje o Tejo, por onde entrára n'aquella manhã pardacenta de nebrina carrancuda de agouros esquerdos! Se ella então preveria um marido rei nas Necessidades, um enteado rei na Ajuda, e toda aquella Lisboa, e todo este reino, e nós todos ás suas plantas, nós todos, os bons subditos do rei que é marido, e do rei que é enteado, e d'ella, que vale mais que todos, por que, offuscando-os com a aureola da arte, estrellada das seducções da belleza, nos revelou que os reis deslumbrados eram apenas homens!
OS SALÕES
CAPITULO II
PLEBISCITUM
Homem plebeu. Homo plebeius. Nos antigos romanos havia tres ordens. A ordem senatoria, equestre e plebea. A ordem plebea val o mesmo que a gente do povo.
Plebiscitum. Termo da antiga jurisprudencia romana. Deriva-se do latim: plebs, plebe, e sciscere, que val o mesmo que assentar, ordenar, determinar. E assim plebiscito era o decreto, ou lei posta pelo povo, sem o suffragio dos senadores, mas só ao pedir do tribuno, magistrado do povo. Plebiscitum.
D. RAPHAEL BLUTEAU.
La conscience peut être géante, cela fait Socrate et Jésus: elle peut être naine, cela fait Atrée et Judas.
La conscience petite est vite reptile...
Les catastrophes ont une sombre façon d'arranger les choses.
VICTOR HUGO.
A luz não se exprime. Não tem definição. Como a não tem o calor, o magnetismo, a electricidade, e a vida.
A luz é o agente ou a acção, que nos adverte a distancia da presença dos corpos luminosos pelo intermedio da vista.
Vejamos.
A luz propaga-se em linha recta nos meios homogeneos. Obrigada a parar, no seu caminho, pelo encontro d'um corpo opaco--produz os phenomenos da sombra e da penumbra.
No mundo moral são a sombra e a penumbra as reacções da sciencia, da arte, da civilisação e do progresso.
Analysemos as penumbras.
Entremos nas sombras.
Desçamos ás trevas.
Fóra da vida physica são as trevas a ignorancia, e esta produz o silencio. Ora, o silencio é a paz dos sepulchros. Por que não deveria eu consultar a plebe?
Ha por ahi, nas ultimas camadas sociaes, perdidas, nas solidões da miseria, almas tão nobres, aspirações tão vastas, crenças tão vivas...
Por que não iria eu consultar os generosos sentimentos populares?
E fui.
Entrei n'um tugurio qualquer.--Que lhe importa o leitor qual foi? Havia uma mesa de pinho, duas cadeiras, e um catre. Era toda a mobilia. Mas, no meio d'esta hedionda miseria, existia um homem, feito á imagem de Deus; et creavit Deus hominem ad imaginem suam.
Era um veterano da liberdade. Desembarcára no Mindello. Tinha, na cabeceira do leito, pregada no travesseiro a insignia da Torre e Espada, ganha em Souto Redondo, em lutas titanicas, e em nome da liberdade.
Não desenho o soldado, ainda hoje operario. Basta-nos ouvil-o.
Li-lhe o manuscripto.
Ficou pensativo, e triste. Encostou os cotovelos sobre a mesa, afagou o craneo, como se lhe tumultuassem tantas idéas lá dentro, que não podiam irromper d'aquella abobada de fogo, e depois, em voz baixa, como se receasse ser ouvido, começou assim:
--Publique tudo isso.
A abstenção politica é mais do que a morte: é a indifferença pelos males sociaes, é a historia d'este torpe individualismo, que nos corrompe, é a gangrena moral d'esta sociedade em dissolução, é a anasarca symptomatica da lesão organica que despedaça a nossa existencia, é o maior de todos os crimes, por que é uma tranquillidade ficticia, comprada á custa dos legados que nós iamos enthesourando para as gerações futuras.
A democracia agonisa, no seculo dezenove, quando desabrochava, e se abria em flôr, na arvore, que nós todos plantamos, regada com o sangue precioso de tantos martyres, em nome dos que deviam colher e adorar no futuro, o fructo dos nossos trabalhos.
O velho operario, o antigo soldado do cêrco do Porto meditou por alguns instantes, e continuou:
--A historia vai esculpida em chronicas de reis, e memorias d'aulicos. A historia ha de escrevel-a um dia o povo, rasgando todas essas paginas mentirosas e lisonjeiras das décadas fabulosas, sahidas das mãos dos eunuchos d'estes harens do occidente.
Esta paralysia social em que a geração presente cahiu, esta hesitação absurda e repugnante nos annaes da nossa vida actual tem uma explicação irrespondivel: o mundo espera uma crença viva para se alentar na sua marcha--para respirar, e viver. D'onde virá a fé?
Habitantes d'uma peninsula á mercê de tantas invasões, raças tão diversas teem pisado este solo, que difficil, senão impossivel, será buscar-lhes a genealogia. Iberos, celtas, tyrios, phenicios, carthaginezes, numidas, berbéres, romanos, godos, alanos, suevos, mussulmanos, e varias hordas de gascões, e borgonhezes, afóra aragonezes, asturianos, e gallegos sulcaram este solo sagrado.
Onde estão os lusitanos?--Onde corre esse sangue mosarabe com que a historia enche a vastidão das nossas campinas, e povôa a crista das nossas montanhas?--Nas trevas das invasões perdem-se os vestigios, e em presença dos aventureiros, que acompanhavam Henrique de Borgonha, apparece uma raça energica, robusta, e corajosa, que põe em derrota a meia lua dos sectarios do Islam, e obriga a dynastia affonsina a conceder-lhe cartas de foraes, que são os pergaminhos e armarias d'esta nobilissima raça hispanica.
E o velho soldado do cêrco do Porto curvou a cabeça, e meditou.
Depois disse:
--Quem são, então, os duques e condes que acompanhavam o aventureiro, e bastardo real? Quem são os mercenarios, que se aformoseavam com as alcunhas ephemeras, e irrisorias dos cargos nobiliarchicos da côrte byzantina, quando estes titulos valiam, outr'ora, pela significação do mando, do poderio e da jurisdicção?
Á face da nobre raça hispanica--raça que somos nós--eram elles o enxurro, e a vadiagem das côrtes em que nasceram.
Nós eramos o povo, éramos a raça, éramos a tradição.
Quem tomou Lisboa aos mouros? Quem levou os arabes e berbéres de vencida até ás costas do occidente? Quem povoou a patria, quando as quinas se desfraldaram em Ourique? Quem coroou D. João I, esmagando as traições de Castella? Quem promoveu a restauração de 1640, e lutou pela independencia da patria?
Foi o povo.
Deixemos Aljubarrota ao condestavel.
Deixemos a restauração aos quarenta conjurados do palacio do conde de Almada. Que poderiam elles sem nós? O zelo, a coragem, o esforço, e o amor da patria só nos cabem a nós.--Vencemos sempre, porque eramos o povo.
Batemos com os contos das nossas lanças ás portas de Ceuta, de Tanger, e d'Arzilla, e os bastiões africanos cediam aos nossos esforços. Aportamos em Calecut, Cochim, Gôa, Malaca e Ormuz--e o Oriente dobrou-se á nossa vontade. Que importa, que os cabos de guerra tenham os louros das victorias, e das conquistas? A gloria é nossa. Fomos o instrumento civilisador, o soldado que morre pela patria, o portuguez, que cahe alanceado junto do seu pendão.
Para o condestavel, para Vasco da Gama, para Affonso d'Albuquerque, para D. João de Castro, para D. Francisco d'Almeida ha a chronica, ha o livro, ha as tenças, ha a narração dos feitos esforçados e valerosos, ha as recompensas da munificencia regia, e os brazões, que são a commemoração d'esses feitos, esculpidos nos portaes dos seus nobres solares.
Para o homem do povo, que pelejou ao lado dos mais corajosos, que batalhou onde havia mais perigo, que abandonou mãi, mulher e filhos,--para esse, ha a valla de finados, triste, e obscura--e a chronica emmudece, porque não é para peões, e villanagem, que foi creada a historia dos reis, e a Torre do Tombo, onde se guardam, e archivam seus feitos e memorias.
Para o povo ha o silencio.
Quando d'elle falla a historia, alcunha-o de sedicioso, barbaro e turbulento.
Para o povo ha o esquecimento.
A humanidade é uma idéa abstracta, que vive para a historia, nos vaidosos triumphos dos Alexandres, dos Cesares e dos Pompeus.
Quando um homem do povo cahe mutilado, pela arma homicida dos poderosos do dia, chama-se Socrates, chama-se Spartacus, chama-se Gracho, chama-se Galileu, chama-se Danton, chama-se Vergniaud, chama-se Armand Carrel, chama-se Gomes Freire, chama-se legião. Mas a historia atravessa estes periodos symbolicos da vida das nações sem commemorar estes nomes?
Para que?--Levantou já alguem o estigma que pesa sobre Catilina?
A historia divinisou Cesar, e applaudiu Cicero.
Rasgaram já os crépes que envolvem o busto de Robespierre, e a fronte de Saint-Just?
A França reclamou Bonaparte, e mais tarde victoriou o cossaco, que dos estepes da Russia vinha impôr leis e dynastias ao capitolio da raça latina.
E nós?--Aqui o veterano fez uma pausa. Levantou a fronte como se sentira o clarim das batalhas, e continuou em voz sumida e cavernosa:
--A nós deram-nos uma carta constitucional, que é como um foral--para não dizer carta d'alforria--a nós deram-nos uma mentira, escripta com o sangue do povo, no sólo sagrado da patria.
E o veterano calou-se.
Depois como despertado pelo ruido dos combates, como se aquella alma aspirasse a novas lutas, para sustentar os principios por que pelejára, ergueu-se do catre onde estava sentado, e rumorejou: E fallaes-nos de patria! patria aonde, e patria com quem? No Rocio em treze de março?--em Torres Vedras em 1846?--no Porto em 1851?--A patria é o sólo sagrado onde jazem as ossadas dos nossos avós. A patria é o local onde assenta o nosso lar domestico, onde vivem as nossas familias, onde está cravado o pendão dos nossos direitos. A patria é nossa por que derramamos o nosso sangue por ella.
Em seguida curvou-se para mim, que estava sentado no fundo d'este triste e miseravel quarto, e disse-me em phrases breves:
--Faça-me só um favor. É o unico que lhe peço. Como prologo d'esse manuscripto, publique este papel. É a meditação das minhas noites de insomnia. É o symbolo das minhas crenças. É o credo da minha religião politica. Morrerei contente.
Começa por este prologo o manuscripto do desembargador.
VISCONDE DE OUGUELLA.
O DECEPADO
Duarte de Almeida, o alferes de Affonso V, conheço-o desde a minha infancia, por m'o apresentar em verso o meu finado amigo Ignacio Pizarro.
Chorei por Duarte de Almeida, como se elle fosse meu avô, quando o infeliz, na volta de Toro, onde os castelhanos lhe deceparam as mãos, se lastimava assim pela bocca do poeta do Romanceiro portuguez:
Posso nas mãos empunhar!...
Ai de mim! triste lembrança!...
Nem bandeira tremolar!...
Nem bordão de peregrino
Póde meu corpo arrimar!
Nem o meu pranto contino
Tenho mãos para limpar!...
Luiza! já me esqueceste?...
Talvez tu ora suspires
Por outro... se tal fizeste...
Coração! ah! não delires...
Morto já, tu me julgaste,
E se agora assim me viras,
D'aquelle a quem tanto amaste
Talvez agora fugiras.
Talvez nobre cavalleiro
Póde alcançar tua mão...
Queira o céo morra eu primeiro,
Não saiba a tua traição.
Que eu antes quero da morte
Ter gelado o coração,
Do que vir amor tão forte
Ter em premio a ingratidão.
Com estas e outras piedosas queixas ia o namorado alferes caminho do castello de Aguiar, onde vivia a castellã Luiza.
O leitor já me está dizendo que sabe o entrecho do romance de Pizarro: que a donosa castellã, julgando morto o seu amado, lhe fizera cantar os responsos em sumptuosos funeraes: que o cavalleiro, a deshoras, se annunciára na barbacã do castello; e, admittido á capella, encontrou Luiza a vestir o habito de monja: que o decepado, apertando-a ao peito, lhe fez vêr que estava vivo, e que ella, allegando o voto que fizera de professar, cahiu de encontro á eça, e morreu.
Termina o trovador:
Mais desgraçado, viveu;
Mas o seu fim lastimoso
Nunca ninguem conheceu.
Bastantes annos--e que ditosos annos!--andei enganado pelo meu amigo Pizarro. Fui tres vezes ao castello do Pontido. Creio que já disse, não me lembra aonde, que encontrei entre as urzes da matta subjacente ao castello um espigão de espora sem rosêta, e suspeitei que ella houvesse sido do infausto amador da castellã. Figurou-se-me, ao cahir da noite, vêl-a no gothico balcão, voltada para os serros fronteiros, suspirar no alaude:
Adeus, val de Villa Pouca!
Adeus, castello sombrio!
Minha voz ouvi já rouca!
Estas impressões da primeira mocidade revivem quando a razão as impugna ao sentimento. De envolta com as minhas indagações historicas na triste sorte da princeza D. Joanna, chamada a excellente senhora, o vulto que mais me preoccupava era o alferes da bandeira, Duarte de Almeida, o heroe, o amante da castellã, o decepado cujo
Nunca ninguem conheceu.
Quanto ao seu fim, citava Pizarro um trecho de Duarte Nunes de Leão (Chronica de Affonso V) muitissimo desconsolador. Alli se diz que o bravo, depois de tamanha proeza, vivera mais pobre que d'antes. Este opprobrio nacional confirma-o modernamente o snr. Pinheiro Chagas, com estas phrases austeras: «O cavalleiro heroico sobreviveu ás suas feridas, e voltou a Portugal onde foi sempre conhecido pelo glorioso nome do Decepado. Mas, ó vergonha! o homem que assim tão briosamente se portára, morreu na miseria, porque nenhuma recompensa lhe foi dada, e porque nem se quer podia ganhar a vida pelo seu trabalho, logo que o haviam impossibilitado de trabalhar as suas tristes mutilações[5].»
Por honra da patria e da humanidade, apresso-me a declarar que é menos exacto o que Duarte Nunes diz e o snr. Pinheiro Chagas encarece. Logo me justificarei com documentos.
Pelo que respeita ao romance de Pizarro, tão sómente dous elementos de verdade historica podemos aceitar-lhe: a existencia do alferes e a do castello de Aguiar. E o certo é que ao meu intelligente amigo não corria o dever de maiores exactidões.
Primeiramente direi do castello.
Lá está, e já lá estava assim, pouco mais ou menos, antes da fundação da monarchia portugueza. Quem o possuia ou governava, no tempo em que D. Affonso Henriques pleiteava nos arraiaes com sua mãi e com o imperador D. Affonso, era o rico-homem D. Gonçalo de Sousa, genro de Egas Moniz, e senhor da terra de Sousa. Traslada no tom. III da Monarchia Lusitana (pag. 112), fr. Antonio Brandão da Vida de Santa Senhorinha, codice áquelle tempo inedito, uma passagem que faz ao nosso intento[6].
Reza assim, melhorado na orthographia:
«Digo-vos que estando folgando em sua terra um principe nobre e cavalleiro d'este reino, o qual era mui privado d'el-rei D. Affonso, e havia nome D. Gonçalo de Sousa, mui poderoso, e todo conselho d'el-rei estava em elle; estando, como disse, folgando, chegaram a elle mensageiros dizendo que os inimigos lhe corriam a terra, e que lhe tinham cercado o castello d'Aguiar; o qual logo chamou suas gentes que pôde haver, e foi-se para haver de descercar o dito castello. E chegando aonde jaz o corpo d'esta santa lhe fez reverencia, e oração não lhe lembrou; e indo ainda em vista da igreja metade de um campo, esteve pegada a mula, em que ia o cavalleiro, a qual elle com esporas e pancadas não podia abalar, mas antes a mula quedava mais rija e pero se desceu d'ella e a não podia abalar; e, vendo elle isto, lembrou-lhe como passára pela igreja da santa sem lhe pedir benção, e mercê, e sem fazer oração, e por isso lhe detinha a mula; e, soffreando a mula para traz para se tornar á igreja, a mula logo tornou, e o cavalleiro fez sua oração encommendando-se á santa, e des i fez seu caminho, e com suas companhas descercou seu castello, e correu depois os inimigos, e tornou a sua casa com victoria, etc.»
O chronista Brandão, por mal informado, escreve que o castello de Aguiar da Pena se avista com as montanhas de Barroso. Estas montanhas distam seis leguas do castello, e entre ellas e o valle em que negreja a fortaleza gothica estão os cabeços da serra de Alfarella, e no horisonte mais elevado alveja villa Pouca de Aguiar. Acrescenta que o castello «é crespo de torres, baluartes e cubellos, e está fundado sobre a corôa de uma penha talhada de uma parte por natureza, que parece obra feita á mão,» etc.
Póde ser que no seculo XVII, quando Brandão escrevia, permanecessem ainda as torres e baluartes. O que ha vinte annos parecia ter robustez para seculos eram quatro alterosas quadrellas de alvenaria ameiadas com seus adarves, bastiões, e janellas gothicas sem lavores.
Recordo-me ter lido na Nova historia de Malta de José Anastacio de Figueiredo que o castello no seculo XIII pertencia á ordem hospitalaria de S. João de Jerusalem, e cita um aviso que obriga os lavradores circumvisinhos a carregarem pedra para reparos.
E não sei mais nada quanto ao solar da phantastica Luiza.
Agora vamos em cata do Decepado, depois que voltou de Castella. Encontramol-o na sua casa acastellada no seculo XII, que teve o nome de castello de Villarigas, no couto do Banho, hoje concelho de S. Pedro do Sul.
É elle o herdeiro de seu pai Pedro Lourenço de Almeida. Afóra aquelle castello, tem outro na quinta chamada da Cavallaria, honrada por el-rei D. Fernando em 1419, e onde os linhagistas enraizam o tronco dos Almeidas.
Quando alli chegou, esperavam-o a esposa e dous filhos.
A esposa chamava-se D. Maria de Azevedo, filha do senhor da Louzã Rodrigo Affonso Valente e de D. Leonor d'Azevedo, que herdára grandes haveres de sua tia D. Ignez Gomes de Avellar.
Os filhos do Decepado chamaram-se Affonso Lopes, e Ruy Lopes de Almeida. Affonso, o successor das honras e coutos de Villarigas e Cavallaria, casou com D. Leonor Vaz Castello Branco, filha de João Vaz Cardoso, aio do conde de Barcellos.
O filho segundo, Ruy, foi para Castella, como veador da princeza D. Joanna, filha de D. Duarte, e mulher de Henrique IV.
Esta geração de fidalgos continuou honrada e rica até á duodecima neta de Duarte de Almeida, a snr.ª D. Eugenia de Almeida de Aguilar Monroy da Gama Mello Azambuja e Menezes que em 15 de setembro de 1834 casou com o snr. Fernando Telles da Silva, marquez de Penalva, de quem teve dous filhos, Luiz, que, nascendo em 1837, morreu ha poucos annos, e D. Henriqueta de Almeida, que nasceu em 1838, e vive solteira. Do snr. Luiz Telles, que foi casado com a snr.ª D. Maria Francisca Brandão, sua prima, existe uma filha, que é já senhora.
Quanto á pobreza e miseria em que morreu Duarte de Almeida, o snr. Pinheiro Chagas foi illudido por Duarte Nunes e Faria e Sousa, que na verdade o authorisaram a deplorar tão sentidamente a sorte do alferes de Affonso V.
Duarte de Almeida succedera a D. Duarte de Menezes no posto nobilissimo de alferes-mór da bandeira. Militando nas guerras de Africa, salvou o pendão real das presas da mourisma, quando Affonso V deu batalha na serra de Benacofuf. (Faria e Sousa, Africa, cap. 6, §. 7.º)
E tanto o rei não foi ingrato aos serviços do seu valente alferes, que, estando em Samora, em 1475, no anno anterior ao da batalha de Toro, ainda antes do heroico feito, lhe fez mercê pelos seus grandes serviços, para elle e seus filhos, de um reguengo no concelho de Lafões, cuja carta de mercê póde lêr-se na Torre do Tombo no Livro que serviu na chancellaria de D. Affonso V, folha 17, e começa: A quantos esta minha carta virem faço saber que pelos muitos serviços que Duarte de Almeida, fidalgo de minha casa, e meu alferes-mór me tem feito assim n'estes reinos de Castella como de Portugal e em Africa, onde sempre me serviu muito bem e lealmente, etc.
O rei, que tanto o apreciára e galardoára, sabido é que foi para França solicitar debalde a alliança do velhaco de Luiz XI. Voltou a Portugal, onde viveu ainda cinco tristissimos annos, forçado a divorciar-se da esposa, desestimado do filho, e desvenerado dos vassallos. Não era, pois, tempo proprio aquelle para premiar heroismos batalha, cuja perda dissimulada em victoria, enlutára o brio e o coração de Affonso V.
O decepado, por sua parte, lá tragava o fel dos seus derradeiros annos na abastança dos bens que, certo, lhe não mitigavam as angustias da mutilação; mas em pobreza e miseria não consintamos sequer á poesia que nol-o figure.
Se D. João II não augmentou em coutos, honras e senhorios a casa do alferes de seu pai, não o arguamos por isso, sem haver a certeza de que Duarte de Almeida sobrevivesse ao Africano. Na batalha do Toro já devia ir no inverno da vida quem vinte annos antes desfraldára o pendão real em Alcacer-Ceguer, e quem já tinha um filho, que acompanhára como veador a Castella a mãi da princeza D. Joanna por amor de quem andava accesa a guerra. Afóra isso, é de crêr que Duarte de Almeida assistisse ao desastre de Alfarrobeira em 1449, e não fosse dos menos carniceiros na mortandade do duque de Coimbra e dos seus leaes amigos. Ora, transluz da historia que D. João II odiára todos os fidalgos que, de parçaria com o duque de Bragança, malsinaram de traidor o infante D. Pedro. Ajuda estas suspeitas ser o primogenito de Duarte de Almeida casado com a filha de um que fôra aio do conde da Barcellos, antes de ser duque de Bragança.
Já, porém, o successor de D. João II galardoou o neto do decepado, dando-lhe o senhorio da villa do Banho, a provedoria das caldas de Lafões, e lhe confirmou o privilegio e couto da quinta da Cavallaria.
Em remate de tão derramadas provas, quero deixar bem assente que Duarte de Almeida, o meu tão chorado heroe do sentimentalismo da infancia, não morreu pobre, nem acabou na miseria do homem que, á mingua de mãos, não póde trabalhar.
Por fim, não sahirei do paço senhorial da Cavallaria sem consolar o leitor pio e mais lido em cousas do céo que em nobiliarios, que n'aquella casa nasceu o bemaventurado S. frei Gil, chamado de Santarem, e que Almeida Garrett ajoujou com o dr. Fausto no poema D. Branca e nas Viagens.
Ainda hoje, n'aquella casa, perdura uma capella edificada na alcova onde nasceu o sabio feiticeiro e pactuario do demonio. Observe-se que o conde D. Pedro, no Livro das Linhagens, tit. 25, pag. 151, diz que Gil fôra assassinado por Pedro Soares Galinato; mas o chronista-mór João Baptista Lavanha desfaz o erro,--o que eu muito estimo para que se não desluza a substancia da bella prosa de fr. Luiz de Sousa, historiador do santo.