[5] Historia de Portugal, tom. III, pag. 28.
[6] O codice está integralmente impresso nas Memorias resuscitadas da antiga Guimarães, pelo padre Torquato Peixoto de Azevedo, em 1692, pag. 444-476. Sirvo-me d'esta copia, corrigindo os erros do traslado de Brandão.
O advogado Sampaio Efrin morreu, ha cinco annos, em Lisboa, e deixou dous filhos illegitimos, que já não tinham mãi.
Amára-os extremadamente. As duas crianças excruciaram-lhe a agonia; mas expirára com a certeza de que seus filhos, e herdeiros de parte de seus haveres, não balbuciariam, em horas de fome, o nome de seu pai.
Mas a justiça desherdou os orphãos, e deu o espolio do advogado á sua viuva.
O menino alimentou-se cinco annos da caridade de uma criada de seu pai.
E, quando tinha seis, appareceu livido e pobremente vestido a pedir esmola no tribunal da Boa-Hora--alli, onde seu pai triumphára nas lides da eloquencia.
A bemfeitora que, até áquelle dia lhe repartira do seu pão, quando sentia a mão da morte sobre o seio, disse á criança que fosse ao tribunal e mendigasse, lembrando-se que alli concorriam pessoas que tinham conhecido seu pai.
O snr. João Bernardino da Silva Borges viu o menino andrajoso, a tiritar, com o espasmo da fome nos olhos--aquelle olhar espavorido da miseria--que parece sagrada nas criancinhas--aquelle olhar torvo, expressão de assombro do anjo a tremer sobre o cairel d'este inferno do mundo.
O menino tinha uma carta na mão. O snr. Silva Borges leu a carta. Era a supplica da moribunda a favor do desvalido filho de seu amo.
E conduziu a criança, onde lhe dessem a esmola do jantar e da cama.
Ao outro dia, o Jornal da Noite, publicando uma carta commovente do protector do orphão, acompanhava a invocação á caridade de sentidas e pungentes palavras.
E, no dia immediato, o mesmo jornal exultava noticiando que o orphãosinho estava amparado, no regaço da caridade abundante, nos braços de alguem que ouvira o echo das divinas palavras de Jesus: «Deixai que as criancinhas se aconcheguem de mim.»
Volvidas duas semanas, á volta do menino, a caridade faz-se representar por nove senhoras illustres, quanto cabe inferir dos appellidos.
Nove anjos, as nove musas da inspiração santissima, nove corações a desbordar de generosidade, dezoito mãos cheias de caricias e do superfluo da sua riqueza, para afagar, alimentar e educar um menino a quem esta setima primavera bafeja os primeiros risos de sua enfezadinha puericia. É muito!
Mas estas nove damas assumem cada qual sua nomenclatura:
Uma, chama-se presidenta;
Outra, vice-presidenta
;Quatro, são vogaes;
Uma, é thesoureira;
E as outras, são secretarias.
Mas que tem isto que vêr com o orphão? O congresso das senhoras, assim qualificadas em categorias de banco, de junta de parochia, de empresa aurificia, de companhia das aguas, organisou-se d'este feitio para dar uma pensão de 300 reis diarios--o bastante--ao pequenino no collegio?
Quer-me parecer dispensavel tamanho funccionalismo em operações tão singelas! São nove senhoras abastadas que se fintam, quotisando-se cada uma em 33 reis por dia, ou dez tostões por mez. É, na verdade, barato o salvar-se um menino e fazel-o homem! Seis ou oito annos do pão e estudo d'aquella creatura--que ss. exc.as hão de enfiar com santa vaidade diante da sepultura de seu pai--não póde custar a cada uma tanto como dous dos seus vestidos medianamente guarnecidos.
Então, qual vem a ser a missão das exc.mas presidenta, vice, vogaes, thesoureira, secretarias?
Leitor, que estás a impar de ternura, e tens o rosto banhado de lagrimas de consolação, saberás que as referidas nove senhoras--que tu já conheces dos lautos bailes, e das toilettes esplendidas--congregaram-se agora para promover um beneficio ao orphão no theatro de D. Maria.
Ahi está o que é. Ainda agora é que estas dadivosas senhoras vão sondar a magnanimidade publica; vão dar uns toques de elegante apparato á caridade, e ao mesmo tempo convidar-vos a pôr hombros áquella ponderosa empresa de agasalhar uma criancinha que se alimenta com um pouco de amor e algumas migalhas sacudidas das cêas opiparas. A caridade de Lisboa! A caridade do espalhafato! Aqui, no Porto, o orphão, a esta hora, estaria agasalhado, sem que a imprensa conhecesse o nome do bemfeitor.
E a imprensa de Lisboa exalça encarecidamente a exuberante bizarria das senhoras que promovem nos corações alheios o sentimento da esmola. Peço licença para tambem me accender em admiração de tamanho arrojo, e perguntar, por esta occasião, aos jornalistas se, no seu cadoz de phrases, ficou alguma com que se louve aquella criada pobresinha que sustentou o menino cinco annos, e o largou do seu seio quando o coração se lhe afogou nas ultimas lagrimas.
Quando Portugal emergia das trevas da meia-idade, em 1873, e a via-ferrea de Portugal era roupa de francezes, o scintillante escriptor Ramalho Ortigão enviou aos snrs. François et Ladame (cumpre não aceitar a traducção de Bordalo Pinheiro--Francisco e a mulher) uns urbanos queixumes ácerca da bruta ladroeira que os funccionarios da via-ferrea perpretaram em parte das batatas de um sacco enviado desde o Minho ao percuciente critico. Ortigão, cujo agudo espirito argúe abstinencia de alimentação farinacea, conclue a sua epistola, modêlo de graça portugueza--que é a graça de todo o mundo--offerecendo aos directores da via-ferrea todas as futuras e porvindouras batatas, visto que ss. s.as, cedendo-lhe algumas, soffriam tal qual desfalque.
N'esse tempo, estava eu em Lisboa a vasquejar nos demorados paroxismos da anemia, resultante de dyspepsia, complicada com hepatite, e prodhromos de encephalite, e symptomas de curvatura de espinha, e esgotamento de fluido nervoso, afóra a espinhela cahida.
Escrevi, n'esta concurrencia pathologica, a um amigo meu, residente no Porto, que me comprasse alli doze garrafas do mais antigo e secco vinho que se lhe deparasse em garrafeira particular. Quando conclui a carta, cuidei que expirava, por que tinha consumido em quatro idéas sem estylo o oxygeneo e acido carbonico de que podia dispôr.
D'ahi a dias, o meu amigo enviou-me o titulo de recepção de doze garrafas de vinho, compradas por 12 libras, e enviadas pela «grande velocidade», cuidando elle que os ladrões não as apanhariam na carreira.
Como se as doze garrafas se me figurassem outras tantas botelhas de Leyde a descarregarem electricidade sobre os meus grandes-sympathicos e regiões limitrophes, saltei da cama, e fui receber o meu vinho--a minha salvação--a Santa Apolonia.
Recolhido o caixote á sege, e baixados os stores, debrucei as regiões do meu olfacto sobre as fisgas da tampa do caixão, na esperança de aspirar alguns atomos de tanino.
Cheirou-me a azeite. Entendi que havia perversão na minha membrana pituitaria, uma narizite, unica molestia que me faltava.
Assim que entrei em casa e o caixão se abriu, não sei bem o que vi, nem como perdi a consciencia dos dous eus. Sei que, volvidas horas, recobrando o espirito, e querendo recordar as causas de tão comprido lethargo, perguntei aos circumstantes, distillados em lagrimas, se eu tinha lido algum livro de Theophilo.
--Não, infeliz!--respondeu-me voz sincera--não foi tamanha a desgraça que te fulminou; o que tu viste foi seis garrafas do teu vinho, que te custaram seis libras, substituidas por seis garrafas vasias que tiveram azeite.
A minha primeira idéa foi gritar á d'el-rei; lembrando-me, porém, que o rei não governa, quiz chamar o cabo da rua; depois, passou-me pelo espirito recorrer á camara «baixa» e ao patriarcha. E, por fim, chorei copiosamente, e bebi dous tragos de uma das seis; e logo, á semelhança das nações oppressas, que se levantam como um só homem, tambem eu me levantei sósinho; e, clamando um rugido grande, pedi á Providencia das raças latinas que nos désse um administrador dos caminhos de ferro, nascido e baptisado n'esta terra dos Affonsos e dos Joões.
Fui ouvido, e as cousas melhoraram consideravelmente.
N'este anno de 1874, 2.º da Emancipação, tenho recebido reiteradas provas da melindrosa cortezia que assiste ao funccionalismo do transporte da via-ferrea portugueza. Se em 1871 não chorei mediante os prelos, hoje lamento não ser um cytharista bastante lyrico para dignamente arpejar um fado expresso do citado funccionalismo.
Direi da cortezia com que alli são tratadas as minhas cousas. Tendo eu recebido em Lisboa seis garrafões de aguardente das nossas colonias, lacrados e cheios, enviei-os d'alli para o Porto cheios e lacrados. Ao cabo de onze dias de jornada, os garrafões chegaram a minha casa... inteirinhos! Se isto não é probidade, a virtude era aquillo que dizia Catão. Notei, porém, uma insignificante cousa: os garrafões chegaram deslacrados, e levavam pouco menos de metade do liquido; mas inteiros, perfeitos, sem rachadella, nem esquirola de menos.
Um d'estes dias, em dous caixões de vinho da Madeira, que me eram enviados de Lisboa,--e foram retidos para despacho nas Devezas, posto que já em Lisboa houvessem pago direitos--observei ainda mais refinada cortezia; porque, apparecendo algumas garrafas quebradas, teve aquella honrada e limpa gente o cuidado de lhes trasfegar o vinho a fim de que as outras se não molhassem--de modo que chegaram enxutas.
E fez mais: teve outro sim a bondade de tirar algumas garrafas para que as outras chegassem mais desafogadas da pressão das visinhas!
Eu não conheço maneira mais subtil de obrigar a gente a um reconhecimento eterno, e a... acautelar o relogio.
BERNARDIM RIBEIRO.
São verdadeiras as trovas do poeta das Saudades.
Aquella Maria da Penha que o leitor viu, ainda agora, carpida n'um soneto, foi muito incensada por formosa antes da sua queda. Uns poetas a embriagaram com o perfume da lisonja, em quanto ella se manteve honesta; outros lhe depozeram alguns bagos de assafetida na ambula funeraria, quando os seus creditos eram mortos e responsados no catafalco que a sociedade levanta ás suas mesmas victimas.
E já que eu trasladei o soneto, como epitaphio do seu tumulo no convento onde se finou, trasladarei tambem uns versos que lhe deram alor e azas á vaidade que a perdeu.
Suspeito que o poeta d'estes cantares não fosse o fidalgo que a levou arrebatada de entre um thalamo e um berço. Os poetas, por via de regra, costumam enflorar os holocaustos sacrificados nas aras da prosa. Assim o requer o equilibrio do cosmos. Á poesia--a lyra que insinua no coração da mulher as phantasias com que mais se alinda e encarece; á prosa--as delicias d'essas bellas cousas, o dominio das aves do paraiso, que os poetas farejam, á laia de nebris que pairam a denuncial-as ao caçador sagaz.
A meu vêr, em quanto o marquez de Gouvêa mandava ajaezar os cavallos para a funesta fuga, um dos muitos idolatras da formosissima Maria motejava uma quadra e derivava d'ella a glosa tão presada n'aquelles tempos:
A D. MARIA DA PENHA DE FRANÇA
MOTE
GLOSA
As indagações de Diogo Barbosa Machado, ácerca do poeta Serrão, reduzem-se a datar-lhe o nascimento.
Á falta de outros subsidios, bastariam as poesias do travesso sujeito a esclarecer-lhe a vida mysteriosa aos mais atilados investigadores. O maior numero d'ellas está inedito. E o seu mais notavel poema, em tercetos, que perfazem 2:090 versos octosyllabos, chama-se Os ratos da inquisição.
No palacio da inquisição passou elle alguns annos de sua vida, que de certo não foram os melhores.
Pelos modos, era hebreu dos quatro costados; mas não adorava o bezerro, nem se abstinha dos paios do Alemtejo. Em quanto o deixaram, viveu e medrou á lei da natureza. Seguiu fervorosamente a religião do prazer, repartindo alma e versos por judias, christãs e mouras, consoante lhe sahiam a talho de fouce. Tanto afinava a lyra para cantar fidalgas como regateiras. Entre estas, houve uma vendilhona de maçãs camoezas que não foi das menos amadas e menos esquivas. Se os poetas modernos querem ajuizar do lyrismo plebeu d'este seu bisavô, aqui teem uma das cançonetas dedicadas á saloia das camoezas, e cantada pelos cytharedos d'aquelle tempo:
Hoje em dia, por acerto haverá ahi poetastro a quem pareçam, sequer toleraveis, estas linhas toadas, sem faisca de ideal, sem realismo, sem as satanisações modernas; no entanto, o coração entende-se melhor n'aquelles poetas que, em vez de se evolarem á poeira luminosa da via-lactea, andavam alli pelo Rocio amoriscados de fruteiras de camoezas.
Por causa d'estes amores innocentes e frescos, não foi Antonio Serrão de Castro disputar aos ratos da inquisição a magra pitança da sua alcofa. O leitor alguma vez ha de lêr os queixumes do hebreu, repassados de tanta ironia, que a gente se admira que os graves monges de S. Domingos lhe não acendrassem o engenho no fogo.
Quando o poema satyrico se escoou das grades do carcere para a assembléa dos catholicos, um poeta christão, no intuito de apressar o processo do judeu, divulgou as seguintes decimas:
Os ferventes desejos d'este catholico, assim rimados, chegaram ao ergastulo do cantor dos ratos, e vibraram-lhe os nervos da espinha dorsal. Não lhe pareceu caso novo e original queimarem-no. Embridou, por tanto, a musa da galhofa, e cahiu em si. Começou de escrever poesias orthodoxas ao nascimento do Menino-Deus, aos santos e santas mais em voga, ungindo tudo de lagrimas de contrição que era uma piedade lêr-lhe os sonetos, os quaes, ainda agora, li bastantemente commovido. O certo é que o vaticinio do bardo christão foi desmentido pelo hebreu que sahiu absolto, e por ahi andou por Lisboa até aos setenta e quatro annos, rindo de tudo com resalva das conveniencias, e vivendo com as largas, que lhe davam os seus admiradores, e acamaradado com os primeiros fidalgos. Nasceu em 1610 e morreu em 1684.
[7] Alvo.
FIM DO 4.º NUMERO