O ULTIMO CARRASCO
I
Para mim a sepultura é santa; são santas as fundas agonias humanas, ainda quando associadas ao crime.
A. HERCULANO.
Si l'on demande comment, avec de pareils sentiments, j'ai pu remplir si longtemps les horribles fonctions qui m'étaient échues en partage, je n'ai que ceci à répondre: qu'on vacille bien jeter les yeux sur la condition dans laquelle j'etais né... C'est le testament de la peine de mort par le dernier bourreau.
Mémoires des Sanson par H. SANSON,
ancien executeur des hautes œuvres de la cour de Paris.
Felizmente a civilisação do seculo arrancou do nosso codigo esse negro artigo da pena de morte, e esta conquista da illustração, que a tenaz perseverança da philosophia alcançou gloriosa, depois d'uma porfiada lucta, já não póde retrogradar em Portugal, e parabensme dou a mim mesmo de não estar já ameaçado de commetter homicidios, e de sentir gotejar sobre a minha cabeça, n'estes meus já bem cançados dias, o sangue, que uma lei draconiana fazia espadanar no cadafalso.
Historia (inedita) de Luiz Antonio Alves dos Santos—O NEGRO, ultimo executor de justiça em Portugal.
A pena de morte será executada na forca pelo executor da justiça criminal, em lugar publico, com o acompanhamento da confraria da Misericordia, se a houver no lugar, e dos ministros da religião, que o condemnado professar: assistirá o escrivão dos autos para n'elles dar fé do cumprimento da sentença. Nas quarenta e oito horas marcadas no artigo antecedente, se ministrarão ao condemnado todos os soccorros da religião, e os mais que por elle forem requeridos.
(Art. 1203 da Reforma judicial novissima, decretada em 21 de maio de 1841).
O meu quarto, o meu antro, a minha jaula tinha quinze passos de comprido e seis de largura. Era tão limitado o recinto que nos achavamos face a face—o carrasco e eu.
A primeira impressão que senti, ainda mal, porque se traduziu em factos—arrependi-me depois—foi recuar e esconder as mãos nos bolsos.
Na lei, que ordenava o homicidio, é que eu não devia tocar. Era para com o juiz, que proferia a sentença, para com o jury, que condemnava, e para com o ministerio publico, que requeria, que eu devia guardar estas reservas e cuidados.
Para com o executor—não.
Este era o instrumento, era o cumplice, era a força physica, era a machina brutal, inconsciente, estupida e passiva. Era a forca, era a guilhotina, era o patibulo, era o cadafalso, era o pelourinho, era a gargalheira, era o potro, era o equuleo, era a cruz do supplicio—era finalmente o verdugo, o algoz e o saião. Era o carrasco.
Para com elle, o meu instincto de repulsão era um absurdo.
Toca-se nas rodas dentadas d'uma machina qualquer—quando postas em movimento, se o operario n'um momento de irreflexão e de imprudencia se aproxima d'ellas—despedaçam-no, esmagam-no. A roda é um agente: obedece impassivel ao impulso da diretriz, do motor.
E, aliás, ninguem despreza a roda, ninguem a reputa aviltante, ninguem a insulta.
Que mais vale o carrasco, para que o legislador lhe legasse o desprezo e a consciencia da sua infamia?
O movimento de repulsão, que actuou em mim, não fôra tão rapido que o não observasse Luiz Negro.
Observou.
Vi rebentar uma lagrima nas palpebras avermelhadas do velho. Rolou-lhe, depois, deslisando na concavidade das rugas, que lhe sulcavam as faces, e foi em espiral, mansamente, gota a gota, perder-se-lhe na espessura das barbas.
Conheci a affronta e corrigi-a sem detença. Estendi-lhe a mão. Apertou-a o carrasco com uma alegria convulsiva. Havia não sei que traços de gratidão desenhados n'aquella physionomia franca e aberta. Parece-me têl-os ainda impressos na memoria, para remorso eterno da minha consciencia.
«Posso apertar-lhe a mão com desafogo», exclamou elle, com uma voz surda e rouca. Senti-a primeiro no coração antes de me entrar nos ouvidos. «Felizmente, nos abysmos da minha profunda desgraça, resta-me uma consolação...» Hesitou. Depois proseguiu: «consolação unica, que me alumia a existencia, e mitiga os pezares que me vão n'alma: as minhas mãos estão puras, tenho-as immaculadas da forca, não arroxearam jámais, com a soga, a garganta dos padecentes—não derramaram nunca o sangue das victimas que a lei sem respeito pela vida humana, e a que por escarneo chama justiça, obriga outro nomem a derramar.
«Venho, aqui, para o conhecer. Não tenho por costume procurar presos. Nem os busco, nem lhes fallo. Mas sei que é adversario da pena de morte; quiz vêl-o face a fece. Era justo que o carrasco e o homem de lei conversassem em intima convivencia. Estamos em presença um do outro: escutar-nos-hemos reciprocamente.»
E ao passo que Luiz Negro se exprimia assim, perguntava eu a mim mesmo—quantas mãos mais polluidas, menos nobres, menos dignas e menos puras teria eu apertado na minha vida.
Assim como Talleyrand, se Talleyrand era—não me falhando a memoria—asseverava, que a palavra fôra dada ao homem para mentir, tenho para mim que os respeitaveis e acreditados luveiros da nobre cidade de Lisboa foram nascidos e educados, para nos evitarem o contacto de mãos, que nos podem contagiar com estes virus paludosos, que por ahi vão medrando á sombra de magnificas protecções.
Quando o carrasco proferia as ultimas palavras, que acabo de narrar, chegava o meu almoço, trazido por um criado, e acompanhado por outro, que tem sido para mim como o Caleb de Ravenswood, descripto por Walter Scott. Em seguida appareceram amigos meus, trazidos ao Limoeiro pelo desejo de me acompanharem nas horas, em que, sendo-lhes permittida a entrada, eu me achava mais só.
Sentaram-se em torno da mesa. Luiz Negro almoçava comnosco. Fallavamos de tudo. Ignoravam todos o mister do meu novo hospede. Viam um homem avançado em annos, envolto n'um casaco escuro que tinha fórmas de tunica, silencioso, calado e triste, comendo sem nos interromper a nós que esqueciamos as grades, os ferrolhos e os guardas—e arrastados pela nossa imaginação peninsular nem sequer pensavamos no governo.
Fui sempre um conspirador assim—em que pese esta modesta confissão minha ao illustre e meritissimo juiz do processo.
Não direi os nomes dos meus amigos, n'este jovial almoço, com receio de os denunciar ás iras, e aos instinctos odientos dos consules actuaes. Receio que lhes abram assento no santo officio regenerador.
A conversação ia cortada em dialogos cheios de vida, recamados de originalidade e opulentos na elegancia do dizer e na facilidade da phrase. Poderia parecer uma academia litteraria, se não fosse uma enxovia.
Vivia eu, então, n'um carcere que me dizem ter sido morada de Diogo Alves nas vesperas do seu supplicio.
As paredes, se não conservavam tradições de taes luctas legaes, guardavam, pelo menos, os vermes, que formam o apanagio e arrhas d'estes lugubres esponsaes com as nossas cadeias.
Ao terminarmos a nossa refeição, quando o fumo dos cigarros e charutos começava a ennovelar-se em densas espiraes, velando-nos as faces, disse para os meus amigos e alegres convivas, que me penitenciava alli d'um erro grave, erro de lesa polidez, porque os tivera, por tão largo espaço e em tão intima convivencia, com pessoa para elles desconhecida, sem os apresentar, conforme ordenam e exigem as demoradas pragmaticas e minuciosas etiquetas britannicas.
Ninguem o conhecia. Só eu.
Enchi-me d'animo e terminei assim:
«Meus senhores, tenho o prazer de lhes apresentar o carrasco.»
Houve um silencio profundo. Parecia que um d'estes tremendos cataclysmos, de que só a natureza tem o segredo, se desencadeára em torno de nós.
As minhas palavras reboaram como o choque d'uma pilha voltaica—faltavam-lhes, apenas, as chispas eletricas.
A sensação foi grande. Não era temor, não era medo, não era susto, que contagiára d'esta sorte todos os meus amigos. Era repulsão. Sentiam-se todos inficionados d'este contacto. Parecia que haviam respirado os gazes deleterios, os fluidos mephyticos d'algum charco paludoso.
E todavia diante de nós estava um homem, feito á imagem de Deus, segundo rezam as piedosas lendas biblicas. Estava um irmão nosso, um filho da mesma raça, nascido na mesma patria, educado na mesma religião de amor e de perdão, e fóra a lei e os seus levitas, que o haviam convidado, constrangido ou subornado, a exercer as cruentas e sinistras funcções d'aquella magistratura de sangue.
Venerar e respeitar os authores das monstruosas carnificinas, que se appellidam em phrase composta e decorosa «pena de morte» desprezando, ao mesmo tempo, o mandante e forçado executor de uma penalidade absurda e irreparavel, pareceu-me sempre um contrasenso abjecto, um preconceito irrisorio, uma aberração torpe e villã. O pudor deslocado não é virtude: ou é hypocrisia ou imbecilidade.
Achei sempre muito mais racional a doutrina de De Maistre. Divinisava quasi o carrasco, elevava-lhe o mister á altura de sacerdocio. Bem haja elle. Pelo menos era logico, consequente e audaz. As situações definidas teem a severidade do raciocinio, a coragem dos dogmas que enunciam, o supremo valor e a immensa lealdade de aceitarem francamente as consequencias fataes e necessarias dos seus actos.
Em épocas d'uma triste cobardia moral, escólas que formulam as suas doutrinas, sem tergiversações nem receios, merecem o respeito de todos nós; porque qualquer que seja o absurdo dos principios existe, pelo menos, alli, a fé viva que os escuda e defende.
Mas nas escólas dos doutrinarios ou conservadores modernos qual é o credo ou symbolo do seu programma politico e social?
Vejamos.
Explica-o Littré por fórma tal que me tira o desejo de o dizer:
«Não é só a França—é a Europa inteira que se acha dividida em tres escólas politicas: a escóla retrograda, a escóla revolucionaria e a escóla estacionaria ou conservadora. Buscam todos um d'estes tres balsões. E cada um se liga e enfileira ou ás instituições do passado ou trabalha para a sua destruição ou busca, n'um equilibrio—physica e moralmente impossivel—um ponto de apoio, no encontro d'estas duas forças oppostas.»
As resultantes, n'estas absurdas combinações de forças, são as catastrophes.
A escóla estacionaria, rigorosamente fallando, não tem doutrina sua. Existe, medra e espreguiça-se no seio d'estas convulsões sociaes, aceitando os principios da revolução, cujas consequencias repelle, e dobra-se, curva-se e sujeita-se ás conclusões da escóla retrograda, ao ultimatum da sua doutrina reaccionaria—simulando, aliás, um profundo horror pelos seus principios. Não é um systema esta evolução do seu procedimento—é um expediente, que vive da impotencia a que por mais d'uma vez as outras duas escólas se teem reduzido. E ha tanta verdade n'estes confrontos, que vemos os conservadores, arrastados pelo medo—terror panico dos espiritos timoratos e dos homens enriquecidos á sombra das revoluções—mergulharem até ao lôdo das escólas retrogradas, como em busca d'um local recondito e mysterioso onde possam esconder e occultar os seus haveres. O pavor produz estas allucinações. Como se o passado podesse encobrir o trabalho accumulado para o futuro!
Luiz Negro era um homem intelligente. Percebeu que eu queria levantal-o, alli, deixando a responsabilidade da sua profissão áquelles que lh'a deram, e que, em seguida, o desprezavam tambem.
Ergueu-se, olhou-nos a todos quando se achou de pé, e confesso que nos dominou.
O patibulo, que é um lugar elevado, deve ter fascinações e delirios deslumbrantes, como os teem os thronos, as eminentes funcções do estado, e a cadeira gestatoria dos pontifices e santos padres. Para alguma cousa deve servir estar mais alto do que os outros homens.
Foi n'uma montanha—rezam assim as piedosas chronicas do Nazareno—que Satanaz quiz tentar Jesus.
O carrasco, no meio de nós, fitando-nos a todos—com um olhar profundamente triste, que era o resumo d'uma existencia horrivel—possante, herculeo e espadaúdo como um gladiador dos circos da Roma pagã—era mais do que um homem: era um phantasma.
A alegria esvahiu-se. Era tão profundo e completo o silencio, que o zumbido d'um insecto qualquer ter-nos-hia parecido uma convulsão medonha no globo que habitamos.
Já a mim mesmo me reprehendia eu d'esta apresentação inopportuna.
Luiz Negro mediu-nos a todos com um olhar profundo e scintillante. Havia o que quer que era de feroz e sinistro nos primeiros lampejos d'aquella vista penetrante. Depois amorteceu-se. Em seguida as lagrimas rebentaram-lhe por entre as palpebras, a ferocidade diluiu-se-lhe n'aquelle imperceptivel chôro, e momentos mais tarde havia um olhar de mansidão e de ternura a expandir-se, com uma meiguice extraordinaria, por sobre nós.
Desapparecera o carrasco. Estava o homem.
«Metto-vos mêdo? Faz-vos pavor a minha presença? Não ha razão nem motivo para tanto. De mim sei dizer e posso assegurar que estou livre de odios e de ruins paixões contra quem quer que seja. Tenho no meu coração um thesouro inesgotavel de perdões—ainda mesmo para aquelles que me acarretaram os infortunios da minha vida.»
Continuava o silencio.
Luiz Negro proseguiu:
«Sou christão. Aprendi, portanto, a perdoar nas lições do Divino Mestre. Elle—que levantou a dignidade do homem com o seu proprio martyrio.
«Quebrou as algemas da escravidão do mundo antigo para implantar, na terra, a liberdade, a igualdade e a fraternidade—trindade augusta d'esta religião d'amor.
«Ao visconde hei de eu contar largamente a minha vida. Hei de dar-lhe a narração escripta do triste fado da minha existencia. Quem, como eu, só espera do sepulchro—da valla, direi melhor—o silencio e o repouso, não pretende nem quer illudir ninguem.
«Retiro-me. Sinto-me aqui de mais. Apavora a minha presença com o sinistro nome que me deram.»
Devo dizel-o: estenderam-se-lhe todas as mãos. Nem uma só houve, que se esquivasse a este signal de pura cordialidade com que os homens se buscam e apreciam.
Ao cerrar da porta, ouvi que me dizia: «Até ámanhã.»
Este «ámanhã» seria a sua historia.
Ao passo que o carrasco descia os setenta e sete degraus, que conduziam á minha jaula, fiquei eu isolado e silencioso no meio dos meus amigos.
Perguntava a mim mesmo o que tinha ganho a sociedade, nas suas cruezas e ferocidades, ainda depois da inquisição.
Havia ao menos—alli—a logica brutal das feras, havia os instinctos felinos d'aquelle tribunal catholico. E nós a recebel-os e a apertar-lhes a mão—aos successores, e filhos dilectos d'estas infamias! E nem sentimos as chispas de fogo, as gotas de sangue, os gemidos de tantas victimas!
Muito podia e muito póde a reacção!
Diga-o Pelletan.
A inquisição não tinha só jurisdicção sobre a vida humana: não lhe escapava a propria morte. Assim como a hyena na ferocidade dos instinctos levantava, cavando, a terra dos cemiterios, assim ella, a inquisição, desenterrava os ossos dos suspeitos posthumos, escavava, nas vallas, a podridão dos cadaveres dos impios, fabricava, com esqueletos, heresiarchas e herejes, interrogava gravemente os espectros, queimava-lhes os detrictos, e as cinzas arremeçava-lh'as ao vento.
Fica entendido, que os bens—pelo confisco—não os entregava aos herdeiros.
E com todo este apparato affectava ares e modos de suprema beatitude.
Havia cheiro de santidade em todo o seu procedimento.
Começava por si. Chamava-se a santa fé. Era a prisão a santa casa, o seu tribunal o santo officio, a sua policia a santa irmandade, o sambenito a sua libré, e para mostrar que em tudo seguia a phrase evangelica, proferia palavras d'uma mansidão ineffavel. Quando estorcia e quebrava os membros da victima, do paciente pela tortura, chamava a este hediondo facto: interrogar com bondade—benigniter. Ao condemnar á fogueira, acrescentava logo com doçura evangelical, que applicava a pena mais suave: pœna clementissima. Ao inscrever a sentença de morte, no seu registro funerario, designava o compendio d'estes horriveis morticinios, pelo nome de livro de vida: liber vitæ. Se entregava o padecente ao carrasco, em vocabulo tão amoravel que parecia absolvição, dizia que o relaxava: relaxare; e, quando, finalmente, o condemnado ia a caminho do supplicio escrevia, com letras d'ouro, na sua seraphica bandeira, a palavra misericordia!
A inquisição era dôce, suave e meiga na fórma, como o são todas as medonhas infamias e todas as fundas hipocrisias.
Conta-se do crocodilo, que imita, nos juncaes, os gemidos infantis da criança que se afoga, para arrastar os corações generosos a acudir-lhes e devoral-os.
No baixo imperio, quando as sociedades se estorciam, nas mais baixas e degradantes vasas de cynismo, de hediondez e d'abjecção, a polidez das fórmas era inimitavel e soberanamente cortez. Custava a conter na memoria as classificações, tão adjectivadas, dos mais ignobeis e crapulosos misteres palacianos. Rezavam as chronicas, estatuiam diariamente os rescriptos dos principes, determinavam os decretos imperiaes as designações de illustrissimos e eminentissimos senhores—applicadas e votadas estas grandezas—se grandezas ha, n'esta torpe nomenclatura—á escoria dos eunuchos e dos devassos das aulas regias.
Todos estes vocabulos iam envoltos na podridão e na torpeza da mais vil malvadez, e no lôdo aviltante, e vasa immunda e mephytica dos escravos, levantados, sem crenças e sem fé.
Vieram depois os barbaros.
Vieram bem.
Sahirão agora do quarto estado?
Talvez.
A raça latina carece d'uma nova transformação.
D'onde virá?
Aviltada, corroida, podre e corrupta em França, na Italia e em Portugal, olha a medo para a Hespanha. Estremece de susto e pavor ao encarar os delirios d'um povo que parece barbaro, e que faz esforços sobrehumanos, para se regenerar e tomar assento nas ágapes das civilisações, modernas.
Poderá concluir e completar esta transformação?
Não posso nem quero crêr na aniquilação dos povos da familia latina.
Nós somos a expressão mais perfeita da raça indo-europêa.
Assim como, em 1789, a nobreza devassa, leviana e egoista preparou o engrandecimento da burguezia, assim, tambem, os gravissimos e repetidos echos d'esta classe estão apressando e dando vida ao futuro indestructivel do quarto estado—á regeneração da nossa raça pelo povo.
Seria longo estudar, aqui, as numerosas causas da decadencia e da fatal destruição, que vão gangrenando, sem elixir reparador, a nobreza, o clero e a classe media.
Um dia o povo escreverá a historia de todas estas podridões.
Os meus amigos sahiram pouco depois do carrasco.
Esperei ancioso pelo dia seguinte.
Na solidão da cadeia, entregue por tão longas horas da tarde e da noite ao silencio e á reclusão, ignorando a sorte que me esperava, e os planos que forjaram os meus inimigos, buscava todas as distracções, que o acaso ou a sorte me depararam, para sahir do torpôr moral e da tristeza profunda que me ia n'alma.
As horas corriam tão lentas e vagarosas, que me aconteceu, por vezes, esperar, com prazer, os momentos em que os guardas vinham, no silencio da noite, correr-me os ferros da minha janella, para se confirmarem e terem a certeza de que eu não tentava fugir. Sorria-me sempre a este acto nocturno e solemne da minha vida de prisioneiro d'estado.
VISCONDE DE OUGUELLA.
O DESASTROSO FIM DE DAMIÃO DE GOES
Não era boa pessoa. Tinha talento, fazia chronicas de reis, escrevia em variados assumptos; mas era mordacissimo, deslinguado, e desluzia as gerações dos seus inimigos com a injustiça propria da sua malquerença.
D. Antonio de Athayde, conde da Castanheira, e valido de D. João III, foi um dos fidalgos mais aggravados.
Uma satyra appareceu na côrte por aquelle tempo, precisamente no anno 1554. Um homem vestido de frade a entregou pessoalmente ao rei.
Diogo de Paiva de Andrade (Memorias ineditas) refere assim o caso:
Um frade capucho, ou, como tambem se disse, pessoa que vestiu aquelle habito, procurou com grande empenho fallar a D. João III, que estava no paço da Ribeira, em occasião que se recolhia a dormir a sesta; e, pelo esforço que fazia em se lhe dar recado, se deu parte a el-rei; o qual mandou entrar o frade. Este se queixou extraordinariamente de um regulo que havia na sua terra, pedindo a sua alteza desaggravasse o opprimido povo; e, acabando de fallar, se retirou, entregando-lhe um papel. Abriu el-rei o papel; e, vendo que era uma satyra contra o conde da Castanheira, D. Antonio de Athayde, ordenou logo fossem em busca do frade; e, por maiores diligencias que se fizeram, não foi possivel encontral-o. Este papel guardou el-rei na sua guarda-roupa, d'onde o pôde haver Damião de Goes que, copiando-o, o deixou junto a um nobiliario, que tinha escripto das familias d'este reino, e d'aqui teve origem, sem fundamento, a seita puritana; porque, depois de descompôr o conde na figura e nos costumes, o infamou na familia, nas seguintes quadras:
Mestre João sacerdote,
de Barcellos natural,
houve de uma moura tal
um filho de boa sorte.
Pero Esteves se chamou;
honradamente vivia;
por amores se casou
com uma formosa judia.
D'este (pois nada se esconde)
nasceu Maria Pinheira,
mãi da mãi d'aquelle conde
que é conde da Castanheira.
Em outro lanço das Memorias, Diogo de Paiva, reportando-se novamente a este caso que estrondeou n'aquella época, acrescenta:
Damião de Goes, bem conhecido n'este reino por seus escriptos, foi grande inimigo de D. Antonio de Athayde, 1.º conde da Castanheira, e valido de D. João III; porque apparecendo em palacio a celebre satyra contra o mesmo conde, que deu causa á murmuração de Maria Pinheira, Damião de Goes a ajuntou a um nobiliario que tinha escripto;—sabendo-o o conde, o esperou na rua Nova de Lisboa uma noite, e lhe deu com um pau. Augmentou-se de parte a parte a inimizade; e, achando-se D. Antonio de Athayde na casa da India uma manhã, como vedor da fazenda, e Damião de Goes como feitor de Flandres, que havia occupado, ahi se travaram de razões, e o conde lhe deu com umas luvas na cara.
A satyra, que D. João III releu muitissimas vezes, e outras tantas fechou no contador dos seus papeis particularissimos, devia de ser acerba para o vingativo conde, e mortalmente funesta para Damião de Goes.
O leitor, sem duvida, deseja vêl-a, porque, se a não viu manuscripta, com certeza a não encontrou ainda impressa. As tres quadras trasladadas por Diogo de Paiva são as unicas apenas conhecidas dos leitores de genealogias; mas o mordaz poema comprehende sessenta e quatro quadras.
Por não empecer á curiosidade, dou primeiro o traslado da satyra; hão de vêr depois outras cousas importantissimas no caso.
TROVAS
QUE SE MANDARAM DAR A EL-REI D. JOÃO III POR UM FRADE DE SANTO ANTONIO, DOUS ANNOS ANTES DA SUA MORTE, E AS TINHA NA SUA GAVETA, E AS LIA ALGUMAS VEZES, E AS MANDOU QUEIMAR POR MANOEL DE S. THIAGO NO DIA QUE VEIO DA MISERICORDIA, TRES DIAS ANTES DO SEU FALLECIMENTO QUE FOI A 22 DE JUNHO DO ANNO DE CHRISTO DE 1557.
1
Deus sabe que esconder
a minha tenção não posso;
e, por seu serviço e vosso,
digo quanto aqui disser.
2
Se sobre isto o dessirvo,
com a clemencia que sóhe,
como a vassallo e captivo,
que o ama, me perdoe.
3
Um poeta dos latinos
a um seu amigo escrevia:
«Já agora a terra cria
homens maus e pequeninos.!»
4
Como que, com a idade
tudo cança e nos esquece,
afóra só a maldade,
que esta sempre prevalece.
5
Homens bons de muito ser
n'esta terra haver sohia;
ainda os ha; mais haveria,
se os deixassem viver.
6
Os que mettem pelos portos
mercadorias defezas,
com que os mortos são mortos
e os vivos são suas prezas,
7
Esses no reino metteram
mentiras e judiarias,
baixezas e hypocrisias
que toda esta terra encheram.
8
E tanto quê, mór valia
tem já isto em Portugal
que droga, cravo e tincal,
nobreza e cavallaria.
9
Mas de um, que tudo pende[1],
vos direi, senhor, um pouco,
em que me tenhaes por louco;
que Deus calar me defende.
10
Pois dá brado sem cessar—
diz Izaias—e canta;
como trombeta, levanta
tua voz sem descançar.
11
E elle, que tudo é, tudo
nos salva pela tenção!
Vêr eu tanta perdição
me faz fallar, sendo mudo.
12
E eu, com esta ousadia,
o direi, porém com febre,
que em sua physionomia
vereis melhor que tem lebre.
13
Convenho no que se diz:
Dês que o mundo se criou,
aquelle a quem Deus bem quiz
no rosto lh'o amostrou.
14
Após isto, no cabello,
na sombra tão infernal;
de estopa de ruim pello
nunca se fez bom sayal.
15
As sobrancelhas hirsutas
maiores que abebedouro,
no meio da testa justas,
signal é de mau agouro.
16
Olheiras por meio rosto,
olhos tristes, embaciados,
risinhos falsos, sem gosto,
pensamentos esfaimados.
17
Esfaimados de cobiça,
de soberba e de inveja,
de quantos males atiça
quem todo o mundo deseja.
18
Esfaimado de suspeitas,
enganos e falsidades,
e palavras contrafeitas
onde nunca entrou verdade.
19
Esfaimado por lançar
o reino e terra a perder,
o preço, a honra, e o ser
dos que são para estimar.
20
Esfaimado e esfaimado
por acabar de roubar
honra, fazenda e estado
de quem isto lhe foi dar.
21
Ente do seu parecer,
nas obras do tanta perda,
parentesco deve ter
co' ladrão da mão esquerda.
22
É um sem fundo, adverso
da direita e do envez,
em ser ruim e perverso
da cabeça até aos pés.
23
Do qual ousei affirmar,
a um seu (ninguem se espante)
pardelhos e calcanhar
são mores que por diante.
24
São de ladrão calcanhares,
dizem todos a uma voz,
faz com ratos nos altares
mais lavoura que na foz.
25
Té quando, pois, durará,
Senhor, tão cruel engano,
sortido em tanto damno,
trinta e tres annos ha!
26
Ponhamos em termos isto,
vejamos quem tem razão,
seja juiz Jesus Christo
em quem não ha suspeição.
27
Vossa alteza que achou
n'este homem feito empelado,
que assim se apoderou
de si e do seu estado?
28
Entregues á sua vontade
d'onde dependem as leis,
tudo podem dar os reis,
salvo sua liberdade.
29
Este, tudo tem de vós,
com que se fez soberano,
ingrato, cruel tyranno,
a Deus, a vós e a nós.
30
Este, a mais sobre todos,
este credes desde a...[2]
este tem comvosco os modos
de D. Alvaro de Luna.
31
Senhor, que engano é este?
como não fugis d'este homem
de que tantos outros morrem
por ser o seu mal de peste?
32
Que só dous, tres dias, dura
qualquer outro em vossa graça,
logo de vós a rechaça
sua levação[3] sem cura.
33
Não podem ser todos maus;
elle só é virtuoso,
sendo, á fé, falso raposo
todo cheio de desvaus(?).
34
Faz quanto se lhe antoja;
e diz, quando adoece:
«Quem me visita, me enoja,
Quem o não faz me aborrece.»
35
Olhai lá pelo virote!
Amaes-lhe os cabellinhos?
Criai-lhe bem os filhinhos,
governai por este norte.
36
Em qualquer outra pessoa
passára isto por graça;
que quem não tem cousa sua,
ponha os seus bofes na praça.
37
Malditos sejam os pais
que geraram tão má cousa,
de que todos dão mil ais,
e nenhum fallar não ousa!
38
Por terem reconhecido
ser de vós apoderado,
como Deus é adorado,
como o diabo é temido.
39
Dai ao demo este diabo,
dai este diabo ao demo!
Não é bom, não vol-o gabo,
de governalho e de remo.
40
Não se lhe sabe virtude,
não viu leão nem pelejou,
nem mortos resuscitou,
dos vivos tolhe a saude.
41
Pois que milagres são estes,
que siso, que discrição,
pois que assim lhe concedestes
o da vossa jurisdicção?
42
Se elle fôra sisudo
e discreto em seus modos,
não governára elle tudo,
e mais com dolo de todos.
43
É da gloriosa lei,
que a todos nós ensina,
imigo, e de Deus e Rei
ante quem todos malsina.
44
Se vos tem amor ou não,
não é texto de Hipocrás;
as obras vol-o dirão,
não cureis dos seus salás[4]
45
que são figuras, e basta,
villãs reverenciaduras
com que vos caçou e arrasta
por nossas desaventuras.
46
Que o criado verdadeiro
que tem verdadeiro amor,
mais que o seu, e primeiro,
sente o mal de seu senhor.
47
Nos conselhos, vossa alteza
em elle sómente crê;
sendo tudo na grandeza
da perdição que se vê.
48
Por seu conselho casou
a princeza em Castella[5];
vêde como Deus livrou
este vosso reino d'ella.
49
Por seu conselho deixastes
quatro lugares aos mouros[6];
verdade é que poupastes
com isso grandes thesouros.
50
Mas por seu procurador
poz Deus boas contraditas,
que não fizessem mesquitas
nos templos do Salvador.
51
Ao duque poz suspeição;
que sempre em tudo procede
por ser parente d'Abrahão
e tambem de Mafamede.
52
Que como homem antigo
parece que lhe sabia
a sua genealogia,
que é esta que aqui digo:
53
Mestre João sacerdote,
de Barcellos natural,
houve de uma moura tal
um filho de boa sorte.
54
Pero Esteves se chamou,
honradamente vivia,
por amores se casou
com uma formosa judia.
55
D'este (pois nada se esconde)
nasceu Maria Pinheira,
mãi da mãi d'aquelle conde,
e sua avó verdadeira[7].
56
Vêde se era bem provada
esta sua suspeição;
mas não aproveita já nada
onde sobeja a affeição.
57
E com juiz tão suspeito,
mal inclinado, teimoso,
desalmado, cubiçoso,
todos perdem seu direito.
58
Farto trabalho receio
lhe faz tal sentença dar:
christão e sisudo meio
para o meu aproveitar.
59
Antepor a Deus fazenda
receio, e maior trabalho;
nunca já será atalho
mas rodeio sem emenda.
60
Veja isto vossa alteza
nas cousas que tal causaram,
pois que todas se dobraram
e muito mais a pobreza
61
E como, para poupar
gastos, se faz a tal obra,
Ai! da nação que sossobra,
e dobra-se o individar.
62
Em os taes conselhos vãos
verá o mais a que veio;
nascerão mil de um receio
de mouros aos bons christãos.
63
O trabalho era d'além
em meritoria guerra;
agora, a além e áquem,
em todo o mar e na terra.
64
Vós, senhor, não tenhaes
pouca culpa n'este feito;
peço-vos tudo gemaes
sempre dentro em vosso peito.
O author da satyra era o proprio Damião de Goes, que ajuntára a copia ao seu nobiliario; e o portador d'ella a D. João III fôra um familiar do conde da Portella, inimigo do conde da Castanheira. Assim m'o assevera o padre D. Manoel Caetano de Sousa, aquelle doutissimo theatino, cujas 289 obras em varias linguas catalogou o conde da Ericeira, no livro intitulado Bibliotheca Sousana[8].
Entre os manuscriptos que tenho do insigne academico está a satyra copiada com mais razoavel orthographia da que Damião de Goes interpozera na genealogia do conde da Castanheira.
Formosa, lhe chama elle. A mim me não quiz parecer cousa para mediana admiração. A escóla de Sá de Miranda não póde gabar-se de mui notavel alumno no engenho de Damião de Goes; todavia, mais como documento historico, e pouquissimo como modelo de poesia, a considero dignissima da publicidade.
O esclarecido possuidor da satyra invectiva contra Damião de Goes alcunhando-o de detrahidor de alheios creditos. Eis a textual exprobração do clerigo:
Tudo isto continha aquella formosa satyra de que se não sabem mais que as coplas 53, 54 e 55, as quaes malicia e inveja encommendaram mais á memoria por encerrarem em si falta que se transfunde na posteridade quando não é tão falsamente imposta como n'este caso. Cheias andam as Memorias dos genealogicos de argumentos que convencem de falta aquella impostura; aos quaes eu só acrescento que não quero maior prova de sua falsidade do que vêr aquellas coplas, entre tantas tão maledicas, que dizem de um só homem, e tão grande como aquelle conde foi, tantos defeitos que não cabem em tantos homens vis e facinorosos; e vêr que nas coplas 9, 10 e 11, quer o author com pouco respeito ás divinas escripturas attribuir a impulsos do Espirito Divino os que só são effeitos do espirito maligno que sem duvida levaria comsigo ao inferno o author das coplas, se elle antes de morrer se não desdissesse como se affirma que desdisse. E Deus que é summamente justo quer que aquelle mesmo conde, cuja descendencia, n'esta satyra, se emprehendeu infamar, tivesse uma mui esclarecida descendencia, cheia de varões insignes em santidade, letras, armas, dignidades ecclesiasticas e seculares as maiores que se podem conseguir em Portugal, como sabem os que tem menos que mediana noticia das familias d'este reino, na qual sempre os mais sisudos tiveram estas coplas por falsidade[9].
Damião de Goes, em favores ou desfavores genealogicos, não era extremamente consciencioso. Quando recolheu das suas illustradas viagens, procurou Antonio Carneiro, secretario de estado d'el-rei D. João III, e entregou-lhe um papel em que demonstrava que a sua familia d'elle secretario descendia do duque de Mouton, de França, que aportuguezado dizia «Carneiro». O ministro sorriu-se de zombaria á destampada lisonja, lançou o papel, sem o abrir, ao brazido de uma chaminé, e disse a Damião de Goes:—«Contento-me com que os meus descendentes contem como progenitora a honra com que procuro viver sendo util ao rei e á patria.»
Antonio Carneiro bem sabia que não procedia dos Moutons. Era natural do Porto, e de familia honrada. Foi a Lisboa por dependencia que tinha de Pedro Fernandes de Alcaçova, escrivão da fazenda d'el-rei D. João II. Pedro Fernandes tanto se lhe affeiçoou que, além do prompto despacho, o convidou a ficar na côrte, empregando-o no expediente do seu officio. Como Antonio Carneiro fosse o encarregado de levar a despacho real o sacco dos papeis, n'estas idas ao paço, deu trela ao coração, e requestou D. Brites de Alcaçova, filha do seu protector, e dama da rainha. Casou-se com ella a furto; mas, publicado o delicto, foram ambos degredados para a ilha do Principe. Decorridos annos, as reiteradas supplicas da desterrada commiseraram o coração do pai. Veio Antonio Carneiro para o reino com sua mulher, e logo se habilitou para secretario do despacho universal de D. Manoel, revelando-se politico sagacissimo. Semelhantes honras lhe concedeu D. João III, e com ellas o senhorio da ilha do Principe, onde havia gemido degredado e pobre. Morreu aos 86 annos de idade, deixando larga descendencia.
Se leram Damião de Goes, e a Inquirição de Portugal, estudo biographico de Lopes de Mendonça, ou sequer a summariada noticia que escreveu o snr. Innocencio Francisco da Silva, sabem que o adversario do conde da Castanheira, denunciado pelo padre Simão Rodrigues, foi preso como lutherano nos carceres da inquisição, d'onde o mandaram penitenciar-se em reclusão austera no mosteiro da Batalha.
Concluido o prazo da expiação, quando já orçava pelos setenta annos, transferiu-se a sua casa.
Um dia—diz o snr. Innocencio, atido ao testemunho de memorias contemporaneas—o velho chronista d'el-rei D. Manoel foi encontrado morto, quer de accidente apopletico, quer assassinado por domesticos ou estranhos.
D. Manoel Caetano de Sousa refere que a maledicencia heraldica de Damião de Goes não despontára com a velhice, antes se afiára mais na pedra do rancor aos que elle suspeitava seus inimigos. O segundo conde da Castanheira, desforrando-se dos velhos e renovados ultrajes a Maria Pinheira, mandou criados seus moêrem com saccos de arêa o ancião no pateo de sua mesma casa; e de modo se houveram, que Damião de Goes apenas teve forças que o arrastassem á cama, onde se desprendeu da vida, e mormente da lingua que tantos trabalhos lhe custára.
Esta relação do theatino Sousa encontrei eu confirmada em um Nobiliario de Pinheiros, que pertence ao meu joven e illustrado amigo Vicente Pinheiro de Mello e Almada, filho do primeiro visconde de Pindella, e tambem descendente de D. Maria Pinheira.
Concluo rogando aos barões do meu conhecimento que me não façam moêr com saccos de arêa, se eu alguma vez lhes lembrar a tripeça dos avós. Eu lhes asseguro que, em suppostos casos, levo mais em vista nobilital-os que envilecêl-os pelo honrado trabalho de seus avoengos. Ainda assim, não está no meu animo—diga-se verdade—comparar ss. exc.as aos condes da Castanheira, nem confrontar-me a mim com Damião de Goes. Todos nós somos mais ou menos sapateiros nos baronatos e nas sciencias.