[1] Principia a desancar o valído.
[2] Palavra inintelligivel.
[3] Tumor.
[4] Zumbaias.
[5] D. Isabel. Casou com o imperador Carlos V, em 1525.
[6] Safi e Azamor foram abandonadas á mourisma em 1524. Em seguida, perdemos Arzilla.
[7] Que é conde da Castanheira, variante de Diogo de Paiva.
[8] D. Manoel Caetano de Sousa nasceu em 1658, e falleceu em 1734.
[9] A casa da Castanheira passou ao segundo marquez de Cascaes por herança de sua prima D. Anna d'Athayde, ultima condessa da Castanheira, fallecida no meiado do seculo XVII. Na casa de Cascaes succedeu a de Niza. E em ambas succederam o defunto snr. José Maria Eugenio e outros que medraram quando a casca do mundo antigo se poz do envez, e as heras absorveram a seiva dos troncos.
Em novembro de 1873 chegou a Braga uma senhora, que as suas criadas negras e o seu escudeiro inglez chamavam baroneza.
Vi-a no Hotel dos dous amigos. Figurava trinta annos, ou pouco mais. Feições fortes, duras; mas bonitas d'esta belleza rija das camponezas da Maia. Garbosa sem delicadeza nem a flexura da casta flebil e fina. Mulher a valer. Era o ideal de um morgado de Cabeceiras de Basto, que vestisse o seu ideal com os musculos e feitios da mulher menos corpulenta que a femea do elephante.
Entendi-me com o escudeiro inglez, ácerca de sua ama.
Viera do Brazil em agosto d'aquelle anno. Era viuva do barão de... Ipiranga—supponha-se que era de Ipiranga; mas não era. Quanto mais verdadeiros são os contos, mais forçosa e urbana é a mentira.
—É portugueza ou brazileira?—perguntei ao inglez.
—É portugueza.
—Que faz em Braga esta senhora? veio vêr o Bom-Jesus do Monte?
—Não, senhor. Anda a procurar a mãi; disse-m'o a sua criada grave.
—A procurar a mãi em Braga?! Como foi isso? Perdeu-se aqui a mãi, ou...
—Não sei como foi—volveu o escudeiro.
N'este comenos, entrou no hotel um meu amigo, que foi conduzido á sala, onde a baroneza tocava piano melancolicamente. Deteve-se algum tempo. Esperei-o, e perguntei-lhe que romance era aquella mulher.
—Um romance, com toda a certeza.
—É certo que esta baroneza procura a mãi?
—É, e encontrou-a.
—Então...—acudi eu tão incommodado com a escuridade d'aquelle caso como se me faltassem ao respeito, não m'o communicando previamente e em quatro palavras.—Então como é isso? A mãi quem é? onde estava a mãi? como se perdeu a mãi? como se encontrou a mãi?...
—Se a tua impaciencia consente, conversaremos de espaço—objectou o meu amigo;—mas peço á tua sofrega curiosidade que se contenha até á noite. Vou d'aqui ao recolhimento da Tamanca procurar um velha chamada Anna de Jesus, que é mãi d'esta baroneza. Já sabes quem é a mãi, onde está a mãi, como se encontrou a mãi. Depois te direi como se perdeu...
—A dita mãi? Pois até logo. Confio em ti.
*
* *
Reduz-se a poucas linhas tudo que o sujeito me disse. A baroneza nascera em uma aldeia, visinha do Porto, á beira-mar, chamada Nevogilde. Seu pai era official-calafate; sua mãi era filha de um agricultor remediado. Os paes amaram-se, e propagaram extra-matrimonium, como diz o snr. professor e historiador Viale, quando dá noticia dos filhos bastardos dos reis. O artista safou-se para o Brazil. A menina ficou com sua mãi, que a teve comsigo até aos quatro annos, vestindo-a e alimentando-a com aceio e abundancia, em quanto lhe durou o producto de uns grossos cordões de ouro, que herdára d'uma parenta. Seus paes expulsaram-na de casa, e obrigaram-na a esconder-se com o escandalo da filha em outra aldeia proxima de Leça.
Quando se lhe exhauriram os recursos, Anna de Jesus foi servir para o Porto, deixando Amelia aos cuidados de uma gente pobre, a quem entregava mensalmente os seus salarios; porém, como não bastassem á alimentação da filha, resolveu entregal-a aos parentes do pai, que eram proprietarios em Mathosinhos.
Isto dizia a baroneza que lh'o referira o marido; mas não sabia contar como a levaram de Leça para o Pará, quando tinha seis annos. Lembrava-se de ter sido apertada nos braços de um homem, que fôra a bordo, e lhe chamára filha; que esse homem a levára para um collegio allemão, d'onde nunca mais sahira, senão aos dezoito annos para casar com um negociante rico, pardo e velho, que, ao depois, se fez barão.
Acrescentava que via seu pai no dia 1 de cada mez e que nunca lhe perguntára por sua mãi. E, por lh'o referir o marido, soubera que seu pai a não levava a casa, porque era marido de uma riquissima mulata, velha e doente, de quem esperava herdar tudo, a não intervir entre elles algum caso que irritasse o genio ferocissimo da esposa. Mais dizia a baroneza que a mulata acabou os seus dias antes de acabar a paciencia do marido, e o instituira herdeiro; mas, como lhe tinha empeçonhado o sangue, pouco lhe sobrevivera o viuvo. D'onde resultou ficar Amelia opulenta herdeira, sob a tutela do paraense que a fez sua mulher. Concluiu, finalmente, a baroneza, mostrando ao meu amigo de Braga dous numeros do Periodico dos Pobres, do Porto, de agosto de 1845, os quaes ella encontrára nas gavetas de seu pai, e d'onde inferira o pouco que sabia do seu nascimento, e se lhe afervorára o filial desejo de procurar sua mãi, e afortunar-lhe os ultimos annos, se ella, por ventura de ambas, existisse.
Mostrou-me o meu amigo os dous numeros do Periodico dos Pobres, que diziam assim:
«MENINA PERDIDA.—No dia 31 de julho pelas 8 horas da noite appareceu batendo a uma porta na rua de Sant'Anna, freguesia de Mathosinhos, uma linda menina, de idade de 4 annos, branca, bem nutrida, cabello louro liso, com uma trança de perto de um palmo, olhos grandes azues, vestido curto de cassa riscada de vermelho, guarnecido de trancelim; calça de paninho branco com dous entremeios de renda; saia de paninho, e outra de baeta de algodão; collete de atacador de linho; chapéo de papelão coberto de sêda verde; sapatos de duraque cinzento acoturnados com botões ao lado, meia comprida de linha, ligas de fitas de nastro cosidas nas meias;—diz chamar-se Amelia, e que a mãi se chamava Anninhas, a qual vivia com um snr. Antonio. Esta criança foi vista ás 6 horas da tarde na estrada de Mathosinhos na companhia d'uma mulher de mantilha e vestida de preto, e um individuo de pouca idade vestido de calça e jaqueta azul e boné.
«Estes individuos haviam convidado uma mulher para levar a criança ao collo até Mathosinhos; como elles fossem ficando muito para traz, dando a entender desejarem livrar-se da criança, a mulher desconfiou d'alguma cilada, e os obrigou a tomarem conta da criança. Convidaram então um rapaz a quem prometteram 50 reis, o qual a levou ao collo, até que, vendo-se de repente abandonado dos ditos individuos, a deixou no lugar indicado e fugiu. A criança diz que a sua casa é perto do rio; que continuadamente via barcos; que ia aos banhos com a mãi; que fugia para a ponte do rio; e que o snr. Antonio ralhava; que brincava com outra menina que morava no andar de baixo, chamada Julia, a qual tinha bonecos para brincar, etc. Suppõe-se que tinha sido furtada a seus paes, ou por elles abandonada, e por isso se publica este facto para conhecimento de quem pertencer; a criança está em poder do actual administrador do concelho de Bouças em Mathosinhos.»
Até aqui o numero de 3 de agosto. Segue o numero de 6:
«No dia immediato áquelle em que a menina foi encontrada, achou-se atraz da parede n'um campo uma trouxa de roupa de criança, e uma carta; foi tudo apresentado ao administrador do concelho, que pelo seu conteúdo descobriu a historia d'aquelle acontecimento, os nomes dos paes e parentes, etc. Era remettida pela mãi aos parentes do pai, por este se achar ausente no Brazil, e pela falta de meios que ella tem para se sustentar, acrescendo achar-se enferma. Parece que os parentes a não quizeram receber, e que o rapaz que a conduzia, voltando ao lugar da estrada de Mathosinhos d'onde havia deixado os individuos que lh'a haviam entregado, não os encontrou, e, temendo comprometter-se, a lançou n'um campo com a trouxa e fugiu.
«O administrador do concelho obrigou a familia do pai, residente em Leça, a tomar conta d'ella, o que teve lugar no dia 3 do corrente á noite, em quanto se não descobre onde pára a mãi para se verificar até que ponto sejam verdadeiros os factos de que se faz menção n'aquella carta. Varias pessoas teem querido tomar conta da menina; porém isto não tem podido ter lugar em vista do que fica exposto, e porque os parentes do pai estão em circumstancias de podêl-a sustentar.
«Consta ultimamente que a mãi fôra para Braga, chama-se Anna de Jesus Lima, tem sido criada de servir em algumas casas d'esta cidade.»
Na margem do jornal, onde está escripto: «diz chamar-se Amelia, e que a mãi se chamava Anninhas, a qual vivia com um snr. Antonio»—o pai da baroneza, sublinhando o nome appellativo Antonio, escrevera umas palavras que estavam cancelladas e inintelligiveis. O mesmo succedia mais abaixo, no ponto em que se diz: «que fugia para a ponte do rio, e que o snr. Antonio ralhava.» Parece que este «Antonio», commentado á margem, explicava o silencio do marido da mulata a respeito da mãi de Amelia. Eu não sei nada positivo a tal respeito, nem formei ainda opinião com que possa alumiar a vereda de ulteriores pesquizas.
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* *
O que sei é que no recolhimento da Tamanca existia, desde 1855, Anna de Jesus, como criada de uma velha fidalga que para alli entrára em 1834, obrigada pela moral que a condemnára a expiar na clausura uns amores de gran vilta para seus avós. Sei mais que Anna de Jesus sahiu do convento sem verdadeiramente saber a razão porque sahia, pois lhe disseram que ia tratar com os seus parentes a restituição da legitima que lhe haviam extorquido. Que foi recebida no quarto da baroneza para quem olhou com respeitoso assombro vendo-a coberta de velludo e pelliças de varios feitios. E que, ao vêr-se abraçada por aquella senhora, rodeada de pretas, e lhe ouvira pronunciar a palavra mãi, perdera os sentidos, e os recobrára, dizendo extravagancias. Finalmente, como a felicidade não faz endoudecer ninguem—para se não parecer com a desgraça—Anna de Jesus, remoçada, alegre até ás lagrimas, e a cuidar sempre que a sua vida era um sonho, foi para o Pará com sua filha, tão angelica, tão santa que lhe perdoou o desamparal-a do seu amor de mãi, por onde lhe adveio o acaso mais amparador da riqueza, que somma 1:000 contos, 500 da mulata do pai, e 500 do marido mulato.
E mais nada.
Cypriano, Ciprião ou Scipião. O leitor conhece o valente governador da ilha Terceira, o portuguez intransigente com Castella, o partidario inflexivel de D. Antonio, prior do Crato, que reinou uma hora em Santarem, outra hora em Setubal, a derradeira hora entre a plebe de Lisboa. Onde elle reinou deveras foi no coração e na consciencia dos seus raros amigos.
Os historiadores portuguezes chamam Cypriano ao heroe dos Açores; os francezes chamam-lhe Scipião, nobilitando-o, por analogia do nome e dos feitos, com o general romano. Nas Provas da Historia genealogica da casa real leio Ciprião. Elle mesmo a si se chamava Scipião, para não desfazer no glorioso nome que Henrique IV lhe dava, e Philippe II tambem, como ironia ou como lisonja[10].
Procedia de estirpe illustre, não tanto como diz uma neta de seu irmão Sebastião Gomes de Figueiredo. Esta neta é mad. Gillot de Sainctonge, que, em 1696, publicou a Histoire secrete de Dom Antoine Roy de Portugal, tirée des memoires de Dom Gomes Vasconcellos de Figueiredo. Engrandece a poetiza franceza a prosapia de sua mãi com a costumada ignorancia dos francezes quando entendem comnosco. Diz que Jean, fils de Pierre, le Justicier, roy de Portugal, épousa Marie fille de Martin Alfonse Tello, & d'Aldonze de Vasconcellos sœur de la reine Eleonor, femme de Ferdinand.
Que mixtiforio ahi vai!
Se Aldonsa (ou Dulce) de Vasconcellos podesse ser irmã de Leonor Telles, nem assim Scipião de Figueiredo procederia, por Vasconcellos, d'essa linhagem.
O pai de Scipião era de Alcochete. Chamou-se Sebastião Gomes de Figueiredo: casou com D. Antonia Fernandes de Vasconcellos, filha do bispo de Lamego, D. Fernando de Menezes, que morreu arcebispo de Lisboa, e dotou a filha com o prazo de Velloso, doação riquissima em direitos reaes.
Teve cinco filhos o genro do bispo. O primogenito, Duardos de Figueiredo, era representado em 1716 por Nicolau de Tovar e Vasconcellos, sargento-mór de batalha. O segundo, Scipião, doutorou-se em direito canonico imperial, e foi mandado governar a ilha Terceira, não por D. Antonio, como diz o historiador Rebello da Silva[11], mas por D. Sebastião, como diz o proprio prior do Crato na carta latina ao papa Gregorio XIII, em 1583. Teve um filho illegitimo, que se chamou Constantino. O prior do Crato inscreve-o no rol dos amigos que o seguiram no desterro. Ignoro o destino do filho de Scipião. Os outros irmãos do governador da Terceira chamaram-se Ruy, que ficou no reino bem aconchavado com os Philippes; D. Brites, que casou com um Ribeiro Soares; e Sebastião, de quem darei ampla noticia, avô de mad. de Sainctonge, ou Sainct'Onge, como se escreve modernamente.
A porção mais estafadora d'este escripto conclue aqui.
*
* *
Quando chegou á Terceira a noticia da acclamação do prior do Crato, Scipião proclamou-o rei, sem lhe discutir a illegitimidade.
Era portuguez D. Antonio? Era. Logo era legitimo como D. João I, o filho de Thereza Lourenço.
Rei castelhano é que elle não queria. Morrer na defeza da sepultura não pisada pelo sapato ferrado do hespanhol—cahir em terra ensanguentada, mas portugueza—valia tanto como um triumpho para o faccionario do filho da Pelicana.
A onça de Castella afrontára o leão na sua caverna. Elle surgiu fóra, e espedaçou-a. A ilha Terceira era inexpugnavel com tal caudilho na vanguarda de alguns bravos fanatisados pelo heroismo de seu chefe, e talvez atemorisados pelo terror das suas cruezas com os partidarios de Hespanha.
Philippe II, em outubro de 1581, mezes depois que D. Pedro Valdez voltára derrotado dos Açores, tentou pela segunda vez a fidelidade de Scipião de Figueiredo, enviando de Lisboa á ilha Terceira Gaspar Homem com uma carta de seu proprio punho. Na brandura das insidiosas expressões, reçumbra o aviltamento a que descia o parricida castelhano para haver á mão o unico baluarte de D. Antonio. Calcule-se com que rancoroso disfarce Philippe II não offereceria perdão e mercês ao indomito governador, que apenas lhe deixára vivos cincoenta soldados, e nem um só dos officiaes aguerridos como D. Diogo Valdez e D. Luiz de Baçan.
Dizia assim a carta de Philippe[12]:
Doutor Scipião de Figueiredo, eu el-rei vos envio saudar. Não podendo deixar de crêr de vós que cumprireis com a obrigação que tendes a meu serviço, e ao bem d'essa ilha, e ao que particularmente vos toca, me parece encommendar-vos isto mesmo que de vós confio, que fazendo-vos assim como é de crêr, não sómente vos perdôo as culpas passadas, mas que folgarei de vos fazer mercê quanto serviço que de vós n'isto espero, para que se escusem os grandes damnos d'essa ilha, e dos moradores d'ella, e seu povo; indo sobre ella o apercebimento que tenho mandado fazer de gente, navios e munições, como tudo largamente vos dirá quem vos esta minha carta dará.—Escripta em Lisboa a 14 de outubro de 1581.
O governador respondeu com alguma intermissão de tempo:
Vi a carta que V. M. me mandou por Gaspar Homem, na qual me dizeis que não podeis deixar de crêr de mim que cumprirei com a obrigação que tenho a vosso serviço, ao bem d'esta ilha, e ao que particularmente me toca. Prouvera a Deus que tivera V. M. lembrança da em que estaes aos reis de Portugal, e principalmente ao serenissimo infante D. Luiz, que com seus vassallos e pessoa sempre em guerras ajudou ao imperador vosso pai; porque nem as fizereis contra o reino levantado com el-rei D. Antonio seu filho, offendendo tanto a Deus Nosso Senhor nos estragos de honras, vidas e fazendas, que causastes no meu, e nem os portuguezes verdadeiros seus vassallos deixariamos de vos servir como a rei christão, e a quem sempre amou a nação portugueza, mas como V. M. se esqueceu de tão devida razão, e da do sangue pelo muito parentesco que tendes com os reis de Portugal, nem a V. M. lhe cabe querer que eu o sirva, como vassallo, nem a mim convém obedecer como subdito. Esta ilha, e moradores d'ella são de el-rei D. Antonio a quem juraram por seu rei e natural senhor, assim pela successão do reino lhe pertencer, e o povo d'ella o ter eleito, como por a cidade, e camara de Lisboa isso escrever. As razões e justiça que para isso havia não posso eu crêr que V. M. não as tenha muitas vezes passadas pela memoria; e ainda que outras não houvera mais que a eleição do povo que n'este reino por muitos actos tem direito de nomear rei (faltando descendentes adquiridos) bastára entrar V. M. n'elle com mão armada, estando em litigio, para ainda que tivereis muita justiça perderdes todo o vosso direito; mas em Deus confio que tudo ha de tornar ao estado, que nem V. M. por occupar o alheio perca sua alma, nem o que está por ora usurpado deixe de vir ao poder do seu dono. Não me tenha V. M. por atrevido, mas julgue-me por desinteressado; e prouvera a Deus que os reis tiveram homens livres, e pouco ambiciosos em seus conselhos; porque nem el-rei D. Antonio chegára aos termos que o pozeram tamanhas traições, nem V. M. a perigo de perder o seu, e pôr em risco toda a christandade. Coitado d'aquelle que ha de dar conta no final juizo das honras, mortes, fazendas de tantos, da liberdade, e gosto da vida; porque para quem se perdeu não haverá arrependimento que baste em satisfação, por se lhe acabar o tempo. Se V. M. bem cuidar na hora da morte que vos espera, e quantos males n'ella se vos hão de representar, e as penas que, pelo que tendes em Portugal feito eternamente haveis de ter, e justamente haveis de padecer, lembrando-vos quão perto estaes de se vos acabar tudo, ah! como dareis uma volta tão grande ao passado porque tudo se vos ha então de ser presente! Quanto melhor vos fôra estar em vossos reinos pacifico, vossos vassallos quietos, amado de todos os reis christãos, e servido de todos os seus, que com o que tendes feito em Portugal! não sómente os christãos, mas todas as nações infieis vos terão intrinseco odio. Cuidai quantos innocentes matastes com o vosso exercito: cuidai nas honras das viuvas, e donzellas roubadas, e nos gemidos que ante a divina justiça estão pedindo vingança de vós. Lembre-vos quantas casadas ao adulterio forçadas são apostatadas! os templos de Deus que profanaram, as religiosas que deshonraram, a servidão em que pozestes os moradores de Portugal, e finalmente tudo o que n'elle causastes que Deus tem tomado á sua conta, e toma-vol-a com rigorosa justiça; como por um reino que mais que todos do mundo nobilitou dando-lhe as suas sagradas chagas, com que nos redimiu, por armas, que foi signal e penhor de nunca o desamparar. As cousas que padecem os moradores d'esse affligido reino, bastavam para vos desenganar, que os que estão fóra d'esse pesado jugo quereriam antes morrer livres, que em paz sujeitos. Nem eu darei aos moradores d'esta ilha outro conselho, porque não perca minha alma, nem minha honra, que trocarei quantas vidas tivera, e pudera possuir por morrer leal a meu rei que jurei, porque um morrer bem é viver perpetuamente; d'aqui me vem ter mais conta com perseverar até o fim da vida n'esta lealdade, que temer os vossos apercebimentos de gente, navios, e munições com que V. M. na sua me ameaça; porque confiando em Deus que peleja por nós, para os navios está o mar, e portos d'esta ilha apparelhados, para as munições as fortalezas e trincheiras e muitos poços para metter n'elles toda gente que nos vier buscar, a quem se não perdoará, pelos males que resultam de perdões. Não me ponha V. M. culpa, por que jurei a D. Antonio por meu rei e senhor, e de defender esta corôa; que tambem fizera o mesmo por vós se vos tivera jurado (posto que não com tanto gosto) porque basta ser rei portuguez: e, se a desventura me chegasse a estado que ficasse com vida sujeito, e, por fazer o que devo, me mandassem matar, perdendo a vida pelo senhor rei D. Antonio, então a ganhava, e tambem não perderia a memoria de minha lealdade, nem se perderia a fama da vossa crueza, e sem justiça. Eu não sirvo a el-rei D. Antonio por interesse (posto que d'elle se podiam esperar maiores mercês que de nenhum outro rei) mas sirvo com a pureza de minha obrigação de que resulta não me moverem mercês promettidas, que foi o laço em que cahiu Portugal; porque fóra do que devo nenhuma cousa me poderá mover a troco de vender a honra, e lealdade que não tem preço nem ha nenhum que eu tanto estime; lição que a muitos fidalgos esqueceu. Nosso Senhor leve a V. M. para o seu reino e restitua o de Portugal ao seu amado rei o snr. D. Antonio como os verdadeiros e leaes portuguezes desejamos.
D'esta muito nobre, e sempre leal cidade de Angra, ilha Terceira de Jesus Christo.
SCIPIÃO DE FIGUEIREDO DE VASCONCELLOS,
governador da ilha dos Açores.
*
* *
Este lance de patriotismo não impediu que a fidelidade de Scipião fosse suspeita a D. Antonio, por insinuações de perfidos, se é bem provada a seguinte pagina de Rebello da Silva:
«Os detractores não descançavam, porém, e a fim de offuscarem o animo do prior reproduziam as accusações, asseverando que Figueiredo principiava a vacillar, pintando-o inclinado aos jesuitas, contrafeito na lealdade, e disposto a restituir a liberdade aos presos politicos. Concluiam, por fim, que o corregedor se entendia secretamente com os castelhanos. D. Antonio, se não deu inteiro credito a estas vozes, tambem não cortou, como devia, os enredos pela raiz, e chamando Cypriano de Figueiredo para seu lado, feriu nos brios e no conceito o homem que acabava de lhe conservar a Terceira. Desconfiado e voluvel, facil em esquecer os serviços, mas lembrado e resentido dos aggravos, justificou mesmo na desgraça em varios lances a nota de ingrato. Na pequena côrte de proscriptos, que o rodeava, só Diogo Botelho, alma de todos os conselhos, viveu exceptuado da desattenção com que feriu os portuguezes, que tinham sacrificado patria, bens e posição para o seguir. Faltou-lhe sempre a magnanimidade, realce do infortunio, porque tanto engrandece na prosperidade, como serve de quilate e de timbre na desgraça aos caracteres heroicos.
«Abrindo os ouvidos ás queixas contra Figueiredo, e preferindo para o substituir no governo da ilha a Miguel da Silva, nomeado conde de Torres-Vedras, o pretensor, punido pela má escolha, praticou uma acção injusta, e commetteu um grande erro. As honras vãs, de que assim mesmo se não mostrou prodigo com Cypriano de Figueiredo, na idéa de lhe adoçar o que havia de cruel e de iniquo n'este golpe, não apagaram de certo no peito do honrado cavalleiro a nodoa de se vêr immolado á calumnia. Offendido na lealdade, e quasi injuriado publicamente pelo triumpho concedido aos adversarios, Figueiredo calou a affronta, e veio encerrar junto do principe, no desterro, a carreira, que abrira, abraçando uma causa vencida, e rejeitando as promessas de Philippe II, insinuadas pelo principe de Eboly[13].»
Descreio que D. Antonio escutasse as intrigas, e afrouxasse na confiança do seu validissimo amigo. Na carta latina que escreveu a Gregorio XIII, em 1583, avalia d'esta maneira o defensor da Terceira: «... entre outros, está o egregio doutor em direito canonico imperial, integerrimo governador, em nome de el-rei D. Sebastião nas ilhas Terceiras; do qual, incorrupto a promessas e lisonjas para que entregasse as praças que lhe haviam sido confiadas, confiscou-lhe os bens como costuma, apossou-se d'elles; e, sem embargo este constantissimo fidalgo manteve o povo em sua fé e promessa e deveres, foi quem primeiro, n'estes nossos tempos, domou os castelhanos com gloriosa victoria, e grangeou nome de capitão e fidelissimo governador e tal soldado se mostrou aos inimigos que muito é reluzam n'elle a um tempo esplendor de letras e grandeza militar.
Acresce que Scipião de Figueiredo é, juntamente com Diogo Botelho, testamenteiro de D. Antonio, e mais que todos os seus amigos, recommendado á gratidão de seus filhos. O testemunho de Sebastião de Figueiredo, irmão do valente defensor da Terceira, insurge-se tambem contra a calumnia, nas memorias que sua neta, mad. de Sainctonge publicou: Dom Antoine qui croioit qu'il ne donneroit pas peu d'affaire a Philippe, s'il conservait ses Isles, ne pouvait se lasser de louer le courage de Scipion; il avait une si forte passion de le voir, qu'il eut l'imprudence de lui écrire de le venir trouver, pour se rejuir avec lui de sa victoire, et de laisser le soin de son gouvernement à Manuel da Silva qu'il lui envoyoit qui etoit une personne de confiance. Voila ce qui fit croire à ceux qui ne jugent des choses que par les aparances que Dom Antoine se défioit de lui...[14].
Se é aceitavel o testemunho dos contemporaneos, alliviemos a memoria do prior do Crato d'esse imputado crime de ingratidão ao homem que deixou, na carta a Philippe, o mais energico testemunho de patriotismo, n'aquella vergonhosa conjunctura em que tantissimos fidalgos chatinaram a consciencia.
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* *
Scipião de Figueiredo assistiu, em 1595, ao trespasse do quasi mendigo D. Antonio. Pobremente viviam todos os amigos que o rodeavam. A pensão que Henrique IV lhe esmolava deprehende-se qual seria da mobilia do prior do Crato, inventariada por sua morte[15]. Essa mesquinha pensão continuou-a o rei em beneficio dos filhos e amigos de D. Antonio, consoante a carta, enviada de Lião, a Scipião de Figueiredo:
Seigneur Scipion de Figueredo, j'ay porté le regret que je devois de la mort de mon feu cousin le roi de Portugal, pour la perte que j'ay faite d'un bon amy, et je seray toûjours aussi prompt á faire paraitre á l'endroit de ses serviteurs, la bonne volonté que je lui portois; comme j'ay de déplaisir et de compassion de vôtre infortune; j'ay apris par vos lettres, quil vous a fait executeur de son testament, avec le sieur de Diogo Botheillo, il ne pouvoit faire un meilleur choix, car je m'asseure que vous vous acquiterez fidellement de ses dernieres volontez.
J'écris á ceux de mon conseil des finances, de payer ce qui étoit du de la pension du dit roy, jusqu'à la fin de la presente année, dans lequel tems étant sur les lieux, je réglerai et ordenneray ce que je pourray faire à l'avenir pour mon cousin Dom Christolphe son flls, et auray à plaisir de gratifier tous ceux de sa famille en ce qui me sera possible, et vous en particulier, aux occasions qui se presenteront, priant Dieu, seigneur Scipion de Figueredo, qu'il vous ait en sa sainte et digne garde.
Ecrit á Lion, le vingt de septembre, mil cinq cent quatre vingt quinze.
Transpira d'esta carta a bonissima alma de Henrique IV a favor de um principe que tragava as penurias a que não foi estranho o filho de Joanna d'Albret. Aquelle tempo ainda elle não era marido de Maria de Medicis, que lhe permittiu contar com o almoço seguro e um gibão sem remendos. Quem diria que tão nobre e querida alma se iria a Deus, quando o corpo se estorcia debaixo do punhal de Ravaillac! Menos infeliz e menos amado, morrêra tranquillamente o proscripto Antonio, graças a Henrique III que o defendeu do sicario duque de Mercœur, bisavô da rainha portugueza Maria Francisca Isabel de Saboya[16].
Scipião despendeu com D. Antonio e seus filhos os bens que adquirira na governação da ilha Terceira.
Falla-se de um brilhante que o prior do Crato empenhára por quarenta mil libras, na mão de mr. du Harley Sancy, um dos mais pecuniosos fidalgos de Paris, de quem depois houve mais sessenta mil libras, por trespasse completo da joia (proximamente 18:000$000—o producto total do brilhante). A pedra preciosa era do neto d'el-rei D. Manoel ou de Scipião? Mad. de Sainctonge refere a passagem de modo que nos persuade ser do amigo de D. Antonio: Scipion Vasconcelles de Figueredo avoit déjà vendu pour lui (D. Antonio) tout ce qu'il avoit apporté de son gouvernement, et avoit engagé un diamant d'un prix inestimable pour quarente mille livres, à Monsieur de Sensy qui étoit si honnête-homme qu'il lui donna encore vingt-mille écus voyant qu'il n'etoit pas en état de le retirer. Parece dizer que o proprietario do diamante era Scipião de Figueiredo[17]. Esta pedra, considerada quanto aos quilates, o oitavo diamante conhecido, foi depois empenhada por du Sancy, em Metz. Um hebreu d'aquella cidade emprestou dinheiro para pagar aos suissos de Henrique III, revolucionados por falta de pagamento. O proprio du Sancy cahiu em apuros, por 1605, e vendeu a pedra a Sully que a comprou por 150:000 escudos em nome do rei. Não sei que mãos percorreu o diamante. Em 1870 foi vendido em Calcutta, por ordem da princeza Demidoff, originaria da Russia, e aparentada com a familia Bonaparte[18].
*
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Em 1586, tinha Scipião comsigo em Paris um irmão de vinte e cinco annos, lá conhecido por D. Gomes de Vasconcellos, que por alli se andava estadeando a sua pobreza e inutilidade. Pediu Scipião a Catharina de Medicis que lhe empregasse o irmão no exercito do marechal de Brissac. A rainha-mãi escreveu a favor de Sebastião de Gomes a affectuosa carta que sua neta publica a pag. 162 da Histoire secrete, etc.
Poucos mais vestigios restam de Scipião de Figueiredo até 1601. N'este anno Maria de Medicis recommenda-o encarecidamente ao gran-duque de Toscana, por carta escripta de Lion, em 10 de janeiro. Ahi lhe expõe que o seu protegido vai a Italia pour aucunes siennes affaires. Não é possivel rastrear os negocios particulares de Scipião em Italia. O pretendente era já morto desde 26 de agosto de 1595. Póde ser que o testamenteiro de D. Antonio ainda conspirasse a favor dos filhos.
Não sei se se demorou muito em Italia. Sabe-se que, na volta, foi morar nos arrabaldes de Paris em uma aldeia chamada Les Fontaines, perto de Lagny, d'onde ia a miudo visitar o filho de seu defunto amo, D. Christovam de Portugal, que vivia em Paris bastante descuidado dos seus interesses e honra[19]. Poucos annos viveu em Les Fontaines soccorrendo os portuguezes expatriados com a pensão que lhe dava o rei. Ahi morreu, depois de 1606, e foi sepultado no proximo mosteiro dos Agostinhos. O rei continuou a dar a pensão aos commensaes de Scipião, reservando em beneficio de D. Gomes seiscentas libras annuaes, uns 110$000 reis pouco mais ou menos.
Ora este D. Gomes tem sua historia, longa e arrastada, porque morreu em idade de noventa e sete annos, reinando já em Portugal D. João IV.
Se o leitor póde esforçar a sua paciencia, e dar-me relevante prova de que os estudos serios, grossos e profundos lhe são agradaveis, leia até ao fim o que eu lhe vou contar, muito pela rama, do irmão do heroe da Terceira.
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D. Gomes, soldado valoroso e aventureiro, que expunha a vida na perspectiva da morte ou da fortuna, sahiu de uma das suas batalhas com uma perna quebrada e o rosto desfigurado por um gilvaz que lhe esbrucinára parte do nariz.
Quando se levantou curado das feridas, e se viu no espelho, trespassou-se-lhe a alma de tamanha paixão que esteve nos colmilhos da morte. Il pensa mourir de chagrin de se voir si different de ce qu'il avoit été—diz sua neta mad. de Sainctonge.
A fealdade pungia-o tanto quanto elle era caroavel de damas, galanteador bemquisto, e famoso no bom successo das suas empresas amorosas.
Como allivio de seus males, alistou-se de novo na milicia de Luiz XIII. Affrontou a morte com desesperado menospreço de si mesmo, e vingou apenas ajuntar novas cicatrizes á gloria das outras, que o não resguardaram da pobreza nos tristes dias de nonagenario.
Voltando a Paris, foi acolhido por D. Christovão, filho do defunto prior do Crato, que o estimava em extremo.
Quando orçava pelos sessenta annos, Sebastião Gomes de Figueiredo, que tinha a maior no coração o que lhe minguava no nariz—orgão importante da cara humana, segundo a opinião do diccionarista Couto Guerreiro—apaixonou-se por uma menina parisiense, formosa, illustre e pobre, com a sobrecarga de espirituosa.
E casaram—o que foi mau; e tiveram tres filhos—que foi peor.
Dous morreram; a mãi tambem morreu aos dezoito annos de casada, deixando-lhe uma galante menina de quartorze annos, conhecida na boa sociedade por mademoiselle de Vasconcellos.
D. Gomes era pobre, e o futuro da filha torturava-lhe o coração paternal. A estas penas acresceu a da morte do seu amigo D. Christovão, em 1638, em cuja parcimoniosa mesa elle tinha certo o talher.
Porém, n'esta noite da desgraça alvorejou uma aurora de esperança.
Em 1640 foi acclamado rei portuguez. Sebastião Gomes, com bom fundamento, imaginou-se chamado á patria e reintegrado nos bens que Philippe II lhe confiscára.
Assim que chegou a Paris D. Francisco de Mello, primeiro embaixador de D. João IV, Gomes de Vasconcellos apresentou-se-lhe. O embaixador abraçou o ancião, dizendo que não esperava encontrar n'este mundo um irmão do heroico Scipião de Figueiredo, cujo nome ainda soava em Portugal gloriosamente. Perguntou-lhe o velho se seria licito esperar que el-rei de Portugal lhe permittisse voltar á patria e apossar-se dos seus bens. Respondeu D. Francisco de Mello que era illicito duvidar da justiça e probidade d'el-rei. Grandes jubilos no seio d'aquella pobre familia!
Escreveu o embaixador para o reino aos seus amigos mais conjuntos do monarcha. Todos, á uma, lhe responderam que o rei faria justiça.
Pactuaram logo sahirem juntos para Portugal; mas como D. Francisco tivesse um filho enfermo, demorou-se; e, quando o filho convalescia, teve de seguir o rei de França a Compiegne, e deixou o filho entregue aos cuidados de Gomes de Vasconcellos.
O rapaz tinha vinte e dous annos, era até certo ponto aparvalhado, fôra educado portuguezmente, não tinha a minima pratica de sala, e não sabia palavra da lingua franceza.
Com o fim de o recrear nos desalentos da convalecença, Gomes de Figueiredo levou-lhe a casa a filha, que era bella, e mais algumas amigas de mademoiselle Vasconcellos—moças garridas, buliçosas, desenxovalhadas, francezas desde as plumas até ao talão—cousas gentilmente satanicas que se pareciam tanto com as damas de Lisboa como elle com os estouvados de Paris.
Assim que lhe entraram ao quarto, o rapaz, que as não percebia, contemplou-as com a mais sincera cara de tolo, não obstante ser prevenido da visita. Il ne laissa pas de paroître déconcerté—diz mad. de Sainctonge, a filha da gentil Vasconcellos—elles en attribuerent la cause au peu d'habitude qu'il a voit de voir des femmes.
Mas habituou-se logo; o amor ensinou-lhe tudo, sem excepção do francez. Por essa occasião lhe disse o velho:
—Este modo de viver francez deve ser estranho a um moço de paiz onde os homens não tem a menor convivencia com as senhoras.
—Gosto d'estes costumes! exclamou o rapaz.
De quem elle já gostava muito era da menina Vasconcellos; mas a paixão que o apanhou de salto não impediu que elle se mostrasse portuguez de lei, mandando pôr na mesa bocêtas de dôce nacional para regalar as meninas, e por signal que o avantajaram ás confeiteiras francezas: bassins de confitures séches beaucoup plus belles que celles qu'on fait en France—diz a citada historiadora.
O convalecente deu logo alta, e transfigurou-se.
Bailes, merendas, passeios campestres, lyrismo, conjugação dos verbos regulares e irregulares de parçaria com as pequenas, revelações, confidencias, leituras de novellas, etc. Em resumo, D. Francisco de Mello, quando voltou a Paris, não conhecia o filho, de gordo, de folgazão, de peraltice, e até d'uns vislumbres de poeta pelo ar provençal com que fallava das graças das francezas, e particularmente de mademoiselle Vasconcellos.
Amavam-se e projectavam voltar juntos e casados a Portugal. Assim o tinham decidido em sorrisos de mutua e louca felicidade n'um baile em que o moço, toda a noite, valsára com a noiva. Mais il ne prevoioit pas que la France seroit son tombeau, escreve a snr.ª de Sainctonge. Ao sahir d'esse baile, aconchegando do seio o ramilhete da adorada menina, constipou-se, e morreu de uma pleuresia seis dias depois.
Sobre este infortunio outro maior.
N'estes dias, appareceu em Paris um neto de D. Antonio, D. Luiz de Portugal. Este sujeito, que não degenerava dos vicios do avô e do pai, ainda, dous annos antes (1639) escrevêra uma carta a João Caramuel, defensor dos direitos de Castella ao throno portuguez, confessando a legitimidade de Philippe III, e offerecendo o seu braço na defeza da usurpação. A carta corria impressa, já em Portugal era conhecida, e o leitor póde vêl-a nas primeiras paginas do in-folio intitulado Philippus Prudens.
Pois não obstante este villanissimo testemunho da sua indignidade, ousou D. Luiz apresentar-se ao embaixador portuguez, encarregando-o de perguntar a D. João IV se poderia voltar á patria, e á posse dos bens de seus avós.
D. Francisco de Mello fez a pergunta a D. João IV que respondeu d'est'arte: «Perguntas d'essa natureza não se fazem.»
Mas, como D. João IV soubesse que Sebastião Gomes de Vasconcellos vivia amigavelmente com o neto de D. Antonio, recusou tambem recebel-o em Portugal; e, quanto á restituição dos bens, disse que não podia tiral-os ás pessoas a quem Philippe II os dera, porque se considerava obrigado a premiar os filhos d'essas pessoas, dos quaes fôra bem servido na sua acclamação.
A resposta era infame porque não era sincera; e, ao mesmo tempo, injuriava os que haviam trahido a patria, recebendo como paga os bens dos Vasconcellos, e injuriava os filhos d'esses traidores que tambem atraiçoaram a casa de Hespanha que lhes enriquecera os avós e os paes.
Sebastião Gomes supportou corajosamente este golpe, que ainda não devia ser o ultimo. Um dos seus amigos mais valedores era um residente que D. João IV mandára a França: Manoel Fernandes Villa-Real. Aproveitemos a descripção de mad. Sainctonge qual ella ouvira de sua filha: C'etoit un homme d'un agreable commerce; il n'avoit rien dans l'humeur de ceux de sa nation; son esprit étoit d'un caractere à le faire beaucoup d'amis; aussi tous les gens de qualité et de bon goût se faisoient un plaisir de le voir; on étoit charmé de son air ouvert et de ses manieres aisées; tous ses dehors etoient d'un parfaitement honnête homme et on ne pouvoit le connoitre sans l'estimer[20].
Manoel Fernandes de Villa Real tinha casado em Rouen com a filha de um portuguez opulento, israelita, escapulido ao santo officio. O residente de D. João IV não era—diga-se verdade—mais sincero christão que seu sogro.
Em compensação era intelligentissimo. Tinha escripto, em defeza dos direitos de seu rei, o Anti-Caramuel, que o leitor conhece. Era poeta. Fazia versos francezes, que o leitor encontra em uma collecção de elegias á Memoria da snr.ª D. Maria de Athayde. Como illustrado, ria-se dos sermões bordalengos do padre Francisco de Santo Agostinho de Macedo, prégados nos pulpitos de Paris, com descredito nacional. Censurava as baixezas que o mesmo ex-frade praticava, agenciando dinheiros com torpes pretextos. Era um homem de bem, quanto póde sêl-o um incircumciso, como o leitor e eu.
Quem o denunciára de judaisante para Portugal fôra o padre Macedo, attribuindo-lhe simultaneamente a redacção de uns papeis enviados ao cardeal Richelieu, e adversos a D. João IV.
De repente, é chamado Manoel Fernandes á presença do rei de Portugal. Contristou-se na hypothese de que ia ser substituido, depois de tão briosamente haver procedido no serviço d'el-rei. Os sustos de Sebastião Gomes anteviram mais negro desenlace. Aconselhou-o o ancião que não viesse a Portugal, pois era casado e rico em França, e tinha inimigos conjurados a perdêl-o.
Não o demoveram o amigo, a esposa e os filhos.
Partiu, quando Sebastião Gomes dizia á filha: «Elle se arrependerá; mas tarde.» Figueiredo sabia que o seu amigo era christão-novo; mas esta denominação terrivel tanto lhe confragia a alma que nem á filha a denunciou.
D'ahi a pouco tempo, o novo residente, que voltou a Paris, levou a triste nova de que Manoel Fernandes Villa-Real estava nos carceres da inquisição processado como judeu, e não muito depois soube que o seu amigo fôra condemnado á morte de garrote, e queimado no dia 10 de outubro de 1652[21].
Alquebrado pela decrepidez, Sebastião Gomes ainda achou um amigo no residente que substituira Manoel Fernandes.
Era aquelle Duarte Ribeiro de Macedo cujas cartas impressas o meu leitor illustrado conta em o numero dos seus mestres de bem escrever. Nos braços d'elle, e de sua filha—esposa de um cavalheiro illustre, pai da escriptora de Sainctonge—expirou o irmão do heroe da Terceira, aos noventa e sete annos de idade.
Que recordações revoluteariam n'aquella alma! Que synopse de immensas angustias! Como veria elle desdobrarem-se noventa annos de recordações, desde a infancia de D. Sebastião, através da catastrophe de Alcacer, dos heroismos dos Açores, dos sessenta annos de esforços vãos contra a pobreza amparado pela honra do nome portuguez, e por fim... morrer alli, ás sopas de estranhos, porque D. João IV lhe dissera:
«Morre de fome, que eu não vou tirar os teus bens aos filhos dos que venderam a patria!»