É uma das mais interessantes manifestações da arte pinctural, este genero de pintura, difficil na execução, só se admitte quando o desenho é muito correcto e a tinta é dada em pinceladas certas, frescas e vivas... por isso, o terem-me agradado pouco os trabalhos expostos. A ver:
Francisco A. Moreira de Almeida, n.os 268 a 271.—Francamente, francamente, teem um ar ingenuo de chromo-lithographia.
Bartholomeu Sesinando Ribeiro Arthur, n.os 272 a 278.—É a especialidade d'este artista a pintura de costumes militares e com franqueza, tem-nos, primorosos de execução, o que não quer dizer que tambem os não tenha fracos. N'este certamen agradaram-me o 273, Official do regimento do Maranhão, feito com muito ar e muito boa luz, destacando soberbamente no seu arrogante aplomb, e o 274, Official de estado maior, tambem bem trabalhado.
Mademoiselle Helena Eisembart, n.º 279.—Fructas. Uns cachos de uvas com a sua folhagem, boa aguarella, muito fresca, muito leve, transparente.
José Souza Moura Girão, n.os 280 a 285.—Cá temos outra vez o grande artista das aves. N'esta secção brilha elle deliciosamente. As suas aguarellas correspondem precisamente ás condições exigidas para a boa aguarella, côres vivas, transparencia, e frescura; e tudo isso tem as suas. Notaveis todas as dos n.os 280, 281, 282, 284, 285 mas sobretudo o Fausto e Margarida, 280, Entrando, 282, e Cantando, 285, que a meu ver são magistralmente feitas.
Jorge Ianz, n.os 286 a 295.—Outro aguarelista, que nos enche, com a sua côr fulgurante. São bem manchadas as suas aguarellas, fazendo-me lembrar, não sei porquê, as do fallecido Manuel San-Romão, o artista mais mimoso, que eu tenho conhecido, como manchista, Ianz e inegavelmente um artista de merecimento. São muito bons para mim, os seus 286, em Toscana, 288, Impressões de viagem, 292, 293, 294, tres bellas marinhas, muito bem tratadas, o 295, Descarga no Tejo, é admiravel de execução; a arcada que se vê ao fundo do quadro poderia, com honra, ser admittida n'um concurso de architectura.
Alfredo de Moraes, n.os 296 e 297.—Costumes da Judea. Não quero dizer que estejam maus, mas fizeram-me lembrar, Deus me perdôe, (Deus e o artista) os homens das tamaras.
Entre o almoço e o jantar—marques
d'oliveira
Roque Gameiro, n.º 298.—Retrato d'El-rei. Aguarella de difficil execução, mas superiormente tratada, boa luz, bella côr, roupagem magnifica, tom de rosto bom. As luvas são uma perfeita illusão. É um bom trabalho.
D. Beatriz Alto Mearim, n.º 299.—Um estudo, regularmente traçado.
Jorge Porphirio, n.º 300.—Jardim botanico. Achei-o palmeirento de mais. Regular.
Candido da Silva Junior, n.º 301.—Um quadrito com cinco cabeças. Só me agradaram as duas feitas a crayon azul.
Não imagine o leitor que eu vou discorrer sobre o effeito do pastel de fructa, ou de créme, do Baltresqui, não, vou fallar do systema de pintar a pastel—ou por outra, a crayon de côres, e que por signal não é lá das coisas mais faceis, para ser bem feito. Para se trabalhar bem n'este genero uma das coisas mais necessarias é saber desenho. Que afinal para se pintar bem o que é preciso é desenhar muito e bem.
D. Luiza Almedina, n.º 302.—Retrato de sua irmã Ilda. N'este trabalho ha varios defeitos, saltando porém á vista a differença da côr entre o rosto, e o pescoço e collo, que muito prejudica o effeito do quadro.
D. Beatriz Alto Mearim, n.º 303.—Estudo. Uma velhinha. Regularmente empastado.
Condessa Alto Mearim, n.º 304.—Estudo. Este quadro a meu vêr, devia estar no catalogo na secção dos desenhos. É bem feito, vê-se que esta senhora não descura a base principal de pintura.
D. Maria Luiza Alto Mearim, n.º 305.—Um estudo. As mesmas considerações expandidas para o n.º 304.
Leopoldo Batistini, n.º 306.—Cabeça de estudo. Magnifica de empastamento doce e finura de traço, penna é que encha tão por completo o quadro. Um pouco mais de margem e seria para mim muito mais agradavel á vista.
D. Emilia Adelaide Santos Braga, n.º 307.—Retrato de Cupertino Ribeiro. Trabalho bem feito.
José de Brito, n.os 308 e 309.—Superiormente executado o n.º 309.—O frade.
Frederico Cezar Camara Leme, n.os 310 a 312.—Recortado de mais o 312, Ovelhas. Dá-me a impressão d'estas ovelhas de cartão e algodão em rama, tendo ao fundo um vulcão de theatro, irrompendo bravamente e pondo uma luz forte em todo o ambiente.
A chegada da diligencia aos Valles em Ferreira
do Zezere—alfredo keil
Bemvindo Ceia, n.º 313.—Um velho operario, regularmente tocado, comme ci, comme ça.
João G. Mattoso da Fonseca, n.os 314 a 320.—Destacarei d'este artista o 314. Retrato de D. M. E. F., que tem o cabello e a pelliça magnificamente tratado. Ninete, 315 regularmente feito—especialmente o cabello, e pluma do chapeu. Não gostei do 316, A Fé, porque achei a figura com muito pouca fé, e o 418, Ao espelho, em que noto um determinado abuzo de branco, na cara.
Adriano de Sousa n.º 321.—Ave Maria. A carnação d'esta figura é muito bem tratada, aveludada e macia.
José Malhôa, n.º 322.—Retrato de mademoiselle C. R. É simplesmente delicioso este quadro. Como desenho, como technica de execução, como posição de modelo, como tudo emfim, é sem discutir esse o primeiro trabalho a pastel da exposição.
Tenho visto muitos trabalhos n'este genero, mas, nenhum me deslumbrou como este.
D. Antonio Lobo da Silveira, n.º 328.—Um estudo, mau.
Viscondessa de Sistelo, n.os 324 a 325.—Não tive o gosto de vislumbrar estes trabalhos na exposição ou não estavam lá, ou passaram-me despercebidos, por isso nada direi d'elles.
José Simões d'Almeida (Sobrinho), n.º 236.—Medalha.—Gostei d'ella.
Aqui é que é tremer e tremer como varas verdes, porque, se estes dois pandegos me descobrem, ainda tenho a sorte dos caricaturados expostos. Eu, se tivesse pretensões á popularidade, bem sei o que fazia: desatava a dizer mal dos dois e elles, para se vingarem de mim, desenhavam-me ahi em qualquer jornal burlesco e eu passava á gloria entre as gargalhadas estridulas do publico e a arrelia das pessoas que me querem bem. Porque eu, aqui para nós, dava uma boa caricatura... Mas não direi mal dos homens, nem bem... direi só o que sinto... que o primeiro é filho de peixe e sabe nadar e o segundo tambem nada menos mal.
Perfilar, que vae passar a patrulha da troça e do chiste.
Manuel Gustavo Bordallo Pinheiro, n.º 387.—Soberbas caricaturas, que pena é, não virem mais para o publico, n'esse Album de Glorias, que tão estimado é pelos leitores. Aquelle Chaby está fulgurantissimo de graça.
Francisco Valenças, n.º 328.—Typos, todos elles bons, mas superior o Ricardo Jorge, fazendo-me saltar o riso, naturalmente, expontaneo.
Aqui torce a porca o rabo, ou ainda: o rabo é o peor de esfolar, como muito bem diz o nosso bom povo nos seus annexins. E de facto assim é... eis um assumpto em que eu me vejo assaz embaraçado—arte applicada!... eis uma coisa onde vejo um largo campo para entretenimento de damas, a pintura dedicada de bibelots adoraveis para boudoirs de luxo. N'esta secção primam com a sua bagagem artistica todas as senhoras que expõem.
Umas mais brilhantemente que outras. Não vos massarei pois com citações de numeros nem de nomes.
O rapto de Ganimedes—fernandes de sá
Fallarei no emtanto, do n.º 336, Goblin, do Jorge Ianz, que na verdade é uma das imitações mais perfeitas que temos visto. Bem estudado nas côres, que dão a impressão nitida de estarmos em frente de um verdadeiro tecido; só achamos um poucochinho puxado o preço...
Um conto de réis é dinheiro!
A Moldura-Luiz XIV, n.º 337, de José Emygdio Maior, é bem esculpida, correcta no estylo e no desenho.
Tambem gostamos do n.º 338, Modelo para uma floreira, é muito elegante de fórma e está feita com certo mimo. Como arte nova é acceitavel.
Ah! mas o que eu achei subtil, e vaporoso, foi o leque exposto por D. Maria Bordallo Pinheiro. Que delicia, que encanto. Aquella senhora vem de ha muito afirmando o seu grande gosto artistico e o seu forte temperamento creador.
Que isso não nos admira, mal fora que assim não succedesse, pois ella é uma grande artista. Todos os seus, são verdadeiros artistas, cada qual no seu genero. Bordallo, o incomparavel e inimitavel caricaturista; Columbano, o soberbo pintor; Manuel Gustavo, correcto seguidor dos passos de seu pae, vae largamente pondo-se a par d'elle, na firmeza e na correcção de caricatura.
Mas não é d'elles que eu fallo, é da rendilheira sublime que consegue que as operarias de Peniche, façam rendas tão finas e tão delicadas, que abertamente se podem pôr ao pé d'essas custosas rendas de Bruxellas e de Allençon.
Por isso, aqui lhe significa, este provinciano, que felizmente já conhecia os seus bellos trabalhos, recordando ainda hoje ao escrever isto, um lenço formosissimo executado por D. Maria Augusta, com peixes e mariscos, a sua muita admiração pelo seu grande talento.
Notaveis tambem as Fivellas n.os 342 e 343, de João da Silva, que achei bem executadas, não devendo envergonhar-se ao pé, das saidas de cinzeladores, como Jerdelet.
Ia-me passando falar d'uma japonesice em trez actos, que é, como quem diz, em trez folhas, d'um paravent, pintado por Pigasson Ricot, que, na verdade, não está feio. Estão bem copiadas as figuras e os effeitos tirados, não são maus. Acho-lhes o mesmo defeito do Goblin de Ianz: é muito caro... para amadores.
Santo Izidoro—teixeira lopes
E até que em fim, acabou a massada para o benevolo leitor.
Desculpe-me, portanto, meu caro redactor, o eu ter estendido tanto a massa, como se costuma dizer, mas desagravel me seria, ter promettido falar de todos e deixar passar em claro algum d'elles.
É provavel que o publico e, muito especialmente, os artistas, não tenham gostada minha prosa, por eu ter dito muitas barbaridades, mas eu sou assim; o que tenho cá dentro é para se dizer, bem ou mal, segundo posso e sei. Mas, se esta minha despretenciosa prosa lhe agradou, de vez em quando, cá apparecerei com noticias d'arte, lá do norte, do Porto, d'essa aldeia trabalhadora e honesta, para onde vou partir, pois já tenho saudades d'ella...
P. S.—As gravuras d'este e d'outros artigos, nem todas são copias dos quadros notados nos mesmos, mas, na impossibilidade de adquirir photographias d'elles, usei de provas de quadros dos mesmos artistas, dando assim a conhecer ao leitor trabalhos de artistas de merecimento e valor.
Guarda arabe—Pastel de s. m.
el-rei
VIII
PINTORES PORTUENSES
É com um grande prazer, cheio de saudade, que rapidamente me vou occupar d'um bello e real talento de aguarellista, infelizmente morto.
Manuel San Romão
Mas, nenhum, nem um só, compriu com esse dever e Manuel San Romão desceu á mudez profunda do tumulo sem que alguem viesse dizer que a Arte tinha perdido um dos seus filhos mais estremecidos e o mais apaixonado dos seus amantes.
Não me admirou que a critica artistica da nossa terra se esquecesse de San Romão, por isso que, o querido morto, não era d'aquelles que se expunham á admiração de ninguem; vivia para os seus trabalhos apenas, dispensando o reclamo pomposo das gazetas e a vida turbulenta dos clubs, exempto de coteries.
Na Espectativa—Aguarella de
m. san romão
Conheci-o bem na sua boa intimidade. Era um perfeito cavalheiro, um verdadeiro gentleman; cavaqueador brilhante e fluente fallando d'Arte com uma tal elevação e enthusiasmo, com uma tal proficiencia e um tão grande saber que, n'essas occasiões, fazia-nos lembrar um douto professor preleccionando eloquentemente sobre assumptos da sua especial e authorisada competencia.
Ao ouvi-lo discorrer como mestre sobre esses mil problemas intrincados e complexos da Arte na sua mais ampla acepção, convenciamo-nos de que quem fallava não era um dilettanti da pintura, mas um critico justo e sabedor, um verdadeiro homem do metier.
Com elle tive longas, longuissimas conversas no seu confortavel atelier do largo do Viriato, e foi d'alli, talvez, que me veio este prurido de fallar em artistas e coisas d'arte...
Que saudades tenho d'esse tempo, das magnificas tardes que passei, em aquelle atelier pequenino e confortavel como gabinete d'uma delicada dama, replecto d'uma suavidade de luz e n'uma tão artistica disposição e tão cheio de flores, que fazia lembrar uma capellinha em festa...
E capellinha era em verdade, onde a Deusa Aguarella era venerada, com um respeitoso enlevo, pelo seu sacerdote querido, por isso que Manuel San Romão era um aguarelista hors ligne.
Paisagem—Aguarella de
m. san
romão
Depois, San Romão dava aos seus trabalhos uma tal frescura, uma tal transparencia e uma tal suavidade de cores, que as suas aguarellas eram como uma pintura ideal que sempre nos fascinava.
E como elle desenhava!... Attestavam bem o seu estudo do desenho as pastas carregadas de trabalhos feitos por elle... Muitos d'esses desenhos tenho-os eu em meu poder, deliciosos pedaços dum grande poema d'Arte...
Pelas gravuras que acompanham o nosso artigo, perfeitamente o leitor póde verificar que as affirmações que fazemos são, por todos os motivos muito justas e muito verdadeiras.
O fidalgo antigo é uma soberba aguarella d'um vigor de execução e d'uma correcção inexcedivel de desenho, e o quadro No directorio, e a Paisagem de Santa Maria de Boure, e esses pequenos trabalhos, essas lindas figuras de mulher, essas deliciosas paginas de livros e todos esses desenhos não serão manifestações seguras do seu talento e do seu valor?!... São! ninguem o pode duvidar...
Paisagem—Aguarella de m. san
romão
D'ahi os seus quadros, esses primores de aguarella estarem apenas espalhados por um meio restrito de amigos.
Manuel San Romão não era exclusivamente um aguarellista, mas tambem um terrivel bric-à-braquista. Collecionava tudo quanto fosse arte, gravuras, quadros, mobiliario, faianças e, em especial, livros artisticos.
Era uma delicia visitar a sua moradia... Que encantadoras cousas, formosos contadores, armarios soberbos de talha antiga, arcas abarrotadas de gravuras notaveis e, pelas paredes, quadros assignados pelos mais distintos mestres de pintura. No seu atelier, alli, é que elle reunia o que mais fundamente lhe fallava á sua alma de artista, as faianças mais delicadas, os moveis mais requintadamente artisticos, as revistas illustradas e os livros mais preciosos. E n'uma pele mele deliciosa tudo se agrupava para dar ao atelier a forma gentil e suave do gabinete d'uma fina duqueza e o ar sereno d'uma capelinha em festa.
Que a memoria saudosa d'este morto querido, que foi um dos mais deslumbrantes aguarellistas portuguezes, me releve o vir eu hoje, o mais insignificante dos seus admiradores, tiral-a da modesta indifferença publica para a expôr á veneração e respeito de todos aquelles que vêem nos artistas alguma cousa de elevado e de verdadeiramente sublime.
Uma sevilhana—Aguarella de
m.
san
romão
IX
A MULHER ARTISTA
S. M. a Rainha
Escusado será dizer-vos que esta phrase fez no grupo o effeito de um duche frio e forte. Após, porem o choque, houve, como era de esperar, a reacção, e, como poderam, os paladinos da sala, debateram e rebateram a estranha declaração, com factos, n'uma larga demonstração de erudição e talento.
Eu fiquei-me callado, esperando melhor occasião para poder dizer serenamente, sem precipitação, as considerações que tinha a fazer sobre tal assumpto.
D. Aurelia de Sousa
A mulher é um dos mais perfeitos trabalhos da natureza, quer vista sob o lado plastico e physico, quer sob o moral e espiritual. É como nenhum outro ente dotada d'um espirito, que, quando bem educado, se inclina sempre para o Bello, para o Ideal. Ella, muito mais do que o homem, deixa-se assenhorar das impressões, e o seu coração, muito mais passionavel que o nosso, mais facilmente se commove e se infiltra d'uma doce alegria ou d'uma saudosa tristeza.
Como nenhum outro individuo ella descobre e comprehende pequeninos nadas psychologicos, que passam despercebidos aos nossos olhos.
Por isso, quando educada e industriada no grande problema da Arte, deve facilmente adquirir elementos magnificos para execuções de vulto, e de obras que venham tocadas d'uma suave poesia.
Depois, se a mulher tem o direito de dançar e de cantar, e se lhe admiram as qualidades raras de eximia bordadora, porque negar-lhe o direito de, tomando os pinceis e o escopro, pintar, esculpir e indo mais longe mesmo, escrever livros, cujo encanto será deliciosamente bom? Ora ella canta e dança desde a origem do mundo e borda desde as eras mais remotas da antiguidade; portanto, que direito nos assiste a nós, que caminhamos para o maximo da perfeição, de evitar que ella nos dê as manifestações mais brilhantes do seu ser artistico, do seu temperamento singular? Impossivel.
Estudo de
creança—Aguarella de s.
m. a rainha
Isto seria verdadeiramente barbaro!...
Para que ella cante ou dance, só se lhe exige que tenha talento vocal ou choreographico, tal qual o que se exige ao homem para os mesmos fins. E, se tal succede e a logica existe, qual a razão porque durante tanto tempo se puzeram entraves ao franco estudo da pintura, da esculptura e da litteratura, ás mulheres?
Bem sei que o canto, a dança e a musica, eram considerados por todos, como dotes necessarios e sem os quaes uma senhora não podia briosamente frequentar a sociedade.
Menina que não dançasse, em noite de baile, era como flôr sem aroma, que se ficava estiolando em canteiro, d'onde tinham sido colhidas todas as olorosas rozas e violetas. Havia pois a necessidade de se aprender a dançar, e todas tentavam ser eximias no minuete, na gavota, na pavana, na valsa, na polka, e no pas-de-quatre.
Tia Bertha—d. branca assis
Quem espera desespera—zeó
wauthelet
batalha reis
Com a musica de pianno e rebeca, etc., o mesmo se dava, era como o canto, um genero de sport artistico. Toda a gente tocava, mas, era preciso ir mais longe, era preciso tocar bem para ser notado. Em qualquer parte onde se estivesse, n'uma sala, havia sempre muitos que podessem exhibir os seus dotes musicaes, mas, no meio deste mar de tocadores-amadores só se foram distinguindo os que tinham verdadeiro talento, e assim se notabilisaram ao pianno: D. Maria Josephina Pacifico, D. Elisa Baptista Souza Pacheco, D. Ernestina Freixo, D. Maria de Magalhães, D. Leonor Atalaya, D. Maria Ferraz Bravo, D. Esther Coelho de Campos, D. Carolina Suggia, D. Leonilda Moreira de Sá, D. Julieta Vieira Barbosa, D. Elvira Mattos, D. Maria Julia Brandão, D. Maria Helena Carvalho, D. Elisa Allegro, D. Bertha Marques Pinto, D. Aurelia Paiva, D. Maria Augusta Mattos, D. Luiza Margaride, D. Constança Pinto Moreira, D. Anna Oliveira Ramos, D. Virginia Suggia.
Em rebeca: D. Judith de Mello, D. Amelia Marques Pinto, D. Laura Barbosa, D. Irene Fontoura Madureira, D. Rosalia Maia, D. Ophelia d'Oliveira, D. Luiza Coelho de Campos.
Em violoncello: D. Guilhermina Suggia.
Em harpa: D. Virginia Viterbo e D. Anna Jane Menezes de Mattos.
E isto como o canto foi impulsionado, porque era preciso apparecer com vantagens sobre outros.
Condessa d'Alto Mearim
E os amadores de esculptura? Esses, nem os havia. E se algum se dedicava a esse genero da divina Arte, era tão escondidamente que ninguem dava por elle.
Mas, sob o impulso grandioso do desventurado Silva Porto iniciava-se uma nova era d'Arte. Começaram de fazer-se exposições na cidade de Lisboa e na do Porto, exposições criteriosas que foram o inicio do renascimento da vida artistica portugueza e o marco milliario do bom gosto e do aproveitamento de muitos talentos ignorados e de muitas notabilidades nacionaes.
Promovidas na capital pelo grupo de Leão, esse brilhante gremio de que fizeram parte Columbano, Ramalho, Malhôa, Gyrão, etc.; e aqui, por um grupo de artistas e amadores de Bellas-Artes, sem designação especial de nome, mas entre os quaes figuravam Marques de Oliveira, Julio Costa, Marques Guimarães, Antonio Costa, o saudoso Xavier Pinheiro, Adriano Ramos Pinto,—as exposições d'arte teem sido actualmente realisadas pelo Instituto de Estudos e Conferencias.
D. Alice Grilo Lima
Apparece no alto, como verdadeira fulguração na arte de esculpir, a Duqueza de Palmella, a maior alma de artista que pode ter uma amadora. Os seus trabalhos perfeitamente executados são confirmações indiscutiveis do logar proeminente que ella deve occupar entre os que são sacerdotes na sublime arte de Milo.
No Porto, como sacerdotisa emerita d'essa arte, temos a Ex.ma Sr.a D. Joanna Andressen Silva, de que mais adeante fallaremos em artigo especial.
Na pintura, confirma-se o que a principio digo, só se exige que as amadoras tenham talento, para se lhe poder garantir o logar ao lado dos homens na transplantação para a tela da natureza, em todas as suas variadas manifestações. E assim, tanto no Porto como em Lisboa, todos os dias se fazem novas revelações de senhoras que são verdadeiros sportwomen artisticas. E assim notaremos, D. Francisca Furtado, D. Sophia de Souza, D. Amelia de Souza, D. Julia Molarinho, D. Lucilia Aranha Grave, D. Olympia Faria de Abreu, D. Maria Afflalo, D. Alice Grillo Lima, Condessa d'Alto Mearim, D. Maria Luiza Alto Mearim, D. Branca de Araujo Assis, D. Constancia Avides, D. Maria Idalina Carneiro, D. Margarida Costa Romão, D. Josepha Garcia Greno, (fallecida), D. Herminia Victoria Lagoa, D. Amelia Lamas, D. Izabel Areias de Lima Lawer, D. Leopoldina Maia Pinto, D. Maria Teixeira de Moura, D. Laura Nobre, D. Clotilde Rocha Peixoto, Viscondessa de Cristello, Zeó Wauthelet Batalha Reis, D. Margarida Ramalho, D. Albertina Falker.
E, tudo isto, pela simples razão de haver exposições, onde se pode mostrar que se tem aptidões para a pintura ou para a esculptura, que se tem talento artistico emfim.
Portanto, desde que se tenha esse bello dom natural, que faz de nós um poucochinho mais do que a vulgaridade, não acho razão nenhuma para que se queira tirar á mulher o direito de publicamente mostrar que é um pouco superiora ás outras. Eu, sou d'aquelles que digo: que o saber não occupa logar, e, que, antes quero ver uma mulher pintar bem um quadro, do que pintar os olhos e os labios. No primeiro caso só pode mostrar que a preoccupa o espirito com alguma coisa donde lhe pode vir honra o louvor, no segundo caso... que não o preoccupa com nada...
Orchideas—d. alice grilo
X
NOVAS EXPOSIÇÕES D'ARTE
Ao mesmo tempo duas exposições de pintura, uma organisada pelo Instituto de Estudos e Conferencias, outra organisada pelo snr. Lagôa. Estamos em maré d'Arte, não ha que vêr. Ora eu, que sou um bisbilhoteiro de mil diabos, lá fui, n'um d'estes ultimos dias de bom sol, visitar as duas exposições.
Boas e más impressões trouxe d'estes certamens e é o que muito despretensiosamente direi para diante, conforme o meu modo de vêr.
Tem, já se sabe o primeiro logar, a exposição do Instituto, e tem-no por muitos e variados motivos; entre esses porque é formada por trabalhos de artistas, se bem que por lá andem anichados puros amadores... Mas, isso fica para depois, para mais larga conversa quando não houver já que dizer a respeito dos artistas.
Ao Instituto de Estudos e Conferencias, se deve, em parte, a ameudação de exposições d'esta natureza; pena é que nem todos os nossos artistas comprehendam o quanto isto é util para elles.
Sente-se por isso alli a falta dos nossos melhores pintores, e é pena. Não sei, nem tentarei desvendar a razão porque os bons artistas não querem concorrer, mas sinto profundamente que Salgado, Malhôa, Columbano, Carlos Reis, Girão, e outros, se fiquem, lá de longe, sem nos dar o gosto de lhes applaudir e admirar o talento nas suas varias telas, que são quasi sempre admiraveis. Talvez porque não encontrem no nosso meio quem os saiba comprehender ou quem os saiba pagar, talvez!...
A exposição, no seu geral, é fraca, sem interesse (que barbaro eu sou). A não ser uma meia duzia de telas, o resto é insignificante, sem destaque, morrendo pelo... nem sei mesmo porque... mas fazendo-nos sentir a saudade das
D. Sophia de Sousa
Como de costume, lá fui encontrar no catalogo nomes dos que nunca faltam á chamada, honra lhes seja, Marques d'Oliveira, Torquato Pinheiro, Candido da Cunha, José de Brito e Antonio Costa, e a par d'estes, muitos outros e alguns que começam agora a apparecer.
D'entre os artistas, que expõem, a meu vêr, destacam-se Marques de Oliveira e Candido da Cunha, que são inegavelmente os que dão a nota pelo seu modo e pelos seus assumptos. José de Brito, soberbo no seu pastel Um frade, no resto sempre um tom ingente de nevoa que faz os seus quadros baços.
Torquato Pinheiro, muito bem no Retrato de meu filho, assim como, gostamos d'elle, nos seus—Fins da tarde de outomno e Rua de Villa Real.
Eduardo Moura, esse pintor, cheio de poesia intensa dos encantos cazeiros, veio á exposição com dois quadros que já lhe conheciamos, mas que por isso não deixarei de os mencionar, especialisando para meu gosto o—Serviço feito, que acho primoroso.
Prat, com os seus estudos não foi completamente feliz; destacam no entanto a Cabecita de burro, que me não desagradou.
Victorino Ribeiro, com o seu—Esperando um amigo, está bem apresentado.
D. Sophia de Souza, regularmente, se bem que se nos tenha mostrado em outras exposições muito melhor.
D. Aurelia de Souza, com o seu estudo—Um africano, muito bem. Emquanto ao resto dos seus trabalhos achei-os inferiores ao seu muito talento artistico.
Antonio José Costa, como sempre, o primoroso pintor de flores, dá-nos umas Camelias bem tocadas e muito frescas.
De Julio Ramos, pouco ou nada mais temos a dizer do que o já temos dito: tem talento e sabe do metier. A sua Marinha é para mim o seu melhor trabalho n'esta exposição.
Marques de Oliveira
Augusto Ribeiro, é um trabalhador incansavel, produz de mais. Desenha bem e pinta com certo gosto, mas pinta muito. Tem na exposição alguns quadros de valor e a Marinha da Foz, O atalho ao sol, são bons. Como notas typicas do nosso meio são interessantes as manchasitas do Bolhão, Anjo e dos Ferros Velhos.
Francisco Gil, é um pintor da Figueira da Foz que tivemos o prazer de vêr pela primeira vez; os seus trabalhos são (perdoem-me o francez) comme ci comme ça.
Lago Pinto, é um novo que promette muito e que se apresenta com vontade de fazer alguma cousa. São muito recommendaveis os seus quadros Fim da tarde e Lavadeiras, em que a agua está bem estudada.
Flores—d. leopoldina
maia pinto
D. Leopoldina Pinto é uma amadora distincta.
Carlos Gomes Fernandes, é tambem um amador que começa. É provavel, que de futuro nos dê quadros, que se tornem notaveis, por emquanto é, a nosso vêr, um amador que tem vontade de fazer alguma coisa.
Fallei de todos mas deixei para o fim Marques de Oliveira e Candido da Cunha, porque a meu vêr são os dous pintores que attestam profundamente o seu temperamento artistico.
Marques de Oliveira é inegavelmente um mestre e não era preciso que eu o dissesse, eu que sou um zero no nosso meio critico. Os seus quadros Cercanias d'Agueda, O Combro e as Lavadeiras são obras primas de desenho, de côr e de luz.
Candido da Cunha, poeta triste da pintura, amando a luz iriada dos poentes, dá-nos quadros maravilhosos, destacando como florão da sua corôa de artista a Hora nostalgica. Não devemos porém esquecer a sua Casa rustica e os seus Moinhos em Leça. Ha tambem na exposição um trabalho d'este artista que me extasiou. É o retrato da esposa do pintor, feito a carvão (claro escuro). Trabalho que por si só bastaria para n'outro meio, que não o nosso, dar o nome a um artista. Correcto de desenho, é superiormente primoroso.
Falta fallar d'um amador, tão distincto que não pude fugir ao desejo de lhe reservar um logar mais para o fundo, para que fizesse alguma impressão d'elle, ao leitor amigo, que tivesse a pachorra de me lêr até ao fim. Refiro-me a Alberto Ayres de Gouveia, discipulo de Marques d'Oliveira e que honra o mestre. Sabiamos de ha muito que este cavalheiro se dedicava á pintura, mas francamente, julgavamos que elle fosse um dellitanti como
A Caridade—teixeira lopes
No seu Lettre de Colombine, ha um effeito de luz admiravelmente estudado. Mas, Ayres de Gouveia não é só correcto nos seus quadros biblicos e de phantasia, é-o tambem quando faz o retrato, assim podemos dizer que é bom o seu oleo e retrato de mademoisselle M. F. A.
E desenhando a pastel ou a claro-escuro, tambem se nos revela um verdadeiro artista; são para notar o seu Apollo e Retrato de mademoiselle Allen, (ambos a pastel) e cabeça de estudo, (a crayon).
Mas, não digamos mais nada d'esse amador, que podem julgar para ahi que eu sou amigo d'elle e vim aqui só para o elogiar, e eu não quero isso.
Passemos agora rapidamente á esculptura, deixando em branco as aguarellas, porque francamente não gostamos de nenhuma.
Em esculptura destaca-se em primeiro logar Fernandes de Sá com a sua Cabeça de Velho e o retrato do medico Correia de Barros, este ultimo um trabalho flagrante de verdade.
D. Joanna Andressen revela-se-nos uma amadora distincta, pois em pouco tempo fez progressos grandiosos.
D. Albertina Falker: não gostei do seu Bébé. Não sei que lhe achei de mau, talvez a posição d'aquella cabecita... Não sei...
Com respeito a arte applicada, só direi, que tenho visto muito melhor do que aquillo.
E acabou-se a resenha das minhas impressões.
Antes, porém, de fechar este despretencioso artigo uma, como que nota final.
Eil-a:
Uma coisa urge fazer de futuro em exposições congéneres. Destacar em grupos definidos os artistas e os amadores; a cada um o seu logar.
Poderão mais facilmente ser apreciados os seus trabalhos, e não teremos ao primeiro relance uma impressão tão má. Aproveitam todos mais, os artistas, porque juntos, ver-se-hão obrigados a applicar todas as suas aptidões para se destacarem uns dos outros: os amadores, no seu modo de fazer um pouco gauche, não terão o confronto dos quadros dos mestres que, quasi sempre, os esmagam. Assim, ao entrar n'um Salon tanto o critico d'arte, como o amador ou o indifferente, saberá, logo o desconto que tem a dar aos trabalhos, dos que começam, ou fazem arte para entreter e não fará injustas apreciações. Este, é o meu modo de vêr e penso bem que os proprios artistas me acompanharão n'elle.
Quando porém um amador se impozer pelos seus trabalhos, como os de Alberto Ayres de Gouveia, então que entre desassombradamente no gremio dos artistas e que se sujeite á critica rigorosa dos que sabem do assumpto.
Emquanto assim não acontecer, estas exposições não terão um caracter definido, não terão o ar correcto d'um verdadeiro Salon. Dar-nos-hão simplesmente a impressão da sala d'um burguez endinheirado, que finge ter gosto pela Arte.
Ahi fica a impressão que me deixou a visita feita á Exposição de Pintura do Pateo da Misericordia.