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Notas d'arte

Chapter 14: PINTORES PORTUENSES
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About This Book

Uma coletânea de notas críticas e impressões sobre exposições, esculturas e pinturas, em que o autor examina a evolução da pintura nacional, defende o estudo directo da luz e da cor e elogia artistas relevantes da cena contemporânea. Os textos mesclam observações técnicas sobre desenho, composição e veracidade da representação com relatos de visitas a mostras e comentários sobre obras e público. Sustenta a preferência por naturalidade e exercício de campo, discute formação artística e questões de apreciação estética em linguagem acessível.

Dezembro de 1902.



Panneaux decorativo
na Sala da Bolsa do Porto
velloso salgado




PINTORES PORTUENSES


















XI

Uma Exposição de Aguarellas


ORGANISADA por AMADORES


N'um dos salões do Palacio de Crystal, acaba de ser aberta uma Exposição de Pintura, onde o professor portuense de desenho Joaquim Marinho e suas discipulas, sujeitam á apreciação do publico os seus trabalhos.


Joaquim Marinho

Fui, como é meu costume, vêr a Exposição, sem a preoccupação de critico d'Arte, como um bom vivant, um mero collecionador, affeito um pouco a vêr com os olhos do espirito, além dos olhos da cara.

Não terei portanto aqui, n'este modesto compte-rendu, phrases empulgantes, nem sentenças judiciosas sobre os trabalhos expostos. Modesto será o meu artigo como modestos são os expositores. Deixo aos outros, aos que sabem de tudo, aos que chamam a quadros a oleo cromolytographias, essa extraordinaria tarefa de dizer muito e retumbante, sem dizer nada.

Fui, como disse acima, vêr a Exposição e gostei; entre os quadros expostos ha alguns que destacam, como manifestações de estudo e talento.

Não farei a resenha detalhada d'elles, nada d'isso, sómente indicarei os que mais fundamente me impressionaram.

Estão n'este caso, como decorativos, os apreciaveis trabalhos a pastel de Joaquim Marinho, A Camponeza, e os de D. Zulmira Almeida e D. Izolina B. Sá, Imitações de azulejos. São de completa novidade, dando uma nota


Paisagem—Aguarella de
j. teixeira lopes

fulgurante de boa concepção e execução. Estas duas senhoras, entre varios outros trabalhos, teem mais, a primeira, duas paisagens em pastel, magnificas; a segunda, uma marinha muito acceitavel.

Ha mais uma Cabeça de creança (pastel) de D. Maria Leonor, que me impressionou deliciosamente. Esta senhora expoz tambem dous outros quadros, (paisagens), tambem a pastel, muito interessantes.

D. Guilhermina Marinho, com os seus estudos a aguarella, revela-se-nos uma amadora distincta e conscienciosa; destacarei d'entre elles os Recuerdo del Paiz Vicino, (interessante scena de bailado em Andaluzia) e Rapaz de Aveiro. Primorosos.

D. Maria Joaquina, dá-nos duas pequeninas impressões de Vizella, muito interessantes.

Deixei para o fim propositadamente o fallar do professor. Este, expõe, entre outros, um quadro que eu admiro pelo modo como está feito. É um trabalho a carvão de grandes dimensões e chama-se a Batalha de Malmaison. Todo aquelle céu está bem trabalhado e cuidadosamente desenhado. É magnifico.

Tem tambem tres trabalhos a carvão, em madeira, que são interessantes e apresentam muita novidade. Um d'elles especialmente Um boi, está magnificamente bem feito.

Não me alargo mais n'este meu
modesto artigo, mas ao terminar não posso deixar de manifestar aqui o meu applauso ao iniciador d'este certamen d'Arte, animando-o a que continue a mimosear-nos com exposições como esta, que distrahem a vista e consolam a nossa alma, farta das ignominiosas scenas, que vão por esta terra. Aquillo é como um banho santo ao nosso espirito enervado e doentio.

Parabens, pois, pela sua exposição.


Novembro de 1900


Cabeça de estudo—Pastel de
josé de brito





XII

PINTORES PORTUENSES


THOMAZ DE MOURA


Eu sou d'estes sujeitos que gosto muito de vêr e de apreciar tudo quanto de Arte apparece no nosso restricto meio, e por isso fui ha dous dias até á Photographia Guedes, visitar a exposição de quadros de Thomaz de Moura.


Thomaz de Moura

Conhecia já este artista d'uma exposição, que em Lisboa se realisara, nas salas da Sociedade Nacional de Bellas Artes e onde elle concorrera com sete quadros. N'essa occasião e em um jornal da capital tive occasião de manifestar a impressão que então recebera dos seus trabalhos. Hoje, porém, que elle no Porto se nos apresenta, não é muito, que, mais uma vez, me occupe dos seus trabalhos, n'uma rapida noticia, sem philosophia d'arte nem detalhes de apreciação, mas unicamente n'uma resenha breve e simples do que vi.

Na sala do nosso amigo Guedes de Oliveira, esse bello rapaz, amigo dedicado dos artistas e tão artista como elles, reune Thomaz de Moura 39 trabalhos, que dão a nota verdadeiramente accentuada do seu temperamento artistico.

Talvez, porque a sua alma seja d'um contemplativo, ou d'um triste, ha nos seus quadros um quer que seja de nostalgico e de sugestivo. Não é d'aquelles pintores que distribuem, ás pinceladas, nos seus quadros, as tintas fortes e vibrantes; os vermelhos carmins e ocres amarellos. Não, enche as suas telas d'umas tintas doces e melancholicas. Depois ha ali muita paisagem dos paizes brumosos, trabalhos que elle executou lá por fóra nas suas viagens de estudo. E a paisagem da França e da Bretanha, essa paisagem, é muito differente da nossa. Lá, não se encontra um céu como o nosso, claro e limpido, onde as aves passam n'um vôo chilreante de alegria, o sol de lá, como que apparece envolvido em gaze, não é retumbante e claro como o nosso e as tonalidades da vegetação tem aqui um forte destaque de frescura que falta n'esses paizes.

E, é talvez d'isso que se sente o nosso artista. Mas, quando elle retratar a nossa paisagem, esse Minho encantador, então, vel-o-hemos accentuar perfeitamente as nossas côres e nosso tom.

Algumas das telas apresentadas já são da nossa paisagem, mas, vistas um pouco ainda com a vista habituada ao cinzento das paisagens bretãs, d'ahi o não terem a nitidez accentuada da paisagem portugueza.

D'entre todas essas telas destacarei para mim como a mais subtilmente inspirativa—Christo lamentando Jerusalem, de linhas definidas embora, em esquicio, de uma concepção bella, d'um effeito sentimental e de uma suave expressão.

Os cuidados de mãe, que eu já conhecia, são um estudo de interior que revela muito saber e muita observação.

O fim da tarde, delicioso poente, onde o céu tingindo-se de vermelho, dá ao quadro uma inspiração suave do quer que seja de poesia lyrica.

No limiar da porta, bella cabeça de rapariga, d'um olhar aveludado e triste, de quem espera por alguem; talvez pelo seu namorado.

No Cabeça de rapariga bretã, ha a mesma serenidade que no Limiar.

Um caminho, é um bello retalho de aldeia, um caminhosito tortuoso coberto por uma frondosa ramaria. Appetece descançar um pouco, ali, após um largo passeio.

Os casebres de Alfena, O lavadouro (Guisec), Açudes (Vizella), Ribeira de Pont d'Abbé, e mais outros ainda, são manchas tocadas com primor e com muita proficiencia.

Os pequenos marinheiros, é um quadro onde se revela d'uma maneira accentuadamente definida a disposição que Thomaz de Moura tem para a figura. Os dous rapazes estão perfeitamente desenhados e sahem da tela accentuadamente.

Ha um quadrosito tambem notavel, é o Nos campos, um pequeno sentado sobre a relva parece desfolhar malmequeres emquanto ao fundo, sob um traço de luz, pastam dous mansos bois, é inegavelmente um dos mais apreciaveis trabalhos expostos.

Mais largo poderia e deveria ser este compte-rendu da exposição, mas eu prometti apenas uma ligeira noticia, e as minhas aptidões criticas não dão para mais.

E ao acabar permitta-me Thomaz de Moura, que lhe signifique n'estas rapidas linhas a magnifica impressão que me deixou a visita que fiz á sua exposição.


1904.



Panneaux decorativo na
Sala da Bolsa no Porto
velloso salgado





XIII

AMADORES PORTUENSES


D. JOANNA ANDRESSEN SILVA



D. Joanna Andressen Silva

Sinceramente e no mais grato dos respeitos vou deixar em breves linhas as minhas impressões sobre o merito artistico d'esta illustre senhora, amadora distincta d'esculptura, illustre pelo talento e pela fidalguia do caracter, um caracter d'oiro, propenso ao bem, cheio de fé e de bondade.

Eu sei que biographar um amador é trabalho de certo folego, muito especialmente quando o amador é distincto, como esta illustre senhora; mas eu não venho com mais largas ideias que fazer uma simples resenha dos seus trabalhos, resenha esta que servirá ao mesmo tempo de ligeira nota de carteira da visita que fiz ha dias ao seu atelier. A isso, só a isso, me abalanço, convencido de que cumprindo um dever de cortezia presto ao publico, ao que aprecia as manifestações d'Arte, um interessante e util favor.

Não me alargarei em detalhes minuciosos do grande problema—a Arte. Rapidamente, aqui e alli, tocarei aquellas notas, que veja de mais necessidade ferir, para completo comprehendimento do assumpto.


Salão do palacete de
D. Joanna Andressen Silva

N'esta altura, cabia perfeitamente, como preambulo a estes pseudo-perfis, uma larga tirada sobre Escolas d'Arte, Evoluções da Arte, Variedade de gostos artisticos, Papel moral da Arte, etc. Não enveredarei por esse caminho, deixo esse estudo aos outros, aos que com mais direito e mais conhecimentos possam fallar do assumpto.

Sou apenas uma especie de reporter artistico, que vem sempre que d'isso tem occasião, trazer a noticia d'um amador que se torna notado, d'um artista que está em fóco, d'um atelier que se recommenda pela sua disposição e pelo recheio, e d'um salon que se abre em exposição de trabalhos isolados ou collectivos.

Feitas as precisas explicações, vou dar principio á minha singela narração, sem balofas adjectivações e sem assumir o ar solemne e grave de Pater Magister. Serei simples e breve como convem aos que escrevem para todos: para os que se embrenham nos profundos e intrincados problemas sociaes e artisticos e para aquelles que só sabem ler. Farei portanto todo o possivel para que facilmente me faça compreender e alguma coisa de util, traga, ao fim, em bem da Arte.

Foi n'uma manhã formosissima, de sol forte e claro que fiz a minha primeira visita ao atelier da Ex.ma Snr.a D. Joanna Leheman Andressen Silva.

Ao fundo da Rua Antonio Cardoso, rua que partindo da formosa Avenida da Boa-Vista, vae findar no Campo Alegre, fica o sumptuoso palacete onde reside esta talentosa amadora. A vivenda só em si é um encanto. A bella casa, circumdada de formosos parques e jardins, tem um aspecto grandioso e rico que se impõe. Os jardins e o parque que a rodeiam são deliciosos trechos onde as musas predilectas bafejam e inspiram os menos lyricos a compor deliciosas bucolicas e onde os menos artistas encontram retalhos de paisagem encantadora e suggestiva para transplantar á tela.


Canto do Atelier

Eu não posso fallar d'essa paisagem adoravel que me não sinta enlevado pelos seus encantos naturaes. Como é bello tudo quanto d'alli se avista! Como é soberbo todo esse quadro immenso, cheio de vida e de luz, deixando-nos apreciar por momentos o bulicio da cidade, a serenidade das aguas do Douro, que serpeia lá em baixo, a agitação continua do mar, cujas ondas se vem ao longe n'um revolutear continuo, e a tranquilidade da vida aldeã, que se adivinha com as primeiras casinhas que se descobrem do outro lado, no Monte das Chãs!...

Transpostos o jardim e o parque entra-se n'uma ampla galeria, onde, bibelots caros e artisticos se juntam n'uma delicada confusão que contrasta com o fino do mobiliario e a riqueza das tapeçarias. Apenas alli introduzido, logo me appareceu a distincta amadora, cheia de attenções e cuidados que encantam, convidando-me a visitar o seu atelier. Acedi da melhor vontade e caminhei vagarosamente encantado pela conversa fluente e interessante da illustre senhora que tem a alma d'uma fina artista e a virtude d'uma delicada e cuidadosa dona de casa.


Busto de mademoiselle
Eliza Andressen

N'essa passagem atravez de todo o interior formoso e confortavel da habitação, passagem que fiz com a religiosa uncção de quem visita um museu intimo, tive a grata ventura de pousar a vista em admiraveis trabalhos de Antonio Teixeira Lopes, Marques d'Oliveira, Julio Costa, Julio Ramos, Candido da Cunha e muitos outros, e entre estes alguns dos mais consagrados artistas estrangeiros.

E tudo isto, todo este batalhão de Arte se espalha pela casa, gentilmente, nos seus logares proprios, n'uma bem estudada escolha de luz.

Entramos na sala de jantar depois de termos atravessado o salão de baile. Maravilhou-me a magnificencia das pratas, das louças e dos crystaes, mas acima de tudo a confecção e o estylo do mobiliario. Avancei uma pergunta:—-«Quem fôra o auctor d'aquella maravilha? Quem a desenhara?»

E a distincta amadora, sorrindo, contou-me a historia d'aquella mobilia, dizendo n'uma adoravel simplicidade que para a sua execução fizera dous desenhos; um era aquelle, o outro, mais decorativo, mais cheio de flores, fôra posto de parte porque seu primeiro marido não gostara d'elle.—«E eu tambem», concluiu a illustre amadora.

Assim devia ser, porque, por mais formoso que o outro fôsse, aquelle desenho que alli estava, com certeza o havia de supplantar, porque é uma verdadeira maravilha de Arte, quer em concepção, quer em execução.

Em seguida atravessamos o jardim, onde brincavam os filhinhos de D. Joanna, e passamos ao atelier. É este construido sob a sombra protectora e amiga d'algumas bellas arvores; banha-o de luz intensissima uma larga janella que lá do alto se abre para a estrada.

Uma vez alli dentro, analisei detidamente tudo o que lá se achava, desde o mais insignificante desenho até á mais bem lançada esculptura, desde a mais pequena revista até ao mais precioso livro de Arte. E apoz isto, entrei n'um largo inquerito. Sentados n'uns artisticos escabelos, conversamos um pouco sobre arte, discutimos escolas e processos, analisamos rapidamente trabalhos que conheciamos de memoria e por ultimo fallamos da educação artistica da nossa gente. N'esta altura averiguei que D. Joanna desde creança revelara uma grande disposição para a esculptura.


Busto de mademoiselle
Ramos Pinto

Seu pae, um bom e honrado negociante allemão, que viera para o Porto estabelecer-se, pratico como era, costumava brindar seus filhos com livros de desenho, que mandava vir d'Allemanha. D. Joanna toda se enthusiasmava com esses brindes, que collecionava cuidadosamente e d'onde fazia copias para estudos, revelando desde essa epocha uma vocação especial para o desenho.

Quando menina teve como professora Madame Bizarro, que bem conhecida foi no Porto pelos seus trabalhos em miniatura e bordados.

Foi, portanto, sob a direcção d'esta desenhista correcta e sabedora que ella começou a seguir verdadeiramente o caminho da Arte. Depois, foi por algum tempo para a Allemanha, e ahi, vivendo na intimidade da familia Katzenstein, teve occasião de acompanhar muito de perto e receber mesmo indicações utilissimas do conhecido pintor Katzenstein, irmão do Consul d'Allemanha n'esta cidade. Durante essa epocha D. Joanna amavelmente pousou para modelo de algumas das figuras dos quadros d'esse excellente artista, já por vezes devidamente apreciado no Porto, por quadros de certo merecimento artistico, que tem exposto em varios certamens a que tem concorrido.

Com estes dois impulsionadores, Madame Bizarro e Katzenstein, D. Joanna volta a Portugal, cheia d'uma grande boa vontade de ser alguma coisa mais do que a vulgaridade no nosso meio artistico. E para isso chama para lhe completar a educação d'arte dous dos mais notaveis artistas e mais insignes professores: Marques d'Oliveira, o paisagista sabedor e poetico e Teixeira Lopes o genial estatuario, cujo nome é uma verdadeira gloria da Arte Nacional.


Busto de Mademoiselle
Maria Joanna Andressen

E, recebendo lições d'um e d'outro com um aproveitamento pouco vulgar, D. Joanna revela-se não uma amadora distincta, mas uma distinctissima artista. Affirmam-no exuberantemente os seus trabalhos, internecedores pelo encanto com que são concebidos e executados.

D'alguns d'esses magnificos trabalhos vão aqui photogravuras, pelas quaes facilmente se vê que aquillo que affirmo não é senão a sentida expressão da verdade. Na photogravura Recanto de atelier, ha uma figurita sobre a meza, maquette de um trabalho em tamanho natural, e que se intitula Rapaz jogando a malha, que é um assombro de bem executado.

Entre os gessos que ornam o atelier ha um que merece especial mensão. É um Christo na Cruz original do grande e saudoso Soares dos Reis.

Nos trabalhos de D. Joanna salientam-se duas Cabeças de rapazes, bustos de dois filhos seus, mas dos quaes por motivos especiaes não pude obter photographia.

Parecerá ao leitor que quem executa tão bellos trabalhos não necessita mais de professor; não o entende assim D. Joanna e, n'essas condições, como quer ser tambem alem de esculptura uma pintora distincta, ouve e recebe orientações e lições do velho Costa, o meu querido amigo Antonio José da Costa, o artista que mais linda e sabiamente pinta flores em Portugal.

É desnecessario proseguir. Já fica dito o bastante sobre as impressões recebidas na primeira visita que fiz ao atelier de D. Joanna Leheman Andressen Silva, n'essa manhã deliciosa, de que conservo as mais gratas recordações, não só pelo prazer de avaliar de perto os superiores trabalhos d'essa illustre amadora, mas muito especialmente pelas preclaras virtudes do seu caracter delicado e requintadamente attencioso.

Ficarei por aqui, convencido de que a critica sincera e desapaixonada, dos Mestres d'esta boa terra portugueza, hade dizer mais e melhor, sobre os meritos artisticos da illustre senhora a quem acabo de referir-me, quando um dia tiver de apreciar devidamente os seus trabalhos.


Guarda fiel—antonio josé da costa





XIV

PINTORES PORTUENSES


ANTONIO JOSÉ DA COSTA


Ha nomes que, em qualquer parte que se pronunciem, se impõem á consideração de todos nós.


Antonio José da Costa

O que encima este artigo é um d'elles.

Como homem e como pintor Antonio José da Costa deve ser respeitado e admirado. Como homem porque é um cavalheiro em toda a acepção da palavra; como pintor porque é um mestre.

É muito grande a minha ousadia, em tentar desenhar, n'um pequeno artigo, uma figura culminante da pintura em Portugal; e não vos admireis, leitores amigos, que eu diga isto, nem julgueis que, ao afirmal-o, queira empanar a gloria de muitos dos nossos pintores. Não. Se considero Antonio José da Costa um grande artista, não quer isto dizer que o julgue maior que alguns outros, mas simplesmente accentuar que elle é um dos grandes artistas da pintura em Portugal.

Para mais ao deante reservaremos o fallar d'esses artistas,
grandes como este ou talvez ainda mais, mas, cada um no seu genero.


Rosas e Peonias
antonio josé da costa

Não quero, nem procuro saber quando e como é que Antonio Costa se fez pintor: o que tento é provar que elle hoje é, em Portugal, um soberbo paisagista e o primeiro pintor de flores. E se conseguir isto parece-me que terei dado o meu tempo por bem empregado. Que o mais facil e o mais demonstrativo seria dizer: vêde esses quadros de que vos dou a gravura; vizitae as muitas casas de amadores onde elles estão espalhados: vizitae as exposições onde elles apparecem; ide ao atelier do artista e ficareis convencidos d'esta verdade indiscutivel.

Mas isso é infelizmente impossivel; os amadores que possuem quadros, com raras excepções, fazem monopolio dos trabalhos que compram, parecendo ter medo que os outros, só de lh'os verem, lh'os damnifiquem. E o artista mora lá para Bellos Ares, tão longe do centro da cidade, que, chegados ao seu atelier, o cançaço seria tanto que não vos deixaria vêr com a
devida attenção, as lindas coisas que elle vos mostraria. Descançai pois que eu,—dando-vos, a traços largos, um relato da obra do artista—vou privar-vos da fadiga d'essa romagem.





Para a pintura como para todas as demais manifestações da Arte é necessario, em logar primordial, a disposição natural do individuo. Não basta só a boa vontade. Mas quando esta se alia áquella então tem-se realisado o supremo ideal, e, embora diga o ditado que «querer é poder» n'este caso esse ditado falha porque muitos artistas conheço eu de muito boa vontade e que querem chegar a onde vão os mestres e nunca lá chegam. E porque? Porque lhe falta a bossa artistica, a disposição natural.


Outros tempos. (Esboço)—antonio josé da costa


Ora com Antonio Costa dá-se o caso de elle ter, alem da sua grande boa vontade, a intuição, a disposição natural para a pintura.

É um paisagista, com uma vista perspicaz de observador, que, ao tracejar um estudo, faz resaltar logo a nota caracteristica e determinante do assumpto. E ao olhar esse estudo, no conjuncto de cores e de tons, nós temos a impressão completa e perfeita do que elle queria dizer nos seus quadros. Dous esboços acompanham este trabalho, e ambos demonstram sobejamente o movimentado assumpto, que nos seria revelado pelos quadros, se elles tivessem tido completa execução.

No primeiro, que chamarei Outros tempos e que tem o duplo interesse de ser um repositorio de figuras conhecidas e muito populares no Porto, taes como o Dr. Pimentel, pae do escriptor Alberto Pimentel, o Amorim Vianna, o professor João Correia, o pintor Rezende, o Brown,


No Pinhal. (Esboço)
antonio josé da costa

etc., que, na janella e na rua, assistem ao desfilar do regimento onde estamos a vêr perfeitamente o ar aguerrido e os jogos malabares d'esse grupo de porta-machados e seu tambor-mór que, descendo pela rua da Sovéla abaixo viram para o seu lado direito, para a travessa de Cedofeita, n'uma cadencia de marche-marche. E na massa quasi informe que os segue ha a intuição caracteristica do grosso do regimento.

No outro, n'um pinheiral esguio, onde bate o sol, veem-se duas figuras por determinar, estando uma com seu guarda-sol aberto; o terreno é empastado e ha no horisonte um quer que seja que nos diz que ali é o mar. Mas nada d'isto está definido, nada disto está executado e, no entanto, nós vemos perfeitamente n'aquellas manchas que o quadro seria assim.

Ora esta particularidade, este modo de fazer os estudos é que só é peculiar a quem nasceu para ser artista, e Antonio Costa é-o e em alto grau.

Depois, como desenha admiravelmente e possue essa grande propriedade de saber vêr os motivos a pintar, d'um pequeno retalho de paisagem, d'uma cancella, d'um casebre tosco, d'um portão de Quinta, d'um nada, faz um quadro que é sempre um encanto. Muitos e muitos são os seus trabalhos n'este genero. E mesmo n'aquelles, que a critica não acha completamente bons, ha sempre alguma cousa, muito até, que é excelente.

Por acaso tenho aqui na minha frente um jornal de 1893 onde um dos nossos criticos d'arte de mais cotação no Porto, diz o seguinte a respeito d'um quadro de Antonio Costa, Portaes do Marão:


Camelias—antonio josé da
costa

«É um pedaço de pintura feito com uma sinceridade emovidissima de sensação e uma franca acção de pincel; em toda a obra do pintor portuense eu separo esta como a que melhor denuncía o seu talento por vezes desigual, com caprichos de intermitencia, mas talento legitimo testemunhado nos intervalos de superioridade com um explendido entono glorioso...»

Ora este attestado passado ha onze annos ao meu perfilado é a confirmação do que venho dizendo, e como na arte não é vulgar andar-se para traz, mas sim cada vez mais aperfeiçoar-se, cada vez mais estou na minha, que, se elle n'esse tempo era um bom artista, hoje é um grande artista.

Mas, Antonio José da Costa que, alem de pintor, tem o quer que seja de floricultor, um dia, ao cuidar das suas camelias, dos seus chrisanthemos e das suas rosas, resolveu, tal como as via, transplantal-as á tela, em pintura; e, com o seu muito saber e o seu arreigado gosto artistico, começou de nos dar quadros tão admiravelmente lindos e frescos como as flores que cultivava, e assim se fez o deslumbrante pintor de flores que agora é.


Junquilhos e Camelias
antonio josé da costa

Ha no espirito de muita gente que pinta, a crença de que as flores são de facil execução e d'ahi esse enxame de amadores, que nos surge de todos os lados desatando a copiar flores dos modelos que a França e a Allemanha nos exporta continuamente. E pintam flores... mas que flores, Santo Deus!!!!

Para pintar flores é necessario ter na paleta alem das tintas fortes e vivas... um certo quê de orvalho, um pouco de sol e uma porção de ether, esse fino fluido que nos cerca. Ora isto é que só elle tem, só elle possue.

As suas camellias são tão frescas e tão carnosas que temos a impressão de que, se as tocassemos, ellas amareleciam tal qual as naturaes. Os seus chrisanthemos, na variadissima e arrevesada forma das suas petalas, parecem sair da tela em contorneações exoticas, envolvidos no tal ether em que fallei mais acima.

E as suas rosas, d'uma frescura e d'uma suavidade unica, ora aveludadas como seios de mulheres lindas, ora transparentes como gottas de orvalho, são admiraveis; parece até exalarem, em delicias, o aroma que lhes é tão caracteristico.

Em todas as suas flores emfim, existe o supra-summo da verdade e da perfeição...

Ao olhal-as não nos julgamos em frente d'um quadro, julgamo-nos n'um jardim...

Mas não são só flores que elle pinta deliciosamente. As fructas, tambem são tratadas por este artista com o mais desvelado e carinhoso amor.

Conheço alguns quadros n'este genero que são um verdadeiro assombro.

Melhor do que eu porém fallam as gravuras publicadas no Portugal Artistico, reproducção de alguns quadros de Antonio José da Costa.

E julgo ter assim cumprido o meu dever de homenagem a um artista respeitado e querido.


1904.



Junto ao Cruzeiro
antonio josé da costa





XV

EM FRENTE D'UM CARTAZ!...


chronica do "monitor"


Antes de entrar no assumpto da minha Chronica, duas palavras de desculpa.

Não appareci na ultima semana porque estive com as maleitas, um diabo d'umas febres que apanhei quando era rapaz e ia brincar para os campos do Cyrne, alli para os lados do Reymão.

Pois essas maleitas, vieram atacar-me traiçoeiramente, como costumam, e quando eu me dispunha a escrever a Chronica tive de me enfiar em vale de lençoes a tremel-as... Um martyrio, que nem o leitor imagina.

Unica razão porque Vossas Excellencias se viram livres da minha proza a semana passada. Hoje, porém, não escapam. Estou agora fino como um pêro e muito bravo.

Portanto, se virem que arranco da espada com valentia, não vos afflijaes, porque ella é de cortiça, como era a da Justiça, para matar a Carriça... Ora pois, como a espada é de cortiça, não corta, o mais que pode fazer é arrolhar. Adiante.

No alto d'este arrazoado escrevi eu:—Em frente d'um cartaz!...—E sabeis a que cartaz me refiro? Não sabeis? Pois ides sabel-o. Ao cartaz executado por Julião Machado para reclame aos festejos carnavalescos no Porto.

—Porque vai elle dedicar uma Chronica a este cartaz, perguntarão lá de si para comsigo os leitores?

—Por um simples motivo, meus senhores, porque entendo, que aquillo está muito longe de ser o que se desejava. Julião Machado é, inegavelmente, um bom artista, mas, d'esta vez, no traba —Por um simples motivo, meus senhores, porque entendo, que aquillo está muito longe de ser o que se desejava. Julião Machado é, inegavelmente, um bom artista, mas, d'esta vez, no trabalho apresentado deixou muito a desejar.


Cartaz—julião machado

Não quer isto dizer que elle esteja mal feito, mal desenhado, mal colorido; não, o que quer dizer é que não era aquillo que se queria.

Que se queria, não digo bem; que eu queria e a maior parte do publico.

Aquillo, é um lindo desenho, para figurar em ponto pequeno, em uma pagina de revista, na capa d'um livro, ou ainda dum reclame-programma, para distribuir nos theatros, ou na rua.

Finura de traço, cuidado de desenho, doçura de cores... tudo alli ha; mas, faltam-lhe os requisitos essenciaes para o verdadeiro cartaz: largueza de traço, côres fortes e retumbantes, côres, que collocadas pelas paredes, tilintassem como crystaes que se partem, retumbassem como trovões, vibrassem como clarins, ou refulgissem como o sol.

Acima de tudo isso, era preciso que tivesse o caracter genuinamente portuguez, que infelizmente não tem. As figuras passam n'elle como se fossem a reprodução d'uma festa em pleno Paris—-o Boi gordo, por exemplo.

Unicamente, como nota portugueza, no primeiro plano um busto de lavradeira, e lá entre essa multidão apenas um capote e lenço, como que querendo fugir para fóra do traço delimitador do caixilho, talvez embaçado de se vêr seguido por tanta gente, que elle nem sabe quem é.

Os nossos mascaras caracteristicos, os chechés, os lavradores, os bebés, os gallegos, etc., etc., que davam a nota definida do nosso carnaval, esses, fugiram n'um desespero de se verem amarfanhados n'aquella pele-mele de mulheres em maillot, e mascaras que nós não conhecemos.

Mas a culpa não foi do artista. Elle viu assim o carnaval; viu n'aquella cocote fina e delicada, que o pierrot leva sobre o grande bombo, a Folia portugueza, e enganou-se!... A Folia portugueza não é assim tão fina e quasi ingenua, é muito mais expressiva, mais valente, de gesto largo e de fundas gargalhadas, atirando um grande punhado de bombons ou um bouquet de violetas, com ar de quem não está a estudar posições ao espelho, despreoccupadamente...

No meu entender, Julião Machado não realisou o verdadeiro programma.

Depois, ha alli qualquer coisa a mais, e que infelizmente me entristece: é vêr suspensas da mão da Folia, como se fossem duas grandes bexigas, as mascaras da Russia e do Japão. Não acho de grande intuição artistica aquellas duas figuras n'aquelle logar. Quando duas grandes nações se degladiam n'uma sangrentissima guerra, exquisito é que se aproveite esse caso para que, como n'um ridiculo de troça, a Folia atira sobre a multidão que se diverte com essas duas grandes figuras.

Mas... adeante; isso nem se discute.


Cartaz
manuel monterroso

O cartaz ahi está! É o que o publico póde vêr! Agora, o que o publico não pode vêr, é o cartaz que apresentou Manoel Monterroso, e é pena, porque se o visse havia de convencer-se de que este, como ninguem, comprehendeu qual o verdadeiro caracter que devia ter o cartaz.

No cartaz d'este distincto amador, havia de tudo, bello desenho, côres retumbantes, e verdadeiro caracter portuguez.

Depois, a concepção era genial, d'um bello artista.

No seu trabalho, uma verdadeira caricatura carnavalesca, revelava-se mais uma vez o seu espirito fino e observador e o seu traço caracteristico e definido.

As figuras que elle apresentava, eram recrutadas no nosso meio, de genuina originalidade portugueza. Oh! mas esse não apparece.

É que a commissão entendeu que devia premiar os dois e mandar executar só um. E porque seria isto? Que entendedores fôram os que determinaram resolução tão exotica? Porque não se fará a exposição do outro cartaz?

Cumpre ao Club, antes de apparecer em publico com o seu cortejo, fazer afixar o cartaz de Manoel Monterroso; sem isso terá dado uma prova de favoritismo, de preferencia a um artista, com o fim, talvez de amesquinhar outro. E isso não é de pessoas que dirigem um Club cuja divisa é—Pelo Porto!

Que appareça o cartaz de Monterroso, para que o publico o aprecie tal como elle merece, e para que se não fique julgando que o Carnaval será palido e desenchabido como o cartaz de Julião Machado.

E que o artista me desculpe, que eu não lhe quero mal. Venho unicamente, como um dos mais sinceros amigos do Club Fenianos Portuenses, pugnar pelo bom nome do mesmo e pelo interesse do meu querido Porto, que se prepara briosamente para receber os milhares de forasteiros que ahi virão assistir ao carnaval, que deve ser maravilhoso.