WeRead Powered by ReaderPub
Notas d'arte cover

Notas d'arte

Chapter 3: NO LIMIAR
Open in WeRead

Explore more books like this:

About This Book

Uma coletânea de notas críticas e impressões sobre exposições, esculturas e pinturas, em que o autor examina a evolução da pintura nacional, defende o estudo directo da luz e da cor e elogia artistas relevantes da cena contemporânea. Os textos mesclam observações técnicas sobre desenho, composição e veracidade da representação com relatos de visitas a mostras e comentários sobre obras e público. Sustenta a preferência por naturalidade e exercício de campo, discute formação artística e questões de apreciação estética em linguagem acessível.

Nota de editor: Devido à existência de erros tipográficos neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.

Rita Farinha (Jan. 2010)




NOTAS d'ARTE









PORTO
TYPOGRAPHIA UNIVERSAL (a vapor)

Travessa de Cedofeita, 54

1906





Ao INSTITUTO de ESTUDOS e CONFERENCIAS

Á SOCIEDADE de BELLAS ARTES

pelo que podem fazer em bem da Arte.





(Esboço para um retrato)

VASCO FERREIRA





NO LIMIAR




(1904)
Caricatura do dr. M. Monterroso

O philosopho Taine, dizia, ha bons vinte annos, no seu Curso Esthetico para:—A Arte é o reflexo dos costumes. E, de facto, assim é. A Arte vae evolucionando sempre na ordem directa do aperfeiçoamento e da illustração dos povos.

Assim, quanto mais illustrado fôr o publico, tanto mais perspicaz, mais estudioso e mais observador deve ser o artista, para que tenha o applauso geral e sincero a obra que executou e apresenta. E, é mesmo por isso que entre nós, os artistas, pintores e esculptores, dia a dia fazem, na incessante lucta pela vida, os esforços mais lidimos e mais honrados para resolverem esse enorme e sublime desideratum:—ser grande!

Infelizmente nem todos o podem conseguir. E, não o conseguem, porque para isso não são precisas só a boa vontade e a persistencia no estudo. Alguma coisa mais lhes é necessaria, e essa, primacial:—ter talento!

Felizes os que teem esse delicioso e bello predicado; porque esses, vão gloriosamente para diante e são verdadeiramente grandes.





Ha alguns annos, poucos ainda, a pintura entre nós era uma especie de Arte mystica, que apenas raros tentavam, n'um arroubamento de eleitos.

Esses mesmos, faziam a pintura a seu modo, dentro de restrictas e acanhadas normas, sem pensarem sequer que o fluido ether que nos cerca e enche triumphantemente toda a natureza, em pulverisações vibrantissimas de luz e de côr, precisa de ser estudado e quiçá pintado.

Mas, se elles limitavam os ambitos do seu modo de executar, era que o publico tambem não exigia mais, e a critica não se preoccupava absolutamente nada com isso.

Tanto elle como ella eram feitos por individuos, que ao visitar os museus e as exposições de pintura não tinham a intuição nitida e verdadeira da Natureza em todo o seu explendor, como manifestação psycologica da vista.

Habitualmente todos elles amavam a Natureza pelo simples consolo que lhes dava, quando ao domingo, deixada a cidade, iam para o campo, não para fruir o delicado encanto de admirar um bello panorama, mas... para gosar o pantagruelico prazer de devorar um gordo carneiro assado, com o seu alguidar de loiro e assafroado arroz de forno, ou a saborosa pescada frita, com negras azeitonas e fresca e appetitosa salada de alface, acepipes estes que copiosamente regavam com tinto de Basto ou espumoso verde de Amarante.

E, se um ou outro tinha uma tal ou qual intuição artistica, porque, lá fóra, nos grandes museus do estrangeiro, tinha visto qualquer cousa que lhe fizera notar tal, esse, ficava-se n'uma banal indifferença, sem se manifestar aggressivamente contra os systemas adoptados pelos pintores do seu tempo, que apresentavam nos seus quadros composições de convenção e feitas no ar morno dos atelieres, sem a inspecção constante e immediata dos motivos a pintar...





Uma Era nova e refulgente, desponta por fim, e os artistas que começavam pondo de parte os velhos preceitos archaicamente usados, saltam por sobre as barreiras das convenções e correm pelos Campos da Arte, fóra, em procura de elementos verdadeiramente verdadeiros, com que possam satisfazer as exigencias do publico mais illustrado e da critica mais independente que auctoritariamente se impõe, cheia de razão, para que nos seus trabalhos haja mais naturalidade e menos ficção.

E, é sob este refulgir de um novo sol, que orientado lá fóra, com as mais modernas noções d'Arte, estudando nas melhores e nas mais celebres escolas de pintura do Mundo, que nos apparece, entre outros, como Columbano, Malhoa, Salgado. Sousa Pinto, Marques de Oliveira, etc., etc., o grande, o sublime Silva Porto! Aquelle que para mim é o maior dos paysagistas portuguezes dos ultimos tempos. E que, com o seu modo de ser e de ver, marca d'uma maneira deslumbrante o inicio d'essa nova Era para a pintura portugueza.

Assombra-nos esse artista com os seus primorosos quadros feitos n'uma larguissima e franca sentimentalidade d'alma de homem de talento, exuberantes de verdade, geniaes de execução. Era um grande! Era um sublime artista!...

Mas, a Morte rapidamente o ceifa, avara de que elle tenha conseguido tão sincera, tão verdadeira e tão lealmente roubar á Natureza verdadeiros e flagrantes pedaços do seu grandioso Ser, para tão maravilhosamente os transplantar á tela.

Ao morrer porém Silva Porto tinha hasteado, bem alto e bem firmemente, a bandeira gloriosa sob que se devia agrupar a nova pleiade dos pintores portuguezes.

E, de facto, é sob a egide d'essa bandeira que a Arte em Portugal brilha hoje mais fulgurante, podendo pôr-se sem vergonha ao lado da Arte dos paizes onde Ella tem um culto mais largo e mais acerrimo.

Se não em quantidade, pelo menos em qualidade, os artistas portuguezes de nome, chegam onde podem chegar os artistas notaveis estrangeiros, sem temerem confrontos.

E isto porque Portugal d'hoje, embora os pessimistas não queiram, vae avançando intellectualmente um pouco na civilisação moderna.

E em taes circunstancias, como dizia Taine, ha bons vinte annos:—A Arte é o reflexo dos costumes.

Antonio de Lemos (Alvaro).






Cabeça de negra (Bronze)

DUQUEZA de PALMELLA





NOTAS d'ARTE


I

Impressões d'uma Exposição



Ha muito tempo já, deveria ter vindo dizer da bella impressão que me causou a 1.ª Exposição organisada pelo


José Malhoa

Instituto de Estudos e Conferencias, mas os meus affazeres obrigaram-me, para gaudio dos meus leitores (pois critica incompetente como a minha quanto mais tarde melhor), a só hoje cumprir este dever.

Fui vêr a exposição sete vezes, e de cada vez que lá ia, novos encantos encontrava nos trabalhos expostos, pois a tentativa do Instituto teve o resultado mais brilhante que podia desejar-se.

Concorreram a este certamen desde os nossos melhores artistas até aos mais modestos amadores, e na generalidade todos se apresentaram dignamente, não obstante um critico d'arte ter dito, em um semanario d'esta cidade, que aquelles trabalhos eram meras chromolythographias. Uma duvida me assalta o espirito relativamente aos conhecimentos artisticos e criterio de tal critico. Saberá elle o que são chromolythographias? Mas, deixemos a cada um o seu modo particular de vêr... e de apreciar, e vamos ao que importa... Demais, a lua está tão alta?...

Vi, como disse, varias vezes os cento e dezesete quadros expostos, os dous bustos e o medalhão em marmore.


José de Brito


Dos trabalhos de esculptura direi apenas que os dous primeiros são obra de Fernandes de Sá, pensionista do Estado, que em Paris completa
a educação artistica do seu muito talento. A cabecita de creança, em marmore, é um encanto, aquella boquita admiravel de bébé pedia milhares de beijos...

O medalhão de Joaquim Gonçalves é uma bella copia de um primoroso trabalho do grande mestre Soares dos Reis.

Agora, emquanto a quadros, ponho em primeiro logar, dôa a quem doer, os dous trabalhos de Malhoa, esse admiravel artista da Luz e da Côr. Eram um assombro os seus quadros.


Que grande calamidade—josé malhoa

O Gozando os rendimentos, estudado com cuidado e traçado largamente, empolgou-me por completo e fez-me gosar, conjunctamente com o personagem estudado, toda aquella commodidade natural de bom burguez que procura um amplo jardim publico para fazer socegadamente o seu chylo. Esta impressão forte que tive, confesso-o, foi devida talvez ao meu burguesismo.

No Que grande calamidade, as figuras trabalhadas com um rigor de verdadeiro mestre, são flagrantes na sua dor, ao verem o seu querido porco, morto na pocilga. Talvez que, se entre as cabeças das figuras e o rebordo do caixilho houvesse um pouco mais de tela, mais imponentes ellas ficariam.

E depois d'isto, de ter dito o meu modo de pensar sobre tão primorosos trabalhos, vou, salteando o catalogo, dar a nota dos quadros que mais me prenderam a attenção.


Chrysantemos—antonio costa

Marques de Oliveira, como sempre, distinctamente. É inegavelmente um grande desenhista. As suas Impressões de Espinho, são bellas e tanto, que uma foi adquirida pelo Instituto por indicação do jury competente. A Azenha, um encanto, Cabeça de estudo, um primor.

Greno, a fulgurantissima artista, bem, admiravelmente. Então os Pensamentos? Esse, era uma delicia.

Antonio Costa, para mim o unico pintor portuguez de flores, não desmereceu a sua grande fama e, os Chrysantemos e Na vindima, deram-me a prova evidente da sua muita aptidão para este genero de pintura.


Candido da Cunha


Candido da Cunha, um novo de muito talento, com o seu Ultimos raios de sol, que já conheciamos e que foi adquirido tambem pelo Instituto, com os seus—Mar calmo, Martyr e Barcos de pesca, merecem hoje, como sempre, os nossos elogios.

Julio Ramos, outro novo, paisagista apaixonado e distincto, dando ás suas paisagens um tom de verdade admiravel. O Macieiras em flor, em especial e as outras dezeseis telas, lindas a valer.

José de Brito, um mestre, talvez abusando um pouco das cores finas; todos os seus quadros são bons, mas para mim superior a todos é o Mulher do novello, estudo admiravelmente feito de uma velha repelenta, flagrantissima de verdade na expressão do rosto. Na Infancia de Diana,


João Augusto Ribeiro

bello estudo do nú, alguma coisa me desagradou á vista, especialmente um cão que se via nos ultimos planos...

João Augusto Ribeiro, bem nos seus pequeninos quadros Retalhos, Lar.

D. Lucilia Aranha, uma verdadeira artista, cheia de talento e de força de vontade, mais uma vez affirmou, com os treze quadros expostos, as suas aptidões artisticas.


Retrato de minha mãe
torquato pinheiro

Torquato Pinheiro veio marcar n'esta exposição o seu logar definido e assente ao lado dos bons artistas. Um caminho encharcado, Manhã d'Abril, Margens do Leça, e todos os demais são feitos com alma de verdadeiro artista. Mas, a destacar, como primor de execução, o Retrato de minha Mãe, que é um trabalho notavel.

D'entre os amadores, extremarei D. Leopoldina Pinto, com as suas flores, especialmente o Pelargonios, que senti não tivesse preço para ser adquirido.

Mais artistas e amadores concorreram a este delicado certamen, mas, não me demorarei na enumeração dos seus trabalhos, porque isso iria ainda muito longe e os meus leitores, decerto, se até aqui chegaram, já bastante se tem aborrecido da semsaboria d'esta minha despretenciosa prosa, que do modo algum aspira ao nome de critica.



II

PINTORES PORTUENSES


JULIO COSTA


Convidado a delinear um artigo sobre o pintor portuense Julio Costa, pensei primeiro esquivar-me a tal empreza porque me julgo insignificantemente pequeno para fallar d'este artista.


Julio Costa

Mas, antepondo a esse primeiro impulso a amizade que lhe dedico, resolvi acceitar o encargo, e, tal como posso, desempenhar esta missão.

Será um artigo despretencioso, sem preoccupação do estylo ou requinte de forma, um artigo modesto como eu e como o temperamento do pintor illustre de quem me vou occupar.

Não conheço escolas, não discuto artistas, não cito nomes estrangeiros, nem rebusco particularidades de metier.

Quando me occupo da pintura e de pintores nacionaes digo simplesmente, indiscretamente, a impressão que os quadros me deixam. Nada mais. E hoje, ao traçar estas linhas a respeito de Julio Costa, não venho, acreditem, fazer a apreciação, pretenciosa ou sabia, da obra d'esse pintor; venho simplesmente deixar-lhe, sob o seu nome já aureolado pela critica consciente, o laurel amigo da minha admiração.

E posto este preambulo, ahi vae o que me parece dever dizer do Julio Costa.





Portuguez de nascimento e condição, alma que se espande na mais suave de todas as alegrias—a familia—Julio Costa vem, de ha tempos para cá, vivendo quasi exclusivamente para os seus parentes, para os seus discipulos e para os seus trabalhos.


Conselheiro João Franco
julio costa

É um d'estes homens com quem, mesmo sem fallar, se sympathisa logo á primeira vista.

É lhano de trato, affavel, de maneiras delicadas, cavaqueador emerito, tendo sempre um dito alegre para retorquir a um remoque que se lhe atire. Nunca deixa de chalacear, a não ser quando tem algum dos seus doente. Então, sim, então abate-se todo na dôr d'aquelle que soffre e deixa-se levar n'essa corrente de magua que o subjuga brutalmente.

É uma luminosa alma dada ao bem e a tudo quanto é bom, e d'ahi a uncção deliciosa e meiga com que elle concebe os seus quadros de genero.

Hoje, posto em foco, pelo brilhantismo dos seus ultimos trabalhos, deve orgulhar-se de ser um dos pintores preferidos nas commemorações aos homens notaveis do nosso paiz.

O retrato é inegavelmente o genero que Julio Costa mais accentuadamente trata e que mais em evidencia o tem collocado.

O retrato de El-Rei pintado para o salão do Tribunal da Relação, os retratos de Oliveira Martins, Dr. Ricardo Jorge, João Ramos, Dr. Eduardo Pimenta, Conselheiro Campos Henriques, Conselheiro João Franco, e muitos outros, são affirmações publicas do que digo.

O primeiro, é largo de ideia, magestatico de pose, tocado de iriadas côres, pois assim o pedia o grande do personagem. Collocado no amplo salão do Tribunal toma um aspecto soberbo, que nos infunde respeito.


Oliveira Martins—julio costa

O segundo, em que a figura de Oliveira Martins, essa imagem de santo e de philosopho, se nos apresenta sentada em larga cadeira de espaldar, em posição natural de quem entretem uma conversa, ao contemplal-o, como que se escuta a sua voz de mestre, que discreteia sabiamente sobre os intrincados problemas economicos do nosso paiz, ou sobre os notaveis factos da nossa historia.

E todos os outros, todos, são verdadeiras obras primas.

Não esquecerei fallar do seu ultimo trabalho, do retrato do Conselheiro João Franco, o homem forte e duro que emprehendeu, n'um arranco de verdadeiro portuguez, remodelar, n'um molde novo e n'uma nova orientação, a marcha dos negocios publicos.

D'esse retrato já eu disse, quando tive occasião de o ver pela primeira vez, o seguinte:

«É grande, na magestade da sua tela ricamente emmoldurada, o retrato do snr. Conselheiro João Franco.

«Absorve por completo a nossa attenção. Está executado n'um correctissimo desenho, tocado d'uma distincta tonalidade de côres, n'um flagrante de pose e de semelhança. Ao retrato do Conselheiro João Franco só lhe falta fallar para ser o proprio.

«Quanto mais o contemplamos, mais correcto e mais perfeito achamos este trabalho. A figura parece que se destaca da tela, tal é a perspectiva que Julio Costa lhe deu; ás vezes como que a vemos mexer-se. Depois, ha um não sei que de vida, que nos faz imaginar que os olhos se movem, que os labios se vão descerrar para fallar.

«E as roupas, que delicada feitura, que nuances de verdade! Na facha que ella ostenta, vermelha, ha reflexos de moiré.

«O retrato em questão não é simplesmente um retrato; é mais do que isso:—é um quadro».





Todos estes seus trabalhos nos encantam e deslumbram, porque Julio Costa sabe apanhar tudo quanto vê em volta de si. Sabe ver, que é o essencial. D'ahi o colher a expressão da Impressão. Mas a Impressão escolhida, não da natureza selvagem, mas sim da natureza civilizada e culta.

Julio Costa é um civilizado! É um delicado! É um raffiné (desculpem o francez).

E é esse effeito de raffinerie e essa predilecção pela impressão escolhida que elle transporta aos seus retratos.

Elle conhece bem o indefinivel e delicado interesse que se desprende das linhas d'um rosto.

Elle sabe que nada é tão impressionante, para nós que contemplamos os quadros, como essas figuras immoveis e mortas... mas que estão vivas!...

E os seus retratados vivem nos seus retratos.

Em uma palavra, Julio Costa não pinta um retrato do seu modelo... pinta o retrato.

Cada uma das nossas sensações, das nossas emoções, dos nossos sentimentos, cada um dos nossos desejos, das nossas esperanças, dos nossos pensamentos secretos altera constantemente a nossa physionomia.

A cada minuto, a cada segundo, qualquer de nós se transforma, e deixamos de ser então semelhantes a nós mesmos. Mas, Julio Costa sabe discernir n'essas fugitivas transformações aquelle momento, que é sempre da nossa figura, sabe fixar na mobilidade imperceptivel das linhas d'uma physionomia o seu aspecto caracteristico. Sabe reunir n'um gesto a multiplicidade das nossas attitudes.

E é por isso que Julio Costa, ao pintar o retrato, tem uma grande preponderancia sobre outros artistas.

Demais a mais elle possue o que falta a muitos outros, uma bella correcção no desenho.

Que o desenho não é só como muita gente pensa o esqueleto da pintura.

Não, o desenho é uma parte integral d'ella, o desenho é a propria pintura.

Já um celebre pintor francez, cujo nome não recordo agora, dizia dos seus desenhos—A côr dos meus desenhos... como se o desenho não fora unicamente uma apresentação do claro escuro.

Mas é que a pintura sem um bom desenho, onde se definam os tons e meios tons, onde se delineem as distancias e as perspectivas, seria uma coisa chata, sem vida, sem relevo.

O Soler architecto, esse bello rapaz cheio de talento que a Morte avidamente nos levou ha um bom par d'annos, dizia-me uma tarde em que me fazia uma prelecção sobre as vantagens do desenho:—«Olhe, se você quizer um bom quadro desenhe-o primeiro em todas as suas minudencias, com todos os seus effeitos de perspectiva, com todos os seus claro-escuros e, depois, a esmo, cubra isso com as tintas d'uma paleta e terá um bom quadro. Olhe que n'isto de pintura o desenho é tudo».

E de facto assim é: para se poder pintar bem o que é preciso primeiro é saber desenhar. E Julio Costa sabe desenhar. D'ahi o elle dar aos seus trabalhos uma corecção distincta.

Mas, Julio Costa não é só notavel no retrato. Julio Costa é-o tambem em outros generos de pintura. No assumpto religioso deu este artista provas indiscutiveis das suas aptidões.

O Calvario, que elle pintou para a egreja do Bomfim, é o melhor attestado do seu savoir faire. D'essa obra prima, que veiu abrir uma polemica entre um critico da Palavra e o conego Alves Mendes, dizia este ultimo no seu opusculo—A


O Calvario—julio costa

crucificação de Jesus:—Outros quadros de egual natureza adoecem de monotonia e languidez. Este não. É tal a firmeza do desenho, tal a riqueza das tintas, tal e tanta a genial inspiração artistica, que a gente admira irresistivelmente e applaude enthusiasticamente esta magistral pintura de Julio Costa.

Que melhor e mais auctorisada opinião que a d'este pintor da oração, este artista genial da palavra, que desenha com o seu verbo inexgotavel os mais fulgurantes e mais flagrantes quadros? Como consagração a um artista não as tenho visto melhores nem mais perfeitas.

Quando Julio Costa se entretem a fazer o quadro de genero, tambem, n'esses momentos, não deixa o seu nome em má posição. Ahi, como nos outros trabalhos, elle sabe dar aos seus typos e aos seus assumptos o quer que seja de suggestivo, de impressionante.

Não é cousa simples enumerar a sua obra, porque ella não é uma insignificancia.

No entretanto, como é do meu desejo levar o mais longe possivel a resenha dos seus trabalhos, ahi vae o titulo d'alguns d'elles, que mais se notabilisaram nas exposições onde teem apparecido.

Em primeiro logar colloco eu o No Vago, uma pastoral


A Ti Anna—julio costa

de côr, como lhe chamou Oliveira Alvarenga. Era uma larga tela que resumia um delicado poema d'amor. Em plena primavera, sob a luz do lindo sol, uma moçoila trigueira e forte, de seios proeminentes, encostada a um pedaço de terreno alto e florido, sonha n'um vago presentimento triste. Ia para os trabalhos do campo, levava a sua foice, o seu cesto vindimeiro, o seu chapeu de palha; marcára ao namorado uma entrevista, na esperança d'um doce idyllio, mas o tempo passa, o namorado não vem, e ella, na sobrexcitação do seu amor e do seu ciume, vae desfolhando malmequeres que ora lhe dizem sim, ora lhe dizem não, e, por ultimo, como que adormece n'uma febre d'amor, olhos semi-cerrados, com o pensamento esvoaçando no vago... Eis o quadro, que figura lá fora, em Berlim, para onde foi vendido.

Não esquecerei a Romeira, uma fresca rapariga que, em descantes alegres, parte para a romaria.

E uma Cabeça de estudo, que appareceu na exposição de Arte de 1894, uma linda cabeça de rapariga de olhos vivos, labios de coral e com o seu lenço de xadrez multicor, que é um encanto!

O retrato do Quinsinho Souto Mayor, é um estudo de creança finamente trabalhado com o seu vestidinho de velludo, onde assenta uma romeira de renda, tão bellamente pintada, que dava a perfeita illusão de que eram rendas que alli estavam collocadas sobre a tela.

O Vencido, que é um bom trabalho tambem, consiste em um rapazito que, após uma refrega com outros, sae com um braço deslocado; que suavidade de côr, que tristeza nos olhos humidos!

O retrato da Ti Anna, essa velhita encarquilhada que, no fundo do seu casebre, junto da lareira, vai fiando a loira estriga a pensar no tempo lindo que passou, quando era rapariga e cantava ao desafio nas esfolhadas e nas espadeladas, é soberbo. Hoje, a pobre velha canta as tristes canções com que embala os netos, e fia o linho com que veste os filhos, que outras, que são novas, vão espadelando a rir e a cantar. E tudo isto se traduz n'aquelle quadro, e todo este romance se vê alli representado n'uma sentida impressão e n'uma ideal concepção.

O Costume dos arredores do Porto, é tambem um lindo quadro—uma cabecita de rapariga do campo cheia de vida e de frescura.

E a Mimalha e a Varanda dos Mangericos e mil outros trabalhos d'elle?...

Ah! mas vae muito longo este artigo e o leitor não tem obrigação nenhuma de estar infinitamente a ler-me; por isso, ponto.

Julio Costa é para mim um pintor que sabe muito da sua arte, digam lá o que disserem, e se, dentro da sua modestia, não gostar do que eu agora digo d'elle que me perdoe porque eu só sei dizer o que penso, e isso muito rudemente ainda.



III

PINTORES PORTUENSES


ANTONIO CARNEIRO JUNIOR


Conhecendo Carneiro Junior ha muito, por ter tido já occasião de apreciar os seus trabalhos em outras exposições, corri, apressadamente, incumbido por a redacção da Vida Moderna, a vêr a nova exposição dos seus ultimos


Antonio Carneiro Junior

trabalhos, com o grande interesse de conhecer o progresso e o desenvolvimento artistico d'este bello cultor da arte da pintura.

E, francamente o confesso, as minhas espectativas confirmaram-se. Carneiro Junior, que era um dos novos que mais promettia, obteve, com o seu estudo no estrangeiro, a verdadeira comprehensão da arte de pintar, affirmando-o desde já com os magnificos trabalhos expostos no atrio da Misericordia.

Pintando em todos os generos, como elle mais se avigora, e mais demonstra o seu talento é, a meu vêr, como pintor de figuras.

A paisagem e a marinha não são o genero que mais o tentam, o que não quer dizer que não tenha paisagens adoraveis e marinhas deliciosas.

É preciso porém notar-se que, quem escreve estas linhas, é um mero amador que vem simples e unicamente dar a resenha dos quadros expostos e a sua impressão pessoal, dizendo simplesmente gosto ou não gosto, sem me prender nunca em considerações sabias sobre o modo de pintar de cada um. Não citarei escolas hollandezas, flamengas, etc., etc. com ares sabios de critico emerito.

E não o farei, porque entendo que para se escreverem artigos substanciosos e chorudos sobre tal assumpto é necessario, antes de mais nada, ter visto alguma coisa d'essas escolas e d'essa pintura, acompanhado isso da leitura de livros da especialidade.

E, vulgarmente, não succede assim. Muitos dos nossos criticos conhecem esses quadros e essas escolas porque algum amigo, vindo lá de fóra, lhes trouxe, como recordação, catalogos dos muzeus que viu por lá, e é por ahi que elles fazem, a maior parte das vezes, critica. Ora eu, como nunca vi muzeus,


Retrato—antonio carneiro

nem tenho lido livros sobre pintura, não faço critica, faço a minha reportagem, deixem-me assim dizer. E posto isto, lá vae a impressão pessoal que me ficou d'alguns dos trabalhos de Carneiro Junior. E elle que me perdôe se não gostar.

Em primeiro logar, se bem que não sejam estes os principaes trabalhos, ponho eu os desenhos a sanguinea—-que figuram no catalogo com os n.os 27 e 28, Figuras para a fonte do Bem; 10, Estudo para o quadro do Amor; 6, Estudo para a figura Esperança; 25, Estudo de creança para a fonte do Bem.

Os retratos do Marcos Guedes, n.º 43; do dr. Alfredo de Magalhães, 34; do Antonio Patricio (filho), 32; de J. Teixeira Lopes, 36; do Claudio, 40; e os dous retratos de R. C., 37 e 38, são magnificos.

Em todos elles ha um tom de vida e muito de alma, especialmente nos dois ultimos, em que o artista põe todo o seu sentimento de amor.

O quadro Tarde no mar, n.º 56, é delicioso; como que se sente, ao olhal-o, aquella cadencia ou melopeia que o grande mar sabe cantar quando suavemente beija a areia fina da praia.

Campo de trigo, n.º 77; em Auvay, impressão de frente, 89; impressão, (Bretanha), 71; em Leça, impressão, 68; o Tamega, (Amarante), 67; o Sena em Auteil, 62; Pinheiros ao cahir da tarde, 57; ...são, para mim, sentidissimas paisagens onde a nossa vista se perde e o nosso espirito se embrenha como em paginas brilhantes da Viagem da minha terra, de Garrett.

Ha alli tambem um quadro, Leitura, de que muito gostei. N'um interior de casa escura, á luz de um candieiro, tres mulheres, uma das quaes lê. É admiravel não só de execução, como de composição.

O esboço do quadro Fonte do Bem é apreciavel e bem desejariamos vêr o quadro definitivo.

E, antes de terminar, deixe-me Carneiro Junior dizer-lhe que o seu triptyco, é, para o meu fraco entender, um d'estes geniaes poemas que só os grandes artistas sabem conceber. Emquanto á sua execução acho-a primorosa. A Esperança, deliciosa virgem estudada e delineada com toda a pujança d'um bello espirito;—O Amor—assombroso de execução; ha n'aquelle cavalleiro todo em aço vestido, a virilidade d'um cavalleiro andante; A Chimera, fundamente abstracta, na sua côr doentia e na sua expressão de verdadeira Fatalidade olha o quer que seja de horrivel, guiando o fogosissimo cavallo em que monta o cavalleiro;—Saudade—na base d'uma sphinge sonha uma mulher, toda de negro vestida. Quanta doçura n'aquella expressão de tristeza! Como o pintor soube dar áquella delicada mulher a nota melancolica do que é na realidade a saudade! Este quadro seria bastante, para definir o grande talento do artista e o seu temperamento subtil de poeta.

Que o artista me perdoe se não disse tanto quanto merecia a sua obra e acceite o parabem sincero de quem só diz o que sente.

Março 1901.




IV

Thadeu Maria d'Almeida Furtado


palavras ditas á beira da campa do fallecido professor


Não é, o que vou dizer, uma biographia, nem um necrologio; representam simplesmente estas despretenciosas palavras como que um


Thadeu Maria d'Almeida Furtado

punhado de saudades espersas sobre a campa, ainda mal fechada, do illustre morto.

Conhecendo-o desde ha muito, tive sempre por elle uma d'essas venerações respeitosas de consideração e amisade, que se tem por aquelles que vivem sempre de cabeça levantada e aos quaes não podem attingir nunca as settas envenenadas da má vontade e da calumnia. E é por isso que hoje não posso deixar de vir dizer aqui algumas palavras a respeito de quem, sempre se fez querido de todos quantos, uma vez só que fosse, d'elle se aproximaram.

Thadeu Furtado foi um dos mais antigos professores de desenho do Porto e dos de mais nomeada; cumpridor dos seus deveres, como poucos, recto nas suas apreciações, como ninguem, quantas vezes fez elle rebentar essas bolhas de balofa vaidade, com que muitos mediocres se julgavam notabilidades, e a quem o publico inculto tecia os mais rasgados elogios; mas, sincero como era, nunca se pejava de dizer as verdades por mais duras que ellas fossem.

Trabalhador incançavel, até ao ultimo dia, em que um desastroso acontecimento o impossibilitou, foi regularmente occupar o seu logar na Academia, onde hoje era secretario e onde em outros tempos fôra professor sapiente.

E inegavelmente é a este trabalhador indefeso, a este morto illustre, que se devem os melhoramentos ultimamente feitos n'aquella casa de ensino artistico.

Quantas e quantas vezes, reclamados esses melhoramentos ao governo, foram elles lançados no rol dos esquecimentos, rol lendario, onde são archivadas todas as cousas uteis do nosso querido Portugal. Mas, Thadeu Furtado, com a sua vontade de ferro, ao saber no Porto o conselheiro Elvino de Brito, então Ministro das Obras Publicas e antigo discipulo da Academia das Bellas Artes do Porto, a elle foi e depois de lhe mostrar, provando de visu a necessidade urgente d'aquelles melhoramentos, conseguiu o que até ali ninguem tinha conseguido. E é portanto a este querido morto que se deve o ser hoje a Academia de Bellas Artes, senão um modelo de escolas para o seu genero, pelo menos um estabelecimento que não nos envergonhará quando mostrado a estrangeiros profissionaes.

E, doa a quem doer esta minha affirmação, mas Thadeu Furtado vae fazer muita falta á nossa Academia.

Como professor foi sempre correctissimo, muito sabido no seu métier, e a prova d'isso está, em que, todos os nossos grandes pintores de ha sessenta annos para cá, foram todos seus discipulos e todos teem manifestado esta mesma opinião.

Não fui seu discipulo, mas fui seu amigo e é unicamente como tal que venho aqui depôr tambem a minha eterna saudade, que é tão grande, como foi a minha consideração e a minha amisade.

E, para terminar esta minha sincera e triste despedida, consenti, meus senhores, que vos manifeste tambem aqui um grande desejo:—Como todos bem o deveis comprehender, uma divida tem a Academia a pagar ao seu respeitavel professor e ao seu incançavel secretario; e essa divida só poderá ser paga perpetuando-lhe a memoria com um monumento digno d'elle. Grato me seria, portanto, saber que os alumnos da Academia de Bellas Artes, reunidos aos professores, lançaram mão da ideia de que seja collocado o busto de Thadeu Furtado nos claustros da mesma Academia.

E, para realisar tal ideia, não terão mais do que fazer fundir em bronze um busto, que a familia do fallecido possue, feito, salvo erro, pelo brilhante estatuario Teixeira Lopes. E assim, como preito de homenagem ao professor morto, ficará ligado ao seu nome o nome d'um professor vivo que é inegavelmente a primeira gloria da esculptura portugueza.—Disse.

Março 1901.




Lenço em rendas—d. maria augusta
bordallo pinheiro





V

PINTORES PORTUENSES


ARTHUR LOUREIRO


Arthur Loureiro, esse grande artista que durante


Arthur Loureiro no seu atelier

tantos annos viveu longe de nós, n'esse bello paiz, a Australia, e que uma vez cá, filho do Porto, amando o seu ninho com um amor especial de artista, apoz a sua primeira exposição onde nos mostrou que era um delicado pintor de figura, com os seus retratos, e os seus typos admiravelmente executados, vae para bem perto do Porto, para Villa do Conde e cheio de vontade e repleto de savoir faire, lança á tela lindos quadros que são como filigranas da arte pintural.

Antes porém de atacar o assumpto que nos obriga a tomar da penna e rabiscar estas linhas permittam-se-nos algumas phrases ligeiras de introito.

Ao entrarmos no atelier de Arthur Loureiro, decorado com uma distincta simplicidade, tem-se a suave impressão que o artista que ali trabalha é um bom e um delicado. Confortavel e amigo, aquelle atelier sem pretenção a luxo, todo elle resuma elegancia e bom gosto. Sem estofos custosos, meros cobrejões de farrapos, em tons escuros, biombos simples de couro lizo, moveis de linhas correctas desenhados por o proprio artista e executados sob a sua direcção, é d'um effeito soberbo! O indifferente, que ao acaso ali vá, tem com certeza a impressão de que entrou na casa d'um amigo.


Barra, Foz-Douro—arthur loureiro


D'entre os moveis, que guarnecem o atelier, destaca-se um largo divan-estante com as costas pintadas a sepia, que nos dá a impressão de uma pirogravura.

Mas não vamos occupar-nos do atelier, vamos unica e exclusivamente fazer uma resenha despretenciosa e sincera dos quadros expostos e do effeito que nos deu a visita á exposição aberta agora ao publico.

Arthur Loureiro não é somente um pintor. É mais do que isso, é um esculptor consummado. O caixilho para espelho, o do quadro Convalescente, e um outro onde se ostenta o seu retrato aguarellado por Columbano, são bellos.

Mas, o que me encanta, o que me fascina, é o frontal para uma arca, onde se guardará o enxoval d'um filho querido. Este frontal, desenhado e executado por Arthur Loureiro, é como que uma symphonia d'amor, sob o thema sublime do martyrio da maternidade.



Frontal d'uma arca (esculptura)—arthur loureiro



Sem minudencias de descripção, sempre diremos que a bordadura que cerca a figura da mãe tendo no regaço o filhito querido, é feita com flores de martyrios em todas as suas evoluções, desde o pequenino botão até á flor completamente aberta e em todo o seu frescor. Flores, folhagem e figuras soberbamente executadas.

E agora, posto isto, entremos pela pintura dentro.

Não somos do métier, nem aspiramos a critico de arte; mero amador, vendo talvez um pouco bem, sentindo a dentro da alma qualquer coisa de meigo, por uma paisagem triste, e qualquer coisa de vibrante em frente d'um retalho da natureza, que o sol banha luxuriantemente.

Amando os quadros pela poesia que infundem, subjugado pela impressão, que nos deixa qualquer cousa que nos agrada.

Eis o modo como vemos as obras d'arte, quer ellas sejam d'um novo, quer ellas sejam d'um mestre. E por isso a despreoccupação do meu modo de escrever. Pondo em evidencia ás vezes quadros d'um valor mediocre e deixando no escuro verdadeiras obras de arte. Que nos perdoem os artistas essas faltas e vamos á exposição de Arthur Loureiro que foi o que aqui nos trouxe.

Fallarei d'esses quadros pintados em Villa do Conde, antes porém deve ter especial menção o largo quadro da nossa barra, pintado n'um pôr de sol irisado, cheio de poesia, com tons d'ouro que se reflectem na agua superiormente. É um quadro este, de si bastante notavel para definir o artista.

E agora, que puz em evidencia o quadro que


O Passado—arthur loureiro

para mim se affigura mais notavel, vou dizer da minha impressão dos outros quadros expostos.

Um grande ramo de lilaz, que parece espalhar no ambiente o seu perfume doce e meigo, está feito com tanta frescura e tal graça, que nos tenta a cortar um pequenino ramo para a nossa botoeira.

As bellas rosas escuras, d'um avelludado meigo e fino, como que tentam na sua confecção a uma offerta gentil para a nossa namorada.

São pedaços vivos de natureza, lançados á tela, com proficiencia e carinho.

Um cãosito mops com o seu focinho birrento e negro e o seu pello amarellado dá-nos, a mim pelo menos (que eu sou doido por cães), vontade de o ameigar, de o chamar carinhosamente e roubal-o ao artista. Collocado á entrada, talvez por acaso, é como que um fiel guarda d'aquelle encanto de atelier. Este quadro está feito com cuidado, o que me dá a entender, que o artista segue a theoria d'um escriptor celebre que dizia:

—Quanto mais conheço os homens, mais amigo sou dos cães.

Andam os nossos pintores delineando paisagens, por esse paiz em fóra e nenhum, que me lembre, tinha ido pintar para Villa do Conde. Talvez porque julgassem não haver alli nada que pintar e Arthur Loureiro, que ha vinte annos estava fóra do seu paiz, chegou e para socegar dos seus trabalhos escolares foi para essa linda praia descançar e que descanço o seu, voltou trazendo na sua bagagem deliciosas telas, formosissimas. Querer citar as melhores seria cital-as todas, eu porém notarei como primordial—A Senhora da Guia—depois, as Azenhas e d'estas não sei se o que resplende de sol, se o outro, feito por uma manhã triste de chuva.


Não voltará mais—Arthur Loureiro


A Igreja matriz, tambem o noto pelo bello do effeito. Como uma mancha retumbante, n'aquella suavidade de côr, os reposteiros da igreja fazem resaltar o quadro (ora aqui está onde eu decerto dou raia, em ter recebido uma bella impressão pelo vermelho que destaca do quadro, mas sou assim e não ha nada que me atrapalhe).

A Paisagem geral de Villa do Conde, com o seu convento e a sua cazaria branca é formosa.

O Passado, quadro cheio de poesia e de candura. Como um poema, de amor, de dôr e de miseria aquella velha sentada á porta da igreja, onde talvez ella se baptisara, casára e seria enterrado o seu companheiro de muitos annos, talvez um pescador, que ella hoje chora, pedindo esmola, na sua miseravel e angustiosa viuvez.

Mas vamos fechar este artigo que vae já longo de mais. Antes porém notaremos dous quadros, um que se intitula—Não voltará mais, e que é outro poema de dôr. Junto d'uma bella arvore em flor, um redondendro, uma viuva e uma creança olham o mar.

Esse mar gigantesco e barbaro que foi, decerto, quem subjugou para sempre o ente querido d'essas duas figuras insinuantemente bellas nas suas silhouetes.

O Convalescente é um retrato primoroso do nosso amigo dr. Francisco Loureiro, irmão do distincto artista.

É um trabalho feito com muito amor e muito saber. Flagrante de verdade e correctissimo de desenho. É um bello retrato.

Que me perdoe o artista esta prosa desenchabida e vulgar, mas, mais não póde dar a minha pena. No entanto ha-de ver o publico que eu não quiz fazer o réclame do pintor nem a apologia do homem, fiz unica e exclusivamente a resenha rapida e sincera do trabalho correcto d'um poeta lyrico da pintura que entre nós vem, se não, fazer uma revolução na arte, dar no entanto a nota brilhante, do que deve ser o paisagista portuguez; pintar a nossa paisagem, sem tons exoticos de côr trazidos dos paizes estrangeiros. Porque Portugal com o seu ceu e os seus verdes não póde ser pintado com as cores das paisagens bretãs.

E mais nada.

Outubro 1902.



Na Eira—lucilia aranha





VI

ESCULPTORES PORTUENSES


FERNANDES DE SÁ


Uma das manifestações mais vivas da arte é a esculptura. Esculpir em marmore ou em bronze a figura de um individuo, é, como que, deixal-o por toda a vastidão dos seculos á admiração, ao respeito ou á saudade dos seus concidadãos ou dos seus amigos.


Fernandes de Sá

É a nota constantemente vibrante de uma individualidade. Mais duradoura do que a pintura, é ella que, arrostando nos logares publicos com a intemperie dos tempos, mostra aos que passam um capitulo da historia dos povos, um acto de alta philantropia, ou a saudosa recordação d'um ente querido que a morte nos roubou.

E não é só isso; empolgando o nosso espirito, dá a concepção perfeita d'uma ideia genial que o artista quiz vivificar, dando á dura e informe pedra ou ao frio bronze a pulsatibilidade da natureza viva.

A esculptura, na sua larga e educativa esphera, desde o poema grandioso da patria, nos heroes que faz reviver, até aos santos, que a religião faz venerar nos altares, com a larga escala de mil variadas manifestações, é uma das mais difficeis, se não a mais difficil de todas as manifestações artisticas.

E d'ahi o insignificante quociente de esculptores, em relação aos pintores.

E, todo este preambulo para vos dizer, que visitei hontem a exposição de esculptura, que o notavel estatuario Fernandes de Sá abriu no seu gracioso atelier da rua de Alvares Cabral, d'esta cidade.

Este moço esculptor, cujo nome não é já uma esperança, mas sim uma affirmação segura, dá-nos, com a exposição dos seus trabalhos feitos aqui e em Paris, a demonstração mais definida e assente, de que é um d'aquelles artistas que mais futuro teem, dentro da sua especialidade.

Não o queremos collocar a par do grande, do genial Soares dos Reis, mas pomol-o aproximadamente no mesmo plano de Teixeira Lopes; depois, elle é novo e tem uma vontade de ferro;


Desafio—fernandes de

ora estes dois bellos elementos, a mocidade e a energia, juntos ao seu grande talento e ao seu muito saber, dão-nos a garantia de que elle ha de fulgurar, como um astro de primeira grandeza, na sublime arte de Milo.

Fernandes de Sá, a continuar assim, não ha-de ser notavel só entre nós, ha-de sel-o tambem lá fóra, no estrangeiro. E bom será que assim succeda, para que no mundo civilisado se faça a verdadeira justiça aos nossos artistas e se não pense que isto aqui é uma terra de selvagens.

Mas, deixemos estas divagações e entremos no assumpto que me proponho expôr: Notar as obras que Fernandes de Sá expõe, e isto ao de leve, como quem quer e não póde, por falta de elementos, embrenhar-se em philosophicos problemas d'arte.

Dezoito são os trabalhos expostos, qual d'elles o mais empolgante, qual o mais bem executado.


Camões (estatua em marmore de Carrara)—fernandes de


Desde o largo trabalho—Camões—até á pequenina cabecita da galante—Bébé—todos elles são soberbos e dignos de especial menção.

Camões, estatua em marmore de Carrara, destinada ao Museu de Artilheria de Lisboa. Após o naufragio, o grande epico portuguez salva, n'um heroico esforço, a sua espada e o seu poema—eis o assumpto representado por esta bella estatua. N'uma attitude de desesperada ancia, o corpo fidalgo de Camões, sobre uma rocha, a mão direita crispada agarrando-se a uma saliencia da penedia, na esquerda a espada e o poema sobre o coração, parece escorregar, resvalando na voragem da onda, que n'um desespero revoltoso se quebra de encontro áquella molle de marmore. Sublime de concepção. Na figura elegante e adelgaçada de Camões ha linhas d'uma senhoril fidalguia.

Tratado aquelle marmore com o encanto e o amor d'um verdadeiro portuguez, o esculptor não perdeu uma minudencia, por mais pequena que fosse. Tudo estudado com perfeita segurança, com verdadeira mestria, desde a musculatura reteza e vigorosa d'um desesperado em lucta com o mar, até ao desalinho da roupagem, tudo elle viu, tudo elle estudou conscienciosamente. E, fugindo da vulgaridade das concepções sobre este thema, Fernandes de Sá realisou—segundo o nosso modo de vêr—uma obra genial.

Rapto de Ganimedes, é um grupo em gesso, que vós já conheceis de quando esteve ahi exposto na Exposição da Sociedade de Bellas-Artes, onde mereceu a segunda medalha, tendo já adquirido a terceira medalha na exposição de Paris de 1900.

Beijo Materno, (grupo em gesso). Verdadeiro poema de amor maternal. Uma linda mulher, deliciosamente esculpida, sustendo no collo um formoso bébé, que ella beija n'uma subtil ancia de ternura. Foi este o seu trabalho final para o concurso de esculptura em Paris, como pensionista do Estado. É um encanto.

Vaga. Este gesso é d'uma bella idealisação. Uma formosa mulher, completamente nua, de linhas primorosas, pousa sobrenadando nas ondas revoltas d'um profundo mar e reclina-se docemente, como adormecida ao marulhar da agua. Ao contemplal-a deu-nos o coração um baque e confrontando na mente a mnemonica de quadros vistos, lembrámo-nos d'um, que nos pareceu a reproducção em pintura d'aquelle soberbo trabalho, e no nosso espirito ficou como que um espinho a esse respeito. Alguem, mal intencionado, poderia dizer que José de Brito tinha ido alli beber a sua inspiração e o modelo para o seu quadro A Vaga. Nós não nos abalançamos a tanto, nem isso queremos pensar sequer, porque José de Brito é um grande pintor...


Beijo materno (grupo em gesso)—fernandes de


Dois bustos, em marmore que são a reproducção exacta das pessoas que representam.

O retrato do dr. Correia de Barros, é um trabalho bem feito, cheio de verdade e de vida.

Ha tambem uma Cabeça de velha, que é primorosa.

No Pobre (bronze dourado) e no Desafio (bronze) ha flagrancias de expressão, detalhes minuciosos de execução, que revelam o cinzel subtil, consciencioso e correcto de quem os executou.

Ah! Mas, onde se revela o coração delicado e a alma poetica do moço esculptor, é no grupo Irmãs. Que soberba obra! Com que carinho, com que amisade não foi executado aquelle gesso!

Vê-se que o artista poz alli toda a sua alma de moço e de moço apaixonado. Aquellas duas raparigas, d'um olhar meigo e terno, que o estatuario delineava, com certeza emquanto elle trabalhava cobriam-no com os seus doces olhares n'uma caricia amiga de irmãs. Alli poz elle toda a sua alma lyrica, como no Camões, poz toda a alma patriotica.

Ha tambem uma Cabeça de velha (bronze dourado), muito bem feita.

Notavel tambem um Estudo em barro, coberto com patine verde que lhe dá um tom de novidade. O assumpto é uma cabeça de mulher do povo, com o seu lenço. Nas linhas de aquelle rosto ha muita verdade, e um tal ar de languidez, que logo se nota que dentro da alma do modelo havia um certo quê de pena ou de saudade.

E tudo isto é lindo e tudo isto é bello, não esquecendo fallar nas cabecitas de creanças que lá vimos. Deixei para o fim isto, porque tendo eu uma predilecção especial por creanças, comprazia-me todo em ser n'ellas que fallasse por ultimo.

São quatro estes trabalhos: Cabeça de creança, Bébé, Beija-flor, Estudo de creança.

Que encantadores! Com que amor elle não esculpiu no frio marmore aquellas quatro perolas, aquellas deliciosas creanças, que são mesmo um primor!

Uma vez, n'uma exposição que Teixeira Lopes fez no pateo da Bolsa, havia lá um bébé, o retrato d'um sobrinho d'elle, e eu, estando alli só, não me furtei ao desejo de o beijar e beijei-o, tal era o seu encanto.

Pois quando visitei a exposição de Fernandes de Sá, se lá me visse só, posso affirmal-o, beijava todas essas creanças n'uma infinita alegria, porque as julgava vivas. São realmente uns delicados e subtis bustos, que me deslumbraram.

E eis em meia duzia de linhas a noticia da visita que fiz, por uma linda manhã, ao atelier de Fernandes de Sá, onde a luz forte do sol, coada atravez dos brancos transparentes,
n'uma doçura meiga, fazia resaltar os marmores esculpidos, como n'uma luminosa penumbra de sonho.

E permitta o moço esculptor, que tão gentilmente nos recebeu, e com tanta modestia nos apresentou os seus gloriosos trabalhos, que lhe digamos que o seu talento lhe dá direito a mais um pouco de orgulho, e não a querer deixar-se ficar na modestissima sombra dos que pouco valem. O seu nome e a sua obra, repito, não são uma esperança, não; são uma affirmação segura de que elle é um dos primeiros estatuarios portuguezes.