IX
O CARCEREIRO
O badage irremediavelmente morreria asphixiado pela acção dos vapores deleterios se o carcereiro, cuidando de abrir uma larga janella situada ao fundo do calabouço, não permittisse rapido ingresso a uma camada violenta de ar.
Abertas as portas da janella, os fluidos atmosphericos vieram naturalmente substituir os vapores do enxofre e assim em poucos momentos se restabeleceu nas gemonias inquisitoriaes um ambiente mais ou menos salutar.
O badage acreditou na sua ressurreição.{106}
—Obrigado, obrigado. Antes estourar de uma cutilada de mouro de Asamor do que morrer abafado como um perro. Com mil brecas!
—Poupe os seus agradecimentos, resmoneou o carcereiro. Fiz apenas a minha obrigação. Mandaram-me que o não deixasse morrer e eu obstei a que morresse. Mandassem-me o contrario, eu o contrario teria feito sem tugir nem mugir e vossa mercê, fóra de duvida, morreria sem remissão nem aggravo.
—Comprehendo, observa-lhe o badage, que influa mais no teu espirito a religião do dever do que a da misericordia. Mas tambem é certo que debaixo d'esse pello de perro austero e selvagem tens ou deves ter uma alma. Por ventura deixarias morrer, á guisa de fera estorcida na jaula, um pobre homem nascido e criado á semelhança de Deus?
—Desempenho á risca as ordens que me dão. Para isso me sustentam e pagam.
—Então se te dissessem—estrangula tua irman e assassina tua mãe! tu, em obediencia á malvadez do amo, julgarias cumprir com o teu dever?{107}
—Por Deus que ninguem me obrigava a tirar a vida a meus irmãos ou a meus paes!
—Mas supponhamos que assim acontecia...
O carcereiro experimentou uma ligeira contracção de nervos, estendeu com gestos de ameaça terrivel os braços musculosos e regougou em bruscos termos como se disposesse da voz do trovão:
—Eu, escravo, em caso tal arrancaria com estas garras de hyena a lingua do meu amo!
—Não te fallece por tanto uma certa intuição do bem e do mal. Por instincto ou rasão natural, sempre dispões de uma certa faculdade pensante que te diz não ser infinita a orbita dos teus deveres servis. Reconheces em summa que o universo é maior...
—Não comprehendo bem. Um desastrado carcereiro não póde saber de letras nem sabe o que são ideias. É um cão de fila a quem disseram: guarda esse rebanho e no fim de cada mez receberás as gorduras de uns tantos ossos. O cão desempenha cada dia o seu serviço de guardar e jámais se importa que o rebanho seja de ovelhas limpas e alfeiras ou bravias e tinhosas. Obedece á voz de quem manda.{108}
—Mas porque obedeces tu?
—Porque me pagam.
—Logo, obedeces a quem te paga...
—Está visto.
—Logo, o serviço está em relação com a paga: maior paga, melhor serviço.
—Naturalmente.
—Logo se eu te pagar maior quantia do que a que tu percebes como carcereiro, depressa abandonarás a profissão de carcereiro...
—Nem mais nem menos, meu fidalgo!
—Dize-me então: quanto ganhas n'esta enxovia?
—Conta redonda: 150 crusados por anno.
—150 crusados por anno correspondem a pouco mais de 12 crusados por mez e a menos de 200 reis por dia. Julgas que não é pouco?
—Deveras é muito pouco para quem se vê obrigado a sustentar mulher e filhos...
—Ah, tambem tens familia?
—Quem não tem familia, meu fidalgo?
—De certo não sabes quem eu sou. Eu vivo sem paes, sem irmãos e sem parentes. Disem que sou um christão novo! Sou talvez um apostata,{109} um reprobo, um paria! Vivi por longo tempo na innocencia e no socego dos sertões. Meus paes e meus parentes nutriam-se dos cachos das palmeiras, com todo o fervor das suas almas fasiam as suas orações no templo de Trichandur e as tempestades da desgraça jámais varreram tanto o repouso do seu corpo como as crenças do seu espirito. Mas um dia[13] nos mastareus de enormes galeões appareceu arvorada a bandeira lusitana n'esse grandioso imperio onde[14] as plantas são fructos, as aguas perolas e as pedras preciosas. Esta bandeira significava o symbolo da fé; era o labaro da paz e da fraternidade. Por isso de todas as cidades e aldeias se receberam os companheiros de Vasco da Gama como irmãos e amigos. Estabeleceu-se a troca dos generos, entabolaram-se todas as transacções commerciaes, vendiam-se pelos brocados de seda e pelos tecidos de lan ou de algodão o coral e o marfim, as perolas e o ouro, a canella e toda a casta de especiarias. Mas, ah, depressa a cobiça das riquesas transtornou a paz e a ventura das Indias! Em vez da troca e dos contractos{110} mercantis, os portugueses foram preferindo as dadivas e a vassalagem por não desmentirem que chegavam tam mortos de fome como vivos de cobiça[15]. Accendeu-se então por toda a parte o facho da guerra e da discordia. Familias inteiras perderam a fasenda e a liberdade, povos inteiros perderam a familia e a existencia. Não te farei a resenha dos roubos e das violencias, dos combates e dos incendios. Basta saberes que foi assim que eu fiquei só no mundo: sem patria, sem dinheiro e sem amparo...
—Uum, uum! Não sei se acredite o que me diz, atalhou o carcereiro. Não acredito de certo. Vossa mercê ou vossa senhoria é mais do que inculca ou inculca mais do que é.
—Então que favoravel ou ruim ideia fases de mim?
—Imagino que seja algum fidalgo poderoso.
—Não sou fidalgo.
—Pelo menos algum conde...
—Enganas-te.
—Meu senhor, ninguem, sem que seja de altas{111} hierarchias e de singular poderio, gosa da honra de entrar aqui. Para simples peões não foram feitas as seguras grades e as grossas paredes que sustentam estas abobadas.
—Tens rasão. Nada sou do que dises e sou todavia muito mais que tudo isso.
—Algum marquez?
—Mais!
—Algum duque?... O snr. duque de Lencastre, o snr. duque de Bragança, o snr. duque de Viseu?...
—Mais, muito mais!
—Acima de um duque nada conheço. São os maiores fidalgos do reino. Ninguem acima d'elles a não ser sua altesa serenissima o senhor Dom João III.
—Pois recorda-te bem. Ha ainda quem valha mais de que el-rei!
—Mais do que el-rei?
—Muito mais, muito mais!
—Aposto, aposto! Em nossos reinos juro e aposto que não ha quem valha mais do que el-rei nosso amo e senhor!
—Vaes sabel-o já...{112}
—Pois quem é, quem é?
—Alguem é.
—Mas quem?
—Simão Rodrigues!
O carcereiro poz-se a matutar por alguns momentos. Depois aventurou dous passos ao longo do calabouço, estalejou emfim com a mão direita uma palmada na testa e disse pausadamente:
—Na verdade o jesuita é poderoso. Vale mais em forças e poderio do que um duque...
—Mais que o monarcha. O monarcha tem a corôa na cabeça e o sceptro na dextra; mas isso tudo não passa das vans insignias da realesa. Vale menos o manto de terciopello do que o saio de estamenha. Perante a vontade inquebrantavel de Simão Rodrigues tudo averga e affrouxa como o vime, se quebra e desfaz como o vidro. Elle governa o estado em nome da igreja; em nome da religião escravisa a nobresa e o povo, essa cohorte de hebreus sempre amaldiçoada pela igreja. Tudo lhe obedece piamente e é el-rei o primeiro escravo que lhe obedece...{113}
—Assim é, assim é.
—Todavia Simão Rodrigues teme e reconhece a força e as traças de alguem...
—O papa?
—Não.
—O snr. Conde da Castanheira, que vale tanto como o papa?
—Tambem não.
—Pois quem é?
—Eu!
—Vossa senhoria, meu fidalgo, sempre me parecera muito rico e muito poderoso...
—Em verdade sou e não sou. Mas nada mais te digo. Se queres saber quem sou, experimenta, experimenta...
—Que devo faser então?
—Deves desaferrolhar-me a porta do carcere...
—Perco o meu emprego.
—Quanto vale o teu emprego?
—Vale mais de 100 escudos.
—Terás 500 escudos, terás 1:000 escudos. Queres vender a minha liberdade por 1:000 escudos em boas moedas de ouro?{114}
O carcereiro esgaseou attonitamente os olhos e respondeu com firmesa:
—Por 1:000 escudos vende-se a alma ao diabo. Quero, meu fidalgo!
—Fases bem, fases bem. Estas abobadas cheiram a vermes podres e a cadaveres queimados!
[13] Vasco da Gama aportou ao reino de Calicut em 20 de maio de 1499.
[14] Conde da Ericeira. Portug. restaurado.
[15] D. João de Castro. Carta da India a D. João III.
X
VANTAGEM DE DOUS CONTRA UM
Preparava-se o badage para se escapulir do carcere quando o homunculo, em attitude de lhe embargar a passagem, desfechou das suas guelas herculeas uma estridente cascalhada de riso.
—Meu fidalgo, regougou elle, julga que eu seja de animo tam simplorio que lhe favoreça a escapula sem primeiro arrecadar no bolso os mil ducados promettidos por vossa senhoria? Pardés que me rio com vontade, meu fidalgo!
—Fallas com prudencia e siso. Quem deve, paga. Eu, em troca da minha liberdade, devo dar-te 1:000 escudos. Devo-te portanto 1:000{116} escudos em ouro ou prata. Mas esse dinheiro, embora seja em perolas de Ceylão ou em ouro de Ophir, difficilmente se arrecada no bolso do gibão.
—Pois, meu fidalgo, teremos o contracto desmanchado... Demais, quasi estou repeso do que fiz. As más acções produsem o effeito da ferrugem nos metaes: fasem mossa na consciencia. Porventura merecem os meus amos que os atraiçoe? Pagam pouco, é verdade. De que valem 150 crusados? De que valem elles? Uma ninharia que não chega para a cova de um dente e não é preciso que o dente seja de elefante. Mas emfim sempre me pagam...
—Percebo, percebo. Sabes que mais val um passaro na mão do que dous a voar. Dá cá, toma lá. Não é isso? Pois eu vou satisfaser os teus desejos.
O badage pediu um tinteiro e sobre meia folha de papel escreveu com letra maiscula o seguinte bilhete:
«Dona Catharina de Austria, rainha de Portugal, entregará ao portador a quantia de mil ducados em ouro ou prata. Do cárcere da inquisição{117} do Rocio, aos 29 de desembro de 1553. Pedro, o pagem.»
—Toma, disse depois ao homunculo. Este bilhete vale bem o teu dinheiro. Ficas satisfeito?
O carcereiro empolgou a meia folha de papel e com soffreguidão o perpassa duas veses em frente dos olhos. Quando lhe cresceu tempo de o ler, curvou a cabeça em testemunho de respeito e contrictamente resmoneou:
—Meu fidalgo, bem adivinhava eu a estirpe de vossa senhoria! Tem relações com sua altesa serenissima Dona Catharina de Austria, um coração de bondade como não ha outro mais protector dos pobres e dos infelises. Que immensa gloria, que felicidade a minha em topar com tam boa e poderosa gente! Beijo-lhe as mãos, meu rico infantão. Agora sim. Para tudo quanto precise tem ás suas disposições o servo mais humilde e mais dedicado. Prompto, meu amo! Logo ou ámanhan, agora e já, sempre e sempre me disponho a servil-o. Palavra de homem honrado: quer partir já? quer que se bote o fogo a esta casa maldita? quer que se espatife{118} com um cutelo a cabeça do snr. Simão Rodrigues? Eu obedeço como deve sempre obedecer o servo, o escravo. Ordene, meu fidalgo!
—Muitas veses nos arrependemos da maxima confiança. Sou de aviso que primeiramente recebas o premio dos teus serviços. Vai e volta depois. Porventura não receias que te engane?
—Meu amo, replicou o alcaide ao mesmo tempo que rasgava com nobre desinteresse o seu papel de 1:000 escudos, de hoje por diante ficarei sempre ás ordens de vossa senhoria illustrissima. Ja pouco me importam os meus ducados. Podemos partir quando queira, meu nobre senhor...
Ouviu-se então uma voz dissonora como a furia do vendaval.
—Não partireis! trovejou Simão Rodrigues ao assomar com passo grave no portal do sombrio ergastulo.
Infelizmente para elle, o jesuita commettera um acto de rara imprudencia. Vinha só. Affeito á cega obediencia de um numeroso exercito de clerigos e alabardeiros, confiadamente se apresentou{119} á porta do carcere sem soldados nem sequito.
O badage e o carcereiro ficaram com o espirito indeciso. Ambos conheciam até que ponto alcançavam a sagacidade e jurisdicção do jesuita. Bastar-lhe-hia um gesto ou uma palavra para todos á porfia executarem immediatamente as suas ordens. Por isso não deixava de ser melindrosa a situação. Mas depressa o badage e o carcereiro comprehenderam a vantagem que levavam ao jesuita: dois contra um é sempre uma vantagem.
Simão Rodrigues entrou no carcere e o homunculo adiantou-se para a umbreira da porta. A porta era solida e perra; mas o pulso vigoroso do homunculo fel-a girar nos gonzos sem difficuldade e logo em um abrir e fechar de olhos lhe correu com a chave a lingueta da fechadura. Depois, tomando a prevenção de esconder a chave no bolso das calças, foi augmentar o grupo do jesuita e do badage.
O jesuita fallava assim:
—Pagem, quiz ganhar de el-rei o vosso perdão. Mas el-rei nosso amo não quiz perdoar os{120} vossos crimes e vós, convicto do crime de heresia, no primeiro domingo do Advento padecereis como christão novo o supplicio da fogueira. Encommendai a vossa alma a Deus...
O badage, desfechando uma risada, em bom genio redarguiu:
—Não careço do teu perdão, meu padre. Agora na minha presença deixarás de ser o provincial Simão Rodrigues: és simplesmente um reptil, um covarde, um malvado... Queres ainda lutar comigo? Braço a braço, esmago-te!
—Assim, assim, meu valente! Esmague-me essa vibora! jarrete-me esse verdugo!
Apenas o carcereiro desprendera das fauces tam rudes imprecações, o jesuita impallideceu como um cadaver. Comprehendeu o conluio; adivinhou que se trocaram os papeis. Em vez de mandar e ser obedecido, restava a Simão Rodrigues o papel de obedecer como escravo. Lance desesperado para o seu orgulho!
—Estranho o vosso procedimento, desabafou emfim. Insensatos que sois! Por ventura me faltareis á obediencia? Por acaso attentareis contra a minha vida? A minha vida pertence á{121} igreja e a Deus. Cautela com a maldição de Deus!
De nada, porém, valeram os argumentos. Carcereiro e encarcerado abafaram com um lenço a boca de Simão Rodrigues, por detraz das costas amarraram-lhe os braços com um pedaço do sambenito despido pelo badage e, como se faz a uma rez no matadouro, jungiram-no pela gorja a uma das argolas do carcere.
—Vamos deixar-te agora, proferiu o badage. Ficarás ahi, filho de Torquemada, entregue ao arrependimento e ao remorso dos teus crimes. Não teve força nem coragem el-rei Dom João III para reprimir as tuas ambições e castigar os teus delictos. Pois desempenho eu os deveres do rei! Para bem do povo e desaggravo da humanidade faz-se mister que desappareças da face do mundo e que tambem desappareça comtigo essa ordem de viboras e de tigres que para desdita nossa introdusiste de Roma nos reinos de Portugal. Adivinhas o que te vai succeder? Adivinhas por acaso? Desapparecerás para sempre, Simão Rodrigues. Antes de meia{122} hora será o teu corpo um esqueleto e esse esqueleto se redusirá a um punhado de cinzas!
Em seguida desprendeu dos pilares da abobada uma lanterna e com a chamma do pavio incendiou as roupas talares do jesuita.
Começando então de atear-se uma labareda fumegante, logo os dous companheiros a passo lesto se dirigiram para o umbral da porta e assim sem saudades abandonaram aquella horrenda masmorra.
XI
A TAVERNA
O carcereiro e o pagem toparam-se defronte do sombrio edificio de San Domingos por altas horas de uma noite escura como breu e sem ideias determinadas sobre a melhor direcção que lhes convinha aproveitar.
Era certo que por longos momentos não podiam ali permanecer sem o risco de serem percebidos e presos. Mas, em conjuncturas de indecisão, quem se lembra de acodir convenientemente pela propria segurança? Viam-se em liberdade e esse unico bem lhes parecia a suprema fortuna. A largos sorvos aspiravam as{124} emanações puras da noite e com as vistas abrangiam o espaço immenso onde volitam os astros. Pisavam aquelle chão por cem veses trilhado pelas doloridas plantas das victimas inquisitoriaes. Por ali passaram em companhia do carrasco e dos defensores da cruz algumas dusias de martyres envolvidos na samarra e cobertos das terriveis carochas sarapintadas de chammas e demonios. Mas, ainda assim, que feliz differença se se comparava a sombria praça de San Domingos com as estreitas e miasmaticas gemonias onde o corpo se esquartejava no excesso das torturas e a consciencia desfallecia á mingoa do ambiente da liberdade? Entretanto os dous foragidos, como julgando-se proximos de um foco de miasmas e de peste, reconheciam a necessidade instinctiva de se desviarem para longe. Não tinham pensado ainda na escolha do refugio. Lisboa, essa decantada sultana de marmore e granito a não invejar bellesas a Stambul, era cidade grandiosa e opulenta, era então, como a soube descrever um dos mais sympathicos engenhos da moderna geração, a «perola das cidades do mundo, a Phryné das capitaes{125} da Europa, a terra do luxo, dos praseres, das ostentações e das grandesas.»[16] Não lhe faltavam palacios nem choupanas, igrejas nem tavernas. Mas o olho dos activos inquisidores, Argos da peor especie conhecida, com tanta facilidade se estendia aos santuarios de Christo como sobre os santuarios das familias. Nada aos filhos de Loyola e aos discipulos de Torquemada lhes era vedado nem recondito: o seu fim predilecto e a sua ambição natural eram avassallar o mundo, eram enroscar-se como serpente gigantesca, desde as raises ao vertice da ramada, na arvore do universo!
Por fim os miseros foragidos tomaram uma subita deliberação. Dirigiram-se para o palacio hospitaleiro de Violante Gomes.
Apesar do prolongado e tardio da noite, ainda a formosa dama não se entregara aos dominios do somno. Entretinha-se a desferir da sua harpa de ebano e marfim alguns ligeiros acordes repassados de ternura e melancolia.
A principio sobresaltou-se e estremeceu com{126} a presença dos estranhos hospedes; mas logo com um sorriso feiticeiro de meiguice e suavidade se dirigiu ao indio:
—Por acaso, meu esforçado amigo, tendes algumas aventuras mais?
—Aventuras sérias, respondeu o badage com signaes de desanimo e tristesa.
—Não percebeis quanto sinto os vossos desgostos. Mas a culpa não será vossa? Porque não gosaes a vida em socego, sem vos importarem os negocios do estado e os interesses alheios? Vós, os homens, tendes todos o espirito mordido pelo sarcopto das ambições. Nada vos contenta.
—O destino assim é. Arrasta o nosso espirito para o bem ou para o mal do mesmo modo que succede a uma lasca de taboa ou a um pedaço de cortiça dominado pelas ondas do mar. Fica-me porém a consolação de que nunca a minha consciencia se encaminhou para o mal.
Inesperadamente sentiu-se um alteroso arruido. Algum serio acontecimento se passava no largo do Rocio. Nem mais nem menos: o palacio de Violante Gomes fora assediado por{127} uma turba sediciosa e infrene de alabardeiros e familiares do Santo Officio.
Não era agradavel nem segura a posição dos foragidos das gemonias inquisitoriaes. Escapar, seria negocio difficil. Combater, seria temeridade com todos os visos de loucura. Sem embargo o indio não desanimou nem tremeu.
—Senhora, disse para Violante Gomes, os vossos hospedes são incommodos e perigosos. Por isso vos disemos adeus até melhor occasião. Vamos ao encontro dos inimigos...
—Loucos! acodiu a esbelta dama. Deixai as escadas e vinde por este sitio. Segui-me depressa!
Violante Gomes, allumiada por um castiçal de prata, adiantou-se por um corredor estreito, subiu os degraus de umas escadas mais estreitas ainda e chegou ao recanto de uma saleta desguarnecida.
—Já, já! Apressai-vos a abrir essa janella. Deita para os telhados visinhos e, tres ou quatro varas além, podeis escapulir-vos com segurança. Não afianço que não haja perigo...
—Podemos cair dos telhados á rua como dous gatos ou dous perros, então regougou pela{128} primeira vez o ex-carcereiro. Mas nada de sustos. D'entre dous perigos escolhe-se o menor.
Alguns momentos depois a janella tornara-se a fechar e Violante Gomes desceu com animo desassocegado aos primeiros aposentos.
O borborinho e a algasarra não affrouxavam. Pareciam o preludio de uma d'essas tremendas tempestades que se chamam revoluções populares.
—Abram a porta, abram a porta!
A estes rugidos de panthera ninguem respondia do palacio. As voses proseguiam entretanto:
—Abram, senão arromba-se!
—Arrombe-se a porta!
—Á ordem de el-rei! Manda el-rei!
—Abram! abram, sôs fidalgos!
Como a porta não cedesse á intimação, as coronhadas principiaram de desempenhar o seu papel destruidor. Grito infernal, desacato immenso!
De longe a longe uma voz robusta e vibrante forcejava por dominar a gritaria.
—Basta, basta! bociferava.{129}.
Esforços baldados, porém. O barulho, em vez de esmorecer, augmentava pouco a pouco. Scenas de sangue e horror iam começar ainda.
Entretanto os evasores dos ergastulos inquisitoriaes conseguiram chegar ao meio da rua da Bitesga e ali resolveram parar á porta da taverna de um parente do carcereiro.
Em derredor de comprida e nodoenta banca de pinho bebiam, gesticulavam e rosnavam em selvatica liberdade uns quinze homens de esqualida catadura e trajos andrajosos que logo á primeira vista se consideravam relé de virtudes duvidosas.
Ainda mais seis ou oito colossos de eguaes trajos e costumes resonavam a fartos folegos aos recantos da baiuca, uns acocorados indolentemente no chão e outros encostados sem a minima ceremonia a escabellos e tamboretes.
Se aquella turba esqualida não denunciava um covil de feras, certamente não parecia um grupo de seres humanos. Eram homens todavia; mas homenzarrões de côr macilenta, voz cavernosa e cabeça guedelhuda e cerdosa como de juba de leão.{130}
—Leve o diacho, rugia um d'elles, que leve o diacho tanto a zurrapa como quem nol-a vende. Esse filho da breca jamais nos deu cousa com geito. O vinho... que peste! O vinho é sempre do peor e do mais caro como se o vendesse a mastins da igualha d'esse bisneto de Judas.
—Pois andas mal, pedaço de asno, acodiu segundo bebedor dirigindo-se do mesmo modo ao taverneiro. Se te não emendas e não cobras tento, nós ensinamos-te deveras. A freguesia, meu lorpa, deixa-te ás moscas o presepio...
—Por isso, redarguiu de mau humor o dono da taverna, não me ha de ferver o miolo. Fregueses como tu, Chico, ou tambem como tu, Miguel Farçante, juro que os tomara ver a cem leguas do bairro. Sempre traseis os bolsos mais cheios de sarna e cotão que de chelpa. De calotes estou eu farto dês que vos aturo.
—Cala-te ahi, volveu-lhe o bebedor Miguel Farçante. Bem sabes que não sou de genio talhado para lerias...
—Puf, meu valentão das dusias! Lerias tuas é que pouco me importam. O que mais quero é que me paguem e tu, se herdasses a vergonha{131} dos homens honrados, não me punhas mais as patas de portas a dentro.
—Uum, uum! Pois isso vai assim, grande lorpa! Toma lá pela injuria...
Logo na face cadaverica do vendeiro estalou uma punhada gigantesca. O vendeiro quedara a principio silencioso e soffredor como uma estatua; mas depois com a ligeiresa de um tigre pegou pelo bojo de um cangirão quasi cheio de vinho e, ministrando-lhe a força de um punho de Sansão, em um apice o arremessou á cabeça do aggressor. O barro quebrou-se em pedaços e dous jorros de sangue borbulharam da testa em que elle bateu.
Immediatamente, em guisa de campo de batalha, se estremaram dous partidos. Em todas as mãos luziam aos reflexos das candeias facas e punhaes. Metade dos fregueses predispunha-se para a defesa e outra metade para a investida.
—Vaes levar a tua conta, meliante!
—O vendeiro teve rasão...
—Rasão vamos ver quem a teve! Trocaram-se estas rudes ameaças em um{132} abrir e fechar de olhos. Eram o preludio de uma contenda furiosa entre dusia e meia de ebrios e malvados, homunculos sem consciencia do bem e do mal, tam lestos em derramarem o sangue das veias de seus irmãos como em beberem até aos bordos um cangirão dos saborosos liquidos extrahidos das parras do Seixal.
Foi então que o ex-carcereiro e o badage reconheceram a necessidade de entrar na taverna.
—Meus rapases, fallou-lhes o badage, não estamos em maré de bulhas e rixas com amigos. O valor e a coragem podem experimentar-se em outra liça. Quereis mostrar-me agora que sois valentes, meus rapases?
—Topa-nos ás ordens, fidalgo! Mas primeiro deixe-nos dar uma tosquia a taverneiros desaforados.
O vendeiro estava já bem seguro pela gola da jaqueta. Miguel, querendo vingar-se da ferida, ergueu o braço musculoso e ia sem clemencia descarregar-lhe sobre o peito a lamina do seu punhal. Mas o golpe falhou. O badage{133} segurou com força extraordinaria o braço que sustentava o punhal.
Então o barulho arrefeceu e aquella corja de ebrios, baixando as facas e os punhaes, pediu e celebrou tregoas.
—Disei-me pois, dirigiu-se-lhes novamente o badage, se quereis ou não quereis provar o vosso valor e a vossa força. Preciso do serviço dos vossos braços, meus rapases.
—Fidalgo, responderam logo, diga lá o que nos quer.
—Toca a beber primeiro, volveu o badage. Quem paga é a minha bolsa. Venha lá do melhor e do mais caro: Seixal ou Caparica do mais velho.
O vendeiro apresentou seguidamente seis garrafas cobertas de pó e foi despejando as primeiras duas no bojudo cangirão.
O badage pegou da vasilha e dispôz-se a offerecel-a a cada um dos homunculos. Cada cangirão mal chegava para quatro bebedores, mas á medida que se esvasiava não se esquecia o taverneiro de o reencher até aos bordos.
Todos beberam á vontade em menos de meio{134} quarto de hora e como o badage tivesse pressa de lhes aproveitar os serviços tratou de conduzil-os em direitura do Rocio.
—Adeus e obrigado, disse para o taverneiro. Ahi tens um ducado de ouro de lei. Guarda-o em paga do teu vinho.
—Obrigado lhe digo eu, fidalgo. A despesa está paga. Não aceito o dinheiro de vossa senhoria e ainda lhe fico devedor de muito mais.
—O taverneiro é generoso, é generoso! conclamou a maioria dos fregueses.
Preparavam-se todos para sair quando se lhes dirige ainda o taverneiro:
—Mas para onde vades assim, papalvos?
—Nós te diremos depois para onde vamos, retrucou o ex-carcereiro. Quem fôr peco e desanimoso que fique para ahi como um perro. Pela nossa banda queremos só gente de animo decidido e braço alentado.
—Bofé que ninguem dirá que o taverneiro da Bitesga foi algum dia peco! Mas ouvi rosnar por ahi que era preciso combater e brigar. Se a coisa é séria, unicamente facas e punhaes são armas de pouca monta.{135}
—Fallas com a prudencia de Dom Vasco da Gama, apoiou o indio. Mas não temos horas a perder e, na falta de outras armaduras, todas as que se encontram á mão nos parecem de boa tempera.
—Serão. Mas devem concordar que as ha bem melhores de tempera e de alcance. Uma espada alcança mais longe do que um punhal e os pelouros de um bacamarte vão mais longe ainda...
—É certo. Mas onde ha por ahi perto algum arsenal?
—Um fiel vassallo de sua altesa serenissima deve estar sempre bem apercebido e armado. Esperem um bocado, esperem que eu venho já.
Subiu o taverneiro ao primeiro andar da escura baiuca e momentos depois se apresentou no meio dos seus fregueses com um braçado respeitavel de bacamartes e de pistolas e machados, ascunhas e espadas. Para complemento da collecção de armaduras de que falla o cantor dos Lusiadas faltavam ainda{136}
Os arneses e peitos relusentes,
Malhas finas e laminas seguras,
Escudos de pinturas differentes,
mas certamente sobejavam
Pelouros, espingardas de aço puras,
Arcos e sagittiferas aljavas,
Partasanas agudas, chuças bravas.
—Para meia dusia de amigos, regougou o taverneiro, aqui temos pão e queijo. Escolham á vontade...
Ficaram logo apercebidos e apetrechados seis ou oito dos mais robustos e decididos. O numero restante julgou-se egualmente bem armado com os seus punhaes de fina lamina e as suas facas de ponta cuidadosamente afiada.
—Agora, ordena o badage, cuidemos da partida. Alma alegre e caras á frente. Vamos combater nada mais e nada menos que os serventes e soldados do Santo Officio...
—Do Santo Officio! exclamaram com espanto.
Houve um momento de indecisão. Aquella palavra terrivel incutiu deveras o terror nos espiritos mais varonis e affrouxava de medo o braço{137} mais possante. O tribunal do Santo Officio ou da Santa Casa, segundo o conceito de um escriptor, comparava-se então pouco mais ou menos com a arca de Noé, observando-se unicamente a differença de que os animaes que entraram na arca sairam como tinham entrado e de todos os que eram encerrados nos carceres da inquisição se viam sair mansos como cordeiros aquelles que á entrada tinham a crueldade dos lobos e a feresa dos leões!
—Vejo, rosnou o ex-carcereiro, que não sois homens para empresas serias. Tanto medo para nada! Eu, que servi por alguns annos essa corja de inquisidores, confesso-vos que não recuo nem me arreceio.
—Aqui ninguem confessa medo! interferiu o vendeiro com heroica resolução. A vida é uma ninharia e a mim tanto se me dá morrer hoje na praça como ámanhan na cama. Vamos ou não vamos, rapases?
Momentos mais tarde a baiuca ficou permanecendo silenciosa e vasia.{138}
[16] Arnaldo Gama. O segredo do abbade.
XII
REFERTA DE TIGRES E LEÕES
Este arrojado troço de feras humanas premunidas com lanças e espadões, ascunhas e alabardas, facas e mosquetes investiu no Rocio com rude e selvagem ousia contra a infrene multidão. Ia travar-se agora uma luta de tigres e leões.
Nem a surpresa nem o medo conseguiram afugentar as mulheres ou as crianças. As mulheres gritavam e rugiam como pantheras, as crianças, em corridas vertiginosas arremessavam pedras e calhaus, os velhos sentiam refluir-lhes o sangue da juventude e serviam para animar{140} os brios dos mais novos. Uma destemida populaça e uma horda fanatica de soldados lidavam e combatiam, como em liça de musulmanos contra christãos, com egual coragem e com o mesmo furor.
Decorreram breves minutos e já se via, como na manhã seguinte de uma noite de batalha, o chão alastrado de corpos ensanguentados e moribundos. Mais de quinze cadaveres, não memorando a desastrada hecatombe dos feridos e contusos, eram já os tristes despojos e as victimas infelises da contenda.
O ruge-ruge, a voseria, a confusão e as cutiladas pareciam todavia cada vez mais longe do seu fecho. Mas, predispondo-se a restabelecer o socego, um personagem de altivo porte e animo resoluto á semelhança dos paladinos da idade media, rompeu com bravura por entre o populacho e a soldadesca proferindo em voz sonora: basta, basta!
Depressa foi reconhecido o campeão e, sendo-lhe franqueada a passagem com todas as demonstrações de respeito, ergueu-se o grito geral de—viva sua altesa! viva o senhor infante!{141}
O infante Dom Luiz desembuçou a capa de veludo, mostrou ao povo o seu rosto sympathico e com serenidade lhe fallou assim:
—Ordem, ordem! El-rei deseja e estima a vida dos seus vassallos. Não quer que elles vertam o seu sangue de tal sorte. Cobrai tento e socego, meus amigos!
Entretanto um dos mais inquietos e terriveis contendores foi pouco a pouco recuando com a espada em punho até se aproximar do infante. Não recuava de susto ou por impulsos de fraquesa, que nunca o seu espirito fôra abalado pelo medo nem os nervos do seu braço jámais affrouxaram nas conjuncturas do perigo.
—Debalde gastaes a paciencia e o tempo, lhe segreda. Esta corja infrene e rebelde que nem de filhos de Satanaz, decerto vos não obedece nem respeita.
Não lhe sobejou ensejo de alongar o discurso. Um troço de aggressores armados de alabardas e espadas, de picos e ascunhas investiu contra elle ao grito diabolico de—morram os hereges, morram os traidores!{142}
—Morram, morram os judeus e os hereges! conclamaram logo de todas as partes.
O infante, desnudando a espada, enrostou com a massa dos aggressores. Elles porém, demovidos pelo respeito e pela estima que todos professavam pelo irmão de el-rei, suspenderam o passo.
—Ousareis porventura, lhes disse, erguer armas contra o irmão de el-rei?
—Não queremos offender vossa altesa, responderam do meio dos aggressores. Queremos só esse herege e esse criminoso que ahi está. Esse buscamos, buscamos esse só.
—Que me quereis então? proferiu com sobrecenho e desassombro aquelle que indigitavam.
—A vossa cabeça. A vossa cabeça de traidor para a ponta das nossas lanças e o vosso corpo de herege para a fogueira do Santo Officio.
—Rapases, retorquiu o infante com asedume, a el-rei sómente incumbe o castigo. Não vos é dado justiçar por vossas mãos. Se ha ahi algum criminoso, os juises de el-rei o tem de punir segundo as leis e usos do reino.{143}
—Diz bem o senhor infante, concordaram alguns dos representantes da populaça.
—Ide-vos em boa paz então. Restabeleça-se a ordem e haja por toda a parte socego.
—Mas quem nos responde pelo herege? Quem nos responde por elle?
A estas interrogações dos mais exigentes, accrescentaram ainda algumas voses:
—Sem castigo não deve ficar. É de justiça, é de justiça que seja punido...
—Será feita justiça, retorquiu o infante. Prometto-vos debaixo de minha palavra de Prior do Crato e, o que não vale menos, de leal cavalleiro, que o levarei á presença de el-rei para que se faça justiça rigorosa.
Seguidamente pela Bitesga e outras ruas dispersou-se pouco a pouco a sediciosa turba. O infante Dom Luiz acompanhado pelo badage, esses meteram pela rua da Palha em direcção aos paços da Ribeira.
—Decerto cumprirá vossa altesa a sua palavra? inquire o badage a meio do caminho.
—Sinto, meu amigo, que me reservasses o{144} officio de carcereiro. Mas confio que meu irmão e senhor não deixará de vos tratar bem.
—Alimenta vossa altesa mais esperanças do que as que eu nutro. Do animo generoso de el-rei pouco espero. Desconfio que precisa a guela d'aquelle serenissimo sapo de mais uma doninha...
XIII
O LEITO DA DOR
As festas e os folgares não se interrompiam nos alegres paços da Ribeira. Comtudo não havia remedios nem divertimentos que restabelecessem a saude do joven herdeiro da coroa.
A maior parte dos dias passava-os elle de cama. Acommettera-o grave enfermidade. Queixava-se continuamente de dores de entranhas e revoluções de estomago. Emmagrecia a olhos vistos e a cada hora mais se lhe pronunciava a debilidade do corpo.
Á sciencia medica os symptomas e o caracter do mal não despertavam todavia os minimos{146} cuidados. Effeitos do fastio e consequencias de debilidade, eis a opinião uniforme de todos os Esculapios e Galenos da côrte. Mas é certo que sua altesa peorava de dia para dia. Pouco a pouco encovavam-se-lhe os olhos, entesavam-se-lhe os dedos, empallideciam-lhe as faces, afilava-se-lhe o nariz, destingiam-se-lhe os beiços e enfraqueciam emfim todas as carnes e todos os musculos.
Nada o entretinha nem consolava. Até os seus dilectos livros e os seus estimados trovadores lhe enfastiavam agora. Já não dava apreço ás quintilhas de Francisco de Sá, á Diana de Souto Mayor nem aos autos de Gil Vicente. Consumia todo o seu tempo em suspiros e lamentações. Á proporção que lhe desfalleciam as forças do corpo, iam-lhe fugindo do espirito a coragem, a resignação e a paciencia.
Scena enternecedora em verdade era vel-o carpir as desditas da sua mocidade quando a esposa delicada e nervosa o procurava alentar com o balsamo das esperanças e dos carinhos! Era o seu anjo tutelar a fiel e amoravel esposa. Jamais lhe abandonou o leito da dor e todos{147} seus thesouros de ternura com elle os gastava generosamente. Nunca seios de mulher compartilharam assim das amarguras alheias.
A alcova e os aposentos do principe ficavam no segundo andar dos paços regios. Ali de canto a canto reinava um luxo oriental nas rendas e nas tapeçarias, em todos os ornamentos e em toda a mobilia. Mas de que valiam esses brocados e essas riquesas? Faltava ali uma coisa vulgar: a alegria. A saude não se póde comprar com ouro e sem o dom precioso da saude não existem as alegrias domesticas, os risos da existencia.
El-rei seu pai, talvez porque o excesso da sua augusta sensibilidade lhe não permittia espectaculos de tristesa, raras visitas se dignava faser-lhe. Em compensação a rainha sua mãe todas as manhans se lhe dirigia á cabeceira do leito e a todas as horas mandava perguntar por suas damas se o principe melhorava.
Pela saude do joven principe todas as damas, fidalgos e poetas da corte simultaneamente se interessavam. Muitas noites estava a sua alcova liberalmente cheia de amigos e aduladores. Como{148} se não julgava de gravidade a molestia, facilitava-se a honra da entrada a todas as pessoas do tracto e das relações do paço.
Vai correndo o dia dous de janeiro de 1554 e são quasi dez horas da manhan. Sua altesa parece dormir a somno solto e na sala contigua estão esperando que estremunhe e acorde duas dusias de poetas e fidalgos, de damas e criados. As damas chamam-se Dona Francisca de Aragão, Dona Catharina de Athayde e Dona Leonor Mascarenhas. Os poetas, contando os de maior nota, são Dom Manoel de Portugal, João Rodrigues de Sá, Frei Paulo da Cruz, Dom Simão da Silveira, João Lopes Leitão, Jorge Souto Mayor e Antonio Ribeiro Chiado.
Conversam uns com os outros em voz desanimada e confrangida. A todos parece faltar assumpto e liberdade. Está reinando certamente um quarto de hora de monotonia. Mas eis que entra ainda um homemzinho magro e pletorico, de barbas louras e cabellos compridos. Tem o nariz afilado, os olhos vivos e as faces pallidas. A boca mostra-a de exiguas dimensões, mas, segundo a fama que em Lisboa corria, no comprimento{149} da lingua ninguem se lhe avantajava.
Vem todo aparaltado e nedio com sua gargantilha encanudada e seus punhos de alvas rendas. Traz na mão esquerda um chapeu de feltro enfeitado com sua pluma branca. Dos hombros pende-lhe um farto capirote de panno preto. Calção e gibão foram talhados de veludo verde. As meias eram de fina seda cor de carne.
—Seja bem vindo vossa mercê, meu illustre coripheu da Castalidum turba!
A esta jovial saudação de Souto Mayor o recem-chegado estendeu a dextra e apertou com extremos de delicadesa a robusta mão do cantor da Diana.
Todos os outros cavalheiros procedem por sua vez a eguaes manifestações de amisade e seguidamente se dirige o recem-chegado para a alcova do principe. Depressa porém reapparece na ante-camara.
—Está descançando no regaço de Morpheu, murmurou elle com um sorriso prasenteiro.
—É certo que sua altesa está a dormir, confirma prosaicamente a celebrada e formosa{150} Natercia. Mas por isso não nos ha de deixar o nosso amigo Pedro Caminha. Estou anciosa por ouvir as suas poesias, meu caro Apollo.
—A musa tem andado constipada, minha gentil Galatea.
—Os numes não se constipam, acode o faceto Chiado.
—Não o deixamos partir sem nos recitar algum poema, accrescenta Dona Francisca de Aragão.
—Assim rogam tanto! Estou plebeamente envergonhado por não traser peça de valor; mas não sei se lhes mostre...
—Mostre, mostre, senhor Caminha! rogaram com alegria tres voses de guelas feminis.
—Mas que lhes hei de eu mostrar, pobre versificador de eglogas e elegias!
—Quer mote?
—Metem-me em trabalhos, metem-me em trabalhos de Hercules; mas venha de lá...
—Deixemo-nos de mote, replica Souto Mayor. Ouvi diser que é maravilhoso o ultimo parto do engenho de vossa mercê. Recite-o antes vossa mercê.{151}
—Votos, pedimos votos! regougam a um tempo dous divergentes cavalheiros.
Entretanto uma das travessas damas atreve-se a introdusir os ageis dedos no bolso do collete de Pedro Caminha e logo com expansivo contentamento desembrulha uma pequenina folha de papel amarrotado.
—Eureka! exclamou ella com enthusiasmo.
—Leia lá, senhora Dona Francisca.
—Eu leio, eu leio!
Pegou Pedro Caminha no precioso autographo[17] e com entono magestatico se dispoz a recitar:
Muitas veses meus versos me pediste
Que t'os mostrasse e nunca te mostrei;
Em não pedir-te os teus, se bem sentiste,
Entenderias porque t'os neguei:
Da paga me temi; se a não tivera
Muitas veses meus versos já te lera.
Subito rubor purpurea as faces de Souto Mayor. Julga que elle mesmo fôra o alvo do{152} epigramma e vai certamente dar o troco em egual moeda quando o auctor do Olyssipo requer explicações.
—Diga-nos vossa mercê, acodiu Jorge Ferreira, que allusões cavillosas são essas as do seu epigramma, senhor Caminha?
Caminha virou nas mãos a folha de papel e em voz mais elevada continua de ler:
Um tem dois olhos e com vista clara,
Outro um só tem e esse co'a vista estreita.
Diz este áquelle: «Amigo, eu apostara
A qual de nós tem vista mais perfeita?»
Quem houvera que a si não se enganara
Como o outro que enganado a aposta aceita?
Diz-lhe este: «Vê que vejo mais que ti,
Pois dois olhos te vejo, um só tu a mi!»
—Bravo, excellente! exclamara João Rodrigues de Sá quando comprehendeu que os epigrammas se dirigiam a esse misero poeta que valia mais que todos elles porque se chamava Luiz de Camões e porque era talvez o primeiro, o ultimo, o maior portuguez do seculo deseseis.
—Deveras excellente! Excedeis Horacio e{153} Marcial, meu illustre e grandioso vate! com estudado sorriso e com excesso de lisonjaria acrescentou ainda Jorge de Souto Mayor.
A este pomposo elogio immediatamente replica o padre-mestre dos epigrammas:
—Agradeço as vossas finesas, meu Petrarcha. Um frouxo de tosse fez por esta occasião acorrer as damas ao quarto do principe.
Acordara sua altesa com a indiscreta algasarra e a meio corpo se erguera sobre os macios travesseiros do leito. Parecia mais alliviado da enfermidade, mais jovial do olhar e menos cadaverico do gesto.
—Vossa altesa dormiu bem? pergunta-lhe Dom Jorge de Moura aconchegando-se do leito.
—Sinto-me com mais animo e parece-me que vou melhorando...
—Não tardará que vossa altesa esteja restabelecido. Isso não ha de ser nada, querendo Deus.
—Assim espero que aconteça; mas não sei, meu amigo, não sei o que sinto nem o que padeço. Ha tantos dias na cama sem forças nem saude!{154}
—Disem os medicos que não passam de debilidade os achaques de vossa altesa...
—Os medicos sabem tudo, sabem tudo... Só não sabem dar-me cura!
Abriu-se o reposteiro da alcova e a comprimentar o principe entrou agora a colmea dos admiradores do poeta Caminha.