[17] Veja-se a Vida de Camões, por Theoph. Braga.
Respeitosamente foi comprimentado o herdeiro da coroa por todos os poetas e cortesãos que de improviso assaltaram a alcova. Mas o joven Dom João não se encontrava em maré de paciencia para aturar importunidades e por isso a numerosa colmea dos nobres aduladores cuidou logo de se despedir.
A alcova permaneceu deserta; mas soou depressa o estalido de uma secreta mola e a um dos cantos sahiu vagarosamente por uma porta escondida na parede o aventuroso pagem.
—Bom pagem, fallou-lhe o principe decorridos{156} alguns momentos, sinto que me vão affrouxando o animo e a paciencia. O badage aproximou-se do leito.
—São effeitos da doença, respondeu pausadamente.
—Disem-me todos que isto nada é. Todos me enganam... Só tu me dises que estou doente... Sabes que doença padeço?
—Sei, meu principe.
—Que doença é?
—Francisco Lopes que vos responda, senhor.
—Não és sincero. Tambem tu me enganas, pagem.
—Receio declarar-vos a verdade.
—Tenho coragem para a ouvir. Falla, falla...
—Vós todos, principes e monarchas, só tendes abertos os ouvidos á adulação e á mentira. A verdade é amarga e severa. Seria para as vossas organisaçoes anemicas e sedentarias um eleboro violento em demasia. Mas podesseis comprehender as bellesas e vantagens da verdade que seria mais tranquilla a vossa consciencia e mais duradoura a vossa saude. Então saberieis ler no livro mysterioso do destino os deveres{157} que vos determina a Providencia. Serieis então os amigos e os protectores do povo...
O enfermo escutava pela primeira vez tam dura e irreverente linguagem; mas, como se tivesse o espirito fascinado pelo canto de uma sereia, não ousava interrompel-a.
Com mais valentia de voz o badage proseguiu:
—Abençoados os monarchas que são os amigos e protectores do povo! Abençoados sejam! Mas a maioria d'elles entrega-se noite e dia ao turbilhão vertiginoso dos praseres e das orgias em menoscabo dos interesses publicos e em prejuiso da ventura das nações. Não é grande o numero dos monarchas, por mais ricos e poderosos que sejam, que morrem com a consciencia de haverem feito a felicidade dos seus vassallos. Parece que teem os olhos vendados para o bem...
—Cala-te, que és injusto e severo. Que mal te fez meu pai ou tenho feito eu para seres assim tam rigoroso de palavras?
—Sois christão e mostraes ignorancia da leitura do Evangelho. Pois sabei que pelas culpas{158} dos paes respondem os filhos até á quinta geração...
—Eu sei o que disem as escripturas santas; mas de que mal e de que peccados accusas meu pai?
—Rio-me da vossa innocencia, meu principe. Por ventura ignoraes os descreditos e vexames que todos vamos soffrendo cada dia? Quantos desacertos e que torturas se não commettem ao sabor de Simão Rodrigues e só por interesse do tribunal da inquisição? Bastará o Santo Officio para causar maiores damnos do que a peste e mais opprobrio do que a forca. Nas mãos dos seus ministros flammeja o cutelo do carrasco, que é o mesmo que o estilete do assassino. Confisca-se a propriedade, assassina-se o fidalgo, rouba-se com a riquesa a honra alheia e queima-se nas labaredas da fogueira o servo da gleba para que se accenda mais uma lampada no altar da tirannia e se fortifique ainda com mais uma columna o templo da igreja!
—Não blasfemes assim, hereje. Lembra-te que fallas diante de um principe de sangue.
—Principes e monarchas não os respeito nem{159} acato senão pelo esplendor das suas virtudes. Onde está o rol das vossas virtudes? Foi benefica a missão de que vos encarregou o Deus que sempre tendes á flor dos labios e a que nunca ergueu altares o vosso coração. Deus mandou-vos amar o proximo. Devieis ser o auxilio e não o latego do povo. Mas vós, que tendes para tudo ministros e conselheiros, só os não tendes para vos aconselharem a minorar os infortunios do pobre e obrigarem a repartir com as crianças que padecem fome as iguarias superfluas dos lautos e magnificos banquetes...
—Não te quero ouvir mais, não te quero ouvir mais. Lembra-te que ainda te posso punir e esmagar, villão!
—Tendes o poder e a riquesa, herdeiro do throno de Portugal. Sei que sempre a vossos pés se rojaram desenas e dusias de cortesãos ambiciosos, cortesãos que se habituam a procurar o esplendor das gemmas preciosas das coroas regias para encobrirem a baixesa da sua consciencia e a lepra do seu espirito. Sei que todos os vossos caprichos e devaneios, embora custem milhares de crusados, serão satisfeitos{160} mais depressa, do que se enxuga o pranto do desvalido que, relado pela fome, se vê estrebuchando na enxerga pestilenta da miseria... Mas vejo tambem que se offusca o nimbo da vossa gloria e declina a estrella da vossa grandesa! Em vez de ser de perolas e rubis, será logo de terra e de cinzas a vossa coroa. Depressa se desfará em pó o vosso sceptro e, em vez de recamarem o vosso corpo o ouropel e os avellorios do throno, será entregue o vosso corpo aos vermes e á podridão do sepulchro!
—Basta, basta! São de fogo as tuas palavras. Sinto que me requeimam as entranhas, pagem!
N'este comenos entrou Francisco Lopes a satisfaser a sua visita ordinaria.
O medico aproximou-se do principe, ausculta-lhe o peito com a maior observação e em seguida com todo o cuidado lhe tatea o pulso.
Não proferiu um monosyllabo e jámais denunciou pelas impressões do rosto ou por outros quaesquer signaes exteriores a gravidade ou as melhoras do enfermo.
Sempre com a mesma austeridade aproximou-se{161} de um dos angulos da alcova, recurvou-se de vagar sobre uma elegante mesa de jacarandá, serviu-se de uma penna de pato collocada ao longo de um precioso tinteiro de prata e com rapidez formula em meia folha de papel o recipe do costume.
Em seguida o medico ergueu com dous dedos a receita, baixou com gesto comprimentador a cabeça em direcção do leito e logo com inalteravel silencio transpoz os umbraes da porta.
No centro da sala contigua esperava-o uma pessoa vestida completamente de roupas negras que ninguem mais era senão o jesuita Simão Rodrigues.
A meia voz segredou-lhe o medico:
—Está moribundo. Está sem vida. Morre antes de meia hora.
O jesuita laconicamente accrescentou:
—Requiescat in pace!
Entretanto não abandonara o badage o leito do principe. Ninguem mais se conservava ali. Talvez porque se quisesse poupar a organisação debil do principe ás fadigas das conversações e ao constrangimento das visitas, ou então por{162} que o quadro pavoroso da morte não é espectaculo que deleite as vistas e atraia a presença dos cortesãos.
O espirito de sua altesa estorcia-se nos derradeiros paroxismos. Poucos momentos de vida lhe restavam já e que severos momentos de tortura não deviam de ser aquelles! Affligiam-no contorsões horrendas; o fogo violento de um vulcão abrasava-lhe as entranhas; os musculos e tendões dos braços pareciam fios de arame agitados por uma descarga electrica.
Elle todavia prestava segura e ininterrompida attenção ás palavras mysteriosas do badage. Sobresaltava-se, contorcia-se, desesperava-se como se lhe ardessem as carnes no brasido infernal de uma fornalha; mas ainda nutria alentos e voz para de quando em quando diser ao badage:
—Contai-me tudo, contai-me tudo o que sabeis...
O badage continuou a revelar-lhe:
—Vou por fim denunciar-vos tudo o que sei. É caso incrivel, mas é verdade. Foi crime horrendo, mas aconteceu. Está soffrendo vossa altesa{163} os effeitos do veneno e é el-rei, acredite-me vossa altesa, é el-rei Dom João III a causa da sua morte!
A tam inesperada e tremenda revelação o corpo do principe contorceu-se com maior violencia. Quiz erguer-se do leito, gritar logo por soccorro e despedaçar as carnes com as unhas como se o dominassem os instinctos de um abutre. Porém a alcova nupcial tornara-se depressa a habitação lugubre da morte. Agora a voz e as forças abandonaram de vez o corpo franzino do principe. Era elle apenas um cadaver!{164}
Com o espirito entregue aos dominios de uma vaga melancolia desceu seguidamente o badage ao primeiro andar dos Paços da Ribeira, onde, ao derredor de uma luxuosa banca pejada de papeis, meia dusia dos mais altos personagens se debatiam em calorosa conversação nos aposentos particulares de el-rei.
O badage, predispondo-se a colher o fio da conversação, cautelosamente applicou o ouvido ao ralo da porta dos regios aposentos.
—É mister, continuava de expor ao monarcha o beato provincial, um tremendo e exemplar{166} castigo. Aquelle herege não póde ser absolvido nem perdoado. Sabeis, senhor, até onde alcançam o grau dos seus crimes, o excesso das suas heresias, o numero dos seus peccados?
—Já me contaste, meu padre, o que por desfortuna vos aconteceu. Confesso que foi horrivel a vossa posição. Atrever-se aquelle herege a martyrisar-vos com o fogo! Presumo que não foram os vossos tormentos inferiores aos de San Lourenço, o martyr das grelhas.
—Pela minha parte lhe perdôo tudo. Encontro-me salvo e livre de perigo. Agora só me resta esquecer de boamente o mal que me fez. Mas os desacatos á religião catholica, as offensas dirigidas a Deus...
—Perdoae-lhe vós, observou a rainha, que Deus tudo perdoa como pai de misericordia.
—Vejo que minha presada esposa, accrescenta o monarcha, se interessa generosamente pelo seu pagem. Cá de mim não tenho resentimentos nem gostei nunca de vindictas. Em boa fé, meu padre, vos declaro que tudo esqueço. Mas que diseis, Simão Rodrigues? De vós depende o perdão ou o castigo!{167}
Dispunha-se a retorquir o provincial quando o badage se apresenta de improviso.
—Recuso, disse com firmesa, todo o perdão e todo o favor. Simão Rodrigues, Simão Rodrigues, sois vós que precisaes da graça de el-rei!
—Não comprehendo bem o teu orgulho, meu amigo! acodiu o nobre Duque de Beja.
—É o orgulho de quem estima e defende uma boa causa: a causa do povo.
—O povo, sempre o povo! exclama com asedume o terrivel jesuita. Dize-me: que entendes tu por essa massa enorme e infrene, esse corpo sem entendimento nem consciencia que apedreja hoje o idolo da vespera, essa cabeça desvairada que nunca soube comprehender as doçuras da paz nem respeitar as glorias de Deus?
—O povo, proferiu o indio com enthusiastico espirito, é um instrumento de trabalho que emprega todo o suor do seu corpo e todos os dias da sua existencia no roçar das charnecas, no arroteamento dos latifundios, nos perigos e labores das officinas, sobrecarregado sempre de{168} gabellas e desfavores, ganhando apenas os meios pecuniarios de não morrer de fome e não conseguindo nunca abandonar a sua condição servil. É o contrario de essa classe que se chama a nobresa e de essa oligarchia que se chama o clero. O nobre e o padre, favorecidos por uma legislação de isenções e privilegios, são homens livres que deixam de contribuir para as despesas do estado, que tudo á larga possuem e que desconhecem os suores do trabalho. Gosam e mandam a seu alvedrio... O povo, todavia, constitue a maxima parte, a grande porção do estado. Do seu braço, das suas forças e da sua actividade provém a riquesa publica, a defesa das monarchias ou das republicas, a manutenção da ordem e da paz, o desenvolvimento do commercio e das industrias. O povo é o elemento mais forte das instituições politicas e da ordem social: o eixo e as rodas da machina social. Seria preciso conseguintemente não despojal-o da sua personalidade e da sua liberdade... Mas quando irromperá a fulgorosa alvorada em que esse rebanho de ilotas ou escravos desperte ao grito heroico e triunfal de um novo Spartaco,{169} o libertador dos povos? Quando, proclamado o advento da igualdade e da justiça, surgirá a epocha redemptora em que a essa cohorte renegada de hebreus se concedam pelas prescripções de uma legislação benefica e humana os foros de cidadãos e os direitos de homens livres, a sua alforria politica e social emfim? Eu erguerei sempre a minha voz contra os excessos da tyrannia feudal, inquisitorial ou real que fasem do povo uma besta de carga. O systema pagão ainda prevalece nas hodiernas sociedades, apesar de já decorrerem mais de quinze seculos de christianismo[18]: isto é do reinado da igualdade, da liberdade, da fraternidade humana. Porque se não ha de abolir este nefando systema aperfeiçoando as coisas existentes, dando ás ideias diversa direcção, melhorando as leis e os habitos e os costumes? Vós, provincial Simão Rodrigues, confiaes que, submettendo o povo ao jugo da escravidão e roubando-lhe a luz do sol nas abobadas dos carceres, conseguis a regeneração da sociedade civil e a grandesa da igreja catholica. Mas por{170} acaso ignoraes que a consciencia publica e o senso universal reprovam com vehemencia as traças e ardis empregados pelo vosso systema estacionario e fanatico, systema vergonhoso que directamente conduz á anniquilação e ao opprobrio? As nações não podem viver sem leis de egualdade na distribuição dos bens e dos males, dos cargos e beneficios. Não podem os homens coexistir e prosperar sem as vantagens de uma associação commum. Como é pois que a vossa corporação de jesuitas ambiciona dispor de todas as forças e riquesas, de todos os elementos de soberania e de todos os graus de despotismo? Não comprehendeis o grande pensamento do dever—que é a lei da vida, a grandiosa ideia do bem—que é o dever da humanidade! Conheço que debalde cairei sem nome nem gloria como o soldado ferido no fragor dos combates. Mas eu vos profetiso, Simão Rodrigues, eu vos profetiso que ainda um dia, ao grito de triunfo dos meus irmãos, ha de sobre as cinzas frias do jesuitismo e dos Cains do Santo Officio erguer-se em canticos de alegria o altar da liberdade!{171}
Logo Simão Rodrigues se dispunha a esfriar a impressão do democratico discurso do badage; mas Catharina de Austria, com a fronte radiosa de firmesa e coragem, apressou-se a diser para seu esposo:
—Não approvaes, senhor, os gentis e nobres sentimentos d'este mancebo? Por Deus vos declaro que não conheço em nossos reinos mais generoso fidalgo nem mais leal vassallo!
—Assim o creio, concordou o monarcha impressionado por um estranho sentimento de generosidade. Tanto que resolvo mostrar-lhe a minha gratidão e a minha graça. Ficas satisfeito, proseguiu ao dirigir-se affavelmente ao badage, em aceitar a commissão com que me apraz honrar-vos? Quero provar-vos com animo generoso que sei premiar as virtudes e serviços dos meus vassallos...
—Senhor, atalhou com um olhar de fogo o jesuita Simão Rodrigues, por Deus que vos não pertence premiar os herejes nem os criminosos!
—Jamais um monarcha de Portugal deixará de cumprir quanto prometteu... Pagem! mando-vos substituir nos meus dominios da India{172} com os mesmos foros e jurisdicção o viso-rei Dom Affonso de Noronha.
Seguidamente fôra o badage abraçado com espontaneas manifestações de contentamento pelo seu sincero amigo o duque de Beja.
—Fez-se justiça, fez-se justiça por fim! exclama a rainha com viva explosão de enthusiasmo.
Experimentaram os nervos do badage uma passageira commoção, humildemente recurvou elle pela primeira vez a sua cabeça altiva e com brandura ajoelhou aos pés do sombrio monarcha:
—Muito agradeço a vossa altesa, lhe disse, as honrarias e os louvores; mas consinta-me que não aceite.
—Puf! meu rapaz. Pareces bem orgulhoso e bem louco. Pois já te não convem o viso-reinado das Indias?
Ao successor de Dom Manoel, o glorioso principe que tam respeitado e temido fisera no Oriente o nome portuguez, retrucou o indio com magestosa serenidade:
—Parto para as agras e florestas do meu{173} paiz; mas deixe-me vossa altesa partir sem honrarias nem proveito. Não me sedusem as grandesas da vida nem os avellorios do mundo. Christão velho ou christão novo, deveras ficarei contente com dar a Simão Rodrigues um exemplo de modestia e uma lição de humildade!{174}
[18] Lamennais. Du passé et de l'avenir du peuple.
Foi annunciado o almoço e então suas altesas as pessoas reaes, acompanhadas de suas senhorias os conselheiros e o celebre provincial, poseram logo termo á audiencia.
Apenas se conservou na sala o badage.
—Talvez me chamem desassisado, scismou elle. Regeitar assim riquesas e titulos!... Grande virtude e grande proesa, na verdade... Quem não gosta de elevar-se e engrandecer-se, quem não deseja passar de braço erguido por cima da cabeça dos outros, embora á custa da sua consciencia e da sua dignidade? Todavia do meu{176} procedimento não me arrependerei nunca. As Indias são emporio de riquesas e eu depressa possuiria armasens de fasendas e especiarias, cofres de joias e de barras de ouro... Mas quem me dava todos esses bens? Porventura sua altesa serenissima? O rei, no seu officio inalteravel de gastar, dispõe dos haveres e dos suores do povo, a massa que produz e trabalha. De certo deveria a minha fortuna ás generosidades do rei... Mas não és tu—a maior, a grande porção da humanidade—que trabalhas e que produses e que tudo vaes pagando?... Povo, das bagas do teu suor é que nascem as perolas das coroas regias. Eu comprehendo isso, comprehendo! Havia pois de enriquecer-me á vossa custa, meus irmãos?
O badage sentou-se na luxuosa estadella do monarcha, dobrou a cabeça sobre os braços crusados na beira da mesa e assim por alguns momentos permaneceu como adormecido pelo cansaço. Entregava o seu espirito á meditação, porque logo alteou a sua cabeça esbelta e se dispoz lentamente a escrever.
Todos os mais intimos e sinceros sentimentos{177} do seu coração transmittia-os agora a meia folha de papel. Estava confiando por meio das letras alfabeticas de uma carta dirigida a Catharina de Austria os seus fervorosos affectos e as suas saudosas despedidas.
—Amei-a com dedicação! monologava elle quando acabou de escrever. Mais pelas prendas do seu espirito que pelas bellesas do seu corpo... Conheci-a sempre bondosa e casta como os anjos. O orgulho, a soberba e a impudicicia de uma rainha são vicios que jamais lhe empanaram o brilho das suas virtudes. Não me esquecerei nunca de abençoar o seu nome e de estremecer a sua imagem. Nobre e gentil senhora! quem soffreria os impetos e cruesas de vosso esposo, o lobo sombrio e fanatico, se não fossem as vossas caricias e os vossos conselhos de ovelha paciente e delicada?
Leu a carta seguidamente, reflectiu ainda por alguns minutos e rasgou-a em varios pedaços a final.
—Não! reconsidera com altivez. Não darei eu esta prova de fraquesa. Coragem, coragem!... Sempre, como perola escondida na clausura da{178} concha, apertarei nos meus seios de alma o segredo dos meus amores. Quem sabe se lhe causaria despreso em vez de saudade, riso em vez de compaixão?
O badage levantou-se bruscamente da estadella, correu as vistas pelas douradas paredes da sala e dirigiu os passos para o lumiar da porta.
Aquelle palacio escaldava-lhe a cabeça como se o abrasasse a cratera de um volcão.
Resolvera abandonal-o para sempre e já caminhava ao longo do corredor quando um magro personagem de semblante pallido como o de um cadaver e de vestes negras á semelhança de um fantasma o obriga a parar improvisamente.
Em repasto da sua vingança, não se recusara Simão Rodrigues a ensanguentar o seu punhal traiçoeiro. Elle em carne e osso, com o punhal escondido na manga da roupeta, aguardava o pagem na penumbra solitaria do corredor.
O pagem cahiu, com effeito, ao borbulhar do seio um jorro de sangue. Não acodiria braço que o protegesse nem medicina que o salvasse.{179} Crisparam-se-lhe os dedos, arroxearam-se-lhe os beiços, empallideceram-lhe as faces e entregou a Deus o derradeiro alento da sua juvenil existencia depois de articular esta crudelissima ironia:
—É assim... que se vingam... os filhos de... Ignacio de... Loyola!