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O presbyterio da montanha

Chapter 41: NOTA I
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About This Book

The author assembles a miscellaneous collection of poems, sketches, and fragments born of long solitude in a mountain region, blending prosaic notes, folkloric lore, landscape description, local history, and personal reminiscence. A vivid prologue evokes topography, fauna, legends, and customs with archaeological-poetic attention; several poems and an unfinished narrative about a midsummer night appear alongside Portuguese and Latin pieces. Many items remain fragmentary or previously unpublished, presented as sincere, semi-wild glimpses into rural life, memory, and the author's creative process.

*

Toda a gente, e os abhorridos mais que todos, deveriam ler e meditar o medicinalissimo Livro da Solidão do Doutor Zimmermann. Aprenderiam a perder-lhe o medo e ganhar-lhe amor, a embellezarem-se n'ella, a serem e a fazerem venturosos, quanto é dado havel-os n'este mundo tão instavel, tão fugidio, tão calabreado de bens e males.

O homem na sociedade é um instrumento, que se gasta e quebra servindo; na solidão é um homem. Na sociedade, é uma partícula irresistivelmente arrebatada n'um redemoinho; na solidão um todo quieto.

Puericia, edade de oiro da vida, não torna jamais por onde uma vez passou; mas na solidão se esconde ainda uma sombra d'ella; porque o homem, redimido dos cepos do mundo, e fôrro das humanas tirannias, se faz em algum modo semelhante á creança; readquire o que quer que seja da sua innocencia, da sua simplicidade, dos seus gostos, dos seus brincos.

¿Quem se lembraria de pôr um barco de cortiça (ainda que de seu natural tivesse o ousal-o) n'um tanque do
Passeio publico, cercado dos fumantes do Marrare, e dos collaboradores dos periodicos? ¿quem o ousaria, mas que fosse para entreter a seus filhinhos? E no campo, uma pessoa, até só para si, faz d'isso; e mais se encanta em o fazer, que um ricaço em torrear palacios.

Em quanto dá tempo aos passaros para irem picar no cêvo das armadilhas que lhes andou dispondo, edifica á borda de um arroio uma azenha de dois palmos, com seu rodizio de canna a espadanar. Só no vêl-o voltear, respingando aljôfares pelos ares, tem entretenimento para horas.

Alevanta ao pé uns paços nobres, que se encheriam com a familia de um coelho, estira-se a espreitar para dentro da relva, como Werther e Hugo se embebem nas maravilhas d'aquellas selvas e reinos de animálculos, em que só o mancebinho muito pequeno, ou o muito grande homem, se poderiam enlevar.

¡A solidão! ¡a solidão!... provae-a, sequer, affligidos do mundo, e pregoareis d'ella o que eu me não affoito a encarecer-vos.


*

Um só achaque hei-de eu impôr á boa da solidão, á gentil namorada de Rousseau, de Petrarca, e de todos os espiritos grandiosos; e vem a ser: que, pois nos descalleja o coração, banhado nas suavidades da mãe Natureza, e para a sensibilidade nos ajunta o que do egoismo nos detrai, assim nos deixa mais expostos ao pungir de alheias penas, quando não as podemos extirpar. No ermo ressôam mais alto os gemidos, como na calada da noite se dão a ouvir mais claras as vozes.

Quizera-se, ao ver a penuria de muita casa, o escasso de muita colheita, o mal roupido de innocentinhos, o desagasalho de velhos enfermos, quizera-se ter mãos de Midas para acudir a tudo aquillo; e o coração, que não tem para dar senão suspiros, no fundo do peito se confrange todo, e se espedaça.

¡Cada uma d'aquellas curas dependeria de tão pouco! ¡sería tão festejada! ¡tantos effeitos afortunados produziria! ¡deixaria, por corôa de beneficios, tão sinceros, tão duradoiros agradecimentos!


*

Numerosas, numerosissimas, são as coisas das cidades, que d'aquellas alturas se não percebem; mas a que menos de todas se percebêra é o coração metallico dos Cresos, os seus olhos diamantinos sempre enxutos, os seus ouvidos que só vibram ao som do oiro. Possuem a omnipotencia terrestre, e ferrolham-n-a a sete chaves. Podiam ser adorados como deuses propicios, c Numerosas, numerosissimas, são as coisas das cidades, que d'aquellas alturas se não percebem; mas a que menos de todas se percebêra é o coração metallico dos Cresos, os seus olhos diamantinos sempre enxutos, os seus ouvidos que só vibram ao som do oiro. Possuem a omnipotencia terrestre, e ferrolham-n-a a sete chaves. Podiam ser adorados como deuses propicios, conquistar a unica invejavel gloria, emendando os erros da fortuna, espargindo felicidade, e felicidade enthesoirando.

Então sim, que haveria que se lhes invejar.

Dôr d'alma é, na verdade, não poder homem na solidão pagar por estes, e por si mesmo, dividas grandes e urgentes da Humanidade. Entretanto, lá estende os braços valedores até onde lhe é dado. Onde não chega a remediar com obras, ajuda com o bom conselho, com as recommendacões poderosas, com as esperanças, com a presença, com a uncção da palavra amigavel, com o deixar correr sobre a ferida o balsamico das lagrimas. Assim, se terá sempre que dar; sempre, em quanto houver no proximo trabalhos, e no seio coração.

XXII


Isto presenciei eu:

O espiritual Pastor do rebanho de S. Mamede do Monte, de quem natural pejo me veda transladar louvores, que por lá se lêem em todos os peitos, contava entre as primeiras de suas ditas a beneficencia, que não pára onde se lhe exhauriu a bolsa; que, depois de dar a capa, como o Santo Bispo Martinho, e a coberta, como Frei Bartholomeu dos Martyres, tem ainda para dar a pessoa, como S. Vicente de Paulo.

Era para ver (se elle não poséra tanto em recatal-a) a alacridade, a sôffrega alacridade, com que ia levar aqui um pão, que se devorava como vida que em realidade era, ali o remedio para a doença; aos mal avindos, a reconciliação; ao ocioso, o convite para trabalho; ao orphanado, a paciencia; ao errado, a luz para atinar com a senda, e o bordão para a seguir; ao moribundo, o conforto e a alegria; a todos a moeda aurea, cunhada de uma banda com a effigie do coração, da outra com a da Cruz florida; a moeda riquissima, que por nenhuma outra se cambía; o affecto fraternal.

Ali, sim, que é o ser Parocho.

¡Oh officio divinamente instituido, como te hão degenerado annos frios de descrença e desamor! ¡Com que maravilhoso laço não cifravas o que de mais nobre, o que de mais amavel, se abrange nas ideias da eternidade e nas do mundo!

O rei dos sacrificios era ao mesmo tempo o servo dos indigentes. Vaso de eleição, elle diffundia ao povo ajoelhado os mysterios, os preceitos, os exemplos, as ameaças, os anáthemas, as absolvições, os confortos, e os jubilos. Todos os destinos terrestres se formavam, ou passavam, á sombra d'elle.

Entrados á vida, encontravamol-o, resplandecente de Fé, á nossa espera diante da fonte da Graça, para n'ella, com a bocca cheia de riso, nos purificar.

Arribados á edade da rasão e dos delirios, tornavamol-o a achar na piscina da penitencia para nos restituir, com eloquencia affectiva de Apóstolo, a foragida paz do interior.

No consorcio, eram as suas mãos castas as que nos entregavam, com bençãos d'alma e sincera prophecia, a mão tremente da futura mãe de nossos filhos.

Nas calamidades publicas, era a sua voz supplice e crente, e afogada em lagrimas, a que levava, como guia segura, o côro de todas as nossas á presença do Senhor da Natureza.

Em nossas dissensões domesticas, elle o Anjo da concordancia, que primeiro apparecia.

Nas nossas quédas, elle o primeiro braço que nos alçava.

Nas tribulações, elle o nosso mais previsto conselheiro.

Na enfermidade, elle o medico gratuito e não chamado.

Na agra hora da partida, elle o que nos apercebia para a alma confusa e aterrada o pão, o oleo, e o fardel das esperanças para o caminho.

Elle o que ainda nos seguia, depois que já todos os outros medicos iam longe, e até nossos paes e nossos filhos nos deixavam sós. Com preces fervorosas nos acompanhava, até que a terra nos submergisse; e ainda então nos não largava, senão para ir instaurar novas preces por nós sobre os altares.

Solitario na sua vivenda, elle tinha por familia o seu rebanho, com quem, por quem, e para quem, vivia; sempre lhano, sempre dadivoso da sua pobreza, sempre paschoas-florídas para grandes e pequenos, só temido dos maus, ainda que tambem d'esses respeitado.

Se carecia de progénie, se não tinha uma esposa, elle, que tão amenos quadros do casamento sabia apresentar aos noivos ao recebel-os, contava por irmãos e filhos todos os seus parochianos; tinha o seu thálamo de oiro a aguardal-o no paraizo, região que todos os dias entrevia atravéz das folhas do seu breviário; e, se ainda no coração lhe podia alguma ternura sobejar, tinha a sua egreja, que elle amava como esposa; em quem se revía; que se recreava em ataviar, em enriquecer, em lhe adquirir galas de roupas, de sedas, de joias, de flores, de perfumes; em cujas festas se remoçava; em cujos canticos se desvanecia de misturar a sua voz.

No seu sacerdocio se acreditava a pleno, porque elle mesmo acreditava tambem. Se, perante a ara santa a Fé via n'elle um representante da Divindade, nenhum lance da sua vida desdizia esse caracter augusto e sobrehumano.

A hora em que elle expirava, hora de consternação e alaridos para todo um povo, era a unica, talvez, em que pelos espiritos fuzilavam alguns relampagos de duvidas sobre a justiça e a misericordia do ENTE SUPREMO; duvidas, que a bocca do velho emmudecida, que a reprehensão dos seus olhos fechados, já não podia fulminar, mas que a sua presença, mal chegavam a beijar-lhe os pés como a bemaventurado, promptamente desvanecìa. Bem se adivinhava, ao olhal-o, que a sua morte não era mais que somno; e bem se entendia como, ao cabo de tão prolixo, de tão zeloso trabalhar, era rasão colher descanço e premio, como só lá em cima os pode haver.


*

Taes eram, pelo commum, pastor e grei, nas eras cheias e prospérrimas da Christandade.

De taes greis, e taes pastores, ainda hoje ha, mas raro; mas tão raro, que a dedo se apontam; e ainda se não hão-de crer, se não fôrem vistos bem por miudo, e contrasteados bem de espaço.

De ninguem é a culpa, sendo de todos a desgraça.

Não; de ninguem é a culpa. O genero humano curte sempre algum achaque principal; e quasi sempre maleitas. Passou-lhe a febre da superstição; está agora no frio da incredulidade ¿Que lhe ha-de fazer? jazer-se com elle, até que do alto lhe venha o remedio.


*

Existe um phantasma de altar, um phantasma de sacerdocio, um phantasma de vulgo fiel, um phantasma de culto; mas de Fé intrinzeca, nem um phantasma.

A pseudo-philosophia, de que a mean classe engafecêra, pegou-se d'ella, pelo contacto, primeiro á superior, depois á infima.

Ha doenças que teem os seus periodos determinados; esta entra na conta.

A classe que primeira a padeceu, por primeira e por mais illustrada já quer ir convalescendo; já convalesce em muitas partes, se em nenhuma se acha ainda san; mas a que mais tarde cahiu, por isso mesmo, e por ser a mais rude e numerosa, labora no auge da enfermidade, e ainda muito longe (segundo todos os symptômas) de se restaurar.

Hoje o materialismo é especialmente plebeu.

Dos cumes da ordem social podia-se ir desferindo a raio e raio, e descendo manso e manso, a luz, que adelgaçasse, que por derradeiro desfizesse, essas trevas humidas e frias, que nada criam, e afogam tudo.

Mas nem de lá baixa, porque por lá faz ainda noite, nem se derrama da Imprensa, de que a mean classe é representante.

O Poder, fingindo proteger, apenas tolera os escassos restos da crença. Se alguma vez lhes dá consideração, é quando se lhe antólha que os poderá empregar, por material, para obras politicas a seu modo.

A Literatura, ou por especulação de popularidade, ou por extravagancia de muito joven, ou porque o seculo XVIII do «Paiz modelo» só poude chegar cá no XIX; a Literatura, figurando tributar a sua homenagem á unica Religião civilisadora, tão decepada e desgeitosa se avém, que, por entre as suas expremidas lagrimas de compuncção, se lhe está vendo voltear por dentro dos labios o seu lembrado sorriso de septicismo.

A sua religiosidade é um cálculo; ¡grande mal! é um cálculo transparente; ¡mal ainda muito mais funesto!

Reconhece-se que, se de alguma coisa está convencida, não é da verdade real e absoluta que diz, mas da utilidade (ou necessidade) de que seus ouvintes a acreditem.

Forceja para reaccender na ara um pouco de lume santo, que allumie e aqueça; aconselha que se lhe cheguem; mas ella fica fria e ás escuras por de traz da nave, olhando com ar sobranceiro para a turba.

Nunca dobra tanto o joelho e a cerviz perante «o Christo» (como lhe ella sempre chama), que a sua cabeça ennastrada de loiros não fique, mais ou menos, sobre-sahindo á pendida fronte coroada de espinhos.

¿Que poderá jamais conseguir para verdadeiras aleluias da Fé e da Moral, este vaidoso e vanissimo apostolado da eloquencia e poesia, que de baixo do falso nome de Christianismo pregôa d'elle uma, ou outra, ou muitas, paginas desconnexas, reformadas, e adulteradas?

Quanto entre si concordavam as inspirações dos quatro Evangelistas, tanto discrepam uns dos outros (e não raro de si mesmos) os novos evangelhos d'estes missionarios sem missão. Á prima-vista se averigua que lhes fallece a convicção, a coherencia, a logica, e a unidade. ¿Quem se irá apóz taes innovadores? Ninguem.

Pelo contrario: as suas diligencias para reedificar só valeriam para acabar de destruir, se podesse ser destruida a Religião de Jesu-Christo.

A Fé é uma obra celeste, que nem a sciencia, nem a força, nem o poder da terra tem a minima jurisdicção para alterar.

Ou a Fé toda completa, cabal, absoluta, sem um átomo de menos, sem um átomo de mais... ou nenhuma Fé. Fraccional-a, decompôl-a, temperal-a cada um para o seu paladar, é pregar-se o homem estupidamente n'uma cruz desbenzida, revirado com a cabeça para a terra, e os calcanhares contra o Ceo. Em tal caso o indifferentismo, e até o atheismo, seria menos descommodo e mais logico dobradamente.


*


Em quanto a Literatura assim acode á obra de Christo, como o poderia fazer n'uma hora de ebriedade o proprio anti-Christo, ¿como é que a trata a autoridade mundana?

Como se fôra obra sua, ou sua propriedade: estende-lhe, protectora desdenhosa, a barra do seu terrestre manto sobre a cabeça despojada do diadema luminoso, diz-lhe que se apegue, para não cahir, ao sceptro que a diante lhe caminha. ¡Elle, o Christianismo, elle, que ainda ha pouco roborava os thronos com a sua benção, permitte, quasi, que os seus inimigos o ludibriem!

A blasphemia, que vai picar, verme peçonhento, a raiz da arvore da vida, d'onde se colhe a moral, a blasphemia pode qualquer derramal-a sobre as multidões pelo crivo immenso da Imprensa, e ficar impune; ou o seu castigo, se por erro lhe cahir o da Lei, orçará apenas pelo dos crimes leves, e indifferentes ao Estado.


*

Não é ainda tudo.

Aos ministros do culto, já de si por ventura tibios, como filhos e herdeiros de uma edade desfervorosa, sal da terra já meio derretido, luz do mundo já mortiça, deixam-n-os, ou fazem-n-os enfraquecer-se e relaxar-se ainda mais, desautorisando-os, dessangrando-os, infundindo os nas temporalidades odiosas.

Repitâmol o: não é isto culpa de ninguem, sendo de todos desaventura. É uma calamidade providencial, que lá se encaminha para fins certamente gloriosos, que não podemos enxergar.

Em Religião, como em Politica, somos nós, enfatuada geração de hoje, mesquinho adubío n'um chão semeado, que outros hão-de ceifar em vindo a quadra.

Chegarão tempos (dil-o o instincto da rasão) em que os direitos e os deveres tenham egual pezo; em que o bom e merecido nome não seja, como pomba timida, empolgado por abutres ferozes logo ao abrir o primeiro vôo; em que todas as causas santas e uteis se conheçam e respeitem; em que nem a régia tribu de Judá seja, como outr'ora, apesinhada pela de Levi, nem a tribu sacerdotal de Levi, como hoje, mercenária, captiva, e escrava da de Judá.

Então quando o lenho sêcco da Cruz, reflorir, e frutear (como a vara do Propheta) frutos de suavidade, de concordia, de alimento, de forças, de esperança, e de felicidade, de felicidade para abarcar dois mundos, então os pastores, quasi espancados agora pelos seus rebanhos, quasi mendigos, e cuja fronte perdeu o sello da eleição, tornarão a assentar ao-pé da arca santa a sua tenda humilde e venerada, não opulenta mas dadivosa, tenda pobre e rôta, para que pelas aberturas penetrem melhor até ao velho os gemidos do mais necessitado que elle, e para que os olhos d'elle entrevejam as estrellas.

¡Oh! ¡como volverão a ser bellos os dias da Egreja acrisolada pelo fogo! Mal venha por quem, de imprudente, pretendesse retardal os.


*

O autor d'este livrinho (que ainda, apesar de tudo, não acredita em malignidades gratuitas) apressa-se de inculcar, de recommendar aqui, uma verdade, que a sua posição d'elles lhes não deixou talvez ainda perceber; verdade importante para applicações, verdade a cujo escurecimento se pode imputar já muito e muito damno:

O officio pastoral tem, ou pode ter, especialmente fora das cidades, uma importancia para a felicidade das familias, para o bom regimento e prosperidade do Estado, a que nenhuma instituição humana poderia confrontar a sua.

Nas cidades é talvez licito o ignoral-o. O Parocho urbano é quasi um pastor sem rebanho; não conhece as ovelhas, nem as ovelhas o conhecem. A ellas, falta-lhes o tempo e a vontade para o rodearem; a elle, se para o officio entrou com zelo e propositos magnanimos, tudo se lhe veio a acabar com a esperança, e logo a caridade tambem; e a final talvez tambem a fé, mal se inteirou de que todos seus esforços se haviam sempre de quebrar no indifferentismo publico, e de que a sua voz, se lograsse vencer o estrépito circumfuso, só serviria para lhe atrahir escárneos e motejos, ou de fanatico, ou de tartufo.

Nas freguesias ruraes, nas mais remotas, nas serranas e abscônditas sobre tudo, ainda não é totalmente assim. Á entidade abstracta Parocho se conserva, no respeito e benevolencia dos subdítos, um resto da sua antiga majestade, da sua benéfica influencia, das suas altissimas prerogativas.

Ainda é um parente proximo e autorisado de todas as casas, uma especie de maioral de tribu (como entre os Hebreus do tempo dos Patriarchas, e os Arabes do deserto); um juiz de paz insuspeito; um magistrado sem appellação para as consciencias; um censor, não em nome da Lei (como os de Roma), porém em nome, e com delegação, e por inspiração, do Espirito de Verdade, com quem se crê ter commercio no fundo do santuario. Qualquer que seja a sua sciencia, é a ella que se recorre como á principal.

Tal é, repito, a entidade Parocho em abstracto.

XXIII


Isto posto, e acceito por certo, como é, pergunto: se não deverão empregar-se as mais incessantes, as mais efficazes diligencias, para que o provimento das parochias (das rusticas ao menos) recaia sempre em homens de cultivado e provado entendimento, de sincera e illustrada Fé, humanos e caritativos, desambiciosos, modestos, e de facil e aprasivel trato.

Ninguem o negará, pois são elles as fontes, que, segundo sua qualidade, teem de dessedentar e fertilisar, ou de esterilisar e consumir, a terra que os rodeia.

N'estes agros tempos de contínua revolução e peleja, ou porque tão momentosa ponderação não occorresse, ou porque a vista, de dentro da cidade, não traspassa os muros d'ella, ou porque conveniencias pessoaes e ephémeras, mas urgentes, mas gravissimas, tenham feito postergar considerações de maior utilidade, mas de effeito mais tardío; as egrejas ruraes, como as urbanas, jazem, pelo commum, peor que ao desamparo: entregues, não como egrejas, a homens de oração e de esmola, mas, como torres e castellos, a alcaides e capitães eleitoraes, que no dia do conflicto arvorem e defendam o estandarte do seu bando.

¡Oh! que não sem rasão se collocou a rixosa urna dos suffragios politicos na extranhada mansão dos serenos suffragios religiosos. A um clero secularisado, competia um templo secularisado tambem.


*

E não ha aqui arguir esta ou aquella parcialidade; é peccado, que todas ellas peccam; ou, para falar com mais justiça, é açoite que Deus mette na mão de cada uma, quando lhe chega a sua hora de ephémero triumpho.

Se ellas bem considerassem n'isto (suppondo-as a todas, até ás mais illusas, como as devemos suppôr, cordealmente empenhadas na civilisação e no progresso), deixariam o uso d'esta arma, que para servir a

O direito mesmo da Guerra, com ser tão largo e licencioso, nem tudo permitte. ¿Porque não ha-de logo, nas suas pelejas, a Politica reconhecer limites, onde o Ceo e a rasão os teem marcado?

Combatam se os adversarios; mas não se envenenem as aguas; e se a desavença é entre consanguineos, e em solo commum, não cortemos, para aquecer o rancho dos nossos soldados, as oliveiras centannarias, que já deram oleo, sombra, e paz a nossos avós, e que ainda podem liberalisar o mesmo a nossos netos.

¿Por que é trazer aos festins profanos os vasos do Templo?

Se é chyméra a Religião, se Jesus não é em realidade senão «o Christo», vão fóra tartufías, que não deshonram menos a uma nação que a um individuo; acabe-se de uma vez com superstições importunas e dispendiosas.

Mas se «o Christo» foi o Verbo; se o Verbo foi o sol; se o sol é ainda agora a vida do genero humano; se a Cruz é o unico pezo que faz crescer a quem a soffre; se na terra não ha luz senão a que vem de cima; se toda a negação expira nos labios de quem chega a ouvir como se amiudam os anhélitos do estertor, forcejae, forcejae para restituir, ó vós que ainda o podeis, ao santuario do Deus vivo os unicos sacerdotes que elle conhece, ao Povo os unicos oráculos em que elle pode crer, ás miserias o seu antigo e tão amado refugio, aos vicíos e aos crimes o dique onde já tantas vagas suas rebentaram em flor, e refugiram.

¿Não é assaz amplo o thesoiro que entre as mãos tendes de destinos humanos?

¿Os exercitos e as armadas, os tribunaes, os governos, todas as magistraturas, todos os magisterios, todas as exacções, todas as administrações, não vos dão de sobejo com que pagar ou empenhar amisades, zelos, e serviços, sem ser mistér que o povo de Deus venha, escravo e deshonrado, desde a sua Jerusalem deserta e muda, carregar a pedra e a areia para o vosso arco de triumpho?

Rachel chorosa chora os seus filhos, e não quer consolada porque elles não existem para ella. Os moradores de Sião não entôam os seus inspirados canticos, porque os trasladaram para a beira dos rios de Babylonia. Ressuscitae para Rachel os seus filhos; reponde em Sião os seus moradores.

A voz grande que se ouve em Rama prantear pela noite muda, calar-se-ha. A Cidade santa restaurará as suas festas.

Não vos arreceeis de que, feriando os levitas, e despedindo-os das vossas tendas para a da Arca santa, o exercito da vossa parcialidade, qualquer que ella seja, se torne mais fraco.

Pelo contrario: então é que a victoria, filha das bençãos da terra e do Ceo, ha-de poisar para sempre, como uma auréola, sobre a hasta do vosso estandarte, porque se dirá de toda a parte: «Eis ali os fortes, os que bastam per si para se defenderem. E Pelo contrario: então é que a victoria, filha das bençãos da terra e do Ceo, ha-de poisar para sempre, como uma auréola, sobre a hasta do vosso estandarte, porque se dirá de toda a parte: «Eis ali os fortes, os que bastam per si para se defenderem. Eis ali os justos, a quem o Senhor outorgará dominação, porque elles lhe hão restituido os sacrificios.»

XXIV


Mas redescendâmos o estylo á lhaneza do nosso assumpto.


*

Logo que na legislação entrar mais bom-senso que politica, mais realidade que ficção, mais pensamento de semear que de ceifar, mais amor do homem que de homens, o recrutamento e a disciplina da milicia sagrada devolver-se-hão inteiramente, francamente, sem restricções mesquinhas e nocivas, das mãos profanas para as dos seus superiores e arbitros naturaes: os Prelados.

O Governo se gloriará de haver se desembaraçado de uma tarefa, de pouca importancia aos olhos mundanos, e todavia cheia de incerteza, e de responsabilidade incommensuravel. Gloriar-se-ha ainda mais, de haver facultado com a sua restituição o incremento da religiosidade; por ella o das virtudes domesticas; por ellas, o das virtudes politicas; por tudo, o da prosperidade do Estado.

Quando cada Bispo, maioral responsavel e zeloso de uma profusa grei, podér escolher por si mesmo, affeiçoar de espaço, collocar por sua mão, os vigias de cada um dos seus rebanhos parciaes, ¿quem duvída de que então os desacertos nas ponderadas escolhas hão-de ser tão raros, como os acertos o são no actual systema, em que são as casualidades, quando não as affeições ou os interesses, que predominam?


*

Quanto aos Bispos (honra a quem a merece, e justiça a todos), as eleições do poder temporal teem merecido a geral approvação; teem recahido, pelo commum, em varões de mui notoria sciencia e prudencia, equidistantes dos dois oppostos fanatismos, concertados nos costumes, e zelosos discretamente.

Graças, graças ao poder temporal, que já deu o primeiro passo, passo de gigante, para a suspirada reformação. Agora os restantes hão de seguir-se, porque são consequencia.

Logo que soube, e quiz, prepôr ao Episcopado varões taes, logo que manifestou ao mundo que n'elles a todos os respeitos se fiava, tacitamente se obrigou a lhes repôr... (estas suas usurpadas regalias, ia eu dizer, e era um erro) estes seus onus, estes cahidos galhos da sua cruz, este accrescimo de trabalhos e mortificações, este para uma consciencia melindrosa martyrio das horas todas.

Seriam elles, elles mesmos, os Bispos, os que poderiam furtar os hombros a tão duro redobramento de carga, se a caridade, obrigada nos do seu officio, os não forçára a beijal-a com lagrimas, tomal-a com exultação, e seguir via pelas asperezas do Calvario para o Ceo.


*

¿E que são em verdade os Parochos, ou antes: ¿que foram os Parochos desde os antigos seculos da sua instituição, que foram, se não uns coadjutores dos Prelados maiores, para fazerem chegar até aos minimos e mais obscuros recantinhos das Diocéses a sua doutrina, a sua caridade, e os seus exemplos?

Pois que os olhos, os ouvidos, os passos, e as mãos, de um só, e quasi sempre velho e cançado, não podiam alcançar tão longe como o seu espirito; medicos de populosos hospitaes de almas (e de corpos tambem), não lhes chegando as forças para estarem dia e noite a todas as cabeceiras, contarem todos os gemidos, ministrarem todos os remedios, estudarem todos os symptomas, limparem todos os suores, padecerem em todos e com todos, segundo a maravilhosa expressão do Apóstolo das gentes; distribuiram em cada enfermaría quem os supprisse, quem os fizesse sempre estar presentes, quem em seu nome, e segundo a sua sciencia, receitasse e administrasse, e nos casos duvidosos os fizesse de subito acudir.

¿Como póde portanto, quando militam as mesmas rasões que presidiram á creação dos Parochos, consentir-se uma praxe, em que tudo vai falsificado?

Dar ao medico, para seus ajudantes, homens escolhidos por homens inexpertos e ignaros da sua arte, não pode ser; e não ha-de ser sempre; e cabe nos esperar que nem continuará a ser por muito tempo.

O Episcopado vai reassumir a sua autoridade imprescriptivel, o indispensavel respeito e obediencia dos seus primeiros subditos. Os presbytérios civis, hoje de tantos corvos e abutres, vão ser como essas torrinhas, que se branqueiam e se perfumam de incenso para morada de pombas. As parochias reverdecerão: e florescerão, até ao possivel auge, em creanças innocentes e instruidas, em adultos pios e laboriosos, em mulheres castas e amantes do seu lar e dos seus deveres, em velhos pacientes, resignados e conselheiros, em sólo bem cultivado e bem festivo; e o Throno se alegrará com os novos reflexos de ventura, que lhe virão de cada palmo da terra comprehendida no seu horizonte.

XXV


Não venha agora, no processo d'esta santificação, intrometter se o Cardeal-diabo do ciume, com máscara de amor da Liberdade. Ainda que a máscara é de vidro, já d'aqui lh'a havemos de quebrar nas mãos, batendo-lhe em cheio com tres nomes todos presados: França, Italia, Inglaterra.


*

¿Que nação mais ciosa das suas immunidades, que a franceza? ¿Que nação menos para consentir á Egreja o que de jus estricto lhe não compita?

Nenhuma.

Ora em França, bem sabemos todos que são unicamente os Prelados os que formam o seu Clero. Educam-n-o longamente. Instruem-n o copiosamente, por livros não escolhidos (como entre nós) pela Autoridade civil, ainda que (de si se entende) sujeitos á sua inspecção. Acostumam n-o ás praticas do seu não facil ministerio. Estudam, provam, e contraprovam, a aptidão e especial préstimo de cada um. Aproveitam só os que n'esse crivo pertinazmente bandejado sobrenadaram; e outra vez os escolhem á mão, para os irem repartindo pelas Parochias do modo que mais aproveitem; pois de ver está, que, differindo em indole e circumstancias as povoações como os individuos, tal individuo, que em tal povoação quadrará á justa, a afortunará afortunando-se; n'outra, que menos lhe molde, valerá menos, trabalhando e padecendo mais.


*

O exemplo da Italia, tenho eu que ainda apérta melhor; porque, se lá os Bispos são independentes, como em França, para o provimento de suas egrejas, não é porque em mãos leigas esteja o sceptro do Estado. Ali o Sceptro é Bago juntamente.


*

Documento, porém, sobre todos frisante nos offerece por ultimo a Gran Bretanha.

Ali a Egreja Catholica, sem ser a do Estado, não protegida se não tolerada, não acarinhada se não temida pelo seu progressivo, cada vez mais rapido, mais assombroso, engrandecimento, gosa se, não obstante, por longa e pacifica posse, d'este seu não privilegio, se não direito essencial; e os seus Bispos são pelo menos tão independentes no tocante á cura de almas dentro de suas Diocéses, como dentro nas suas os proprios Bispos protestantes.

XXVI


Ora pois: logo que entre nós se houver perfeito d'este modo a regeneração do Clero pelos seus principes (unicos legitimos em tudo que ao seu ministerio se refere) cabe esperar que a optima parte das nossas populações ruraes se ha-de ir tambem insensivelmente regenerando, e que a minha gente de S. Mamede do Monte será querida, e comprehendida até por cortesãos, quando sahirem a folgar no campo algum estio.

Para então é que este livrinho, semelhante aos frutos que amadurecem em casa e ás escuras, ha-de ter para mais alguem o sabor que eu já lhe tomo.


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Se elle consegue, para além das raias da minha expectação, fazer com que um só captivo da Cidade cobre amor á vida solitária, ou que um unico solitário aprenda a conhecer alguma parte da sua encoberta bemaventurança, já não trocarei o pobre gosto de o ter escrito, pelos maiores triumphos literarios.


FIM DO PROLOGO





Notas de Castilho a este Preambulo





NOTA I

Fontes de estudo


Como, durante a minha estada na serra, me não passava pela mente que houvesse algum dia de bosquejar esta humilde Odyssêa dos sitios e gente d'ella, nada trouxe apontado a tal respeito. Revolvendo as minhas memorias não escritas, achei n'ellas consideraveis lacunas, mormente no tocante á topographia, que eu desejava (quanto dado me fosse) completar. N'esta pressa me soccorri á officiosa amisade do actual Prior de S. Mamede da Castanheira, o Rev.do Padre Antonio Jozé Rodrigues de Campos, a cujo zelo devo o ter podido apresentar menos imperfeito o meu painel, em que faltará tudo, á excepção de verdade nas coisas, e nos retratos parecença.


NOTA II

Parochos


Na generalidade que estabeleço, por muito convencido, caberá fazer algumas gloriosas excepções; e, sem ir mais longe, o meu Parocho, n'esta freguesia de Santa Isabel
[5], o Rev.do Padre Jozé Jacintho Tavares, é varão de copiosas Letras, tanto sacras como profanas, de sãos costumes, sobredoirados de indole sociavel e amena, e incançavel na caridade. As reparações e embellezamentos, com que se tem remoçado o templo em que elle serve, nada são comparados com os soccorros de pão, de letras, e de instrucção christan e civil, que já começam a disfrutar os indigentes da sua freguesia. Largos são ainda os seus projectos; ajude-o a Providencia; deixará formoso exemplo aos do seu officio, e muita saudade filial de mulheres e homens prestaveis, em que elle haverá transformado, pela educação, creancinhas ainda hontem desamparadas, e a pique de perdimento. Não quiz perder este lanço de ajudar com um pequeno brado o clamor da gratidão popular, que algum dia ha-de ser alto.


FIM DO PRIMEIRO VOLUME




Notas:

[1] O Doutor de capello José Feliciano de Castilho Barreto falleceu na Castanheira do Vouga a 6 de Março de 1827, e foi enterrado na capella mór da egreja parochial. Foram em 6 de Outubro de 1872 transportados os seus restos mortaes para o jasigo da sua familia no cemiterio dos Praseres em Lisboa, onde se conservam.

Os Editores