[2] Existe
ainda este cedro que tem alcançado
descommunal corpulencia. Chamam-lhe por lá
o cedro do poeta, ou
do
Castilho.
Os
Editores.
[3]
Ovidio—
Os
Fastos—Liv.
VI.
[4]
Allusão aos amargores da
redacção da
Revista Universal
Lisbonense, minuciosamente narrados
nas Memorias
de Castilho.
Os
Editores.
[5]
Castilho morava então na rua de S.
Marçal.
Os Editores.
EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
Sociedade editora
Livraria Moderna
95—RUA AUGUSTA—LISBOA
Obras completas de A. F. de Castilho
XX
O Presbyterio
da Montanha
VOLUME II
LISBOA
EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
95, Rua Augusta, 95
1905
OBRAS COMPLETAS
DE
ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO
VOLUME 20.º
VOLUMES PUBLICADOS:
| I |
— |
Amor
e melancolia. |
| II |
— |
A
chave do enigma. |
| III |
— |
Cartas
de Ecco e Narciso. |
| IV |
— |
Felicidade
pela agricultura
(1.º v.) |
| V |
— |
Felicidade
pela agricultura
(2.º v.) |
| VI |
— |
A primavera
(1.º
vol.) |
| VII |
— |
A primavera
(2.º
vol.) |
| VIII |
— |
Vivos e
mortos—Apreciações moraes,
litterarias, e artisticas. |
| IX |
— |
Vivos
e mortos (2.º
vol.) |
| X |
— |
Vivos e mortos
(3.º
vol.) |
| XI |
— |
Vivos e mortos
(4.º
vol.) |
| XII |
— |
Vivos e mortos
(5.º vol.) |
| XIII |
— |
Vivos
e mortos (6.º
vol.) |
| XIV |
— |
Vivos e mortos
(7.º vol.) |
| XV |
— |
Vivos e
mortos (8.º
vol.) |
| XVI |
— |
Excavações
poeticas (1.º vol.) |
| XVII |
— |
Excavações
poeticas (2.º vol.) |
| XVIII |
— |
Excavações
poeticas (3.º vol.) |
| XIX |
— |
O Presbyterio da
montanha
(1.º v.) |
| XX |
— |
O
Presbyterio da montanha
(2.º v.) |
NO PRÉLO:
OBRAS COMPLETAS DE A.
F. DE CASTILHO
Revistas, annotadas, e prefaciadas por um de seus filhos
XX
O Presbyterio
da
Montanha
VOLUME II
LISBOA
Empreza da Historia de Portugal
Sociedade Editora
| LIVRARIA MODERNA |
|
TYPOGRAPHIA |
| Rua
Augusta, 95 |
45, Rua Ivens, 47 |
1905
I
A PRIMEIRA NOITE NA SERRA
... Ibi hæc
incondita solus
montibus et silvis studio jactabat inani.
¿Vélo?
¿Sonho? ¿Deliro?!
¿Em solitario monte,
que se espanta de ver-me, e cuja austéra fronte
nada avistou jamais, no amplissimo horizonte,
de mundo a tumultuar, de cidades a rir...
n'este ermo ignaro, frio, mudo...
aqui... (¿deliro?
¿ou sonho?) aqui meu lar, meu
tudo!
¡o meu presente e o meu
porvir!
Genio invisivel da montanha,
de astros, de sol, o ceo te banha;
o mar de longe te acompanha
no livre cantico sem fim.
Escada de
Jacob da terra ao firmamento,
a
mansão tua é
monumento
da potencia, do amor, das glorias
d'Eloïm.
Emquanto, em derredor do solio teu
sublime,
a baixa terra vil que a instavel sorte opprime,
se volve, se transforma, e sua angustia exprime
n'um continuo anhelar, n'um confuso clamor,
a variedades sobranceiro
mantens-te qual surgiste, e do cahos
primeiro,
e do diluvio assolador.
Silencio e paz comtigo habita;
o ermo é como o eremita;
loucas vaidades não cogita;
ama o seu rustico trajar;
em apparente inercia ama que ferva
occulto
de seus affectos o tumulto,
seus extasis, seus ais, seus gostos,
seu orar.
Sim, Genio da montanha, Archanjo de
poesia:
eu creio em ti; eu creio em
que alma ingenua, pia,
póde ouvir de tua harpa a casta
melodia,
e abrazar-se de amor e endoidecer por ti;
sim; mas eu, frivolo, profano,
á solidão
extranho, affeito ao mundo insano,
¿que hei-de esperar?
¿que tenho aqui?
Toda a minh'alma se entristece,
e se confrange, e se ennoitece,
ao ver que a sorte lhe destece
de um sopro os aureos sonhos seus.
Sonhava applausos, gloria...
¡em desterro desperto!
sonhava mundo... ¡acho um
deserto!
sonhava inda illusões...
¡e escuto-lhes o adeus!
Náufrago, perco a lyra em
meio da viagem.
¡Desço vivo ao sepulcro! ¡Em ti, fatal
paragem,
quem me resurgirá? Dos montes a linguagem...
oiço... escuto... medito... e em vão quero
entender
é como
uns sons de ignota
fala;
qual ás penhas o mar, me
inunda e me resvala,
sem me abalar, nem me embeber.
¡Oh!
¿á
minh'alma taciturna
que importa, ó montanha soturna,
que de perfumes sejas urna
da terra erguida sobre o altar?
¿que o ceo te ria azul,
mais amplo e mais de perto,
que o sol
doirado, ao teu deserto
mais cedo suba, e á tarde
o
desça com pesar?
Vir mais tardia a noite, a aurora vir
mais cedo,
¿que me
aproveita? Inerte entre o immovel fraguedo,
só ouvindo os
tufões e os corvos no arvoredo,
bramirei:—«¡Cresce o tempo! ¡oh!
¡supplicio cruel!
¡são mais
pesares,
mais saudades,
mais estro a arder em vão,
mais
visões de
cidades,
mais
tentações a
dar-me fel!...»
¡Ai! ¡mundo!
¡ai! ¡eccos seductores!
¡Tanto vate a ceifar
louvores!...
¡Tanto
moço a
colher amores!...
¡Tantos
loireiros e rosaes!...
E eu n'esta solidão a
torcer-me arraigado,
qual roble que geme indignado,
vendo ao
longe no Oceano os lenhos triumphaes!
Assim ruge, baldão de
vingativo nume,
esse que a argilla
outr'ora encheu de ethereo lume;
assim, nos gelos sua, agrilhoado ao
cume
do caucáseo alcantil, seu cadafalso atroz.
Só o abutre de eterna fome,
que o grande
coração algoz sem fim lhe come,
responde em ais á sua voz.
Fenece o dia. ¡Hora jocunda,
que eu tanto amava! ¡hora
fecunda
dos cantos meus! ¿por
que me
inunda
nova amargura o
coração?
¿Sino crepuscular,
tôas funéreo dobre?
a serra em luto se me encobre;
a nocturna mudez duplica a
solidão.
Nenhuma luz scintilla; humana voz
não sôa.
De
estrellas a accender-se o Empyrio se povôa;
tal a fada
Coimbra, a senhoril Lisboa,
nest'hora a quem as olha, entram no escuro
a abrir
de luzeiros um labyrinto.
¡Ceos!
¡Não oiço eu troar...
seus coches!... O que sinto
é
vento em selvas a rugir.
Calae, fugi, ventos agrestes;
sumi-vos, lampadas celestes;
n'um seio a delirios já
prestes
não susciteis mais
tentações.
Ou antes... aturdi-me, Euros bravos;
ou antes...
vós, astros,
cifras de
diamantes,
o arcano me aclarae lá
d'essas
regiões.
¡Oh! ¡se
á minha razão,
contradictoria, altiva,
que ás trevas sente horror, e
á clara
Fé se esquiva,
de vós, faroes do Ceo, baixasse a
crença viva,
que aos moradores do ermo inspira a vossa
luz!...
¡se me volvesseis as
ditosas
esp'ranças que hei
perdido, alvas, ethereas rosas,
com que se enfeita e esconde a
Cruz!...
Tornar-se-me-hiam de improviso
a solidão, em paraizo;
a magua, em perenne sorriso;
em alto cantico, a mudez;
a mallograda
lyra, o não colhido loiro,
em
harpa augusta, em palmas d'oiro;
e o monte, solio então,
veria o mundo aos pés.
Delirios sempre vãos, fugi
de um peito enfermo;
tu,
só tu, negra morte, has-de ao meu mal pôr
termo;
ermo para ambições, é inferno,
e
não ermo;
para a humilde piedade é que elle
espelha o Ceo.
Gentis phantasmas de cidades,
vinde, escondei-me o ermo em vossas
claridades,
como um esquife em aureo veo.
¡Vinde, cercae-me,
endoidecei-me,
(embora em saudades me eu
queime)!
O somno, as vigilias enchei-me
da vossa esplendida vizão.
¿Val o riso choroso as
festas da loucura?
vinde, guiae-me á
sepultura,
crente no amor, na gloria, e rindo
á solidão.
¡Eu blasphemo, eu desvairo!
Aos encontrados votos,
nem ecco
respondeu n'estes covões ignotos.
Não, cumes
glaciaes, tão outros, tão
remotos
dos sitios que eu amava, e em que esperei morrer;
não, no silvestre seio
vosso,
nem de amenas
ficções apascentar-me posso,
nem menos as posso esquecer.
¡Valor! ¡valor!
¿Quem do futuro
sondou jamais
o abysmo escuro?
¡Apenas chego
e já
murmuro!
¿O de que tremo
acaso sei?
Esperemos: talvez que inglorios, mas
doirados,
aqui me aguardem, recatados,
dias de
estro e de paz, quaes nunca disfrutei.
Se além, no presbyterio,
humillima choupana,
(Vaticano, e
Queluz da pobre grei serrana)
mais que fraterno amor
sollícito se afana
em me afôfar o ninho, a vida em
me inflorar;
se n'um retiro verde e
mudo,
por elle tenho o leito, a mesa, o
doce estudo,
sombras no estio, o inverno ao lar;
se a solidão
que me
apavora,
sómente o
fôr vista
de fóra;
se em seus
recôncavos demora
gente feliz,
povo de irmãos;
se do antigo viver, das
crenças
de outra edade,
vestigios guarda a
soledade;
se poesia se vive entre estes
aldeãos;
se a alegria, serena, isenta de
pesares,
como a fresca saude, habita os
puros ares;
se em toda a parte ha Deus, em céos, em terra, e
mares,
se Deus em toda a parte á Natureza ri...
coração meu,
não desanimes,
gozos que não
prevês, e
cantos mais sublimes,
encontrarás talvez aqui.
¡Ah! sendo assim,
¡que importa a fama!
Tambem
philoméla derrama
sua
harmonia ás selvas que
ama
longe de ouvintes e do sol.
Cantarei. ¿Meu cantar mais
ambições
teria
que a viva, a lustrosa poesia,
de
perolas que a flux borbóta o rouxinol?
Castanheira do Vouga
Outubro de 1826.
II
O SEPULCRO
OU
HISTORIA DE UMA NOITE DE SAN JOÃO
(POEMA)
INTRODUCÇÃO
(QUE É MELHOR DORMIR, QUE
LER)
(Ermo alpestre entre cabeços
de rocha e pinheiros, na
serra
do Caramulo. É noite escura como breu. O autor e um
arrieiro, ambos a cavallo, transviados na montanha.)
I
—Bem lh'o disse eu, perdemos o
caminho;
a velha era por
força alguma bruxa.
Logo eu zanguei co'a cara e mais co'a
touca!
—Bom; a pobre mulher (¿que mais querias?)
tres vezes
t'o ensinou.
—Nem trinta vezes
que eu passasse por elle, o
aprenderia;
a
não ser pelo rasto que deixasse
esmurrando o nariz por essas
lapas.
Já levo sem ferrage ambas as mulas;
perdeu-se o
norte; não descubro casa,
nem gente, nem caminho, e
é quasi noite.
Patrão, por meia legua
mais ou menos,
não se
deixa uma estrada como aquella,
que costeava o monte á beira
da agua.
A velha era uma bruxa, e nós dois asnos.
—Dize um
que vale dois, mas dois não digas.
Se tomámos o
atalho em vez da estrada,
toda a culpa foi tua; eu não
queria,
porem teimaste; e eu não me opponho a teimas.
—Mas
eu ¿por que teimei? ¡pois se a maldita,
com ar de
santa, e palavrinhas manças,
nos rabiscou co'o pau no
pó da estrada
tão claramente as idas, as venidas
d'esta serra sem fim, não lhe escapando
lomba, moiteira,
torcicólo ou brenha,
que a mula mesma entenderia o mappa!
¿Quem não cahia em tal? cahiam todos.
E de mais
¿quem nos diz que aquelles riscos
não tinham
diabrura ou nigromancia
capazes de encarchar um Santo em carne?
¿E quem me diz a mim que a grenha russa
não vai
ao pé de nós?
¡talvez sentada
na anca da mula!...
¡fúgite,
demonios!
Meu Doutor, pelo mundo ha muita coisa;
quem mais
anda, mais sabe; e eu não sou tolo,
nem creancinha de honte.
¡Olha o diabo!
bem digo eu; a azinhaga aqui poz ponto;
caminho... ¡era uma vez! ¡Má raio a
parta!
¿que havemos de fazer nestas alturas?
—Tornarmos
para traz.
—¿Por este escuro?
¿quer dar cabo das mulas,
e
estoirar-me?
¡co'um milhão de diabos!!...
—Pois fiquemos.
—E as mulas comam terra, como os
sapos,
e
nós carqueja.
—As noites são bem curtas.
—Se ao menos se avistasse alguma
venda...
—Em rompendo a manhan teremos tudo.
Por agora apeemo-nos.
(Apeiam-se.)
*
—No inferno
estoire entre um milhão de
Satanazes
o que
inventou primeiro andar de noite;
era o maior ladrão...
¿Que bulha é
essa?
—Não é nada; uma pedra que rebola.
—¡Que rebola!? ¡e sem mão!
será bonito,
mas nem por isso engraço.
¿E aquelle bruto
lá em cima no pinhal, que
guincha tanto!
—Algum mocho.
—Más balas o atravessem,
e lhe acabem co'a casta antes de
um'hora;
cuidei que era outra coisa. Eu na taverna
valho por cinco ou
seis; mas cá perdido,
e então de noite, um pisco
me põe medo.
—Pois dorme.
—¿O
quê? ¡dormir! ¡co'a bruxa ás
barbas!
só se eu fôsse
algum bêbado.
Esta noite
nem pregar olho, nem largar das unhas
dois penedos; e ao
pé já está
reforço.
—Golgan, já que não foi por
nossa escolha,
busquemos contentar-nos co'a poisada,
que inda
não é tão má como
o parece.
¡Quantos ha menos bem acomodados
por esse mundo
agora! uns em cadeias,
outros entre ladrões,
náufragos outros,
estes em luto, aquelles em
doença.
Bastantes em colxões de plumas
fôfas
revolvem entre hollanda, e sedas, e oiro,
cuidados
tristes, asperos remorsos.
¡Quantos até nas salas
mais alegres,
entre as luzes, e as muzicas, e as danças,
mas
em face de um sôffrego banqueiro,
padecem mais que um reo chegando
á fôrca
Não ha mal sem peor; qualquer estado
se se
compara, é bom; com cara alegre
suavisam-se os incommodos;
um fardo
n'um hombro impaciente é fardo e meio.
Quem
não soffre um descommodo pequeno
nos grandes morre; um leve
desagrado
dá realce ao prazer quando nos volta.
Qualquer
estado, e pessimo que seja,
tem seu lado risonho; e é da
prudencia
d'entre os picos da silva achar a amora.
Amen.—Brava
o latim; dá
ceia e cama.
—A falta d'esta ceia é novo adubo
do
almoço de amanhan; e emquanto á cama,
¿que outra melhor do que esta em mez de Junho?
Nem paredes
nem tectos, que nos roubem
a viração da noite
apoz a calma;
por entre essa quebrada dos penhascos
lá em
baixo o mar co'os seus murmurios frescos;
sobre nós, e por
baixo das estrellas,
pendendo como um lustre, este carvalho
cravejado
de insectos que entre-luzem;
dois rouxinoes ao longe; as lageas,
mornas.
Vê; que soberba camara!; que leitos
desde a origem
dos seculos nos guarda
no seio d'esta brenha a Natureza!
—Ao menos
não tem pulgas. ¡Xó,
canalha!
¡leva rumor! é bom pregar de coices.
Não durma, Sôr Doutor.
—Não tarda muito
que eu não entre a sonhar
¡Que bellos sonhos
não devem ser os de uma noite
d'estas!
—Tenha lá mão com isso; o que eu
prometto,
para espalhar-lhe o somno, é uma enfiada
de casos
que eu passei na minha vida;
tão rara, que podia ir
á
Gazeta!
*
Uma vez ia eu só; era em
Novembro;
chuviscava e fazia um
tal escuro
que era metter os dedos pelos olhos.
(Lembrou-me esta a
proposito da mula
escoicinhar sem causa.) E era bom tempo
aquelle;
andava Christo pelo mundo;
tinha eu mais duros, que patacos hoje,
e
andava o oiro aos pontapés da gente;
tambem...
¡já cá não torna!
O grande caso
é que n'aquelle tempo era eu solteiro,
e rapaz
bonitote; e havia muitas
que me fizessem fogo; eu cuido, e é
certo,
que não pelos vintens; nem pela cara;
mas isto de
casar co'um almocreve,
seja elle o diabo dos infernos,
parece a todas
bem: é uma delicia
ter o seu homem só de vez em
quando,
em logar do espião de um pegamaço
com
residencia fixa em ar de abbade.
Mas... não é bom
falar na vida alheia.
*
Como lhe ia contando, era almocreve;
chamavam-me o Chupista.
¡Oh! que bolaxa
que eu pespeguei na cara do coécas
que me inventou a alcunha em certa venda!
qualquer creança
lhe moia os queixos;
já lá está onde o
pague
¿Onde ia o ponto?
¡ah! sim; era almocreve e
recoveiro;
e andava com dez machos todo o anno
a correr quanto valle e
monte havia
para cobrar o fôro aos Frades Cruzios.
Que isto
do fôro é bom, nem que pareça;
uns pagam-lhe borel, outros centeio,
queijos, presuntos, lan, cevada, vinho,
gallinhame por arte do diabo,
ovos, e até o musgo onde se empalham.
[1]
Não ha
n'um pardieiro um desgraçado
que não deva pagar
alguma nica.
Já vê donde me vinha a minha alcunha;
mas sem rasão; é porque andava ás
ordens.
Tambem já tenho ouvido alguns autores,
tal como o
meu cunhado, e mais uns certos,
que é coisa bem mal feita a
tal derriça;
Mas bem feito ou mal feito, eu não
sou Papa.
Vamos cá co'o meu conto.
*
Era uma noite,
cuido que já lh'o disse,
ali por Maio,
e fazia um luar... que era um consolo.
Eu saio a meu
avô; se é boa a estrada,
gósto de andar
de noite havendo lua;
cá pelas brenhas não, que
não sou
lobo.
Vinha eu mui fresco em mangas de camisa,
em cima de uma carga de
presuntos,
pela estrada real, co'os sete machos
a dormitar ao som da
chocalhada.
Vinhamos caminhando em certo passo
de quem gosta da noite,
ou vem sem pressa,
ou de quem traz comida a gente farta.
*
Que lhe digo, em abono da verdade,
que servir Santa-Cruz
não dá desgosto:
pagam bem, fazem festa ao
gallinheiro,
vendo os machos no
pateo é uma alegria!...
¡aquillo até os
olhos se lhes riem!
dão pinga, e de cear, e muitas vezes
vi
eu estar vai não vai a dar-me um beijo
o Frade gordo que
recebe o saque.
¡Bom tempo! ¡bom de lei!
já
cá não torna.
Não durma Sôr
Doutor.
—Não durmo; acaba.
—¡Acabar! não
acabo em toda a noite,
nem que estoire a barriga do diabo.
Inda eu
não comecei. Lembra-me um Frade
que havia em Santarem; tinha
um cachaço,...
por tal signal que até revia
enxundia;
¡e era um demo, o maldito, a beber vinho!...
¡Mas aquillo! a prégar era uma joia;
um
sermãosinho d'elle atarantava
e punha tudo azul. Tinha a
constancia
de arrumar prègações de
duas horas.
N'um que eu lhe ouvi, depois de falar muito...
(e olhe, foi
tanto, que eu, e muita gente,
já tinhamos dormido
á regalada)
disse muito pausado: «Eu
principio.»
Assim faço eu tambem. Todos
devemos
tirar das
prègações algum
proveito.
Ora pois, não me durma, e ahi vai a historia;
porém tenha lá mão, que a levo errada.
*
Nesse dia á tardinha, na
estalage
tinha entrado uma
velha; era um diabo,
que isso... só visto! pequenina, magra,
muito preta; era um bilro de pau santo.
Tinha pela cabeça um
lenço pardo
atado pela barba, um manteo ruço,
e
uma mantinha exotica e de agoiro.
Tinha então uma cara
não sei como;
nem parecia
cara; era um nó cego
que fazia azoar a toda a gente;
mas
muito experta; e uns olhos como um bixo.
¡Tambem aquella rez
tinha no corpo
muita pipa de sangue de creanças!
*
Cheguei eu á estalage, e
ia com fome;
vou-me á
carga do fôro, agarro uns ovos,
mando
os frigir com mel, que é papa
fina;
e então para quem tem de andar de noite
dizem que
é bom, que livra do catarro,
já se sabe com
quatro pingarolas.
Ia se preparando o meu
guizado,
e era um cheiro tão bom pela cosinha,
que isso
não ha dizer. Já dois gallegos,
e mais, tinham
ceado; andavam tolos
a cochichar, e ás voltas pela casa,
um
olho em mim, outro olho na tigella,
e eu muito concho a rir, e a pescar
tudo.
Basta dizer que me pediram ambos
que vendesse um
quinhão; ¡e isto em gallegos!
*
Emfim, cheirava bem, e estava d'alma.
Mas o monstro da
velha era uma estaca
ali muito direita ao pé dos ovos,
com
cada olho aberto, ¡que te parto!
Era mesmo um olhar de inveja
e zanga.
Logo eu tive má fé co'a tal menina
quando ella perguntou quem era o dono.
Porém quem mal
não usa mal não cuida;
sentei-me á
meza a codear nos ovos.
Ora
agora o vereis: a minha amiga
amúa-se n'um canto, mais
vermelha
que um pimentão, e eu sempre a observar n'ella.
Ferra os olhos em mim com tal quezilia,
que a não ser por
temer a Deus e a ella,
batia-lhe co'o prato pelas trombas.
Botava cada
lagrima... ¡de punho!
dava cada suspiro, a excommungada,
¡que punha medo! accendo o meu cigarro,
pago, monto a
cavallo, e sigo a estrada.
Era já noite escura, e
um vento frio
como o gran Satanaz.
*
¿Que diabo é isso?
ressona?; ou já na
costa anda algum moiro?
—Avante; são as ramas que
sussurram.
—Pois deixe-as sussurrar. Vinha eu picando
pela estrada
real por ser já tarde,
e a assobiar sósinho o
tiroliro.
Vai senão quando,
estacam-se-me as bestas.
Á esquerda, como ahi, ficava um
monte;
d'esta banda um pinhal muito fechado;
de sorte que o caminho (e
então mui longe
de todo o povoado) era um soturno,
que nem
Roldão o andava áquellas horas.
Entrei logo a
suar e a arripiar-me;
e as mulas n'um inferno de pinotes
sem
quê nem para quê; davam taes rinchos,
que se fundia
o chão; pregavam coices,
que assoviavam no ar;
¡que contradança!
era uma groza de diabos doidos,
e eu mais doido, no meio, á bordoada.
[2]
Aqui
digo eu como dizia o Frade
n'outro sermão de um Santo;
não lh'o pinto
por não ter um pincel.
Mas faça
ideia
que tal eu ficaria lobrigando
(¡eu te arrenego diabo!)
uma luzerna
a ir e a vir, á roda, e acima e abaixo,
lá longe no pinhal. Que era bruxedo
tive eu logo de
fé; muitos que m'o ouvem
riem-se, e tal; deixal-os rir; ha
bruxas;
que isso sei eu; ¡e então ali!
¡tão tarde!
Por força era algum sabbado
lá d'ellas,
que as taes amigas juntam-se de noite
a fazer os
seus sabbados, o mesmo
como nós no Natal á meia
noite...
Ha muita comezana de creanças,
sarrabulhos de
sangue, cambalhotas,
e umas rizadas..... que até Deus se
admira.
No meio anda um pretinho muito gordo,
que é o
proprio diabo em carne e osso.
Diz então muita coisa a todas
ellas,
dá-lhe lá seus conselhos, toma contas
do
que teem feito, e..... acaba a tal comedia.
Untam-se co'uma untura que
lá sabem,
transformam-se em corujas e mosquitos,
o diabo e o
lume sorvem-se na terra
dizendo boa noite até tal dia,
e
ellas voltam-se a casa a armar já outras.
Isto sabia-o eu
como os meus dedos.
Lembrou-me a tal gulosa da estalage,
e
então é que dei tudo por perdido.
Deitei
fóra o cigarro, e entro em voz baixa
(¡sempre isto
do pavor faz muita asneira!)
entrei eu
co'as mãos postas para as mulas
a pedir-lhes co'as lagrimas
nos olhos,
pelas Almas Bemditas, que deixassem
todo aquelle motim, que
me perdiam;
que fugissem d'ali, que andavam bruxas,
e que pé
ante pé viessem vindo;
que eu promettia uma
ração dobrada.
Partimos. De repente
desembésta
d'ao-pé da tal luzerna um certo vulto
direito para nós como uma xára.
Com seis
milhões de grozas de diabos!
¿quem havia de ser,
senão a velha?
Salta n'um pulo a estrada, atrepa ao monte,
chega ao cimo, e de lá muito sizuda
entra a dizer-me adeus,
e (¡t'arrenego!)
a fazer-me uma cara dos infernos...
—¿E tu viste-lhe a cara em tanto escuro?
—Certo
é que lembrou bem; tambem agora
lá me faz
confusão ter visto a cara.
¿Escuro? isso era
escuro como um prego;
não sei como isso foi, mas vi-lh'a, e
vi-lh'a;
¡assim eu visse Deus! trago-a ainda hoje
tão bem encasquetada no juizo,
que a podia pintar, e era
pintura,
que urrariam os bois se lh'a mostrassem.
Quer escuro quer
não, vi-a, e está dito.
*
Mas o bom não foi isso; o
mais bonito
foi entrar de
repente o gallinhaço
nas canastras da carga em cantarolas,
a
romper, a fugir, e eu pila pila
para aqui, para ali, correndo
ás cegas
sem as poder juntar. Foi
se-me a noite
n'esta labutação; de cada canto
sentia um cacarejo, ia
ás carreiras,
gallinha... por um oculo. Já rouco,
moido e desesp'rado, ao romper d'alva
vejo as minhas senhoras mui
contentes
todas juntas n'um bando ao pé das mulas.
*
Mas alto; esta é peor.
¿Não
vê? repare:
¡um clarão para ali!! d'esta
nos trincam;
¡meu Deus! ¡onde diabo eu tinha a
morte!!
—Alegra-te, Golgan; ¿que noite é esta?
—Para nós ambos de Fieis defuntos.
—De San
João.
—¡Ah! sim; pois é fogueira,
e não
é outra coisa. ¡Ora o diabo!
sempre tive uma
colica soffrível.
Mas vamos nós a andar, se lhe
parece.
Dizia um Padre Mestre ali do Algarve,
n'umas rasões
que teve com meu tio,
que era barbeiro então, e o Padre
Mestre
era o Vigario d'elle; e elle, o meu tio,
ia fazer-lhe a barba e
mais ao preto,
que era um tição que só
á
bofetada;
¡mas muito presumido! ¡e então
por
moças
dava o grande magano um cavaquinho!!...
Com que emfim,
tinha o Padre este ditado:
aonde ha lume ha fumo; e eu então
digo
que por força onde ha lume ha-de haver gente;
e que
onde ha gente ha casa; e toda a casa
tem a sua cosinha, e
então ceâmos.
E é partir de repente em
quanto ha lume.
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II
Eis aqui um dialogo de ensanchas
sem
geito, sem sabor, sem fim, sem
nexo—
grita o leitor perdendo as estribeiras.
¿Onde foi
isto? ¿ou quando? ¿quem
são elles?
¿onde vão?
¿d'onde veem?
*
Leitor amigo,
ha duas horas que soubéras
tudo,
se o cruel
arrieiro o permittisse;
mas vais sabel-o em quanto enfreia as mulas.
Quanto a elle, presumo que o conheces;
o nome do outro autor
dir-t'o-hei n'um verso
não peor que outros muitos
portuguezes:
Antonio Feliciano de Castilho.
Venho do Minho de assistir
a bodas;
recolho me outra vez á
Castanheira
[3]
a casa do Prior, a fazer versos,
beber-lhe o vinho
verde, e dormir muito.
O theatro da scena é certo monte
de
que me esquece o nome; o anno, e o dia,
Mil oitocentos e vinte e oito,
á noite,
vespera de S. João. Se mais desejas,
é perguntar, que eu te respondo a tudo.