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Os dialectos romanicos ou neo-latinos na África, Ásia e América cover

Os dialectos romanicos ou neo-latinos na África, Ásia e América

Chapter 56: II. DIALECTOS HESPANHOES
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About This Book

The work surveys Romance-derived vernaculars that arose in Africa, Asia and the Americas, with special attention to Portuguese-based creoles. It documents how local speech varieties differ from metropolitan norms, assembles letters, proverbs and grammatical observations as evidence, and distinguishes deeper, heavily creolized forms from varieties retaining more continental features. The author traces recurring phonetic, lexical and structural tendencies, outlines comparative aims for grammar and vocabulary description, presents island case studies, and urges broader field documentation and systematic comparative study to clarify the formation and social distribution of these dialects.

Pato nosso santo paceto ranho tu e figo valente tu e cinco sego, salva tera pão nosso quanto dão dá noves caro he debrite noses ja libro nosso gallo. Amen Jeju, Jeju, Jeju.

Sa pantaro Furunando.
Dize, rogo-te, fallai:
Conhece tu que furtai?
Porque tu nam bruguntando?
Grande canseira:
Firalgo sôlto, canseira;
Chovere muto, canseira;
Não póde chovere, canseira:
gonç. Perguntarei por meu pae. Muito filho, canseira;
neg. Cal-te: Deoso cima sai,
Que furtai ere oiai.
Deoso nunca vai dormi,
Sempre abre oio assi,
Tamanha tu sapantai.
Guarda mar esso mal,
E senhora Prito santo.
Nunca rirá homem branco
Furunando furta real.
Não sabe mi essa careira:
Para que? para comê?
Muto comê muto bebê
Turo turo sa canseira.
Nunca pariro canseira;
Papa na Roma canseira;
Essa ratinho, canseira;
Não vamo paraiso, grande canseira;
Vira reza mundo turo turo he
Canseira.
Mi nam falla zombaria.
Pos para que furtai?
Que riabo sempreza!
Abre oio turo ria.
Mi busca mulato bai.
Ficar abora, ratinho.
Vira mundo turo canseira:
Senhor grande, canseira;
Home prove, canseira;
Muiere fermoso, canseira;
Muiere feio, canseira;
Negro cativo, canseira;
Senhoro de negro, canseira;
Vai missa, canseira;
Prégação longo, canseira;
Crerigo nam tem muiere, canseira;
Crerigo tem muiere, canseira;
gonç. Eu aguardo meu padrinho,
Que va comigo a meu pae.
Eu vou ao rio perem,
Porque hei sêde e beberei,
E sicais que nadarei
Emquanto o clerigo vem.
Leixarei o chapeirão
Mettido nesta mouteira,
E o cinto e esmoleira,
Porque lá logo o verão,
Não me aqueça outra tal feira.


(Espreita o negro como Gonçalo esconde o chapeirão e o al, e tanto que se vai entra dizendo:)


neg. A mi abre oio e ve
Ratinho tira besiro:
Ere dexa aqui condiro:
Não sei onde elle mettê.
Senhora Santo Francico,
Santa Antonia, San Furunando!
Pois mi ha d'andar buscando,
E levare elle na bico
O servo Santa Maria.


Sabe a regina Matho misercoroda nutra d'hum cego savel até que vamos. A oxulo filho d'egoa alto soso peamos ja mentes ja frentes vinagre qu'elle quebrárão em balde ja ergo a quante nossa ha ilhos tue busca cordas oculos nosso convento e geju com muito fruta ventre tu ja tremes ja pias. Seuro santa Maria dinhero me lá darão he ve esa carta da me mucho que furte cantara Furunando.


(Acabada assim esta salve regina, acha o Negro o que Gonçalo leixou escondido, e diz:)


Ei-lo aqui sa! Deoso graça.
Graça Deoso esse he capote;
Nunca dexa aqui palote:
Ratinho, quem te forcasse!
Aramá que te ero villão!
Que palote saba sam,
Barete também bo era.
Mi cansai e á deradera
A mior fica sua mão.
Vejamos bolsa que tem: Hum pente para que bo?
Tres ceitil sa qui so:
Ratinho nunca bitem.
O riabo ladarão!
Corpo re reos consabrado!
Essa villão murgurado
Sa masa prove que cão.
Quando bolsa mi achase
Fernão d'Alvaro, esse si;
Nunca pente sa alli.
Ah reos! quem te furtasse
Bolsa, Nuna Ribeiro!
Home bai busca rinheiro:
A toro ere rise:
Ja rinheiro feito he.
Aramá que tu ero gaiteiro!
Fernão d'Alvaro m'acontenta;
Elle nunca risse nam.
Logo chama ca crivam,
—Crivaninhae esormenta;
Toma rinheiro, vas embora.
Boso, home de bem, que buscae?
—Mi da cureiro agarba sae.
—Boso que buscai corte agora?
—Buscae a Rei jam João,
Paga minha casaramento.
—Dá ca, moso, trae esormento;
Crivaninhae boso, crivão:
Home, tomae hum dos quatro sete:
Vas embora turo turo.
Sua rinheiro sa segura,
Mioro que elle promete.
Marco Estevez moladeiro.
Elle rise: Santa Maria!
Rinheiro boso queria?
Bai bai dormir paieiro.—
Boso que pedir, muieiro?
—Tanta filho mi tem qui...
—Quem manda boso pari,
Boso grande parideiro?
—Boso seria muito bô:
Vaca ne Francico paia;
Tenha seis filho e mi so
Nam temo comere ni migaia.
Elle rise:
Que culpo tem a Rei jam João
Boso parir como porco,
Bai buscai sua pae torto,
Que dai a sua fio pão.
Velha, que boso querê?
—Molla, que a mi pobre sai.
Elle rise:
Porque boso nan guardai
Rinheiro que boso bebê?—
Jesu! Jesu! moladeiro
Sa riabo aquella home:
Quando a mi more da fome
Nunca buscai sua rinheiro,
Porém graça a Reos, a mi
Nunca minga que furtá;
Pouco ca, pouco relá,
Pouco requi, pouco reli,
Grão e grão gallo fartá,
Quem furta, home sesuro:
E louvar a Reos com turo
E senhoro Prito Santo.
A mi bai furta emtanto
Camisa que sá na muro.
Gil Vicente, O Clerigo da Beira.


O preto, e o bugio ambos no mato discorrendo sobre a arte de ter dinheiro sem ir ao Brazil.
Lisboa. Na officina patriarchal de Francisco Luiz Ameno 1789. 4.º 21 pp.—Excerpto:

«Já non pore deixá de incricá os cabeça, e confessá, que vozo doutrina sá huns doutrina tão craro, e verdadeiro, que pla mim sá huns admiraçom non sé platicada per toro o mundo. O trabaio a que vozo obliga os pleto, e os blanco; sá huns trabaio a que ninguem se pore negá sem melecé huns cóssa bom; porque os genia, e os incrinaçom do natureza a toro gente move pala ere, e fóla de trabaio ninguem pore vivé em satisfaçom. Mim agola sem trabaiá nom pore conté, ainda que mim ter abominaçon a captiveiro cruere de blanco, de que sá forro; com turo non aglada a mim estar aqui sem nada fazé: evita vozo tanta plegiça, os excessa de plodigo, e dos varento, que nozo poderemo toro assi havé os oira, e triunfá dos indigencia; e de turo quanto pore infelicitá. Se aqui apalecera agola uns blanco, que pole escrevé os mavioso doutrina, que vozo platicá, e toro o gente ouvire cos oreia aberto, faria ere ao familia toro do mundo hum favoro, que meoro non pore imaginá.» p. 21.



II. DIALECTOS HESPANHOES


1. Creolo de Curaçáo


Esta ilha, cujo nome é lembrado por um licor bem conhecido, que d'ella tomou o seu, é uma das tres ilhas denominadas de «sotavento»; está situada em frente da costa de Venezuela entre a lat. 12° 3' e 12° 24' e long. 68° 47' e 69° 16' Gr.

Com as outras ilhas do grupo pertenceu á Hespanha depois de seu desenvolvimento até 1648 em que a Hollanda ficou de posse d'ella, e conservando-a até hoje, apenas com uma interrupção produzida pelo dominio de Inglaterra de 1807 até 1815. A primitiva colonisação hespanhola foi muito limitada. Hoje a população da ilha sobe a mais de 15:000 habitantes, de que apenas cêrca de um quinto são brancos. A população negra parece ter passado para lá em grande parte das colonias hespanholas; o dialecto creolo que ella falla tem por base o hespanhol e contém alguns elementos lexiologicos ministrados pelo hollandez. O sign. E. Teza consagrou a esse dialecto um artigo no Politecnico, vol. XXI, p. 342-352, tendo por base de investigação o livro: Catecismo pa uso di catolicanan di Curaçao. Cathecismus ten gebruike der katholyken van Curaçao door Martinus Joannes Niewindt, bissehop van Cytrum, karmerheer van Z. H. en apostolisch vicarius van Curaçao. Gedrukt te Curaçao ter drukkery van zyne doorluchtige hoogwardigheid. Segundo o illustre professor italiano esse catechismo não foi impresso muito antes de 1845.

The Bible of Every Land, p. 270, dá-nos a seguinte noticia: «Uma traducção de parte do Novo Testamento n'esta lingua foi feita pelo rev. Mr. Conradi; e uma pequena edição do evangelho de S. Matheus foi impressa em 1846, a expensas da Sociedade biblica neerlandeza». O sign. Teza não soube da existencia d'essa traducção, de que a obra ingleza citada nos dá um specimen em orthographia hollandeza, que vamos reproduzir enterlinhando-o com as palavras hespanholas correspondentes, tanto quanto conseguimos determinal-as.

S. Matheus, cap. V v. t. 12


1. Anto ora koe Hezoes a mira toer e heende nan eel a soebi
Entonces hora que Jeus ha mirar todo el hombre el a subir

o en seroe; deespues eel a sienta i soe desipel nan a bini
a un sierra; despues el a sentado y su discipulo ha venido

seka dje.
cerca del.

2. I eel a koemisa di papia i di sienja nan di ees manera.
Y el ha comenzar de papiar y de enseñar de esta manera.

3. Bieenabeentoera ta e pober nan na spiritoe, pasoba reina
Bienaventurado está el pobre spíritu, por-este-obra reino

di Dioos ta di nan.
de Dios está de

4.
Bieenabeentoera ta ees nan, koe ta jora pasoba lo
Bienaventurado está este —, que está llorar, por-este-obra

nan bira konsolaa.
consolado.

5. Bieenabeentoera pasifiko nan, pasoba lo nan erf tera.
Bienaventurado pacifico —, por-este-obra tierra.

6. Bieenabeentoera ees nan, koe tien hamber i sedoe di hoestisij,
Bienaventurado este —, que tiene hambre y sed de justicia,

passoba lo nan no tiene hamber i sedoe mas.
por-este-obra no tiene hambre y sed mas.

7. Bieenabeentoera ees nan, koe tien mizerikoordia, pasoba
Bienaventurado este —, que tiene misericordia, por-este-obra

lo heende tien mizerikoordia koe nan,
hombre tiene misericordia con

8. Bieenabeentoera ees nan, koe ta liempi di koerasoon pasoba
Bienaventurado este que está limpio di coraçon, por-este-obra

lo nan mira Dios.
mira Dios,

9. Bieenabeentoera ees nan, koe ta perkoera paas, pasoba
Bienaventurado este que está procurar paz, por-este-obra

lo nan ta jama joe di Dioos.
está llamado hijo de Dios.

10. Bieenabeentoera ees nan, koe ta persigido pa motiboe di
Bienaventurado este —, que está persiguido por motivo de

hoestisji, pasoba reina di Dioos ta di nan.
justicia, por-este-obra reino de Dios está de

11. Bosonam lo ta bieenabeentoerado koe ta koos nan zoendra
Vosotro-nan está bienaventurado que está

i persigi bosonan, i koe ta koos pa mi kausa nan ganja
y persiguido vosotro-nan, y que está por mi causa gañar

toer soorto di maloe ariba bosonan
todo suerte de malo arriba vosotro-nan.

12. Legra bosonan i salta di legria, pasoba bosonan
Alegrar vosotro-nan y saltar de alegria por-este-obra vosotro-nan

rekompeensa ta grandi deen di Ciëloe; pasoba nan a persigi
recompensa está grande dentro de Cielo; por-este-obra ha perseguido

di ees manera e profeet nan, koe tabata promee koe bosonan.
de este manera el profeta —, que estaba primero que vosotro-nan.


Para auxiliar a comprehensão d'esse excerpto damos a versão hespanhola dos doze versiculos de S. Matheus.

1. Mas viendo Jesus este gentío, se subio á un monte, donde habiéndose sentado, se le acercaron sus discípulos;

2. Y abriendo su boca, los adoctrinaba diciendo:

3. Bienaventurados los pobres de espíritu, porque de ellos es el reino de los cielos.

4. Bienaventurados los que lloran, porque ellos serán consolados.

5. Bienaventurados los mansos, porque elles poseerán la tierra.

6. Bienaventurados los que tienen hambre y sed de justicia, porque ellos serán saciados.

7. Bienaventurados los misericordiosos, porque ellos alcanzarán misericordia.

8. Bienaventurados los limpios de corazon, porque ellos verán á Dios.

9. Bienaventurados los pacificadores, porque ellos serán llamados hijos de Dios.

10. Bienaventurados los que padecen persecucion por la justicia, porque de ellos es el reino de los cielos.

11. Bienaventurados sereis cuando los hombres per mi causa os maldijeren, y os persiguieren; y dijeren con mentira toda suerte de mal contra vosotros.

12. Alegráos y regocijáos, porque es muy grande vuestra recompensa en los cielos: del mismo modo persiguieron á los profetas que ha habido antes de vosotros.


Como se vê, n'este dialecto não ha nenhuma distincção formal de genero nem de numero: a pluralidade exprime-se pela adjuncção de nan, que é o pronome da terceira pessoa plural: ees nan, estes ou aquelles; pober, pobre; pober nan, pobres. Quando um substantivo é precedido de adjectivos só se segue o signal do plural depois do substantivo: toer el heende nan, todos os (aquelles) homens. O presente é geralmente expresso pela fórma ta (==está) e o infinito, tendo todos os infinitos perdido o r final.

O futuro é expresso por lo (==luego?).


2. Hespanhol fallado nos campos de Buenos-Ayres e Montevideu


M. Maspero publicou em Mémoires de la Société de Linguistigue de Paris, t. II, p. 51-65 (Paris, 1875), um artigo sobre as alterações experimentadas pelo hespanhol no Rio da Prata. Essas alterações são sufficientes para lhe dar uma feição dialectal assás bem caracterisada; mas são muito differentes das que determinam os dialectos creolos, como o de Curaçáo, etc.; são principalmente lexiologicas e phoneticas. A vida nova dos europeus n'essas regiões deu principalmente logar á creação de palavras novas do velho fundo do idioma nacional e á introducção de termos das linguas indigenas, por exemplo, de pié fez-se pialar, pear um cavallo, de manco mancarron, um cavallo máo, que não serve para nada. Alguns dos termos das linguas indigenas adoptados encontram-se tambem no portuguez do Brazil e parte vieram até ás linguas europêas, como jacaré, yacaré (termo guarani). As alterações phoneticas encontram-se sobretudo na linguagem do camponio oriental ou Porteño.



III. DIALECTOS FRANCESES


1. Creolo da ilha Mauricio


A este dialecto pertencem algumas poesias da collecção intitulada: Les essais d'un bobre africain, seconde édition, augmentée de près du double, et dédiée à madame Borel jeune, par F. Chrestien. Ile Maurice, G. Deroullede et Cie, 1831, pet. in-4. Achámos a indicação d'esta obra no catalogo da bibliotheca de Burgaud des Marets e n'um artigo de M. P. Meyer: Revue critique, 1872, artigo 50. A ilha Mauricio, depois do dominio do portuguez e hollandez (1598-1715) esteve em poder dos francezes de 1715 a 1810, em que se tornou possessão ingleza.

O dr. A. Bos publicou na Romania muito recentemente (vol. IX, p. 571-578) uma nota sobre o dialecto creolo d'essa ilha, a qual pudémos ler ainda á ultima hora. Resumimos o seu conteúdo.

«Esse creolo, diz o auctor, formado para o uso commum, laço de communicação entre as differentes raças que habitam a ilha, é muito desprezado; não se escreve e não é empregado pelos brancos senão para se fazerem comprehender dos seus creados de côr. O plantador de Mauricio não falla creolo senão a seus servos ou trabalhadores, negros ou indios, e ainda a seus cães de caça, repellindo para longe de si a idéa que esse patois informe possa jamais converter-se n'uma lingua. E, todavia, o creolo de Mauricio, como diremos mais abaixo, cresce e prospera de dia em dia; encaminha-se para a fortuna de uma lingua.»

Com relação á phonetica notaremos o seguinte:

1. O accento tonico não se desloca.

2. Ha alongamento frequente de a: ā-ccent, pā-rent. Esse alongamento é de lei quando ha quéda de consoante: pā-ti==partir (alongamento por compensação).

3. E medial atono muda-se em i: vini (venir) ou cae; e final atono cae sempre.

4. Ui muda-se em i; oi ás vezes em o.

5. Ch, g (e, i), j mudam-se respectivamente em ç, z.

6. R final cae sempre, até nas ligações como tre, bre; p. ex. cambe==chambre. R medial entre vogal e consoante cae igualmente: Zoze==Georges.

7. X é pronunciado como s (ç): éçélan==excellent.

Com relação ás fórmas eis o mais interessante:

1. Não ha distincção de generos: permanecendo a fórma masculina para o masculino e feminino, mon fame, ton lakaze, ma femme, ta maison.

2. A distincção do numero tende igualmente a desapparecer. Os pronomes pessoaes que são palavras differentes para o singular e plural conservam-se: moa, eu; nou, nós; toa, tu; vou, vós.

3. A suppressão do artigo é quasi completa. Como no dialecto da Trinidad o artigo e ainda a preposição partitiva coalescem com varias palavras: lacaze, casa (maison); dilo, dipin, divin (de l'eau, du pain, du vin). Como no dialecto da Trinidad se diz zoreis==oreilles (o s é o resto do artigo les), assim n'este temos, p. ex,: zozo, oiseaux. O z apparece tambem no singular: ène zozo, un oiseau, li zozo, les oiseaux.

4. Pronomes: moi, toa, li (lui); nous, vous, li. Os pronomes sujeitos do singular je, tu, il do francez desappareceram pois; o pronome da terceira pessoa do plural é identico ao do singular.

5. Uma unica fórma verbal—o infinito, é empregada no creolo da ilha Mauricio. O passado é expresso pelo infinito do verbo principal com o infinito auxiliar fini: moi fini travaïé, j'ai travaillé; mon fini broçe chambre, j'ai fait (brosser) la chambre. Para a expressão do futuro empregam-se com o infinito diversas locuções adverbiaes. Para alguns verbos, segundo o dr. Bos, essa fórma unica que substitue todas as outras não saíu do infinito, mas sim do presente: koné==connais, connaît; voulé==voulez. A explicação verdadeira d'essas fórmas está n'outro principio que o artigo que analysâmos nos ministra. Os infinitos em oir e re foram substituidos por infinitos analogicos pelos typos em e (er) e i (ir); assim éteindre por éteignir, tezi por taire. Estas fórmas assentam sobre as do plural éteignons, éteignez, éteignent, taisons, taiser, taisent, ou antes sobre os substractos éteign-, tais- com a desinencia do infinito i. O dr. Bos, tendo primeiro explicado voulé por voulez, apresenta-o depois como exemplo d'este processo.

6. O verbo avoir foi substituido por gagner (como na Luisiana).

7. Não se usam conjuncções; as proposições são raras. A construcção approxima-se do typo chinez: moa kosé vou alé baza, je vous dis (cause) d'aller au marché (bazar); toa guété çival pa pati, tu regarderas (guetter) á ce que le cheval ne parte pas; mamzèle kosé kóme ça mamzèle pa vini mamzèle faï, mademoiselle m'envoie vous dire précisément qu'elle ne peut pas venir, parce qu'elle est malade; vou kontan moa alé promené, êtes-vous satisfait, aimez-vous que j'aille me promener?

Com relação ao vocabulario diz-nos o nosso auctor: «O creolo apenas conservou do francez poucas palavras, as palavras que bastam para exprimir as primeiras necessidades da vida, as relações mais ordinarias. Evidentemente seria difficil e mesmo impossivel tratar um assumpto de philosophia em creolo; o mesmo succedeu provavelmente com o francez nos seus primeiros começos. A essas poucas palavras francezas que formam quasi em totalidade o seu vocabulario, o creolo ajuntou algumas recebidas dos paizes vizinhos: baza, mercado, salam, bons dias; tiffin (pronuncia-se toffin), o paladar, d'onde tiffiner, provar, palavras que pela maior parte se acham no francez em uso em Mauricio.»

«Esse creolo de Mauricio, apesar de ser tão grosseiro, está longe de querer desapparecer deante das linguas muito mais perfeitas, o francez e o inglez. A maior parte da população de Mauricio é hoje india; póde prever-se que ella augmentará cada dia mais, graças ás immigrações continuas da India. Deante d'essa onda que sobe, a antiga população creola, brancos, negros e mulatos, diminue proporcionalmente. Ora entre indios, chinezes, malgaches, creolos, mulatos e brancos o laço commum é o creolo. Um indio, um chinez, um arabe, um branco (europeu?) tratarão uns com os outros os seus negocios em creolo, e esse neo-francez tomará maior extensão ao passo que a população variegada da ilha for augmentando. É possivel até que n'uma epocha, muito afastada é verdade, o francez desappareça, como a população que o falla tende a diminuir. O creolo, ganhando ao contrario terreno, poderá tornar-se a lingua usual, commum, e até a lingua geral, como elle é já a lingua do povo, a rustica vulgaris.» O auctor pensa que o inglez permanecerá exclusivamente como lingua de administração sem influencia sobre o creolo.

No francez da ilha Mauricio algumas palavras indicam a proveniencia dos primeiros colonos, porque se acham lá como na Bretanha, de onde elles emigraram; além d'isso esses colonos eram marinheiros. Achando coincidencia de termos entre o creolo d'essa ilha e o de outras possessões europeas no vocabulario em contraposição com o do francez litterario, deve admittir-se que ella tem a causa em que esses colonos levam no seu vocabulario termos do francez de Bretanha e do vocabulario nautico que se encontram nas outras linguas romanicas. No francez de Mauricio diz-se, por exemplo, amarrer não attacher, espérer, não attendre, larguer não lâcher, como em portuguez.


2. Creolo da Luisiana


Na Mélusine I, col. 495-497, acha-se reproduzido um conto em francez-creolo da Luisiana com traducção franceza. É talvez ocioso recordar aos nossos leitores que os francezes descobriram em 1699 a foz do Mississipi e fundaram em 1717 Nova Orleans, e que tendo a Luisiana feito parte dos dominios de Hespanha desde 1762 até 1800, passou n'esse ultimo anno de novo para o dominio da França, que a cedeu aos Estados Unidos em 1803 por 60 milhões de francos. Esses factos explicam a existencia da colonisação franceza e do dialecto francez-creolo n'aquelle estado da republica norte americana. Eis um excerpto do conto:

Ein joie, dan tan lé zot foi, Compair Bouki couri dîné côté so ouasin Compaire Lapin. Compair Lapîn té pa gagné ein goute do lo pou boi. Ça fé Compair Bouki di com à Compair Lapin; Un jour, au temps d'autre fois, Bouc alla dîner chez son voisin, compère Lapin. Compère Lapin n'avait pas une goutte d'eau à boire. Alors compère Bouc dit comme ça à compère Lapin:

—Mouen non pli, mo pa gagné do lo; si to olé vini padna, no va fouyé ein pi. —Moi non plus, je n'ai pas d'eau; si tu veux venir par là, nous allons creuser un puits.

Compair Lapin soucouyé so la tête: Compère Lapin secoua la tête:

—Non! Compair Bouki; gran bon matin, mo boi la rosé on zerbe; dan jou, kan mo souaf, ma boi dan piste la ouach. —Non compère Bouc; le bon matin je bois la rosée sur l'herbe et dans le jour, quand j'ai soif, je bois dans la piste de la vache. Alors compèreBouc fouilla son puits tout seul.

Ça fé Compair Bouki fouyé so pi li tou sel. Apé li té fouyé pi là, kan li couri charché so do lo bon matin, li ouâ trace Compair Lapin au ra so pi. Li graté so la tête et li jonglé. Après qu'il eut fouillé le puits, quand il courut chercher de l'eau de bon matin, il vit la trace de compère Lapin au ras du puits. Il se gratta et s'écria:

—Bambail, mo Compair, mo va trapé toi. —Mon compère, je vais t'attraper.

Li couri pran so zouti et lifé ein gro catin avé boi laurié. Li godroné li, godroné li si tan jika lité noi com négresse guinain. Soleil bas, Compair Bouki couri planté so catin déboute au ra so pi. Dan la nuite la line tapé cléré, Compair Lapin vini avè so baqué pou charché do lo. Kan li ouâ ti négresse là, li rété, li baissé, li gardé ben. Il court prendre ses outils et il fait une grosse catin[6] avec du bois du laurier. Il la goudronne, la goudronne jusqu'à tant qu'elle fût noire comme négresse de Guinée. Le soleil tombé, compère Bouc courut planter sa catin debout au ras du puits. Dans la nuit, la lune tapait clair; compère Lapin vint avec son baquet pour chercher de l'eau. Quand il voit la petite négresse, il s'arrête, se baisse et la regarde bien.

—Ki bétail ci là? —Quelle bête est-ce là?

Li hélé on li; ti négresse là pa grouyé, li pas réponne. Il la hèle; petite négresse ne bouge pas, ne répond pas.


Observações phoneticas. 1) u, ui mudado em i: jiká==jusqu'à, line==lune, pli==plus, pi==puits; 2) au em ou: oussi==aussi; 3) eu em é: ==peu, ==feu, sel==seul; 4) oi em è, é: drète==droite, cré==croire, olé==vouloir; 5) r, re, le apocopados: ouâ==voir, noi==noir, pou==pour, jou==jour, cré==croire, pran==prendre, zot, lot==autre, enco==encore; capab==capable; 6) r sincopado entre vogal e consoante ou consoante e vogal: fanne==fendre, réponne==répondre, foce==force, moceau==morceau, apé==après; 7) v vocalisado ou supprimido: choual==cheval, ouach==vache, ouâ==voir, olé==vouloir (mas volé==voler); 8) assimilação: fanne==fendre, moune==monde, réponne==répondre; 9) apherese: cré==sacré, ti==petit; baissé==abaisser, rété==arrêter, voyé==envoyer, contré==rencontrer, gardé==regarder.

Genero e numero. Não ha nenhuma distincção formal de genero e numero: ti ou petit==petit e petite; moceau==morceau e morceaux.

Artigo. Ora é empregado ou supprimido, assás arbitrariamente: La main goche collé aussi, la main gauche se colle aussi; pié collé, le pied se colle. O artigo apparece entre o possessivo e o substantivo: so la main, sa main; mo lot la main, mon autre main (l'autre main), so la tête, sa tête. O artigo coalesceu com alguns substantivos: lo, eau; do lo, de l'eau (litteralmente: du l'eau), so do lo, son eau (litteralmente: son du l'eau), mas mo fron, mon front, so pi, son puits.

N'alguns casos coalesceu com o substantivo o s (z) de les, e a fórma com essa prothese é empregada como singular ou plural: so zepol, son épaule; zerbe, herbe; zot, autre (tambem lot), so zouti, ses outils; so zoreil, son oreille, ses oreilles; o mesmo se dá na Trinidad e Mauricio.

Pronomes. 1.ª pessoa singular, mo, mouen sujeito: mo boi, je bois; mouen non pli, moi non plus; mouen regimen: lâché mouen, lâche-moi. 2.ª pessoa singular, to sujeito: to gardé, tu regardes; toi regimen: to cré choual voyé cou pié on toi, tu croiras qu'un cheval t'a envoyé un coup de pied; mo va trapé toi, je vais t'attraper; qui cogne toi, qui te cogne. 3.ª pessoa singular, li sujeito e regimen: li fé, il fait; li gratté, il sa gratta; li voyé li, il l'envoya. 1.ª pessoa plural, no va fouyé, nous allons creuser (fouiller). As outras fórmas faltam no conto sobre que se baseiam estas nossas observações. Não ha pronome reflexo: li rété, il s'arrête; li baissé, il s'abaisse; li gratté, il se gratta.

Verbo. Com excepção de ==était (étais), todas as fórmas verbaes são substituidas pelo infinito, que serve para exprimir o presente, o futuro, o preterito de todos os modos. A fórma serve porém para exprimir com um infinito (ou o participio passivo?) periphrasticamente o preterito: li té pá gagné, il n'avait pás; li té fouyé, il eut fouillé; to té di, tu avais dit.

Preposição. As principaes preposições são: avé, avec, dan, dans, en; on, en; au; pou, pour. A preposição de é supprimida: pierre tonnair, pierre de tonnerre; boi laurier, bois de laurier; ta branchaille sec, tas de branches sèches; piste la ouach, piste de la vache; au ra so pi, au ras de son puits; cou pié, coup de pied.

Suppressão de verbos, etc.: Comencé colair, il commence à être colère; kan mo souaf, quand j'ai soif.


3. Creolo da Guyana


MM. de Saint Quentin publicaram ha alguns annos um livro contendo contos populares (um só na prosa original), fabulas traduzidas do francez e canções creolas dos auctores n'este dialecto. Temos noticia d'este livro apenas por uma indicação na Mélusine, I, 55 (Paris, 1877). Na Mélusine, I, n.os 1 e 2, ha traducção, mas sem o original, de dois contos da Guyana franceza. Esta possessão da França foi colonisada por francezes no começo do seculo XVII e permaneceu colonia franceza até hoje, com excepção do periodo de 1808-1817, em que esteve em nosso poder.


4. Creolo da Ilha de S. Domingos


Encontram-se um Voccabulaire, français et crèole, dialogos e canções n'este dialecto no Manuel des habitants de Saint-Domingue, par Ducœurjoly. Paris, Lenoir, 1802, t. II, p. 283-393.


5. Creolo da Trinidad


O dialecto francez-creolo d'esta ilha póde estudar-se na obra The theory and practice of creole grammar, by J. J. Thomas. Port of Spain (Trinidad), the Chronicle publishing office. In 8.º, 134. p. Tenho noticia d'essa obra apenas por um artigo de M. Paul Meyer na Revue critique, 1872, art. 50.

«A conservação entre os negros das Antilhas, diz M. P. Meyer, de patois mais ou menos differentes uns dos outros, mas tendo incontestavelmente uma origem franceza, é um facto digno de attenção. É-o sobretudo na Trinidad que nunca foi colonia franceza. É evidente que todos esses negros vêem originariamente de colonias francezas, e aquelles mesmo da parte meridional dos Estados Unidos que fallam o inglez que nos fizeram conhecer os romances de Mrs. Beech-Stowe ou de M. Kirke, deviam ter fallado outr'ora um patois francez. Parece até que o patois da Ilha de França offerece, na deformação do francez, analogias com o da Trinidad que não são explicadas sufficientemente pela communidade do ponto de partida. A expansão de um patois negro formado do francez depende naturalmente das deslocações a que foram submettidos aquelles que o fallavam, e isso é um assumpto que não é geralmente conhecido, pelo menos d'este lado do Atlantico.

«O fundo do patois é francez, com alguns emprestimos do hespanhol (a Trinidad foi colonia hespanhola até 1797) e do inglez.

«Ha algumas particularidades curiosas no systema dos sons. A apocope e mais ainda a apherese (o fim da palavra sendo geralmente protegido pelo accento) representam n'elle um grande papel. Assim: por étais, était (ou antes talvez pelo participio été); por serais, serait. Outras suppressões effectuam-se sobre o centro das palavras; assim: vlez por voulez, em que vemos a extensão de um facto que o anglo-normando nos offerece em frai (ferai), fras, frad, etc. As liquidas l e r caem deante d'uma outra consoante, e a vogal precedente torna-se longa: mâgré (malgré), pâler (parler), môdre (mordre). Algumas vezes tambem l e r caem depois do accento diante de um e mudo, que seria melhor não escrever; assim: tabe (table), vîte (vitre). Todos que tiveram occasião de ouvir negros ou mulatos das colonias tiveram occasião de notar os mesmos factos na sua pronuncia, ainda quando elles fallam francez.

«Não é á phonetica que pertencem os factos mais caracteristicos do creolo, mas á flexão e á composição das palavras. O que n'essa parte se observa é bem feito para elevar ao mais alto o assombro dos que acham já enormes as formações novas que nos offerecem os idiomas romanicos comparados com o latim. Nós dizemos celui-là emquanto o latim vulgar dizia eccillum; mas os negros põem a todo o instante depois dos substantivos como um demonstrativo a que não ligam já grande valor (M. Th., p. 15). O sentido das particulas e dos artigos está de tal modo obliterado que já não se empregam senão absolutamente confundidos com as palavras a que se juntaram e fazendo corpo com ella: difé, dithé, divin, dleau (p. 18) querem dizer: feu, thé, vin, eau; zoreies quer dizer as orelhas; pêncor (p. 122) quer dizer pas encore, contracção que nos offerece tambem o provençal pancaro. N'um idioma tão empobrecido é só o logar das palavras que indica as relações. Assim n'este proverbio: Pas fôte langue qui fair bêf pas sa pâler (p. 121) (Ça n'est pas faute de langue qui faire bœuf pas savoir parler).

«Os verbos parecem, pelo menos muitas vezes, reduzidos a uma só fórma, a do infinito (a não ser que alguma outra fórma tenha sido preservada por causa de uma differença bem sensivel e de um uso frequente). Estudar-se-hão com interesse os diversos tempos compostos com os quaes os negros remediaram as lacunas da conjugação, e achar-se-ha n'isso materia para diversas comparações com os factos parallelos das linguas romanicas. Todavia é mister não esquecer que a comparação não tem aqui senão a mais fraca base. Os negros quando aprenderam o francez, estavam habituados a uma linguagem absolutamente differente, e nunca souberam senão as palavras e as fórmas mais usuaes do seu novo idioma, emquanto o latim vulgar de que saíram as linguas romanicas por desenvolvimentos individuaes e locaes, foi sempre um idioma assás completo, cujas transformações foram assás lentas para que as lacunas tivessem tempo de se encher ao passo que se formaram.»