6. Creolo da Martinica
Cremos que versa principalmente sobre este dialecto a obra seguinte,
que conhecemos apenas pelo catalogo da bibliotheca de Burgaud des
Marets:
Catéchisme en langue créole,
précédé d'un essai de grammaire sur
l'idiome usité dans les colonies
françaises, par M. Goux, missionnaire
à
la Martinique. Paris, Vrayet de Suroy, 1842, in 8.º Mais
recente
é o
livro de Turiault:
Étude sur le langage
créole de la Martinique. Brest.
236 pp. in 8.º en deux volumes. 1876. (Paris, Viaut.)
Contém uma
serie de enigmas, numerosos proverbios, alguns contos, algumas
canções
e diversas traducções do francez. Vid.
Mélusine, I, 55. Paris,
1877.
IV. LINGUA FRANCA
Littré,
Dict. de la langue
française, s. v.
franc 4, define lingua
franca: «jargon mélé d'italien,
d'espagnol, etc. à l'usage des Francs de
l'Orient» isto é, dos europeus do Levante.
J. Creswell Clough no ensaio
On the existence of mixed
languages,
p. 11, define, fundado na auctoridade de Malte Brun, a lingua franca do
Mediterraneo como uma mistura de catalão, limosino,
siciliano e arabe,
originada nos estabelecimentos de escravos dos mouros e turcos. O
auctor
não conheceu porém nenhum specimen d'essa lingua.
(
The Athenaeum,
1877. January to June, p. 545.)
Segundo o mesmo periodico inglez, vol. cit. p. 608, ha um
Dictionnaire
de la langue franque, ou petit mauresque, à l'usage des
français
en Afrique, publicado ha alguns annos em Marselha. O
vocabulario
comprehende palavras italianas, algumas fórmas
approximando-se do
hespanhol e ainda um certo numero de termos locaes usados na Argelia.
O principe L. L. Bonaparte considera, com rasão, a lingua
franca
como estando para com o italiano litterario na mesma
relação que o
indo-portuguez para com o portuguez, os dialectos creolo-francezes
para com o francez, o negro-hollandez para com o hollandez,
(
Athenaeum,
vol. cit., p. 640 e 703.)
| Lingua
franca |
Italiano |
| Bon giorno, Signor;
comme
ti star?—Mi star bonu, e
ti?—Mi star contento mirar per
ti.—Grazia.—Mi pudir servir per ti
per qualche cosa?—Muciu
grazia.—Ti dar una cadiera al
Signor.—Non bisogna. Mi star bene
acousì.—Comme star il fratello di
ti?—Star muciu bonu. |
Buon giorno,
Signore; come stai?—Io sto
bene, e tu?—Io son contente di
vederti.—Grazie.—Poss'io servirti in
qualche cosa?—Molte grazie.—Dà una seggiola al
Signore.—Non ho
bisogno. Io sto bene così.—Como sta il tuo
fratello?—Sta molto
bene. |
(The Athenaeum,
1877, 1.º sem., p.
640).
L. L. Bonaparte dá as seguintes regras que caracterisam a
lingua
franca: 1.ª Os nomes não têem plural:
amigo==amigo e amigos. 2.ª Os
verbos não têem conjugação,
mas só um futuro periphrastico e um participio
terminando em
ato ou
ito:
mi,
ti,
ellu,
noi,
voi,
eli,
andar significam
não só eu vou, tu vaes, elle vae, nós
vamos, vós ides, elles
vão, mas tambem eu ia, etc., eu fui, etc.;
bisogno andar significa eu
irei, etc. 3.ª
Star significa
ser e
ter, quando são usados
como verbos
auxiliares. 4.ª
Avir ou
tenir significam
ter, mas só com a
idéa de
possuir.
5.ª O regimen directo dos pronomes pessoaes é
precedido da
preposição
per: mi mirar per ella, eu vejo-o.
Molière no acto IV do
Bourgeois
gentilhomme deu uma imitação da
lingua franca.
«Scène X.—
Le Muphti, Dervis,
Turcs, chantans et dansans; Monsieur
Jourdain, vêtu à la turque, la
tête rasée, sans turban et sans
sabre.
Le Muphti, à M. Jourdain.
Se ti sabir,
Ti respondir,
Se non sabir,
Tazir, tazir.
Mi star muphti,
Ti qui star si?
Non intendir,
Tazir, tazir.
«Scène XI.—
Le Muphti, Dervis,
Turcs chantans et dansans.
Le Muphti. Dice, Turque, qui star
quista? Anabatista? anabatista?
Les Turcs. Ioc.
Le Muphti. Zuinglista?
Les Turcs. Ioc.
Le Muphti. Coffita?
Les Turcs. Ioc.
Le Muphti. Hussita? Morista?
Tronista?
Les Turcs. Ioc, ioc, ioc.
Le Muphti. Ioc, ioc, ioc. Star
pagana.
Les Turcs. Ioc.
Le Muphti. Luteranos.
Les Turcs. Ioc.
Le Muphti. Puritana?
Les Turcs. Ioc.
Le Muphti. Bramina? Moffina? Zurina?
Les Turcs. Ioc, ioc, ioc.
Le Muphti. Ioc, ioc, ioc.
Mahametana? Mahametana?
Les Turcs. Hi Valla. Hi Valla.
Le Muphti. Como chamara? Como
chamara
Les Turcs. Giourdina, Giourdina.
Le Muphti (sautant). Giourdina,
Giourdina.
Les Turcs. Giourdina, Giourdina.
Le Muphti.
Mahameta, per Giourdina,
Mi pregar, sera e matina.
Voler far un paladina
De Giourdina, de Giourdina;
Dar turbanta e dar scarrina,
Con galera, e brigantina,
Per deffender Palestina,
Mahameta, per Giourdina,
Mi pregar sera e matina.
Star bon Turca Giourdina?
Les Turcs. Hi Valla. Hi Valla.
Le Muphti (chantant et dansant). Ha
la ba, ba la chou, ba la ba,
ba la da.
Les Turcs. Ha la ba, la la chou, ba
la ba, ba la da.
«Scène XIII.—
Le Muphti, Dervis,
Monsieur Jourdain, Turcs, chantans
et dansans.
Monsieur Jordain (après
qu'on lui a ôté l'Alcoran de dessus le dos). Ouf!
Le Muphti (à M.
Jourdain).
Ti non star furba?
Les Turcs.
No, no, no.
Le Muphti.
Non star forfanta?
Les Turcs.
No, no, no.
Le Muphti (aux turcs).
Donar turbanta.
Les Turcs.
Ti non star furba?
No, no, no.
Non star forfanta?
No, no, no.
Donar turbanta.
Les Turcs dansans mettent le turban
sur la tête de
M. Jourdain
au son des instruments.
Le Muphti (donnant le sabre
à
M. Jourdain).
Ti star
nobile, non star
fabbola,
Pigliar
schiabolla.
Les Turcs (mettant le sabre
à la main).
Ti star
nobile, non star
fabbola,
Pigliar
schiabolla.
Les Turcs dansans donnent en cadence
plusieurs coups de sabre à
M. Jourdain.
Le Muphti.
Dara, dara
Bastonnara.
Les Turcs.
Dara, dara
Bastonnara.
Les Turcs donnent à
M. Jourdain des coups de
bâton en cadence.
Le Muphti.
Non tener honta,
Questa star l'ultima affronta.
Les Turcs.
Non tener
honta,
Questa star l'ultima affronta.»
O uso frequente na lingua franca da palavra
sabir, principalmente
na expressão
mi no sabir
com que os levantinos e argelinos respondiam
ás perguntas que lhes faziam os estrangeiros e que elles
não comprehendiam,
fez dar a essa lingua o nome de
sabir,
lingua
sabir. Vid.
Littré,
Dictionnaire de la langue
française. Supplément, s. v.
Sabir.
A. Darmesteter,
De la création actuelle de
mots nouveaux dans la
langue française, p. 261, n. define
ainda: «Le
sabir ou langue
franque,
mélange d'italien, de français, de
provençal et d'arabe parlé par les
marins de la Méditerranée».
Algumas phrases ou expressões da lingua franca chegaram, sem
duvida por intermedio dos marinheiros, até ao
calão ou girias dos diversos
povos da Europa. No
cant
(calão de Inglaterra) ha por exemplo:
nantee dinarly (não
tenho) nenhum dinheiro, da lingua franca;
niente
dinaro, do italiano
niente, nada (==fr.
néant) e
denario (==port.
dinheiro,
hesp.
dinero, fr.
denier, do lat.
denarius). Em portuguez ha
nentes do
ital.
niente, que não
veiu ao que parece por intermedio da lingua franca.
Nicles, nada, da giria dos garotos
portuguezes parece estar por
niks e
corresponder ao
nix da lingua
franca. «The well-known
Nix
mangiare
stairs at Malta derive their name from the endless beggars who lie
there
and shout «Nix mangiare», i. é.
«nothing to eat»,—an expression which
exhibits remarkably the mongrel composition of the Lingua Franca,
mangiare being italian, and
Nix (germ.
Nichts), an evident importation
from Trieste, or other Austrian seaport.»
The Slang Dictionary,
apud Johan Storm,
Englische
Philologie I,
162-3.
Storm junta em nota a pag. 163: Li n'um romance maritimo inglez
a seguinte lamuria de um pedinte maltez:
«
Me molto miserabile,
signore!
Nix padre,
nix madre,
nix mangiare
per
sixteen days, per Gesù
Christo.»
Nix é
considerado geralmente na Italia pelo povo como a
negação
allemã ou estrangeira. Mas o emprego de uma
expressão como
nix ou de termos extranhos
não determina de modo algum o caracter
da lingua franca. O emprego de expressões como
sixteen days é
um accidente de momento que se encontra em todas as linguas: quando
a gente que as falla se acha em contacto com estranhos recorre
á sua
maior ou menor provisão de termos estrangeiros. A
composição da lingua
franca não é realmente mais
mongrel que por exemplo a do inglez,
que apresenta vocabulos provenientes de innumeras linguas.
V. CONSIDERAÇÕES GERAES
Não foram só as linguas romanicas que serviram de
base á formação
de dialectos como os que acâbamos de noticiar: podemos dar
indicação
de dialectos similhantes de origem germanica, a cujo estudo
procederemos
logo que tenhamos materiaes sufficientes.
O
negro-english, dialecto assim
chamado impropriamente, é fallado na
colonia hollandeza de Surinam, na Guiana, por uma
população de cêrca
de 100:000 individuos, dos quaes 90:000 negros e 10:000 de origem
européa. As fórmas grammaticaes estão
reduzidas n'este dialecto, como
em todos os similhantes a um minimo.
The Bible of Every Land, p. 213,
dá noticia de traducções dos
Psalmos e do Novo Testamento no
negro-english. Julgâmos
terem por
objecto este dialecto os livros seguintes que ainda não
lográmos ver:
Kurzgefasste neger-englische
Grammatik. Bautzen, 1854.
Van der Vegt,
Proeve eener handleiding om het
neger-engelsch.
O creolez (ingl.
creolese)
é um dialecto tendo por base o hollandez,
fallado pela população negra das ilhas de Santa
Cruz, S. Thomaz e
S. João (Indias Occidentaes); não tem
distincção de genero nem numero,
nem declaração de nomes, nem
conjugação simples de verbos.
Em 1781 o governo da Dinamarca fez imprimir em Copenhagen
uma traducção do Novo Testamento n'esse dialecto;
em 1818 fez-se
nova edição. Segundo
The Bible
of Every Land, pag. 212, parece que
o creolez caíu em desuso.
O inglez serviu de base na China á
formação dialectal chamada
Pidgin
English (
pidgin
é approximadamente a pronuncia chineza do inglez
biznes,
business). Não vimos
ainda a obra de Leland,
Pidgin English singsing,
or Songs and Stories in the China-English dialect.
London, 1866.
Na
Introduction to the Study of Sign Language among
the north american
Indians by Garrick Mallery (Smithsonian
Institution-Bureau of
Ethnology. Washington, 1880.) p. 12, achâmos a seguinte
noticia:
«Os kalapuyas do Oregão meridional usaram
até ha pouco uma linguagem
de signaes, mas gradualmente adoptaram para a
communicação
com o estrangeiro a lingua composta, commummente chamada giria
tsinuk ou giria
chinook, que provavelmente se
originou para fins commerciaes
nas margens do Columbia antes da chegada dos europeus,
fundada sobre o tsinuk, tsiholi, nutka, etc., mas agora enriquecido por
termos francezes e inglezes, e esqueceram quasi inteiramente os seus
antigos signaes. A prevalencia d'esta lingua mestiça,
formada nas mesmas
condições que produziram o
pigeon-english ou a
lingua franca do
oriente, explica a falta notada de lingua de signaes entre as tribus da
costa noroeste».
A giria tsinuk não é talvez, apesar do que nos
diz G. Mallery,
mais do que um dialecto inglez da natureza dos que são
objecto do presente
estudo.
Ninguem ainda, que saibâmos, viu com clareza o verdadeiro
caracter
e reconheceu as leis geraes que presidem á
formação de dialectos
de que nos occupâmos.
O eminente philologo P. Meyer tocou a nosso ver em um dos pontos
essenciaes da questão, mas por falta sem duvida de termos de
comparação
não a collocou á verdadeira luz:
«Estudar-se-hão com interesse,
diz elle, com relação ao dialecto da Trinidad, os
diversos tempos
compostos pelos quaes os negros remediaram as lacunas da
conjugação,
achar-se-ha materia para diversas comparações com
os factos
parallelos que apresenta á formação
das linguas romanicas. Nada deve
porém esquecer que a comparação tem
aqui a mais fraca base. Os negros,
quando aprenderam o francez, estavam habituados a uma lingua
absolutamente differente e nunca souberam mais que as
palavras e as
fórmas mais usuaes de seu novo idioma,
emquanto o latim vulgar de
que saíram por desenvolvimentos individuaes e locaes as
linguas romanicas,
foi sempre um idioma sufficientemente completo, cujas
transformações
foram assás lentas para que as lacunas tenham tido tempo de
se encher facilmente ao passo que se formaram».
Rev. critique, 1872
artigo 50. Na passagem seguinte, M. P. Meyer mostra ter repugnancia
em admittir que a formação de dois dialectos
creolos obedeça a leis
perfeitamente identicas: «Parece que o
patois da ilha de França
offerece,
na deformação do francez, analogias com o da
Trinidad que não
são explicadas sufficientemente pela communidade do ponto de
partida».
O dr. Bos (
Romania IX, 571) admitte
já a independencia d'essas
formações analogas, sem ver ainda aqui a
acção de leis geraes: «Os
diversos creolos (francezes) que se fallam nas Antilhas, na America,
nas ilhas Mascarenhas, no Oceano Indico, têem todos um ar de
familia,
uma similhança ainda mais accentuada que a que existe entre
as
linguas neo-latinas, e devida provavelmente á sua maior
mocidade e á
sua maior proximidade da lingua mãe. Alem d'isso essa lingua
mãe, o
francez, é unica para os idiomas creolos; e o latim vulgar,
quando deu
origem ás linguas neo-latinas, tinha talvez já
perdido a unidade, e
experimentado as influencias regionaes que deviam transformal-o, aqui
em francez, acolá em provençal, alem em italiano,
etc. Fóra pois da
questão de tempo, a grande similhança que existe
entre as linguagens
creolas provém provavelmente da unidade da lingua que lhe
deu origem:
o francez representa aqui o papel do latim vulgar com
relação
ás linguas romanicas».
As idéas geraes com relação
á formação d'estes dialectos expressas
por E. Tesa no seu citado estudo sobre o creolo de
Curaçáo não me
parecem tambem exprimir a verdade dos factos. «Due studj sono
a farsi
nella istoria delle lingue: la libertà e la
servitù. Una favella si disgiunge
da una grande famiglia, serbando parte del tesoro commune e nei valori
radicali che si incorporano in un grupo di suoni, e ne' canoni
derivativi,
e nelle flessioni. Questa ricchezza ereditata non giace inerte.
È
un grande albero: e dei molti rami, quale si leva più alto,
quale si arresta
a mezza la via; ma in ciascuno è una vita sua propria: vi
discorre
lo stesso succo a nutrirli, ma è vario lo spessore degli
strati e le
virtú: tutto è un agitarsi, un crescere;
finchè le due ultime foglie, che
si toccano in mezzo al sereno dei cieli, non rammentano più
che la
radice commune è nascosta in un luogo solo e circondata di
poca
terra.
«Beata la nazione alla quale, in codesta opera de' secoli, la
lingua
si disvolge senza ingiustamente comandare e senza miseramente servire;
perchè anche negli organismi vocali così corrompe
il vedersi
schiavo como il farsi tiranno.
«Bensì le lingue, presto o tardi, si incontrano,
si impinguano, si
tarpano l'una l'altra; o sia l'imitazione delle idee come nella prosa
de'
Cechi e de' Magiari, guidata in tanta parte dal tedesco: o da questa
lingua in quella si trasfonda la somma delle parole, como le sanscrite
nel tamulico; le turche nel greco, nell'armeno, nello schipetaro, nel
româno,
nel bulgaro, nel serbo. Talora poi le forme stesse o cedeno alle
alle straniere o le accettano cooperatrici a rappresentare il pensiero;
come nel persiano e più nel turco e, con istrazio peggiore,
nel huzuresco.
«Un esempio di queste corruzioni profonde lo veggiano a
Curassao;
e non osservato, ch'io sappia, dai linguisti. Non ho trovato che un
libro;
e bisognerebbe sapere se altri ve ne sieno e serbino tutti le forme
spagnuole,
o incomincine a corrompere anche la lingua degli Olandesi, padroni
nuovi. Poi sarebbe utile a conoscere
quale
dialetto vi parlassero gli aborigeni; quando sia scomparso
o se ancora se
ne conservino le
tracce; finalmente quanto sieno in quel picciolo popolo i discendenti
di
Spagna i quanto di Olanda...
«Certo da questo breve studio sul curassese saremo condotti a
ristringere
la opinione di Augusto Fuchs che lo spagnuolo, dominatore
in tanta parte di America, non si mescolò a nessuna delle
lingue indigene
da formare um nuovo dialetto (Cfr.
Die romanischen
Sprachen.
Halle, 1849, p. 7). Non s'è mescolato; ma
il pensiero nazionale trascinò
dietro a sè le fórme spgnuole e gli avanzi;
così che
ne derivò una favella che non assomiglia certo a nessuno dei
dialetti
metapireneici.
«A me pare che uscirebbe un bel libro, ma da non farsi in
Europa,
chi si ponesse a ricercare come le lingue latine rimutassero; il
francese
nel Canada, in Haiti; il portoghese nel Brasile e lungo le coste
d'India;
a Cuba, a Portorico e via via lo spagnuolo.
sarebbe
a discoprirsi la gramatica indigena;
e
dedurne le leggi dissolutive di quella parola,
là inerte o quasi, che fu
stromento a forti pensiere e alle grazie
dell'arte in bocca a Dante, a Cervantes, a Voltaire.»
Como se vê o douto professor de Pisa inclina-se a admittir
como
explicação dos dialectos creolos uma
accommodação das fórmas romanicas
á grammatica das linguas dos povos entre os quaes esses
dialectos
se formam.
Alguns eruditos brazileiros, conhecedores dos dialectos indigenas,
admittem influencia grammatieal d'estes dialectos sobre o portuguez
do seu paiz.
«A lingua fallada pelos primitivos incolas d'El-Dorado, a
lingua do
selvagem, que teve voga nos primeiros tempos do desenvolvimento do
Brazil, que durante dois seculos entre os proprios colonos europeus era
«a lingua geral» e de uso quotidiano no tracto
commum, usada e fallada
até no pulpito, ainda hoje fallada no Paraguay, teve tal
importancia
já, que, temendo-se que fosse esquecida a lingua portugueza,
mereceu
ser proscripta expressamente a ponto de a mandarem abolir pela
provisão de 12 de outubro de 1727 (
Jornal
do Timon, t. 2.º; p. 315).
E depois, apezar de tudo, ella perdura ainda, já
não digo pelo facto
de subsistir hoje entre varias e numerosas tribus do Amazonas e de
Matto Grosso, porém, perdura na lingua portugueza, fallada
pelos descendentes
dos Brazis, dando-lhe um feitio caracteristico que distingue
essencialmente essa falla brazileira da portugueza, não
só na inflexão
da voz, não só na phonetica, mas ainda no
tornêo grammatical e no
phraseado que tem
seu que de novo,
não usado na terra lusitana, e a
final em grande numero de vocabulos de todo não portuguezes.
A «lingua
geral» é certo, morreu com o indio e ou si
não morreu ainda, vae
morrer e desapparecerá com o derradeiro selvagem, que a
locomotiva
da civilização tem de aniquilar na sua marcha, no
seu «avança para
deante». Porèm, como em seguida á
derrubada, onde era a mata virgem,
surge a capoeira, do mesmo modo no campo de exterminio, do
qual se-eliminou o indio, subsistem o mameluco, o caboclo, o caipira,
o matuto; e essa pobre gente que constitue a nossa gente da
roça, os
nossos
officiaes de officio, a nossa
soldadesca e a nossa maruja, concorre
sem a menor duvida com a maior percentagem para formar o algarismo
da nossa população. Desappareceu o indio
(
abá), o indigena, o
autochtone
(
t-yby-abá==
typynabá),
o selvagem (
tapyyia),—mas ficou o
caboclo,
o perfilhado por branco
(
caraïb-oca==
caribóca),
o mameluco, o
filho da mulher india
(
membyrucá), o pelle
tostada (
caipíra), ou o
homem
corrido, envergonhado, abatido, submettido
(
kuaipira). E esses
mamelucos, caboclos e caipiras, fallando a lingua do
«outro», do extrangeiro,
do homem de lá longe, do emboaba,
(
amo-abá), fallando
essa lingua corrompida pelo fallar do africano, do selvagem negro
(
tapyyñuna),
conservam no sotaque, no phraseado, reminiscencias da «lingua
geral» que vão se-fazer ouvir ainda no seio do
parlamento, onde
desgraçadamente predomina um francez assaz eivado de
francezismos
e tambem já de não poucos inglezismos. Foi
proscripta a lingua do indio
(o
abá
ñeenga), mas na lingua do branco (no
caraï-ñeenga)
fallada
pelos matutos, e reproduzida ás vezes com bastante merito em
escriptos
litterarios, subsistem dizeres
sui
generis, oriundos da lingua materna,
certamente
materna pois que elles
são os mamelucos, os filhos da
mulher indigena, são os caboclos oriundos do homem branco.
Como
muito bem diz o sñr. dr. Couto de Magalhães, na
linguagem popular do
Brazil ha não só grande
quantidade de vocabulos tupis ou
guaranis, mas
ainda
phrases, figuras, idiotismos e
construcções peculiares. Quanto
ao
vocabulario é incontestavel, e com um pouco de
attenção vê-se, que no
portuguez brazilico abundam dicções de linguas
americanas em numero
mais consideravel talvez que o das dicções
arabicas que se-conservam
no lexicon portuguez. Dizemos «linguas americanas»,
porque na
realidade não ha só vocabulos do
abáñeenga, e
sim tambem do
chilidugu,
do
kechua callu, do
karai-arianga, e outras, como sejam
brisa,
canôa,
furacão,
piroga,
mate,
guasca,
guampa,
gaûcho, etc. Nas sciencias
naturaes (mórmente na botanica) e na geographia é
mais que
consideravel o numero de vocabulos oriundos de linguas
americanas
[7].»
«Nem o tupi oriental, aquelle que era fallado na costa quando
os
jesuitas o escreveram, e que faz objecto dos diccionarios e grammaticas
que nos legaram; nem a lingua Kirirí, um tupi que era
fallado pela
tribu d'esse nome, não são hoje linguas vivas.
Assim como os selvagens
ou desappareceram ou subsistem mestiçados, assim a lingua ou
desappareceu ou mestiçou-se no rustico fallar do nosso povo,
conseguindo
introduzir na lingua portugueza do Brazil centenares de raizes
[8].
«O cruzamento d'estas raças (indigenas do Brazil,
negros e brancos)
ao passo que misturou os sangues, cruzou tambem (se nos é
licito
servirmo-nos d'essa expressão) a lingua, sobretudo a
linguagem popular.
É assim que, na linguagem do povo das provincias do
Pará, Goyaz,
e especialmente de Matto-Grosso, há não
só quantidade de vocabulos
tupís e guaranís accommodados á lingua
portugueza e n'ella transformados,
como ha phrases, figuras, idiotismos, e
construcções peculiares
ao tupí. Este facto mostra que o cruzamento physico de duas
raças
deixa vestigios moraes, não menos importantes do que os do
sangue.
O notavel professor norte-americano C. F. Hartt nota que são
rarissimos
os verbos portuguezes que têem raizes tupís, e
cita como um d'esses
raros exemplos, talvez unico, o verbo
moquear. Se o illustre professor
houvesse viajado outras provincias, veria que esse exemplo
não
é isolado, e que não temos um, mas muitos verbos
vindos do tupí, e
alguns d'elles tão expressivos e energicos que
não encontrâmos equivalentes
em portuguez; citarei entre outros os seguintes:
espocar (Pará)
por: arrebentar abrindo;
petequear
(Minas, S. Paulo) por: jogar;
entocar
(geralmente em todo o Brazil) por metter-se em buraco, ou
figuradamente,
por: encolher-se, fugir á responsabilidade;
gapuiar (Pará,
Maranhão) por: apanhar peixe;
cutucar (geral) por: tocar com a
ponta;
espiar (geral) por: observar;
popocar (Pará,
Maranhão) por: abrir arrebentando;
pererecar (geral) por:
caír e revirar;
entejucar
por: embarrear;
encangar por: metter os bois no
jugo;
apinchar por:
lançar, arremessar;
capinar por: limpar o matto;
embiocar por: entrar no buraco;
bobuiar por: fluctuar;
catingar por: exhalar mau cheiro;
tocaiar por:
esperar, etc., são outros tantos verbos com que o
tupí enriqueceu a
lingua popular dos habitantes do interior do Brazil, lingua
ás vezes
rude, não o contestâmos, mas ás vezes
tambem de uma energia e elegancia
de que só póde fazer idéa, aquelle que
tem estado em uma roda
de gaúchos folgazãos a ouvil-os contar a historia
de seus amores, suas
façanhas de valentia, ou as lendas, ás vezes
tão tocantes e poeticas de
suas superstições, metade christãs,
metade indigenas
[9]...
«Se dos verbos passassemos aos substantivos, nomes de
animaes,
logares, plantas, ver-se-hía que nada menos de mil
vocabulos, quasi
uma lingua inteira, passou e veiu fundir-se na nossa, assim como com
o cruzamento tem passado e ha-de continuar a passar o sangue indigena
a assimilar-se e confundir-se com o nosso
[10].»
Como se vê os dois escriptores brazileiros, que
têem um longo conhecimento
do tupi-guarani, nenhum facto apresentam que prove a influencia
grammatical que admittem: as suas indicações
resumem-se a
factos lexiologicos, alguns dos quaes são muito
contestaveis.
Não entraremos n'um exame critico directo das diversas
opiniões
que acabâmos de citar. Os materiaes por nós
accumulados permittem-nos
assentar os seguintes principios, em face dos quaes é facil
julgar
essas opiniões.
1.º
Os dialectos romanicos e creolos,
indo-portuguez
e todas as formações
similhantes representam o primeiro ou primeiros estadios na
acquisição
de uma lingua estrangeira por um povo que falla ou fallou
outra.
Este principio é por assim dizer evidente. Basta observar
como os
estrangeiros que não têem estudos grammaticaes
começam a fallar a
lingua de um paiz que não é o seu para a ver
perfeitamente confirmada.
Mi no fallá portuguese
é uma phrase typica que todos conhecemos
na bôca dos inglezes.
Os factos observados nos dialectos creolos de Santo Antão,
Guiné,
etc., revelam
graus diversos na
acquisição do portuguez. A
lingua franca
póde ser considerada como o typo mais rudimentar das
formações de que
nos temos occupado. Aqui devemos observar um facto interessante:
consiste elle em que o povo de qualquer paiz achando-se em contacto
com estrangeiros que não fallam a sua lingua reduz esta
tambem, por
assim dizer instinctivamente, ao mesmo typo privado de
fórmas grammaticaes
que caracterisam os dialectos creolos
[11].
Nos contos populares, os mouros, os turcos e os negros são
apresentados
pelo povo a fallar uma lingua em que o infinito substitue as
outras fórmas verbaes; assim em G. Pitré,
Fiabe, novelle e racconti
popolari siciliani, I, 17, n.º 1, ha o seguinte
dialogo entre um turco e
S. Nicolau: «Bonciornu Santu
Nicola!»—«Addiu
Maumettu.»—«
Pigghiari
tanticchia
d'ogghiu?»—«
Pigghiari
quanto vôi.» Póde comparar-se
a versão portugueza d'essa facecia em a nossa
collecção de
Contos
populares portuguezes, n.º 72. O douto e indefesso
collector das tradições
sicilianas ministra-nos a seguinte nota: «Nel
Malmantile del Lippi
annotato dal Minucci, vol. III, pag. 257, a proposito della frase del
Lippi
star usanza si legge:
«
Star usanza. È
detto alla maniera degli
stranieri, specialmente tedeschi, o turchi, che cominciando a parlar un
poco Italiano, si servono quasi sempre dell'infinito in luogo di
qualsivoglia
tempo. È curiosa la perifrase d'uno schiavo turco, che
avendo
rubato un turibolo d'argento, volendolo vendere, andava dicendo negli
orecchi a coloro, ch'egli supponeva lo potessino comprare:
Voler comprar
un andare un venire un sentir buono?»
É com razão que M. E. Egger nas suas
Observations et
réflexions
sur le
développement de l'intelligence et
du langage chez les enfants (Paris,
1879. 8.º) compara a linguagem das creanças aos
dialectos
creolos:
«A vingt-huit mois l'enfant connaît le sens des
trois mots:
ouvrir,
rideau
et
pas (négation);
déjà il les rapproche avec une certaine
dextérité,
en les acompagnant du geste et du monosyllabe
ça.
Pas
ouvrir ça
signifie «la fenêtre est
fermée»;
pas rideau
ça signifie «la
fenêtre n'a
pas de rideau». On reconnaît là ces
grossières façons de parler qu'on
décore
parfois du nom de patois nègre, parce que les
nègres de nos colonies
n'empruntent guère à la langue de leurs
maîtres qu'un petit nombre
de vocables, les plus nécessaires, et qu'ils les accouplent,
selon le
strict besoin, sans aucun souci de la conjugaison et même de
la syntaxe.»
Ob. cit., p. 44.
Os dialectos de que nos temos occupado não são
pois o resultado
de uma transformação lenta, gradual, tendo por
ponto de partida principal
a alteração phonetica, como a que se opera nas
linguas que seguem
o curso normal da sua evolução, como a que
transformou o latim
em portuguez, hespanhol, provençal, italiano e valachio; nos
dialectos
creolos e similhantes a alteração phonetica
é o menos; com ella pouco
se explica da estructura morphologica e syntactica d'essas
fórmas de
linguagem. Bopp e Diez são de muito pouca utilidade
immediata, os
principios da grammatica comparada usual de pouco nos servem para
entendermos aquelles dialectos.
A transformação da linguagem em virtude da
alteração phonetica
é um phenomeno de base physiologica; a
formação dos dialectos creolos
é no que tem de essencial um phenomeno psychologico.
Formam-se
elles rapidamente, para acudir á necessidade das
relações; é o povo inferior
pela raça, pelo estado de civilisação,
mas ao mesmo tempo mais
forte de instinctos, mais rico de espontaneidade, é esse que
os forma
com os materiaes da lingua do povo superior, que em regra
não desce
a aprender ou mesmo a dar attenção ás
expressões do barbaro, do selvagem.
Ao ouvido do povo inferior chegam primeiro como ondas sonoras
tumultuosas as palavras do povo superior, depois aquelle percebe
como que um rythmo, depois n'aquelle oceano de palavras descobre alguns
pontos firmes, salientes; fixa-se n'elles: são as
fórmas mais geraes
e frequentes da linguagem; ellas bastam—a lingua nova, o instrumento
indispensavel para o trato está forjado; enriquecel-o,
approximando-o
do typo perfeito, é obra do tempo, se o houver, se as
condições
o permittirem; mas a riqueza não será muitas
vezes mais do que anomalia,
porque aquella fórma primeira de linguagem, nascida de um
trabalho
todo espontaneo, era perfeitamente coherente. Por fim dá-se
muitas
vezes um phenomeno curioso: entendido do povo superior, do povo
que em geral manda, o povo inferior não quer saber mais nada
da lingua
d'elle, contentando-se com o dialecto que formou: então o
povo
superior ver-se-ha obrigado a fallar a sua propria lingua alterada
[12].
É innegavel que a primeira reducção
morphologica (podemos assim
definir o processo de formação dos nossos
dialectos) que uma lingua
experimenta na bôca de um povo que tinha já outra
deixa vestigios
profundos, ainda quando o povo acaba por esquecer completamente a
sua lingua propria
e por conhecer de um modo mais completo a
morphologia
da lingua que adopta de um outro povo. Os processos periphrasticos
da primeira phase da acquisição da lingua
estranha não desapparecerão
de todo, e mais tarde, quando a alteração
phonetica, que
elles favorecem, obscurecer certas fórmas grammaticaes,
esses processos
voltarão a ser normaes na lingua. Não
será a causa d'esta natureza
que serão devidos os futuros periphrasticos, por exemplo,
nas linguas
romanicas? Até hoje não se determinou com
precisão o grau e caracter
da influencia exercida por um povo sobre a lingua estranha que
a conquista ou outras causas lhe faz adoptar. O erro capital n'esta
questão consiste, a nosso ver, em se suppor que a lingua
estranha é
alterada pelo typo da lingua propria. O estudos dos dialectos creolos
permitte-nos resolver esta questão.
2.º
Os dialectos romanico-creolos, indo-portuguez e
todas as formações
similhantes devem a origem á acção de
leis psychologicas ou physiologicas
por toda a parte as mesmas e não á influencia das
linguas anteriores
dos povos em que se acham esses dialectos.
Os factos accumulados por nós mostram á evidencia
que os caracteres
essenciaes d'esses dialectos são por toda a parte os mesmos,
apesar das
differenças de raça, de clima, das distancias
geographicas e ainda dos tempos.
É em vão que se buscará, por exemplo,
no indo-portuguez uma
influencia qualquer do tamul ou do singalez. No dialecto macaista a
formação
do plural por duplicação do singular
póde attribuir-se a uma influencia
chineza, mas esse processo é tão rudimentar que
nenhuma conclusão
podemos fundar sobre elle. No dialecto da ilha de Sant'Iago
muito
muito é um superlativo.
Os phenomenos phoneticos que nos offerecem os dialectos creolos
nada têem de especial: a suppressão do
r final, a tendencia para o
iotacismo,
por exemplo, apparecem-nos quasi por toda a parte; as proprias
excepções são as mesmas: assim temos
ser e não
sê em Ceylão,
em Macau,
no archipelago de Cabo Verde. Nenhum som das linguas indigenas
foi transportado para os dialectos creolos; mas alguns sons das linguas
europeas foram modificados. Ora na propria Europa se notam
modificações similhantes. A seguinte
observação do dr. Bos sobre o
creolo da ilha Mauricio é, emquanto aos sons, quasi
inteiramente applicavel
a todos os dialectos similhantes: «É
provavel que os sons do
francez que o negro não pôde reproduzir faltavam
na sua lingua. A
influencia das linguas negras reduziu-se a isso; ellas
não.... implantaram
nenhum som novo; ellas supprimiram os que ellas ignoravam
[13],
para os substituir por outros mais ou menos analogos:
e mudo por
i,
ui por
i ,
j por
z,
ch por
ç, etc.»
No fallar brazileiro, por exemplo, não parece haver nenhum
dos
sons particulares do tupi-guarani.
A acção das leis psychologicas geraes vae quasi
sempre nos dialectos
de que nos occupâmos até ás
feições miudas; assim não
só a periphrase
com as fórmas mais geraes nos apparece para substituir as
fórmas não adquiridas, mas ainda a mesma
preferencia por certas fórmas
auxiliares se nota quasi por toda a parte; assim o presente formado
com
ta
(==
estar) em Macau, nas ilhas de
Cabo Verde, em Curaçáo;
em Ceylão como em Curaçáo
lo é o elemento formativo
do futuro. Na
Luisiania
té==
était
serve para formar o imperfeito.
A preferencia dada n'esses dialectos aos pronomes regimens, que
vêem occupar o logar dos pronomes sujeitos encontra-se entre
nós no
fallar das creanças e tem grande extensão nas
phrases populares das
nossas linguas europêas
[14].
A propria selecção lexiologica, isto
é, a preferencia dada a certos
termos, manifesta a acção das mesmas leis geraes,
das mesmas tendencias
nas formações que estudâmos, apesar das
differenças de raças
e de meios; assim para significar fallar ou dizer encontrâmos
em Ceylão,
Curaçáo, archipelago de Cabo Verde, etc., a
palavra
papiá, o que
é tanto mais interessante quanto esse termo não
parece existir hoje nem
em hespanhol nem em portuguez. O substantivo
misté
(
mister) em Ceylão,
em Macau, em Curaçáo, no archipelago de Cabo
Verde, tem o valor de
um verbo significando ser preciso, ter necessidade de, dever.
Pamóde
e
promodi(==por amor de) tomam em
Macau, como em Santo Antão, o
logar da conjuncção porque, de um modo
independente; em quanto o
passóba
(==
por es'obra) de
Curaçáo nos lembra o
quamobrem latino.
Assilai por
tal em Ceylão e Macau
deve ter-se produzido tambem independentemente
n'um e n'outro dialecto; a palavra é composta de
assi
(d'este modo) e
lai por
laia, que em portuguez significa
especie, sorte,
estofo. sentido desenvolvido do de
lã.
A extensão já tão consideravel d'este
artigo não nos permitte desenvolvermos
mais completamente estas idéas, julgâmos
porém ter ministrado
sufficientes provas de que os dialectos creolos e
formações similhantes
não revelam influencia alguma directa, salvo no vocabulario,
das linguas anteriores dos povos que os fallam, mas que se deve ver
n'elles apenas o resultado da acção de leis
geraes a que obedece por
toda a parte o espirito humano.
O nosso
Estudo sobre a grammatica e o vocabulario do
indo-portuguez
completará as nossas observações na
parte comparativa
[15].
Notas:
[1]
Logo qui por
quê l'or
qui. Hoje é muito usado na cidade da
Praia.
[2]
O desapparecimento da syllaba inicial de
minha explica-se pelo facto d'esta
palavra se tornar proclitica? G. Vicente tem
enha.
[3]
As
particularidades historicas que seguem são
extrahidas da obra Ceylon, an account of the Island, etc. by sir James
Emerson Tennent. London, 1860, 2 volumes, 8.º
[4]
Istes Escrituras de Novo Testamento, (que nossa Senhor
Jesus Christo ja
papia,)
particularmente te da sabe,
istes Mandamentos, que quer dizia.
[5]
Apud Carl Engel,
An Introduction to the Study of National
Music. London,
1866. 8.º, p. 351.
[6]
Catin en patois normand est une poupée.
[7]
Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de
Janeiro. 1878-1879. Vol. IV.
Manuscripto
guarani da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro,
etc.,
publicado com a
traducção portugueza, notas, e um
esboço grammatical do
abáñee pelo dr. Baptista
Caetano d'Almeida Nogueira, p. XI-XII.
[8]
O Selvagem, I. Curso da
lingua geral segundo Ollendorf. II. Origens, costumes,
região selvagem, por Couto de Magalhães. Rio de
Janeiro, 1876, 8.º, p. 40.
[9]
Ob. cit., p. 77.
[10]
O Selvagem, I. Curso da
lingua geral segundo Ollendorf, etc., p. 77.
[11]
«Dès 1633, le père Lejeune
se plaignait qu'on employât entre Français et
Indiens un jargon qui n'était, à proprement
parler, ni le français ni l'indien, et cependant,
ajoutait-il avec surprise, les Français, à
l'user, se flattent de parler indien,
et les Indiens pensent s'exprimer en bon
français.» Maspèro
Rev. ling. IX, 405.
[12]
Vid. acima as interessantes
observações de Bocandé.
[13]
Seria preferivel dizer: parte dos que ellas ignoravam.
[14]
Vid. J. Storm,
Englische
Philologie, I, 207 ss.
[15]
N'esse estudo tentaremos tanto quanto nos é
possivel fazer com os materiaes
que temos á nossa disposição, indicar
as particularidades phoneticas do indo-portuguez,
escondidas em grande parte sob a orthographia adoptada pelos
missionarios
inglezes, e que julgâmos não dever modificar no
specimen que démos, reproduzido
do folheto que contém
Orações,
Dez Mandamentos,
O
sermão riba do montanha
(sem data nem logar de impressão).