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Os Maias: episodios da vida romantica

Chapter 23: II
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About This Book

The narrative follows three generations of an aristocratic family as they return to Lisbon, restore an ancestral house, and navigate society's salons, rivalries, and vanities. Through rich portraits and episodic scenes the work satirizes the complacency and moral emptiness of the urban elite, alternating comedy of manners with melancholy. A young heir's cosmopolitan education and passionate affair lead to a shocking personal discovery that precipitates disillusion and domestic collapse. Interlacing family history, social observation, and vivid set pieces, the novel examines legacy, hypocrisy, and the painful consequences of private desires colliding with public reputation.


Conservava sempre as suas grandes idéas do trabalho, querendo que no seu dia só houvesse horas nobres,—e que aquellas que não pertenciam ás puras felicidades do amor, pertencessem ás alegrias fortes do estudo. Ia ao laboratorio, ajuntava algumas linhas ao seu manuscripto. Mas antes da visita á rua de S. Francisco não podia disciplinar o espirito, inquieto, n'um tumulto d'esperanças; e depois de voltar de lá, passava o dia a recapitular o que ella dissera, o que elle respondera, os seus gestos, a graça de certo sorriso... Fumava então cigarrettes, lia os poetas.

Todas as noites no escriptorio d'Affonso se formava a partida de whist. O marquez batia-se ao dominó com o Taveira, enfronhados ambos n'aquelle vicio, com um rancor crescente que os levava a injurias. Depois das corridas, o secretario de Steinbroken começára a vir ao Ramalhete; mas era um inutil, nem cantava sequer como o seu chefe as balladas da Filandia; cahido no fundo d'uma poltrona, de casaca, de vidro no olho, bamboleando a perna, cofiava silenciosamente os seus longos bigodes tristes.

O amigo que Carlos gostava de vêr entrar era o Cruges—que vinha da rua de S. Francisco, trazia alguma coisa do ar que Maria Eduarda respirava. O maestro sabia que Carlos ia todas as manhãs ao predio vêr a «miss ingleza»; e muitas vezes, innocentemente, ignorando o interesse de coração com que Carlos o escutava, dava-lhe as ultimas noticias da visinha...

—A visinha lá ficou agora a tocar Mendelhson... Tem execução, tem expressão, a visinha... Ha alli estofo... E entende o seu Choppin.

Se elle não apparecia no Ramalhete, Carlos ia a casa buscal-o: entravam no Gremio, fumavam um charuto n'alguma sala isolada, fallando da visinha; Cruges achava-lhe «um verdadeiro typo de grande dame».

Quasi sempre encontravam o conde de Gouvarinho, que vinha ver (como elle dizia a faiscar d'ironia) o que se passava «no paiz do snr. Gambetta». Parecera remoçar ultimamente, mais ligeiro nos modos, com uma claridade d'esperança nas lunetas, na fronte erguida. Carlos perguntava-lhe pela condessa. Lá estava no Porto, nos seus deveres de filha...

—E seu sogro?

O conde baixava a face radiante, para murmurar cava e resignadamente:

—Mal.



Uma tarde, Carlos conversava com Maria Eduarda, acariciando Niniche que se lhe viera sentar nos joelhos, quando Romão entreabriu discretamente o reposteiro, e baixando a voz, com um ar embaraçado, um ar de cumplicidade, murmurou:

—É o snr. Damaso!...

Ella olhou o Romão, surprehendida d'aquelles modos, e quasi escandalisada.

—Pois bem, mande entrar!

E Damaso rompeu pela sala, carregado de luto, de flôr ao peito, gorducho, risonho, familiar, com o chapeu na mão, trazendo dependurado por um barbante um grande embrulho de papel pardo... Mas ao vêr Carlos alli, intimamente, de cadellinha no collo, estacou assombrado, com o olho esbugalhado, como tonto. Emfim desembaraçou as mãos, veio comprimentar Maria Eduarda quasi de leve,—e voltando-se logo para Carlos, de braços abertos, todo o seu espanto trasbordou ruidosamente:

—Então tu aqui, homem? Isto é que é uma surpreza! Ora quem me diria!... Eu estava mais longe...

Maria Eduarda, incommodada com aquelle alarido, indicou-lhe vivamente uma cadeira, interrompeu um instante o bordado, quiz saber como elle tinha chegado.

—Perfeitamente, minha senhora... Um bocado cançado, como é natural... Venho direitinho de Penafiel... Como v. exc.a vê—e mostrou o seu luto pesado—acabo de passar por um grande desgosto.

Maria Eduarda murmurou uma palavra de sentimento, vaga e fria. Damaso pousára os olhos no tapete. Vinha da provincia cheio de côr, cheio de sangue; e como cortára a barba (que havia mezes deixára crescer para imitar Carlos) parecia agora mais bochechudo e mais nedio. As côxas roliças estalavam-lhe de gordura dentro da calça de casimira preta.

—E então, perguntou Maria Eduarda, temol-o por cá algum tempo?

Elle deu um puxãosinho á cadeira, mais para junto d'ella, e outra vez risonho:

—Agora, minha senhora, ninguem me arranca de Lisboa! Podem-me morrer... Isto é, credo! teria grande ferro se me morresse alguem. O que quero dizer é que ha de custar a arrancar-me d'aqui!

Carlos continuava muito socegadamente a acariciar os pêllos da Niniche. E houve então um pequeno silencio. Maria Eduarda retomára o bordado. E Damaso, depois de sorrir, de tossir, de dar um geito ao bigode, estendeu a mão para acariciar tambem Niniche sobre os joelhos de Carlos. Mas a cadellinha, que havia momentos o espreitava com o olho desconfiado, ergueu-se, rompeu a ladrar furiosa.

C'est moi, Niniche! dizia Damaso, recuando a cadeira. C'est moi, ami... Alors, Niniche...

Foi necessario que Maria Eduarda reprehendesse severamente Niniche. E, aninhada de novo no collo de Carlos, ella continuou a espreitar Damaso, rosnando, e com rancor.

—Já me não conhece, dizia elle embaçado, é curioso...

—Conhece-o perfeitamente, acudiu Maria Eduarda muito séria. Mas não sei o que o snr. Damaso lhe fez, que ella tem-lhe odio. É sempre este escandalo.

Damaso balbuciava, escarlate:

—Ora essa, minha senhora! O que lhe fiz?... Caricias, sempre caricias...

E então não se conteve, fallou com ironia, amargamente, das amizades novas de Mademoiselle Niniche. Alli estava nos braços d'outro, emquanto que elle, o amigo velho, era deitado ao canto...

Carlos ria.

—Ó Damaso, não a accuses de ingratidão... Pois se a snr.a D. Maria Eduarda está a dizer que ella sempre te teve odio...

—Sempre! exclamou Maria.

Damaso sorria tambem, lividamente. Depois, tirando um lenço de barra negra, limpando os beiços e mesmo o suor do pescoço, lembrou a Maria Eduarda como ella o tinha desapontado no dia das corridas... Elle toda a tarde á espera...

—Eram vesperas de partida, disse ella.

—Sim, bem sei, o marido de v. exc.a... E como vai o snr. Castro Gomes? V. exc.a já recebeu noticias?

—Não, respondeu ella com o rosto sobre o bordado.

Damaso cumpriu ainda outros deveres. Perguntou por Mademoiselle Rosa. Depois por Cri-cri. Era necessario não esquecer Cri-cri...

—Pois v. exc.a—continuou elle, cheio subitamente de loquacidade—perdeu, que as corridas estiveram esplendidas... Nós ainda não nos vimos depois das corridas, Carlos. Ah, sim, vimo-nos na estação... Pois não é verdade que estiveram muito chics? Olhe, minha senhora, d'uma coisa póde v. exc.a estar certa, é que hippodromo mais bonito não ha lá fóra. Uma vista até á barra, que é d'appetite... Até se vêem entrar os navios... Pois não é assim, Carlos?

—Sim, disse Carlos, sorrindo. Não é propriamente um campo de corridas... É verdade que não ha tambem propriamente cavallos de corridas... Verdade seja que não ha jockeys... Ora é verdade que não ha apostas... Mas é verdade tambem que não ha publico...

Maria Eduarda ria, alegremente.

—Mas então?

—Vêem-se entrar os navios, minha senhora...

Damaso protestava, com as orelhas vermelhas. Era realmente querer dizer mal á força... Não senhor, não senhor!... Eram muito boas corridas. Tal qual como lá fóra, as mesmas regras, tudo...

—Até na pesagem, acrescentou elle muito sério, fallamos sempre inglez!

Repetiu ainda que as corridas eram chics. Depois não achou mais nada:—e fallou de Penafiel, onde chovera sempre tanto que elle vira-se forçado a ficar em casa, estupidamente, a lêr...

—Uma massada! Ainda se houvesse alli umas mulheres para ir dar um bocado de cavaco... Mas qual! Uns monstros. E eu, lavradeiras, raparigas de pé descalço, não tolero... Ha gente que gosta... Mas eu, acredite v. exc.a, não tolero...

Carlos corára: mas Maria Eduarda parecia não ter ouvido, occupada a contar attentamente as malhas do seu bordado.

De repente Damaso recordou-se que tinha alli um presentinho para a snr.a D. Maria Eduarda. Mas não imaginasse que era alguma preciosidade... Verdadeiramente até o presente era para Mademoiselle Rosa.

—Olhe, para não estar com mysterios, sabe o que é? Tenho-o alli no embrulhosinho de papel pardo... São seis barrilinhos d'ovos molles d'Aveiro. É um dôce muito célebre, mesmo lá fóra. Só o de Aveiro é que tem chic... Pergunte v. exc.a ao Carlos. Pois não é verdade, Carlos, que é uma delicia, até conhecido lá fóra?

—Ah, certamente, murmurou Carlos, certamente...

Pousára Niniche no chão, erguera-se, fôra buscar o seu chapéo.

—Já?... perguntou-lhe Maria Eduarda, com um sorriso que era só para elle. Até ámanhã, então!

E voltou-se logo para o Damaso, esperando vêl-o erguer-se tambem. Elle conservou-se installado, com um ar de demora, familiar, e bamboleando a perna. Carlos estendeu-lhe dois dedos.

Au revoir, disse o outro. Recados lá no Ramalhete; hei de apparecer!...

Carlos desceu as escadas, furioso.

Alli ficava pois aquelle imbecil impondo a sua pessoa, grosseiramente, tão obtuso que não percebia o enfado d'ella, a sua regelada seccura! E para que ficava? Que outras crassas banalidades tinha ainda a soltar, em calão, e de perna traçada? E de repente lembrou-lhe o que elle lhe dissera na noite do jantar do Ega, á porta do Hotel Central, a respeito da própria Maria Eduarda, e do seu systema com mulheres «que era o atracão». Se aquelle idiota, de repente, abrazado e bestial, ousasse um ultraje? A supposição era insensata, talvez—mas reteve-o no pateo, applicando o ouvido para cima, com idéas ferozes de esperar alli o Damaso, prohibir-lhe de tornar a subir aquella escada, e, á menor reflexão d'elle, esmagar-lhe o craneo nas lages...

Mas sentiu em cima a porta abrir-se, e sahiu vivamente, no receio de ser assim surprehendido á escuta. O coupé do Damaso estacionava na rua. Então veio-lhe uma curiosidade mordente de saber quanto tempo elle ficaria alli com Maria Eduarda. Correu ao Gremio; e apenas abrira uma vidraça—viu logo o Damaso sahir do portão, saltar para o coupé, bater com força a portinhola. Pareceu-lhe que trazia o ar escorraçado, e subitamente teve dó d'aquelle grutesco...

N'essa noite, depois de jantar, Carlos só no seu quarto fumava, enterrado n'uma poltrona, relendo uma carta do Ega recebida n'essa manhã,—quando appareceu o Damaso. E, sem pousar mesmo o chapéo, logo da porta, exclamou, com o mesmo espanto da manhã:

—Então dize-me cá! Como diabo te vou eu encontrar hoje com a brazileira?... Como a conheceste tu? Como foi isso?

Sem mover a cabeça do espaldar da poltrona, cruzando as mãos sobre os joelhos em cima da carta do Ega, Carlos, agora cheio de bom humor, disse, com uma dôce reprehensão paternal:

—Pois então tu vaes expôr a uma senhora as tuas opiniões lubricas sobre as lavradeiras de Penafiel!

—Não se trata d'isso, sei muito bem o que hei de expôr! exclamou o outro, vermelho. Conta lá, anda... Que diabo! Parece-me que tenho direito a saber... Como a conheceste tu?

Carlos, imperturbavel, cerrando os olhos como para se recordar, começou, n'um tom lento e solemne de recitativo:

—Por uma tepida tarde de primavera, quando o sol se afundava em nuvens d'oiro, um mensageiro esfalfado pendurava-se da campainha do Ramalhete. Via-se-lhe na mão uma carta, lacrada com sello heraldico; e a expressão do seu semblante...

Damaso, já zangado, atirou com o chapéo para cima da mesa.

—Parece-me que era mais decente deixar-te d'esses mysterios!

—Mysterios? Tu vens obtuso, Damaso. Pois tu entras n'uma casa onde existe ha quasi um mez uma pessoa gravemente doente, e ficas assombrado, petrificado, ao encontrar lá o medico! Quem esperavas tu vêr lá? Um photographo?

—Então quem está doente?

Carlos, em poucas palavras, disse-lhe a bronchite da ingleza—emquanto o Damaso, sentado á beira do sofá, mordendo o charuto sem lume, olhava para elle desconfiado.

—E como soube ella onde tu moravas?

—Como se sabe onde mora o rei; onde é a alfandega; de que lado luz a estrella da tarde; os campos onde foi Troia... Estas coisas que se aprendem nas aulas de instrucção primaria...

O pobre Damaso deu alguns passos pela sala, embezerrado, com as mãos nos bolsos.

—Ella tem agora lá o Romão, o que foi meu criado, murmurou depois d'um silencio. Eu tinha-lh'o recommendado... Ella leva-se muito pelo que eu lhe digo...

—Sim, tem, por uns dias, emquanto o Domingos foi á terra. Vai mandal-o embora, é um imbecil, e tu tinhas-lhe ensinado más maneiras...

Então Damaso atirou-se para o canto do sofá e confessou que ao entrar na sala, quando dera com os olhos em Carlos, de cadellinha no collo, ficára furioso... Emfim, agora que sabia que era por doença, bem, tudo se explicava... Mas primeiro parecera-lhe que andava alli tramoia... Só com ella, ainda pensou em lhe perguntar: depois receou que não fosse delicado; e além d'isso ella estava de mau humor...

E acrescentou logo, accendendo o charuto:

—Que apenas tu sahiste, pôz-se melhor, mais á vontade... Rimos muito... Eu fiquei ainda até tarde, quasi duas horas mais; era perto das cinco quando sahi. Outra coisa, ella fallou-te alguma vez de mim?

—Não. É uma pessoa de bom gosto; e sabendo que nos conhecemos, não se atreveria a dizer-me mal de ti.

Damaso olhou-o, esgazeado:

—Ora essa!... Mas podia ter dito bem!

—Não; é uma pessoa de bom senso, não se atreveria tambem.

E erguendo-se vivamente, Carlos abraçou Damaso pela cinta, acariciando-o, perguntando-lhe pela herança do titi, e em que amores, em que viagens, em que cavallos de luxo ia gastar os milhões...

Damaso, sob aquellas festas alegres, permanecia frio, amuado, olhando-o de revez.

—Olha que tu, disse elle, parece-me que me vaes sahindo tambem um traste... Não ha a gente fiar-se em ninguem!

—Tudo na terra, meu Damaso, é apparencia e engano!

Seguiram d'alli á sala do bilhar fazer «a partida de reconciliação». E pouco a pouco, sob a influencia que exercia sempre sobre elle o Ramalhete, Damaso foi socegando, risonho já, gozando de novo a sua intimidade com Carlos no meio d'aquelle luxo sério, e tratando-o outra vez por «menino». Perguntou pelo snr. Affonso da Maia. Quiz saber se o bello marquez tinha apparecido. E o Ega, o grande Ega?...

—Recebi carta d'elle, disse Carlos. Vem ahi, temol-o talvez cá no sabbado.

Foi um espanto para o Damaso.

—Homem! essa é curiosa! E eu encontrei os Cohens, hoje!... Vieram ha dois dias de Southampton... Jógo eu?

Jogou, falhou a carambola.

—Pois é verdade, encontrei-os hoje, fallei-lhes um instante... E a Rachel vem melhor, vem mais gorda... Trazia uma toilette ingleza com coisas brancas, coisas côr de rosa... Chic a valer, parecia um moranguinho! E então o Ega de volta?... Pois, menino, ainda temos escandalo!



II



No sabbado, com effeito, Carlos, recolhendo ao Ramalhete de volta da rua de S. Francisco, encontrou o Ega no seu quarto, mettido n'um fato de cheviotte claro, e com o cabello muito crescido.

—Não faças espalhafato, gritou-lhe elle, que eu estou em Lisboa incognito!

E em seguida aos primeiros abraços declarou que vinha a Lisboa, só por alguns dias, unicamente para comer bem e para conversar bem. E contava com Carlos para lhe fornecer esses requintes, alli, no Ramalhete...

—Ha cá um quarto para mim? Eu por ora estou no Hotel Hespanhol, mas ainda nem mesmo abri a mala... Basta-me uma alcova, com uma mesa de pinho, larga bastante para se escrever uma obra sublime.

Decerto! Havia o quarto em cima, onde elle estivera depois de deixar a Villa Balzac. E mais sumptuoso agora, com um bello leito da Renascença, e uma cópia dos Borrachos de Velasquez.

—Optimo covil para a arte! Velasquez é um dos Santos Padres do naturalismo... A proposito, sabes com quem eu vim? Com a Gouvarinho. O pai Tompson esteve á morte, arribou, depois o conde foi buscal-a. Achei-a magra; mas com um ar ardente; e fallou-me constantemente de ti.

—Ah! murmurou Carlos.

Ega, de monoculo no olho e mãos nos bolsos, contemplava Carlos.

—É verdade. Fallou de ti constantemente, irresistivelmente, immoderadamente! Não me tinhas mandado contar isso... Sempre seguiste o meu conselho, hein? Muito bem feita de corpo, não é verdade? E que tal, no acto d'amor?

Carlos córou, chamou-lhe grosseiro, jurou que nunca tivera com a Gouvarinho senão relações superficiaes. Ia lá ás vezes tomar uma chavena de chá; e á hora do Chiado acontecia-lhe, como a todo o mundo, conversar com o conde sobre as miserias publicas, á esquina do Loreto. Nada mais.

—Tu estás-me a mentir, devasso! dizia o Ega. Mas não importa. Eu hei de descobrir tudo isso com o meu olho de Balzac, na segunda-feira.... Porque nós vamos lá jantar na segunda-feira.

—Nós... Nós, quem?

—Nós. Eu e tu, tu e eu. A condessa convidou-me no comboio. E o Gouvarinho, como compete ao individuo d'aquella especie, acrescentou logo que haviamos de ter tambem «o nosso Maia». O Maia d'elle, e o Maia d'ella... Santo accordo! Suavissimo arranjo!

Carlos olhou-o com severidade.

—Tu vens obsceno de Celorico, Ega.

—É o que se aprende no seio da Santa Madre Igreja.

Mas tambem Carlos tinha uma novidade que o devia fazer estremecer. O Ega porém já sabia. A chegada dos Cohens, não é verdade? Lêra-o logo n'essa manhã, na Gazeta Illustrada, no high-life. Lá se dizia respeitosamente que s. exc.as tinham regressado do seu passeio pelo estrangeiro.

—E que impressão te fez? perguntou Carlos rindo.

O outro encolheu brutalmente os hombros:

—Fez-me o effeito de haver um cabrão mais na cidade.

E, como Carlos o accusava outra vez de trazer de Celorico uma lingua immunda, o Ega, um pouco córado, arrependido talvez, lançou-se em considerações criticas, clamando pela necessidade social de dar ás coisas o nome exacto. Para que servia então o grande movimento naturalista do seculo? Se o vicio se perpetuava, é porque a sociedade, indulgente e romanesca, lhe dava nomes que o embellezavam, que o idealisavam... Que escrupulo póde ter uma mulher em beijocar um terceiro entre os lençoes conjugaes, se o mundo chama a isso sentimentalmente um romance, e os poetas o cantam em estrophes d'ouro?

—E a proposito, a tua comedia, o Lodaçal? perguntou Carlos, que entrára um instante para a alcova de banho.

—Abandonei-a, disse o Ega. Era feroz de mais... E além d'isso fazia-me remexer na podridão lisboeta, mergulhar outra vez na sargeta humana... Affligia-me...

Parou diante do grande espelho, deu um olhar descontente ao seu jaquetão claro e ás botas com mau verniz.

—Preciso enfardelar-me de novo, Carlinhos... O Poole naturalmente mandou-te fato de verão, hei de querer examinar esses córtes da alta civilisação... Não ha negal-o, diabo, esta minha linha está chinfrim!

Passou uma escova pelo bigode, e continuou fallando para dentro, para a alcova de banho:

—Pois, menino, eu agora o que necessito é o regimen da Chimera. Vou-me atirar outra vez ás Memorias. Ha de se fazer ahi uma quantidade d'arte colossal n'esse quarto que me destinas, diante de Velasquez... E a proposito, é necessario ir comprimentar o velho Affonso, uma vez que elle me vai dar o pão, o tecto, e a enxerga...

Foram encontrar Affonso da Maia no escriptorio, na sua velha poltrona, com um antigo volume da Illustração franceza aberto sobre os joelhos, mostrando as estampas a um pequeno bonito, muito moreno, d'olho vivo, e cabello encarapinhado. O velho ficou contentissimo ao saber que o Ega vinha por algum tempo alegrar o Ramalhete com a sua bella phantasia.

—Já não tenho phantasia, snr. Affonso da Maia!

—Então esclarecêl-o com a tua clara razão, disse o velho rindo. Estamos cá precisando d'ambas as coisas, John.

Depois apresentou-lhe aquelle pequeno cavalheiro, o snr. Manoelinho, rapazinho amavel da visinhança, filho do Vicente, mestre d'obras; o Manoelinho vinha ás vezes animar a solidão d'Affonso—e alli folheavam ambos livros d'estampas e tinham conversas philosophicas. Agora, justamente, estava elle muito embaraçado por não lhe saber explicar como é que o general Canrobert (de quem estavam admirando o garbo sobre o seu cavallo empinado) tendo mandado matar gente, muita gente, em batalhas, não era mettido na cadêa...

—Está visto! exclamou o pequeno, esperto e desembaraçado, com as mãos cruzadas atraz das costas. Se mandou matar gente deviam-no ferrar na cadêa!

—Hein, amigo Ega! dizia Affonso rindo. Que se ha de responder a esta bella logica? Olha, filho, agora que estão aqui estes dois senhores que são formados em Coimbra, eu vou estudar esse caso... Vai tu vêr os bonecos alli para cima da mesa... E depois vão sendo horas d'ires lá dentro á Joanna, para merendares.

Carlos, ajudando o pequeno a accommodar-se á mesa com o seu grande volume d'estampas, pensava quanto o avô, com aquelle seu amor por crianças, gostaria de conhecer Rosa!

Affonso no emtanto perguntava tambem ao Ega pela comedia. O quê! Já abandonada? Quando acabaria então o bravo John de fazer bocados incompletos d'obras-primas?...—Ega queixou-se do paiz, da sua indifferença pela arte. Que espirito original não esmoreceria, vendo em torno de si esta espessa massa de burguezes, amodorrada e crassa, desdenhando a intelligencia, incapaz de se interessar por uma idéa nobre, por uma phrase bem feita?

—Não vale a pena, snr. Affonso da Maia. N'este paiz, no meio d'esta prodigiosa imbecilidade nacional, o homem de senso e de gosto deve limitar-se a plantar com cuidado os seus legumes. Olhe o Herculano...

—Pois então, acudiu o velho, planta os teus legumes. É um serviço á alimentação publica. Mas tu nem isso fazes!

Carlos, muito sério, apoiava o Ega.

—A unica coisa a fazer em Portugal, dizia elle, é plantar legumes, emquanto não ha uma revolução que faça subir á superficie alguns dos elementos originaes, fortes, vivos, que isto ainda encerre lá no fundo. E se se vir então que não encerra nada, demittamo-nos logo voluntariamente da nossa posição de paiz para que não temos elementos, passemos a ser uma fertil e estupida provincia hespanhola, e plantemos mais legumes!

O velho escutava com melancolia estas palavras do neto em que sentia como uma decomposição da vontade, e que lhe pareciam ser apenas a glorificação da sua inercia. Terminou por dizer:

—Pois então façam vocês essa revolução. Mas pelo amor de Deus, façam alguma coisa!

—O Carlos já não faz pouco, exclamou Ega, rindo. Passeia a sua pessoa, a sua toilette e o seu phaeton, e por esse facto educa o gosto!

O relogio Luiz XV interrompeu-os—lembrando ao Ega que devia ainda, antes de jantar, ir buscar a sua mala ao Hotel Hespanhol. Depois no corredor confessou a Carlos que, antes d'ir ao Hespanhol, queria correr ao Fillon, ao photographo, vêr se podia tirar um bonito retrato.

—Um retrato?

—Uma surpreza que tem d'ir d'aqui a tres dias para Celorico, para o dia d'annos d'uma creaturinha que me adoçou o exilio.

—Oh Ega!

—É horroroso, mas então? É a filha do padre Corrêa, filha conhecida como tal; além d'isso casada com um proprietario rico da visinhança, reaccionario odioso... De modo que, bem vês, esta dupla peça a pregar á Religião e á Propriedade...

—Ah! n'esse caso...

—Ninguem se deve eximir, amigo, aos seus grandes deveres democraticos!



Na segunda-feira seguinte choviscava quando Carlos e Ega, no coupé fechado, partiram para o jantar dos Gouvarinhos. Desde a chegada da condessa Carlos vira-a só uma vez, em casa d'ella; e fôra uma meia hora desagradavel, cheia de malestar, com um ou outro beijo frio, e recriminações infindaveis. Ella queixára-se das cartas d'elle, tão raras, tão seccas. Não se puderam entender sobre os planos d'esse verão, ella devendo ir para Cintra onde já alugára casa, Carlos fallando no dever de acompanhar o avô a Santa Olavia. A condessa achava-o distrahido: elle achou-a exigente. Depois ella sentou-se um instante sobre os seus joelhos e aquelle leve e delicado corpo pareceu a Carlos de um fastidioso peso de bronze.

Por fim a condessa arrancára-lhe a promessa de a ir encontrar, justamente n'essa segunda-feira de manhã, a casa da titi, que estava em Santarem;—porque tinha sempre o appetite perverso e requintado de o apertar nos braços nús, em dias que o devesse receber na sua sala, mais tarde, e com ceremonia. Mas Carlos faltára,—e agora, rodando para casa d'ella, impacientavam-n'o já as queixas que teria de ouvir nos vãos de janella, e as mentiras chôchas que teria de balbuciar...

De repente o Ega, que fumava em silencio, abotoado no seu paletot de verão, bateu no joelho de Carlos, e entre risonho e sério:

—Dize-me uma coisa, se não é um segredo sacrosanto... Quem é essa brazileira com quem tu agora passas todas as tuas manhãs?

Carlos ficou um instante aturdido, com os olhos no Ega.

—Quem te fallou n'isso?

—Foi o Damaso que m'o disse. Isto é, o Damaso que m'o rugiu... Porque foi de dentes rilhados, a dar murros surdos n'um sofá do Gremio, e com uma côr d'apoplexia, que elle me contou tudo...

—Tudo o quê?

—Tudo. Que te apresentára a uma brazileira a quem se atirava, e que tu, aproveitando a sua ausencia, te metteras lá, não sahias de lá...

—Tudo isso é mentira! exclamou o outro, já impaciente.

E Ega, sempre risonho:

—Então «que é a verdade», como perguntava o velho Pilatus ao chamado Jesus Christo?

—É que ha uma senhora a quem o Damaso suppunha ter inspirado uma paixão, como suppõe sempre, e que, tendo-lhe adoecido a governante ingleza com uma bronchite, me mandou chamar para eu a tratar. Ainda não está melhor, eu vou vêl-a todos os dias. E Madame Gomes, que é o nome da senhora, que nem brazileira é, não podendo tolerar o Damaso, como ninguem o tolera, tem-lhe fechado a sua porta. Esta é a verdade; mas talvez eu arranque as orelhas ao Damaso!

Ega contentou-se em murmurar:

—E ahi está como se escreve a historia... vá-se lá a gente fiar em Guizot!

Em silencio, até casa da Gouvarinho, Carlos foi ruminando a sua cólera contra o Damaso. Ahi estava pois rasgada por aquelle imbecil a penumbra suave e favoravel em que se abrigára o seu amor! Agora já se pronunciava o nome de Maria Eduarda no Gremio: o que o Damaso dissera ao Ega, repetil-o-hia a outros, na Casa Havaneza, no restaurante Silva, talvez nos lupanares: e assim o interesse supremo da sua vida seria d'ahi por diante constantemente perturbado, estragado, sujo pela tagarellice reles do Damaso!

—Parece-me que temos cá mais gente, disse o Ega, ao penetrarem na ante-camara dos Gouvarinhos, vendo sobre o canapé um paletot cinzento e capas de sonhem.

A condessa esperava-os na salinha ao fundo, chamada «do busto», vestida de preto, com uma tira de velludo em volta do pescoço picada de tres estrellas de diamantes. Uma cesta de esplendidas flôres quasi enchia a mesa, onde se accumulavam tambem romances inglezes, e uma Revista dos Dois Mundos em evidencia, com a faca de marfim entre as folhas. Além da boa D. Maria da Cunha e da baroneza d'Alvim, havia uma outra senhora, que nem Carlos nem Ega conheciam, gorda e vestida d'escarlate; e de pé, conversando baixo com o conde, de mãos atraz das costas, um cavalheiro alto, escaveirado, grave, com uma barba rala, e a commenda da Conceição.

A condessa, um pouco córada, estendeu a Carlos a mão amuada e frouxa: todos os seus sorrisos foram para o Ega. E o conde apoderou-se logo do querido Maia, para o apresentar ao seu amigo o snr. Sousa Netto. O snr. Sousa Netto já tinha o prazer de conhecer muito Carlos da Maia, como um medico distincto, uma honra da Universidade... E era esta a vantagem de Lisboa, disse logo o conde, o conhecerem-se todos de reputação, o poder-se ter assim uma apreciação mais justa dos caracteres. Em Paris, por exemplo, era impossivel; por isso havia tanta immoralidade, tanta relaxação...

—Nunca sabe a gente quem mette em casa.

O Ega, entre a condessa e D. Maria, enterrado no divan, mostrando as estrellinhas bordadas das meias, fazia-as rir com a historia do seu exilio em Celorico, onde se distrahia compondo sermões para o abbade: o abbade recitava-os; e os sermões, sob uma fórma mystica, eram de facto affirmações revolucionarias que o santo varão lançava com fervor, esmurrando o pulpito... A senhora de vermelho, sentada defronte, de mãos no regaço, escutava o Ega, com o olhar espantado.

—Imaginei que v. exc.a tinha ido já para Cintra, veio dizer Carlos á senhora baroneza, sentando-se junto d'ella. V. exc.a é sempre a primeira...

—Como quer o senhor que se vá para Cintra com um tempo d'estes?

—Com effeito, está infernal...

—E que conta de novo? perguntou ella, abrindo lentamente o seu grande leque preto.

—Creio que não ha nada de novo em Lisboa, minha senhora, desde a morte do snr. D. João VI.

—Agora ha o seu amigo Ega, por exemplo.

—É verdade, ha o Ega... Como o acha v. exc.a, senhora baroneza?

Ella nem baixou a voz para dizer:

—Olhe, eu como o achei sempre um grande presumido e não gosto d'elle, não posso dizer nada...

—Oh senhora baroneza, que falta de caridade!

O escudeiro annunciára o jantar. A condessa tomou o braço de Carlos,—e, ao atravessar o salão, entre o frouxo murmurio de vozes e o rumor lento das caudas de sêda, pôde dizer-lhe asperamente:

—Esperei meia hora; mas comprehendi logo que estaria entretido com a brazileira...

Na sala de jantar, um pouco sombria, forrada de papel côr de vinho, escurecida ainda por dois antigos paineis de paizagem tristonha, a mesa oval, cercada de cadeiras de carvalho lavrado, resaltava alva e fresca, com um esplendido cesto de rosas entre duas serpentinas douradas. Carlos ficou á direita da condessa, tendo ao lado D. Maria da Cunha, que n'esse dia parecia um pouco mais velha, e sorria com um ar cansado.

—Que tem feito todo este tempo, que ninguem o tem visto? perguntou-lhe ella, desdobrando o guardanapo.

—Por esse mundo, minha senhora, vagamente...

Defronte de Carlos, o snr. Sousa Netto, que tinha tres enormes coraes no peitilho da camisa, estava já observando, emquanto remexia a sopa, que a senhora condessa, na sua viagem ao Porto, devia ter encontrado nas ruas e nos edificios grandes mudanças... A condessa, infelizmente, mal tinha sahido durante o tempo que estivera no Porto. O conde, esse, é que admirara os progressos da cidade. E especificou-os: elogiou a vista do Palacio de Crystal; lembrou o fecundo antagonismo que existe entre Lisboa e Porto; mais uma vez o comparou ao dualismo da Austria e da Hungria. E através d'estas coisas graves, lançadas d'alto, com superioridade e com peso, a baroneza e a senhora d'escarlate, aos dois lados d'elle, fallavam do convento das Selesias.

Carlos, no emtanto, comendo em silencio a sua sopa, ruminava as palavras da condessa. Tambem ella conhecia já a sua intimidade com a «brazileira». Era evidente pois que já andava alli, diffamante e torpe, a tagarellice do Damaso. E quando o criado lhe offereceu Sauterne, estava decidido a bater no Damaso.

De repente ouviu o seu nome. Do fim da mesa uma voz dizia, pachorrenta e cantada:

—O snr. Maia é que deve saber... O snr. Maia já lá esteve.

Carlos pousou vivamente o copo. Era a senhora d'escarlate que lhe fallava, sorrindo, mostrando uns bonitos dentes sob o buço forte de quarentona pallida. Ninguem lh'a apresentára, elle não sabia quem era. Sorriu tambem, perguntou:

—Onde, minha senhora?

—Na Russia.

—Na Russia?... Não, minha senhora, nunca estive na Russia.

Ella pareceu um pouco desapontada.

—Ah, é que me tinham dito... Não sei já quem me disse, mas era pessoa que sabia...

O conde ao fundo explicava-lhe amavelmente que o amigo Maia estivera apenas na Hollanda.

—Paiz de grande prosperidade, a Hollanda!... Em nada inferior ao nosso... Já conheci mesmo um hollandez que era excessivamente instruido...

A condessa baixára os olhos, partindo vagamente um bocadinho de pão, mais séria de repente, mais secca, como se a voz de Carlos, erguendo-se tão tranquilla ao seu lado, tivesse avivado os seus despeitos. Elle, então, depois de provar devagar o seu Sauterne, voltou-se para ella, muito naturalmente e risonho:

—Veja a senhora condessa! Eu nem tive mesmo idéa d'ir á Russia. Ha assim uma infinidade de coisas que se dizem e que não são exactas... E se se faz uma allusão ironica a ellas, ninguem comprehende a allusão nem a ironia...

A condessa não respondeu logo, dando com o olhar uma ordem muda ao escudeiro. Depois, com um sorriso pallido:

—No fundo de tudo que se diz ha sempre um facto, ou um bocado de facto que é verdadeiro. E isso basta... Pelo menos a mim basta-me...

—A senhora condessa tem então uma credulidade infantil. Estou vendo que acredita que era uma vez uma filha d'um rei que tinha uma estrella na testa...

Mas o conde interpellava-o, o conde queria a opinião do seu amigo Maia. Tratava-se do livro de um inglez, o major Bratt, que atravessára a Africa, e dizia coisas perfidamente desagradaveis para Portugal. O conde via alli só inveja—a inveja que nos têm todas as nações por causa da importancia das nossas colonias, e da nossa vasta influencia na Africa...

—Está claro, dizia o conde, que não temos nem os milhões, nem a marinha dos inglezes. Mas temos grandes glorias; o infante D. Henrique é de primeira ordem; e a tomada d'Ormuz é um primor... E eu que conheço alguma coisa de systemas coloniaes, posso affirmar que não ha hoje colonias nem mais susceptiveis de riqueza, nem mais crentes no progresso, nem mais liberaes que as nossas! Não lhe parece, Maia?

—Sim, talvez, é possivel... Ha muita verdade n'isso...

Mas Ega, que estivera um pouco silencioso, entalando de vez em quando o monoculo no olho e sorrindo para a baroneza, pronunciou-se alegremente contra todas essas explorações da Africa, e essas longas missões geographicas... Porque não se deixaria o preto socegado, na calma posse dos seus manipansos? Que mal fazia á ordem das coisas que houvesse selvagens? Pelo contrario, davam ao Universo uma deliciosa quantidade de pittoresco! Com a mania franceza e burgueza de reduzir todas as regiões e todas as raças ao mesmo typo de civilisação, o mundo ia tornar-se d'uma monotonia abominavel. Dentro em breve um touriste faria enormes sacrificios, despezas sem fim, para ir a Tombuctu—para quê? Para encontrar lá pretos de chapéo alto, a lêr o Jornal dos Debates!

O conde sorria com superioridade. E a boa D. Maria, sahindo do seu vago abatimento, movia o leque, dizia a Carlos, deleitada:

—Este Ega! Este Ega! Que graça! Que chic!

Então Sousa Netto, pousando gravemente o talher, fez ao Ega esta pergunta grave:

—V. exc.a pois é em favor da escravatura?

Ega declarou muito decididamente ao snr. Sousa Netto que era pela escravatura. Os desconfortos da vida, segundo elle, tinham começado com a libertação dos negros. Só podia ser sériamente obedecido, quem era sériamente temido... Por issoninguem agora lograva ter os seus sapatos bem envernizados, o seu arroz bem cozido, a sua escada bem lavada, desde que não tinha criados pretos em quem fosse licito dar vergastadas... Só houvera duas civilisações em que o homem conseguira viver com razoavel commodidade: a civilisação romana, e a civilisação especial dos plantadores da Nova Orleans. Porque? porque n'uma e n'outra existira a escravatura absoluta, a sério, com o direito de morte!...

Durante um momento o snr. Sousa Netto ficou como desorganisado. Depois passou o guardanapo sobre os beiços, preparou-se, encarou o Ega:

—Então v. exc.a n'essa idade, com a sua intelligencia, não acredita no Progresso?

—Eu não senhor.

O conde interveio, affavel e risonho:

—O nosso Ega quer fazer simplesmente um paradoxo. E tem razão, tem realmente razão, porque os faz brilhantes...

Estava-se servindo Jambon aux épinards. Durante um momento fallou-se de paradoxos. Segundo o conde, quem os fazia tambem brilhantes e difficeis de sustentar, excessivamente difficeis, era o Barros, o ministro do reino...

—Talento robusto, murmurou respeitosamente Sousa Netto.

—Sim, pujante, disse o conde.

Mas elle agora não fallava tanto do talento do Barros como parlamentar, como homem d'estado. Fallava do seu espirito de sociedade, do seu esprit...

—Ainda este inverno nós lhe ouvimos um paradoxo brilhante! Até foi em casa da snr.a D. Maria da Cunha... V. exc.a não se lembra, snr.a D. Maria? Esta minha desgraçada memoria! Ó Thereza, lembras-te d'aquelle paradoxo do Barros? Ora sobre que era, meu Deus?... Emfim, um paradoxo muito difficil de sustentar... Esta minha memoria!... Pois não te lembras, Thereza?

A condessa não se lembrava. E emquanto o conde ficava remexendo anciosamente, com a mão na testa, as suas recordações,—a senhora d'escarlate voltou a fallar de pretos, e de escudeiros pretos, e d'uma cozinheira preta que tivera uma tia d'ella, a tia Villar... Depois queixou-se amargamente dos criados modernos: desde que lhe morrera a Joanna, que estava em casa havia quinze annos, não sabia que fazer, andava como tonta, tinha só desgostos. Em seis mezes já vira quatro caras novas. E umas desleixadas, umas pretenciosas, uma immoralidade!... Quasi lhe fugiu um suspiro do peito, e trincando desconsoladamente uma migalhinha de pão:

—Ó baroneza, ainda tens a Vicenta?

—Pois então não havia de ter a Vicenta?... Sempre a Vicenta... A snr.a D. Vicenta, se faz favor.

A outra contemplou-a um instante, com inveja d'aquella felicidade.

—E é a Vicenta que te penteia?

Sim, era a Vicenta que a penteava. Ia-se fazendo velha, coitada... Mas sempre caturra. Agora andava com a mania de aprender francez. Já sabia verbos. Era de morrer, a Vicenta a dizer j'aime, tu aimes...

—E a senhora baroneza, acudiu o Ega, começou por lhe mandar ensinar os verbos mais necessarios.

Está claro, dizia a baroneza, que aquelle era o mais necessario. Mas na idade da Vicenta já de pouco lhe poderia servir!

—Ah! gritou de repente o conde, deixando quasi cahir o talher. Agora me lembro!

Tinha-se lembrado emfim do soberbo paradoxo do Barros. Dizia o Barros que os cães, quanto mais ensinados... Pois, não, não era isto!

—Esta minha desgraçada memoria!... E era sobre cães. Uma coisa brilhante, philosophica até!

E, por se fallar de cães, a baroneza lembrou-se do Tommy, o galgo da condessa; perguntou por Tommy. Já o não via ha que tempos, esse bravo Tommy! A condessa nem queria que se fallasse no Tommy, coitado! Tinham-lhe nascido umas coisas nos ouvidos, um horror... Mandára-o para o Instituto, lá morrera.

—Está deliciosa esta galantine, disse D. Maria da Cunha, inclinando-se para Carlos.

—Deliciosa.

E a baroneza, do lado, declarou tambem a galantine uma perfeição. Com um olhar ao escudeiro, a condessa fez servir de novo a galantine: e apressou-se a responder ao snr. Sousa Netto, que, a proposito de cães, lhe estava fallando da Sociedade protectora dos animaes. O snr. Sousa Netto approvava-a, considerava-a como um progresso... E, segundo elle, não seria mesmo de mais que o governo lhe désse um subsidio.

—Que eu creio que ella vai prosperando... E merece-o, acredite a senhora condessa que o merece... Estudei essa questão, e de todas as sociedades que ultimamente se têm fundado entre nós, á imitação do que se faz lá fóra, como a Sociedade de Geographia e outras, a Protectora dos animaes parece-me decerto uma das mais uteis.

Voltou-se para o lado, para o Ega:

—V. exc.a pertence?

—Á Sociedade protectora dos animaes?... Não senhor, pertenço a outra, á de Geographia. Sou dos protegidos.

A baroneza teve uma das suas alegres risadas. E o conde fez-se extremamente sério: pertencia á Sociedade de Geographia, considerava-a um pilar do Estado, acreditava na sua missão civilisadora, detestava aquellas irreverencias. Mas a condessa e Carlos tinham rido tambem:—e de repente a frialdade que até ahi os conservára ao lado um do outro reservados, n'uma ceremonia affectada, pareceu dissipar-se ao calor d'esse riso trocado, no brilho dos dois olhares encontrando-se irresistivelmente. Servira-se o Champagne, ella tinha uma côrzinha no rosto. O seu pé, sem ella saber como, roçou pelo pé de Carlos; sorriram ainda outra vez;—e, como no resto da mesa se conversava sobre uns concertos classicos que ia haver no Price, Carlos perguntou-lhe, baixo, com uma reprehensão amavel:

—Que tolice foi essa da brazileira?... Quem lhe disse isso?

Ella confessou-lhe logo que fôra o Damaso... O Damaso viera contar-lhe o enthusiasmo de Carlos por essa senhora, e as manhãs inteiras que lá passava, todos os dias, á mesma hora... Emfim o Damaso fizera-lhe claramente entrevêr uma liaison.

Carlos encolheu os hombros. Como podia ella acreditar no Damaso? Devia conhecer-lhe bem a tagarellice, a imbecilidade...

—É perfeitamente verdade que eu vou a casa d'essa senhora, que nem brazileira é, que é tão portugueza como eu; mas é porque ella tem a governante muito doente com uma bronchite, e eu sou o medico da casa. Foi até o Damaso, elle proprio, que lá me levou como medico!

No rosto da condessa espalhava-se um riso, uma claridade vinda do dôce allivio que se fazia no seu coração.

—Mas o Damaso disse-me que era tão linda!...

Sim, era muito linda. E então? Um medico, por fidelidade ás suas affeições, e para as não inquietar, não podia realmente, antes de penetrar nacasa d'uma doente, exigir-lhe um certificado de hediondez!

—Mas que está ella cá a fazer?...

—Está á espera do marido que foi a negocios ao Brazil, e vem ahi... É uma gente muito distincta, e creio que muito rica... Vão-se brevemente embora, de resto, e eu pouco sei d'elles. As minhas visitas são de medico; tenho apenas conversado com ella sobre Paris, sobre Londres, sobre as suas impressões de Portugal...

A condessa bebia estas palavras, deliciosamente, dominada pelo bello olhar com que elle lh'as murmurava: e o seu pé apertava o de Carlos n'uma reconciliação apaixonada, com a força que desejaria pôr n'um abraço—se alli lh'o podesse dar.

A senhora d'escarlate, no emtanto, recomeçára a fallar da Russia. O que a assustava é que o paiz era tão caro, corriam-se tantos perigos por causa da dynamite, e uma constituição fraca devia soffrer muito com a neve nas ruas. E foi então que Carlos percebeu que ella era a esposa de Sousa Netto, e que se tratava d'um filho d'elles, filho unico, despachado segundo secretario para a legação de S. Petersburgo.

—O menino conhece-o? perguntou D. Maria ao ouvido de Carlos, por traz do leque. É um horror d'estupidez... Nem francez sabe! De resto não é peor que os outros... Que a quantidade de mônos, de semsaborões e de tolos que nos representam lá fóra até faz chorar... Pois o menino não acha? Isto é um paiz desgraçado.

—Peor, minha cara senhora, muito peor. Isto é um paiz cursi.

Tinha findado a sobremesa. D. Maria olhou para a condessa com o seu sorriso cansado; a senhora de escarlate calára-se, já preparada, tendo mesmo afastado um pouco a cadeira; e as senhoras ergueram-se, no momento em que o Ega, ainda ácerca da Russia, acabava de contar uma historia ouvida a um polaco, e em que se provava que o Czar era um estupido...

—Liberal todavia, gostando bastante do progresso! murmurou ainda o conde, já de pé.

Os homens, sós, accenderam os seus charutos; o escudeiro serviu o café. Então o snr. Sousa Netto, com a sua chavena na mão, aproximou-se de Carlos para lhe exprimir de novo o prazer que tivera em fazer o seu conhecimento...

—Eu tive tambem em tempos o prazer de conhecer o pai de v. exc.a... Pedro, creio que era justamente o snr. Pedro da Maia. Começava eu então a minha carreira publica... E o avô de v. exc.a, bom?

—Muito agradecido a v. exc.a

—Pessoa muito respeitavel... O pai de v. exc.a era... Emfim, era o que se chama «um elegante». Tive tambem o prazer de conhecer a mãi de v. exc.a...

E de repente calou-se, embaraçado, levando a chavena aos labios. Depois, lentamente, voltou-se para escutar melhor o Ega, que ao lado discutia com o Gouvarinho sobre mulheres. Era a proposito da secretária da legação da Russia, com quem elle encontrára n'essa manhã o conde conversando ao Calhariz. O Ega achava-a deliciosa, com o seu corpinho nervoso e ondeado, os seus grandes olhos garços... E o conde, que a admirava tambem, gabava-lhe sobretudo o espirito, a instrucção. Isso, segundo o Ega, prejudicava-a: porque o dever da mulher era primeiro ser bella, e depois ser estupida... O conde affirmou logo com exuberancia que não gostava tambem de litteratas: sim, decerto o lugar da mulher era junto do berço, não na bibliotheca...

—No emtanto é agradavel que uma senhora possa conversar sobre coisas amenas, sobre o artigo d'uma Revista, sobre... Por exemplo, quando se publica um livro... Emfim, não direi quando se trata d'um Guizot, ou d'um Jules Simon... Mas, por exemplo, quando se trata d'um Feuillet, d'um... Emfim, uma senhora deve ser prendada. Não lhe parece, Netto?

Netto, grave, murmurou:

—Uma senhora, sobretudo quando ainda é nova, deve ter algumas prendas...

Ega protestou, com calor. Uma mulher com prendas, sobretudo com prendas litterarias, sabendo dizer coisas sobre o snr. Thiers, ou sobre o snr. Zola, é um monstro, um phenomeno que cumpria recolher a uma companhia de cavallinhos, como se soubesse trabalhar nas argolas. A mulher só devia ter duas prendas: cozinhar bem e amar bem.

—V. exc.a decerto, snr. Sousa Netto, sabe o que diz Proudhon?

—Não me recordo textualmente, mas...

—Em todo o caso v. exc.a conhece perfeitamente o seu Proudhon?

O outro, muito seccamente, não gostando decerto d'aquelle interrogatorio, murmurou que Proudhon era um author de muita nomeada.

Mas o Ega insistia, com uma impertinencia perfida:

—V. exc.a leu evidentemente, como nós todos, as grandes paginas de Proudhon sobre o amor?

O snr. Netto, já vermelho, pousou a chavena sobre a mesa. E quiz ser sarcastico, esmagar aquelle moço, tão litterario, tão audaz.

—Não sabia, disse elle com um sorriso infinitamente superior, que esse philosopho tivesse escripto sobre assumptos escabrosos!

Ega atirou os braços ao ar, consternado:

—Oh snr. Sousa Netto! Então v. exc.a, um chefe de familia, acha o amor um assumpto escabroso?!

O snr. Netto encordoou. E muito direito, muito digno, fallando do alto da sua consideravel posição burocratica:

—É meu costume, snr. Ega, não entrar nunca em discussões, e acatar todas as opiniões alheias, mesmo quando ellas sejam absurdas...

E quasi voltou as costas ao Ega, dirigindo-se outra vez a Carlos, desejando saber, n'uma voz ainda um pouco alterada, se elle agora se fixava algum tempo mais em Portugal. Então, durante um momento, acabando os charutos, os dois fallaram de viagens. O snr. Netto lamentava que os seus muitos deveres não lhe permitissem percorrer a Europa. Em pequeno fôra esse o seu ideal; mas agora, com tantas occupações publicas, via-se forçado a não deixar a carteira. E alli estava, sem ter visto sequer Badajoz...

—E v. exc.a de que gostou mais, de Paris ou de Londres?

Carlos realmente não sabia, nem se podia comparar... Duas cidades tão differentes, duas civilisações tão originaes...

—Em Londres, observou o conselheiro, tudo carvão...

Sim, dizia Carlos sorrindo, bastante carvão, sobretudo nos fogões, quando havia frio...

O snr. Sousa Netto murmurou:

—E o frio alli deve ser sempre consideravel... Clima tão ao norte!...

Esteve um momento mamando o charuto, de palpebra cerrada. Depois, fez esta observação sagaz e profunda:

—Povo pratico, povo essencialmente pratico.

—Sim, bastante pratico, disse vagamente Carlos, dando um passo para a sala, onde se sentiam as risadas cantantes da baroneza.

—E diga-me outra coisa, proseguiu o snr. Sousa Netto, com interesse, cheio de curiosidade intelligente. Encontra-se por lá, em Inglaterra, d'esta litteratura amena, como entre nós, folhetinistas, poetas de pulso?...

Carlos deitou a ponta do charuto para o cinzeiro, e respondeu, com descaro:

—Não, não ha d'isso.

—Logo vi, murmurou Sousa Netto. Tudo gente de negocio.

E penetraram na sala. Era o Ega que assim fazia rir a baroneza, sentado defronte d'ella, fallando outra vez de Celorico, contando-lhe uma soirée de Celorico, com detalhes picarescos sobre as authoridades, e sobre um abbade que tinha morto um homem e cantava fados sentimentaes ao piano. A senhora d'escarlate, no sofá ao lado, com os braços cahidos no regaço, pasmava para aquella veia do Ega como para as destrezas d'um palhaço. D. Maria, junto da mesa, folheava com o seu ar cansado uma Illustração; e vendo que Carlos ao entrar procurára com o olhar a condessa, chamou-o, disse-lhe baixo que ella fôra dentro vêr Charlie, o pequeno...

—É verdade, perguntou Carlos, sentando-se ao lado d'ella, que é feito d'elle, d'esse lindo Charlie?

—Diz que tem estado hoje constipado, e um pouco murcho...

—A snr.a D. Maria tambem me parece hoje um pouco murcha.

—É do tempo. Eu já estou na idade em que o bom humor ou o aborrecimento vêm só das influencias do tempo... Na sua idade vem d'outras coisas. E a proposito d'outras coisas: então a Cohen tambem chegou?

—Chegou, disse Carlos, mas não tambem. O tambem implica combinação... E a Cohen e o Ega chegaram realmente ambos por acaso... De resto isso é historia antiga, é como os amores de Helena e de Páris.

N'esse instante a condessa voltava de dentro, um pouco afogueada, e trazendo aberto um grande leque negro. Sem se sentar, fallando sobretudo para a mulher do snr. Sousa Netto, queixou-se logo de não ter achado Charlie bem... Estava tão quente, tão inquieto... Tinha quasi medo que fosse sarampo.—E voltando-se vivamente para Carlos, com um sorriso:

—Eu estou com vergonha... Mas se o snr. Carlos da Maia quizesse ter o incommodo de o vir vêr um instante... É odioso, realmente, pedir-lhe logo depois de jantar para examinar um doente...

—Oh senhora condessa! exclamou elle, já de pé.

Seguiu-a. N'uma saleta, ao lado, o conde e o snr. Sousa Netto, enterrados n'um sofá, conversavam fumando.

—Levo o snr. Carlos da Maia para vêr o pequeno...

O conde erguera-se um pouco do sofá, sem comprehender bem. Já ella passára. Carlos seguiu em silencio a sua longa cauda de sêda preta através do bilhar, deserto, com o gaz acceso, ornado de quatro retratos de damas, da familia dos Gouvarinhos, empoadas e sorumbaticas. Ao lado, por traz de um pesado reposteiro de fazenda verde, era um gabinete, com uma velha poltrona, alguns livros n'uma estante envidraçada, e uma escrevaninha onde pousava um candieiro sob o abat-jour de renda côr de rosa. E ahi, bruscamente, ella parou, atirou os braços ao pescoço de Carlos, os seus labios prenderam-se aos d'elle n'um beijo sôfrego, penetrante, completo, findando n'um soluço de desmaio... Elle sentia aquelle lindo corpo estremecer, escorregar-lhe entre os braços, sobre os joelhos sem força.

—Ámanhã, em casa da titi, ás onze, murmurou ella quando pôde fallar.

—Pois sim.

Desprendida d'elle, a condessa ficou um momento com as mãos sobre os olhos, deixando desvanecer aquella languida vertigem, que a fizera côr de cêra. Depois, cansada e sorrindo:

—Que doida que eu sou... Vamos vêr Charlie.

O quarto do pequeno era ao fundo do corredor. E ahi, n'uma caminha de ferro, junto do leito maior da criada, Charlie dormia, sereno, fresco, com um bracinho cahido para o lado, os seus lindos caracoes loiros espalhados no travesseiro como uma aureola d'anjo. Carlos tocou-lhe apenas no pulso; e a criada escosseza, que trouxera uma luz de sobre a commoda, disse, sorrindo tranquillamente:

—O menino n'estes ultimos dias tem andado muitissimo bem...

Voltaram. No gabinete, antes de penetrar no bilhar, a condessa, já com a mão no reposteiro, estendeu ainda a Carlos os seus labios insaciaveis. Elle colheu um rapido beijo. E, ao passar na antecamara, onde Sousa Netto e o conde continuavam enfronhados n'uma conversa grave, ella disse ao marido:

—O pequeno está a dormir... O snr. Carlos da Maia achou-o bem.

O conde de Gouvarinho bateu no hombro de Carlos, carinhosamente. E durante um momento a condessa ficou alli conversando, de pé, a deixar-se serenar, pouco a pouco, n'aquella penumbra favoravel, antes de affrontar a luz forte da sala. Depois, por se fallar em hygiene, convidou o snr. Sousa Netto para uma partida de bilhar; mas o snr. Netto, desde Coimbra, desde a Universidade, não pegára n'um taco. E ia-se chamar o Ega quando appareceu Telles da Gama, que chegava do Price. Logo atraz d'elle entrou o conde de Steinbroken. Então o resto da noite passou-se no salão, em redor do piano. O ministro cantou melodias da Filandia. Telles da Gama tocou fados.

Carlos e Ega foram os derradeiros a sahir, depois de um brandy and soda, de que a condessa partilhou, como ingleza forte. E em baixo, no pateo, acabando de abotoar o paletot, Carlos pôde emfim soltar a pergunta que lhe faiscára nos labios toda a noite:

—Ó Ega, quem é aquelle homem, aquelle Sousa Netto, que quiz saber se em Inglaterra havia tambem litteratura?

Ega olhou-o com espanto:

—Pois não adivinhaste? Não deduziste logo? Não viste immediatamente quem n'este paiz é capaz de fazer essa pergunta?

—Não sei... Ha tanta gente capaz...

E o Ega radiante:

—Official superior d'uma grande repartição do Estado!

—De qual?

—Ora de qual! De qual ha de ser?... Da Instrucção publica!



Na tarde seguinte, ás cinco horas, Carlos, que se demorára de mais em casa da titi com a condessa, retido pelos seus beijos interminaveis, fez voar o coupé até á rua de S. Francisco, olhandoa cada momento o relogio, n'um receio de que Maria Eduarda tivesse sahido por aquelle lindo dia de verão, luminoso e sem calor. Com effeito á porta d'ella estava a carruagem da Companhia; e Carlos galgou as escadas, desesperado com a condessa, sobretudo comsigo mesmo, tão fraco, tão passivo, que assim se deixára retomar por aquelles braços exigentes, cada vez mais pesados, e já incapazes de o commover...

—A senhora chegou agora mesmo, disse-lhe o Domingos, que voltára da terra havia tres dias, e ainda não cessára de lhe sorrir.

Sentada no sofá, de chapéo, tirando as luvas, ella acolheu-o com uma dôce côr no rosto, e uma carinhosa reprehensão:

—Estive á espera mais de meia hora antes de sahir... É uma ingratidão! Imaginei que nos tinha abandonado!

—Porquê? Está peor, miss Sarah?

Ella olhou-o, risonhamente escandalisada. Ora, miss Sarah! Miss Sarah ia seguindo perfeitamente na sua convalescença... Mas agora já não eram as visitas de medico que se esperavam, eram as de amigo; e essa tinha-lhe faltado.

Carlos, sem responder, perturbado, voltou-se para Rosa, que folheava junto da mesa um livro novo d'estampas; e a ternura, a gratidão infinita do seu coração, que não ousava mostrar á mãe, pôl-a toda na longa caricia em que envolveu a filha.

—São historias que a mamã agora comprou, dizia Rosa, séria e presa ao seu livro. Hei de t'as contar depois... São historias de bichos.

Maria Eduarda erguera-se, desapertando lentamente as fitas do chapéo.

—Quer tomar uma chavena de chá comnosco, snr. Carlos da Maia? Eu vinha morrendo por uma chavena de chá... Que lindo dia, não é verdade? Rosa, fica tu a contar o nosso passeio emquanto eu vou tirar o chapéo...

Carlos, só com Rosa, sentou-se junto d'ella, desviando-a do livro, tomando-lhe ambas as mãos.

—Fomos ao Passeio da Estrella, dizia a pequena. Mas a mamã não se queria demorar, porque tu podias ter vindo!

Carlos beijou, uma depois da outra, as duas mãosinhas de Rosa.

—E então que fizeste no Passeio? perguntou elle, depois d'um leve suspiro de felicidade que lhe fugira do peito.

—Andei a correr, havia uns patinhos novos...

—Bonitos?...

A pequena encolheu os hombros:

—Chinfrinzitos.

Chinfrinzitos! Quem lhe tinha ensinado a dizer uma coisa tão feia?

Rosa sorriu. Fôra o Domingos. E o Domingos dizia ainda outras coisas assim, engraçadas... Dizia que a Melanie era uma gaja... O Domingos tinha muita graça.

Então Carlos advertiu-a que uma menina bonita, com tão bonitos vestidos, não devia dizer aquellas palavras... Assim fallava a gente rôta.

—O Domingos não anda rôto, disse Rosa muito séria.

E subitamente, com outra idéa, bateu as palmas, pulou-lhe entre os joelhos, radiante:

—E trouxe-me uns grillos da Praça! O Domingos trouxe-me uns grillos... Se tu soubesses! Niniche tem medo dos grillos! Parece incrivel, hein? Eu nunca vi ninguem mais medrosa...

Esteve um momento a olhar Carlos, e acrescentou, com um ar grave:

—É a mamã que lhe dá tanto mimo. É uma pena!

Maria Eduarda entrava, ageitando ainda de leve o ondeado do cabello: e, ouvindo assim fallar de mimo, quiz saber quem é que ella estragava com mimo... Niniche? Pobre Niniche, coitada, ainda essa manhã fôra castigada!

Então Rosa rompeu a rir, batendo outra vez as mãos:

—Sabes como a mamã a castiga? exclamava ella, puxando a manga de Carlos. Sabes?... Faz-lhe voz grossa... Diz-lhe em inglez: Bad dog! dreadful dog!

Era encantadora assim, imitando a voz severa da mamã, com o dedinho erguido, a ameaçar Niniche. A pobre Niniche, imaginando com effeito que a estavam a reprehender, arrastou-se, vexada, para debaixo do sofá. E foi necessario que Rosa a tranquillisasse, de joelhos sobre a pelle de tigre, jurando-lhe, por entre abraços, que ella nem era mau cão, nem feio cão; fôra só para contar como fazia a mamã...

—Vai-lhe dar agua, que ella deve estar com sêde, disse então Maria Eduarda, indo sentar-se na sua cadeira escarlate. E dize ao Domingos que nos traga o chá.

Rosa e Niniche partiram correndo. Carlos veio occupar, junto da janella, a costumada poltrona de reps. Mas pela primeira vez, desde a sua intimidade, houve entre elles um silencio difficil. Depois ella queixou-se de calor, desenrolando distrahidamente o bordado; e Carlos permanecia mudo, como se para elle, n'esse dia, apenas houvesse encanto, apenas houvesse significação n'uma certa palavra de que os seus labios estavam cheios e que não ousavam murmurar, que quasi receava que fosse adivinhada apesar d'ella suffocar o seu coração.

—Parece que nunca se acaba, esse bordado! disse elle por fim, impaciente de a vêr, tão serena, a occupar-se das suas lãs.

Com a talagarça desdobrada sobre os joelhos, ella respondeu, sem erguer os olhos:

—E para que se ha de acabar? O grande prazer é andal-o a fazer, pois não acha? Uma malha hoje, outra malha ámanhã, torna-se assim uma companhia... Para que se ha de querer chegar logo ao fim das coisas?

Uma sombra passou no rosto de Carlos. N'estas palavras, ditas de leve ácerca do bordado, elle sentia uma desanimadora allusão ao seu amor,—esse amor que lhe fôra enchendo o coração á maneira que a lã cobria aquella talagarça, e que era obra simultanea das mesmas brancas mãos. Queria ella pois conserval-o alli, arrastado como o bordado, sempre acrescentado e sempre incompleto, guardado tambem no cesto da costura, para ser o desafogo da sua solidão?

Disse-lhe então, commovido:

—Não é assim. Ha coisas que só existem quando se completam, e que só então dão a felicidade que se procurava n'ellas.

—É muito complicado isso, murmurou ella, córando. É muito subtil...

—Quer que lh'o diga mais claramente?

N'esse instante Domingos, erguendo o reposteiro, annunciou que estava alli o snr. Damaso...

Maria Eduarda teve um movimento brusco de impaciencia:

—Diga que não recebo!

Fóra, no silencio, sentiram bater a porta. E Carlos ficou inquieto, lembrando-se que o Damaso devia ter visto em baixo, passeando na rua, o seu coupé. Santo Deus! O que elle iria tagarellar agora, com os seus pequeninos rancores, assim humilhado! Quasi lhe pareceu n'esse instante a existencia do Damaso incompativel com a tranquillidade do seu amor.

—Ahi está outro inconveniente d'esta casa, dizia no emtanto Maria Eduarda. Aqui ao lado d'esse Gremio, a dois passos do Chiado, é demasiadamente accessivel aos importunos. Tenho agora de repellir quasi todos os dias este assalto á minha porta! É intoleravel.

E com uma subita idéa, atirando o bordado para o açafate, cruzando as mãos sobre os joelhos:

—Diga-me uma coisa que lhe tenho querido perguntar... Não me seria possivel arranjar por ahi uma casinhola, um cottage, onde eu fosse passar os mezes de verão?... Era tão bom para a pequena! Mas não conheço ninguem, não sei a quem me hei de dirigir...

Carlos lembrou-se logo da bonita casa do Craft, nos Olivaes—como já n'outra occasião em que ella mostrára desejos d'ir para o campo. Justamente, n'esses ultimos tempos, Craft voltára a fallar, e mais decidido, no antigo plano de vender a quinta, e desfazer-se das suas collecções. Que deliciosa vivenda para ella, artistica e campestre, condizendo tão bem com os seus gostos! Uma tentação atravessou-o, irresistivel.

—Eu sei com effeito d'uma casa... E tão bem situada, que lhe convinha tanto!...

—Que se aluga?

Carlos não hesitou:

—Sim, é possivel arranjar-se...