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Os Maias: episodios da vida romantica cover

Os Maias: episodios da vida romantica

Chapter 26: V
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About This Book

The narrative follows three generations of an aristocratic family as they return to Lisbon, restore an ancestral house, and navigate society's salons, rivalries, and vanities. Through rich portraits and episodic scenes the work satirizes the complacency and moral emptiness of the urban elite, alternating comedy of manners with melancholy. A young heir's cosmopolitan education and passionate affair lead to a shocking personal discovery that precipitates disillusion and domestic collapse. Interlacing family history, social observation, and vivid set pieces, the novel examines legacy, hypocrisy, and the painful consequences of private desires colliding with public reputation.


—Não, não! Não é isso!

—E eu? exclamou ella, caminhando para elle, dominando-o, magnifica e com um esplendor de verdade na face. E eu? porque hei de eu acreditar n'essa grande paixão que me juravas? O que é que tu amavas então em mim? Dize lá! Era a mulher d'outro, o nome, o requinte do adulterio, as toilletes?... Ou era eu propria, o meu corpo, a minha alma e o meu amor por ti?... Eu sou a mesma, olha bem para mim!... Estes braços são os mesmos, este peito é o mesmo... Só uma coisa é differente: a minha paixão! Essa é maior, desgraçadamente, infinitamente maior.

—Oh! se isso fosse verdade! gritou Carlos, apertando as mãos.

N'um instante Maria estava cahida a seus pés, com os braços abertos para elle.

—Juro-t'o por alma de minha filha, por alma de Rosa! Amo-te, adoro-te doidamente, absurdamente, até á morte!

Carlos tremia. Todo o seu sêr pendia para ella; e era um impulso irresistivel de se deixar cahir sobre aquelle seio que arfava a seus pés, ainda que elle fosse o abysmo da sua vida inteira... Mas outra vez a idéia da mentira passou, regeladora. E afastou-se d'ella, levando os punhos á cabeça, n'um desespero, revoltado contra aquella coisa pequenina e indestructivel que não queria sumir-se, e que se interpunha como uma barra de ferro entre elle e a sua felicidade divina!

Ella ficára ajoelhada, immovel, com os olhos esgazeados para o tapete. Depois, no silencio estofado da sala, a sua voz ergueu-se dolente e tremula:

—Tens razão, acabou-se! Tu não me acreditas, tudo se acabou!... É melhor que te vás embora... Ninguem me torna a acreditar... Acabou tudo para mim, não tenho ninguem mais no mundo... Ámanhã sáio d'aqui, deixo-te tudo... Has de me dar tempo para arranjar... Depois, que hei de fazer, vou-me embora!

E não pôde mais, tombou para o chão, com os braços estirados, perdida de chôro.

Carlos voltou-se, ferido no coração. Com o seu vestido escuro, para alli cahida e abandonada, parecia já uma pobre creatura, arremessada para fóra de todo o lar, sósinha a um canto, entre a inclemencia do mundo... Então respeitos humanos, orgulho, dignidade humana, tudo n'elle foi levado como por um grande vento de piedade. Viu só, offuscando todas as fragilidades, a sua belleza, a sua dôr, a sua alma sublimemente amante. Um delirio generoso, de grandiosa bondade, misturou-se á sua paixão. E, debruçando-se, disse-lhe baixo, com os braços abertos:

—Maria, queres casar commigo?

Ella ergueu a cabeça, sem comprehender, com os olhos desvairados. Mas Carlos tinha os braços abertos; e estava esperando para a fechar dentro d'elles outra vez, como sua e para sempre... Então levantou-se, tropeçando nos vestidos, veio cahir sobre o peito d'elle, cobrindo-o de beijos, entre soluços e risos, tonta, n'um deslumbramento:

—Casar comtigo, comtigo? Oh Carlos... E viver sempre, sempre comtigo?... Oh meu amor, meu amor! E tratar de ti, e servir-te, e adorar-te, e ser só tua? E a pobre Rosa tambem... Não, não cases commigo, não é possivel, não valho nada! Mas se tu queres, porque não?... Vamos para longe, juntos, e Rosa e eu sobre o teu coração! E has de ser nosso amigo, meu e d'ella, que não temos ninguem no mundo... Oh! meu Deus, meu Deus!...

Empallideceu, escorregando pesadamente entre os braços d'elle, desmaiada: e os seus longos cabellos desprendido rojavam o chão, tocados pela luz de tons d'ouro.


V



Maria Eduarda e Carlos, que ficára essa noite nos Olivaes na sua casinhola, acabavam de almoçar. O Domingos servira o café, e antes de sahir deixára ao lado de Carlos a caixa de cigarettes e o Figaro. As duas janellas estavam abertas. Nem uma folha se movia no ar pesado da manhã encoberta, entristecida ainda por um dobre lento de sinos que morria ao longe nos campos. No banco de cortiça, sob as arvores, miss Sarah costurava preguiçosamente; Rosa ao lado brincava na relva. E Carlos, que viera n'uma intimidade conjugal, com uma simples camisa de sêda e um jaquetão de flanella, chegou então a cadeira para junto de Maria, tomou-lhe a mão, brincando-lhe com os anneis, n'uma lenta caricia:

—Vamos a saber, meu amor... Decidiste, por fim? Quando queres partir?

N'essa noite, entre os seus primeiros beijos de noiva, ella mostrára o desejo enternecido de não alterar o plano da Italia e d'um ninho romantico entre as flôres d'Isola-bella: sómente agora não iam esconder a inquietação d'uma felicidade culpada, mas gozar o repouso d'uma felicidade legitima. E, depois de todas as incertezas e tormentos que o tinham agitado desde o dia em que cruzára Maria Eduarda no Aterro, Carlos anhelava tambem pelo momento de se installar emfim no conforto d'um amor sem duvidas e sem sobresaltos:

—Eu por mim abalava ámanhã. Estou sôfrego de paz. Estou até sôfrego de preguiça... Mas tu, dize, quando queres?

Maria não respondeu; apenas o seu olhar sorriu, reconhecido e apaixonado. Depois, sem retirar a mão que a longa caricia de Carlos ainda prendia, chamou Rosa através da janella.

—Mamã, espera, já vou! Passa-me umas migalhas... Andam aqui uns pardaes que ainda não almoçaram...

—Não, vem cá.

Quando ella appareceu á porta, toda de branco, córada, com uma das ultimas rosas de verão mettida no cinto—Maria quil-a mais perto, entre elles, encostada aos seus joelhos. E, arranjando-lhe a fita solta do cabello, perguntou, muito séria, muito commovida, se ella gostaria que Carlos viesse viver com ellas de todo e ficar alli na Toca... Os olhos da pequena encheram-se de surpreza e de riso:

—O quê! estar sempre, sempre aqui, mesmo de noite, toda a noite?... E ter aqui as suas malas, as suas coisas?...

Ambos murmuraram—«sim».

Rosa então pulou, bateu as palmas, radiante, querendo que Carlos fosse já, já, buscar as suas malas e as suas coisas...

—Escuta, disse-lhe ainda Maria gravemente, retendo-a sobre os joelhos. E gostavas que elle fosse como o papá, e que andasse sempre comnosco, e que lhe obedecessemos ambas, e que gostassemos muito d'elle ?

Rosa ergueu para a mãe uma facesinha compenetrada, onde todo o sorriso se apagára.

—Mas eu não posso gostar mais d'elle do que gósto!...

Ambos a beijaram, n'um enternecimento que lhes humedecia os olhos. E Maria Eduarda, pela primeira vez diante de Rosa debruçando-se sobre ella, beijou de leve a testa de Carlos. A pequena ficou pasmada para o seu amigo, depois para a mãi. E pareceu comprehender tudo; escorregou dos joelhos de Maria, veio encostar-se a Carlos com uma meiguice humilde:

—Queres que te chame papá, só a ti?

—Só a mim, disse elle, fechando-a toda nos braços.

E assim obtiveram o consentimento de Rosa—que fugiu, atirando a porta, com as mãos cheias de bolos para os pardaes.

Carlos levantou-se, tomou a cabeça de Maria entre as mãos, e contemplando-a profundamente, até á alma, murmurou n'um enlevo:

—És perfeita!

Ella desprendeu-se, com melancolia, d'aquella adoração que a perturbava.

—Escuta... Tenho ainda muito, muito que te dizer, infelizmente. Vamos para o nosso kiosque... Tu não tens nada que fazer, não? E que tenhas, hoje és meu... Vou já ter comtigo. Leva as tuas cigarettes.

Nos degraus do jardim, Carlos parou a olhar, a sentir a doçura velada do céo cinzento... E a vida pareceu-lhe adoravel, d'uma poesia fina e triste,assim envolta n'aquella nevoa macia onde nada resplandecia e nada cantava, e que tão favoravel era para que dois corações, desinteressados do mundo e em desharmonia com elle, se abandonassem juntos ao contínuo encanto de estremecerem juntos na mudez e na sombra.

—Vamos ter chuva, tio André, disse elle, passando junto do velho jardineiro que aparava o buxo.

O tio André, atarantado, arrancou o chapéo. Ah! uma gota d'agua era bem necessaria, depois da estiagem! O torrãosinho já estava com sêde! E em casa todos bons? A senhora? A menina?

—Tudo bom, tio André, obrigado.

E no seu desejo de vêr todos em torno de si felizes como elle e como a terra sequiosa que ia ser consolada—Carlos metteu uma libra na mão do tio André, que ficou deslumbrado, sem ousar fechar os dedos sobre aquelle ouro extraordinario que reluziu.

Quando Maria entrou no kiosque trazia um cofre de sandalo. Atirou-o para o divan: fez sentar Carlos ao lado, bem confortavel, entre almofadas: accendeu-lhe uma cigarrete. Depois agachou-se aos seus pés, sobre o tapete, como na humildade de uma confissão.

—Estás bem assim? Queres que o Domingos te traga agua e cognac?... Não? Então ouve agora, quero-te contar tudo...

Era toda a sua existencia que ella desejava contar. Pensára mesmo em lh'a escrever n'uma carta interminavel, como nos romances. Mas decidira antes tagarellar alli uma manhã inteira, aninhada aos seus pés.

—Estás bem, não estás?

Carlos esperava, commovido. Sabia que aquelles labios amados iam fazer revelações pungentes para o seu coração—e amargas para o seu orgulho. Mas a confidencia da sua vida completava a posse da sua pessoa: quando a conhecesse toda no seu passado sentil-a-hia mais sua inteiramente. E no fundo tinha uma curiosidade insaciavel d'essas coisas que o deviam pungir e que o deviam humilhar.

—Sim, conta... Depois esquecemos tudo e para sempre. Mas agora dize, conta... Onde nasceste tu por fim?

Nascera em Vienna: mas pouco se recordava dos tempos de criança, quasi nada sabia do papá, a não ser a sua grande nobreza e a sua grande belleza. Tivera uma irmãsinha que morrera de dois annos e que se chamava Heloisa. A mamã, mais tarde, quando ella era já rapariga, não tolerava que lhe perguntassem pelo passado; e dizia sempre que remexer a memoria das coisas antigas prejudicava tanto como sacudir uma garrafa de vinho velho... De Vienna apenas recordava confusamente largos passeios d'arvores, militares vestidos de branco, e uma casa espelhada e dourada onde se dançava: ás vezes durante tempos ella ficava lá só com o avô, um velhinho triste e timido, mettido pelos cantos, que lhe contara historias de navios. Depois tinham ido a Inglaterra: mas lembrava-se sómente de ter atravessado um grande rumor de ruas, n'um dia de chuva, embrulhada em pelles, sobre os joelhos d'um escudeiro. As suas primeiras memorias mais nitidas datavam de Paris; a mamã, já viuva, andava de luto pelo avô; e ella tinha uma aia italiana que a levava todas as manhãs, com um arco e com uma pélla, brincar aos Campos Elyseos. A noite costumava vêr a mamã decotada, n'um quarto cheio de setins e de luzes; e um homem louro, um pouco brusco, que fumava sempre estirado pelos sofás, trazia-lhe de vez em quando uma boneca, e chamava-lhe mademoiselle Triste-cœur por causa do seu arzinho sisudo. Emfim a mamã mettera-a n'um convento ao pé de Tours—porque n'essa idade, apesar de cantar já ao piano as walsas da Belle Helène, ainda não sabia soletrar. Fôra nos jardins do convento, onde havia lindos lilazes, que a mamã se separára d'ella n'uma paixão de lagrimas; e ao lado esperava, para a consolar decerto, um sujeito muito grave, de bigodes encerados, a quem a Madre Superiora fallara com veneração.

A mamã ao principio vinha vêl-a todos os mezes, demorando-se em Tours dois, tres dias; trazia-lhe uma profusão de presentes, bonecas, bonbons, lenços bordados, vestidos ricos, que lhe não permittia usar a regra severa do convento. Davam então passeios de carruagem pelos arredores de Tours: e havia sempre officiaes a cavallo, que escoltavam a caleche—e tratavam a mamã por tu. No convento as mestras, a Madre Superiora não gostavam d'estas sahidas—nem mesmo que a mamã viesse acordar os corredores devotos com as suas risadas e o ruido das suas sêdas; ao mesmo tempo pareciam temel-a; chamavam-lhe Madame la Comtesse. A mamã era muito amiga do general que commandava em Tours, e visitava o bispo. Monsenhor, quando vinha ao convento, fazia-lhe uma festinha especial na face e alludia risonhamente a son excellente mère. Depois a mamã começou a apparecer menos em Tours. Esteve um anno longe, quasi sem escrever, viajando na Allemanha; voltou um dia, magra e coberta de luto, e ficou toda a manhã abraçada a ella a chorar.

Mas na visita seguinte vinha mais moça, mais brilhante, mais ligeira, com dois grandes galgos brancos, annunciando uma romagem poetica á Terra Santa e a todo o remoto Oriente. Ella tinha então quasi dezeseis annos: pela sua applicação, os seus modos dôces e graves, ganhára a affeição da Madre Superiora—que ás vezes, olhando-a com tristeza, acariciando-lhe o cabello cahido em duas tranças segundo a regra, lhe mostrava o desejo de a conservar sempre ao seu lado. Le monde, dizia ella, ne vous sera bon à rien, mon enfant!... Um dia, porém, appareceu para a levar para Paris, para a mamã, uma Madame de Chavigny, fidalga pobre, de caracoes brancos, que era como uma estampa de severidade e de virtude.

O que ella chorára ao deixar o convento! Mais choraria se soubesse o que ia encontrar em Paris!

A casa da mamã, no Parc Monceaux, era na realidade uma casa de jogo—mas recoberta de um luxo sério e fino. Os escudeiros tinham meias de sêda; os convidados, com grandes nomes no Nobiliario de França, conversavam de corridas, das Tulherias, dos discursos do Senado; e as mesas de jogo armavam-se depois como uma distracção mais picante. Ella recolhia sempre ao seu quarto ás dez horas: Madame de Chavigny, que ficára como sua dama de companhia, ia com ella cedo ao Bois n'um coupé estufo de douairière. Pouco a pouco, porém, este grande verniz começou a estalar. A pobre mamã cahira sob o jugo d'um Mr. de Trevernnes, homem perigoso pela sua seducção pessoal e por uma desoladora falta de honra e de senso. A casa descahiu rapidamente n'uma bohemia mal dourada e ruidosa. Quando ella madrugava, com os seus habitos saudaveis do convento, encontrava paletots d'homens por cima dos sofás: no marmore das consoles restavam pontas de charuto entre nodoas de champagne; e n'algum quarto mais retirado ainda tinia o dinheiro d'um baccarat talhado á claridade do sol. Depois uma noite, estando deitada, sentira de repente gritos, uma debandada brusca na escada; veio encontrar a mamã estirada no tapete, desmaiada; ella dissera-lhe apenas mais tarde, alagada em lagrimas, «que tinha havido uma desgraça»...

Mudaram então para um terceiro andar da Chaussée-d'Antin. Ahi começou a apparecer uma gente desconhecida e suspeita. Eram Valachos de grandes bigodes, Peruanos com diamantes falsos, e condes romanos que escondiam para dentro das mangas os punhos enxovalhados... Por vezes entre esta malta vinha algum gentleman—que não tirava o paletot, como n'um café-concerto. Um d'esses foi um irlandez, muito moço, Mac-Gren... Madame de Champigny deixára-as desde que faltára o coupé severo, acolchoado de setim; e ella, só com a mãi, insensivelmente, fatalmente, fôra-se misturando a essa vida tresnoitada de grogs e de baccarat.

A mamã chamava a Mac-Gren o «bébé». Era com effeito uma criança estouvada e feliz. Namorára-se d'ella logo com o ardor, a effusão, o impeto d'um irlandez; e prometteu-lhe fazel-a sua esposa apenas se emancipasse—porque Mac-Gren, menor ainda, vivia sobretudo das liberalidades de uma avó excentrica e rica que o adorava, e que habitava a Provença n'uma vasta quinta onde tinha feras em jaulas... E no entanto induzia-a sem cessar a fugir com elle, desesperado de a vêr entre aquelles Valachos que cheiravam a genebra. O seu desejo era leval-a para Fontainebleau, para um cottage com trepadeiras de que fallava sempre, e esperar ahi tranquillamente a maioridade que lhe traria duas mil libras de renda. Decerto, era uma situação falsa: mas preferivel a permanecer n'aquelle meio depravado e brutal onde ella a cada instante córava... A esse tempo a mamã parcela ir perdendo todo o senso, desarranjada de nervos, quasi irresponsavel. As difficuldades crescentes estonteavam-n'a; brigava com as criadas; bebia champagne «pour s'étourdir». Para satisfazer as exigencias de Mr. de Trevernnes empenhára as suas joias, e quasi todos os dias chorava com ciumes d'elle. Por fim houve uma penhora: uma noite tiveram d'enfardelar á pressa roupa n'um sacco, e ir dormir a um hotel. E, peor, peor que tudo! Mr. de Trevernnes começava a olhar para ella d'um modo que a assustava...

—Minha pobre Maria! murmurou Carlos, pallido, agarrando-lhe as mãos.

Ella permaneceu um momento suffocada, com o rosto cahido nos joelhos d'elle. Depois limpando as lagrimas que a ennevoavam:

—Ahi estão as cartas de Mac-Gren, n'esse cofre... Tenho-as guardado sempre para me justificar a mim mesma, se me é possivel... Pede-me em todas que vá para Fontainebleau; chama-me sua esposa; jura que apenas juntos iremos ajoelhar-nos diante da avó, obter a sua indulgencia... Mil promessas! E era sincero... Que queres que te diga? A mamã uma manhã partiu com uma sucia para Baden. Fiquei em Paris só, n'um hotel... Tinha um palpite, um terror que Trevernnes apparecia... E eu só! Estava tão transtornada que pensei em comprar um rewolver... Mas quem veio foi Mac-Gren.

E partira com elle, sem precipitação, como sua esposa, levando todas as suas malas. A mamã de volta de Baden correu a Fontainebleau, desvairada e tragica, amaldiçoando Mac-Gren, ameaçando-o com a prisão de Mazas, querendo esbofeteal-o; depois rompeu a chorar. Mac-Gren, como um bébé, agarrou-se a ella aos beijos, chorando tambem. A mamã terminou por os apertar a ambos contra o coração, já rendida, perdoando tudo, chamando-lhes «filhos da sua alma». Passou o dia em Fontainebleau, radiante, contando «a patuscada de Baden», já com o plano de vir installar-se no cottage, viver junto d'elles n'uma felicidade calma e nobre de avósinha... Era em maio; Mac-Gren, á noite, deitou um «fogo preso» no jardim.

Começou um anno quieto e facil. O seu unico desejo era que a mamã vivesse com elles socegadamente. Diante das suas supplicas ella ficava pensativa, dizia: «Tens razão, veremos!» Depois remergulhava no torvelinho de Paris, d'onde resurgia uma manhã, n'um fiacre, estremunhada e afflicta, com uma rica pelliça sobre uma velha saia, a pedir-lhe cem francos... Por fim nascera Rosa. Toda a sua anciedade desde então fôra legitimar a sua união. Mas Mac-Gren adiava, levianamente, com um medo pueril da avó. Era um perfeito bébé! Entretinha as manhãs a caçar passaros com visco! E ao mesmo tempo terrivelmente teimoso: ella pouco a pouco perdera-lhe todo o respeito. No começo da primavera a mamã um dia appareceu em Fontainebleau com as suas malas, succumbida, enojada da vida. Rompera emfim com Trevernnes. Mas quasi immediatamente se consolou: e começou d'ahi a adorar Mac-Gren com uma tão larga effusão de caricias, e achando-o tão lindo, que era ás vezes embaraçadora. Os dois passavam o dia, com copinhos de cognac, jogando o bezigue.

De repente rebentou a guerra com a Prussia. Mac-Gren enthusiasmado, e apesar das supplicas d'ellas, corrêra a alistar-se no batalhão de Zuavos de Charette; a avó de resto approvára este rasgo d'amor pela França, e fizera-lhe n'uma carta em verso, em que celebrava Jeanne d'Arc, uma larga remessa de dinheiro. Por esse tempo Rosa teve o garrotilho. Ella, sem lhe largar o leito, mal attendia ás noticias da guerra. Sabia apenas confusamente das primeiras batalhas perdidas na fronteira. Uma manhã a mamã rompeu-lhe no quarto, estonteada, em camisa: o exercito capitulára em Sédan, o imperador estava prisioneiro! «É o fim de tudo, é o fim de tudo!» dizia a mamã espavorida. Ella veio a Paris procurar noticias de Mac-Gren: na rua Royale teve de se refugiar n'um portão, diante do tumulto d'um povo em delirio, acclamando, cantando a Marselheza, em torno de uma caleche onde ia um homem, pallido como cera, com um cache-nez escarlate ao pescoço. E um sujeito ao lado, aterrado, disse-lhe que o povo fôra buscar Rochefort á prisão e que estava, proclamada a Republica. Nada soubera de Mac-Gren. Começaram então dias d'infinito sobresalto. Felizmente Rosa convalescia. Mas a pobre mamã causava dó, envelhecida de repente, sombria, prostrada n'uma cadeira, murmurando apenas: «É o fim de tudo, é o fim de tudo!» E parecia na verdade o fim da França. Cada dia uma batalha perdida; regimentos presos, apinhados em wagons de gado, internados a todo o vapor para os presidios d'Allemanha; os prussianos marchando sobre Paris... Não podiam permanecer em Fontainebleau; o duro inverno começava; e com o que venderam á pressa, com o dinheiro que Mac-Gren deixára, partiram para Londres.

Fôra uma exigencia da mamã. E em Londres ella, desorientada na enorme e estranha cidade, doente tambem, deixára-se levar pelas tontas idéas da mãe. Tomaram uma casa mobilada, muito cara, nos bairros de luxo, ao pé de Mayfair. A mamã fallava em organisar alli o centro de resistencia dos bonapartistas refugiados; no fundo, a desgraçada pensava em crear uma casa de jogo em Londres. Mas ai! eram outros tempos... Os imperialistas, sem imperio, não jogavam já o baccarat. E ellas em breve, sem rendimentos, gastando sempre, tinham-se achado com aquella dispendiosa casa, tres criados, contas colossaes e uma nota de cinco libras no fundo d'uma gaveta. E Mac-Gren mettido dentro de Paris, com meio milhão de prussianos em redor. Foi necessario vender todas as joias, vestidos, até as pelliças. Alugaram então, no bairro pobre de Soho, tres quartos mal mobilados. Era o lodging de Londres em toda a sua suja, solitaria tristeza; uma criadita unica, enfarruscada como um trapo; alguns carvões humidos fumegando mal na chaminé; e para jantar um pouco de carneiro frio e cerveja da esquina. Por fim faltára mesmo o escasso shilling para pagar o lodging. A mamã não sahia do catre, doente, succumbida, chorando. Ella ás vezes ao anoitecer, escondida n'um water-proof, levava ao prégo embrulhos de roupa (até roupa branca, até camisas!) para que ao menos não faltasse a Rosa a sua chicara de leite. As cartas que a mamã escrevia a alguns antigos companheiros de ceias na Maison d'Or ficavam sem resposta: outras traziam, embrulhada n'um bocado de papel, alguma meia-libra que tinha o pavoroso sabor d'uma esmola. Uma noite, um sabbado de grande nevoeiro, indo empenhar um chambre de rendas da mamã, perdera-se, errára na vasta Londres n'uma treva amarellada, a tiritar de frio, quasi com fome, perseguida por dois brutos que empestavam a alcool. Para lhes fugir atirou-se para dentro d'um cab que a levou a casa. Mas não tinha um penny para pagar ao cocheiro; e a patrôa roncava no seu cacifro, bebeda. O homem resmungou; ella, succumbida, alli mesmo na porta rompeu a chorar. Então o cocheiro desceu da almofada, commovido, offereceu-se para a levar de graça ao prégo, onde ajustariam as suas contas. Foi; o pobre homem só aceitou um schilling; até mesmo suppondo-a franceza grunhiu blasphemias contra os prussianos, e teimou em lhe offerecer uma bebida.

Ella no emtanto procurava uma occupação qualquer costura, bordados, traducções, cópias de manuscriptos... Não achava nada. N'aquelle duro inverno o trabalho escasseava em Londres; surgira uma multidão de francezes, pobres como ella, luctando pelo pão... A mamã não cessava de chorar; e havia alguma coisa mais terrivel que as suas lagrimas—eram as suas allusões constantes á facilidade de se ter em Londres dinheiro, conforto e luxo, quando se é nova e se é bonita...

—Que te parece esta vida, meu amor? exclamou ella, apertando as mãos amargamente.

Carlos beijou-a em silencio, com os olhos humedecidos.

—Emfim tudo passou, continuou Maria Eduarda. Fez-se a paz, o cêrco acabou. Paris estava de novo aberto... Sómente a difficuldade era voltar.

—Como voltaste?

Um dia por acaso, em Regent-Street, encontrára um amigo de Mac-Gren, outro irlandez, que muitas vezes jantára com elles em Fontainebleau. Veio vêl-as a Soho; diante d'aquella miseria, do bule de chá aguado, dos ossos de carneiro requentando sobre tres brazas mortas, começou, como bom irlandez, por accusar o governo d'Inglaterra e jurar uma desforra de sangue. Depois offereceu, com os beiços já a tremer, toda a sua dedicação. O pobre rapaz batia tambem o lagedo n'uma lucta tormentosa pela vida. Mas era irlandez; e partiu logo generosamente, armado de todos os seus ardis, a conquistar através de Londres o pouco que ellas necessitavam para recolher a França. Com effeito appareceu n'essa mesma noite, derreado e triumphante, brandindo tres notas de banco e uma garrafa de champagne. A mamã ao vêr, depois de tantos mezes de chá preto, a garrafa de Clicquot encarapuçada de ouro—quasi desmaiou, de enternecimento. Enfardelaram os trapos. Ao partirem, na estação de Charing-Cross, o irlandez levou-a para um canto, e engasgado, torcendo os bigodes, disse-lhe que Mac-Gren tinha morrido na batalha de Saint-Privat...

—Para que te hei de eu contar o resto? Em Paris recomecei a procurar trabalho. Mas tudo estava ainda em confusão... Quasi immediatamente veio a Communa... Pódes acreditar que muitas vezes tivemos fome. Mas emfim já não era Londres, nem o inverno, nem o exilio. Estavamos em Paris, soffriamos de companhia com amigos d'outros tempos. Já não parecia tão terrivel... Com todas estas privações a pobre Rosa começava a definhar... Era um supplicio vêl-a perder as côres, tristinha, mal vestida, mettida n'uma trapeira... A mamã já se queixava da doença de coração que a matou... O trabalho que eu encontrava, mal pago, dava-nos apenas para a renda da casa, e para não morrer absolutamente de necessidade... Principiei a adoecer de anciedade, de desespero. Luctei ainda. A mamã fazia dó. E Rosa morria se não tivesse outro regimen, bom ar, algum conforto... Conheci então Castro Gomes em casa d'uma antiga amiga da mamã, que não perdera nada com a guerra, nem com os prussianos, e que me dava trabalhos de costura... E o resto sábel-o... Nem eu me lembro... Fui levada... Via ás vezes Rosa, coitadinha, embrulhada n'um chale, muito quietinha ao seu canto, depois de rapada a sua magra tigela de sopas, e ainda com fome...

Não pôde continuar; rompeu a chorar, cahida sobre os joelhos de Carlos. E elle na sua emoção só lhe podia dizer, passando-lhe as mãos tremulas pelos cabellos, que a havia de desforrar bem de todas as miserias passadas...

—Escuta ainda, murmurou ella, limpando as lagrimas. Ha só uma coisa mais que te quero dizer. E é a santa verdade, juro-te pela alma de Rosa! É que n'estas duas relações que tive o meu coração conservou-se adormecido... Dormiu sempre, sempre, sem sentir nada, sem desejar nada, até que te vi... E ainda te quero dizer outra coisa...

Um momento hesitou, coberta de rubor. Passára os braços em torno de Carlos, pendurada toda d'elle, com os olhos mergulhados nos seus. E foi mais baixo que balbuciou na derradeira, na absoluta confissão de todo o seu sêr:

—Além de ter o coração adormecido, o meu corpo permaneceu sempre frio, frio como um marmore...

Elle estreitou-a a si arrebatadamente: e os seus labios ficaram collados muito tempo, em silencio, completando, n'uma emoção nova e quasi virginal, a communhão perfeita das suas almas.



D'ahi a dias Carlos e Ega vinham n'uma victoria, pela estrada dos Olivaes, em caminho da Toca.

Toda essa manhã, no Ramalhete, Carlos estivera emfim contando ao Ega o impulso de paixão que o lançára de novo e para sempre, como esposo, nos braços de Maria; e, na confiança absoluta que o prendia ao Ega, revelára-lhe mesmo miudamente a historia d'ella, dolorosa e justificadora. Depois, ao acalmar o calor, propoz que fossem comer as sopas á Toca. Ega deu uma volta pelo quarto, hesitando. Por fim começou a passar devagar a escova pelo paletot, murmurando, como durante as longas confidencias de Carlos: «É prodigioso!... Que estranha coisa, a vida!»

E agora pela estrada, na aragem dôce do rio, Carlos fallava ainda de Maria, da vida na Toca, deixando escapar do coração muito cheio o interminavel cantico da sua felicidade.

—É facto, Egasinho, conheço quasi a felicidade perfeita!

—E cá na Toca ainda ninguem sabe nada?

Ninguem—a não ser Melanie, a confidente—suspeitava a profunda alteração que se fizera nas suas relações: e tinham assentado que miss Sarah e o Domingos, primeiras testemunhas da sua amizade, seriam régiamente recompensados e despedidos quando em fins de outubro elles partissem para Italia.

—E ides então casar a Roma?...

—Sim... Em qualquer logar onde haja um altar e uma estola. Isso não falta em Italia... E é então, Ega, que reapparece o espinho de toda esta felicidade. É por isso que eu disse «quasi.» O terrivel espinho, o avô!

—É verdade, o velho Affonso. Tu não tens idéa como lhe has de fazer conhecer esse caso?...

Carlos não tinha idéa nenhuma. Sentia só que lhe faltava absolutamente a coragem de dizer ao avô: «esta mulher, com quem vou casar, teve na sua vida estes erros»... E além d'isso, já reflectira, era inutil. O avô nunca comprehenderia os motivos complicados, fataes, inilludiveis que tinham arrastado Maria. Se lh'os contasse miudamente—o avô veria alli um romance confuso e fragil, antipathico á sua natureza forte e candida. A fealdade das culpas feril-o-hia, exclusivamente; e não lhe deixaria apreciar, com serenidade, a irresistibilidade das causas. Para perceber este caso d'um caracter nobre apanhado dentro d'uma implacavel rede de fatalidades, seria necessario um espirito mais ductil, mais mundano que o do avô... O velho Affonso era um bloco de granito: não se podiam esperar d'elle as subtis discriminações d'um casuista moderno. Da existencia de Maria só veria o facto tangivel:—cahira successivamente nos braços de dois homens. E d'ahi decorreria toda a sua attitude de chefe de familia. Para que havia elle pois de fazer ao velho uma confissão, que necessariamente originaria um conflicto de sentimentos e uma irreparavel separação domestica?...

—Pois não te parece, Ega?

—Falla mais baixo, olha o cocheiro.

—Não percebe bem o portuguez, sobretudo o nosso estylo... Pois não te parece?

Ega raspava phosphoros na sola para accender o charuto. E resmungava:

—Sim, o velho Affonso é granitico...

Por isso Carlos concebera outro plano, mais sagaz: consistia em esconder ao avô o passado de Maria—e fazer-lhe conhecer a pessoa de Maria. Casavam secretamente em Italia. Regressavam: ella para a rua de S. Francisco, elle filialmente para o Ramalhete. Depois Carlos levava o avô a casa da sua boa amiga, que conhecera em Italia, M.me de Mac-Gren. Para o prender logo lá estavam os encantos de Maria, todas as graças d'um interior delicado e sério, jantarinhos perfeitos, idéas justas, Chopin, Beethoven, etc. E, para completar a conquista de quem tão enternecidamente adorava crianças, lá estava Rosa... Emfim, quando o avô estivesse namorado de Maria, da pequena, de tudo—elle, uma manhã, dizia-lhe francamente: «Esta creatura superior e adoravel teve uma quéda no seu passado; mas eu casei com ella; e, sendo tal como é, não fiz bem, apesar de tudo, em a escolher para minha esposa?» E o avô, perante esta terrivel irremediabilidade do facto consummado, com toda a sua indulgencia de velho enternecido a defender Maria—seria o primeiro a pensar que, se esse casamento não era o melhor segundo as regras do mundo, era decerto o melhor segundo os interesses do coração...

—Pois não te parece, Ega?

Ega, absorvido, sacudia a cinza do charuto. E pensava que Carlos, em resumo, adoptára para com o avô a complicada combinação que Maria Eduarda tentára para com elle—e imitava sem o sentir os subtis raciocinios d'ella.

—E acabou-se, continuava Carlos. Se elle na sua indulgencia aceitar tudo, bravo! dá-se uma grande festa no Ramalhete... Senão, foi-se! passaremos a viver cada um para seu lado, fazendo ambos prevalecer a superioridade de duas coisas excellentes: o avô as tradições do sangue, eu os direitos do coração.

E, vendo o Ega ainda silencioso:

—Que te parece? Dize lá. Tu andas tão falto de idéas, homem!

O outro sacudiu a cabeça, como despertando.

—Queres que te diga o que me parece, com franqueza? Que diabo, nós somos dois homens fallando como homens!... Então aqui está: teu avô tem quasi oitenta annos, tu tens vinte e sete ou o quer que seja... É doloroso dizel-o, ninguem o diz com mais dôr que eu, mas teu avô ha de morrer... Pois bem, espera até lá. Não cases. Suppõe que ella tem um pae muito velho, teimoso e caturra, que detesta o snr. Carlos da Maia e a sua barba em bico. Espera; continúa a vir á Toca, na tipoia do Mulato; e deixa teu avô acabar a sua velhice calma, sem desillusões e sem desgostos...

Carlos torcia o bigode, mudo, enterrado no fundo da victoria. Nunca, n'esses dias de inquietação, lhe acudira idéa tão sensata, tão facil! Sim, era isso, esperar! Que melhor dever do que poupar ao pobre avô toda a dôr?... Maria de certo, como mulher, estava desejando anciosamente a conversão do amante no marido pelo laço d'estola que tudo purifica e nenhuma força desata. Mas ella mesma preferiria uma consagração legal—que não fosse assim precipitada, dissimulada... Depois, tão recta e generosa, comprehenderia bem a obrigação suprema de não mortificar aquelle santo velho. De resto, não conhecia ella a sua lealdade solida e pura como um diamante? Recebera a sua palavra: desde esse momento estavam casados, não diante do sacrario e nos registos da sacristia—mas diante da honra e na inabalavel communhão dos seus corações...

—Tens razão! gritou por fim, batendo no joelho do Ega. Tens immensamente razão! Essa idéa é genial! Devo esperar... E emquanto espero?...

—Como, emquanto esperas? acudiu Ega, rindo. Que diabo! Isso não é commigo!

E mais sério:

—Emquanto esperas tens esse metal vil que faz a existencia nobre. Installas tua mulher, porque desde hoje é tua mulher, aqui nos Olivaes ou n'outro sitio, com o gosto, o conforto e a dignidade que competem a tua mulher... E deixas-te ir! Nada impede que façaes essa viagem nupcial á Italia... Voltas, continúas a fumar a tua cigarette e a deixar-te ir. Este é o bom senso: é assim que pensaria o grande Sancho Pansa... Que diabo tens tu n'aquelle embrulho que cheira tão bem?

—Um ananaz... Pois é isso, querido: esperar, deixar-me ir. É uma idéa!

Uma idéa! e a mais grata ao temperamento de Carlos. Para que iria com effeito enredar-se n'uma meada de amarguras domesticas, por um excesso de cavalheirismo romantico? Maria confiava n'elle; era rico, era moço; o mundo abria-se ante elles facil e cheio de indulgencias. Não tinha senão a deixar-se ir.

—Tens razão, Ega! E Maria é a primeira a achar isto cheio de senso e d'opportunismo. Eu tenho uma certa pena em adiar a installação da minha vida e do meu home. Mas, acabou-se! Antes de tudo que o avô seja feliz... E para celebrar o advento d'esta idéa, Deus queira que Maria nos tenha um bom jantar!

Agora, ao aproximar-se da Toca, Ega ia receando o primeiro encontro com Maria Eduarda. Incommodava-o esse enleio, esse rubor que ella não poderia occultar—certa que, como confidente de Carlos, elle conhecia a sua vida, as suas miserias, as suas relações com Castro Gomes. Por isso hesitára em vir á Toca. Mas tambem, não apparecer mais a Maria Eduarda seria marcar com um relevo quasi offensivo o desejo caridoso de não molestar o seu pudor... Por isso decidira «dar o mergulho d'uma vez». Quem, senão elle, deveria ser o mais apressado em estender a mão á noiva de Carlos?... Além d'isso tinha uma infinita curiosidade de vêr no seu interior, á sua mesa, essa creatura tão bella, com a sua graça nobre de Deusa moderna! Mas saltou da victoria muito embaraçado.

Por fim tudo se passou com uma facilidade risonha. Maria bordava, sentada nos degraus do jardim. Teve um sobresalto, córou toda, com effeito, ao avistar o Ega que procurava atarantadamente o monoculo: o aperto de mão que trocaram foi mudo e timido: mas Carlos, alegremente, desembrulhára o ananaz—e na admiração d'elle todo o constrangimento se dissipou.

—Oh! é magnifico!

—Que côr, que luxo de tons!

—E que aroma! Veio perfumando toda a estrada.

Ega não voltára á Toca desde a noite fatal da soirée dos Cohens em que elle alli tanto bebera e delirára tanto. E lembrou logo a Carlos a jornada na velha traquitana, debaixo d'um temporal, o grog do Craft, a ceia de perú...

—Já aqui soffri muito, minha senhora, vestido de Mephistopheles!...

—Por causa de Margarida?

—Por quem se ha de soffrer n'este apaixonado mundo, minha senhora, senão por Margarida ou por Fausto?

Mas Carlos quiz que elle admirasse os esplendores novos da Toca. E foi já com familiaridade que Maria o levou pelas salas, lamentando que só viesse assim á Toca no fim do verão e no fim das flôres. Ega extasiou-se ruidosamente. Emfim, perdera a Toca o seu ar regelado e triste de museu! Já alli se podia palrar livremente!

—Isto é um barbaro, Maria! exclamava Carlos radiante. Tem horror á arte! É um Ibero, é um Semita...

Semita? Ega prezava-se de ser um luminoso Aryano! E por isso mesmo não podia viver n'uma casa, em que cada cadeira tinha a solemnidade sorumbatica de antepassados com cabelleira...

—Mas, dizia Maria rindo, rodas estas lindas coisas do seculo dezoito lembram antes a ligeireza, o espirito, a graça de maneiras...

—V. exc.a acha? acudiu Ega. A mim todos esses dourados, esses enramalhetados, esses rococós lembram-me uma vivacidade estouvada e sirigaita... Nada! nós vivemos n'uma Democracia! E não ha para exprimir a alegria simples, sólida e bonacheirona da Democracia, como largas poltronas de marroquim, e o mogno envernizado!...

Assim n'uma risonha, ligeira discussão sobre bric-à-brac, desceram ao jardim.

Miss Sarah passeava entre o buxo, de olhos baixos, com um livro fechado na mão. Ega, que conhecia já os seus ardores nocturnos, cravou-lhe sôfregamente o monoculo; e emquanto Maria se abaixára a cortar um geranio, exprimiu a Carlos n'um gesto mudo a sua admiração por aquelle beicinho escarlate, aquelle seiosinho redondo de rola farta... Depois, ao fundo, junto do caramanchão, encontraram Rosa que se balouçava. Ega pareceu deslumbrado com a sua belleza, a sua frescura mate de camelia branca. Pediu-lhe um beijo. Ella exigiu primeiro, muito séria, que elle tirasse o vidro do olho.

—Mas é para te vêr melhor! é para te vêr melhor!...

—Então porque não trazes um em cada olho? Assim só me vês metade...

Encantadora! encantadora! murmurava Ega. No fundo achava a pequena espevitada e impudente. Maria resplandecia.

E o jantar alargou mais esta intimidade risonha. Carlos, logo á sopa, fallando-se de campo e d'um chalet que elle desejava construir em Cintra, nos Capuchos, dissera—«quando nos casarmos». E Ega alludiu a esse futuro do modo mais grato ao coração de Maria. Agora que Carlos se installava para sempre n'uma felicidade estavel (dizia elle) era necessario trabalhar! E relembrou então a sua velha idéa do Cenaculo, representado por uma Revista que dirigisse a litteratura, educasse o gosto, elevasse a politica, fizesse a civilisação, remoçasse o carunchoso Portugal... Carlos, pelo seu espirito, pela sua fortuna (até pela sua figura, ajuntava o Ega rindo) devia tomar a direcção d'este movimento. E que profunda alegria para o velho Affonso da Maia!

Maria escutava, presa e séria. Sentia bem quanto Carlos, com uma vida toda de intelligencia e de actividade, rehabilitaria supremamente aquella união mostrando-lhe a influencia fecunda e purificadora.

—Tem razão, tem bem razão! exclamava ella com ardor.

—Sem contar, acrescentava o Ega, que o paiz precisa de nós! Como muito bem diz o nosso querido e imbecilissimo Gouvarinho, o paiz não tem pessoal... Como ha de tel-o, se nós, que possuimos as aptidões, nos contentamos em governar os nossos dog-carts e escrever a vida intima dos atomos? Sou eu, minha senhora, sou eu que ando a escrever essa biographia d'um atomo!... No fim, este dilettantismo é absurdo. Clamamos por ahi, em botequins e livros, «que o paiz é uma choldra». Mas que diabo! Porque é que não trabalhamos para o refundir, o refazer ao nosso gosto e pelo molde perfeito das nossas idéas?... V. exc.a não conhece este paiz, minha senhora. É admiravel! É uma pouca de cera inerte de primeira qualidade. A questão toda está em quem a trabalha. Até aqui a cera tem estado em mãos brutas, banaes, toscas, reles, rotineiras... É necessario pôl-a em mãos d'artistas, nas nossas. Vamos fazer d'isto um bijou!...

Carlos ria, preparando n'uma travessa o ananaz com sumo de laranja e vinho da Madeira. Mas Maria não queria que elle risse. A idéa do Ega parecia-lhe superior, inspirada n'um alto dever. Quasi tinha remorsos, dizia ella, d'aquella preguiça de Carlos. E agora, que ia ser cercado de affeição serena, queria-o vêr trabalhar, mostrar-se, dominar...

—Com effeito, disse o Ega recostado e sorrindo, a era do romance findou. E agora...

Mas o Domingos servia o ananaz. E o Ega provou e rompeu em clamores de enthusiasmo. Oh que maravilha! Oh que delicia!

—Como fazes tu isto? Com Madeira...

—E genio! exclamou Carlos. Delicioso, não é verdade? Ora digam-me se tudo o que eu pudesse fazer pela civilisação valeria este prato de ananaz! É para estas coisas que eu vivo! Eu não nasci para fazer civilisação...

—Nasceste, acudiu o Ega, para colher as flôres d'essa planta da civilisação que a multidão rega com o seu suor! No fundo tambem eu, menino!

Não, não! Maria não queria que fallassem assim!

—Esses ditos estragam tudo. E o snr. Ega, em logar de corromper Carlos, devia inspiral-o...

Ega protestou requebrando o olho, já languido. Se Carlos necessitava uma musa inspiradora e benefica—não podia ser elle, bicho com barbas e bacharel em leis... A musa estava toute trouvée!

—Ah, com effeito!... Quantas paginas bellas, quantas nobres idéas se não podem produzir n'um paraiso d'estes!...

E o seu gesto molle e acariciador indicava a Toca, a quietação dos arvoredos, a belleza de Maria. Depois na sala, emquanto Maria tocava um nocturno de Chopin e Carlos e elle acabavam os charutos á porta do jardim vendo nascer a lua—Ega declarou que, desde o começo do jantar, estava com idéas de casar!... Realmente não havia nada como o casamento, o interior, o ninho...

—Quando penso, menino, murmurou elle mordendo sombriamente o charuto, que quasi todo um anno da minha vida foi dado áquella israelita devassa que gosta de levar bordoada...

—Que faz ella em Cintra? perguntou Carlos.

—Ensopa-se na crapula. Não ha a menor duvida que dá todo o seu coração ao Damaso... Tu sabes o que n'estes casos significa o termo coração... Viste já immundicie igual? É simplesmente obscena!

—E tu adóral-a, disse Carlos.

O outro não respondeu. Depois, dentro, n'um odio repentino da bohemia e do romantismo, entoou louvores sonoros á familia, ao trabalho, aos altos deveres humanos—bebendo copinhos de cognac. Á meia noite, ao sahir, tropeçou duas vezes na rua d'acacias, já vago, citando Proudhon. E quando Carlos o ajudou a subir para a victoria, que elle quiz descoberta para ir communicando com a lua, Ega ainda lhe agarrou o braço para lhe fallar da Revista, d'um forte vento de espiritualidade e de virtude viril que se devia fazer soprar sobre o paiz... Por fim, já estirado no assento, tirando o chapéo á aragem da noite:

—E outra coisa, Carlinhos. Vê se me arranjas ingleza... Ha vicios deliciosos n'aquellas pestanas baixas... Vê se m'a arranjas... Vá lá, bate lá, cocheiro! Caramba, que belleza de noite!



Carlos ficára encantado com este primeiro jantar d'amizade na Toca. Elle tencionava não apresentar Maria aos seus intimos senão depois de casado e á volta de Italia. Mas agora a «união legal» estava já no seu pensamento adiada, remota, quasi dispersa no vago. Como dizia o Ega, devia esperar, deixar-se ir... E no emtanto, Maria e elle não poderiam isolar-se alli todo um longo inverno, sem o calor sociavel d'alguns amigos em redor. Por isso uma manhã, encontrando o Cruges, que fôra o visinho de Maria e outr'ora lhe dava noticias da «lady ingleza», pediu-lhe para vir jantar á Toca no domingo.

O maestro appareceu n'uma tipoia, á tardinha, de laço branco e de casaca: e os fatos claros de campo com que encontrou Carlos e Ega começaram logo a enchel-o de mal-estar. Toda a mulher, além das Lolas e Conchas, o atarantava, o emmudecia: Maria, «com o seu porte de grande-dame», como elle dizia, intimidou-o a tal ponto que ficou diante d'ella, sem uma palavra, escarlate, torcendo o forro das algibeiras. Antes de jantar, por lembrança de Carlos, foram-lhe mostrar a quinta. O pobre maestro, roçando a casaca mal feita pela folhagem dos arbustos, fazia esforços anciosos por murmurar algum elogio «á belleza do sitio»; mas escapavam-lhe então inexplicavelmente coisas reles, em calão: «vista catita»! «é pitada»! Depois ficava furioso, coberto de suor, sem comprehender como se lhe babavam dos labios esses ditos abominaveis, tão contrarios ao seu gosto fino d'artista. Quando se sentou á mesa soffria um negrissimo accesso de spleen e mudez! Nem uma controversia que Maria arranjára caridosamente para elle sobre Wagner e Verdi pôde descerrar-lhe os labios empedernidos. Carlos ainda tentou envolvel-o na alegria da mesa—contando a ida a Cintra, quando elle procurava Maria na Lawrence, e em vez d'ella achára uma matrona obesa, de bigode, de cãosinho ao collo, ralhando com o homem em hespanhol. Mas a cada exclamação de Carlos—«Lembras-te, Cruges?», «Não é verdade, Cruges?»—o maestro, rubro, grunhia apenas um sim avaro. Terminou por estar alli, ao lado de Maria, como um trambolho funebre. Estragou o jantar.

Combinára-se para depois do café um passeio pelos arredores, n'um break. E Carlos já tomára as guias, Maria na almofada acabava de abotoar as luvas—quando Ega, que receava a friagem da tarde, saltou do break, correu a buscar o paletot. N'esse mesmo momento sentiram um trote de cavallo na estrada—e appareceu o marquez.

Foi uma surpreza para Carlos, que o não vira durante esse verão. O marquez parou logo, tirando profundamente, ao vêr Maria, o seu largo chapéo desabado.

—Imaginava-o pela Gollegã! exclamou Carlos. Foi até o Cruges que me disse... Quando chegou vossê?

Chegára na vespera. Lá fôra ao Ramalhete; tudo deserto. Agora vinha aos Olivaes vêr um dos Vargas que tinha casado, se installára alli perto, a passar o noivado...

—Quem, o gordo, o das corridas?

—Não, o magro, o das regatas.

Carlos, debruçado da almofada, examinava a egoasita do marquez, pequena, bem estampada, d'um baio escuro e bonito.

—Isso é novo?

—Uma facasita do Darque... Quer-m'a vossê comprar? Sou já um pouco pesado para ella, e isto mette-se a um dog-cart...

—Dê lá uma volta.

O marquez deu a volta, bem posto na sella, avantajando a egoa. Carlos achou-lhe «boas acções». Maria murmurou—«Muito bonita, uma cabeça fina...» Então Carlos apresentou o marquez de Souzella a madame Mac-Gren. Elle chegou a egoa á roda, descoberto, para apertar a mão a Maria: e á espera do Ega que se eternisava lá dentro, ficaram fallando do verão, de Santa Olavia, dos Olivaes, da Toca... Ha que tempos o marquez alli não passava! A ultima vez fôra victima da excentricidade do Craft...

—Imagine v. exc.a, disse elle a Maria Eduarda, que esse Craft me convida a almoçar. Venho, e o hortelão diz-me que o snr. Craft, criado e cozinheiro, tudo partira para o Porto; mas que o snr. Craft deixára um cartaz na sala... Vou á sala, e vejo dependurado ao pescoço d'um idolo japonez uma folha de papel com estas palavras pouco mais ou menos: «O deus Tchi tem a honra de convidar o snr. marquez, em nome de seu amo ausente, a passar á sala de jantar onde encontrará, n'um aparador, queijo e vinho, que é o almoço que basta ao homem forte.» E foi com effeito o meu almoço... Para não estar só, partilhei-o com o hortelão.

—Espero que se tivesse vingado! exclamou Maria rindo.

—Póde crêr, minha senhora... Convidei-o a jantar, e quando elle appareceu, vindo d'aqui da Toca, o meu guarda-portão disse-lhe que o snr. marquez fôra para longe, e que não havia nem pão nem queijo... Resultado: o Craft mandou-me uma duzia de magnificas garrafas de Chambertin. Esse deus Tchi nunca mais o tornei a vêr...

O deus Tchi lá estava, obeso e medonho. E, muito naturalmente, Carlos convidou o marquez a revisitar n'essa noite, á volta da casa do Vargas, o seu velho amigo Tchi.

O marquez veio, ás dez horas—e foi um serão encantador. Conseguiu sacudir logo a melancolia do Cruges, arrastando-o com mão de ferro para o piano; Maria cantou; palrou-se com graça; e aquelle escondrijo d'amor ficou alumiado até tarde, na sua primeira festa de amizade.

Estas reuniões alegres foram ao principio, como dizia o Ega, dominicaes: mas o outono arrefecia, bem depressa se despiriam as arvores da Toca, e Carlos accumulou-as duas vezes por semana, nos velhos dias feriados da Universidade, domingos e quintas. Tinha descoberto uma admiravel cozinheira alsaciana, educada nas grandes tradições, que servira o bispo de Strasburgo, e a quem as extravagancias d'um filho e outras desgraças tinham arrojado a Lisboa. Maria, de resto, punha na composição dos seus jantares uma sciencia delicada: o dia de vir á Toca era considerado pelo marquez «dia de civilisação».

A mesa resplandecia; e as tapeçarias representando massas d'arvoredos punham em redor como a sombra escura d'um retiro silvestre onde por um capricho se tivessem accendido candelabros de prata. Os vinhos sahiam da frasqueira preciosa do Ramalhete. De todas as coisas da terra e do céo se grulhava com phantasia—menos de «politica portugueza», considerada conversa indecorosa entre pessoas de gosto.

Rosa apparecia ao café, exhalando do seu sorriso, dos bracinhos nús, dos vestidos brancos tufados sobre as meias de sêda preta, um bom aroma de flôr. O marquez adorava-a, disputando-a ao Ega, que a pedira a Maria em casamento e lhe andava compondo havia tempo um soneto. Ella preferia o marquez: achava o Ega «muito...»—e completava o seu pensamento com um gestosinho do dedo ondeado no ar, como a exprimir que o Ega «era muito retorcido».

—Ahi está! exclamava elle. Porque eu sou mais civilisado que o outro! É a simplicidade não comprehendendo o requinte.

—Não, desgraçado! exclamavam do lado. É porque és impresso!... É a natureza repellindo a convenção!...

Bebia-se á saude de Maria: ella sorria, feliz entre os seus novos amigos, divinamente bella, quasi sempre de escuro, com um curto decote onde resplandecia o incomparavel esplendor do seu collo.

Depois organisaram-se solemnidades. N'um domingo, em que os sinos repicavam e a distancia foguetes esfuziavam no ar—Ega lamentou que os seus austeros principios philosophicos o impedissem de festejar tambem aquelle santo d'aldeia, que fôra decerto em vida um caturra encantador, cheio d'illusões e doçura... Mas de resto, acrescentou, não teria sido n'um dia assim, fino e secco, sob um grande céo cheio de sol, que se feriu a batalha das Thermopylas? Porque não se atiraria uma girandola de foguetes em honra de Leonidas e dos trezentos? E atirou-se a girandola pela eterna gloria de Sparta.

Depois celebraram-se outras datas historicas. O anniversario da descoberta da Venus de Milo foi commemorado com um balão que ardeu. N'outra occasião o marquez trouxe de Lisboa, apinhados n'uma tipoia, fadistas famosos, o Pintado, o Vira-vira e o Gago: e depois de jantar, até tarde, com o luar sobre o rio, cinco guitarras choraram os ais mais tristes dos fados de Portugal.

Quando estavam sós, Carlos e Maria passavam as suas manhãs no kiosque japonez—affeiçoados áquelle primeiro retiro dos seus amores, pequeno e apertado, onde os seus corações batiam mais perto um do outro. Em logar das esteiras de palha Carlos revestira-o com as suas formosas colchas da India, côr de palha e côr de perola. Um dos maiores cuidados d'elle, agora, era embellezar a Toca: nunca voltava de Lisboa sem trazer alguma figurinha de Saxe, um marfim, uma faiança, como noivo feliz que aperfeiçôa o seu ninho.

Maria no emtanto não cessava de lembrar os planos intellectuaes do Ega: queria que elle trabalhasse, ganhasse um nome: seria isso o orgulho intimo d'ella, e sobretudo a alegria suprema do avô. Para a contentar (mais que para satisfazer as suas necessidades de espirito) Carlos recomeçára a compôr alguns dos seus artigos de medicina litteraria para a Gazeta Medica. Trabalhava no kiosque, de manhã. Trouxera para lá rascunhos, livros, o seu famoso manuscripto da Medicina antiga e moderna. E por fim achára um grande encanto em estar alli, com um leve casaco de sêda, as suas cigarettes ao lado, um fresco murmurio de arvoredo em redor—cinzelando as suas phrases, emquanto ella ao lado bordava silenciosa. As suas idéas surgiam com mais originalidade, a sua fórma ganhava em colorido, n'aquelle estreito kiosque assetinado que ella perfumava com a sua presença. Maria respeitava este trabalho como coisa nobre e sagrada. De manhã, ella mesma espanejava os livros do leve pó que a aragem soprava pela janella; dispunha o papel branco, punha cuidadosamente pennas novas; e andava bordando uma almofada de pennas e setim para que o trabalhador estivesse mais confortavel na sua vasta cadeira de couro lavrado.

Um dia offerecera-se a passar a limpo um artigo. Carlos, enthusiasmado com a letra d'ella, quasi comparavel á lendaria letra do Damaso, occupava-a agora incessantemente como copista, sentindo mais amor por um trabalho a que ella se associava. Quantos cuidados se dava a dôce creatura! Tinha para isso um papel especial, d'um tom macio de marfim: e, com o dedinho no ar, ia desenrolando as pesadas considerações de Carlos sobre o Vitalismo e o Transformismo na graça delicada d'uma renda... Um beijo pagava-a de tudo.

Ás vezes Carlos dava lições a Rosa—ora de historia, contando-lh'a familiarmente como um conto de fadas; ora de geographia, interessando-a pelas terras onde vivem gentes negras, e pelos velhos rios que correm entre as ruinas dos santuarios. Isto era o prazer mais alto de Maria. Séria, muda, cheia de religião, escutava aquelle sêr bem-amado ensinando sua filha. Deixava escapar das mãos o trabalho—e o interesse de Carlos, a enlevada attenção de Rosa sentada aos pés d'elle, bebendo aquellas bellas historias de Joanna d'Arc ou das caravellas que foram á India, fazia resplandecer nos seus olhos uma nevoa de lagrimas felizes...



Desde o meado d'outubro Affonso da Maia fallava da sua partida de Santa Olavia, retardada apenas por algumas obras que começára na parte velha da casa e nas cocheiras: porque ultimamente invadira-o a paixão de edificar—sentindo-se remoçar, como elle dizia, no contacto das madeiras novas e no cheiro vivo das tintas. Carlos e Maria pensavam tambem em abandonar os Olivaes. Carlos não poderia por dever domestico permanecer alli installado desde que o avô recolhesse ao Ramalhete. Além d'isso aquelle fim d'outono ia escuro e agreste; e a Toca era agora pouco bucolica, com a quinta desfolhada e alagada, uma nevoa sobre o rio, e um fogão unico no gabinete de cretones—além da sumptuosa chaminé da sala de jantar, que, por entre os seus Nubios d'olhos de crystal, soltava uma fumaraça odiosa quando o Domingos a tentava accender.

N'uma d'essas manhãs, Carlos, que ficára até tarde com Maria, e depois no seu delgado casebre mal pudera dormir com um temporal de vento e agua desencadeado de madrugada—ergueu-se ás nove horas, veio á Toca. As janellas do quarto de Maria conservavam-se ainda cerradas; a manhã clareára; a quinta lavada, meio despida, no ar fino e azul, tinha uma linda e silenciosa graça d'inverno. Carlos passeava, olhando os vasos onde os chrysanthemos floriam, quando retiniu a sineta do portão. Era o toque do carteiro. Justamente elle escrevera dias antes ao Cruges, perguntando se estaria desoccupado para os primeiros frios de dezembro o andar da rua de S. Francisco: e, esperando carta do maestro, foi abrir, acompanhado por Niniche. Mas o correio, n'essa manhã, consistia apenas n'uma carta do Ega e dois numeros de jornal cintados—um para elle, outro para «Madame Castro Gomes, na quinta do snr. Craft, aos Olivaes».

Caminhando sob as acacias, Carlos abriu a carta do Ega. Era da vespera, com a data «á noite, á pressa». E dizia: «—Lê, n'esse trapo que te mando, esse superior pedaço de prosa que lembra Tacito. Mas não te assustes; eu supprimi, mediante pecunia, toda a tiragem, com excepção de dois numeros mais que foram, um para a Toca, outro (oh logica suprema dos habitos constitucionaes!) para o Paço, para o chefe do Estado!... Mas esse mesmo não chegará ao seu destino. Em todo o caso desconfio de que esgôto sahiu esse enxurro e precisamos providenciar! Vem já! Espero-te até ás duas. E, como Iago dizia a Cassio—mette dinheiro na bolsa

Inquieto, Carlos descintou o jornal. Chamava-se a Corneta do Diabo: e na impressão, no papel, na abundancia dos italicos, no typo gasto, todo elle revelava immundicie e malandrice. Logo na primeira pagina duas cruzes a lapis marcavam um artigo que Carlos, n'um relance, viu salpicado com o seu nome. E leu isto: «—Ora viva, Maia! Então já se não vai ao consultorio, nem se vêem os doentes do bairro, janota?—Esta piada era botada no Chiado, á porta da Havaneza, ao Maia, ao Maia dos cavallos inglezes, um tal Maia do Ramalhete, que abarrota por ahi de catita; e o pai Paulino que tem olho e que passava n'essa occasião ouviu a seguinte cornetada:—É que o Maia acha que é mais quente viver nas fraldas d'uma brazileira casada, que nem é brazileira nem é casada, e a quem o papalvo poz casa, ahi para o lado dos Olivaes, para estar ao fresco! Sempre os ha n'este mundo!... Pensa o homem que botou conquista; e cá a rapaziada de gosto ri-se, porque o que a gaja lhe quer não são os lindos olhos, são as lindas louras... O simplorio, que bate ahi pilecas bifes, que nem que fosse o marquez, o verdadeiro Marquez, imaginava que se estava abiscoitando com uma senhora do chic, e do boulevard de Paris, e casada, e titular!... E no fim (não, esta é para a gente deixar estoirar o bandulho a rir!) no fim descobre-se que a typa era uma cocotte safada, que trouxe para ahi um brazileiro já farto d'ella para a passar cá aos bellos lusitanos... E cahiu a espiga ao Maia! Pobre palerma! Ainda assim o Maia só apanhou os restos d'outro, porque a typa, já antes d'elle se enfeitar, tinha pandegado á larga, ahi para a rua de S. Francisco, com um rapaz da fina, que se safou tambem, porque cá como nós só aprecia a bella hespanhola. Mas não obsta a que o Maia seja traste!—Pois se assim é, dissemos nós, cautelinha, porque o diabo cá tem a sua Corneta preparada para cornetear por esse mundo as façanhas do Maia das conquistas. Ora viva, Maia!»

Carlos ficou immovel entre as acacias, com o jornal na mão, no espanto furioso e mudo d'um homem que subitamente recebe na face uma grossa chapada de lôdo! Não era a cólera de vêr o seu amor assim aviltado na publicidade chula d'um jornal sordido: era o horror de sentir aquellas phrases em calão, pandilhas, afadistadas, como só Lisboa as póde crear, pingando fetidamente, á maneira de sebo, sobre si, sobre Maria, sobre o esplendor da sua paixão... Sentia-se todo emporcalhado. E uma unica idéa surgia através da sua confusão—matar o bruto que escrevera aquillo.

Matal-o! Ega sustára a tiragem da folha, Ega pois conhecia o folliculario. Nada importava que aquelles numeros, que tinha na mão, fossem os unicos impressos. Recebera lama na face. Que a injuria fosse espalhada nas praças n'uma profusa publicidade ou lhe fosse atirada só a elle escondidamente n'um papel unico, era igual... Quem tanto ousára tinha de cahir, esmagado!

Decidiu ir logo ao Ramalhete. O Domingos á janella da cozinha areava pratas, assobiando. Mas quando Carlos lhe fallou de ir buscar um calhambeque aos Olivaes, o bom Domingos consultou o relogio:

—V. exc.a tem ás onze horas a caleche do Torto que a senhora mandou cá estar para ir a Lisboa...

Carlos, com effeito, recordou-se que Maria na vespera planeára ir á Aline e aos livreiros. Uma contrariedade, justamente n'esse dia em que elle precisava ficar livre—elle e a sua bengala! Mas Melanie, passando então com um jarro d'agua quente, disse que a senhora ainda se não vestira, que talvez nem fosse a Lisboa... E Carlos recomeçou a passear, no tapete de relva, entre as nogueiras.

Sentou-se por fim no banco de cortiça, descintou a Corneta sobrescriptada para Maria, releu lentamente a prosa immunda: e, n'esse numero que lhe fôra destinado a ella, todo aquelle calão lhe pareceu mais ultrajante, intoleravel, punivel só com sangue. Era monstruoso, na verdade, que sobre uma mulher, quieta, innoffensiva no silencio da sua casa, alguem ousasse tão brutalmente arremessar esse lôdo ás mãos cheias! E a sua indignação alargava-se do folliculario que babára aquillo—até á sociedade que, na sua decomposição, produzira o folliculario. Decerto toda a cidade soffria a sua vermina... Mas só Lisboa, só a horrivel Lisboa, com o seu apodrecimento moral, o seu rebaixamento social, a perda inteira do bom-senso, o desvio profundo do bom gosto, a sua pulhice e o seu calão, podia produzir uma Corneta do Diabo.

E, no meio d'esta alta cólera de moralista, uma dôr perpassava, precisa e dilacerante. Sim, toda a sociedade de Lisboa fazia um monturo sordido n'este canto do mundo—mas, em summa, havia no artigo da Corneta uma calumnia? Não. Era o passado de Maria, que ella arrancára de si como um vestido rôto e sujo, que elle mesmo enterrára muito fundo, deitando-lhe por cima o seu amor e o seu nome—e que alguem desenterrava para o mostrar bem alto ao sol, com as suas manchas e os seus rasgões... E isto agora ameaçava para sempre a sua vida como um terror sobre ella suspenso. Debalde elle perdoára, debalde elle esquecera. O mundo em redor sabia. E a todo o tempo o interesse ou a perversidade poderiam refazer o artigo da Corneta.

Ergueu-se, abalado. E então alli, sob essas arvores desfolhadas, onde durante o verão, quando ellas se enchiam de sombra e de murmurio, elle passeára com Maria, esposa eleita da sua vida—Carlos perguntou pela vez primeira a si mesmo se a honra domestica, a honra social, a pureza dos homens de quem descendia, a dignidade dos homens que d'elle descendessem lhe permittiam em verdade casar com ella...

Dedicar-lhe toda a sua affeição, toda a sua fortuna, certamente! Mas casar... E se tivesse um filho? O seu filho, já homem, altivo e puro, poderia um dia lêr n'uma Corneta do Diabo que sua mãi fôra amante d'um brazileiro, depois de ser amante d'um irlandez. E se seu filho lhe viesse gritar, n'uma bella indignação, «é uma calumnia?»—elle teria de baixar a cabeça, murmurar—«é uma verdade!» E seu filho veria para sempre collada a si aquella mãi de quem o mundo ignorava os martyrios e os encantos—mas de quem conhecia cruelmente os erros.

E ella mesma! Se elle appellasse para a sua razão, alta e tão recta, mostrando-lhe as zombarias e as affrontas de que uma vil Corneta do Diabo poderia um dia trespassar o filho que d'elles nascesse—ella mesma o desligaria alegremente do seu voto, contente em entrar no Ramalhete pela escadinha secreta forrada de velludo côr de cereja, comtanto que em cima a esperasse um amor constante e forte... Nunca ella tornára, em todo o verão, a alludir a uma união differente d'essa em que os seus corações viviam tão lealmente, tão confortavelmente. Não, Maria não era uma devota, preoccupada «do peccado mortal»! Que lhe podia importar a estola banal do padre?...

Sim; mas elle que lhe pedira essa consagração na hora mais commovida do seu longo amor, iria dizer-lhe agora—«foi uma criancice, não pensemos mais n'isso, desculpa?» Não; nem o seu coração o desejava! Antes pendia todo para ella... Pendia todo para ella, n'um enternecimento mais generoso e mais quente—emquanto a sua razão assim arengava, cautelosa e austera. Elle tinha n'aquella alma o seu culto perfeito, n'aquelles braços a sua voluptuosidade magnifica; fóra d'alli não havia felicidade; a unica sabedoria era prender-se a ella pelo derradeiro elo, o mais forte, o seu nome, embora as Cornetas do Diabo atroassem todo o ar. E assim affrontaria o mundo n'uma soberba revolta, affirmando a omnipotencia, o reino unico da Paixão... Mas primeiro mataria o folliculario!—Passeava, esmagava a relva. E todos os seus pensamentos se resolviam por fim em furia contra o infame que babára sobre o seu amor, e durante um instante introduzia na sua vida tanta incerteza e tanto tormento!

Maria ao lado abriu a janella. Estava vestida d'escuro para sahir; e bastou o brilho terno do seu sorriso, aquelles hombros a que o estofo justo modelava a belleza cheia e quente—para que Carlos detestasse logo as duvidas desleaes e covardes, a que se abandonára um momento sob as arvores desfolhadas... Correu para ella. O beijo que lhe deu, lento e mudo, teve a humildade d'um perdão que se implora.

—Que tens tu, que estás tão sério?

Elle sorriu. Sério, no sentido de solemne, não estava. Talvez seccado. Recebera uma carta do Ega, uma das eternas complicações do Ega. E precisava ir a Lisboa, ficar lá naturalmente toda a noite...

—Toda a noite? exclamou ella com um desapontamento, pousando-lhe as mãos sobre os hombros.

—Sim, é bem possivel, um horror! Nos negocios do Ega ha fatalmente o inesperado... Tu com effeito vaes a Lisboa?

—Agora, com mais razão... Se me queres.

—O dia está bonito... Mas ha de fazer frio na estrada.

Maria justamente gostava d'esses dias d'inverno, cheios de sol, com um arzinho vivo e arripiado. Tornavam-n'a mais leve, mais esperta.

—Bem, bem, disse Carlos atirando o cigarro. Vamos ao almoço, minha filha... O pobre Ega deve estar a uivar de impaciencia.

Emquanto Maria correra a apressar o Domingos—Carlos, através da relva humida, foi ainda lentamente até ao renque baixo d'arbustos que d'aquelle lado fechava a Toca como uma sebe. Ahi a collina descia, com quintarolas, muros brancos, olivedos, uma grande chaminé de fabrica que fumegava: para além era o azul fino e frio do rio: depois os montes, d'um azul mais carregado, com a casaria branca da povoação aninhada á beira da agua, nitida e suave na transparencia do ar macio. Parou um momento, olhando. E aquella aldeia de que nunca soubera o nome, tão quieta e feliz na luz, deu a Carlos um desejo repentino de socego e de obscuridade, n'um canto assim do mundo, á beira d'agua, onde ninguem o conhecesse nem houvesse Cornetas do Diabo, e elle pudesse ter a paz d'um simples e d'um pobre debaixo de quatro telhas, no seio de quem amava...

Maria gritou por elle da janella da sala de jantar, onde se debruçára a apanhar uma das ultimas rosas trepadeiras que ainda floriam.

—Que lindo tempo para viajar, Maria!—disse Carlos chegando, através da relva.

—Lisboa é tambem muito linda, agora, havendo sol...

—Pois sim, mas o Chiado, a coscovilhice, os politiquetes, as gazetas, todos os horrores... A mim está-me positivamente a appetecer uma cubata na Africa!

O almoço, por fim, foi demorado. Ia bater uma hora quando a caleche do Torto começou a rolar na estrada, ainda encharcada da chuva da noite. Logo adiante da villa, na descida, cruzaram um coupé que trepava n'um trote esfalfado. Maria julgou avistar n'elle de relance o chapéo branco e o monoculo do Ega... Pararam. E era com effeito o Ega, que reconhecera tambem a caleche da Toca, vinha já saltitando as lamas com longas pernadas de cegonha, chamando por Carlos.

Ao vêr Maria ficou atrapalhado:

—Que bella surpreza! Eu ia para lá... Vi o dia tão bonito, disse commigo...

—Bem, paga a tua tipoia, vem comnosco! atalhou Carlos que trespassava o Ega, com os olhos inquietos, querendo adivinhar o motivo d'aquella brusca chegada aos Olivaes.

Quando entrou para a caleche, tendo pago o batedor, Ega, embaraçado, sem poder desabafar diante de Maria sobre o caso da Corneta, começou, sob os olhos de Carlos que o não deixavam, a fallar do inverno, das inundações do Riba-Tejo... Maria lêra. Uma desgraça, duas crianças afogadas nos berços, gados perdidos, uma grande miseria! Por fim Carlos não se conteve:

—Eu lá recebi a tua carta...

Ega acudiu:

—Arranja-se tudo! Está tudo combinado! E com effeito eu não vim senão por um sentimento bucolico...

Muito discretamente Maria olhára para o rio. Ega fez então um gesto rapido com os dedos significando «dinheiro, só questão de dinheiro». Carlos socegou: e Ega voltou a fallar dos inundados do Riba-Tejo e do sarau litterario e artistico que em beneficio d'elles se «ia commetter» no salão da Trindade... Era uma vasta solemnidade official. Tenores do parlamento, rouxinoes da litteratura, pianistas ornados com o habito de S. Thiago, todo o pessoal canoro e sentimental do constitucionalismo ia entrar em fogo. Os reis assistiam, já se teciam grinaldas de camelias para pendurar na sala. Elle, apesar de demagogo, fôra convidado para lêr um episodio das Memorias d'um Atomo: recusára-se, por modestia, por não encontrar nas Memorias nada tão sufficientemente palerma que agradasse á capital. Mas lembrára o Cruges; e o maestro ia ribombar ou arrulhar uma das suas Meditações. Além d'isso havia uma poesia social pelo Alencar. Emfim, tudo prenunciava uma immensa orgia...

—E a snr.a D. Maria, acrescentou elle, devia ir!... É summamente pittoresco. Tinha v. exc.a occasião de vêr todo o Portugal romantico e liberal, à la besogne, engravatado de branco, dando tudo que tem n'alma!

—Com effeito devias ir, disse Carlos, rindo. Demais a mais se o Cruges toca, se o Alencar recita, é uma festa nossa...

—Pois está claro! gritou Ega, procurando o monoculo, já excitado. Ha duas coisas que é necessario vêr em Lisboa... Uma procissão do Senhor dos Passos e um sarau poetico!

Rolavam então pelo largo do Pelourinho. Carlos gritou ao cocheiro que parasse no começo da rua do Alecrim: elles apeavam-se e tomavam de lá o americano para o Ramalhete.

Mas a tipoia estacou antes da calçada, rente ao passeio, em frente d'uma loja de alfaiate. E n'esse instante achava-se ahi parado, calçando as suas luvas pretas, um velho alto, de longas barbas d'apostolo, todo vestido de luto. Ao vêr Maria, que se inclinára á portinhola, o homem pareceu assombrado; depois, com uma leve côr na face larga e pallida, tirou gravemente o chapéo, um immenso chapéo de abas recurvas, á moda de 1830, carregado de crepe.

—Quem é? perguntou Carlos.

—É o tio do Damaso, o Guimarães, disse Maria, que córára tambem. É curioso, elle aqui!

Ah, sim! o famoso Mr. Guimarães, o do