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Os Maias: episodios da vida romantica

Chapter 29: VIII
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About This Book

The narrative follows three generations of an aristocratic family as they return to Lisbon, restore an ancestral house, and navigate society's salons, rivalries, and vanities. Through rich portraits and episodic scenes the work satirizes the complacency and moral emptiness of the urban elite, alternating comedy of manners with melancholy. A young heir's cosmopolitan education and passionate affair lead to a shocking personal discovery that precipitates disillusion and domestic collapse. Interlacing family history, social observation, and vivid set pieces, the novel examines legacy, hypocrisy, and the painful consequences of private desires colliding with public reputation.


—Vejam vocês, filhos, se se encontra ainda uma gente como estes Maias, almas de leões, generosos, valentes!... Tudo parece ir morrendo n'este desgraçado paiz!... Foi-se a faisca, foi-se a paixão... Affonso da Maia! Parece que o estou a vêr, á janella do palacio em Bemfica, com a sua grande gravata de setim, aquella cara nobre de portuguez d'outr'ora... E lá vai! E o meu pobre Pedro tambem... Caramba, até se me faz a alma negra!

Os olhos ennevoavam-se-lhe, deu um immenso sorvo ao cognac.

Ega, depois de beber um gole de café, voltára ao escriptorio, onde o cheiro d'incenso espalhava uma melancolia de capella. D. Diogo, estirado no sofá, resonava; Sequeira defronte dormitava tambem, descahido sobre os braços cruzados, com todo o sangue na face. Ega despertou-os de leve. Os dois velhos amigos, depois d'um abraço a Carlos, partiram na mesma carruagem, com os charutos accêsos. Os outros, pouco a pouco, iam tambem abraçar Carlos, enfiavam os paletots. O ultimo a sahir foi Alencar, que, no pateo, beijou o Ega, n'um impulso d'emoção, lamentando ainda o passado, os companheiros desapparecidos:

—O que me vale agora são vocês, rapazes, a gente nova. Não me deitem á margem! Senão, caramba, quando quizer fazer uma visita tenho d'ir ao cemiterio. Adeus, não apanhes frio!

O enterro foi ao outro dia, á uma hora. O Ega, o marquez, o Craft, o Sequeira levaram o caixão até á porta, seguidos pelo grupo d'amigos, onde destacava o conde de Gouvarinho, solemnissimo, de gran-cruz. O conde de Steinbroken, com o seu secretario, trazia na mão uma corôa de violetas. Na calçada estreita os trens apertavam-se, n'uma longa fila que subia, se perdia pelas outras ruas, pelas travessas: em todas as janellas do bairro se apinhava gente: os policias berravam com os cocheiros. Por fim o carro, muito simples, rodou, seguido por duas carruagens da casa, vazias, com as lanternas recobertas de longos véos de crepe que pendiam. Atraz, um a um, desfilaram os trens da Companhia com os convidados, que abotoavam os casacos, corriam os vidros contra a friagem do dia ennevoado. O Darque e o Vargas iam no mesmo coupé. O correio do Gouvarinho passou choutando na sua pileca branca. E, sobre a rua deserta, cerrou-se finalmente para um grande luto o portão do Ramalhete.

Quando Ega voltou do cemiterio encontrou Carlos no quarto, rasgando papeis, emquanto o Baptista, atarefado, de joelhos no tapete, fechava uma mala de couro. E como Ega, pallido e arrepiado de frio, esfregava as mãos, Carlos fechou a gaveta cheia de cartas, lembrou que fossem para o fumoir onde havia lume.

Apenas lá entraram, Carlos correu o reposteiro, olhou para o Ega:

—Tens duvida em lhe ir fallar, a ella?

—Não. Para que?... Para lhe dizer o que?

—Tudo.

Ega rolou uma poltrona para junto da chaminé, despertou as brazas. E Carlos, ao lado, proseguiu devagar, olhando o lume:

—Além d'isso, desejo que ella parta, que parta já para Paris... Seria absurdo ficar em Lisboa... Emquanto se não liquidar o que lhe pertence, ha-de-se-lhe estabelecer uma mezada, uma larga mezada... Villaça vem d'aqui a bocado para fallar d'esses detalhes... Em todo o caso, ámanhã, para ella partir, levas-lhe quinhentas libras.

Ega murmurou:

—Talvez para essas questões de dinheiro fosse melhor ir lá o Villaça...

—Não, pelo amor de Deus! Para que se ha de fazer córar a pobre creatura diante do Villaça?...

Houve um silencio. Ambos olhavam a chamma clara que bailava.

—Custa-te muito, não é verdade, meu pobre Ega?...

—Não... Começo a estar embotado. É fechar os olhos, tragar mais essa má hora, e depois descansar. Quando voltas tu de Santa Olavia?

Carlos não sabia. Contava que Ega, terminada essa missão á rua de S. Francisco, fosse aborrecer-se uns dias com elle a Santa Olavia. Mais tarde era necessario trasladar para lá o corpo do avô...

—E passado isso, vou viajar... Vou á America, vou ao Japão, vou fazer esta coisa estupida e sempre efficaz que se chama distrahir...

Encolheu os hombros, foi devagar até á janella, onde morria pallidamente um raio de sol na tarde que clareára. Depois voltando para o Ega, que de novo remexia os carvões:

—Eu, está claro, não me atrevo a dizer-te que venhas, Ega... Desejava bem, mas não me atrevo!

Ega pousou devagar as tenazes, ergueu-se, abriu os braços para Carlos, commovido:

—Atreve, que diabo... Porque não?

—Então vem!

Carlos puzera n'isto toda a sua alma. E ao abraçar o Ega corriam-lhe na face duas grandes lagrimas.

Então Ega reflectiu. Antes de ir a Santa Olavia precisava fazer uma romagem á quinta de Celorico. O Oriente era caro. Urgia pois arrancar á mãi algumas letras de credito... E como Carlos pretendia ter «bastante para o luxo d'ambos», Ega atalhou muito sério:

—Não, não! Minha mãi tambem é rica. Uma viagem á America e ao Japão são fórmas de educação. E a mamã tem o dever de completar a minha educação. O que acceito, sim, é uma das tuas malas de couro...

Quando n'essa noite, acompanhados pelo Villaça, Carlos e Ega chegaram á estação de Santa Apolonia, o comboio ia partir. Carlos mal teve tempo de saltar para o seu compartimento reservado—emquanto o Baptista, abraçado ás mantas de viagem, empurrado pelo guarda, se içava desesperadamente para outra carruagem, entre os protestos dos sujeitos que a atulhavam. O trem immediatamente rolou. Carlos debruçou-se á portinhola, gritando ao Ega:—«Manda um telegramma ámanhã a dizer o que houve!»

Recolhendo ao Ramalhete com o Villaça, que ia n'essa noite colligir e sellar os papeis de Affonso da Maia, Ega fallou logo nas quinhentas libras que elle devia entregar na manhã seguinte a Maria Eduarda. Villaça recebera com effeito essa ordem de Carlos. Mas francamente, entre amigos, não lhe parecia excessiva a somma, para uma jornada? Além d'isso Carlos fallára em estabelecer a essa senhora uma mezada de quatro mil francos, cento e sessenta libras! Não achava tambem exagerado? Para uma mulher, uma simples mulher...

Ega lembrou que essa simples mulher tinha direito legal a muito mais...

—Sim, sim, resmungou o procurador. Mas tudo isso de legalidade tem ainda de ser muito estudado. Não fallemos n'isso. Eu nem gósto de fallar d'isso!...

Depois como Ega alludia á fortuna que deixava Affonso da Maia—Villaça deu detalhes. Era decerto uma das boas casas de Portugal. Só o que viera da herança de Sebastião da Maia, representava bem quinze contos de renda. As propriedades do Alemtejo, com os trabalhos que lá fizera o pai d'elle Villaça, tinham triplicado de valor. Santa Olavia era uma despeza. Mas as quintas ao pé de Lamego, um condado.

—Ha muito dinheiro! exclamou elle com satisfação, batendo no joelho do Ega. E isto, amigo, digam lá o que disserem, sempre consola de tudo.

—Consola de muito, com effeito.

Ao entrar no Ramalhete, Ega sentia uma longa saudade pensando no lar feliz e amavel que alli houvera e que para sempre se apagára. Na ante-camara, os seus passos já lhe pareceram soar tristemente como os que se dão n'uma casa abandonada. Ainda errava um vago cheiro de incenso e de phenol. No lustre do corredor havia uma luz só e dormente.

—Já anda aqui um ar de ruina, Villaça.

—Ruinasinha bem confortavel, todavia! murmurou o procurador dando um olhar ás tapeçarias e aos divans, e esfregando as mãos, arrepiado da friagem da noite.

Entraram no escriptorio de Affonso, onde durante um momento se ficaram aquecendo ao lume. O relogio Luiz XV bateu finalmente as nove horas—depois a toada argentina do seu minuete vibrou um instante e morreu. Villaça preparou-se para começar a sua tarefa. Ega declarou que ia para o quarto arranjar tambem a sua papelada, fazer a limpeza final de dois annos de mocidade...

Subiu. E pousára apenas a luz sobre a commoda, quando sentiu ao fundo, no silencio do corredor, um gemido longo, desolado, d'uma tristeza infinita. Um terror arrepiou-lhe os cabellos. Aquillo arrastava-se, gemia no escuro, para o lado dos aposentos d'Affonso da Maia. Por fim, reflectindo que toda a casa estava acordada, cheia de criados e de luzes, Ega ousou dar alguns passos no corredor, com o castiçal na mão tremula.

Era o gato! Era o reverendo Bonifacio, que, diante do quarto d'Affonso, arranhando a porta fechada, miava doloridamente. Ega escorraçou-o, furioso. O pobre Bonifacio fugiu, obeso e lento, com a cauda fôfa a roçar o chão: mas voltou logo, e esgatanhando a porta, roçando-se pelas pernas do Ega, recomeçou a miar, n'um lamento agudo, saudoso como o d'uma dôr humana, chorando o dono perdido que o acariciava no collo e que não tornára a apparecer.

Ega correu ao escriptorio a pedir ao Villaça que dormisse essa noite no Ramalhete. O procurador accedeu, impressionado com aquelle horror do gato a chorar. Deixára o montão de papeis sobre a mesa, voltára a aquecer os pés ao lume dormente. E voltando-se para o Ega, que se sentára, ainda todo pallido, no sofá bordado a matiz, antigo logar de D. Diogo, murmurou devagar, gravemente:

—Ha tres annos, quando o snr. Affonso me encommendou aqui as primeiras obras, lembrei-lhe eu que, segundo uma antiga lenda, eram sempre fataes aos Maias as paredes do Ramalhete. O snr. Affonso da Maia riu d'agouros e lendas... Pois fataes foram!



No dia seguinte, levando os papeis da Monforte e o dinheiro em letras e libras que Villaça lhe entregára á porta do Banco de Portugal, Ega, com o coração aos pulos, mas decidido a ser forte, a affrontar a crise serenamente, subia ao primeiro andar da rua de S. Francisco. O Domingos, de gravata preta, movendo-se em pontas de pés, abriu o reposteiro da sala. E Ega pousára apenas sobre o sofá a velha caixa de charutos da Monforte—quando Maria Eduarda entrou, pallida, toda coberta de negro, estendendo-lhe as mãos ambas.

—Então Carlos?

Ega balbuciou:

—Como v. exc.a póde imaginar, n'um momento d'estes... Foi horrivel, assim de surpreza...

Uma lagrima tremeu nos olhos pisados de Maria. Ella não conhecia o snr. Affonso da Maia, nem sequer o vira nunca. Mas soffria realmente por sentir bem o soffrimento de Carlos... O que aquelle rapaz estremecia o avô!

—Foi de repente, não?

Ega retardou-se em longos detalhes. Agradeceu a corôa que ella mandára. Contou os gemidos, a afflicção do pobre Bonifacio...

—E Carlos? repetiu ella.

—Carlos foi para Santa Olavia, minha senhora.

Ella apertou as mãos, n'uma surpreza que a acabrunhava. Para Santa Olavia! E sem um bilhete, sem uma palavra?... Um terror empallidecia-a mais, diante d'aquella partida tão arrebatada, quasi parecida com um abandono. Terminou por murmurar, com um ar de resignação e de confiança que não sentia:

—Sim, com effeito, n'este momento não se pensa nos outros...

Duas lagrimas corriam-lhe devagar pela face. E diante d'esta dôr, tão humilde e tão muda, Ega ficou desconcertado. Durante um instante, com os dedos tremulos no bigode, viu Maria chorar em silencio. Por fim ergueu-se, foi á janella, voltou, abriu os braços diante d'ella n'uma afflicção:

—Não, não é isso, minha querida senhora! Ha outra coisa, ha ainda outra coisa! Tem sido para nós dias terriveis! Tem sido dias d'angustia...

Outra coisa!?... Ella esperava, com os olhos largos sobre o Ega, a alma toda suspensa.

Ega respirou fortemente:

—V. exc.a lembra-se d'um Guimarães, que vive em Paris, um tio do Damaso?

Maria, espantada, moveu lentamente a cabeça.

—Esse Guimarães era muito conhecido da mãi de v. exc.a, não é verdade?

Ella teve o mesmo movimento breve e mudo. Mas o pobre Ega hesitava ainda, com a face arrepanhada e branca, n'um embaraço que o dilacerava:

—Eu fallo em tudo isto, minha senhora, porque Carlos assim me pediu... Deus sabe o que me custa!... E é horrivel, nem sei por onde hei de começar...

Ella juntou as mãos, n'uma supplica, n'uma angustia:

—Pelo amor de Deus!

E n'esse instante, muito socegadamente, Rosa erguia uma ponta do reposteiro, com Niniche ao lado e a sua boneca nos braços. A mãi teve um grito impaciente:

—Vai lá p'ra dentro! deixa-me!

Assustada, a pequena não se moveu mais, com os lindos olhos de repente cheios de agua. O reposteiro cahiu, do fundo do corredor veio um grande chôro magoado.

Então Ega teve só um desejo, o desesperado desejo de findar.

—V. exc.a conhece a letra de sua mãi, não é verdade?... Pois bem! Eu trago aqui uma declaração d'ella a seu respeito... Esse Guimarães é que tinha este documento, com outros papeis que ella lhe entregou em 71, nas vesperas da guerra... Elle conservou-os até agora, e queria restituir-lh'os, mas não sabia onde v. exc.a vivia. Viu-a ha dias n'uma carruagem, commigo, e com o Carlos... Foi ao pé do Aterro, v. exc.a deve lembrar-se, defronte do alfaiate, quando vinhamos da Toca... Pois bem! o Guimarães veio immediatamente ao procurador dos Maias, deu-lhe esses papeis, para que os entregasse a v. exc.a... E nas primeiras palavras que disse, imagine o assombro de todos, quando se entreviu que v. exc.a era parenta de Carlos, e parenta muito chegada...

Atabalhoára esta historia de pé, quasi d'um fôlego, com bruscos gestos de nervoso. Ella mal comprehendia, livida, n'um indefinido terror. Só pôde murmurar muito debilmente: «Mas...» E de novo emmudeceu, assombrada, devorando os movimentos do Ega que, debruçado sobre o sofá, desembrulhava a tremer a caixa de charutos da Monforte. Por fim voltou para ella com um papel na mão, atropellando as palavras n'uma debandada:

—A mãi de v. exc.a nunca lh'o disse... Havia um motivo muito grave... Ella tinha fugido de Lisboa, fugido ao marido... Digo isto assim brutalmente, perdôe-me v. exc.a, mas não é o momento de attenuar as coisas... Aqui está! V. exc.^a conhece a letra de sua mãi. É d'ella esta letra, não é verdade?

—É! exclamou Maria, indo arrebatar o papel.

—Perdão! gritou Ega, retirando-lh'o violentamente. Eu sou um estranho! E v. exc.a não se póde inteirar de tudo isto emquanto eu não sahir d'aqui.

Fôra uma inspiração providencial, que o salvava de testemunhar o choque terrivel, o horror das coisas que ella ia saber. E insistiu. Deixava-lhe alli todos os papeis que eram de sua mãi. Ella lería, quando elle sahisse, comprehenderia a realidade atroz... Depois, tirando do bolso os dois pesados rôlos de libras, o sobrescripto que continha a letra sobre Paris, pôz tudo em cima da mesa, com a declaração da Monforte.

—Agora só mais duas palavras. Carlos pensa que o que v. exc.a deve fazer já é partir para Paris. V. exc.a tem direito, como sua filha ha de ter, a uma parte da fortuna d'esta familia dos Maias, que agora é a sua... N'este masso que lhe deixo está uma letra sobre Paris para as despezas immediatas... O procurador de Carlos tomou já um wagon-salão. Quando v. exc.a decidir partir, peço-lhe que mande um recado ao Ramalhete para eu estar na gare... Creio que é tudo. E agora devo deixal-a...

Agarrára rapidamente o chapéo, veio tomar-lhe a mão inerte e fria:

—Tudo é uma fatalidade! V. exc.a é nova, ainda lhe resta muita coisa na vida, tem a sua filha a consolal-a de tudo... Nem lhe sei dizer mais nada!

Suffocado, beijou-lhe a mão que ella lhe abandonou, sem consciencia e sem voz, de pé, direita no seu negro luto, com a lividez parada d'um marmore. E fugiu.

—Ao telegrapho! gritou em baixo ao cocheiro.

Foi só na rua do Ouro que começou a serenar, tirando o chapéo, respirando largamente. E ia então repetindo a si mesmo todas as consolações que se poderiam dar a Maria Eduarda: era nova e formosa; o seu peccado fôra inconsciente; o tempo acalma toda a dôr; e em breve, já resignada, encontrar-se-hia com uma familia séria, uma larga fortuna, n'esse amavel Paris, onde uns lindos olhos, com algumas notas de mil francos, têm sempre um reinado seguro...

—É uma situação de viuva bonita e rica, terminou elle por dizer alto no coupé. Ha peor na vida.

Ao sahir do telegrapho despediu a tipoia. Por aquella luz consoladora do dia de inverno, recolheu a pé para o Ramalhete, a escrever a longa carta que promettera a Carlos. Villaça já lá estava installado, com um boné de velludilho na cabeça, emmassando ainda os papeis de Affonso, liquidando as contas dos criados. Jantaram tarde. E fumavam junto do lume, na sala Luiz XV, quando o escudeiro veio dizer que uma senhora, em baixo, n'uma carruagem, procurava o snr. Ega. Foi um terror. Imaginaram logo Maria, alguma resolução desesperada. Villaça ainda teve a esperança d'ella trazer alguma nova revelação, que tudo mudasse, salvasse da «bolada»... Ega desceu a tremer. Era Melanie n'uma tipoia de praça, abafada n'uma grande ulster, com uma carta de Madame.

Á luz da lanterna Ega abriu o enveloppe, que trazia apenas um cartão branco, com estas palavras a lapis: «Decidi partir ámanhã para Paris.»

Ega recalcou a curiosidade de saber como estava a senhora. Galgou logo as escadas: e seguido de Villaça, que ficára na ante-camara á espreita, correu ao escriptorio d'Affonso, a escrever a Maria. N'um papel tarjado de luto dizia-lhe (além de detalhes sobre bagagens)—que o wagon-salão estava tomado até Paris, e que elle teria a honra de a vêr em Santa Apolonia. Depois, ao fazer o sobrescripto, ficou com a penna no ar, n'um embaraço. Devia pôr «Madame Mac-Gren» ou «D. Maria Eduarda da Maia?» Villaça achava preferivel o antigo nome, porque ella legalmente ainda não era Maia. Mas, dizia o Ega atrapalhado, tambem já não era Mac-Gren...

—Acabou-se! Vae sem nome. Imagina-se que foi esquecimento...

Levou assim a carta, dentro do sobrescripto em branco. Melanie guardou-a no regalo. E, debruçada á portinhola, entristecendo a voz, desejou saber, da parte de Madame, onde estava enterrado o avô do senhor...

Ega ficou com o monoculo sobre ella, sem sentir bem se aquella curiosidade de Maria era indiscreta ou tocante. Por fim deu uma indicação. Era nos Prazeres, á direita, ao fundo, onde havia um anjo com uma tocha. O melhor seria perguntar ao guarda pelo jazigo dos snrs. Villaças.

—Merci, monsieur, bien le bonsoir.

—Bonsoir, Melanie!

No dia seguinte, na estação de Santa Apolonia, Ega, que viera cedo com o Villaça, acabava de despachar a sua bagagem para o Douro, quando avistou Maria que entrava trazendo Rosa pela mão. Vinha toda envolta n'uma grande pelliça escura, com um véo dobrado, espesso como uma mascara: e a mesma gaze de luto escondia o rostosinho da pequena, fazendo-lhe um laço sobre a touca. Miss Sarah, n'uma ulster clara de quadrados, sobraçava um masso de livros. Atraz o Domingos, com os olhos muito vermelhos, segurava um rôlo de mantas, ao lado de Melanie carregada de preto que levava Niniche ao collo. Ega correu para Maria Eduarda, conduziu-a pelo braço, em silencio, ao wagon-salão que tinha todas as cortinas cerradas. Junto do estribo ella tirou devagar a luva. E muda, estendeu-lhe a mão.

—Ainda nos vemos no Entroncamento, murmurou Ega. Eu sigo tambem para o Norte.

Alguns sujeitos pararam, com curiosidade, ao vêr sumir-se n'aquella carruagem de luxo, fechada, mysteriosa, uma senhora que parecia tão bella, d'ar tão triste, coberta de negro. E apenas Ega fechou a portinhola, o Neves, o da Tarde e do Tribunal de Contas, rompeu d'entre um rancho, arrebatou-lhe o braço com sofreguidão:

—Quem é?

Ega arrastou-o pela plataforma, para lhe deixar cahir no ouvido, já muito adiante, tragicamente:

—Cleopatra!

O politico, furioso, ficou rosnando: «Que asno!...» Ega abalára. Junto do seu compartimento Villaça esperava, ainda deslumbrado com aquella figura de Maria Eduarda, tão melancolica e nobre. Nunca a vira antes. E parecia-lhe uma rainha de romance.

—Acredite o amigo, fez-me impressão! Caramba, bella mulher! Dá-nos uma bolada, mas é uma soberba praça!

O comboio partiu. O Domingos ficava choramingando com um lenço de côres sobre a face. E o Neves, o conselheiro do Tribunal de Contas, ainda furioso, vendo o Ega á portinhola, atirou-lhe de lado, disfarçadamente, um gesto obsceno.

No Entroncamento Ega veio bater nos vidros do salão que se conservava fechado e mudo. Foi Maria que abriu. Rosa dormia. Miss Sarah lia a um canto, com a cabeça n'uma almofada. E Niniche assustada ladrou.

—Quer tomar alguma coisa, minha senhora?

—Não, obrigada...

Ficaram calados, emquanto Ega com o pé no estribo tirava lentamente a charuteira. Na estação mal alumiada passavam saloios, devagar, abafados em mantas. Um guarda rolava uma carreta de fardos. Adiante a machina resfolegava na sombra. E dois sujeitos rondavam em frente do salão, com olhares curiosos e já languidos para aquella magnifica mulher, tão grave e sombria, envolta na sua pelliça negra.

—Vai para o Porto? murmurou ella.

—Para Santa Olavia...

—Ah!

Então Ega balbuciou com os beiços a tremer:

—Adeus!

Ella apertou-lhe a mão com muita força, em silencio, suffocada.

Ega atravessou, devagar, por entre soldados de capote enrolado a tiracollo que corriam a beber á cantina. Á porta do buffete voltou-se ainda, ergueu o chapéo. Ella, de pé, moveu de leve o braço n'um lento adeus. E foi assim que elle pela derradeira vez na vida viu Maria Eduarda, grande, muda, toda negra na claridade, á portinhola d'aquelle wagon que para sempre a levava.


VIII



Semanas depois, nos primeiros dias d'anno novo, a Gazeta Illustrada trazia na sua columna do High-life esta noticia: « O distincto e brilhante sportman, o snr. Carlos da Maia, e o nosso amigo e collaborador João da Ega, partiram hontem para Londres, d'onde seguirão em breve para a America do Norte, devendo d'ahi prolongar a sua interessante viagem até ao Japão. Numerosos amigos foram a bordo do Tamar despedir-se dos sympathicos touristes. Vimos entre outros os snrs, ministro da Filandia e seu secretario, o marquez de Souzella, conde de Gouvarinho, visconde de Darque, Guilherme Craft, Telles da Gama, Cruges, Taveira, Villaça, general Sequeira, o glorioso poeta Thomaz d'Alencar, etc. etc. O nosso amigo e collaborador João da Ega fez-nos, no ultimo shake-hands, a promessa de nos mandar algumas cartas com as suas impressões do Japão, esse delicioso paiz d'onde nos vem o sol e a moda! É uma boa nova para todos os que prezam a observação e o espirito. Au revoir!»

Depois d'estas linhas affectuosas (em que o Alencar collaborára) as primeiras noticias dos «viajantes» vieram, n'uma carta do Ega para o Villaça, de New-York. Era curta, toda de negocios. Mas elle ajuntava um post-scriptum com o titulo de Informações geraes para os amigos. Contava ahi a medonha travessia desde Liverpool, a persistente tristeza de Carlos, e New-York coberta de neve sob um sol rutilante. E acrescentava ainda: «Está-se apossando de nós a embriaguez das viagens, decididos a trilhar este estreito Universo até que cancem as nossas tristezas. Planeamos ir a Pekin, passar a Grande Muralha, atravessar a Asia Central, o oasis de Merv, Khiva, e penetrar na Russia; d'ahi, pela Armenia e pela Syria, descer ao Egypto a retemperar-nos no sagrado Nilo; subir depois a Athenas, lançar sobre a Acropole uma saudação a Minerva; passar a Napoles; dar um olhar a Argelia e a Marrocos; e cahir emfim ao comprido em Santa Olavia lá para os meados de 79 a descançar os membros fatigados. Não escrevinho mais porque é tarde, e vamos á Opera vêr a Patti no Barbeiro. Larga distribuição d'abraços a todos os amigos queridos»

Villaça copiou este paragrapho, e trazia-o na carteira para mostrar aos fieis amigos do Ramalhete. Todos approvaram, com admiração, tão bellas, aventurosas jornadas. Só Cruges, aterrado com aquella vastidão do Universo, murmurou tristemente: «Não voltam cá!»

Mas, passado anno e meio, n'um lindo dia de março, Ega reappareceu no Chiado. E foi uma sensação! Vinha esplendido, mais forte, mais trigueiro, soberbo de verve, n'um alto apuro de toilette, cheio de historias e de aventuras do Oriente, não tolerando nada em arte ou poesia que não fosse do Japão ou da China, e annunciando um grande livro, o «seu livro», sob este titulo grave de chronica heroica—Jornadas da Asia.

—E Carlos?...

—Magnifico! Installado em Paris, n'um delicioso appartamento dos Campos-Elyseos, fazendo a vida larga d'um principe artista da Renascença...

Ao Villaça porém, que sabia os segredos, Ega confessou que Carlos ficára ainda abalado. Vivia, ria, governava o seu phaeton no Bois—mas lá no fundo do seu coração permanecia, pesada e negra, a memoria da «semana terrivel».

—Todavia os annos vão passando, Villaça, acrescentou elle. E com os annos, a não ser a China, tudo na terra passa...

E esse anno passou. Gente nasceu, gente morreu. Searas amadureceram, arvoredos murcharam. Outros annos passaram.



Nos fins de 1886, Carlos veio fazer o Natal perto de Sevilha, a casa d'um amigo seu de Paris, o marquez de Villa-Medina. E d'essa propriedade dos Villa-Medina, chamada La Soledad, escreveu para Lisboa ao Ega annunciando que—depois d'um exilio de quasi dez annos, resolvera vir ao velho Portugal vêr as arvores de Santa Olavia e as maravilhas da Avenida. De resto tinha uma formidavel nova, que assombraria o bom Ega: e se elle já ardia em curiosidade, que viesse ao seu encontro com o Villaça, comer o porco a Santa Olavia.

—Vae casar! pensou Ega.

Havia tres annos (desde a sua ultima estada em Paris) que elle não via Carlos. Infelizmente não pôde correr a Santa Olavia, retido n'um quarto do Braganza com uma angina, desde uma ceia prodigiosamente divertida com que celebrára no Silva a noite de Reis. Villaça, porém, levou a Carlos para Santa Olavia uma carta em que o Ega, contando a sua angina, lhe supplicava que se não retardasse com o porco n'esses penhascos do Douro, e que voasse á grande Capital a trazer a grande nova.

Com effeito, Carlos pouco se demorou em Rezende. E n'uma luminosa e macia manhã de janeiro de 1887, os dois amigos emfim juntos almoçavam n'um salão do Hotel Braganza, com as duas janellas abertas para o rio.

Ega, já curado, radiante, n'uma excitação que não se calmava, alagando-se de café, entalava a cada instante o monoculo para admirar Carlos e a sua «immutabilidade».

—Nem uma branca, nem uma ruga, nem uma sombra de fadiga!... Tudo isso é Paris, menino!... Lisboa arraza. Olha para mim, olha para isto!

Com o dedo magro apontava os dois vincos fundos ao lado do nariz, na face chupada. E o que o aterrava sobretudo era a calva, uma calva que começára havia dois annos, alastrára, já reluzia no alto.

—Olha este horror! A sciencia para tudo acha um remedio, menos para a calva! Transformam-se as civilisações, a calva fica!... Já tem tons de bola de bilhar, não é verdade?... De que será?

—É a ociosidade, lembrou Carlos rindo.

—A ociosidade!... E tu, então?

De resto, que podia elle fazer n'este paiz?... Quando voltára de França, ultimamente, pensára em entrar na diplomacia. Para isso sempre tivera a blague: e agora que a mamã, coitada, lá estava no seu grande jazigo em Celorico, tinha a massa. Mas depois reflectira. Por fim, em que consistia a diplomacia portugueza? N'uma outra fórma da ociosidade, passada no estrangeiro, com o sentimento constante da propria insignificancia. Antes o Chiado!

E como Carlos lembrava a Politica, occupação dos inuteis, Ega trovejou. A politica! Isso tornára-se moralmente e physicamente nojento, desde que o negocio atacára o constitucionalismo como uma phylloxera! Os politicos hoje eram bonecos de engonços, que faziam gestos e tomavam attitudes porque dois ou tres financeiros por traz lhes puxavam pelos cordeis... Ainda assim podiam ser bonecos bem recortados, bem envernizados. Mas qual! Ahi é que estava o horror. Não tinham feitio, não tinham maneiras, não se lavavam, não limpavam as unhas... Coisa extraordinaria, que em paiz algum succedia, nem na Romelia, nem na Bulgaria! Os tres ou quatro salões que em Lisboa recebem todo o mundo, seja quem fôr, largamente, excluem a maioria dos politicos. E porque? Porque as senhoras têm nôjo!

—Olha o Gouvarinho! Vê lá se elle recebe ás terças-feiras os seus correligionarios...

Carlos que sorria, encantado com aquella veia acerba do Ega, saltou na cadeira:

—É verdade, e a Gouvarinho, a nossa boa Gouvarinho?

Ega, passeando pela sala, deu as novas dos Gouvarinhos. A condessa herdára uns sessenta contos de uma tia excentrica que vivia a Santa Isabel, tinha agora melhores carruagens, recebia sempre ás terças-feiras. Mas soffria uma doença qualquer, grave, no figado ou no pulmão. Ainda elegante todavia, muito séria, uma terrivel flôr de pruderie... Elle, o Gouvarinho, ahi continuava, palrador, escrevinhador, politicote, impertigadote, já grisalho, duas vezes ministro, e coberto de gran-cruzes...

—Tu não os viste em Paris, ultimamente?

—Não. Quando soube fui-lhes deixar bilhetes, mas tinham partido na vespera para Vichy...

A porta abriu-se, um brado cavo resoou:

—Até que emfim, meu rapaz!

—Oh Alencar! gritou Carlos, atirando o charuto.

E foi um infinito abraço, com palmadas arrebatadas pelos hombros, e um beijo ruidoso—o beijo paternal do Alencar, que tremia, commovido. Ega arrastára uma cadeira, berrava pelo escudeiro:

—Que tomas tu, Thomaz? Cognac? Curaçáo? Em todo o caso café! Mais café! Muito forte, para o snr. Alencar!

O poeta, no emtanto, abysmado na contemplação de Carlos, agarrára-o pelas mãos, com um sorriso largo, que lhe descobria os dentes mais estragados. Achava-o magnifico, varão soberbo, honra da raça... Ah! Paris, com o seu espirito, a sua vida ardente, conserva...

—E Lisboa arraza! acudiu Ega. Já cá tive essa phrase. Vá, abanca, ahi tens o cafésinho e a bebida!

Mas Carlos agora tambem contemplava o Alencar. E parecia-lhe mais bonito, mais poetico, com a sua grenha inspirada e toda branca, e aquellas rugas fundas na face morena, cavadas como sulcos de carros pela tumultuosa passagem das emoções...

—Estás typico, Alencar! Estás a preceito para a gravura e para a estatua!...

O poeta sorria, passando os dedos com complacencia pelos longos bigodes romanticos, que a idade embranquecera e o cigarro amarellára. Que diabo, algumas compensações havia de ter a velhice!... Em todo o caso o estomago não era mau, e conservava-se, caramba, filhos, um bocado de coração.

—O que não impede, meu Carlos, que isto por cá  esteja cada vez peor! Mas acabou-se... A gente queixa-se sempre do seu paiz, é habito humano. Já Horacio se queixava. E vocês, intelligencias superiores, sabeis bem, filhos, que no tempo de Augusto... Sem fallar, é claro, na quéda da republica, n'aquelle desabamento das velhas instituições... Emfim deixemos lá os Romanos! Que está alli n'aquella garrafa? Chablis... Não desgosto, no outono, com as ostras. Pois vá lá o Chablis. E á tua chegada, meu Carlos! e á tua, meu João, e que Deus vos dê as glorias que mereceis, meus rapazes!...

Bebeu. Rosnou: «bom Chablis, bouquet fino». E acabou por abancar, ruidosamente, sacudindo para traz a juba branca.

—Este Thomaz! exclamava Ega, pousando-lhe a mão no hombro com carinho. Não ha outro, é unico! O bom Deus fel-o n'um dia de grande verve, e depois quebrou a fôrma.

Ora, historias! murmurava o poeta radiante. Havia-os tão bons como elle. A humanidade viera toda do mesmo barro como pretendia a Biblia—ou do mesmo macaco como affirmava o Darwin...

—Que, lá essas coisas d'evolução, origem das especies, desenvolvimento da cellula, cá para mim... Está claro, o Darwin, o Lamarck, o Spencer, o Claudio Bernard, o Littré, tudo isso, é gente de primeira ordem. Mas acabou-se, irra! Ha uns poucos de mil annos que o homem prova sublimemente que tem alma!

—Toma o cafésinho, Thomaz! aconselhou o Ega, empurrando-lhe a chavena. Toma o cafésinho!

—Obrigado!... E é verdade, João, lá dei a tua boneca á pequena. Começou logo a beijal-a, a embalal-a, com aquelle profundo instincto de mãi, aquelle quid divino... É uma sobrinhita minha, meu Carlos. Ficou sem mãi, coitadinha, lá a tenho, lá vou tratando de fazer d'ella uma mulher... Has de vêl-a. Quero que vocês lá vão jantar um dia, para vos dar umas perdizes á hespanhola... Tu demoras-te, Carlos?

—Sim, uma ou duas semanas, para tomar um bom sorvo de ar da patria.

—Tens razão, meu rapaz! exclamou o poeta, puxando a garrafa do cognac. Isto ainda não é tão mau como se diz... Olha tu para isso, para esse céo, para esse rio, homem!

—Com effeito é encantador!

Todos tres, durante um momento, pasmaram para a incomparavel belleza do rio, vasto, lustroso, sereno, tão azul como o céo, esplendidamente coberto de sol.

—E versos? exclamou de repente Carlos, voltando-se para o poeta. Abandonaste a lingua divina?

Alencar fez um gesto de desalento. Quem entendia já a lingua divina? O novo Portugal só comprehendia a lingua da libra, da «massa». Agora, filho, tudo eram syndicatos!

—Mas ainda ás vezes me passa uma coisa cá por dentro, o velho homem estremece... Tu não viste nos jornaes?... Está claro, não lês cá esses trapos que por ahi chamam gazetas... Pois veio ahi uma coisita, dedicada aqui ao João. Ora eu t'a digo se me lembrar...

Correu a mão aberta pela face escaveirada, lançou a estrophe n'um tom de lamento: