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Os meus amores: contos e balladas

Chapter 26: MÃE!
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About This Book

Coletânea de contos e baladas que retrata a vida rural e os afetos simples do quotidiano, combinando episódios pastorais, cenas domésticas e pequenos episódios cômicos com matizes de melancolia. As narrativas curtas evocam pastores, aldeões e amores juvenis, músicas populares, paisagens campestres e lembranças nostálgicas, ora líricas, ora satíricas. A prosa privilegia imagens sensoriais e um registo regional que alterna versos e prosa para captar tradições locais, sentimentos contidos e a passagem do tempo.




...N'esse mesmo instante...—e mais longe do que nunca—...a estrella feiticeira acabava de cerrar tambem a palpebra luminosa!...






MÃE!


Ao dr. J.C. da Moita Prego


Bella cabra, a Russa!—posso dizel-o aos senhores. A melhor da manada, luzida, de pello macio, sem saliencias de ossos como as outras, altiva de porte quando á frente do rebanho parecia commandal-o, badalando cadencialmente o seu chocalho enorme—tlão! tlão! Era no rebanho a que mais dava que fazer ao pastor, requerendo vigilancias particulares no seu atrevimento, pois que se a deixassem livre não havia arvore a que não trepasse, oliveira especialmente, nem rebento novo que não triturasse esfomeada no seu dente acerado de roedora.

E depois, alli onde a viam, estava cara só pelas coimas, que muitas vezes illudira ella a attenção do pastor, e se ficara por hortas e quintalorios, causando estragos que os louvados depois avaliavam caro. Por isso Alipio José, pastor, a quem doiam as denuncias, ao pescoço da Russa prendera o chocalhão, para dar do atrevido animal mais facil rumor, pois era de timbre muito distincto dos demais, e muito mais grave.

Em pastagens pelos montados, a Russa era de uma audacia extrema. Fazia gosto vel-a trepar ás ultimas cumiadas, subir destemidamente ás arestas superiores dos rochedos, muito serena, erecta nas suas pernas delgadas, pescoço alto, ajoelhando destemida a retouçar as hervas dos declives alcantilados e escorregadios, não medindo perigos nem se importando com abysmos, emquanto as companheiras se ficavam pelas encostas e corregos, saboreando as giestas, sem se atreverem a seguil-a nas suas excursões arriscadas de touriste.

Se a miravam de baixo, sentia-se orgulhosa de superiores audacias, e então cabriolava em saltos funambulescos, de rochedo em rochedo ou de garganta em garganta, pouco se lhe dando de perigos. Cobra que encontrasse por essas paragens era para ella um desespero—tamanha a furia com que a perseguia, e a insistencia com que se ficava ás marradas na lura onde se lhe acoitava. O chocalho então badalava com força, e o Alipio que dormia á sombra das azinheiras, de chapeu sobre a cara, levantava-se sobre um cotovello e intimava para o alto, com o seu vozeirão que fazia echo:

—Toma tento, Russa!

E depois, de ventre para baixo, estirado sobre a manta, cotovellos fincados no chão, os queixos entre as mãos espalmadas, Alipio José ficava-se a olhar a cabra, invejoso d'aquella facilidade em subir aos ultimos pinaculos, admirado dos saltos que ella fazia para salvar gargantas pedregosas e perpendiculares, onde, se caisse, a morte seria infallivel. E por lá andava dias inteiros a Russa, n'aquella vagabundagem por sitios inaccessiveis ao resto do rebanho, resguardando-se da chuva em reconcavos de rocha, onde as aguias faziam ninho.





Foi n'um d'esses sitios que a Russa teve o primeiro filho, e por lá se deixou ficar, acho que dormindo ou toda a noite velando. Ao outro dia quiz ella descer, e vir para o rebanho que a aguardava. Mais de cem vezes, fitando o topo da ladeira, Alipio José gritara cá debaixo, cada vez mais desesperado:

—Volta ao rebanho, Russa!

E, cuidando que mais lhe feria assim a attenção, punha-se a agitar com furia o mólho dos chocalhos, gritando sem cessar:

—Russa! torna ao rebanho, Russa!

Mas impossivel! que a não deixava a quebreira em que toda ella ficara do parto, nem o pequeno poderia—pobresinho!—descer por taes ladeiras, de pedregosas e asperas que eram.

Mas de noite o frio era intenso n'aquellas alturas, e o pequeno congelava unindo-se á mãe que o bafejava para o aquecer, e a si o aconchegava mais e mais para lhe transmittir o natural calor do seu corpo enfraquecido e doente.

Por altas horas da noite, na solidão lugubre d'aquelle sitio, alcantilado e ingreme, entre penedias escarpadas onde o vento sibilava lugubremente, n'um como choro dolente e prolongado, o balido da mãe, traduzindo angustias e desesperos intimos, respondia ao vagido fraco do filhito, cuja vida parecia ir-se apagando de hora a hora e instante a instante, inteiriçando-se-lhe com o frio os membros delicados e tenros.

Eram assim as noitadas dos desgraçados. Por taes frios e doenças, impossivel dormir. Toda a noite velavam e gemiam, achegando-se mais e mais n'um como abraço de eterna despedida—amigos que se iam apartar para uma longa viagem de trevas, com o coração alanceado pela saudade, soluçando e gemendo, n'um adeus! que era infinito, como o infinito amor que os unia...

E a cada momento, como um dobre de finados, o chocalho badalava lugubremente, assustando o animalsinho, como se aquelle fôra o signal para o transe derradeiro...

Para maior desgraça, as noites eram sem lua. Encravadas na abobada, as estrellas bocejavam dormentes, n'uma criminosa indifferença por aquella dôr suprema de que eram as unicas testemunhas.

E balando muito, e balando sempre, a pobre cabra imprecava ao céo a vida do filho, ao menos,—ora supplice em balidos de resignação que uma profundissima dôr ungia, ora desvairada e louca, em gritos que significavam blasphemias, blasphemias de desespero contra o céo que a não ouvia, e contra a morte que bem sentia aproximar-se para lhe estrangular o filhinho que ella amava tanto.

E a fazer-lhe mais incruenta a sua enorme dôr—a ironia acerba da chocalhada longinqua das companheiras, que se iam pelos montes da outra banda, deixando-a a ella sósinha com o filho, á espera da morte que era inevitavel.

Então ergueu-se por instantes! Agitou convulsamente o pescoço, e pelo ar fóra o som triste do chocalho espraiou-se lentamente, n'um adeus! adeus! de despedida ás companheiras felizes que lá iam, n'um ruido longinquo de chocalhos...





N'aquella solidão os dias eram melhores. Com os primeiros raios do sol entravam de reanimar-se os dois; pouco a pouco os membros desentorpeciam e o sangue circulava.

E o cabritinho sem poder ainda descer!...

De pé, ao lado do filho, a pobre cabra lançava olhos compungidos para as escarpas da ladeira, ia para um lado e outro, desvairada e tremula, como que a escolher o melhor caminho por onde levasse o filho. Mas eram todas horriveis! Silvedos e rocha viva era o que mais se via. E depois o rio, lá baixo, rugia nas cachoeiras, augmentando-lhe o receio.

Impossivel! impossivel!

E sentia-se enfraquecer á mingua de sustento, pois a herva, por alli, estava comida e recomida pela pastagem miseravel de tres dias.

N'um momento de desespero, quando os gemidos do filho eram mais dolentes e crebros, refez-se de coragem a cabra, e segurando entre os dentes o chibo tentou o primeiro passo, arrastando-o pela ladeira, do lado em que o declive era menor. Mas em breve desanimou a pobre, que o filhito, assim arrastado, mais e mais gemia, convulsionado e tremulo...

Impossivel! impossivel!

Nada que signifique a dôr d'aquella mãe, e traduzir possa em linguagem toda a gamma de sentimentos e emoções no seu balar expressos. Atirou-se de joelhos sobre o corpinho do filho que hirto chorava e tremia, estendido para alli, na prostração pesada do ultimo desalento; animava-o com caricias, aproximava-lhe da bocca os uberes já flaccidos e amolentados, convidando-o a mamar, como se aquelle leite podesse levar ao filho a coragem que a ella propria faltava em tamanho transe afflictivo...

Mas pouco a pouco a noite ia caindo. Tinha-se já apagado a ultima cambiante do poente, e sobre as gargantas dos montes passavam subtilmente as primeiras nevoas, alvadias e tenues. Á medida que a treva se condensava, decresciam os ruidos em todo o horizonte, accentuando-se cada vez mais a melopéa somnolenta do rio nos açudes. Perpassavam pelo ar as aves para os ninhos. Bandos de pombas, como flocos volateis de arminho, cortavam em vôos mansos a profundidade calma do céo, demandando os pombaes e os povoados, onde se acolhessem da noite que vinha caindo. Revoadas de perdizes e de tordos passavam por alli alegremente, n'um chilrear sonoro, caindo de chofre sobre o monte, a esconderem-se nos estevaes e nas urzes. Pelas hervagens seccas rastejavam apressados os reptis, e sob os tojaes bravios a lebre buscava a cama...

...E tudo tinha ninho—pombas que voavam e perdizada sonora, quem passava no ar e quem rastejava no monte, lagartos, sardões, cobras, toda a colonia vagabunda de reptis e de aves, que passou alegremente o seu dia, e se ia recolher agora para recomeçar dia ámanhã...

Só a desgraçada cabra, alli, junto do filho tenro, não mais fizera passo. Com as brumas da noite, as brumas da tristeza para o seu coração alanceado de mãe. Ahi vinha o frio inclemente flagelar-lhe o filho...—o filho que já tremia a ella aconchegado—o triste pobresinho!

Rompia de toda a banda o gri-gri sonoro dos grilos, vivo e cantante n'aquelle silencio que se definia. Cerrou de todo a noite. O céo era baixo e torvo de nuvens. Estrellejava a espaços a abobada, irradiando uma luz mortiça e alvadia, que levava a pensar em ultimos transes de creanças, em que a vida gradualmente se extinguisse, n'um latejar vagaroso de palpebras somnolentas...

Mais algida fazia a noite, e mais pesada de melancolias, essa torva apparencia da atmosphera e do céo. Noite peor do que as outras, porém com menos balidos, pois que mãe e filho estavam extenuados de forças e nem gemer podiam. E a morte que não vinha arrancal-os do abraço em que se uniram, mal cerrara a noite!

A pequena distancia, o monte era cortado de profundissima garganta em rocha viva. Do lado opposto, e quasi defronte dos moribundos, accenderam-se na treva dois pontos phosphorescentes, de uma claridade esverdeada rutila. E, immoveis, esses dois olhos estoirados de lobo, a que parecia terem arrancado as palpebras, projectavam a sua luz sinistra na direcção do grupo que velava. A natureza inteira retrahia-se n'um como pavôr medonho, concentrado de intimos terrores e silencios lobregos d'horas altas. Cerrava-se mais no céo a phalange muda das nuvens, densificando-se em tintas negras, impenetraveis e caliginosas, sem scintillas de estrellas, por fugidias e tenues que fossem...

E sempre, e constantemente immoveis na escuridão pesada, aquelles dois olhos flammejavam, de instante a instante mais vivazes, perscrutando a treva da direcção mais exacta do grupo. Transida de susto, arquejando convulsamente no ultimo paroxismo da sua enorme dôr, a pobre mãe não ousava arriscar um unico movimento e mais e mais cerrava contra si o corpo inanimado do filhito que parecia adormecido.

Assim durante horas que aquelle atrocissimo supplicio fez enormes, quasi eternas, tumultuosas de acerbos soffrimentos e de indiziveis angustias, vasias de esperança na vida do seu pequenino filho.

De repente, aquelles dois pontos brilhantes apagaram-se na treva, e de novo os viu brilhar a cabra, mas já a maior distancia. Estremeceu a pobre de subita alegria,—e no abalo que soffreu o seu corpo, até então retrahido, o chocalho badalou. Voltou a correr o lobo, e então a desgraçada viu errarem na treva, como dois grandes coleoptéros de azas phosphorescentes, os olhos até então immoveis do inimigo. E por alli levou a noite toda, farejando e uivando, até que cançado de perscrutar o insondavel, se foi ladeira abaixo, aos primeiros assomos da madrugada que vinha, docemente, alumiando pincaros e arestas.





Ao romper d'alva o céo era azul. Apenas de longe em longe pennachos de nuvens brancas ondulavam as suas cristas alvadias, que se esfarpavam lentamente ao menor sopro da aragem. Pouco a pouco o azul ia desmaiando, diluindo-se na luz esbranquiçada que vinha do alto em gradações imperceptiveis e suaves.

Começavam de animar-se os longes da paizagem, e a retina accusava já as differenças mais salientes dos campos e herdades, pedaços esbranquiçados de restolhos, tons pardos de olivaes, terras plantadas de vinhedo, e pinheiraes cerrados galgando desfiladeiros e investindo com o céo no alto dos montados.

Pelas ladeiras d'além, caminhos e atalhos corriam em torcicolos até ao areal da margem. Em turbilhões de espuma alvissima precipitava-se a agua nos açudes, marulhando nos altos penedos marginaes, denegridos e informes, de uma mudez contemplativa e perpetua. Do tecto do moinho, lá em baixo, uma columna azulada de fumo elevava-se tranquillamente no ar sereno e doce, até se desfazer no espaço amplo e benigno, como uma ambição ou como um sonho...





Foi então que Alipio José, á frente do rebanho, de novo abordou áquellas paragens, no intuito de procurar a cabra tresmalhada.

—Russa! torna ao rebanho, Russa!

Mas precisamente a essa hora, a Russa exhalava o ultimo alento, pendida sobre o cadaver do pobre filhinho morto!...

E ao pino do meio dia, quando o sol faiscava causticando nos rochedos—passava na direcção da montanha, crocitando lugubremente, a esfaimada legião dos amaldiçoados corvos...







ARRULHOS


A.M. da Silva Gayo.


Ao fundo do jardim ficava o pombal—uma casinhola redonda, com orificios triangulares no alto, em toda a volta, alegre na alvura impeccavel do muro que fallava ao longe, muito ao longe, a leguas de distancia.

—Pombal da Morgada! diziam.—Lá se vê além...—E um gesto muito longo levava a vista horizontes fóra, á cata do Pombal da Morgada, que alvejava longe, muito distante, na meia sombra dos montes sobranceiros, como um pequenino ermiterio cheio de lendas, onde santos de carne e osso provocassem romarias, promessas avultadas de pessoas ricas, e onde seriam encantadoras as tardes quentes de estio, á sombra de arvores seculares em cuja ramagem trinassem passaros em barda, pardalada sonora, gralhadora, rindo da nossa merenda e da nossa semceremonia—frangãos assados e boa vinhaça da terra.

Pombal da Morgada porque? Historia singular que vou contar-lhes. A Morgada era uma senhora rica, muito rica, tinha vinte e cinco annos e outras tantas quintas, viuva antes de casar, pesarosa da morte desastrada do noivo—um trambulhão de um cavallo que o matara logo alli, sem mais pio, n'um ai.

A recordar esse amor—um casal de pequeninos pombos que elle lhe dera na vespera, symbolisando, dizia elle, a pureza da sua alma d'ella, e a castidade das suas intenções d'elle...

Muito bem. Fez-se então o pombal, o casal procreou, vieram pombos novos—todos brancos uns, rajados outros, de um gris delicadissimo alguns, todos encantadores, velludineos, muito mansos.

Bellos pombos, na verdade!

Todas as tardes, quando as tintas do crepusculo começavam de esbater-se n'uma uniformidade vagarosa de tons, e a percepção clara das coisas entrava de se desfazer em imperceptiveis nuances subtis, n'um smorzando melancholico onde palpitavam vagos terrores de noite que vem caindo, quando os valles se cobriam de uma sombra azulada e a vida cessava no campo e começava no céo em scintillações argenteas de estrellas—todas as tardes, digo, quem quer poderia ver aberta a estreita porta do pombal, e uma mulher nova, vestida de preto, espalhando no pavimento terreo, com solicitudes de menagère, as provisões de um pequeno cabaz que lhe pendia do braço—milho em abundancia e fartura de alpista.

Assim todas as tardes, ia já em quatro annos, que não havia forças que levassem a Morgada para fóra do seu pequeno solar, onde vivia só, retirada de tudo, a tudo indifferente, impassivel a pedidos de amigas que saiam para as praias, no inverno para Lisboa, e que a queriam levar para que se distrahisse, para que se alegrasse—«era nova ainda, podia arranjar noivo, nada mais facil...»

—E as pombas? objectava.—Mas era peccado deixal-as, dizia comsigo. Quando voltasse estaria deserto o pombal, umas que fugissem, outras que matassem, haviam-de até roubal-as, entrar de noite no pombal, leval-as todas.

—Que não e que não! insistia renitente;—que tivessem paciencia, que se divertissem muito, ella ficava.

—Platonismos! gargalhavam depois as amigas.—Saudades do outro que rebentou do trambolhão. Bem tola!

E partiam sós, rindo da Morgada e do seu amor pelas pombas, achando-a ridicula com aquelle seu luto perpetuo, escarnecendo da simplicidade habitual da sua toilette—vestido preto todo liso, muito afogado, um pequeno ruche no pescoço e mangas, nem uma préga, nem sequer um laço.

Muito respeitadas, as pombas da Morgada. Caçador que as visse não desfechava sobre ellas. Assim, a manada crescia de hoje para ámanhã, desenvolvia a propagação o bom tracto, a habitação confortavel, muito abrigada de ventos, onde a chuva não entrava e os ninhos eram flaccidos—folhas de milho mudadas cada dois dias.

Que bom, ser pombo da Morgada!

A musica dos arrulhos, uma volata muito languida, começava com o aclarar, muito cedo, depois do descanço do somno na placidez do ninho, quando as forças eram sãs e as azas pediam vôos.

Hora dos amores!

Pombos atrevidos, sanguineos, de iris rutilante e indole impaciente, lançavam-se sobre as pombas, forçavam-nas, perseguiam-nas se voejavam, ameaçando-as de bicadas primeiro, picando-as nas cabecitas se resistiam, possuindo-as á força, a tremer, azas em concha, pennugem erriçada, arrulhando muito, arrulhando sempre, cahindo desfallecidos depois, hirtos, palpebras cerradas, trementes, frementes, em spasmos de luxuria e paroxismos do goso; emquanto ellas, as pombas, se emplumavam agora de contentes, sacudindo as azas, pescoço levantado, orgulhosas talvez, muito felizes.

Outros então, mais meigos ou mais pachorrentos, mais velhos por certo, quedavam-se horas seguidas, horas longas, defronte da sua eleita, n'uma doçura plangente de musicaes arrulhos, frementes de desejos, mas pedindo ás boas, não querendo violencias, detestando-as, bem se via, supplicando, rogando, commovendo. E se logravam intentos, redobravam os carinhos, havia meiguices de geitos e friccionamentos leves de pennugens, arrulhos mais doces e toques delicadissimos de bicos—beijos com certeza.

Isto todos os dias, nas manhãs ennevoadas especialmente. Imagine-se a vida do pombal áquellas horas:—pombas que voejavam assustadas, esquivas mesmo, e pombos que as perseguiam; pombas que condescendiam e pombas que queriam arrulhos: quem não voasse arrulhava, quem não arrulhasse voava; e tudo gozava—quem era feliz e quem estava para o ser, quem era sanguineo e quem era pachorrento.

Ar dos campos, depois; alegres, muito amigos, pousando todos quando um pousava, retomando vôo se um voava, sempre juntos, sempre na mesma direcção, a beber no mesmo ribeiro, em linha, todos a um tempo, n'um ruido muito doce de bicos que sorviam.

Ainda com sol, iam pousar de revoada no telhado da casa onde habitava a Morgada, participar-lhe por certo que iam recolher, cumprimental-a ao balcão da sua janella, alegre de trepadeiras em flôr, pousar-lhe nos hombros, na cabeça as mais ousadas ou as mais amigas, segredando-lhe não sei que arrulhos que ora a faziam sorrir, ora lhe traziam lagrimas, mas que sempre provocavam novos affagos, affagos interminaveis:

—Minha pombinha... minha amiguinha... minha querida...

D'alli para o pombal, continuar aquella vida de bohemios felisões, vida de concubinagem, n'uma promiscuidade sem limites e n'uma libertinagem de harem.

Polygamia desenfreada!

Excepção a ella, apenas um casal—a melhor pomba da manada, pomba branca, de uma alvura impeccavel de neve, e então um pombo rajado, preto e cinzento, de nuances azues-escuras, ares aguerridos de luctador vaidoso, um D. Juan emplumado, tentador.

Era o pombo mais atrevido do pombal, o de genio mais insoffrido e spasmos menos longos, muita vida, n'uma mobilidade continua de pescoço, nervoso, libertino. Pomba que desejasse possuia-a, sem arrulhos previos, sem pedidos, brutalmente se resistia, pacificamente porque muitas se lhe entregavam, preferiam-no, vinham deitarse-lhe no ninho, disputando primazias á força de bicadas.

E umas atraz de outras, e dias após dias, sempre assim!

Mas todas fugiam em seguida, não sei se de esfalfadas, se para dar logar a outras; uma só, a pomba branca, se quedava ao lado d'elle, paciente, resignada, n'um arrulhar cada vez mais doce, cheio de ternuras, muito meigo, idealmente brando, que agradava ao rajado, que o ufanava, incitando-o, convidando-o, provocando-o. Por isso entrou de aborrecer as outras, achando-as menos pombas, umas desavergonhadas que se iam entregar a outros, e de se affeiçoar á branca, a ella só, acarinhando-a muito, arrulhando com ella, alternadamente, ora um ora outro, gemendo amores.

Não imaginam os senhores nem ha nada que possa dar ideia da desordem, da perturbação que isso levou ao rancho tão dado a instinctos commodos de polygamia, tão avesso a duetos d'aquella natureza, onde os pombos eram de todos e as pombas eram communs.

E tal desordem subiu de ponto com o proceder do casal que levava dias inteiros dentro do pombal, sem sair, n'uma concubinagem que revoltava de egoista. E quando saíam não se juntavam com os outros—uma desfeita! uma offensa!—tomavam rumo differente: para a direita se os outros iam para a esquerda, para a esquerda se os outros iam para a direita, sempre ao contrario.

Recolhiam mais cedo, com sol ainda, e quando os outros vinham, já os encontravam no pombal, em ninhos contiguos a principio, no mesmo ninho depois!

Um escandalo! Um desaforo!

E planeavam-se ataques, desfeitas ao casal, muitas desfeitas.

Se os dois eram felizes arrulhando manso, entravam os outros a arrulhar forte, troça talvez, desespero decerto, todos juntos, combinados. E se isto não bastava, começavam todos a voar, batendo muito as azas, levantando a palha dos ninhos, precipitando-se sobre o casal, fingindo quedas, dando bicadas os mais raivosos, ou então os mais despeitados...

Prestes o rajado saltava do ninho, oppunha defesas de azas sobre a pomba branca e timida que o susto transia, inquieto, colerico; reagia depois, luctava por fim, levando-os não raro de vencida, obrigando-os a fugir do pombal em vergonhoso tropel, muito assustados, vencidos. E noite além, entravam um a um, vagarosos, muito mansos, sem ruido de azas, receiando acordar o casal que dormia aconchegado, muito quente, pescoço escondido sob a aza veludinea.

Dois mezes assim—dois mezes!—n'uma fidelidade conjugal ininterrupta, digna de servir de exemplo a outros bipedes que eu conheço, que os senhores conhecem, não?... Vida boa, na verdade, perfumada de arrulhos e esplendida de alegrias, passada em bellas digressões campos fóra, pousando no mesmo ramo, bebendo na mesma poça, dormindo no mesmo palmo de ninho, sonhando os mesmos sonhos, talvez...

Mas no fim d'esse tempo o rajado entrou de ter desconfianças, suspeitas de inconstancias e receios de infidelidades, de noite, emquanto dormia. Havia certa frieza nos geitos da pomba, menos ternura nos arrulhos, modos de enfadada ás vezes, certas perrices, resistencias mal disfarçadas. Ficava-se em casa se o rajado sahia, impassivel a supplicas, muito mona, com enlanguescimentos de palpebras e quebramentos de azas, uma desleixada; e espreitando-lhe o vôo, tomava para norte se o rajado ia para sul, vinha tarde e ia aninhar-se só, para lhe fugir.

Estava farta, vê-se. E como os outros a não queriam—rameira do rajado!—um dia levantou vôo e fez-se ao largo.





Abbade d'aldeia, conhecem, d'esses mui dados aos latins e ao vinagrinho de Xabregas, muito nacional e muito fino, bons velhos de quinzena e calça de alçapão, feros, muito rijos, á prova de rheumatismo e á prova de vintem, felizes na sua pobreza, amigos das creanças, bem humorados sempre, flôres de uma arvore que ora vae dando cardos. Perto do solar da Morgada, a tres kilometros só, havia um assim, o abbade das Donas, bom prégador n'outras eras, com famas de theologo ainda ao tempo.

—Disse-o o das Donas, collega! disse-o o das Donas!—era assim que muitas vezes acabavam disputas acaloradas, salpicadas de varios latins, sobre textos da Biblia e passagens dos apostolos.

—Theologia velha, diziam, a genuina!

A casa da residencia era uma casa muito antiga, portas em arco, paredes a desabar,—uma invernada forte e ia abaixo. O pateo da entrada era terreo, rimas de lenha secca d'um lado e d'outro, seguia-se a cosinha, um pequeno corredor, e ao fim uma velha varanda em ruinas que dava para um quintalorio, e cujas pedras se deslocavam, de mal assentes que estavam.

Preferia-a o bom do abbade para a reza das suas devoções, e n'essa tarde quem quer o poderia ver passeando-a a todo o comprimento, oculos na ponta do nariz, breviario na mão direita, a dois palmos, a esquerda a segurar a aba da quinzena, e um pequeno solideo com borla resguardando-lhe a calvicie.

A interromper a leitura, de quando em quando, umas pequenas exclamações de desgosto, arremessos de breviario, e por fim levantando a voz:

—Fome as pombas, sr.a Luiza: não fazem senão saltar...

—Bem fartas!—retorquiu de dentro, da labuta da cosinha,—mas têm lá visita, pomba que arribou.

E depois informando:

—Pomba guapa, toda branca. São agora tres ao todo, e então o pombo...

—Huum!... resmungou o abbade em voz de reticencias.—Percebo... percebo perfeitamente...—E foi metter-se no quarto, continuar a leitura.—Deixal-as! concluiu evangelico.

Era a pomba do rajado, adivinharam, que alli viera parar á reles pelintragem d'aquelle metro de gaiola feita de um caixão velho, com grades só na frente, muito suja sempre, arrumada p'r'alli ao fundo da varanda, humida de aguas entornadas, exhalando maus cheiros, um nojo.

Quando a mostrava á creada, o abbade dizia-lhe sempre:

—A sua vergonha, sr.a Luiza; a vergonha da sua cara. Como se os animaes não fossem tambem creaturas de Deus...

As pombas eram magras e o pombo era esqueletico.

Fez-se de amores com elle, tomou-lhe os habitos canalhas, manchando a alvura immaculada das pennas na immundicie fetida da gaiola em que ambos se aninhavam, arrulhavam, se espojavam. E como ella era gorda e bem tratada, flaccida de pennugens e de carnação consistente, apetitosa, o pombo não a largava—genio de libertino em corpo de tisico.

Em breve periodo entrou a pobre de emagrecer, sem forças para voar se queria voar, quedando-se dias inteiros ao canto da gaiola, encolhida, tristonha, arrependida talvez de ter deixado o pombal,—saudosa do rajado, o seu primeiro amor, quem sabe!

E depois, o pombo sujo já não se importava com ella, desprezava-a, tentara mesmo expulsal-a de parceiro com as outras, dando-lhe maus tratos,—á intrusa. Dôr incomparavel!

Mas um dia o ataque foi mais violento e ella teve de fugir, de voar, descançando amiudadas vezes, porque lhe faltavam as forças, arquejando sempre, arrastando-se em vôos baixos, sentindo vertigens se subia mais alto. Para passar um ribeiro descançou uma hora, e quando cobrou alento e começou o vôo, viu-se na agua e estremeceu, molhou ainda as azas, viu um corvo na sua propria imagem, um corvo negro que a perseguia silencioso, traiçoeiramente, que a ia talvez devorar... O que ella tinha sido e o que era!...

Lembrou-se então do pombal, do seu primeiro ninho, do rajado... Oh! o rajado!... Receiou primeiro, quem sabe se elle a quereria, tinha pomba, decerto... Iria?... Não iria?... O pombal ficava perto, um vôo valente e estava lá, acharia tudo em casa, era cedo ainda.

Fez-se de vôo e partiu.





A manhã era calma e o céo era azul. Canções de cotovias vibravam pelo ar que as balseiras alastravam de aromas, perfumando-o. A estrella d'alva tinha os ultimos bocejos para fechar de todo a palpebra cançada e adormecer no azul; e o oriente começava de animar-se de um alaranjado esplendido—decoração triumphal com que se orna aguardando a visita de quem tem de rolar pela eclyptica, alumiando o hemispherio e fecundando tudo—o cardo que rasteja e o cedro que vê longe...

N'aquelle repontar da manhã, o alto céo era de uma limpidez crystallina. Evolava-se de toda a banda um perfume virginal de dulcissima paz, e pelas ramagens verdejantes a volata suavissima dos ninhos começava, como uma saudação ao dia que vinha rompendo. No altar das laranjeiras, florido como em Domingo de festa, o rouxinol cantava a missa d'alva.

Em manhãs placidas como aquella, quantas vezes a branca não fizera as suas excursões alegres de touriste, na companhia do rajado, perdendo-se com elle atravez do horizonte áquella hora tranquillo e para toda a banda transparente!

Como tudo isto lembrava, agora!

Em todos esses pinheiraes, ao largo, os dois haviam descançado muitas vezes, muitas, expandindo em arrulhos de uma ternura ineffavel o amor extraordinario que os unia! Em toda a largura não se descobria um só campanario ou um só telhado onde não tivessem pousado ambos, alegres, contentes, doidos! E ella sempre ufana, acompanhava o macho nos seus vôos ainda os mais arrojados, perdia-se com elle para além das serranias mais distantes, destemida com a companhia que levava—um amigo que empenharia a vida só para salvar a da amante.

E que bella manhã, aquella! Tudo tão alegre! Era ver como as calhandras acordavam contentes, e se atiravam ares além no seu vôo perpendicular e rapido!

Entravam de animar-se cada vez mais as ramarias, com a vida dos ninhos; melros ensaiavam solicitos a sua partitura vibrante. Mas a toda a largura—nem uma aza de pomba palpitava. Ella só, desalentada e cheia de maguas, ia para onde a levava o destino,—quem sabe se para a morte...

Então chegou a branca ao pombal e voejou em torno espadanando as azas contra o muro, arremettendo os buracos, desejando entrar, faltando-lhe a coragem, voejando de novo para arremetter em seguida. Os seus antigos companheiros sentiram-na, conheceram-na, e arrulhando muito, e arrulhando forte, sairam em tropel e foram pousar no telhado, batendo muito as azas combinando ataque.

E como a pomba teimava em entrar, corriam a oppor-se, vedando-lhe a passagem.

De repente, um pombo negro abriu muito as azas, agitando-as, tenteou vôo n'uns pequeninos saltos nervosos e investiu com a pomba, com a desgraçada pomba, e os mais apoz elle. Havia sangue nos bicos e pennas voando em elypsoides, um barulho de azas que se chocavam com furia. Por fim um baque, a pomba caiu no chão, toda sangrenta, um olho arrebentado, bico aberto, n'um arquejar convulso, cortado de um arrulho guttural de vida que se esvae lentamente, gradualmente, com dôr. Um estremecimento de membros por fim, uma agitação geral repentina, e—morta!

Ares além, os assassinos em bando voavam á busca talvez de um ribeiro onde lavassem os bicos ensanguentados...





E o rajado?—hão-de os senhores perguntar. Demorem-se um pouco e vel-o-hão sair da janella das trepadeiras, alegres, felizão, bohemio, depois de uma noite passada na meia sombra dos cortinados leves de um leito, a rir, a amar, beijando o colo da Morgada, arrulhando com ella, arrulhando, ora um ora outro,—debicando... debicando... debicando...



BATALHAS DOMESTICAS




BATALHAS DOMESTICAS[1]


A Luiz Trigueiros.


Para o meu proposito, é inutil narrar-lhes esse pequenino e perfumado idyllio, côr de roza, que foi na vida d'ambos, durante um anno, o seu mais vivo encanto. Isto em Lisboa, onde elle, Joaquim Seabra, maior, empregado de escriptorio commercial, vivia desde pequeno uma furiosa vida de trabalho. A mãe tinha-lhe morrido, ainda elle era fedelho: e passados poucos mezes, tinha o Joaquim sete annos, uma doença complicada levara-lhe tambem o pae—homem de lavoura, pobre mas honrado, bronco mas leal, que nascera e levara a vida não me lembra em que aldeia da Beira, nas abas da serra da Estrella.

Sentindo-se morrer, o João Seabra pediu os sacramentos. Deram-lh'os. E quando o reitor ia retirar-se, grave, revestido, aconchegando ao largo peito o vaso sagrado das particulas, solemne sob a umbella branca de grandes ramagens amarellas, o pobre homem preveniu o padre de que em podendo lhe desejava uma palavra.

—Volto por aqui de caminho, dissera o reitor.

Assim fez. Mas caso é que ao abeirar-se de novo do catre do doente, junto do qual estava o Joaquim, descalço, mal remendado, o velho, entreabrindo os olhos e cerrando-os logo para sempre, mal tivera tempo de lhe murmurar, designando vagamente o filho:

—O pequeno, coitadinho!

De modo que foi o proprio reitor em pessoa, quem, passados dois annos, veio metter o orphão, como marçano, n'uma loja de ferragens da baixa, loja escura, funda, com uma ventana de vidraças, combalida, dando para uns saguões de predios contiguos. De marçano subiu com o tempo a caixeiro; e como era applicado, humilde, supportando com uma placidez resignada de beirão um trabalho por vezes superior ás suas forças, pulou um dia para a escrevaninha da casa, no andar de cima, vaga pela sahida para a cadeia do outro que commettera umas falcatruas.

—Precisava um tiro nos miolos, esse cão! dissera deante dos patrões o Joaquim.

E a incisiva phrase que fôra, emquanto remexia a papelada, todo o seu commentario ao procedimento irregular do companheiro, valera-lhe a involuntaria conquista do logar, como revelação, que era, das qualidades fundamentaes do seu caracter,—communs, de resto, ao typo beirão, profundamente animal, audaz, sobrio, musculoso, no fundo generoso e bom.

A vida começou então a ter para elle umas entreabertas mais risonhas, livre d'essa prisão estreita da escura loja, onde os seus instinctos hereditarios de independencia, acordados no fundo de uma natureza barbara de herminio, tinham, de quando em quando, uns bruscos, violentos repelões de rebelião... Até que um dia, n'uma d'essas guinadas que mesmo á escrevaninha o assaltavam, pensou em ir á terra onde não voltara desde pequeno. Ainda lá tinha uns tios, vivia ainda o reitor. E n'uma introversão de momentos, mirando atravez da janella o claro céo azul, alto n'aquella manhã serena de maio, o Seabra teve a remota visão do seu passado—das coisas da sua infancia, da sua pobre e humilde aldeia encravada n'um declive de serrania que ao longe elevava o dorso, nitente de neves eternas. E como se mirasse tudo atravez de um binoculo invertido, elle lá via além, muito longe para as suggestões do seu desejo, muito afastado para as debeis reminiscencias da sua memoria, tudo isso que elle dizia em tres palavras—«a minha terra!»—isto é, esse montão informe de velhos tectos chamuscados onde havia um debaixo do qual nascera; o campanario alto e esguio; a igreja oblonga; a fita branca do muro do cemiterio onde seu pae e sua mãe jaziam; a paizagem circumdante cortada de canaes e regueiras, que parecem fios de prata serpeando na esmeralda das baixas, toda retalhada em hortejos; e então a velha legião amiga das arvores—o zimbro ao alto dos môrros nús; depois, descendo, as urzes brancas; os piornos; os bellos carvalhos altivos; e já a meio da encosta, estendendo sobre a zona agricola e horticola o verde e tenro parasol das suas soberbas folhas—o castanheiro, emfim.

Atravez da sua vida de balcão, duramente moirejada a mover barras de ferro, feixes pesados de vergas, ceirões informes de pregaria, com intermittencias raras de descanço, algum domingo, pelas hortas dos arredores, ou ás vezes n'um bote, pelo Tejo,—a sensação melancolica da sua paizagem nativa não chegara a obliterar-se-lhe no cerebro, nem tão pouco a lembrança dos seus velhos conhecimentos de infancia, dos seus companheiros de escola que iam todos os dias, de manhã e de tarde, á lição a casa do reitor, n'aquelle velho sotão da residencia, com paredes denegridas e tecto de madeira com manchas...

E que seria feito d'elles? Talvez que os não conhecesse, que o não reconhecessem, agora. Talvez. E esta duvida, esta desconfiança, dava ao seu desejo de os ver, de se lhes mostrar,—com o seu fraque, a sua bengala, a sua cadeia de oiro escorrendo sobre o colete claro—o encanto subtil e ingenuo de uma vaidade. E acabou de o decidir, emfim, a propor aos patrões essa viagem, certa imagem de rapariga loira, olhos azues e toda rozada de cutis, que elle, sem quasi dar por isso, espontaneamente, insensivelmente, fora sabendo, de longe, que se conservava ainda solteira...

...a Emilia!

E porque seja extranho ao meu proposito, e quasi indifferente á historia que lhes vou contando, a chronica preliminar d'esse consorcio, direi que a velha estola do reitor os uniu emfim uma manhã—manhã de julho, na velha e ampla igreja da freguezia, toda banhada de sol, toda rumorejante de vozes, e sobre a qual cahia sem despejar, como uma chuva alegre de pétalas, a saraivada metalica dos sinos, repicando... Até que passados dias, eil-os emfim em Lisboa, installados não sei em que beco da Baixa, perto da «obrigação» do Joaquim, que era, como lhes disse, o escriptorio.

E aqui rompe a historia; e se é do agrado dos senhores, comecemos.