Bem, aquelle primeiro anno. Por uma banda a Emilia a cuidar da casa,
toda se desvelando nos minimos pormenores do interior, na cosinha, no
amanho das roupas, no decorativo, mesmo, dos quartos e saletas que a
mobilia, comprada de novo, tornava alegres e confortaveis. Elle, por
outra banda, trazendo-lhe nos fins dos mezes intacto o seu ordenado, e
trazendo-lhe, cada dia, uma caricia mais fresca e mais suave. E dada a
homogeneidade dos seus temperamentos, a proveniencia commum das suas
naturezas, originarias do mesmo solo, filhas da mesma raça,
temperadas do mesmo sangue, ricas das mesmas
infiltrações de
seiva e de saude, explica-se logicamente esse parallelismo absoluto de
vontades que os dois levavam na vida, sem um choque nas suas
aspirações, sem um encontro avesso nos seus
desejos, sem a minima divergencia no seu modo de
vêr e de pensar. Educados em meios differentes, embora! o que
nas suas naturezas havia de fundamental, e até de
intensamente
uniforme no raio visual das suas intelligencias, tornara podemos dizer
nullo, sem consequencias no fio commum das suas vidas, esse largo
periodo passado em latitudes differentes:—ella, onde ambos tinham
nascido, debaixo do mesmo céo,
á luz do mesmo
sol, á
sombra das mesmas arvores; elle, sequestrado de tudo isso, mas n'um
meio sem côr para elle
definida, pardo, estreito como uma gaiola, e onde, portanto, a sua
natureza se conservara estagnada,—estagnada como uma pequena lagoa,
dormente debaixo do luar melancolico...
Vinha d'ahi, e do fundo ingenuo das suas almas, estrelladas das mesmas
superstições, povoadas das mesmas imagens,
embaladas, ao nascerem, ao rythmo da mesma
canção, essa forte, dulcissima
corrente de ternura espiritualisada que era o motor primeiro dos seus
abraços, o
mais vivo e fresco perfume dos seus beijos, a mais alta, a mais serena
e orvalhada efflorescencia do seu profundo amor... E pois que havia
tambem no
sangue d'ambos—bem como no seio de um diamante as
iriações mordentes—as rubras, incandescentes
faulhas de uma animalidade impetuosa,
adivinha-se quanto seria intensa nos dois a vida sexual,—casta a
despeito de tudo,
vivente como um largo pampano, nimbada, emfim, como certas telas
classicas, por umas cabecitas loiras de creanças, frescas,
ridentes, côr de rosa...
D'ahi, como lhes disse no principio, esse pequenino e perfumado
idyllio, côr de rosa, que fôra na vida de ambos,
durante um
anno, o seu mais vivo encanto...
Em certo dia, porém, regressava o Joaquim do escriptorio,
noite cerrada já, quando uma rapariguita que lhes servia de
creada havia
dois dias, vindo abrir a cancella, lhe desfechou estas palavras no
accento
beirão:
—A minha madrinha está muito mal.
—Muito mal?
—Sim, parece que lhe deu pela cabeça não sei
quê.
Joaquim Seabra estacou, como que fulminado. E encostando-se
á hombreira, para não cahir, sentiu passar-lhe
pelo cerebro, como um
tufão de peste, uma ideia que lhe fez vertigens. Teve um
presentimento... E cobrando alentos, confuso deante da rapariguita que
o olhava, disse-lhe com a
voz trémula, no tom de quem procura, compromettido e
humilde,
esconder um pensamento:
—Bem sei... Isso costuma-lhe dar... Uns ataques... Foi depois que veio
da Beira.
—Parece que lhe chamam flatos, volveu-lhe a pequena.—Fica-se como
doida...
—Sim... chamam-lhe flatos... fica-se como doida... É isso.
E como se sentissem passos subindo a escada, inquilino ou pessoa do
andar de baixo,—talvez alguem que o procurasse!—fechou a porta com
força; e apagando a luz, com um sopro trémulo,
coseu-se a um canto impondo silencio, com a mão sobre a
bocca arquejante da
rapariga.
—Cala-te, ouviste? disse-lhe quasi com o bafo—Se te calares hei-de te
dar dinheiro. Cala-te.
A rapariga calou-se, aniquillada, toda enroscada a um canto, como um
novello. E passados instantes, quando um grande silencio envolvia todo
o predio, ouvindo-se apenas, de quando em quando, o rodar de algum trem
nas ruas proximas, o Seabra tomou nos braços
trémulos
a pequena, e foi, cauteloso como um bandido,
leval-a á cama.
—Ouves, Luiza? Não faças bulha. Dorme.
E fechando-lhe a porta á chave, respirou, hirto no meio do
corredor em trevas. Devia de ser assim a sepultura: aquelle silencio,
aquella escuridão impenetravel! E elle, como um cataleptico,
alli
encafuado vivo...—triturado pela magua, roido pela dôr,
desfeito pela
desgraça, como se milhões de larvas o
triturassem, roessem,
desfizessem, implacaveis e crueis, famelicas da ultima particula da sua
carne, sedentas da ultima gotta do seu sangue, famelicas e sedentas
até da sua propria alma... Vivo, ó Deus cruel!
ó Deus
desapiedado! Vivo e no emtanto... morto: vivo para a
sensação
esphaceladora da sua atroz desgraça, do seu cruel,
cruciantissimo martyrio; morto,
aniquillado, desfeito, para a visão auroreal das suas
esperanças...—as suas esperanças! revoada alegre
de pombas, candidas, serenas,
immaculadas, que um tufão de desgraça varrera do
ninho do seu
peito, para longe e para sempre...
E humilde como um rafeiro ou como um trapo, n'uma
prostração de louco embriagado, dir-se-hia que o
cerebro deixara de funccionar n'esse infeliz—como relogio subitamente
parado, marcando um momento fatal!—e
que tudo quanto elle sentia, e que tudo, oh Deus! quanto elle gosava!
era essa impressão anniquilladora do
Nada,
que o fundia na
treva circumdante, com ella identificando-o, irmanando-o,
confundindo-o, e tanto e tão intimamente, que elle proprio
n'ella se sentia
diluido, e no silencio...
Subito, porém, a um gemido, a um grito, a um ranger, escoado
alli de perto como um reptil, escoado alli de
perto, como um verme,
phosphorejante na treva á semelhança de um
demonio, que agitasse um
pierrot de
cascaveis,—uma centelha de vida
animou esse corpo aniquillado, e dentro d'aquelle cerebro fez repontar,
como luz de lampada funerea allumiando um cenobio silencioso, a chamma
de uma ideia... E teve então de si proprio a extranha,
diabolica
visão de um esqueleto carcomido, desossado, alquebrado,
mirando pelo arco immovel das orbitas, d'onde dois feixes de luz
escorriam—aquelle trapo miserando alli cahido, informe, esqualido,
repellente,
montão de gelo, e lagrimas, e trevas...—que era elle
tambem!...
Entretanto, e como por força mesmo d'essa
allucinação desvairada e tragica, o cerebro
perdera n'elle a recta, serena faculdade do raciocinio, elle continuava
absorto, incomprehendido, estupido, deante da «sua
desgraça»—como deante de um
grande mar de negrume, profundo e estagnado, por uma noite sem lua e
debaixo de um céo sem
estrellas, torvo de um borel cerradissimo de nuvens, a sombra de um
espectro... E assim em breve, retombou n'essa altitude que diremos
irracional,—mudo,
aniquillado, desfeito, no meio da treva silenciosa, como no lodo fundo
de um poço um bloco inanimado...
No escuro do seu cubiculo, a pequena soluçava a
espaços. E era como se a propria treva soluçasse,
esse chorar abafado da
creança, espavorida das coisas que a cercavam, para ella
mysteriosas e funebres. Era como se um
alegre pintasilgo, vivo, irrequieto, palreiro, fosse do seu ramo
florido de amendoeira, por uma tarde serena de abril, pousar, n'um
vôo de acaso, na mansarda
tristonha de um morcego, em
qualquer frincha desabrigada de
velho muro, abandonado algures...
E porque viera? E para que viera? Não sabia. No emtanto, ao
contrario do que lhe tinham promettido, que saudade infinita, repassada
de profunda nostalgia, da telha vã do seu humilde casebre,
atravez do
qual passavam os primeiros alvores da manhã, como um
perfumado beijo de
frescura! Dois dias, apenas! Entretanto, já dois dias! Tanto
tempo em
tão pouco tempo! E não tornara mais a
vêr passaros! e
não mais tornara a ouvir, de manhã, tocando
á missa d'alva, tangendo á tarde a
Ave-Marias, o seu querido e alegre sino d'aldeia...—além,
n'aquella riba suave e
pittoresca, prateada, beijada do luar áquella hora!... E o
fio do seu
pensamento, que outr'ora derivava limpido, sereno, crystallino, como
pequenino arroio murmurante que vae entre duas alas de flores singelas,
torvelinhava agora estupidamente, desnorteado, ao acaso, convertido
n'um veio torvo, lodoso e borbulhante, soluçando, como se
fôra de lagrimas, occulto sob a folhagem pallida...
A dois passos, no corredor escuro, o outro continuava prostrado, junto
da porta que dava para o quarto onde a mulher, deitada, devia talvez
dormir, de borco sobre a roupa revolta, ou no chão talvez...
Mas como acontece ás tempestades da natureza, tambem a
tempestade
d'aquella alma de homem entrou de se diluir em pranto, pouco a pouco,
serenamente, gradualmente. Chorou. E como se fôra o
véo das
lagrimas que lhe não deixára vêr
até então os
pormenores do seu infortunio, d'este permittindo-lhe apenas uma
sensação que diremos
informe, entrou de se fazer com a vasante mais lucido o raciocinio,
mais precisa e mais esperta a ideia que se lhe accendeu no cerebro,
como luz que pouco a pouco vae surgindo na lampada de um claustro,
allumiando nitidamente, sob o docel frio das sombras, as arestas
marmoreas de um sepulcro...
Ah! mas então, sob a impressão raciocinada e fria
da sua tragedia, cujas linhas contornaes pareciam feitas de gelo, uma
nova tempestade rebentou,—como uma trovoada enorme em tarde secca de
maio. E foram então as imprecações, os
gritos
estrangulados irrompendo, em surdina, por entre as maxillas ferradas,
do fundo do peito em ancias.
Então foi o arrancar convulsivo dos cabellos, ás
guinadas, teimosamente,
n'um duello de loucura com a dôr physica, desafiando-a,
espicaçando-a, dando-lhe a beber o proprio sangue do peito,
rasgado pelas dez unhas crispantes, lacerantes como se foram de abutre.
—Ah! raios do céo, e não morro!
E como o grito lhe sahiu mais alto, prestes levou ao chão,
como beijando-o, os labios estranhamente rasgados pela colera. Veio-lhe
então o pudor melindroso da sua desgraça, o medo
horrivel de que
se divulgasse, de que os outros a soubessem,—de que a pequenita,
mesmo, a
conhecesse... O que diriam? o que pensariam? E todo elle se encolhia, e
todo elle se sentia gelado até ao mais intimo da sua alma,
suppondo-se na rua, como outr'ora, ao vivo e claro sol, levando
adherente
ás costas, como um ferrete ou como um caustico o olhar de
«toda a
gente»... E com as unhas ferradas na testa, escondia da
propria treva, com as
mãos ambas, o rosto cobarde e arrepanhado.
—Diabos do inferno! levae-me!
A este novo grito, porém, subito se recolheu n'um grande
pavor religioso. Do fundo da sua natureza alguma voz se elevou, serena,
doce,
harmoniosa, como na paz tranquilla do campo o fumo azul-claro de um
casal... E teve a doce visão de um arco-iris,
bonançoso e rutilante, repontando luminoso no borel
asperrimo da sua alma, onde uma clareira
se abria. E foi quasi a sorrir, chorando as primeiras lagrimas
tranquillas, que dos seus labios quasi serenos voou como uma pomba
alvinitente, que transporta no rosado bico um ramo de oliveira, esta
palavra de amor:
—Deus!
E para logo sentiu sobre a sua fronte, de manso e manso erguida n'um
como enlevo de visão, um ruflar de azas de pombas...
á hora d'alva... sobre os campos... n'uma clara
manhã de maio, perfumada...
E como se mão invisivel o erguesse, de vagar, serenamente,
enxugando-lhe da orla das palpebras a ultima lagrima de sangue deposta
alli pela sua alma, o pobre foi submissamente escoando-se para o quarto
contiguo,
onde sua mulher estava, o seu anjo, o seu thesoiro, a sua vida... E foi
submissamente, como um cão duramente batido que volta aos
affagos do dono, que sobre os labios da adormecida esposa, seccos,
pallidos, desbotados, ao claro luar vindo do céo, o triste
uniu os
seus labios frementes,—...n'um beijo suavissimo de perdão.
Ao mesmo
tempo que ella, n'um delirio, repetia a phrase cruel:
—Mais vinho!
NOTAS:
[1] Sendo
necessario completar o numero preestabelecido de paginas de
cada volume d'esta
Collecção,
numero
além do qual se não póde ir e aquem do
qual se não deve ficar,—o editor pediu e obteve do
auctor, em vez de novo conto, um excerpto do seu livro em
preparação, livro provisoriamente baptisado com o
titulo de
Batalhas domesticas. O excerpto
póde dizer-se
que constitue só por si,
como os leitores verão, um trabalho litterario, independente
e uno, o que de certo modo lhe
dá logar n'esta collecção, ao lado dos
precedentes,
estabelecendo, além disso, a transição
do espirito do auctor para uma
nova phase, litteraria e artistica.
N. do E.
INDICE
| Idyllio rustico |
1 |
| Sultão |
18 |
| Ultima dadiva |
41 |
| Preludios de festa |
55 |
| Typos da terra |
73 |
| Vae Victoribus |
101 |
| Maricas |
111 |
| Para a escola |
119 |
| Tragedia rustica |
131 |
| Abyssus abyssum |
153 |
| Mãe |
169 |
| Arrulhos |
179 |
| Batalhas domesticas |
195 |
OS MEUS AMORES E A CRITICA
Da Revista Illustrada (extracto da chronica):—«...
Os
meus
amores, de Trindade Coelho, é um volume de contos
para toda
a gente, em
condições agradabilissimas ao paladar d'ambos os
sexos, e com delicadas circumstancias a prazerem, principalmente, ao
feminino. Porque uma das preoccupações
litterarias mais evidentes d'este
escriptor primoroso é fazer jus á amisade das
leitoras, e como dispõe
de pericia no ferir de certas notas emoventes e no tocar certas
fragilidades de sentimento, consegue-o.—
Alfredo Mesquita.
Jornal da Noite:—«Trindade Coelho—Este illustre escriptor,
nosso talentoso colega do «Portugal», brindou-nos
com um
exemplar do seu novo livro de contos
Os meus amores.
De entre a pleiade de prosadores, que por ahi mourejam no mundo das
lettras, a individualidade de Trindade Coelho destaca-se
distinctamente, e impõe-se á
admiração dos
que apreciam os talentos brilhantes privilegiados.
Os trabalhos do illustre escriptor, se pela estructura original e
encantadora são dignos do maior apreço, pela
elegancia da fórma, burilada a primor n'um estylo finissimo
e scintillante, despertam os mais francos, sinceros e enthusiasticos
encomios dos que os
lêem.
Quem conhece o formoso talento de Trindade Coelho, e o seu bello
caracter, avalia bem, por certo, como ambos estes seus
característicos serão traduzidos no novo livro de
contos do nosso distincto
collega.»
Diario Popular:—«
Os meus amores.—Assim
se chama um livro
de graciosos contos, retratando aspectos da vida d'aldeia e do campo,
que acaba de apparecer, firmado por Trindade Coelho.
O escriptor, como verdadeiro artista que é, localisa todas
as suas attenções, de ha muito, no trabalho de
apprehender com fidelidade o viver campezino, sobretudo da vasta
região transmontana, a
qual lhe foi berço. Por isso o seu fabrico litterario se
aprimora de dia
para dia n'uma escala crescente de sinceridade, e por tanto merito:
Os
meus amores o attestam, quando postos em parallelo com os
primeiros
contos publicados avulso.
Trindade Coelho cultiva com cuidado especial o dialogo que busca e
consegue photographar com particular exactidão. Em vez dos
descriptivos, quasi despresados, são trechos successivos de
conversas
d'uma encantandora rudeza ingenua que formam o estofo principal de
todas as suas producções. Isto e a felicidade com
que sabe
observar, dão o cunho pessoal da sua obra, que proporciona
agradaveis e confortaveis momentos
de leitura.»
Diario Illustrado:—«Abrem
Os meus amores,
de Trindade
Coelho, com um admiravel soneto de Luiz Osorio, que depômos
nas
mãos da leitora, como o perfumado ramo de cravos
valencianos, a flôr actual das suas
predilecções femininas: (
segue o soneto
incial.)
E pelo braço do poeta da
Alma lyrica
subimos ao doce
convivio espiritual da alma de Trindade Coelho.
O conto
Mãe, uma rica joia engastada
n'este livro,
brilhando ahi por todas as suas facetas cortadas em diamante, e
buriladas com a fina arte
de um joalheiro florentino, bastaria para autenticar-lhe o valor e para
aferir os dotes mentaes de Trindade Coelho, que tem no seu brilhante
estylo moderno, fluente e sobrio, incisivo e profundo, vibratil e
melodico, o diploma do seu notavel talento.
É principalmente pela sinceridade intuitiva e pela
naturalidade espontanea que estes contos nos captivam.
O auctor diz-nos, sem preoccupações de escola e
sem pretenções a abrir caminho pela
deslocação do vocabulo ou pela selva
escura do escandalo, o que viu, analysou, observou e sentiu.
As suas doces narrativas, penetradas da alma campestre, deslisam
suavemente, tocadas a espaços de uma inegualavel melancolia
contemplativa que lhes duplica o encanto.
Mas n'esses singelos contos, artisticamente concretisados, Trindade
Coelho revela o superior poder evocativo da visão intima,
que o singularisa.
A complexa natureza, para tantos inexpressiva e muda, tem para elle,
como para todos os artistas de raça, attitudes,
expressões, côres e sons, que o auctor
vê, adivinha, sente e traduz com a
fascinadora eloquencia dos iniciados, e o mysterioso enternecimento,
que
só nos transmitte a simples leitura dos poetas.
Ha rapidos traços de analyse emotiva ou de
commoção reflexa que valem poemas.
E não serão o
Idylio rustico,
a
Mãe e outros contos, soberbamente
delineados e intimamente
vividos, verdadeiros poemas em prosa?
Felicitamos calorosamente Trindade Coelho, o nosso querido amigo, pelo
seu primeiro livro, que embora glorifique o seu nome, não
é de certo o seu primeiro triumpho.—
Gabriel
Claudio.»
Jornal do Porto:—«
Os meus amores.—A
collecção Antonio Maria Pereira augmentou se d'um
novo volume original. Intitula-se
Os meus amores
e está
escripto pelo nosso illustre collega e litterato
distincto o sr. Trindade Coelhho.
D'este livro que, pelas suas destacadas qualidades litterarias, deve
achar grande acceitação no nosso publico,
escreveremos em breve as palavras apreciadoras que elle
merece.»
Correio Elvense:—Trindade
Coelho.—Este nosso amigo e festejado
escriptor, publicou agora o seu primeiro livro de contos e balladas a
que deu o titulo:
Os meus amores, editado pela
acreditada livraria de
Antonio Maria Pereira.
Trindade Coelho, que hoje occupa um proeminente logar no jornalismo da
capital, fez ainda ha pouco algumas das suas melhores armas na imprensa
em Portalegre, onde creou dois jornaes, um dos quaes ainda vive, que
tiveram vida gloriosa em quanto os animou o trabalho do distincto
estylista.
Não só nos seus escriptos passados, mas
então, conhecemos o grande valor que indiscutivelmente
possue. Não nos surprehendem pois os
seus triumphos e rejubilamo-nos com elles com a alegria e sinceridade
de
bons e sinceros amigos.
N'um dos proximos numeros falaremos da impressão colhida em
Os meus amores, agradecendo desde já as
expressões
affectuosissimas que acompanham a dedicatoria do livro, que o seu
auctor nos
offertou.»
Correio do Norte:—«
Os meus amores.—Contos
e
balladas.—Trindade Coelho, o já conhecido e
apreciadíssimo
escriptor, acaba de publicar um livro de contos com o titulo acima
indicado. É esta uma
bella novidade para o nosso mundo litterario, onde Trindade Coelho de
ha muito soube conquistar um logar dos mais distinctos, pelo seu bello
talento e poderosas qualidades de escriptor.
Limitamo-nos por agora a dar esta simples noticia do apparecimento do
novo livro, para depois escrevermos mais detidamente sobre elle.
Agradecemos ao nosso presadissimo amigo a delicadeza do seu
offerecimento.»
O Globo:—«
Os meus amores.—Mais um
livro editado pela
livraria de Antonio Maria Pereira. Intitula-se
Os meus amores
e
subscreve-o o
nome de Trindade Coelho.
Não o lemos ainda porque o recebemos agora; mas ha-de ser
por certo trabalho de grande valor artistico, como
invenção
e como execução, porque Trindade Coelho
é incapaz de produzir uma obra
litteraria má. A sua educação
litteraria está feita, e
os seus numerosos trabalhos tão apreciados, tão
portuguezmente escriptos, tão
sentidos e tão espontaneos revelam qualidades de escriptor
de raça. Elle tanto
póde ser um jornalista eminente como é um
contista original.
Os meus amores é uma
collecção de
contos e balladas. Conhecemos alguns capitulos, que são
primorosos, mas carecemos de ler todo o
livro para não errar na apreciação.
Vamos lel-o
com a convicção de que teremos de saborear um
d'esses raros mimos litterarios que só os
privilegiados de talento sabem offerecer aos seus leitores.»
Diario de Noticias:—«
Os
meus amores.—
Contos
e
balladas.—Anunciámos, em tempo, o proximo
apparecimento
d'este trabalho, com que o brilhante contista e nosso collega do
Portugal, o
sr. Trindade Coelho, ia augmentar a collecção,
já tão valiosa, das edições
do sr. Antonio Maria Pereira.
O livro acha-se, emfim, publicado, e em nada desdiz do conceito que
desde logo nos auctorisaram a emitir os elevados meritos litterarios do
seu auctor, tantas vezes comprovados em numerosos escriptos anteriores.
Com uma observação escrupulosa, e um pittoresco
estylo, d'uma pujança e d'uma riqueza não
vulgares, sem attentados contra o bom
gosto, nem rebeldias contra o bom senso, os contos do sr. Trindade
Coelho
são, a todos os respeitos, um verdadeiro primor, uma obra
que ha-de entrar,
sem hesitações, na
acceitação
do publico, e que ha-de ficar longo tempo, a attestar, n'uma formosa
prova, a riqueza de um espirito, superiormente educado, ductil e
promptamente malleavel.
Porque esses contos são a obra de um genuino artista, cuja
maneira, simultaneamente facil e apuradissima,
revelando a
espontaneidade de uma
fecunda phantasia, traduz e affirma a fina sensibilidade de uma alma
delicadamente temperada, a viveza de um talento exuberante de vigor e
de seiva.
Não póde entrar nos curtos limites de uma simples
noticia, a mais desenvolvida critica d'esse trabalho, que tem, na
proprio nome do seu auctor, o melhor e o mais seguro titulo de
recommendação para obter do publico a
consagração de um largo e legitimo
successo.
Apenas acrescentaremos que abre o livro um encantador soneto de Luiz
Osorio—preciosa chave de oiro, na realidade bem merecida por aquelle
rico e primoroso escrinio de verdadeiras e puras joias
litterarias.»
A Actualidade:—«
Os meus amores.—Este
nome é o
de um novo livro da collecção Antonio Maria
Pereira. Pelo titulo
presume-se um volume de versos; mas não é, o que
não quer
dizer que n'elle se não surprehenda
legitima poesia.
Trata-se de contos e balladas, originaes do sr. Trindade Coelho, um dos
nossos mais apreciados e brilhantes
escriptores.
Eis, muito resumidamente, as prendas que distinguem este primoroso
contista:
Estylo correcto, elegante, vivo; descripções
ricas de observação e attrahentes tanto pelo
colorido como pelo esmerado da fórma;
despidos de grandes artificios os entrechos, mas subjugantes pela muita
naturalidade; o dialogo, em summa, admiravel pela singeleza e, sobre
tudo, pela propriedade.
Com estes predicados o livro
Os meus amores, do
sr. Trindade Coelho,
deve incontestavelmente ser de valor. E é. São
encantadoras todas as narrativas que contém. Logo ao abrir
depara-se-nos um
Idylio rustico, que embriaga e
predispõe para a leitura de
todo o volume,
onde se encontram quadros soberbos, reproduzidos do natural com um
notavel
poder de observação e que deixam o espirito
suavemente
impressionado. Leiam, e verão que não exageramos
na opinião
que ahi deixamos rapidamente exposta.
Ao auctor o nosso reconhecimento pelo mimo da offerenda.»
Correio da Manhã:—«Registar
o apparecimento de um
livro bom, linguagem elevada e singella, desartificioso e artistico,
repositorio vasto de observação, vibrado por uma
grande
impressão pessoal e subjectiva, é sempre
agradavel á chronica, n'este tempo sobretudo de
litteratura gafada, ou de arte ainda litteraria quasi pornographica.
Os meus amores que amavelmente acaba de nos
offerecer sr. Trindade
Coelho é um livro d'esses. Collecção
primorosa de contos e balladas, em que no mais despretencioso dos
estylos nos conta
recordações e idylios e nos mostra uma galeria
rica de typos e de figuras cuidadosamente observados e primorosamente
expostos.
O ultimo conto
Para a escola, que d'essa bella
collecção acabamos de ler, é
encantador de verdade, de singeleza, de arte, e
assimelha se notavelmente á maneira de Gustavo Droz.
Não é o logar nem a accasião de
fazermos a critica do livro e a apreciação d'este
novo, d'este debutante, que ao
primeiro assalto parece estar já senhor da batalha.
É por isso que sinceramente o felicitamos.»
Vanguarda:—«
Os
meus amores.—O nosso collega, o sr.
Trindade Coelho, que quasi só conheciamos pelos seus
libellos accusatorios,
acaba de nos enviar um livro primoroso com este titulo, no qual a
feição carregada e sombria do agente do
ministerio publico desapparece por completo, para nos deixar apreciar
só o espirito finalmente delicado do
homem de lettras conhecedor dos melhores processos de arte e
verdadeiramente sabedor do seu officio.
Confessamos que nos apraz muito mais admirar este Trindade Coelho,
que
o outro que temos visto apertado dentro da negra vestimenta de agente
do ministerio publico, que parece lhe oblitera ás vezes as
suas
excellentes faculdades.»
Primeiro de Janeiro:—«
Os
meus amores.—Acabamos de receber
o formosissimo livro de contos «
Os meus amores»,
de
Trindade Coelho.
Não é ainda a occasião de
pôrmos em relevo todas as qualidades litterarias, complexas e
brilhantissimas, que se evidenciam n'este livro, demonstrando um dos
talentos mais vivos e assignalaveis entre os
mais illustres cultores da prosa portugueza.
Os contos por onde «
Os meus amores»
se repartem
não são apenas maravilhas de linguagem, onde
tão sómente se
destaquem dextrezas e fulgurações do estylo: a
acção que os anima constitue uma deliciosa
galeria de quadros, aspectos intimos e exteriores da vida, colhidos em
flagrante com uma extraordinaria subtileza e lucidez de
observação e trasladados a uma fórma
superiormente artistica, onde ha
firmemente accentuados todos os caracteres de uma esplendida
organisação litteraria.
É um livro vibrante e magnifico—adoraveis paginas
intensamente ou delicadamente emocionadas e primorosamente escriptas,
cuja leitura
é um verdadeiro encanto.
As nossas cordeaes felicitações a Trindade
Coelho, a quem agradecemos a gentilissima offerta do seu
livro.»
Folha do Povo:—«
Os
meus amores.—Esta publicada em volume
uma série de
contos e balladas com que
o sr. Trindade
Coelho, o brilhante collaborador do
Portugal, vem
enriquecer a
litteratura
contista entre nós, hoje
tão
querida do publico, depois
que os trabalhos de Fialho d'Almeida deram a esse genero litterario um
valor até
então mesquinho.
A primeira qualidade que notamos logo nos
contos e balladas
do sr.
Trindade Coelho é um estylo muito seu, cheio de uma
crystallina naturalidade,
affastando-se completamente
d'essas
excrescencias de mau
gosto, que ultimamente têm abastardado a lingua
portugueza,—prova da superioridade intellectual do escriptor de que
nos occupamos—, visto que não mira a uma falsa gloria,
conquistada facilmenle
pelas excentricidades de estylo, que são hoje uma verdadeira
mania
entre alguns escriptores da chamada geração
moderna.
O sr. Trindade Coelho escreveu a sua prosa obedecendo á
espontaneidade das suas impressões, ao seu sentir, sem
deixar de se revelar
um artista, porque nunca a phrase lhe sae banal, nem tão
pouco envolvida
em ouropeis de mau gosto litterario.
E no entanto encanta-nos,—prova de que está alli um
primoroso escriptor, um espírito delicado, reproduzindo
todos os
cambiantes da natureza por uma fórma de
observação,
que não é d'esta nem d'aquella escola.
É simplesmeate sua, individual.
Notamos mesmo um progresso no livro do sr. Trindade Coelho; porque
as
suas primeiras producções litterarias
ressentiam-se de uma tal ou qual preoccupação de
effeito no modo de construir a
phrase. Hoje, o escriptor adquire a independencia da sua maneira, do
seu processo, e feito a tirar decorre fatalmente d'essa independencia,
visto que os
seus quadros obedecem apenas a uma rigorosa e fiel
reproducção do que o artista observa em volta de
si.
Certamente que o publico lerá com encanto o novo livro do
sr. Trindade Coelho, pelo que felicitamos o auctor, e—podemos mesmo
dizer—a litteratura portugueza.—
Silva Lisboa.»
Diario Illustrado:—«De
tempos a tempos chegava-nos do
Atemtejo um periodico que não deixavamos nunca de
lêr pelo
fino gosto litterario, pittoresco e moderno, que se revelava em todos
os seus artigos, incluindo os politicos. Esse periodico era redigido
por Tindade Coelho,
cujo talento conheciamos desde Coimbra, e cuja individualidade
litteraria viamos agora accentuar-se com um vigor de originalidade
verdadeiramente notavel.
De quando em quando, Trindade Coelho obsequiava-nos com um artigo para
o
Diario Illustrado e, vindo establecer
residencia em Lisboa, algumas
vezes tivemos a honra de receber n'esta redacção
a sua visita, sempre agradabillíssima para nós,
porque a sua
conversação scintillante aligeirava as nossas
pesadas horas de trabalho.
Pois bem, Trindade Coelho acaba de reunir n'um volume—que faz parte da
collecção
Antonio Maria Pereira—os
seus
deliciosos contos, cheios de observação, de
verdade, de simplicidade
artistisca, que é, a nosso vêr, suprema
expressão de belleza n'este genero de
composições litterarias.
Os meus amores são um bello livro, em
que o estylo se
não contorce atormentado, como em tantos outros, em que os
rebuscados esplendores da
forma litteraria denunciam uma carencia absoluta de espontaneidade.
Tudo alli deriva naturalmente, tanto na sequencia logica dos caracteres
e
dos episodios, como na contextura facil, mas colorida, dos
períodos.
N'uma palavra,
Os meus amores são a
obra de um artista, de
um homem que sabe do seu officio, e que tem uma individualidade bem
definida por
traços profundos de verdadeira originalidade.»
Voz Publica:—«
Os
meus amores.—Trindade Coelho,
innegavelmente um talento de primeira agua, acaba de brindar a
litteratura portugueza com
um excellente livro de contos subordinado áquelle titulo e
que constitue o duodecimo volume da elegantissima
Collecção
Antonio Maria Pereira.
Contos e balladas é o sub-titulo do
livro, e muitos ao
lêrem-n'o julgarão que se trata de versos; mas
não,
é em prosa, em prosa vernacula, correcta e vibrante que
estão escriptos os bellos
contos de que se compõe este livro, digno a todos os
respeitos de ser
lido.
São todos elles uns contos ligeiros, encantadores pela
espontaneidade e verdade dos seus typos e das suas
situações,
lembrando um tudo-nada os formosos typos de aldeia, tão
magistralmente desenhados pelo
mallogrado auctor da
Morgadinha dos Canaviaes e
dos
Fidalgos da Casa
Mourisca.
Lemos d'um folego o magnifico livro, e ninguem que o comece a
lêr deixará de o fazer como nós;
tão
attrahente é a fórma por que Trindade Coelho
conduz todos os ligeiros contos de que elle se
compõe, que sem querer, sem se sentir mesmo, chega-se ao fim
e fica-se como triste d'elle ter acabado.
Todos magnificos, dizemos, mas se alguns ha que mais nos prendessem,
foram os que se intitulam
Typos da terra uma
galeria curiosa de
typos, e
A mãe, um conto de natureza,
simples e commovente
na sua
simplicidade, e notavel pela sua originalidade.
Recommendar o livro de Trindade Coelho é prestar um
serviço aos nossos leitores.»
Ordem do Dia:—«
Os
meus amores.—Este é o titulo
do 12.º volume da collecção Antonio
Maria
Pereira, innegavelmente a
publicação mais elegante, mais barata e mais
interessante do paiz.
Os meus amores são uma serie de contos
e balladas, em
prosa, devidos á penna d'um moço
talentosissímo, de ha muito
conhecido nas lides do jornalismo, Trindade Coelho, mas que ainda
não
lançára ao mercado um livro; com este debuta o
auctor, e é uma estreia
auspiciosissima a sua.
A leitura do volume, longe de fatigar, faz-se com agrado, e n'elle
é cultivado um genero—o de contos, alguns á
maneira de
Gustave Droz, que prendem e interessam o leitor em todo o sentido.
Foi gratissima a impressão que elle nos deixou no espirito e
esperamos que Trindade Coelho continue a brindar o publico com as suas
bellas producções, porque estamos certos de que
quem
lêr
Os meus amores será com
sofreguidão que esperará novo volume do
distincto escriptor, tal é o encanto da sua
escriptura».
O Sorvete, (com o
retrato do auctor):—«Dr. Trindade
Coelho.—Mais uma prova do seu brilhantissimo talento! Mais uma vez
justificada a alta competencia e finissimo espirito de escriptor
disctinctissimo!
O novo livro de Trindade Coelho,—
Os meus amores—contos
e
balladas—editada pela casa Antonio Maria Pereira, de Lisboa,
é, no dizer dos entendidos em litteratura,—uma verdadeira
joia.»
O Espozendense:—«
Os
meus amores (contos e balladas) por
Trindade Coelho.—Faz parte este volume da interessantissima
collecção Antonio Maria Pereira, tão
bem acceite do publico, pela superior
escolha das obras publicadas e pela modicidade extraordinaria dos seus
preços.
Os meus amores é um precioso
agrupamento de contos, alguns
ineditos, outros já conhecidos, e que Trindade Coelho
espalhara com
applauso por differentes jornaes do paiz. Decorridos quasi todos em
plena aldeia trasmontana, cujos costumes o auctor conhece de sobra,
pois
é natural de Traz-os-Montes, e foi durante alguns annos,
delegado do procurador
regio n'uma cidade de provincia—os contos d'esta
collecção tornam-se sobretudo notaveis pela
propriedade e pela fidelidade da
acção, verdadeiros, nitidos, reais, palpitando da
côr propria da
paizagem, vivendo da vida natural, intima e intrinseca, dos personagens
e das cousas.
Entre as nossas obras litterarias originaes,
Os meus amores
merecem,
pois, um logar á parte, não como uma estreia
auspiciosa, que o nome de Trindade Coelho é já
demasiado conhecido de todos
quantos se interessam pela litteratura nacional, mas como a poderosa
affirmação de um prosador elegante e de um
contista distincto, no meio da grande maioria da chata
vulgaridade indigena.
Os meus amores é, em summa, um livro de
valor, bem cabido
nas mais escolhidas bibliothecas.»
O Portuguez:—«
Os
meus amores.—Delicioso titulo de um
livro delicioso.
O livro é uma collecção de graciosos
contos, editorada pelo sr. Antonio Maria Pereira; e o auctor
é o nosso collega do O livro é uma
collecção de graciosos
contos, editorada pelo sr. Antonio Maria Pereira; e o auctor
é o nosso collega do
Portugal,
sr. Trindade Coelho, que, nos ocios da magistratura, de que
é digno
representante, cultiva as lettras com desvelado amor.
Em Coimbra, estudante ainda, era já litterato apreciado,
collaborando, com applauso dos mais doutos, em jornaes e revistas, que
ha mais de dez
annos tornaram o seu nome festejado e querido. Hoje, reune ao seu
título de jornalista a invejavel nomeada de contista
esmerado, e brinda as lettras portuguezas com um volume, que
está tendo a mais
justa e lisonjeira acolhida.
O primeiro conto do livro,
Idylio rustico,
não obstante
ser agora publicado pela primeira vez, cremos nós,
é
já nosso conhecido, porque appareceu manuscripto n'um
concurso litterario da extinta
Associação dos jornalistas,
sendo premiado.
Depois da
consagração de um jury, terá agora a
consagração do publico.
Depois do
Idylio rustico, vem o
Sultão,
um quadro
magnifico da vida campesina, notavel de simplicidade e
graça; e a
Ultima
dadiva; e os
Preludios de festa; e os
Typos
da terra;
e as
Balladas; e a
Tragedia rustica;
e a
Mãe; e os
Arrulhos; e as
Batalhas domesticas: outros tantos primores, que
ás vezes
nos fazem
lembrar as deleitosas e serenas paizagens de Daudet.
Agradecendo ao auctor a gentileza da sua offerta, congratulamo-nos por
não haver ainda expirado entre nós a litteratura
san, que, ou nos desperte o sorriso ou nos obrigue a lagrimas,
não nos deixa
no espirito a impressão doentia das nevroses
litterarias...»
Jornal da Manhã,
Porto:—«
Os meus amores.—Mais
um volume acaba de ser publicado da collecção
Antonio Maria Pereira, por
sem duvida a mais elegante, a mais escolhida e a mais economica
bibliotheca que se
publica em Portugal.
É o primeiro livro de Trindade Coelho,
Os meus
amores,
contos e balladas, em que o talentosissimo escriptor acaba de reunir
todos os seus contos dispersos por varios jornaes, e alguns ineditos.
Do primeiro ao ultimo, os contos que compõem
Os
meus
amores são specimens no genero, porque,
além de
constituirem uma
esplendida galeria de quadros intimos, de retratos, de typos,
são a
confirmação d'uma verdade já por
nós ha muito acceite: que o seu
auctor tem todos os requisitos d'um escriptor de primeira ordem;
estylista vibrante, correcto e sempre elegante.
E se formos a escolher o melhor d'hesses contos, ver-nos-hemos em
serios embaraços, porque são todos por igual
deliciosos,
constituindo a sua leitura um verdadeiro encanto; entretanto, se ha que
mostrar predilecções por algum d'elles parece-nos
que os
melhores serão
A Mãe e
Para
a escola, aquelle
uma delicada e emocionante historia
arrancada flagrantemente á natureza, e este saudosas
recordações d'um passado que não
volta.
A edição, escusado é dizel-o,
é nitidissima.»
O Tempo:—«
Os
meus amores.—Este livro teria vindo melhor
nas noites invernosas para serões ás lareiras
crepítantes:—as faíscas d'ouro subindo no tecto,
o vento zenindo fóra açoitando
a chuva, e dentro, no conforto recolhido, gosar-se o contraste das
paizagens alegrdas pelo sol, espelhadas na agua rumorosa, com gorgeios
e trinados d'aves, paizagens que o sr. Trindade Coelho sabe encantar
com a delicia suave e
subtil d'illudidor ameno. Mas não se póde
aconselhar o leitor a que se prive de saboreal-o desde já,
tanto mais que os tempos
vão agoureiros para a arte de manancial, e os que a
cultívam teem de
separar-se dos estragadores d'Ella e das cabeças quasi
vasias que expremem
e segregam o pus nauseabundo do sadismo mediocre.
Estes estão agora entretendo o publico arrebanhado para
saborear com prazer as estapafurdices atoleimadas, e que os eguala—o
vingador—ao imbecil que escreveu o
Senhor Dupont
e aos auctores das
Pimentinhas
e
Berbigões Ardentes.
Que o livro de glorificadora arte do sr. Trindade Coelho seja o
perfumador dos excrementicios e appareça em plena luz nas
mesas e nas familias dos que compravam os outros, é o voto
que faz o
alinhavador d'estas linhas corredias, na certeza de que recommenda
á
attenção um artista recolhido que sabe ter
força nos traços
tenues e meias tintas dos seus quadros, que capricha em suavisar
idylicamente as
dôres vulgares da vida acceite, da materialidade animal,
dourando-as com recantos de natureza chilreante. Que me
perdõem insistir na impertínencia: mas, o que no
livro
mais particularisa o
talento de quem o assigna é a comprehensão das
paizagens, o
sabel-as colorir, animar, pôl-as ante os olhos que
lêem.
As grandes dôres obscuras e sinceras, as brandas
affeições, amisades arreigadas, a placidez do
recanto habitado, os amores simples sustentados por ingenuas
crenças s suavisada fé,
tudo o que a aldeia tem de ameno, d'attraente, de pittoresco, de
consolador, os seus ridiculos mesmo, vestindo atitudes de parodia em
theatrinho de curiosos, tudo reveste bem o sr. Trindade Coelho, e
aligeira com um optimismo de bom humor, sublinhando aqui e
acolá umas notas reaes, bem
apanhadas, como se diz, e que refrescam o rosto n'um aberto sorriso de
ventaróla. O livro encanta porque traz todo o aroma da
aldeia onde o auctor encerrou por annos a sua nostalgia—a peior de
todas: nostalgia de delegado!—apertando os vôos do seu
espírito
d'artista que ama pairar com a fantasia para o longiquo, para o que se
Imagina, para o Distante,
o Inaccessivel, o Insaciavel. Sonhos e fantasias que morreram e se
dispersaram como o fumo e as cinzas das fogueiras a que se aqueceria
nas noites uivantes do inverno trasmontano; mas que deixaram sementes
de recordação e de saudade d'onde brotou o livro,
escripto decerto nas horas feriadas do trabalho arido, com a
documentação da natureza que vivifica, com a
elaboração pachorrenta de quem
não tem pressa e se compraz na arte libertadora.
Especificar um ou outro conto não é depreciar os
não citados, mas dar preferencia pessoal—e talvez
peccadora—ao
Idylio rustico,
á
Ultima dadiva, á
Mãe,
ás
Batalhas
domesticas, que fecham o livro e deixam entrever no auctor
um desejo
de animar os personagens tanto como anima
a natureza onde elles sentiram. Ha contos nos
Meus amores
que fazem
lembrar um Cladel menos retumbante e por isso mesmo livram quem
lê da patada epica do que fez
Créte-Rouge
e
Ompdrailles.
O sr. Trindade Coelho é um escriptor tão
distincto quanto aclarado pelo jorro d'arte que vem de ha muito
confundindo os convulsionarios do talento; os serenos no desdem; os
enthusiastas; o que, despindo o metaphorico, quer significar que elle
está em
posição artistica onde decerto o seu talento e o
seu trabalho continuarão a chamar
attenção e respeito.—
M. Caldas
Cordeiro.»
Antonio Maria, (com o
retrato do auctor, desenho de Raphael
Bordallo):—«
Os meus amores por Trindade
Coelho.—A
livraria portugueza tem tido uma enchente, como raramente lhe succede,
na ultima
quinzena. Depois do exito do romance de Abel Botelho e do livro de
memorias de Luiz Palmeirim, veio o volume de contos de Trindade Coelho,
com a amavel denominação de
Os meus
amores.
Aqui o temos, já todo aberto, já todo lido...
É originalissimo, agradabilissimo o modo de escrever, de
descrever, de dizer, de contar, que usa o auctor d'este bello
livro,—agradabilissimo contista, escriptor originalissimo, cujo nome a
bibliographia regista hoje,
tão notavelmente, como o jornalismo de ha muito o registara.
A quem o lêr, garantimos, sob a palavra de honra do nosso
gosto, algumas horas muito bem passadas, passeadas por aquellas
paizagens e recantos provincianos que elle pinta, tão real e
verdadeiramente como
se lá se estivesse; em companhia d'aquelles typos que elle
retrata,
tão photographicos, tão nitidos, que é
estar a gente
a vêl-os, a ouvil-os, a falar-lhes...
—
Os meus amores, meus amores, que
encanto!»
O Tempo:—«
Os
meus amores.—É
como Trindade
Coelho intitula a collecção de formosos contos,
publicados em
volume, editado pela livraria do sr. Antonio Maria Pereira.
Ha muito tempo que conhecemos e apreciamos o talento de escriptor de
Trindade Coelho, desde quando lhe lêmos as suas
producções litterarias n'um jornal de Coimbra, e
que eram as primicias de trabalhos mais primorosos, como são
hoje os contos a que nos vimos
referindo.
O livro de Trindade Coelho é dos raros que se lêem
da primeira á ultima pagina sem um momento de
cansaço ou de fastio. O espirito do
leitor delicia-se seguindo todas aquellas scenas campezinas, d'uma
singeleza tão commovente, e que nos
Meus amores
são
descriptas n'uma forma em que se revelam todas as qualidades d'um
distincto e notavel escriptor. Só póde apreciar
bem o merito d'aquelles contos
quem souber quanto cuidado ha no labôr paciente do artista
para conseguir dar ao
estylo o tom de naturalidade e de espontaneidade, que se requer n'este
genero de
pequenas novellas, talvez o mais difficil de todos.
Não nos demoraremos a falar dos
Meus amores,
que
contém preciosas joias litterarias, e ao qual
está, sem duvida, destinado um
honroso logar na nossa litteratura contemporanea.»
Correio Elvense:—«Trindade
Coelho.—Este nosso amigo e
festejado escriptor publicou agora o seu primeiro livro de contos e
balladas que deu o titulo:
Os meus amores,
editado pela acreditada
livraria de Antonio Maria Pereira.
Trindade Coelho, que hoje occupa um proeminente logar no jornalismo da
capital, fez ainda ha pouco algumas das suas melhores armas na imprensa
de Portalegre, onde creou dois jornaes, um dos quaes ainda vive, que
tiveram vida gloriosa em quanto os animou o trabalho do distincto
estylista.
Não só nos seus escriptos passados, mas
então, conhecemos o grande valor que indiscutivelmente
possue. Não nos surprehendem pois os
seus triumphos e rejubilamo-nos com elles com a alegria e sinceridade
de
bons e sinceros amigos.
N'um dos proximos numeros fallaremos da impressão colhida em
Os meus amores.»
O Dia:—«
Os
meus amores.—Se fosse no
seculo passado, os
fazedores de proemios, prologos e conversações
preambulares
com os pios leitores, á falta de jornalistas que noticiassem
ou criticassem, por certo aproveitariam a occasião para
sobre o nome do auctor
glozarem varios elogios ao livro, visto que aquelle se chama Trindade e
é ao
mesmo tempo um poeta sincero, um escriptor de raça, e um
observador
attento, qualidades que se equilibram por tal sorte, que do conjuncto
nasceu uma
obra formosissima, animada de verdadeira
commoção, sentida nas suas mais pequenas
minucias, sempre elevada, sempre humana e sempre artista.
A vida e a poesia trasmontana encontram-se a cada passo n'esta
reunião de contos, que o sr. Trindade Coelho dialogou com um
cuidado
meticuloso, copiando do natural, e em que os personagens foram
surprehendidos nos seus labores de cada dia ou nas suas intimas
cogitações.
Não temos espaço nem tempo para nos alongarmos na
noticia d'este livro, e por isso nos limitamos a recommendal-o como
leitura attrahente, como obra d'arte tratada com esmero, embora nem
sempre com a mesma egualdade
nem com o mesmo folego, como uma grande licção
litteraria aos fazedores de naturalismo brutal.
Ao auctor agradecemos a remessa do seu livro, ficando fazendo votos
para que elles sejam tantos, que afoguem os autos e libellos em cujo
meio o magistrado tem de viver, e d'onde sae amiudadas vezes para nos
provar que quando se é artista lá de dentro, o
contacto
dos escrivães não prejudica a indole do
escripior.»
Novidades,(entrevista
com João de Deus ácerca dos
novos):—«
Litteratura nova.—Eu
conheço
limitadamente os novos, porque não leio jornaes, e
não os leio porque os
litterarios occupam-se na propaganda da immoralidade, e os politicos na
propaganda do
suicidio, e na do jogo das loterias, que seduz principalmente os
engeitados da fortuna, mais sequiosos de domarem, n'um acaso da sorte,
as agruras da sua vida. E emquanto o rico joga o superfluo, o pobre
joga os trinta réis de tres quartos d'um pão.
Mas aqui está o livro do Trindade Coelho, que me encheu de
verdadeira alegria! É um rapaz de talento! O que
é preciso
é que elle dispa a toga, que lhe impede os movimentos.
Não o conheço, mas
dizem-me que trabalha muito. Já leu o
Sultão?
Se ainda não
leu, não o deixo sair de cá sem lh'o ler.
—Li já todo o livro.
—E depois, meu amigo, nós andavamos precisados d'uma coisa
casta, onde fossemos purificar o espirito d'essas taes
observações physiologicas, e não sei
que mais, que por ahi apparecem todos os dias. O
livro do Trindade Coelho tem o que eu chamo graça, e que
não posso bem definir-lhe. Olhe: alli está
aquelle quadro, em que os
traços são correctos e a
execução perfeita, mas
não tem graça; e aqui, este, uma bella
cabeça de rapariga, a physionomia dôce, o
olhar abstracto: este tem graça. Até a
Virgem
Maria se chama cheia de
graça, e foi mãe de Deus por ter
graça. A graça na litteratura
é tudo, mas é muito rara.»
Novidades:—«
Novellas
rusticas.—Trindade Coelho.—
Os meus
amores (contos e balladas.)—Lisboa, livraria de Antonio
Maria
Pereira—1891.
No seu penultimo artigo do
Temps, dizia M.
Anatole France, esse
sceptico amavel e pirrhonico, que tem sido o terrivel sapador de todas
as doutrinas axiomaticas da critica: «Il y a beaucoup moins
de lecteurs pour les nouvelles que pour les romans, par cette raison
suffisante que
seuls les délicats savent goûter une nouvelle
exquise, tandis que les gloutons dévorent indistinctement
les romans bons,
médiocres ou mauvais.»
O conto moderno é como o romance, essencialmente analytico e
psychologico, escripto em estylo technico, e destinado sobretudo a
apresentar uma imagem precisa de qualquer meandro torcicolado da alma
humana. A litteratura contemporanea tem procurado, quasi
invariavelmente, os seus themas entre os vicios, as paixões
e todas as energias depravadas do coração. A arte
do sr.
Trindade Coelho é muito differente d'isso, porém.
O seu idylico livro de contos e
balladas, aberto sobre um fundo de verdura reluzente, amorosamente
evocado da paizagem trasmontana, e habitado por heroes simples,
colhidos com intencional singeleza no meio do seu viver provinciano,
não
tem, decerto, parentesco nenhum com os volumes carimbados com a
etiqueta actualmente em moda. É natural até que o
leitor,
habituado aos livros dos escriptores realistas, sinta uma profunda
sensação de espanto ao emprehender a leitura dos
Meus amores, duzentas paginas suaves e simples,
sem pedantescas
pretenções a passarem
como tratado didactico de psychologia.
Disse-se de Julio Diniz que elle era principalmente um paizagista, e
que as suas figuras só serviam para dar expressão
e
vida á paizagem.
O sr. Trindade Coelho possue, egualmente, a
sensação visual particularmente desenvolvida, e
as suas
descripções são tambem, como as do
auctor das
Pupillas do sr. Reitor, magicamente
poetisadas, como
que apercebidas de longe n'um esbatido vago de sentimento e de saudade.
Chega-se ás vezes a ter a illusão de que o
artista está alli, paginas a dentro do seu livro, fazendo
reviver no pensamento a alacre
impressão das madrugadas lactescentes e dos poentes doirados
da sua aldeia natal,
cuja lembrança, elle conserva sempre viva, como nos versos
de Salvador Rueda: