—E por conseguinte, vae comsigo quando me ac... com... ompanhar ao estrangeiro? Sendo assim, irei para o estrangeiro... {94} está resolvido... exclama o animadissimo principe.—Absolutamente!... E se eu pudesse lison... jear-me com a es... pe... rança... Mas é uma menina po... rtentosa, portentosa! Ah! minha linda menina!
E o principe volta outra vez a beijar os dedos á Zina. Tentou até ajoelhar-lhe aos pés, o pobre do homem.
—Então!... então, principe, ia dizendo que se pudesse lisonjeál-o a esperança?... agarrou no ar Maria Alexandrovna, sentindo brotar-lhe novo accesso de eloquencia. Que homem tão singular é o principe!... Não se considera então digno da attenção das mulheres! A formosura não consiste apenas na mocidade! Lembre-se de que é uma reliquia da aristocracia russa! É o representante dos mais refinados, dos mais cavalheirescos sentimentos, e das mais requintadas maneiras! E a Maria não amou o Mazeppa[10] porventura? Li algures que Lauzun, um marquêz seductor da côrte de Luis... não sei quantos... já velho, conquistou uma das mais supinas beldades do seu tempo!... E demais, quem foi que lhe metteu em cabeça que já era velho? Quem se atreveu a afirmál-o? Homens como o senhor envelhecerão jámais, porventura? O principe, tão opulentamente dotado de sentimento, de alegria, de espirito, de força vital, de tão delicadas maneiras! Fosse o principe para ahi a qualquer estação balnear com uma mulher joven, com uma beldade como a Zina, para não irmos mais longe,—e eu lhe diria que effeito colossal não havia de produzir, o senhor, reliquia da nossa aristocracia;{95} ella, uma belleza de rainha! Ella, com aquelle seu pisar majestatico, de braço dado com o principe, a cantar n'uma sociedade aristocratica; o principe, pela sua parte, a fuzilar ditos de espirito! Era caso para acudirem os banhistas em pêso a fazer-lhe côrte! Dava brado por toda essa Europa! Pois teria a seu favor os jornaes, todos elles folhetins, e surgia um grito unanime: "Principe! Principe!"
E o senhor a dizer: "Pudesse eu lisonjear-me com a esperança?"
—Os jornaes... está claro, está claro!... Os folhetins... balbucia o principe, que não percebeu nem metade do aranzel de Maria Alexandrovna e cada vez está mais lamecha... Mas... minha rica menina... se se não sen... te fa... tigada, repita outra vez aquella romança que cantou inda'gora...
—Ah! principe, ella sabe outras ainda mais bonitas! Conhece a Andorinha? Já a ouviu?
—Está claro... mas já não me lembra...
Não... não!... aquella que cantava ha pouco: não quero a Andorinha! Quero aquella tal romança: disse o principe a pedinchar como um pequerrucho.
A Zina recommeça a alludida romança. O principe não pode ter mão em si e ajoelha-lhe aos pés a chorar...
—Oh! minha formosa castellã! (Treme-lhe a voz de senilidade e de commoção).
Oh! minha en... can... tadora castellã! Oh! minha querida menina! Quanta coisa me não veiu recordar do passado!... E eu, então, vivia esperançado em outro porvir. N'esse tempo cantava eu com a viscondessa... uns duêtos... {96} essa mesma romança... e agora... ah! Sei muito bem o que me espera!
O principe proferiu aquella discurso em voz entrecortada e offegante, intoiriu-se-lhe a lingua... tornam-se inintelligiveis algumas palavras. Apenas se vê que atingiu o acume da commoção. Maria Alexandrovna apressa-se em lançar azeite no lume.
—Principe! quer me parecer que se vae apaixonando pela Zina.
A resposta do principe vae além de quanto ousaria esperar Maria Alexandrovna.
—Estou apaixonado por ella a ponto d'enlouquecer! exclama o velhito muito exaltado e sempre de joelhos.
Estou prompto a sacrificar-lhe a minha vida... pudesse eu ao menos ter esperança... Mas levante-me, por quem é... sinto-me um tanto fraco... Se eu... ao menos, pudesse nutrir a es... pe... perança offerecia-lhe o meu coração... e então... eu... Havia de cantar-me todos os dias ro—ro—man—manças, e eu a olhar para ella sempre... sempre... sempre... ai, meu Deus!
—Principe, principe! Está offerecendo a minha filha a sua mão, quer-m'a roubar, a mim, a minha Zina! O meu enlevo, o meu anjo, Zina! Não te deixarei nem por quanto ha! Zina! Venha alguem arrancál-a dos braços, dos braços de sua mãe; se é capaz!
Maria Alexandrovna atira-se á filha e estreita-a nos braços, comquanto se sinta repellida com força. A mamã exaggera um tanto ou quanto a comedia, e a Zina está em transes de asco. Mas não abre a bôca, é tudo quanto deseja Maria Alexandrovna.{97}
—Já rejeitou nove partidos só para se não apartar da mãe! clama. Agora, comtudo, o meu coração antevê o apartamento. Não ha ainda um instante, reparei que olhava para o principe de modo particularissimo... A sua aristocracia, a sua finura seduziram-n'a, principe!.. Oh! O principe apartar-nos-ha... estou-o a sentir.
—A... dó... óro-a! murmura o principe a tremelicar como uma folha.
—Com que então desamparas a tua mãe! exclama Maria Alexandrovna atirando-se outra vez ao pescoço da filha.
A Zina, morrendo por pôr ponto a tão penosa scena, estende ao principe a linda mão, e faz esforço para sorrir. O principe agarra respeitoso n'aquella mão e por pouco a não come com beijos.
—Agora, sim, agora é que eu principío a viver!...
—Zina! diz com solemnidade Maria Alexandrovna: é o mais delicado, o mais nobre dos homens! Um cavalleiro da edade média! Ella bem o sabe, principe, e sabe-o até demais, por minha desgraça!... Ah!... Oxalá cá não tivesse apparecido... Entrego nas suas mãos o meu thesouro... Conserve-o, principe!... Escute os rógos de uma mãe! Qual será a mãe que poderá levar-me a mal a minha magua?!
—Basta! mamã! murmura a Zina.
—Ha de defendêl-a, principe, a sua espada ha de fulgir se as calumnias se atreverem a tocar-lhe!
—Basta mamã, aliás...
—Está c... claro... a minha espada!... murmura o principe. Quero que o ca... casamento se realize, quanto antes... agora... é que eu devéras prin... cipío a viver!... {98} Tenciono mandar desde já a Dur-kha-khanovo... Tenho lá uns brilhantes, quero pôl-os a seus pés.
—Que ardor, que arrebatamentos, que nobreza de alma! E lembrar-me eu, principe, de que se estava a perder n'aquelle ermo!... Não me canço em repetir... Eu, quando me lembro d'aquella... infernal... toda eu me horrorizo!...
—Mas que queria que eu fizesse?
Tinha tanto... mê... mêdo! choraminga o principe. Queriam pregar commigo numa casa de saude... e tive... mê... mêdo!
—N'uma casa de saude! Ah! que miseraveis! Que vileza, que crueldade!... Já me constou isso mesmo, principe! Mas essa gente está doida! Mas por quê... por quê?...
—Se quer que... lhe diga, nem eu o sei, responde o ginjinha caindo derrengado de cansaço na poltrona. Foi assim—estava eu n'um ba... baile, e contei-lhe uma anecdóta.—Desagradou-lhes e ahi está... e resultou d'ahi uma historia... uma histo... ria.
—E foi esse apenas o motivo?
—Não foi, eu tambem tinha jogado as cartas com o principe Pedro Dmirititch, e perdido immenso... tinha dois reis e três... da... damas... quero dizer, três da... da... mas e dois r... reis... Não é isto... um r... r... rei e só... da... damas!
—E foi só por isso!—por isso!—Infernalissima protervia! Não chore, principe! Não lhe torna a acontecer! D'aqui em diante, encontra-me a seu lado, meu principe!—Pois não me aparto da Zina, e veremos quem é que se atreve a abrir bocca. Sabe o que lhe digo, principe? Que o{99} seu casamento vae deixál-os consternados; vae envergonhál-os! Hão de ver que ainda é capaz... quero dizer... comprehenderão que tão peregrina beldade nunca iria casar com um mentecapto!—E agora, pode olhar para elles rosto a rosto, de cabeça erguida!
—Está—claro... rosto a rosto!—murmura o principe fechando os olhos.
—Está derreado de todo, diz comsigo Maria Alexandrovna; creio que estarei a soltar palavras ao vento.
—Está commovido, meu principe, precisa de ir descançar, diz debruçada sobre elle com maternal sollicitude.
—Está... c... claro... encostar-me um bocadinho.
—É tal qual... Estes abalos!—Espere ahi, vou acompanhál-o. Eu propria irei deitál-o, se for necessario... Por que é que está a olhar tanto para aquelle retrato, principe?
É o retrato de minha mãe, não era uma mulher, era um anjo! Oh! oxalá ella ainda cá estivesse! Era uma santa, uma santa, sim, nem lhe posso dar outro nome!
—Uma s... anta, é bonito!... Eu tambem tive mãe, uma senhora extrê... ê... ma... mente nut... trida... E d'ahi, não é isso que eu queria dizer... Estou um tanto fatigado... Adeus... minha linda menina... amanhã... em sum... ma... não importa... Até mais ver... até mais ver!...
Tenta fazer um gesto gracioso, mas escorrega no pavimento encerado, e por pouco se não desiquilibra.
—Cuidado, principe. Encoste-se ao meu braço! grita Maria Alexandrovna.
—Um encanto! um encanto! Agora sim, agora começo a viver!{100}
Ficou a sós a Zina. Sentia uma oppressão, um desprezo para comsigo mesmo. Com as faces a escaldar, as mãos contraídas, os dentes enclavinhados. Inérte, e a vergonha a arrazar-lhe os olhos de lagrimas...
N'este lance, eis se abre a porta e investe pela sala dentro o Mozgliakov—fulvo de raiva!{101}
IX
—Ouvi tudo, tudo!
A Zina a fitar-lhe uns olhos espantados.
—Ah! E são esses os seus sentimentos! exclama com a voz tomada. Até que por fim aprendi a conhecêl-a!
—A conhecer-me? repete a Zina (fulgem-lhes os olhos, de colera). Atreve-se a falar-me assim?
Dá um passo para o mancebo.
—Tudo ouvi! insiste solemne o Mozgliakov, recuando porém um passo, mau grado seu.
—Ouviu?—Espionou, diga! emenda a Zina a mirál-o com desprezo.
—Espionei, seja? É verdade, decidi-me a praticar semelhante vilania! Mas, graças a ella... fiquei afinal sabendo que é a mais... nem sei como qualificar a sua... tartamudeava o mancêbo, de mais em mais atrapalhado sob o olhar da Zina.
—E quando haja ouvido a tudo, que é que me poderá lançar em rosto? Quem lhe deu o direito de me accusar, de me falar n'esse tom?
—Com que direito!... Eu!? E ainda m'o pergunta!? Intenta casar com o principe... e a mim não me assiste o direito...!... Pois não me deu a sua palavra?
—Quando?
—Quando, essa é melhor!
—Esta manhã, sem irmos mais longe, o senhor a apertar{102} commigo e a minha resposta formal foi que nada lhe podia afirmar de positivo.
—Mas não me rejeitou em absoluto, e por conseguinte, guardava-me para o não chega—poupava-me!...
Contrahiu-se o semblante á Zina com dolorosa sensação, mas não se atenua o desprezo que sente para comsigo.
—Se o não escorraçei, responde em voz grave e compassada, mas algo trémula, foi unicamente por compaixão. Supplicava-me que esperasse, que lhe não dissesse que não. "Vá aprendendo a conhecer-me"—disse o senhor um dia, "e quando se houver convencido de que sou um homem de caracter digno, é possivel que me não rejeite." Foram estas as suas palavras, no principio das nossas relações, não as poderá renegar: E agora atreve-se a dizer, que o guardo para o não chega! Pois não percebeu, esta manhã, o meu aborrecimento por ver como antecipava de quinze dias o seu regresso? E todavia, não lhe encobri esse meu enfado, e o senhor foi o proprio a notál-o, visto que me perguntou se me não agastava este seu regresso permaturo. Chama então poupar um homem o não lhe poder encobrir o fastio que alguem experimenta em ver esse homem? Ah! Eu então guardava-o para o não chega!? Não! eu dizia commigo, a seu respeito: "Se não é demasiado intelligente, é bondoso, quando menos"... agora, comtudo, fiquei sabendo—a tempo, felizmente—que tem tanto de mau como de tolo, e só o que me resta é desejar-lhe boa jornada! Adeus!
A Zina volta-lhe as costas e caminha, de seu vagar, para a porta. Mozgliakov comprehende que tudo está perdido; referve-lhe a raiva.{103}
—Ah! com que, eu, então, sou tolo! vociféra; tolo!—Muito bem! Adeus! Mas, antes de me ir embora, saiba que a toda a gente ha de constar a infame comédia que aqui estão representando... tanto a senhora como sua mãe. Vou contar tudo a toda a gente, que embebedam o principe, que o subornam! Ha de ouvir falar de Mozgliakov!
Estremece a Zina, vae para reponder, mas, volvido um instante de reflexão, encolhe os hombros, desdenhosa, e bate-lhe com a porta na cara. N'este conflicto, assoma aos hombraes Maria Alexandrovna. Ouviu as ultimas exclamações de Mozgliakov e adivinhou o restante. O Mozgliakov sem, se ir ainda embora! O Mozgliakov á ilharga do principe! O caso espalhado por toda a cidade pelo Mozgliakov! E todavia, é indispensável guardar segredo... Maria Alexandrovna, n'um relance, tudo calculou, a tudo preveniu, e urde um plano para aplacar o Mozgliakov.
—Que tem, meu amigo? diz estendendo-lhe a mão, cordial.
—Como meu amigo! exclama o outro furibundo. E depois de tudo isto; meu amigo! Morgen Früh[11], minha senhora. Metteu-se-lhe então em cabeça embaçar-me outra vez?
—Sinto, devéras, acredite, sinto immenso vêl-o em um estado de espirito tão estranho, Pavel Alexandrovitch. Que linguagem! Nem sequer méde as palavras em presença de uma senhora!
—Em presença de uma senhora!... Será quanto quiser... menos uma senhora.
(Ignoro o que é que elle queria dizer, mas, com certeza, devia de ser um qualquer ultrage, de esmagar.) Maria{104} Alexandrovna com os olhos n'elle e um risinho de commiseração:
—Sente-se, diz, com tristeza, apontando para a cadeira na qual, um quarto de hora antes, estivéra sentado o principe.
—Mas no fim de contas, não me dirá, Maria Alexandrovna?... exclama Mozgliakov, desnorteado. Está-me tratando como se a senhora estivesse innocente e fosse eu o culpado! Não pode ser!... Vae muito além dos limites! É abusar da paciencia... de todo... digo-lh'isto!
—Meu amigo... responde Maria Alexandrovna—e deixe-me dar-lhe ainda este titulo, pois neste mundo não terá melhor amiga...—o senhor está afflicto, excitado, ferido no coração, e devo pois relevar-lhe semelhantes desmandos de linguagem. Pois bem, vou abrir-me com o senhor. Tanto mais que eu, até certo ponto, não deixo de ter culpas para com o senhor. Sente-se, pois, e conversemos. A voz de Maria Alexandrovna assumiu o auge da meiguice, é compungida a sua expressão phisionomica.
Senta-se Mozgliakov.
—Esteve escutando á porta, diz ella com uns modos de exprobação e de indulgencia, ao mesmo tempo.
—Escutei, sim! E por que não? Nem que eu fôra um asno!... Se quer ao menos fiquei sabendo o que andava a maquinar contra mim, responde Mozgliakov, haurindo valôr da propria colera.
—E resolver-se a senhora, com a sua educação, as suas maneiras, a representar semelhante papel! Santo Deus! Mozgliakov está aos pulos na cadeira.
—Maria Alexandrovna, não posso ouvir-lhe uma palavra{105} mais! Melhor será que se lembre do que está fazendo, a despeito da sua educação e das suas maneiras, e diga-me se lhe assiste o direito de accusar a outrem!
—Ainda uma pergunta, prosegue ella sem responder. Quem foi que lhe suggeriu a ideia de escutar á porta? Quem será que anda por aqui a espiar-me os passos? É isso o que eu não se me dava de saber!
—Lá quanto a isso, tenha paciencia, não serei eu quem lh'o diga.
—Muito bem, eu tratarei de o saber... Dizia eu, pois, Pavel, que não deixo de ter culpas para com o senhor, mas, se é que póde julgar-me com conhecimento de causa, verá que se tenho alguma culpa é a de lhe querer bem em demasia.
—Com que então, quer-me bem?—Esta a caçoar commigo, e certifico-lhe que não torna a enganar-me; serei muito creança mas nunca até esse ponto!
E elle, n'um sarilho na poltrona, e a poltrona a tremer.
—Por quem é, meu amigo, socegue se é possivel, escute com attenção, e verá que ha de concordar commigo. Eu, a principio, tencionava contar-lhe tudo, pôl-o em dia com tudo sem que se lhe tornasse necessario aviltar-se ao ponto de escutar ás portas. Se o não fiz, foi unicamente porque o negocio se achava ainda em estado de projecto e podia mallograr-se. Bem vê a franqueza de que uso para com o senhor. E, acima de tudo mais, não se volte contra minha filha, que de nada tem culpa. É doida pelo senhor, e custou-me os olhos da cara arrancar-lh'a ao senhor e persuadil-a a acceitar o offerecimento do principe.
—E eu, que com os meus proprios ouvidos, ouvi,—n'este{106} instante, provas d'esse tal louco affecto, replica ironico Mozgliakov.
—Muito bem! Mas em que termos se lhe dirigiria o senhor? É assim que se expressa um namorado? Será essa a linguagem propria de um homem de fino trato? Offendeu-a, irritou-a.
—Como se fosse questão de fino trato, Maria Alexandrovna! Esta manhã, ambas me faziam boa cara, mas assim que eu saí e mais o principe, puzéram-me pelas ruas da amargura.—Estou sciente de tudo... tudo.
—Bebido da mesma fonte ignobil, provavelmente, observou Maria Alexandrovna com risinho de desdem. É verdade, Pavel Alexandrovitch, púl-o pelas ruas da amargura e, confesso, Deus sabe quanto me custou. Quanto não tive eu que luctar com os proprios sentimentos! Mas bastará o facto de eu me ver na necessidade de o calumniar para lhe provar a difficuldade que eu encontraria em obter d'ella que desistisse do senhor! É possivel que não veja um palmo adeante do nariz? Se ella lhe não tivesse amor, eu teria alguma necessidade de appellar para calumnias? E ainda o senhor não sabe o melhor! Tive que valer-me da minha maternal auctoridade para lh'o arrancar a ella do coração! Em conclusão, depois de esforços inauditos, consegui alcançar uns arremedos de consentimento... E visto que esteve á escuta, não deixaria de notar que ella não me ajudou em presença do principe com uma palavra, sequer, ou com um gesto. Cantou para alli como um automato; em visiveis afflições toda ella, e foi por ter dó d'ella, que eu carreguei com o principe. Tenho a certeza, até, de que se pôz a chorar, assim que se apanhou sósinha.{107} O senhor bem viu, quando entrou... Mozgliakov recorda-se de que effectivamente a Zina estava a chorar quando elle entrou.
—Mas a senhora, a senhora, por que é que está assim tão contra mim, Maria Alexandrovna? Por que é que me foi calumniar segundo é a propria a affirmál-o.
—Ora, isso agora é outro negocio; e se o senhor m'o tivesse perguntado em termos logo ao principio, ha muito tempo que lhe teria dado resposta. Sim, tem razão, fui eu que fiz tudo, eu, sósinha: não esteja a accusar a Zina. Por que foi que o fiz? E eu respondo-lhe: primeiramente, por interesse da Zina. O principe é rico, representante de nobilississima casa, tem relações, e casando com elle a Zina faz um optimo casamento. Emfim, se elle morrer, o que não poderá tardar muito, pois todos nós, mais ou menos, somos mortaes,—n'esse caso, a Zina, nova e viuva, pertencendo á alta sociedade, fica riquissima e casa com quem quizer. Ora, está claro que irá casar com o homem a quem ama, e que foi o primeiro a quem teve amor, e cujo coração terá martirizado casando com o principe. E bastará o arrependimento... O acto que terá mais a peito será o de remediar a propria falta.
—Hum! rosna Mozgliakov pensativo, a contemplar os bicos das botas.
—Em segundo logar... mas serei breve a semelhante respeito, é possivel que me não comprehendesse. O senhor só o que sabe é ler o tal seu Shakspeare, fonte aonde exclusivamente vae beber os seus nobres sentimentos; e d'ahi, o senhor está tão moço! Eu, comtudo, sou mãe, Pavel Alexandrovitch. Caso a Zina com o principe um tanto por{108} causa d'elle tambem, visto que para elle o casamento pode representar a salvação! Ha tanto tempo que voto amizade áquelle honradissimo ancião, tão bondoso, cavalheiresco! Quero arrancál-o ás garras d'aquella infernal creatura que ha de pregar com elle na cova!... Invoco a Deus por testemunha em como foi patenteando á Zina todo o alcance do heroismo da sua dedicação que eu pude convencêl-a.
Arrastou-a o irresistivel prestigio da abnegação. Ella propria tem o que quer que seja de cavalheiresco. Submetti-lhe o meu projecto sob colôr de um acto christão. Vaes ser, lhe disse eu, o amparo, a consolação, a amiga, a filha, a beldade, o idolo de um homem que talvez que nem um anno tenha de vida. Mas sequer ao menos, extinguir-se-ha no dôce calôr do amor. Estes seus ultimos dias parecer-lhe-hão um paraiso. Onde é que vê n'isto egoismo, Pavel? Não! e não! É um acto de irmã de caridade.
—A senhora, então, procede desse modo, por amizade para com o principe... á laia de irmã de caridade? commenta o ironico Mozgliakov.
—Comprehendo essa sua pergunta, Pavel Alexandrovitch, é clarissima. Suppõe que estou fazendo uma confusão jesuitica dos interesses do principe com os meus. Pois bem, é possivel que me tivesse atravessado pela mente semelhante calculo, inconscientemente, porém, e sem resquicios de jesuitismo. Espanta-o esta minha franqueza? Peço-lhe apenas uma mercê, Pavel Alexandrovitch: não involva a Zina n'este negocio! Está pura que nem uma pomba. Não calcula; sabe apenas amar, pobre pequena! Se houve alguem que calculasse, esse alguem fui eu, e só eu! Indague, porém, sinceramente da sua consciencia e diga-me{109} quem seria que no meu logar não haveria calculado? Calculamos os nossos interesses, as nossas mais generosas acções, até, sem darmos por isso, instinctivamente. Pois; se enganam, quantos alarmam que procedem movidos por pura nobreza de alma. Eu, porém, não quero enganál-o. Confesso que calculei. Mas, sempre quero que me diga, seria levando em vista o meu interesse pessoal? A mim, Pavel Alexandrovitch, que mais me será preciso? Vivi o meu seculo[12], calculei para bem d'ella, do meu anjo, da minha filha: e qual será a mãe que m'o lance em rosto?
As lagrimas inundavam o rosto de Maria Alexandrovna.
Pavel Alexandrovitch tem escutado com pasmo semelhante confissão: latejam-lhe as palpebras, esforça-se por comprehender.
—Qual seria a mãe, sim! diga lá!... pergunta elle, em conclusão.
Mas cae em si, acto continuo, e:
—Canta lindamente, Maria Alexandrovna, mas tinha-me dado a sua palavra, tinha-me alentado a esperança... Como posso eu supportar semelhante coisa? Terei que engulir a propria vergonha!
—E acredita talvez que não pensei no senhor, meu querido Pavel? Pelo contrario, em todos os meus calculos, o senhor tinha a sua parte. Ouso dizer, até, que foi por sua causa que eu emprehendi este negocio.
—Por minha causa! exclama Mozgliakov, desnorteado, d'esta vez. Como assim?!
—Meu Deus! Como é que se pode ser tão simples, ter{110} vistas tão limitadas! exclama Maria Alexandrovna erguendo as mãos ao ceu. Esta mocidade! O tal Shakspeare! E ahi tem o que elle lhe arranjou, aquelle sonhador, aquelle phantasista! Viver da intelligencia e dos pensamentos alheios! E o senhor a perguntar—meu bom Pavel Alexandrovitch, qual é n'este caso o seu interesse. Para maior clareza, consinta-me uma leve digressão. A Zina ama-o, é incontestavel Mas tenho notado que, a despeito do seu manifesto amor, o caracter de Pavel Alexandrovitch, as suas aspirações lhe tem incutido uma tal ou qual desconfiança. Por vezes, e como que de caso pensado, contêm-se, é fria para com o senhor. Eis o resultado das reflexões que a levaram a desconfiar. Pois não reparou tambem n'isto que lhe estou dizendo, Pavel Alexandrovitch?
—Reparei, sim, hoje ainda. Mas que quer dizer com isso, Maria Alexandrovna?
—Bem vê, o senhor foi o proprio a reparar n'isso: logo, não me enganei. E acima de tudo, foi a estabilidade do seu caracter, a sua constancia o que mais duvidas lhe incutiu. Sou mãe, e não havia de conhecer o coração de minha filha! Ora imagine agora que, em vez de entrar aqui com exprobações, e até com injurias, em vez de a irritar, de a offender, de a melindrar, a ella tão bella, tão pura e soberba, e por esse facto, a despeito ainda da sua vontade, ir tornar-lhe mais firme a desconfiança com respeito ás suas inconstancias; supponha que acceitava com brandura a noticia, com lagrimas de magua, com desespero, até, mas com dignidade...
—Hum!
—Mau! Não me interrompa. Pavel Alexandrovitch. Quero{111} expôr-lhe um quadro que possa ferir-lhe a imaginação. Ora imagine que ia ter com ella e lhe dizia: "Zina, amo-te mais que a propria vida, mas afastam-nos umas razões de familia. Comprehendo essas razões: trata-se da tua ventura e não me atrevo a insurgir-me contra ella. Perdôo-te, Zinaida; sê feliz se puderes!" E dito isto, lhe lançava uns olhos, uns olhos de cordeiro nas vascas da agonia, se me é licita a expressão. Ponha tudo isto na sua ideia e calcule o effeito que haveria produzido uma scena assim no coração della!
—Pois sim, Maria Alexandrovna, supponhamos tudo isso—É certo que eu podia ter me expressado d'esse modo... mas nem por isso deixaria de voltar pelo mesmo caminho com um não pelas ventas.
—Não, não, e não, meu amigo. Não me interrompa! Quero acabar de pintar-lhe o quadro para que no animo lhe produza uma impressão nobre e completa. Imagine, pois, que a vinha a encontrar; d'ahi a tempos, na alta sociedade, num baile illuminado à giorno, ao som de uma musica enebriante, no meio de um sem numero de beldades, e, no melhor da festa tão deslumbrante, o senhor, para alli, sósinho e triste, a scismar, pállido, encostado para alli, algures, a uma columna, mas de modo a dar nas vistas; o senhor a seguil-a com os olhos na vertigem da dansa; ao pé do senhor a vibrarem os divinos accordes de Strauss. Fuzila por todos os lados nas conversas o espirito da alta sociedade; e o senhor sósinho, enfiado, melancholico, immerso na propria paixão.
Considere—em que estado ficará a Zina quando o vir! E com que olhos o não ha de ella contemplar! "E eu," pensará{112} ella, "que duvidei d'aquelle homem! Tudo me sacrificou! Despedaçou o proprio coração por minha causa!" Certamente, o seu amor de outr'óra resuscitar-lhe-hia lá dentro com força irresistivel.
Deteve-se Maria Alexandrovna para cobrar alento. Mozgliakov a barafustar na cadeira, que por pouco não estoira de todo. Maria Alexandrovna prosegue:
—A Zina, por causa da saude do principe, parte para o estrangeiro, para Italia ou para Hespanha, o paiz das murtas, dos limoeiros, do azulino céu do Guadalquivir, o país do amor, o país onde se não pode viver sem amar, onde as rosas e os beijos adejam por assim dizer no ar. E o senhor vae atrás d'ella, compromette a sua situação, as suas relações, tudo!... E principia então o seu romance de amor: amor, mocidade, Hespanha... Deus meu!... É certo que será platonico o seu amor, puro... mas o senhor... em summa, enlanguescem a contemplarem-se um ao outro... Espero que me haverá comprehendido, meu amigo?—Não faltarão, por lá, entes soêzes, vis, miseraveis para affirmar que não foi a lembrança do seu parentesco com o velho que o arrastou ao estrangeiro. Muito de proposito me referi ao platonismo do seu amor; não ignoro que haverá quem lhe atribua differente significação.
Mas sou mãe, Pavel Alexandrovitch e seria incapaz de o impellir para mau caminho!... É claro que o principe os não poderá vigiar a ambos; isso que importa, comtudo? Poder-se-ha fundar n'isso semelhante accusação?
Até que por fim, morre o principe abençoando o proprio destino. Ora diga-me quem é que depois ha de casar com a Zina, a não ser o senhor? É parente tão afastado do{113} principe que o parentesco nunca poderia representar um impedimento ao consorcio. Acceita-a, joven, rica, princêsa, e em que ensejo? Quando os mais nobres senhores se poderiam ufanar da sua alliança! Por causa d'ella, entra na mais alta sociedade; obtêm um posto de summa importancia, promoções. Diz o senhor que dispõe de cento e cincoenta almas? Mas depois será rico. O principe não deixará de fazer um testamento nos termos, por isso lhe respondo eu. E em conclusão, o principal, é o ella estar segura dos seus sentimentos e o senhor vir a ser para ella um heroe pela virtude e pela abnegação. E ainda me pergunta, onde vae n'isto o seu interesse? Tem-n'o deante dos olhos, a contemplál-o, a rir-se para o senhor, e a dizer-lhe: "Aqui me tens!" Ora vamos, Pavel Alexandrovitch!...
—Maria Alexandrovna! exclama Pavel Alexandrovitch, a tudo fiquei percebendo, agora! Portei-me como homem grosseiro, vil, reles!...
Levanta-se com vivacidade e puxa pelos cabellos ás mancheias.
—E como homem inconsiderado, accrescenta Maria Alexandrovna, inconsiderado, eis o que o senhor é!
—Sou um asno, Maria Alexandrovna! exclamou com desespero o môço. E agora, está tudo perdido! E eu que a amava com loucura!
—É possivel que não esteja tudo perdido, declara Madame Moskalieva, baixinho, como quem está reflectindo.
—Ah! se fosse possivel! Ajude-me! aconselhe-me! Valha-me! E pôs-se a chorar o Mozgliakov.
—Meu amigo, diz em apiedada voz Maria Alexandrovna e estende-lhe a mão,—praticou esse seu acto no ardor do{114} seu affecto, estava exasperado, nem sequer tinha consciencia do que fazia. E ella não deixará de o avaliar.
—Amo-a com loucura e estou prompto a sacrificar-lhe seja o que for! clama o Mozgliakov.
—Ora escute, justifica-lo-hei aos olhos d'ella.
—Maria Alexandrovna!
—Sim, fica tudo por minha conta: collocál-os-hei em presença um do outro. E o senhor diz-lhe tudo tal qual eu acabo de lh'o dizer.
—Ah! meu Deus! Que bondade a sua, Maria Alexandrovna!... Mas... não seria possivel procedermos a isso desde já?
—Deus nos defenda! Sempre é muito estouvado, meu amigo! Ella, então, que é tão soberba! Ia tomar isso como uma nova insolencia, um ultraje, até! Eu arranjarei tudo, e não ha de passar d'amanhã; agora, comtudo, vá se embora, vá até casa do tal negociante, ou para onde lhe apetecer... Ou, se, antes quer, volte esta noite, mas não serei eu que lh'o aconselhe.
—Vou m'embora! vou m'embora!
Meu Deus! Resuscitou-me! Mas uma pergunta, ainda: e se o principe não morre tão cedo?
—Valha-nos Deus! Sempre é muito ingenuo, meu caro Pavel! O senhor o que deve é rogar a Deus que conserve os dias d'aquelle vélhito, todo elle bondade, carinho, cavalheirismo! Devemos desejar-lhe longa vida, de todo o coração! E eu serei a primeira; noite e dia, com lagrimas, a rezar pela ventura de minha filha! Mas, ai de mim! A saude do principe, coitado, quer me parecer que está muito abalada! E demais, elle não deixará de fazer a sua{115} visita á capital, de levar a Zina aos bailes, e receio muito, muito, acredite, que isso concorra a dar cabo d'elle! Orêmos, porém, meu caro Pavel, e quanto ao mais, entreguêmo-nos nas mãos de Deus! Espére, arme-se de paciencia, seja viril, e viril, acima de tudo! Nunca puz em duvida a nobreza dos seus sentimentos... Aperta-lhe com força as mãos, e o Mozgliakov sáe do aposento em bicos de pés.
—Até que em fim! Vi-me livre de um imbecil! diz com ares de triumpho. E agora vamos aos outros... Abre-se a porta e entra por ali dentro a Zina. Vem mais pallida do usual; fulgem-lhe os olhos com febril clarão.
—Mamã, veja se acaba com isto, que eu estou, que já nem posso mais; é tão nojento tudo isto que me vem tentações de fugir por ahi fora. Não me faça padecer por muito mais tempo, não me irrite! Este lodaçal causa-me engulho, entendeu?
—Zina, que tens tu, meu anjo?... Estiveste escutando á porta! exclama Maria Alexandrovna olhando de fito para a filha.
—Escutei, é verdade.—Veja se m'o quer lançar em rosto, como o fez aquelle imbecil? Juro-lhe que se porfiar em obrigar-me a representar semelhante papel em tão vergonhosa comedia, renuncío a tudo, e acabo com tudo, com uma só palavra. Não ha duvida que me resolvi a prestar-me á principal vilania, mas foi por me não conhecer a mim mesma; atabáfo com semelhante vergonha!
E sae atirando com a porta.
Maria Alexandrovna segue-a com a vista e fica a scismar.
"É andar ligeira, depressa! É de si que depende tudo,{116} e em si que consiste o maior perigo, e se esses miseraveis porfiarem em se colligar contra nós, se principiam para ahi a dar á lingua, tudo está perdido! E ella não poderá resistir contra tantas arrelias e acabará por entregar-se mediante uma rejeição. Custe o que custar e sem demora, urge carregar para o campo com o principe. Prego commigo lá, n'um pulo, e carrégo com aquelle estafermo do senhor meu esposo para aqui. Sequer ao menos sirva para alguma coisa! E assim que o outro accordar, safamo-nos."
Toca a campainha.
—E então! a parêlha? pergunta ao creado que entra.
—Está prompta, ha que tempos, responde o criado.
(Maria Alexandrovna mandou pôr o trem no acto de acompanhar o principe ao quarto d'este.)
Veste-se á pressa e corre ao quarto da Zina para lhe transmitir o seu plano e dar-lhe as devidas instrucções. A Zina, comtudo, nem lhe quer dar ouvidos, debruçada no leito com o rosto enterrado no travesseiro ensopado de lagrimas; a arrancar com as niveas mãos os compridos cabellos; tem os braços nus até ao cotovêlo. Saccóde-a, a revézes, um estremeção. A mãe dirige-lhe a palavra, sem que a Zina consinta em erguer a cabeça.
Maria Alexandrovna insiste por instantes, depois, sae, inquietissima. Sobe para a carruagem e recommenda que espertem a parelha.
"O peor de tudo", vae ruminando comsigo, "é a Zina ter ouvido a conversa que eu tive com o Mozgliakov. Empreguei com ella e com elle quasi que os mesmos argumentos; ella é orgulhosa e offender-se-hia, talvez... Hum! o que a tudo sobreleva, é a necessidade de por mãos á obra,{117} antes de que conste seja o que fôr! Que desgraça! E se eu, para mais ajuda, não fosse encontrar em casa aquelle meu imbecil?!"
Ante esta hypothese, enraivece-se, toma-se de um rancor que nada vaticina de bom para Aphanassi Matveich. E Maria Alexandrovna impaciente, a esfervilhar!
Os cavallos despedem a galope.{118}
X
A carruagem não corre, vôa.
Dissémos que, n'aquella mesma manhã, emquanto ella andava em procura do principe, por todos os cantos da cidade, já havia accudido á mente de Maria Alexandrovna um alvitre genial: era o confiscar por sua vez o principe quanto antes, e pregar com elle no campo;—n'aquella aldeia onde floria em paz o beatifico Aphanassi Matveich. Ia pois realizar aquella sua inspiração. Mas não encubramos ao leitor que principiava a sentir-se atribulada por uma inquietação inexplicavel. Aos proprios heroes acontece outro tanto, e no ensejo, justamente, em que estão prestes a atingir seus fins. Advertia-a um qualquer instincto de que havia perigo na permanencia em Mordassov.
"Uma vez no campo, vire-se tudo isto pés, com cabeça, que a mim tanto se me dá!"
É certo, que ainda no proprio campo, não ha tempo para perder: tudo poderá acontecer, tudo... E n'essa conformidade, Maria Alexandrovna acha-se resolvida a concluir immediatamente o consorcio. O cura da aldeia procederá á ceremonia na propria residencia. D'alli a dois dias, no outro dia, talvez, em caso de urgencia. Quantos casamentos se não tem visto, aldravados para alli em duas horas! Quanto ao principe, é levál-o a acceitar como necessidade de bom sizo uma tal precipitação, semelhante ausencia de toda e qualquer festa. "Será mais decente e mais{119} nobre"... Poder-se-hia até seduzil-o pelo lado romanesco do negocio e fazer-lhe vibrar assim a fibra sentimental do coração. Enebriál-o-ha, se tanto fôr necessario, mantêl-o-ha n'aquelle estado de embriaguez, e a Zina ha de ser princêsa.
Se houver algum escandalo lá por Petersburgo ou por Moscou entre a parentéla do principe, consolações não hão de faltar. Em primeiro logar, são coisas que ainda estão para vir; em segundo, Maria Alexandrovna está convencida de que, na alta sociedade, nada se faz sem escandalo, e muito mais tratando-se de casamento: que é estilo. Mas os escandalos da alta sociedade, a seu ver, tem uma côr mui particular de grandiosidade, no genero do Monte-Christo e das Memorias do Diabo. Finalmente, a Zina bastar-lhe-ha mostrar-se, e a mãe ajudál-a com seus conselhos, e toda a gente ficará desarmada, acto-continuo, entre todas aquellas condessas e princêsas, não havendo uma só que seja capaz de resistir á mordassoviana habilidade de Maria Alexandrovna, sósinha contra todas ellas juntas ou contra cada uma em particular.
E é animada por semelhante pensamento que Maria Alexandrovna vem ter com Aphanassi Matveich o qual lhe é necessario, segundo seus planos.
Effectivamente, levar o principe para o campo é levál-o para casa de Aphanassi Matveich com quem o principe é possivel não se dar lá muito de travar conhecimento: mas se Aphanassi Matveich fôr o proprio a convidál-o, o caso muda de figura. E demais, a apparição de um chefe de familia, de edade veneranda, de gravata branca, casaca, chapeu na mão, acorrendo expressamente das suas propriedades, á noticia de que se acha em Mordassov o principe{120} K... é caso para produzir optimo effeito no amor proprio d'aquelle ginjinha.
Até que por fim, havendo tragádo três verstas a carruagem, o cocheiro Safron pára junto ao patim de um comprido edificio com um unico andar, casarão de madeira, com uma extensa fieira de janélas, e envolto n'umas tilias venerandas. É a residencia estável de Maria Alexandrovna.
Já se acham illuminadas as janélas.
—Onde está o manequim? clama Maria Alexandrovna caíndo como uma trovoada, no vestibulo. Que faz aqui esta toalha? Ah! estava aborrecido, e ainda não saiu do banho! E sempre n'aquelle fadario do chá! E então! Para que estarás tu para ahi a esbogalhar esses olhos, meu idiota incuravel? Por que é que se não corta esse cabello?!
Grichka! Grichka! Por que é que não cortaste o cabello ao barine conforme te dei ordem, a semana passada?
Maria Alexandrovna premeditára operar em casa de Aphanassi Matveich uma entrada menos violenta. Mas ao vêl-o entretido a sorver o seu cházinho, com toda a sua pachorra, não foi senhora de sopitar a indignação. Para ella, tamanhos cuidados, e para elle, para aquelle ente inutil, aquella paz podre! Semelhante contraste chóca de modo cruel Maria Alexandrovna. E todavia, o manequim, ou para nos expressarmos com mais urbanidade, aquelle a quem applicam o ápodo, está sentado em frente do samovár; inerte, bôcca e olhos escancarados, petrificado, quasi, pela apparição da consorte. O adormecido vulto do Grichka assoma ao vestibulo. O Grichka tosqueneja os olhos durante toda esta scena.
—Se elle não deixa... E ahi esta porque é que o não{121} fiz, profere em voz encatarroada e socarrôna. Peguei na tesoira para ahi umas dez vezes, e a dizer-lhe: A barinia não tarda por ahi e apanhamos ambos a nossa conta!—E vae elle e diz-me:—Não—espera ahi: quéro que me frizes no domingo; e é preciso para isso que o cabello tenha comprimento.
—Muito me contas: Com que então elle, friza-se? Inventaste então essa obra dos frizados, assim que eu virei costas?
Que termos são esses? Cuidas talvez que embellezas assim essa tua cabeça de idiota? Santo Deus! Que desordem que por aqui vae! E que cheiro! Não me dirás, miseravel, d'onde provém semelhante cheiro? vociféra a consorte a crescer de mais em mais ameaçadora para o innocente e assarapantado de todo Aphanassi Matveich.
—Ah... mi-minha mãezinha, balbucía o esposo sem se erguer e desfechando sobre o seu generalissimo uns olhos assustados e suplices, mi... mi... minha mãezi...
—Quantas vezes não tenho eu tentado encaixar-te n'essa cabeça de burro que não sou tua mãezinha, pedaço de pygmeu? Como te atreves a tratar por semelhante nome uma senhora nobre cujo logar é na alta sociedade, e não ao pé de um aguadeiro da tua laia?
—Mas, Maria Alexandrovna, tu com tudo isso não deixas de ser minha mulher em face das leis! e eu... estou-te falando... na qualidade de marido! Objecta Aphanassi Matveich, levando a um tempo a mão aos cabellos para os defender.
—Ah! Carranca! Cêpo! Se já se viu! Mulher d'elle em face das leis!... Que quererá dizer uma mulher em face{122} das leis? Haverá na alta sociedade alguem que empregue semelhante termo de seminarista:—em face das leis?—E quem te deu o atrevimento de me recordares que sou tua mulher, a mim que faço quanto posso para o esquecer? E para que estavas tu a tapar a cabeça com as mãos?
Olhem para este cabello! Todo encharcado! Não está enxuto estas tres horas mais chegadas! Como hei de eu carregar com elle? Haverá meio de o arrancar d'aqui?—Que hei de eu fazer? Maria Alexandrovna péga ás carreiras pela casa fóra, a estorcegar as mãos. A desgraça é nulla e facil de remediar, não ha duvida, mas se ella não pode ter mão n'aquelle seu genio imperial, impaciente em presença do minimo impecilho! Sente que precisa de desabafar a colera na pessoa de Aphanassi Matveich, visto como a sua habitual tirannia desandou para si em necessidade. E depois, toda a gente sabe o acervo de inopinadas grosserias de que são capazes, longe das vistas dos mirones, uns certos entes delicados e pechósos da sociedade mais graúda. Aphanassi Matveich, estupido e tremelica, cança a vista a seguir com os olhos as evoluções todas da consorte.
—Grichka, exclama esta por fim, traze já, já, ao barine tudo que é preciso para se vestir de ceremonia, calça, casaca, gravata e colete, brancos. Vá, despacha!
Onde iria parar a escova do cabello?
—Mas se eu acabo de sair do banho, minha mãezinha, vou apanhar algum resfriamento...
—Qual historia!...
—Estou com a cabeça encharcada!...
—Ênxuga-se. Grichka, escova o cabello ao barine, até{123} que enxugue. Com mais força... mais... ainda mais... Assim!
O fiel e zeloso Grichka esfréga, com quanta força tem, o seu barine a quem, para mais commodidade, agarrou pelo cachaço, encostando-o para trás no divan.
Aphanassi Matveich por pouco não desata a chorar.
—E agora, em pé!... Vê se o levantas, Grichka, dá cá a pomada...
—Vá, abaixas-te ou não, miseravel!
Abaixa-te, já te disse, meu papa jantares.
Maria Alexandrovna com as proprias mãos besunta a grenha ao marido, puxando sem dó nem consciencia pelos cabellos, bastos e grisalhos que elle, por sua desgraça, não deixou cortar. Aphanassi Matveich põe-se a gemer, a suspirar e aguenta, Deus sabe como, semelhante provação.
—Miseravel! Foste tu que murchaste as flores da minha mocidade!... Abaixa mais essa cabeça, não ouves! Abaixa-te!
—Mas como é que eu murchei as tuas flores, minha mãezinha? regouga o esposo de bruços no divan.
—Manequim! Nem sequer percebeste a allegoria! Agora vê se te penteias.
—Grichka, veste-o depressa, anda!
A nossa heroina senta-se n'uma poltrona a vigiar com olhos de inquisidor a ceremonia indumentaria.
Aphanassi Matveich lá conseguiu tomar folego, e, quando se chegou ao laço da gravata, afoita-se a ponto de emittir opiniões ácêrca do feitio e da perfeição da laçada. Em conclusão, assim que envergou a casaca, a distincta personagem{124} tem reconquistado de todo o aprumo e pega a rever-se ao espelho com manifesto desvanecimento.
—Mas para onde é que tu me levas, Maria Alexandrovna? indága, a fazer moquenquices á propria imagem.
Maria Alexandrovna hesita em acreditar n'aquillo que ouviu.
—Não ouvem isto? Ora o manequim! E como te atreves tu a perguntar-me para onde é que eu te lévo?
—Mas já se vê que o devo de saber, minha mãezinha.
—Caluda! Torna-me tu a tratar de mãezinha, e muito mais no sitio aonde vamos, e ficas sem chá um mês inteiro.
O marido, espavorido, nem bole sequer.
—Se já se viu? Nem sequer conseguiu apanhar a mais réles condecoração?
Colherão de marmita!—exclama ao contemplar com desprezo a casaca do marido, casaca virgem de toda e qualquer insignia.
Até que por fim, Aphanassi Matveich sente-se melindrado.
—Eu não sou colherão de marmita, sou conselheiro, minha mãezinha, pondéra com assômo de nobre indignação.
—Quê—quê—quê?—A raciocinar, por mais que me digam! Ora o mujik, o ranhoso! Tenho pêna de me faltar tempo para te ensaboar esse bestunto, quando não... Mas não as perdes, deixa estar!... Grichka, dá-lhe o chapéu e a chuba[13]. Assim que eu saír, arruma estes três quartos e o quarto aberto. Vá, pega n'essa vassoira! tira as capas aos espelhos, aos relogios e quero tudo prompto em menos de{125} uma hora! E tu, tambem, veste a casaca, e dá luvas aos criados! Ouviste, Grichka? Ouviste?
Sobem para a carruagem. Aphanassi Matveich está com uma cara espantada. Maria Alexandrovna dá voltas ao miolo para lhe encasquetar na cabeça e na memoria as recommendações mais essenciaes, elle, porém, interrompe-lhe as suas cogitações.
—Maria Alexandrovna, eu esta noite tive um sonho tão exquisito, diz, após breve silencio.
—Ápre! Manequim de uma figa! E eu que estava a pensar!... Como te atreves tu a vir-me para cá com esses teus sonhos de mujik? Escuta, e olha que t'o digo pela ultima vez, se te atreveres, hoje, a fazer a minima allusão aos taes sonhos ou ao quer que seja,... toma sentido... nem sei o que ha de ser de ti! Escuta bem: o principe K... está hospedado em nossa casa. Lembras-te do principe K...
—Se lembro! minha mãezinha, lembro-me muito bem! E por que é que elle nos dispensou tamanha honra?
—Cala-te, não é da tua conta! Tu, com a maxima amabilidade, e como dono de casa, vaes convidál-o a vir comnosco para o campo. Partimos ainda hoje. Mas se lhe disseres uma palavra só que seja, em toda a noite, ou amanhã... ou no outro dia... ou em toda a roda do anno, mando-te guardar gansos! Nem palavra! São essas as tuas funcções—e mais nada! Intendeste?
—Mas se me fizerem perguntas?
—Não importa! Cálas-te.
—Pois sim, mas uma pessoa nem sempre pode ficar calado, Maria Alexandrovna!{126}
—Responde com monosylabos, um hum!... ou coisa que o valha, para que fiquem na persuasão de que és homem espirituoso e que reflectes antes de responder.
—Hum!...
—E atenta bem n'isto que te estou dizendo. Carrégo comtigo: ouviste falar do principe, e acto-continuo, doido de contente, deste-te pressa em vir apresentar-lhe os teus respeitos e convidál-o a ir para o campo. Percebeste?
—Hum!
—Para que estás tu já a dizer: hum! meu parvalhôco! Responde.
—Está bom, minha mãezinha, tudo se fará á medida dos teus desejos. Mas, não me dirás por que é que eu tenho que o convidar?
—Quê, quê? pois ainda te mettes a raciocinar?! Que tens tu com isso? E ainda te atreves a fazer-me perguntas?
—Mas... é que eu, por mais que faça não posso perceber como é que eu o hei de convidar sem dizer palavra!
—Eu falarei por ti, e tu, fazes-lhe a tua cortesia, e mais nada, percebeste?—De chapeu na mão...
—Percebi..., minha mãe... Maria Alexandrovna.
—O principe é espirituosissimo: diga elle o que disser, ainda quando se não dirija á tua pessoa, responde-lhe a tudo com um sorriso bonacheirão e alegre, percebeste?
—Hum!
—E elle a dar-lhe com o hum! Vê se acabas com o tal hum!—a mim, responde-me ao que eu te perguntar. Percebeste?
—Percebi, Maria Alexandrovna, percebi muito bem. E como é que eu não havia de perceber? Mas estou a dizer{127} hum! para me ir exercitando. O que tu queres é que eu me ponha a olhar para o principe, com um ar de riso... mas quando elle não me vir?
—Forte espantalho! Forte idiota! Cala-te, cala-te, e cala-te! Olha e sorri.
—Mas se elle é capaz de suppor que sou surdo!
—Olhem a desgraça! Sequer ao menos não ficará sabendo que és um imbecil.
—Hum! E se mais alguem me fizer perguntas?
—Ninguem t'as faz, deixa estar! E demais, não estará lá ninguem. E se por infelicidade, do que Deus nos defenda, apparecer alguem e te perguntarem alguma coisa, responde desde logo com um sorriso sarcastico. Sabes o que vem a ser um sorriso sarcastico?
—Uma careta muito espirituosa, pois não é verdade, minha mãezinha?
—Eu te darei o espirituoso, deixa estar, manequim! E quem é que te iria suppor capaz de ter espirito, meu asneirão? Um risinho de escarneo, percebeste? De escarneo e de desdem.
—Hum!
—Ai! Estou toda eu em suores frios por causa d'este estafermo! murmura Maria Alexandrovna. Não ha mais que ver, acho que fez uma jura em como me havia de murchar de todas as minhas flores! Teria sido muito melhor o prescindir delle.
A raciocinar por esta forma, Maria Alexandrovna tudo é olhar pela vidraça do trem e atiçar o cocheiro. Voam os cavallos, e ella a achar que se não mexem. Aphanassi Matveich, alapardado a um canto, a repetir mentalmente a{128} lição. Até que emfim a carruagem alcança a casa de Maria Alexandrovna! Mas ainda bem a nossa heroina não tinha posto pé no patim, eis que vê passar ao lado do seu proprio trem um trenél coberto, de dois assentos, o trenél da Anna Nikolaievna Antipova.—Vinham n'elle duas senhoras. Uma dellas é a propria Anna Nikolaievna Antipova, a outra a Natalia Dmitrievna, duas amigas sinceras e recentes. Maria Alexandrovna olha para ellas, e o coração dá-lhe um báque. Ainda bem não abrira a bocca para exclamar, eis que chega outra carruagem, com outra visitante. Ouvem-se alegres exclamações.
—Maria Alexandrovna com o Aphanassi Matveich... ambos no mesmo trem! Feliz coincidencia! E nós que vinhamos passar a noite em sua casa! Agradabilissima surpreza!
As visitantes galgam a escada a pipilarem que nem andorinhas, Maria Alexandrovna contempla-as, estupefacta.
—E não vos tragar o chão! diz, lá comsigo; cheira-me isto a conluio... Pois sim!... vocês o que não tem é unhas para luctar commigo, minhas amiguinhas!... Esperem um nadinha!... {129}
XI
Mozgliakov saíu de casa de Maria Alexandrovna, consoladissimo. Não foi a casa do Borodoniev, pois necessitava de estar sósinho. Sentia a cabeça atravancada de romanescos devaneios. Phantaziava a explicação solemne com a Zina, o generoso perdão, scena melancolica no baile, lá em Petersburgo; Hespanha, o Guadalquivir, o principe no leito da agonia a juntar nas proprias mãos as mãos dos dois amantes, e em conclusão, o amor d'uma mulher tão formosa, vencido por tanto heroismo; por aqui e por acolá, um ou outro favor de alguma baronêsa, ou condessa de alto cothurno, n'aquella sociedade onde semelhante casamento lhe daria certamente ingresso, um logar de vice-governador, dinheiro; n'uma palavra, toda a eloquente descripção de Maria Alexandrovna. Mas, emfim, como explicál-o?—Através de todos aquelles arrebatamentos eis lhe surge o seguinte pensamento, algo desagradavel, que, em todo o caso, tudo aquillo estava ainda em vêl-o-hemos, e no momento actual, elle, com o que ficara, fôra com um nariz de palmo! De subito, nota que se alargou demais pelo arrabalde menos central de Mordassov. Vem caíndo a noite. Pelas ruas, ladeadas de pardieiros, ladram, como aliás succede em toda e qualquer cidade provincial, aquelles innumeros cães que infestam de preferencia os bairros em que nada ha que guardar ou que roubar. Derrete-se a neve. De vez em quando, topa-se com algum mestchanine retardado,{130} ou com qualquer baba[14] enfunicada n'uma tulupa e a arrastar umas botifarras. Tudo aquillo principiava a irritar a Pavel Alexandrovitch: mau signal, visto como, quando uma pessoa está contente, a tudo acha risonho. Pavel Alexandrovitch lembra-se com despeito de que, até aquelle dia, era elle quem dava o tom em Mordassov. Era recebido por toda a parte como um noivo, uma situação tão interessante, e felicitavam-n'o, e elle todo desvanecido. E eis que, de subito, vinha a constar que se achava reformado; rir-se-hiam á sua custa por toda a parte. E com tudo isso não é exequivel estar a iniciar toda a gente ao segredo do tal baile de Petersburgo, da columna melancolica e do Guadalquivir!
Triste e pensativo, acaba por formular este pensamento que secretamente lhe faz sangrar o coração desde alguns instantes: "Mas tudo isto será verdade, realmente? Virá tudo a acontecer conforme m'o pintou Maria Alexandrovna?" Occorre-lhe, n'aquelle ensejo, exactamente, que Maria Alexandrovna é mulher arteira quanto possivel; que, apezar da estima geral que disfructa, é uma enredadeira de respeito, que mente com o maximo desplante, que é possivel que tivesse motivos particulares para o afastar; que, emfim, o descrever um quadro seductor não compromete a coisa nenhuma. Pensa na Zina, revóca aquelle seu olhar de despedida tão pouco compativel com um desatinado amor. Lembra-se de que uma hora antes foi tratado por ella na qualidade de asno—sem tirar nem pôr. Ante uma{131} tal recordação, Pavel Alexandrovitch estaca de vez, como que pregado ao chão, e ruboriza-se a ponto de lhe virem as lagrimas aos olhos. E como que de proposito, d'ali a instantes, acontece um desagradavel incidente: escorrega e estatéla-se num montão de neve... Emquanto elle escabuja e patinha, um bando de canzoada, que vinham atrás d'elle a ladrar, accodem por todos os lados; um d'elles, o mais pequeno e mais atrevido, aferra-se-lhe á aba da chuba. Pavel Alexandrovitch desenvencilha-se dando ao diabo a cainçada e o destino e, com a aba do casacão esfarrapada e uma indefinivel tristeza na alma, lá se vae arrastando até á esquina da rua. Ali, percebe que vae perdido.
É sabido que um homem, quando se acha perdido em um bairro que lhe é extranho, e muito mais de noite, nunca se resolve a meter a direito por uma rua larga. Impelle-o, mau grado seu, um poder misterioso para toda a casta de betesgas que topa a geito. Em harmonia com este sistema, Pavel Alexandrovitch perde-se de todo. "Diabos levem tanta chiméra!" exclama e cospe com engulho. "Leve o diabo os sentimentos elevados e o tal Guadalquivir!"
Não me abalanço a afiançar, que Mozgliakov n'aquelle ensejo apresentasse aspecto por demais seductor. Até que emfim, extenuado, fatigado, em seguida a haver andado a êsmo para cima de duas horas, alcança a escadaria de Maria Alexandrovna. Fica espantado ao dar com os olhos em tanta carruagem: "Tem visitas? Alguma soirée? Com que intenção?"
Informado por um lacaio de que Maria Alexandrovna tinha carregado com Aphanassi Matveich do campo, de gravata branca, que o principe já está acordado, mas que{132} ainda não desceu do quarto, Pavel Alexandrovitch, sem dizer palavra, vae lá acima ter com o tio. Acha-se n'aquella disposição de animo em que um homem de caracter fraco se decide pela ideia de maior malignidade, em favor da vingança, sem se lembrar de que virá talvez a arrepender-se, durante toda a sua vida.
Sobe. Dá com os olhos no principe, sentado n'uma poltrona em frente do seu toucador de viagem, com a caréca á vela, mas com a cara já rebocada e com as suissas e a pêra postiça já pegadas. O chinó está entre mãos do edoso criado particular, Ivan Pakhomitch. Ivan Pakhomitch está a penteál-o com modo absorto e respeitoso. O principe apresenta aspecto lamentavel. Não se acha ainda restabelecido d'aquella sua temulencia. Enterrado na poltrona, a tosquenejar as palpebras, todo elle engelhado, amarrotado, e a olhar para o Mozgliakov como se o não conhecesse.
—Como vae de saude, rico tiozinho? indaga Mozgliakov.
—Como? Ah! És tu? acaba por dizer o tio. Pois eu, manozinho, dormi a minha somnéca. Ai! meu Deus! exclama de subito, animadissimo. E eu que estou sem o chi... chi... n... nó!
—Não se assuste, tiozinho! Eu ajudo-o a pôl-o se quiser.
—Ora esta! E ahi estás tu senhor do meu segredo! Eu bem dizia que era pr... preciso fe... fe... char a po... rta! Pois então, meu amigo, vaes já, já, dar-me a tua palavra de honra que... que, não has-de abu... sar do meu segredo, e que não dizes, a nin... guem que é po... pos... tiça a minha cab... be... leira!
—Ora vamos, tiozinho, pois suppõe-me capaz de semelhante{133} vilêza? exclama Mozgliakov que deseja agradar ao ancião.
—Está, claro... está... c... laro, e como eu sei que és cavalheiro... vá... la... vaes fi... car espantado: vou te des... vendar de todo os meus se... segredos—Que me dizes a estes bi... bigodes—m... meu caro?
—Um portento, rico tio, espantosos! Como é que os pode conservar do mesmo comprimento, por tanto tempo?
—Socéga, meu amigo... s... são postiços, diz o principe a olhar muito ufano para Pavel Alexandrovitch.
—Postiços!?—É inacreditavel! E as suissas, então? Confesse que as pinta, tiozinho!
—Não só as pin... into, como são postiças e mais que... que pos... tiças!
—Postiças! Isso agora, tenha paciencia, o tio está a caçoar commigo!
—Pa... lavra de honra, amigo! exclama o principe desvanecido. Ora põe na tua ideia, que toda a gente... sem excepção—anda ill... udida, como tu. A propria Stepanida Matveina não quer acreditar que o sejam, e olha que é ella quem m'as põe. Mas tenho a certeza, meu amigo, de que me has de guardar segredo—Dá-me a tua pa... palavra de honra...
—Conte desde já com ella, querido tio! Mas, insisto, suppõe-me então capaz de semelhante vilania?
—Ai! meu amigo! Que tombo que eu apanhei! Não fazes ideia! O Pamphili, tornou-me a virar a car... a carruagem.
—Pois elle tornou a pregar-lhe outro tombo? Mas quando?
—Iamos nós quasi a chegar ao... mo... mos... teiro... {134}
—Já sabia, tiozinho!
—Não, não é isso... se ainda não ha duas horas. Fui ao mo... mosteiro. Foi elle que me levou... e pregou-me um tombo! Que susto que... que eu apanhei! Ainda nem tenho o co... coração no seu logar.
—Mas o tio estava a dormir?
—Está... c... laro... estava a dormir... E vae... d'ahi fui... vi... viajar... E d'ahi... d'ahi... talvez fosse... Ah! que coisa tão exquisita!...
—Afirmo-lhe que estava a dormir, tiozinho... que sonhou... Depois de jantar ferrou-se a dormir muito socegado.
—De... devéras?!
O principe pós-se a scismar.
—Sim... sim... effec... tivamente, talvez fôsse. E d'ahi, lembro-me muito bem do sonho... todo. Primeiramente, sonhei com um toiro muito bravo... com uns páus!... Depois com um pró... ó... curador... mas tambem tinha p... páus!
—Havia de ser o Nikolai Vassiliévitch Antipov, tiozinho.
—Está... claro... era elle... era... E depois tambem sonhei com Na... napoleão... Bo... bo... naparte. Não sabes, amigo, diz toda a gente que n... nos parecêmos?... De perfil... pelos modos... faço lembrar um papa... muito antigo: Tu, que dizes?... Achas que te... terei ares de papa?
—Acho que se parece mais a Napoleão.
—Está... c... laro... é assim... mesmo... de... de... frente. E d'ahi, tambem d'isso estou conven... cido, meu{135} caro. Vi-o em sonho, sentado lá na sua ilha... Não sabes? A fô... legar... muito contente... muito lam... peiro!... Que graça que... eu lhe achei!
—Refére-se a Napoleão, tiozinho? indaga Pavel Alexandrovitch, todo elle absorto, a observál-o.
Principiava a surgir-lhe na mente um estranho pensamento, sem que elle pudesse formulál-o com clareza.
—Está claro... Na... na... po... leão. Tivémos uma pa... palestra filosó... fica... Não sabes? tenho pena de que os Inglezes lhe fizessem aquillo que... que lhe fizeram... É verdade que se elles o não tivessem en... gaiolado... atirava-se para ahi a to... toda a gente... aquelle damnado! Mas com... apezar d'isso... foi pena!... Eu cá... por mim não era capaz de o fazer! Prega... va com elle n'uma ilha deserta...
—Deserta... então para quê? perguntou, distrahido, Mozgliakov.
—Está... claro... De... deserta, não, mas habitada por gente com juizo. E depois arranjava-lhe distracções... theatro, mu... musica... ba... bailados e tu... tudo isso por conta do Estado. Dáva-lhe licença para passear... vi... vigiado... já se vê... qu... quando não... pi... pisgava-se... Elle gostava de uns certos bôlos... Pois bem! faziam-se-lhe todos os dias... Tratava-o com pa... pater... nal carinho: Elle... commigo... arre... pen... dia-se... di... digo... t'o eu.
Mozgliakov escuta distrahido a garrulice do vegête, a roer as unhas, impaciente. Elle a querer desviar a conversa para o assunto do casamento, e nem sequer sabe o motivo, mas referve-lhe lá dentro uma maldade,{136} infame. De subito, eis que exclama o tio, muito espantado:
—Ai! meu amigo! E eu que me esquecia de t'o par... parti... cipar... Saberás que fiz ho... je o meu pe... pedido!
—O seu pedido, tiozinho?... exclama Mozgliakov animando-se acto-continuo.
—Está... c... claro... o meu pedido! Já te vaes embora, Pakhomitch? Está bem. É uma menina encanta... dora!... Mas confesso... amigo, que andei com leviandade, estou-o per... cebendo agora... Ai! meu Deus!
—Mas, se me dá licença, querido tio, quando é que fez esse tal pedido!
—Confesso, que... não... sei ao certo, qu... ando foi, amiguinho!... Querem ver que... seria sonho, tam... tam... bem?... Que co... isa t... tão ex... quisita!
Mozgliakov estremece de contentamento... Accode-lhe uma ideia luminosa.
—Mas a quem, e quando é que fez o tal pedido? repete impaciente, já.
—Á... á... fi... lha da casa, meu amigo... áquella... lin... da me... nina! E d'ahi... esqué... ceu... me o nome. O peor, meu amiguinho... é que não posso casar,... impos... sivel, meu amigo! Que hei de eu fazer?
—Pois decerto... semelhante casamento iria deitál-o a perder! Mas, uma pergunta: Tem a certeza de haver feito o pedido?
—Está... claro... tenho a certeza... tenho...
—E se fosse sonho, como aquella sua quéda da carruagem?{137}
—Valha-me Deus!... E o c... caso é que é possivel... no tal sonho... E o... peor é que e... eu já nem tenho cara para lhe apparecer... E não... achas que se poderia saber... indi... recta... mente, se eu faria ou não o tal pedido?
—Sabe o que lhe digo, querido tio? Que acho até escusado ir tirar informações.
—E... por-quê?
—Por que tenho a certeza de que tudo foi sonho, tambem.
—Tambem... me quer... parecer... m... meu ca... ro, e tanto... m... mais que eu estou sempre a ter sonhos... assim.
—Então já vê, tiozinho... Faça de conta que beberia mais um copito ao almoço... ou ao jantar... e ahi tem...
—Está... claro... amigo... foi isso foi,... é o que havia de ser.
—Tanto mais, que o tio, por mais influido que estivesse, nunca se iria arriscar a fazer um pedido tão disparatado. O tiozinho, desde que o conheço, tive-o sempre na conta de um homem de muitissimo tino.
—Está... c... laro. Está... c... laro.
—Ora considére: ponha na sua ideia que os seus parentes, tão mal dispostos já, para com o tio, vinham a ter conhecimento do caso, que acontecia?
—Ai! meu Deus! exclama o assustadissimo principe... que acontecia?... é verdade!
—Então, já vê! Punham-se a berrar todos á uma que estava doido, que era preciso nomear-lhe tutôres, que o{138} tinham embaçado, e catrafilavam-n'o para ahi em qualquer parte, guardado á vista.
O Mozgliakov estava farto de saber que o argumento éra de molde a deixar espavorido o principe.
—Ai! meu Deus! exclamou o jarrêta, todo elle a tremer... engaiolavam-me?!
—Ora considére, tiozinho, passar-lhe-ia nunca pela cabeça o ir fazer um pedido tão disparatado? O tio avalia muito bem os seus interesses! Affirmo-lhe que foi sonho.
—So... nho, sim, é o que foi! So... nho... e mais nada! Ah! tu... é que... que acertaste... com a coisa! E fico... te grato, muito grato... por me teres con... vencido.
—E eu, contentissimo, tiozinho, por termos vindo á fala. Se não fosse eu, o tio ficava acreditando que estava noivo, e procederia n'esse sentido. Veja lá do que se livrou!
—Está c... laro... me... livrei... dizes bem!
—Lembre-se de que está com vinte três annos essa menina! Não ha quem a queira, e eis se não quando, apparece o tio, rico, nobre e vae pedil-a em casamento! E ellas, já se vê, apanham a pélla no ar: affirmam a toda a gente que o tio está noivo e impingem-lh'a em casamento. E em seguida, põem-se á espera de que o tio se vá indo desta para melhor.
—Que... me dizes!
—E depois, tiozinho... é lá coisa que convenha a um homem da sua jerarchia...
—Está c... claro! Jerarchia...
—Tão intelligente... tão amável...
—Está... c... claro... intelligente... é is... so... é!{139}
—E em conclusão, é principe... Será partido que lhe convenha, porventura? Se é que, por qualquer motivo insiste em querer casar. Lembre-se do que diriam os seus parentes.
—Ai, meu amigo, comiam-me em vida! Elles que já me não têm feito poucas terrafi... as... aquelles des... almados! Ora imagina! Desconfio até que... qué-rem pregar commigo n'uma casa... de... sa... saúde! Ora, dize-me, achas que se... ja razoavel? Que é que eu havia de fa... zer numa casa de saúde?
—Pois certamente, rico tio, e ahi está o motivo porque eu já o não largo quando o tio fôr lá para baixo. Estão lá visitas.
—Vi... sitas! Ai! valha-me Deus!
—Não se assuste, tiozinho, eu vou com o tio.
—Sou-te m... muito obrigado... muito! Fô... ste a minha redempção! Mas, qu... éres que te diga, eu antes queria ir-me embora!
—Amanhã, tiozinho, amanhã, ás sete horas da manhã! Hoje, despede-se de todos e declara que se vae embora.
—Ab... so... lu... tamente!... safo... me... ab... solu... tamente!... vou para casa do padre Missail... Mas... meu amiguinho, e se ella casar commigo contra minha vontade?...