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Um club da Má-Lingua

Chapter 13: XII
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About This Book

Uma série de esboços e contos satíricos descreve a vida social numa cidade provincial, centrando-se numa mulher de grande influência que usa o respeito e o silêncio para controlar reputações. O narrador traça o poder dos boatos, as estratégias de manipulação, as rivalidades e a hipocrisia das classes altas, mostrando como intrigas privadas afetam famílias e destinos. O tom alterna análise psicológica e ironia, com foco nas consequências sociais do mexerico e da aparência.

—Não lhe dê cuidado, tiozinho, cá estou eu. E demais, digam o que disserem, responda sempre que foi sonho... o que é verdade, aliás.

—Es... tá... c... claro, sonhei!... Mas sempre te direi... meu a... mi... miguinho, que foi um sonho delicioso!... {140} Que for... mosura! É um por... tento! E se... soubesses!... Com umas... fórmas!

—Pois então, até logo, tiozinho, vou indo lá para baixo... E o tio...

—Ora... essa!... Então para aqui me deixas?... exclama o principe, assustado.

—Não é isso, tiozinho, eu o que vou é indo adiante... não vamos juntos. Primeiro eu, depois, o tio. É melhor assim.

—Está-c... laro... melhor. E eu, demais a mais, tenho que tomar nota d'um pensamento... capital.

—Pois é o que deve fazer, tio, vá assentando o seu pensamento, e depois, não se demore, appareça, e conte que, amanhã...

—Amanhã, de manhã, para casa do-arci-préste... sem fa-lta,... casa... do ar... ci... ci... Magnifico! Mas olha que... ella é um por... tento de formosura! Que... fórmas! Se não houvesse outro remedio senão casar com ella... eu... então...

—Deus o livre de tal, querido tio!

—Está claro!... livre... Está dito! até já, meu amigo! Eu não tardo lá. É só tomar no... ta... A proposito,... e... ago... ra me lembra que te queria perguntar... se... j... já tinhas lido as memorias de Cásanova?

—Já, tiozinho... Mas por quê?

—Está... c... claro—Por quê?—Mas... deixa lá... já me não lembro do que é que te queria dizer.

—Depois se lembrará, tiozinho, até logo.

—Até logo, amiguinho, até logo...—Mas que foi uma... delicia... o tal sonho... lá isso foi!{141}

 

XII

—Viémos vêl-a todas, todas! A Prakovia Ilinicha não tarda por ahi! A Luisa Karbovna tambem queria vir, pipila a Anna Nikolaievna dando entrada na sala e a inspeccionar tudo em redor com uns olhos de bisbilhoteira.

É uma mulherzinha, bonitinha, veste com riqueza, mas com umas côres espalhafatosas, e com presunção na sua boniteza. Fareja-lhe que o principe deve de estar alapardado n'um cantinho qualquer e mais a Zina.

—E a Katerina Petrovna tambem não deixa de apparecer, accrescenta Natalia Omstrievna, mulherão com proporções de colosso á qual tem reduzido o pêso os jejuns e dando ares de um granadeiro.

Traz um chapelinho, minusculo, côr de rosa, pespegado na nuca. Ella, vae em três semanas, é a mais intima amiga da Anna Nikolaievna, de quem ella anda atrás, ha muito tempo, e a quem se pudesse nem a pelle lhe deixava.

—O alegrão que ambas me deram em vir passar a noite commigo, nem ha palavras que o possam exprimir, cantaróla Maria Alexandrovna, um tanto refeita já da instantanea surpreza. Mas não me dirão a que feliz acaso devo o prazer?... Nem contava, já, com semelhante honra!

—Valha-me Deus! Maria Alexandrovna, não seja má! diz muito açucarada a Natalia Dmitrievna, com voz de pipía, e tregeitos, toda ella—o que estabelecia curiosissimo contraste com o seu exterior.{142}

—Mas minha querida, pipila Anna Nikolaievna, precisamos concluir os arranjos do tal theatro. Ainda hoje o Petre Mikailovitch disse ao Kalist Stanislavitch que está contrariadissimo por não terem corrido bem as coisas, e porque andassemos a jogar as cristas. E como succedesse ajuntarmo-nos todas quatro, dissémos comnosco: "E se nós fossemos ter com a Maria Alexandrovna a ver se levamos a cabo este negocio?" A Natalia Dmitrievna passa palavra ás outras, e cáem aqui todas. D'este modo poderiamos chegar a um accordo e as coisas entravam no seu curso regular. É para que não digam que apenas sabemos andar á unhada, pois não é assim, meu anjo? accrescentou dando um beijo a Maria Alexandrovna.

Valha-me Deus! Zinaida Aphanassievna, está cada dia mais linda!

Anna Nikolaievna atira-se á Zina e prega-lhe um beijo.

—Mas se a menina não tem outra coisa que fazer a não ser o ir embellezando dia a dia, affirma com affectada amabilidade Natalia Dmitrievna a esfregar as mãos.

—Demonios as levem! E eu que nem sequer já me lembrava do tal theatro! Sim, senhor, estas pêgas tem apurado a malicia! murmura Maria Alexandrovna fula de raiva.

—E tanto mais, meu anjinho, accrescenta Maria Nikolaievna, que o nosso querido principe se acha hospedado em sua casa. Bem sabe que não ha pomietok de Dukhanova, de paes a filhos, que não tenha tido um theatro. Tomámos informações e viémos a apurar que existe algures um armazem atulhado de scenario velho, e um panno, e fatos, até. O principe esteve hoje em minha casa, mas se quer que lhe diga, fiquei tão assarapantada com a visita, que de{143} todo me esqueceu tocar-lhe em semelhante coisa. Agora, comtudo, tencionamos conversar com elle a esse respeito; ha de ajudar-nos, e o principe não deixará de dar as suas ordens para que nos remetam toda essa cangalhada. Pois a quem haviamos de encommendar por aqui coisa que se pareça com uma vista de theatro? E d'ahi, queremos que o principe em pessoa participe da nossa empresa. É necessario levál-o a subscrever: é para os pobres. Quem sabe se elle se não encarregará, até, de qualquer papel; é tão condescendente, tão dado! Correria tudo ás mil maravilhas.

—Pois já se vê, que acceita um papel! Tanto mais que nada ha mais facil do que induzil-o a desempenhar seja que papel fôr, accrescenta significativamente Natalia Dmitrievna.

Anna Nikolaievna não tinha enganado Maria Alexandrovna. Vão chegando de instante para instante senhoras. Maria Alexandrovna quasi que nem tem tempo de se levantar para recebêl-as e de proferir as exclamações da praxe em semelhantes casos, exigidas pelas conveniencias.

Não me afoitarei a descrever uma por uma as visitantes. Direi apenas que cada uma d'ellas desfecha insidiosa olhadella para a dona da casa. Todas ellas denunciando na fisionomia ávida impaciencia. Entre as nobres damas, mais de uma, até, concorria ali na espectativa de presencear a qualquer escandalozinho extraordinario: ficariam desconsoladissimas se se não désse o dito escandalo. Exteriormente, desfaziam-se em amabilidades, Maria Alexandrovna porém estava armada para a lucta. Choviam perguntas a respeito do principe, naturalissimas todas ellas, na apparencia, mas por detrás de todas lá estava uma allusão.{144}

Serve-se o chá. Sentam-se todas á mêsa. Apodera-se do piano um grupo, Zina, ao convite de tocar ou de cantar, responde, muito sêca, que se acha incommodada. A pallidez do rosto abona-lhe aliás a veracidade. Segue-se um tiroteio de perguntas simpáticas, e isso mesmo dá motivo para uma allusão.

Indagam noticias á cêrca de Mozgliakov, é á Zina que são dirigidas. Maria Alexandrovna não tem mãos de medir: acha-se presente a um tempo em cada canto da sala, ouve tudo que dizem as visitantes, supposto sejam mais de dez. Responde a quanta pergunta lhe dirigem sem ter necessidade de remexer as algibeiras á procura de palavras. Está toda ella a tremer com o sentido na Zina, e muito admirada por esta não sair da sala, conforme é seu costume em taes occasiões. Notam tambem a presença de Aphanassi Matveich. Por via de regra fazem escarneo d'elle para melindrarem Maria Alexandrovna na pessoa do marido. Hoje, porém, tudo é quererem sacar as palavras do bucho ao tão singelo e franco Aphanassi Matveich. Maria Alexandrovna, inquieta, não tira os olhos do marido, collocado em estado de sitio.

Elle, responde a todas as perguntas: Hum! com uns modos tão entalados e pouco naturaes que é de uma pessoa se derramar.

—Maria Alexandrovna, não ha quem saque uma palavra a Aphanassi Matveich! exclama uma caçapa de uma dama com uns olhos vivos e uns ares de intrepidez, como quem não tem medo seja de quem fôr, e se não atrapalha com coisa nenhuma. Veja se lhe diz que seja mais delicado com as senhoras.{145}

—Ainda estou para saber o que é que elle terá hoje, responde Maria Alexandrovna, toda ella sorrisos e interrompendo a sua palestra com a Anna Nikolaievna e com a Natalia Dmitrievna. Não está nada expansivo; aqui estou eu que ainda não fui capaz de lhe ouvir uma palavra. Por que é que não respondes á Felissata Mikhailovna, Athanasio?—Que foi que lhe perguntou, Felissata Mikhailovna?

—Mas... mas... minha mãezinha... tu não me recommend... encéta Aphanassi Matveich assarapantado, desnorteado.

N'este ensejo, está espécado ao pé do fogão acêso, com o dedo pollegar enfiado no bolso do collete, em atitude pinturesca e a chuchurrebiar o seu cházinho.

Atrapalham-n'o as perguntas das senhoras, põe-se córado qual candida donzella. Porém, ainda bem não encetara a propria justificação, eis que topa com uns olhos tão irritados da consorte furibunda que fica petreficado de terror. Sem saber o que ha-de fazer e desejoso de remediar a asneira, e reconquistar a estima de Maria Alexandrovna, engole um golo de chá, mas o chá está a ferver, Aphanassi Matveich escalda-se, engasga-se, toma-se de um froixo de tosse, e pisga-se da sala para o quarto, deixando banzada toda a assembleia. Perceberam tudo, e Maria Alexandrovna nem põe em duvida o estarem cabalmente informadas as suas visitas, e o haverem-se congregado em sua casa com intuito malevolo.

É perigosa a situação. Podem muito bem obrigál-o a descoser-se, enredál-o na propria presença da mulher. São capazes, até, de carregar com o principe e de o malquistar{146} com Maria Alexandrovna... Em summa, cumpre contar com o peor.

A sorte reserva á nossa heroina ainda outra prova. Abre-se a porta, e dá entrada o Mozgliakov, a quem ella suppunha em casa de Borodoniev. A previdente senhora estremece como se o que quer que fosse lhe houvera trespassado o coração. Mozgliakov pára nos umbraes da porta, um tanto intimidado, e põe-se a examinar a assembleia. Não consegue dominar o sobresalto a ler-se-lhe no semblante.

—Ai, meu Deus! Pavel Alexandrovitch! exclamam diversas vozes.

—Ai, meu Deus! Mas é o Pavel Alexandrovitch!

—E a senhora a dizer-nos, Maria Alexandrovna, que elle a estas horas devia estar em casa do Borodoniev?

E a dizerem que estava escondido, Pavel Alexandrovitch, lá em casa do Borodoniev, ladra Natalia Dmitrievna.

—Escondido? repete Mozgliakov com sorriso contrafeito. É um tanto exquisita a expressão! Queira perdoar, Natalia Dmitrievna, eu não me escondo nem tenho motivos para me esconder seja de quem fôr, accrescenta vibrando significativo olhar a Maria Alexandrovna.

Estremece Maria Alexandrovna.

—"Ora esta! querem ver que se insurge tambem este bonifrate? diz comsigo, a examinar Mozgliakov. Não faltava mais nada!"

—Será verdade. Pavel Alexandrovitch, que está reformado... das suas funcções?—arrisca a atrevida da Felissata Mikhailovna, a olhar para elle, ironica.

—Reformado? Reformado de quê?{147}

Fui apenas transferido; tenho o meu logar lá em Petersburgo, responde com secura Mozgliakov.

—Ainda bem! E desde já o felicito; continua a Felissata Mikhailovna. Tivemos um susto por sua causa, quando nos disseram que andava a ver se arranjava um logar em Mordassov. Que, logares, por aqui, são pouco estaveis. Pavel Alexandrovitch, de um dia para o outro apanha-se uma demissão.

—A não ser que se trate de um logar de utchitel, para ahi em qualquer escola communal... Esses têm ferias... observa a Natalia Dmitrievna.

É tão transparente a allusão, tão grosseira, que á propria Anna Nikolaievna assoma-lhe o rubor ás faces e pega ás cotoveladas á peste da amiga.

—Persuadem-se então que Pavel Alexandrovitch seria homem para marchar nas piugadas de um reles utchitel? insiste a Felissata Mikhailovna.

Pavel Alexandrovitch, sem saber o que ha de dizer, volta costas e dá de rosto com Aphanassi Matveich de mão estendida para elle. Mozgliakov, alvar, não acceita a mão do conselheiro e faz-lhe rasgada contumélia, com pretenções a ironica. Acerca-se da Zina e, mirando-a a fito, socina-lhe:

—É a culpada de tudo isto... mas espere, e ainda esta noite, verá se eu sou, ou não sou um asno!

—Esperar, eu?—Como se já se não estivesse vendo o sufficiente! retruca a Zina muito de rijo, a medir com uns olhos desdenhosos o recem-rejeitado.

Mozgliakov precipita a retirada, espavorido pela expansão vocal da donzella.{148}

—Vem de casa do Borodoniev? resolve-se por fim a perguntar Maria Alexandrovna.

—Não; venho de estar com meu tio.

—Com seu tio?—Esteve com o principe?

—Ai meu Deus! Com que então o principe já está acordado? E a dizer-nos que estava ainda recolhido, acode Natalia Dmitrievna a enterrar pelo chão abaixo Maria Alexandrovna com uns olhos em que transluz odio e triunfo.

—Não lhe dê cuidado o principe, Natalia Dmitrievna, replica o Mozgliakov; está acordado, e, graças a Deus, recuperou as suas faculdades. Tinha bebido uns copitos a mais, hontem, em sua casa, e acabaram aqui de o toldar de todo; de modo que se lhe tinha varrido completamente o tino. Bem sabe, que está um tanto fraco de cabeça. Agora, comtudo, eu e elle tivemos uma conversa, e está com o juizo no seu logar. Não tarda por ahi, meia hora, Maria Alexandrovna, para lhe dizer adeus, e lhe dar os agradecimentos pela sua franca hospitalidade. Logo de madrugada vamos até á Charneca, tenciono acompanhál-o até Dukhanovo, a vêr se lhe evito para ahi algum tombo, como aquelle que hoje apanhou. Voltará a collocar-se ao abrigo do broquel da Stepanida Matveiévna, que a estas horas já deve ter regressado de Moscou, e lhe não tornará a consentir o expôr-se outra vez aos riscos de uma jornada, isso lhe asseguro eu!

E o Mozgliakov, maligno, a examinar Maria Alexandrovna, embatucada e estupefacta.

(Pêsa-me o ter de confessar que, pela primeira vez na sua vida, sente medo a nossa heroina).{149}

—Retira-se ámanhã! Mas então... como assim? indaga de Maria Alexandrovna a Natalia Dmitrievna.

—Como assim? repete Anna Alexandrovna, pasmada.

—Como assim? effectivamente, écoam outras vozes. E nós a julgarmos que... É extraordinario, na verdade.

A dona da casa nem atina sequer com o que ha de dizer. Eis que, de subito, é attrahida a geral attenção por um episodio da mais extraordinaria excentricidade. Ouve-se, na saleta contigua, um alarido de vozes, de exclamações, e rompe por ali dentro a Sofia Petrovna Karpukhina.

A Sofia Petrovna é sem discussão possivel a mulher mais original em toda Mordassov; é original a ponto que tiveram que a excluir da sociedade. E cumpre advertir que ella, regularmente, ás sete horas, despacha a sua merenda, e que depois de a despachar fica sempre n'uma disposição de espirito... mais que muito emancipada... para não irmos mais longe. E é n'esse estado, exactamente, que ella effectua em casa de Maria Alexandrovna tão inesperada apparição.

—E esta! Com a senhora é sempre assim, Maria Alexandrovna! berra ella estrugindo a tudo: isto será modo de proceder para commigo?!... Não se assuste, vim aqui de corrida, nem me sento, sequer. Vim de proposito para saber se é verdade aquillo que me disseram. A senhora a dar bailes, banquetes e n'este meio tempo, a Sofia Petrovna para ali a um canto, em casa, a concertar as meias! A senhora a ajuntar em sua casa a cidade em peso, menos a mim! Commigo, d'antes, tudo era: minha amiguinha, meu anjo,—quando lhe conveio saber o enredo que a Natalia Dmitrievna a seu respeito e do principe andava a tecer,{150} e vae senão quando, a Natalia Dmitrievna, de quem a senhora—hoje mesmo—como ella aliás diz da senhora—disse cobras e lagartos—está para ahi amesendada na sua soirée! Não se assuste, Natalia Dmitrievna, passo muito bem sem o tal seu chocolate de dois kopeks cada pau. Eu, quando me appetece beber seja o que fôr, lá em minha casa não falta, graças a Deus; tomára a senhora!

—Bem se vê! observa a Natalia Dmitrievna.

—Ora vamos, Sofia Petrovna, exclama Maria Alexandrovna, afogueada de despeito, que é que tem? Socegue!

—Não lhe dê cuidado a minha pessoa, Maria Alexandrovna, estou sciente de tudo, de tudo! guincha com a voz de pipia a Sofia Petrovna, á qual fazem cêrco as visitantes, que não cabem em si de contentes com o escandolozinho. Estou informada de tudo e foi lá a sua Nastassia quem m'o pespegou, tim-tim por tim-tim! A senhora pregou uma camoéca ao tal principe e tanto apertou com elle, até que lhe pediu em casamento a sua filha—que já nem tem quem a queira! E a senhora a ver-se já toda emproada, a julgar-se uma duquêsa, com manto e tudo.—Pfu-u! Não cuide que me mete mêdo! Tenho visto muitas duquêsas e aqui onde me vê sou coronela! Ah! A senhora então nem sequer me convidou para a bôda!—Cá por mim, escarro-lhe em cima!—Tenho muito com quem me dar, tomára a senhora. O ponto está que eu queira! Vá ouvindo: Hontem jantei eu com a princesa Zalikhvatskaia, e por signal que até o commissario principal, o Kuropchkine, me pediu em casamento. Estou-me ninando para o tal seu salsifrê.

Pfu-u! Arreda!

—Escute, Sofia Petrovna, responde Maria Alexandrovna{151} fora de si, fique sabendo que assim ninguem se atreve a pôr pé numa casa decente;... e n'esse seu estado, de mais a mais!... Se me não favorece desde já com a sua ausencia... obriga-me a appellar para...

—Bem sei, chama os criados para me pôrem no olho da rua? Não lhe dê cuidado, sei muito bem o caminho. Adeuzinho! Case lá a sua filha com quem muito bem quiser. E a senhora, Natalia Dmitrievna, escusa de se rir á minha custa: eu cá, ao tal seu chocolate, só se lhe cuspir dentro! Ella convidava-me lá! Isso sim! Não, que lá em minha casa não ha quem danse o kazatchok diante de principes! E lá a senhora, tambem, Anna Nikolaievna, de que é que se está a rir? O seu Suchilov partiu indagora uma perna: e lá o levaram em charóla para casa—ha de-lhe fazer falta, já se vê! Pfu-u! E a senhora, Felissata Mikhailovna, se não avisa aquelle calcanhar rachado do seu Matvehka que, se torna a consentir que a sua vacca esteja todo o santo dia aos bérros debaixo da minha janéla, parto-lhe as pernas, ao tal seu Matevchka! Adeuzinho, Maria Alexandrovna! A bom intendedor, o resto já se sabe! Saúde!

Pfu-u!

Some-se a Sofia Petrovna. Desata toda a gente á gargalhada. Maria Alexandrovna ficou entupida de todo.

—Estou em dizer que beberia a sua pinga, diz a Natalia Dmitrievna, muito de mansinho.

—Se já se viu semelhante desaforo;

—Abominavel criatura!

—Se quer ao menos fartámo-nos de rir!

—Que chorrilho d'inconveniencias!

—É ella abrir a bôca!—Passa fora!{152}

—Mas que queria ella dizer com as taes bôdas? indaga em ar de mofa a Felissata Mikhailovna.

—É temivel! exclama Maria Alexandrovna. E são uns monstros d'este calibre que andam para ahi a desacreditar a toda a gente, com a estupida linguarice! E sabe o que lhe digo, Felissata Mikhailovna, é que me não admira, que umas fufias assim sejam recebidas na nossa sociedade, quando, o que é ainda mais para admirar, ha gente que a ellas recorra, que lhe dê ouvidos, e que lhes dê credito... cambada!...

—O principe! O principe! gritam á uma.

—Valha-me Deus! O principe!

—Graças a Deus! Até que emfim vamos ficar sabendo a verdade.{153}

 

XIII

Entra o principe, dilatados, os labios por aquelle seu meigo sorriso. A inquietação insuflada pelo Mozgliakov n'aquelle descuidado coração desapparece de todo, ao dar com os olhos nas damas: derrete-se desde logo que nem um rebuçado.—Elle, em geral, entretem muitissimo o bello sexo. A Felissata Mikhailovna affirmava, até, esta manhã, por brincadeira, já se vê, que estava pronta a sentar se-lhe nos joelhos, se elle quisesse, pois era "um encanto de um ginjinha, um encanto nunca visto, até." E Maria Alexandrovna sem tirar d'elle os olhos, a estudál-o, tentando prever-lhe no semblante o desfecho de tão critica situação. É evidente haver o Mozgliakov comprometido gravemente o negocio e o estar um tanto vacilante a emprêsa. E não obstante nada se pode ler no rosto do principe... está, como sempre, insipido e encantador.

—Ai, meu Deus! Até que ahi vem o principe! E nós todos á sua espera! exclamam diversas damas.

—Com impaciencia, principe, com impaciencia, pipilam as restantes.

—Li... son... son... jeia... me... sum... ma... mente, diz o principe sentando-se á mêsa defronte do samovar a ferver.

As damas atrigam-se em fazer-lhe cerco. A Anna Nikolaievna e a Natalia Dmitrievna são as unicas que se deixam ficar ao pé de Maria Alexandrovna. Aphanassi Matveich{154} sorri, respeitozissimo. Mozgliakov sorri tambem a olhar com uns ares de provocação para a Zina a qual, sem fazer caso delle, se acerca do pae e se senta ao lado d'este n'uma poltrona.

Ah! principe—sempre é verdade que se retira? indaga a Felissata Mikhailovna.

—Está c... claro... minhas senhoras, retiro-me; vou... im... me... diata.. mente para o estrangeiro.

—Para o estrangeiro, principe!

—Para o estrangeiro! clama toda a gente em côro. Que ideia!

—Pa... ra o est... est... rangeiro, affirma o principe, a tomar atitudes, e n... não sabem?—eu se vou é... é... por causa das taes... ideias novas.

—Como assim? As ideias novas?

—De que é que se trata? perguntam as damas a olhar umas para as outras.

—Está... c... laro!... As ideias novas! insiste o principe com uns modos de intima convicção; vae lá toda a gente, agora, por causa das ideias novas, e eu se vou é... com... o sentido tambem de me sa... turar.

—É capaz de estar com o sentido em ir filiar-se por lá em alguma loja maçonica? intervem o Mozgliakov desejoso de fazer brilhar o seu espirito na presença das damas.

—Está... c... claro, meu amigo, não t'enganas. Eu, em tempos, pertenci, effectivamente, a uma loja maçónica. Animavam-me, até, umas ideias, muitissimo generosas... Propunha-me a fazer muita coisa... em... em favor da... in... instrucção... mo... moderna. Queria dar carta... de... al... fo... forria ao meu Si... do... dor, mas safou-se{155} antes de tempo, com grande es... panto da minha parte. Que lemb... rança tão ra... tona! Depois, um dia, encontrei-o cara... a... cara... lá em Paris, vestido como um dandy, com umas suissas,... a passear pelo bou... levard... com uma "menina". Acenou-me com a cabeça... e mais nada. E a tal menina, que levava p... pelo braço tinha uns ares tão agai... atados... tão ape... titosa.

—O tiozinho, então, d'esta vez, em se apanhando em Paris, dá a liberdade aos servos todos, sem excepção?

—Está..., c... claro... adivinháste-me o pensamento, meu c... caro. É tal qual... quero dar liberdade a to... dos elles.

—Ora vamos, principe, safam-se-lhe todos de casa, e depois, quem é que lhe paga o dizimo? exclama a Felissata Mikhailovna.

—Pois já se vê, que se safam, acode, inquieta, Anna Nikolaievna.

—Ai, meu Deus! Que me diz? Então parece-lhe que o façam?

—Safam-se, safam-se, pudera não... Tão certo! E o senhor, depois, vê-se sósinho, confirma a Natalia Dmitrievna.

—Ai! meu Deus! Visto isso... então n... não lhes dou... al... for... ria! E d'ahi, eu dizia isto... por dizer.

—Antes assim, tiozinho.

Maria Alexandrovna, até agora, tem estado caláda a observar. Parece-lhe que o principe se esqueceu d'ella, totalmente, e não acha isso natural.

—Principe, enceta elevando a voz e com dignidade, peço-lhe licença para lhe apresentar Aphanassi Matveich,{156} meu marido. Veiu expressamente do cantinho da sua aldeia, assim que soube que o principe se achava hospedado em minha casa.

Aphanassi, todo elle sorrisos e a fazer papo. Afigura-se-lhe que acabam de lhe endereçar um cumprimento.

—Ah! Fol... go im... menso... Apha-anassi Matveich. Dê me licença... está-me a parecer que... me lembro... do que quer que seja... Aphana-assi Matvei... tch? Ah! sim! sim! Aquelle que estava no campo?... Encantado! encantado! Quanto esti... imo... Meu amigo, exclama o principe dirigindo-se a Mozgliakov... mas foi elle que... que... como se intende, então?... O marido lá por fóra... e a mulher... em... Sim, sim, lá n'uma cidade... e a mulher...

—Ah! principe,... isso pelos modos ha de ser: o Marido lá por fóra, e a mulher em Tvor, o tal vaudeville, que uma companhia ambulante representou lá em casa o anno passado?

—Está c... claro, em Tvor, e... eu... sempre a esqué... quécer-me! Encantado, encantado! Com que, então, é o senhor? Quanto estimo conhecêl-o! diz o principe sem se erguer da cadeira, de mão estendida para Aphanassi Matveich. E então, como vae?

—Hum!...

—Está optimo, optimo! acode Maria Alexandrovna.

—Está... c... claro... bem se vê... Com que, então, vive sempre no campo? Pois, senhor, estimo muito.—Mas que bochêchas tão corádas que elle tem! E não faz senão rir!...

Aphanassi Matveich sorri e faz-lhe a sua vénia, a arrastar{157} o pé pelo sobrado. E comtudo, assim que ouve a ultima observação do principe, não se pode suster e desata uma gargalhada alvar. E imita-o toda a gente. As damas soltam guinchos de alegria. A Zina, corrida, ruboriza-se e vibra uns olhos coruscantes a Maria Alexandrovna, que se está comendo de raiva. É tempo de desviar a conversação.

—Dormiu bem, meu principe? indaga com voz tranquilla, intimando ao mesmo tempo, com uma olhadella vivaz, Aphanassi Matveich a que volte quanto antes para o seu logar.

—Dormi op... ti... mamente... E, não sabem, tive um sô... ônho deliciôso, deli... ciô... so!

—Um sônho! Gósto tanto de que me contem sônhos! exclama a Felissata Mikhailovna.

—Tambem eu! accrescenta a Natalia Dmitrievna.

—Um sô... nho... deliciôso... repete o principe com meigo sorriso; mas é segredo o tal sônho.

—Como assim, principe? Nem sequer se pode contar? observa Maria Alexandrovna.

—Um grande segredo! repete o principe.

Recrudesce a curiosidade.

—Mas, então, deve de ser interessante, interessantissimo, exclamam de todos os lados.

—Não se me dava de apostar que o principe, no tal seu sônho, estava de joelhos aos pés de alguma beldade a fazer-lhe a sua declaração de amor! exclama a Felissata Mikhailovna. Ora vamos, principe, confesse! Confesse!... então, meu rico principezinho da minha alma!

—Confesse, principe, confesse! exclamam por todos os lados.{158}

E o principe deliciado, a escutar aquella gralhada. Lisonjeia-o a supposição, e lambe-se todo, até.

—Comquanto seja um grande segredo, não tenho remedio senão confessar que ma... madame, com grande espanto da minha parte, por pouco o não adivinha de todo.

—Adivinhei! exclama com arrebatamento Felissata Mikhailovna. E então, principe, é preciso dizer-nos quem é essa tal belleza!

—Tem obrigação de o dizer!

—Achar-se-ha aqui?

—Diga, diga, meu rico principezinho!

—Principe... meu amorzinho! Diga! Morra depois, mas diga!

—Mi... nhas... senhoras! Minhas se... senho... ras, se insistem em absoluto por que lh'o diga, apenas lhes po... derei desvendar uma coisa: era a mais seductora, a mais virtuosa menina, de quantas... tenho conhecido em minha vi... vida!

—A mais seductora... de quantas aqui estão? Quem será? indagam entre si as damas a trocarem signaes de connivencia.

—Com toda a certeza que deve de ser aquella que disputa a fama de ser a primeira beldade de Mordassov, prorompe a Natalia Petrovna a bater as palmas com aquellas manápolas côr de lagosta e sem tirar os olhos de cima da Zina.

E toda a gente com os olhos pregados na Zina.

—Mas como é, então, que o principe, com uns sonhos assim, não se casa por uma vez? indaga a Felissata Mikhailovna.{159}

—Soubessemol-o nós, e que noivazinha lhe não teriamos arranjado! affirma, d'ali, outra dama.

—Case-se! case-se, principezinho da minha alma—pipíla uma terceira.

—Case! case-se!—guincham por todos os lados. Por que é que não ha de casar?

—Está... c... claro... por que é que eu me... n... não hei-de casar? acóde o principe, atrapalhado.

—Tiozinho! exclama o Mozgliakov.

—Está... c... claro, meu amigo, já te percebi. O que eu queria dizer-lhes, minhas senhoras, é que me não posso casar. Concluida esta deliciosa soirée, em casa da nossa amabilissima hospeda, amanhã tenciono ir até a charnéca, e d'ali, para o es-trangeiro, quero ir estudar a ins-tru-cção euro-ro-pêa.

A Zina está enfiada e vibra á mãe uns olhos rancorosos. Maria Alexandrovna, comtudo, assentou n'uma resolução. Até agora, estava á espera, a apalpar o terreno, supposto lhe parecesse achar-se sufficientemente compromettido o negocio e haverem-se-lhe antecipado seus inimigos. Percebe tudo, finalmente, e, de um golpe, quer acabar com aquella hydra das cem cabeças. Ergue-se, majestatica, acerca-se da mêsa a passo firme e com soberbo olhar enterra pelo chão abaixo aquelles pygmeus que a rodeiam. Reluz-lhe nos olhos o fogo da inspiração. Vae aniquilar aquella sucia de coscovilheiras peçonhentas, esmagar aquelle sevandija do Mozgliakov como quem esmága uma barata, e com um golpe decisivo, reconquistar de todo a influencia que perdeu sobre a pessoa d'aquelle idiota d'aquelle principe. Claro está que para isso ha mister de appellar{160} para um atrevimento extraordinario, mas não será isso que escasseie a Maria Alexandrovna.

—Minhas senhoras, enceta com modo solemne (Maria Alexandrovna nutre paixão pela solemnidade), minhas senhoras, tenho estado a ouvir calada as suas gracinhas e acho que já vae sendo tempo de que eu, pela minha vez, lhes dirija algumas. Bem sabem que nos achamos aqui juntas, unicamente por mero acaso. Estimo isso muito... Nunca me haveria resolvido a tornar publico um tão importante negocio de familia antes de o exigirem os dictames do mais estricto decoro. E acima de tudo, pedirei perdão ao nosso distinctissimo hospede. Mas quer me parecer que é elle o proprio quem, mediante remotissimas allusões a semelhante circunstancia, me suggere o pensamento de que a formal declaração d'este segredo lhe será grata, mas que ella lhe inspira apprehensões. Não é verdade, meu principe, que me não enganei?

—Está claro... não se enganou... e estimo muito... muito... diz o principe sem perceber palavra d'aquillo de que se está tratando.

Maria Alexandrovna, no intuito de melhor dispôr o seu lance, toma o folego e põe-se a examinar todo o auditorio, todos á uma a escutál-a com ávida e inquieta curiosidade. O Mozgliakov, todo elle a tremer, a Zina, muito afogueada, levanta-se... Aphanassi Matveich, n'estes assados, assôa-se.

—Sim, minhas senhoras, folgo immenso de as tornar participes d'este segredo familial. Hoje, depois de jantar, o principe, seduzido pela formosura de... pelas qualidades de minha filha... conferiu-lhe a honra de lhe pedir a mão. Principe, conclue ella com um tremor na voz, querido{161} principe, não me deve querer mal por esta minha indiscreção. O auge do contentamento, eis o que conseguiu arrancar-me do coração, um tanto prematuramente, este segredo estremecido, e... qual será a mãe que m'o leve a mal? Nem encontro sequer palavras que descrever possam o effeito produzido pela inspirada saída de Maria Alexandrovna. Ficaram todos varados de espanto. As visitantes, que suppunham assustar Maria Alexandrovna, deixando-lhe antever o estarem senhoras do seu segredo, matál-a com a divulgação do segredo, esfacelál-a com o poder unico das allusões, ficam estupefactas perante uma tão denodada franqueza. Uma tal valentia era um signal certo de bom exito.

—Por conseguinte, é por sua propria vontade que o principe vae casar com minha filha Zina. Ninguem o enganou, ninguem o embriagou... E por tanto, não foi com esconderijos, á laia de ladrão, que o obrigaram a tomar estado! Maria Alexandrovna, n'essa conformidade, não se arreceia seja de quem fôr, e não ha ninguem que possa malograr este casamento.

Paira um borborinho que desde logo se transforma em jubiloso alarido. A Natalia Dmitrievna arremete de braços abertos para Maria Alexandrovna, segue-lhe o exemplo a Anna Nikolaievna, e a Felissata Mikhailovna vem na trazeira do rancho. Põem-se todos de pé, baralham-se. Das damas, algumas ha que estão fulas de raiva. Pegam a dirigir parabens á Zina, atrapalhada, e atiram-se, até, ao Aphanassi Matveich. Maria Alexandrovna estende os braços com enfase, e á viva força, quasi, agarra-se á filha aos abraços a ella. Tão sómente o principe, todo elle a rebulir, a considerar{162} esta scena, de olhos espantados. E d'ahi, agrada-lhe aquillo. Ao ver a filha nos braços da mãe, saca, até, do lenço e limpa o canto do olho onde bugalhou uma lagrima. Atiram-se a elle, tambem, para lhe dar os parabens.

—Parabens, principe, parabens! guincham por todos os lados.

—Com que então é certo, sempre vae casar?

—Sempre se casa, effectivamente?

—Ora até que se casa, principezinho da minh'alma!

—Está... c... claro... está... c... claro! responde o principe, encantado de semelhante enthusiasmo. Confesso-lhe que a sua simpatia me tocou o coração... Nunca me ha... de esquecer! Encan... tado! Encan... tado! Fizeram... me, até, vir as lagrimas aos olhos.

—Venha um beijo, principe! guincha mais que todas juntas a Felissata Mikhailovna.

—E confesso-lhe... prosegue o principe, que fiquei pasmado por ver que a nossa digni... ssima hos... peda, adivinhasse... com tanta pers... picacia, um sonho tão extraordi... nario, como se fosse ella... que o sonhou... tal qual—Es... panto... sa pers... pica... cia.

—Ora esta! E o principe ainda a insistir no tal sonho?

—Então, vamos, principe, confesse! clama o côro das damas a fazer-lhe cerco.

—Deixe lá, principe, é escusado estar com esconderijos, é tempo de patentear o seu coração, declara em tom categorico Maria Alexandrovna. Não me escapou a fina alegoria, a delicadeza cavalheiresca, que se revelam na forma discreta por que tornou publico o seu pedido. Sim, minhas senhoras, é verdade, hoje ainda, o principe ajoelhou aos{163} pés de minha filha, e de modo real e verdadeiro, que não em sonho, formulou solemnemente o seu pedido.

—Quan... to... ha de mais real... e nas mê... mêsmas circunstancias, appoiou o principe. Minha me... nina, proseguiu com summa delicadeza dirigindo-se á Zina cada vez mais atrapalhada, juro-lhe que jamais me atreveria a proferir o seu n... ôme, se acaso o não tivessem outros... mencion... ado antes. Foi um sonho de... licioso... uma... de... licia de um... sonho! E folgo immenso... em ter ensejo... de o manifestar Um encanto!... Um encanto!

—Mas, como se intende isto? Elle insiste em se referir ao tal sonho! murmura a Anna Nikolaievna dirigindo-se a Maria Alexandrovna, inquieta e um tanto enfiada.

Mas, ai! O coração de Maria Alexandrovna está alanceado por tristissimos presentimentos.

—E então? murmuram as damas a olharem umas para as outras.

—Ora vamos, principe, profere Maria Alexandrovna com um sorriso amarello, confesso-lhe que me deixou pasmada.—Admira-me que esteja a insistir n'essa sorna do tal sonho! Eu até agora, estava na fé, de que fosse méro gracejo da sua parte... mas... se o é, ha de convir, que se vae prolongando um tanto fora de proposito... Não posso nem devo admitir que seja outra coisa além de uma distracção...

—Deve de ser por distracção, efectivamente, assobia a Natalia Dmitrievna.

—E... stá... c... claro!... Di... distracção! repete o principe sem perceber o que é que d'elle pretendem... Ora... ima... ginem, vou contar-lhes uma anecdó... ta. Fui convidado{164} pa... ra assistir a um enterro, em Petersburgo, n'uma casa burguêsa, mas decente, e... e fiz confusão... suppús que era para festejar o nas... cimento de uma creança, (o tal dia... nata... licio já lá... ia, havia mais de uma semana)... e fui comprar um lindo rama... lhete de camelias para a pessoa... fes... tejada. Entro... e que hei de eu ver? Um su... jeito mui... to digno, de uma certa edade, estendido em cima da mesa... Fiquei passádo, sem saber onde me havia de meter e mais o meu ramo.

—Pois sim, principe, não se trata agora de anecdótas! atalhou Maria Alexandrovna despeitadissima. Minha filha, louvado Deus, não tem necessidade de andar á pesca de noivos, mas inda agora, o senhor, em pessoa, ali ao pé d'aquelle piano, a pediu em casamento. Ninguem o obrigava... para mim propria foi uma surpreza... mas sou mãe, e ella, é minha filha... Acaba de referir-se a um sonho; sempre estive na fé de que fosse uma allusão aos seus esponsorios... Sei e mais que sei, que o viraram de dentro para fora—desconfio quem fosse—tal qual uma luva, mas...—queira explicar-se, principe, e queira fazêl-o quanto antes! Semelhantes gracejos não tem cabimento n'uma casa respeitavel.

—E... stá.. c... claro! Não são brin... cadeiras para... uma casa respeitavel, concorda o principe... inconsciente, mas um tanto inquieto.

—Então, não me responde, principe! Já lhe pedi que quisesse explicar-se de modo peremptorio: confirme, confirme, desde já, diante de toda a gente, o facto de haver pedido hoje minha filha em casamento.

—Es... tá... c... claro... estou pronto a confirmar... {165} Tanto mais, que já lhes contei tudo, e Felissata Yako... kolevna adivinhou ca... balmente o meu sonho.

—Sonho! Qual sonho!? exclama rabiosa Maria Alexandrovna; não foi sonho. Foi realidade, principe, intendeu? Realidade e mais que realidade!

—Rea... li... dade... repete o principe erguendo-se da cadeira... Está-se dando... tudo aquillo de que... tu me preveniste, accrescenta dirigindo-se a Mozgliakov. Afirmo-lhe, Maria Alexandrovna... que ha equi... voco da sua parte. Tenho toda a certeza em como foi sonho!

—Meu Deus! geme Maria Alexandrovna.

—Não se afflija, Maria Alexandrovna, intervem a Natalia Dmitrievna; ao principe, varreu-se-lhe da memoria... elle se lembrará.

—Isso nem parece seu, Natalia Dmitrievna! responde furibunda Maria Alexandrovna. Isso são lá coisas que se esqueçam? Ora vamos, principe, deixemo-nos de facecias! Dar-se-ha o caso de que esteja armando em Lovelace? Mas, tenha a certeza, sem falarmos em que é pouco proprio da sua edade, juro-lhe, que lhe não ha de valer! Minha filha não é para ahi qualquer viscondessa francêsa! Não ha ainda muito tempo, lhe estava ella a cantar uma romança e o senhor de joelhos a seus pés, a formular o seu pedido de casamento.—Serei eu que estou a sonhar? Fale, principe... Estarei a dormir, porventura?

—Es... tá c... claro!... e d'ahi, talvez que não, responde o principe, desnorteado de todo... Quero dizer... não creio... que estou a sonhar... pre... sente... mente. Mas... não vê a senhora... que eu, indagora, estava a sonhar... e depois vi... em sonhos, que eu, a sonhar... {166}

—É preciso paciencia, meu Deus!... Que quer dizer com isso? Em sonhos, que eu, a sonhar! Nem o proprio demonio era capaz de o perceber!... O principe estará a delirar?

—Está c... claro!... Nem o proprio demonio... E d'ahi... eu é que não percebo uma pa... palavra, declara o principe a olhar para todos os lados, inquieto.

—Mas como é que o principe póde ainda acreditar que é sonho, depois de eu lhe ter contado os pormenores d'esse tal supposto sonho do qual o senhor não tinha dado parte a ninguem?

—Mas quem nos affirma que o não tivesse já contado a alguem, insinua n'este ensejo a Natalia Dmitrievna.

—Está... claro... a alguem, confirma o principe.

—Que comedia! murmura a Felissata Mikhailovna á vizinha.

—Ah! meu Deus! excede a humana paciencia! vocifera Maria Alexandrovna, a estorcer as mãos, no auge do exaspero. Se ella até lhe estava a cantar uma romança; uma romança! Tambem a veria no tal sonho?

—Está... claro... effectivamente, uma romança, murmura, absorto, o principe.

De repente, vem ressuscitá-lo uma reminiscencia.

—Meu amigo, exclama dirigindo-se a Mozgliakov, tinha-me esquecido dizer-te, indagora, que ella me tinha cantado uma romança... em que havia uns cas... tellos... muitos... com um tro... vador... Está... claro... recordo-me... e por signal... que até chorei... e agora nem sei já, se seria realidade ou se foi sonho.

—Tiozinho, responde o Mozgliakov com a maxima{167} tranquilidade que pôde assumir (com quanto lhe trema a voz) não me parece lá muito grave a dificuldade. Na realidade, não direi que não tenha ouvido uma romança, canta tão bem a Zinaida Aphanassievna! Acordar-lhe-hia reminiscencia dos seus bons tempos de outrora, dos instantes ditosos, talvez que da tal viscondessa com quem o tio cantava tambem, algum dia, romanças e á qual se referiu esta manhã. E depois, a dormir, sonharia talvez que estava apaixonado e que tinha formulado o seu pedido de casamento.

Maria Alexandrovna fica atordoada com semelhante insolencia.

—Ai! meu amigo! effectivamente! Ha de ser isso! exclama o principe, contentissimo. Sim, sim, a dor... dormir!... umas agrad... aveis sensações... Lembro-me da romança, e eu a querer casar... Um sonho! E tambem ali estava a viscondessa... Ah! como tu desen... vencilhaste bem tu... do isso... meu caro! Muito bem! É eu agora estou convencido:—era um sonho, Maria Vassilievna! Affirmo-lhe que está... equi... vocada: foi sonho!... eu... nunca seria capaz de estar gracejando... com a sua... respeita... bilidade.

—Ah! agora, agora estou vendo quem foi o autor de tudo isto! exclama fora de si Maria Alexandrovna com os olhos fitos em Mozgliakov. Foi o senhor, o senhor! homem sem dignidade! Foi o senhor! Enganou este pobre idiota para se vingar de ter apanhado um não pelas ventas! Mas tu m'as pagarás, miseravel! Tu m'as pagarás, deixa estar!

—Maria Alexandrovna, vociféra por sua vez Mozgliakov,{168} vermelho que nem uma lagosta cozida, são tão... as suas palavras... nem sei até que ponto as suas palavras... uma senhora da sociedade jámais se permittiria... Estou defendendo meu tio... e confesse que o querer seduzir de semelhante modo...

—Es-tá... c-claro—seduzir... seduzir... de semelhante... modo—mia o principe, que se ergueu da cadeira e tudo é querer esconder-se por detrás de Mozgliakov.

—Aphanassi Matveich—despulmôa-se a berrar Maria Alexandrovna, não ouves que estão para aqui a desacreditar-me? Perderias tu o sentimento dos teus deveres, porventura? Não serás tu mais que um cêpo? Para que estás tu para ahi a piscar os olhos? Outro qualquer no teu logar tinha já lavado com sangue o ultraje que nos estão fazendo!

—Minha esposa! enceta com solemnidade Aphanassi Matveich, lisonjeado por ver que se lembram delle, minha esposa! não seria sonho, effectivamente? E depois, tu, ao acordar, ficares suppondo que era verdadeiro...

Aphanassi Matveich, nem tempo tem de concluir a sua espirituosa interpretação. As visitantes, até ali, contiveram-se mantendo uns módos de cortês hypocrisia, mas d'esta vez a risota foi geral.

Maria Alexandrovna, esquecendo de todo as conveniencias, atira-se ao marido, para lhe arrancar os olhos, provavelmente; vêem-se na necessidade de a segurar á força.

A Natalia Dmitrievna aproveita a circunstancia para entornar uma doze d'alcatrão no lume.

—Ah! Maria Alexandrovna, quem nos diz que não foi sonho, effectivamente? emitte em voz represada.{169}

—Um sonho? Um sonho o quê? clama Maria Alexandrovna sem perceber.

—Então! Maria Alexandrovna, são coisas que acontecem.

—Acontece? Mas que é que acontece?

—Talvez que a senhora tenha visto tudo isso a sonhar!

—A sonhar! Eu? A sonhar! E atreve-se a dizer-m'o na cara!

—E d'ahi, é possivel, insiste a Felissata Mikhailovna.

—Está... c-claro!... é po... pos-possivel, murmura por sua vez o principe.

—Pois tambem elle! Elle! Santo Deus! Maria Alexandrovna enclavinha as mãos.

—Não se desconsole, Maria Alexandrovna! Lembre-se de que os sonhos é Deus que os manda! Não ha coisa nenhuma n'este mundo que possa ir ávante contra a sua santa vontade... nem é motivo para que se altere.

—Está... c-claro... não ha motivo...

—Cuidam talvez que sou alguma doida? consegue apenas silvar Maria Alexandrovna esganada de raiva.

Encheu-lhe a medida ás forças semelhante scena. Procura á pressa uma cadeira e deixa-se cair, exanime.

Segue-se uma algazarra.

—Acudiu a tempo o chelique!

N'este conflicto, porém, eis que surge por entre a balburdia geral, a intervir, uma personagem muda até então, e se transforma desde logo a feição da scena.{170}

 

XIV

Era sobremodo romanesco o caracter da Zinaida Aphanassievna. Não sabemos se teria abusado da leitura daquelle "pateta do tal Shakspeare", lá, com o tal seu utchitelzinho, mas até agora ainda não havia praticado um tão heroico acto de loucura como o que praticou n'este conflicto.

Enfiada, com os olhos a relampejarem-lhe de resoluta, toda ella n'um tremor, um portento de formosura e de colera, avança, varre com a provocação nos olhos toda aquella gente em redor de si, e por entre o silencio geral, dirige-se á mãe a qual, assim que a Zina se levantou, tornou a abrir os olhos.

—Para que é estar com fingimentos, mamã? É já tão sujo, tudo isto a que estamos assistindo! Basta de mentiras! Não vale a pêna estar a tapar lama com a propria lama.

—Mas que é isto, Zina! Tu não estás em ti! exclama Maria Alexandrovna, erguendo-se de repellão.

—Eu bem a tinha avisado, mamã, de que não podia supportar semelhante vergonha! Não estejamos a sujar-nos mais do que o estamos já!... Assumirei a responsabilidade de tudo. Fui, eu, visto que consenti, que teci toda esta vilissima... intrigalha. A mamã estava na fé de que trabalhava com o sentido em me tornar feliz, sequer ao menos tem desculpa: eu, nenhuma!{171}

—Que vaes tu dizer, Zina! Bem me dizia o coração que me estava ainda guardado mais este desgosto!

—É assim mesmo, mamã! Vou declarar tudo! Nem sei como não morri de vergonha... cobrimo-nos de opprobrio, tanto a mamã como eu...

—Estás exagerando, Zina! Nem sabes o que estás dizendo! Contar tudo, para quê?... Não ha a minima necessidade... Quem se cobriu de opprobrio não fômos nós, e vou provál-o!

—Deixe-me falar! Não quero estar calada por mais tempo na presença de uma gente que desprézo e que vieram aqui unica e exclusivamente para se rirem á nossa custa. Entre estas mulheres, sem excepção, não ha uma unica a quem assista o direito de me condemnar! Todas ellas estão prontas a fazer cem vezes peor do que fizemos, eu, e a mamã. Com que direito poderiam ellas, com que direito se atreveriam a fazêl-o?

—Então! Já viram?

—Quem n'a ouve falar!...

—Mas está nos offendendo!...

—E ella, sim, que será?

—Ella sabe lá o que está dizendo? remata a Natalia Dmitrievna. Seja dito, entre parenteses, que a Natalia Dmitrievna não deixava de ter razão. Se a Zina considerava aquellas damas indignas de julgar á mãe e a si, por que era então que se ia confessar na sua presença? Em summa, a Zina tinha procedido com excessiva precipitação. E mais tarde, era esta, até, a opinião das pessoas mais sensatas em Mordassov. Tudo se poderia haver conciliado. É certo que Maria Alexandrovna, pela sua parte, se havia{172} prejudicado pela sua precipitação e sua altivez. Ter-lhe-hia bastado meter a ridiculo o idiotazito do ginja e pôl-o a andar. A Zina, comtudo, de caso pensado e como que para arrostar com o bom senso e a sisudez mordassovense, dirigiu-se ao principe.

—Principe, diz a Zina ao velho que desde logo se põe de pé com deferencia, a tal ponto o impressionou a fisionomia da Zina, queira perdoar-nos, mas saiba que o enganámos!

—Não te calarás por uma vez! desgraçada! vocifera Maria Alexandrovna.

—Minha—menina,—minha... menina... minha... en... en... cantadora... murmura o principe, pasmado.

O caracter soberbo, fogoso e mistico da Zina leva-a a transpôr quaesquer limites. Esquece-se dos transes por que estará passando a mãe ante esta publica confissão; só vê a salvação, a redempção na franqueza, e vae até ao fim.

—Enganámol-o, sim, uma e outra, principe; a mamã resolvendo-me a aceitar a sua mão, e eu em consentir. Embriagámo-nos, eu, puz-me a cantar e a fazer tregeitos na sua presença com sentido em o saquear, conforme se expressou ha pouco Pavel Alexandrovitch, para lhe roubar a sua fortuna e o seu titulo. Era ignobil! E peço-lhe perdão! E comtudo, juro-lhe, principe... que a minha intenção... O que eu queria era... mas é duplicar a injuria o estar a procurar desculpas. E todavia, declaro-lhe, principe, que se eu tivera casado com o senhor, se eu o houvesse saqueado e roubado, em compensação, haver-me-hia tornado o seu brinquedo, a sua criada, sua escrava... A{173} mim propria m'o havia prometido, e cumpriria o meu juramento...

Veiu interrompêl-a um deliquio, as visitantes estão de pé, todas ellas, com os olhos esgazeados. A tão imprevista quanto incomprehensivel expansão (para ellas) da Zina desorientou-as. O principe, tão sómente, tem os olhos arrazados de lagrimas, de commovido, supposto não perceba metade sequer do que ella tem dito.

—Mas... es... tá... claro... que hei de casar com a menina... com a minha... l... linda menina, visto que tanto o... o deseja. E isso para mim re... representa... até, subida hon... ra... Mas, não deixarei... de insistir em que foi sonho!... Vejo tan... ta coisa, a so... sonhar! Por que é que se hão-de estar a inquietar? Eu não percebi coisa nenhuma, meu amigo, prosegue dirigindo-se a Mozgliakov; explica-m'o, se fazes favor!

—E o senhor, Pavel Alexandrovitch, que se vingou de mim de modo tão cruel, como é que pôde combinar-se com semelhante gente para me esfacelar desacreditando-me? Allegava amar-me!... Mas para que estarei eu para aqui a prégar-lhe moral!... Sou mais culpada que o senhor, offendi-o; tambem para com o senhor me vali de hyprocrisia, de mentira! Nunca lhe tive amor, e se eu um dia me resolvesse a desposál-o, seria unicamente para me ver livre d'esta maldita cidade... Mas declaro-lhe, que se tal houvesse succedido, teria em mim uma esposa fiel e carinhosa.

—Zinaida Aphanassiévna!

—E se ainda me conserva rancor...

—Zinaida Aphanassiévna!!{174}

—Se é que, algum dia, prosegue a Zina a rebalsar as lagrimas, se é que algum dia me teve amor...

—Zinaida Aphanassievna!!!

—Zina! Zina! Minha filha!

—Sou um miseravel, Zinaida Aphanassievna, um miseravel, e nada mais!...

Produz-se um reboliço estupendo, uma vozearia de espanto, de indignação, de atroar a tudo. Mozgliakov ficou que nem que fôra de pedra, incapaz de pensar, de falar.

Sempre que um caracter fraco e ôco, afeito a constante submissão, se decide a insurgir-se, pára sempre perante um certo limite. A principio, a insurreição manifesta-se com summa energia, é a energia do desespero, comtudo; arremete contra os obstaculos, de olhos vendados, e assumme sempre fardos pesados demais para os seus hombros. Chega um momento em que o desatinado se assusta de si mesmo, estaca, como que atordoado, e diz comsigo: "Mas que estou eu fazendo?" E distende-se o arco, pede perdão o insurrecto, supplíca, implora que as coisas "voltem a estar como estavam", comtanto que isso se effectue quanto antes... Foi o que se deu com o nosso Mozgliakov. Afflictissimo com o desastre de que fôra autôr, a si proprio se abomina, despedaça-o o remorso, as ultimas palavras da Zina anniquilaram-n'o de todo. O passar de um extremo a outro extremo representa para si obra de momentos.

—Sou um jumento, Zinaida Aphanassievna! Um jumento, nem mais nem menos! Ou ainda peor! Mas hei de provar-lhe, Zinaida Aphanassievna, que hei de saber tornar-me um homem de bem!... Saiba que o enganei—tiozinho! Fui eu, fui eu que o enganei!—O tio não estava a sonhar, e{175} pediu effectivamente a mão de Zinaida Aphanassievna! Quando lhe disse que fora sonho, enganei-o de meio a meio...

—Mas que coisas tão espantosas que estão vindo a lume! assobia a Natalia Dmitrievna.

—Es... tá... cclaro... um sonho... responde o principe... Mas socéga, por favor! Assustaste-me... pa... pa... lavra de honra! E que bella voz que tu tens! Estou pronto a ca... sar, se fô... fôr... necessario... Mas tu foste o pro... prio a af... firmar-me que... que foi sonho!

—E como é que eu agora o hei de despersuadir? Que hei de eu fazer? tiozinho, considére em que se trata de um negocio muito sério, de familia!

—Está... cclaro... Pen... sarei. Espera ahi! Deixa ver se me vou recordando... por p... partes... Pri... meiramente, o Phio... philo, o meu cocheiro.

—Não se trata agora do Phiophilo, querido tio!

—Está... cclaro!.. Não se trata... já se vê... que era de Napoleão... E depois, tomámos chá... Appareceu uma se... senhora... e comeu-nos o açucar... todo...

—Não é nada d'isso, tiozinho, destampa para ali o Mozgliakov, fóra de si, quem lhe contou essa historia foi a Maria Alexandrovna, a respeito da Natalia Dmitrievna! Eu estava ali, escondido, atrás da porta; ouvi tudo!

—Ora esta, Maria Alexandrovna! agarra no ar a Natalia Dmitrievna, com que então foi pespegar ao principe que eu lhe tinha furtado o açucar? Eu, então, venho a sua casa para furtar açucar!

—Passa fora! mal encontra forças para emitir Maria Alexandrovna.{176}

—Não, lá isso, tenha paciencia, Maria Alexandrovna, não lhe assiste o direito de se negar a responder. Eu, então, furtei-lhe o açucar? Estou farta de saber que não faz senão cortar-me na pelle, ha muito tempo!... Sou eu, então quem lhe furto o açucar!...

—Mas... mi... minha senhora... isso de açucar... era sonho... o tal sonho...

—Dorna d'uma figa! resmunga entre dentes Maria Alexandrovna.

—Eu lhe direi quem é a dorna! ulula a Natalia Dmitrievna. E a senhora, que será então? Ha muito tempo que me pôz essa linda alcunha! Mas, sequer ao menos, tenho um marido, emquanto a senhora se contenta com um cêpo.

... Es... tá... cclaro... Tam... bem me lembro da Dorna...

—Ah! elle é isso?... Tambem veiu meter a sua colherada?—Atreve-se a injuriar uma senhora fidalga?! Com que, então, sou uma dorna; olha quem fala, que nem sequer tem pernas!

—Es... tá... cclaro... Sem pernas...

... Como foi... que disse?

—Pois está sabido—nem pernas—nem dentes—Ora apanha!

—E um olho, só!... accrescenta Maria Alexandrovna.

—Um espartilho a suprir as costellas!

—Com a cara de mólas, toda ella!

—E nem um pello nessa careca!

—O proprio bigode, é postiço, pateta das duzias, agrava Maria Alexandrovna.

—Res... peitem—o meu na... nariz... sequer ao menos!{177} É verdadei... ro! exclama, o principe banzado de todo.—Fôs... te... tu que me de... nunciaste, meu amigo!

Para que fôste contar que o meu—cabêllo era—po... postiço?

—Tiozinho!

—Não, meu amigo, já aqui não posso ficar... leva-me para qu... alquer parte... Que gente!

Para onde tu me trouxeste!... Valha-me Deus!

—Idiota! vocifera Maria Alexandrovna.

—Ai! meu Deus! suspira o coitado do principe. Já nem sei porque seria que aqui vim parar—mas vou ver se me lembro.—Leva-me d'aqui para fora—mano! Faziam-me em bo... bocadinhos!—E depois, é urgente que eu vá anotar um... uma ideia... ca... capital.

—Venha d'ahi, querido tio, ainda estamos a tempo. Vem commigo ahi para um hotel, qualquer, e não me aparto do tio...

—Mas... está... cclaro, com o senhor...

Adeus minha lin... da menina!

... A menina... e só a menina é a unica... que é virtuosa. É uma.. nobi... lis... sima donzella!

Vamos lá... meu caro...

Ai! meu Deus!

Não me abalançarei a descrever o epilogo da tão desagradavel scena, que se seguiu á retirada do principe. Os visitantes foram-se safando n'um berreiro de estrugir a tudo. Maria Alexandrovna ficou sósinha, em meio d'aquelle seu desastre. Já é infelicidade! Poderío, riqueza, gloria, foi-se tudo no espaço de um dia! Percebia e mais que percebia que nunca mais levantaria cabeça! A tirannia{178} por ella exercida durante tão longo prazo sobre Mordassov estava aniquilada de todo. Que lhe restava? Não era filosofa, Maria Alexandrovna. Passou uma noite pavorosa. Desacreditada a Zina, um nunca acabar de linguarice! Hórror, hórror, hórror! Na minha qualidade de historiografo sincero, cumpre-me mencionar que Aphanassi Matveich esteve a tiritar toda a santa noite no cubiculo, ás escuras, onde se fôra alapardar para conservação dos seus olhos.

O dia immediato não amanheceu fagueiro: isto de desgraças vem sempre aos pares.{179}

 

XV

Desde as oito horas da manhã que corria pela cidade um boato inacreditavel. Repetia-o cada qual com maligno contentamento, conforme é da praxe sempre que se trata d'algum escandalo do qual foi victima qualquer pessoa d'amizade.

—Perder áquelle ponto a vergonha!

—Rebaixar-se daquella maneira!

—Arrostar assim com todas as conveniencias!

—Que costumes!

Eis o que succedera:

Logo de manhanzinha, ahi pelas sete horas, salvo erro, entrava em casa de Maria Alexandrovna uma pobre vélhita, afflictissima, a supplicar da aia que fosse quanto antes accordar a barichina[15], mas esta, tão sómente, ás escondidas de Maria Alexandrovna. A Zina, assustada, accudira desde logo. Cae-lhe de joelhos aos pés a velhota, aos beijos a elles, a inundar-lh'os de lagrimas, a exorar-lhe que venha ver o Vassia.

—Passou tão mal a noite! Suppõe-se até que não chega ao outro dia! Accrescenta a velha que foi o proprio Vassia quem manifestou desejos de tornar a ver a sua amada,{180} antes de morrer; e supplica-lhe em nome do passado, e que, se ella se negar, morrerá no auge do desespero!

A Zina despede por ali fora, sem dizer nada á mãe. Vae de corrida até o extremo de um dos arrabaldes mais pobres de Mordassov. Ali, n'uma baiuca muito velha e escalavrada, á qual suprem as janelas umas como que ráchas abertas nas paredes, n'um cochichólo muito baixo de tecto e fedorento, meio atravancado com uma fornalha, jazia, em cima de uma camada de taboas, cobertas com uma enxerga, delgada que nem uma folha de papel, um môço, escondido debaixo de um capóte todo elle farrápos. Tinha livido e refegado o semblante, os olhos, a luzir com o fôgo da fébre, as mãos, seccas e transparentes. Quasi que nem respirar podia; era o estertor. Comquanto o houvesse desfigurado a doença, conservava retraços de formosura. Triste espectaculo, na verdade, aquelle rosto de tisico, do moribundo. A edosa mãe que, ainda hontem, acreditava na cura percebe finalmente que vae em breve ficar sósinha n'este mundo. Com os braços cruzados, olhos sêcos, para ali está, sem comprehender, sem poder desviar a vista de cima do enfermo, aniquilada, perseguida pela visão da cova, na terra fria do velho cemiterio atascado de neve.

Não olha para ella o Vassia, irradia-lhe no semblante a ventura: até que por fim vê aquella a quem, vae n'um anno, durante aquellas suas eternas noites de doente apenas viu em sonhos. Percebe que ella lhe perdoou, visto que veiu, visto que lhe aperta as mãos, visto que o contempla com aquelles seus lindos olhos, a chorar e a rir ao mesmo tempo. Resuscita de todo na alma do enfermo o passado:{181} desperta-lhe dentro d'alma a vida como se quiséra tornar-lhe sensivel a que ponto é triste o ter que a deixar.

—Zina! Zinotchka! Não chores... não me estejas a lembrar que vou morrer... deixa-me contemplar-te, pensar que me perdoáste. Vou morrer sem pensar que morro, até, beijando-te as mãos... Estás tão magrinha, Zinotchka! Anjo querido, a bondade com que tu estás a olhar para mim! Lembras-te do gosto com que te rias, d'antes? Ai! Zina! Eu já nem sequer te peço perdão!... Nem quero lembrar-me do que aconteceu... eu é que m'o não perdôo, a mim proprio... E quanta noite sem poder dormir, Zina! Quanta noite não levei eu a pensar, a recordar-me, a estalar, quasi, com saudades!... É melhor que eu morra! Sou incapaz de viver, Zinotchka!

E a Zina, lavada em lagrimas, muda, a apertar nas suas as mãos do seu amado, como se quiséra arrancál-o á morte.

—Então, não chores! insistia o enfermo. Eu morrerei hoje, porventura? Se ha tanto tempo que está morta a felicidade! És mais intelligente e vales mais do que eu... bem sabes que valho menos do que tu, por que será que me tens amor? Bem sabes que te não mereço! Oh! quanto me não tem feito padecer semelhante pensamento! Ah! querido amor, foi um sonho a minha vida: não vivi, sonhei! E eu a desprezar a multidão: e que razões tinha eu para ser tão soberbo? A purêza do meu coração? A nobreza dos meus sentimentos? Mas se tudo isso tinha apenas a consistencia dos meus sonhos, nada mais, Zina!

—Basta! basta! Matas-me!

—Não me interrompas, Zina!... Perdoáste-me, bem sei:{182} e ha já muito tempo, talvez, mas avaliáste-me e comprehendeste o que eu era, e é isso que me atormenta. Sou indigno do teu amor, Zina! Fôste sempre leal e generosa; fôste ter com tua mãe e declaraste-lhe o teu firme desejo de casar commigo, ou com mais ninguem: e cumpriste a palavra dada, pois que para ti, palavra e acção são uma e a mesma coisa! Ao passo que eu,... eu! Não sabes, eu até hoje não tinha comprehendido, sequer, a extensão toda do sacrificio que fazias em ser minha mulher. E lembrar-me eu de que tu, commigo, te arriscavas a morrer de fome! Mas se a mim parecia-me que nada ha n'este mundo que se compare á honra de ser esposa de um grande poeta... sem nome,... é certo! Não quiz intender o motivo que alegavas para retardar o nosso casamento. Tu a padeceres por minha causa, eu a martirizar-te, a exprobar-te, a desprezar-te... até que por fim te ameacei com aquella carta... Eu, n'esse instante, nem sequer cheguei a ser um miseravel, mas sim um ente abjecto, e nada mais! Ah! nem quero pensar até onde iria o teu desprezo! Não, não! É bom que eu morra! Obrigado por não haveres querido pertencer-me! Iriam correndo os annos, e quem sabe se eu afinal não viria a ver em ti um tropêço ao meu porvir. Sim, antes assim! E agora, o amargor das minhas lagrimas, sequer ao menos, purificou este meu coração. Ah! Zina! Concede-me um quinhão no teu amor, tão sómente, no teu amor de algum dia!—N'esta hora derradeira, sequer ao menos! Sou indigno do teu amor, bem o sei! mas... mas... mas... ai meu anjo!

E a Zina, desfeita em pranto, a escutar. Tentava interrompêl-o, elle porém, ia proseguindo... supplice, a gesticular,{183} e aquella sua voz debil... abafada e sibilante,... fazia mal á Zina...

—Não me tiveras tu encontrado, e não me terias amado, e não morrias... disse a Zina. Ah! Oxalá nunca nos tivessemos encontrado!

—Não, meu amor, não! Não te estejas arguindo da minha morte! A culpa foi minha, e só minha! O amor proprio... o romantismo!... Nunca te contaram, Zina, a minha estupida historia? Existiu aqui, ha três annos, um prisioneiro, um miseravel, um ladrão. Mas no dia em que chegou o castigo, faltou-lhe o animo. Sabendo que não levam a justiçar um enfermo, alcançou uma garrafa de vinho, deitou-lhe de infusão tabaco e enguliu-o. Tomaram-n'o uns vomitos que duraram tanto que principiou a escarrar sangue e deu cabo dos pulmões. Levaram-n'o para o hospital e, d'ali a dias, morreu tisico. Pois bem! Occorreu-me á memoria esse ladrão, no dia em que se deu aquelle caso da carta... E resolvi acabar commigo da mesma maneira. E por que foi que eu, de proposito, escolhi a tisica? Por que foi que me não enforquei ou me não deitei a afogar? Seria porque me assustasse uma morte tão abrupta? Talvez; mas a mim quer-me parecer que concorreriam, e não pouco, para isso, as minhas ideias romanescas. Não me largava este pensamento: Que morte tão bella não será a minha, estirado como agora o estou, n'uma cama, com o estertor da tisica!... E tu, ao pé de mim, a lamentar-me, e a padecer com a ideia de que eras talvez a causa da minha doença! E eu a ver-te entrar por ali dentro, arrependida, ajoelhar á beira do meu leito... E eu a perdoar-te e a expirar nos teus braços!... Toleima, Zina, pois não era?{184}

—Esquece-te de tudo isso, nem me tornes a falar das tuas culpas, que tu estás a exaggerar; lembrêmo-nos dos momentos ditosos, dos dias de ventura.

—Não m'o perdôo, meu amor, e é por isso que falo a semelhante respeito. Ha já dezoito mêses que te não via. Queria alliviar este meu coração! Durante esse tempo todo, eu para aqui, sósinho, e não houve um só instante, em que eu não pensasse em ti, meu amor. O que não desejaria eu fazer para reconquistar a tua estima? Até ao derradeiro instante não acreditei que morria; não me entreguei á cama desde logo, andei a pé, por muito tempo, com o peito escangalhado. E que sonhos tão ridiculos! Ás vezes suppunha ser um grande poeta e em vesperas de publicar um poema como ainda não tinha apparecido outro egual n'este mundo, que ninguem tivera genio para o escrever. E eu a pensar que me iriam n'elle todos os meus sentimentos, a minha alma, toda inteira, e que, d'este modo, me acharia sempre a teu lado, e que qualquer que fosse o sitio em que te encontrasses, os meus versos ir-te-hiam recordar a minha existencia, e o meu sonho unico era acreditar que tu em conclusão poderias dizer: "Não, elle a final não é tão mau como eu o suppunha". Toleima, Zina, toleima, pois não é?

—Não, não, Vassia, exclamava a Zina.

E debruçada sobre o peito d'elle, pôz-se-lhe aos beijos ás mãos.

—E o ciume! Como me atormentava o ciume durante esse tempo, todo! Eu, se tivesse ouvido falar no teu casamento, caía morto, redondamente!... E eu a vigiar-te, a espreitar-te... Era ella quem lá ia (apontando para a mãe).{185} Tu nunca tiveste amor ao Mozgliakov, pois não é verdade? Ai! meu anjo! Lembrar-te-has tu de mim quando eu já não fôr d'este mundo? Lembras, sim, que eu bem sei! Mas os annos hão de ir passando, arrefecer-te-ha esse teu coração, o inverno ir-te-ha tomando posse da alma, e olvidar-me-has, Zina!...

—Não, não, nunca! E nunca me hei-de casar, tem a certeza!... Foste o meu primeiro amor e serás o derradeiro.