V
—Nastassia Petrovna, não seria mau ir deitar a sua rabisáca pela cozinha, disse ella apóz de haver acompanhado o principe. Palpita-me que aquelle traste do Nikitka é capaz de se tomar da pinga e deita-nos a perder o jantar.
Obedeceu Nastassia Petrovna. Á saída, olhou para Maria Alexandrovna e percebeu que estava animadissima a digna senhora. Em vez de ir vigiar o tratante do Nikitka, Nastassia Petrovna dirige-se a uma saleta contigua, d'alli, enfiando pelo corredor, vae ao quarto, e esgueira-se para um cubiculo de despejos, atulhado de bahús, de vestidos velhos e de roupa suja de toda a familia. Nos bicos dos pés, acerca-se de uma porta fechada, sustendo a respiração, e espreita pelo buraco da fechadura: Aquella porta é uma das três que abrem para a sala (está condemnada). Maria Alexandrovna sabe que a Nastassia Petrovna é velhaca, pouco delicada, de poucos escrupulos, e muito capaz de escutar ás portas. N'este momento, comtudo, Madame Moskalieva está tão preoccupada, que se descuida de toda e qualquer cautélla.
Senta-se n'uma poltrona e despede significativa olhadela á Zina. E a Zina a sentir o pêso d'aquelle olhar. Dá-lhe um pulo o coração!
—Zina!
A Zina volta com muito vagar para a mãe o descorado semblante e aquelles olhos sonhadores.{48}
—Zina, tenho que te falar em negocio importante.
Está de pé a Zina; cruza os braços e espera. Deslisa-lhe pelo semblante expressão fugaz de despeito e de ironia.
—Quero perguntar-te qual é a tua opinião a respeito d'este tal Mozgliakov?
—Está farta de saber a conta em que o tenho, responde a Zina com modo constrangido.
—Pois sim, filha, mas está-me parecendo que se vae tornando um tanto ou quanto impertinente, atrevido; e em conclusão, aquella sua insistencia...
—Diz elle que me ama; se assim fôr, acho perdoavel a sua insistencia.
—Admiro-me de uma circumstancia: tu, d'antes, não o desculpavas, assim, tanto;... antes pelo contrario, eras, até, muito rispida para com elle, sempre que eu a elle me referia.
—E a mim, o que me causa admiração é outra circumstancia: A mamã, d'antes, estava sempre a defendêl-o, e é agora a propria a condemnál-o.
—Confesso que me sorria este casamento. Custava-me vêr-te assim sempre, tão triste.—Avaliava bem a tua tristeza,—pois sou capaz de a comprehender, seja qual fôr o juizo que faças a meu respeito.—Chegou até a tirar-me o somno! Em summa, estou convencida de que só uma mudança radical na tua vida te poderia salvar, e essa mudança, ha de ser o casamento. Não somos ricos, não podemos ir dar a nossa volta pelo estrangeiro. Os asnos que povoam esta cidade espantam-se de te ver ainda solteira aos vinte e três annos e inventam fabulas a tal respeito. Mas{49} poderei eu dar-te por marido para ahi um conselheiro d'esta estupida cidade ou o Ivan Ivanovitch, nosso procurador? Haverá por aqui marido á altura dos teus merecimentos? É certo que o Mozgliakov é apenas um peralvilho, e com tudo isso, de todos elles, é ainda o mais acceitavel. É de boa familia, dôno de cincoenta mil almas: sempre valerá mais que um procurador que vive de propinas e á custa Deus sabe de que tranquibernias. E eis o motivo porque me lembrei d'elle. Tanto menos verdadeira simpathia me merecia, e tanto mais me convenço hoje de que era o Suprêmo Senhor quem me enviava semelhante desconfiança como advertencia. Pensa bem! Se porventura se offerecesse agora um partido mais vantajoso, não serias tu a propria a louvar-me de não ter até hoje dado a tua palavra a ninguem? Pois, ouso crer, Zina, que tu hoje, nada lhe terás dito de positivo.—Pois não é verdade?
—Para que servirão tantos rodeios, mamã? quando podia muito bem ter-me dito tudo isso em duas palavras, replica a Zina com modo resoluto.
—Rodeios, Zina! Serão coisas que se digam a tua mãe? Ah! Vejo que de modo nenhum te mereço confiança! Consideras-me como inimiga muito mais do que como mãe!
—Acabemos com isto, minha mãe. Parece-lhe bonito ficarmos para aqui a fazer questão de palavras? Não estaremos fartas de nos conhecermos uma á outra?
—Repara em que me estás offendendo, minha filha. Pois não vês que estou resolvida a tudo, a tudo, comtanto que tu sejas feliz?
A Zina põe-se a olhar para a mãe com aquella singularissima expressão de despeito e ironia.{50}
—Não estará morrendo por que eu case com o principe para complemento da minha ventura? pergunta a joven com extranho sorriso.
—Nem sequer te disse uma palavra a semelhante respeito, mas visto que isso veiu á teia, dir-te-hei que, se fosse possivel, representaria para ti a felicidade, effectivamente.
—Pois eu acho isso pueril, exclama a Zina toda assommada, pueril, pueril e mais que pueril! e acho, ainda, que a mamã é dotada de excessiva imaginação: é uma mulher poetica; e tanto mais que é assim que a classificam em Mordassov. Está sempre a fazer planos. Nem lhe mettem medo impossibilidades. Assim que vi o principe, tive um presentimento, de como não deixaria de lhe accudir semelhante ideia. Quando o Mozgliakov mettia o caso a ridiculo e pretendia que era urgente casál-o, li no semblante á mamã o pensamento. E d'ahi, foi para me falar n'esse jarreta que a mamã principiou por se referir ao Mozgliakov. Mas esses seus sonhos aborrecem-me de morte, não sei se sabe? E peço-lhe que fiquêmos por aqui!... Nem mais uma palavra, entendeu, mamã? Nem mais uma palavra! Peço-lhe que tome a serio isto que acaba de ouvir da minha bocca.
—És uma criança, Zina, uma criança doente, e com mau genio! responde Maria Alexandrovna em voz meliflua; e estás-me faltando ao respeito.—Offendes-me! Não ha mãe que aturasse o que eu te tenho aturado! Mas padeces, e eu acima de tudo sou christã. Vou aturando, e perdôo-te. Responde-me a uma pergunta, só e mais nada, Zina. Vamos que eu, effectivamente, tivesse sonhado semelhante{51} alliança, onde é que está a puerilidade?—Quanto a mim, nunca o Mozgliakov falou com tanto acerto como ainda agora, quando tentava demonstrar que o casamento é uma necessidade para o principe. O disparate era o ter-se lembrado d'aquella fufia da Nastassia.
—Mamã, declare-me com franqueza, se me está dizendo isso por méra curiosidade ou com um fim qualquer.
—Peço-te que me respondas: onde vês tu n'isto puerilidade?
—Que aborrecimento! Triste sorte é a minha! exclama a Zina a bater o pé. Vou dizer-lh'o, se é que ainda o não percebeu: aproveitar o ensejo d'esse velho se achar caído em demencia para o enganar, para o desposar, assim, enfermo e caduco, para lhe extorquir o dinheiro e andar todo o santo dia a desejar-lhe a morte, representa, a meu vêr, não só uma puerilidade, mas uma vilania, e não serei eu quem lhe dê os parabens por semelhante ideia, mamã.
Silencio.
—Zina, já te esqueceste d'aquillo que se passou ha dois annos? pergunta de chofre Maria Alexandrovna.
Estremece a Zina.
—Mamã, profere com accentuada seriedade, lembre-se de que me prometteu não me tornar a falar em semelhante coisa.
—Pois bem, minha filha—que eu até hoje ainda não tornei a dizer-te uma palavra—peço-te que por uma vez tão somente me desligues da minha promessa. Zina! Soou a hora de uma franca explicação. Foram mortaes estes dois annos de silencio! Isto assim não pode continuar!... Estou prompta a supplicar-te de joelhos que me permittas{52} falar. Entendes, Zina, é a tua propria mãe que cae de joelhos a teus pés! E demais—dou-te a minha palavra solemne—a palavra de uma mãe desgraçada que adora a propria filha—seja qual for o pretexto, em circumstancia alguma d'este mundo, com risco até da propria vida, de nunca mais abrir a bocca a tal respeito.
—Fale! diz Zina, muito enfiada.
Maria Alexandrovna calculou optimamente o lance.
—Obrigada, Zina. Ha dois annos, pois, que frequentava esta casa, por causa do teu irmãozinho, do Mitra, que Deus tem, um utchitel.
—Mas para que foi que a mamã assumiu esses modos tão solemnes, para que estará a desperdiçar toda essa eloquencia, esses pormenores tão escusados e penosos que ambas estamos fartas de conhecer? interrompeu a Zina com enfado.
—Porque a mim, que sou tua mãe, Zina, me assiste o dever de me justificar a teus olhos. E demais, quero apresentar-te este negocio, todo elle, sob uma luz nova para ti e que é a unica verdadeira. Emfim, sem estas promessas, não poderias comprehender a conclusão que d'ellas pretendo deduzir. Não creias, minha filha, que intento fazer pouco dos teus sentimentos. Não Zina, has de encontrar em mim uma verdadeira mãe, e quem sabe se não serás tu a propria a cair-me aos pés, lavada em lagrimas, a supplicar-me que conclua essa reconciliação á qual o teu orgulho se nega ha tanto tempo. Tenho pois que recapitular as coisas desde o principio, ou calar-me.
—Fale, repetiu a Zina, a maldizer de todo o coração a grandiloquencia maternal.{53}
—Continúo, Zina. Esse tal utchitel da escóla communal, um fedêlho, por assim dizer, produziu em ti inconcebivel impressão. Contei sempre com que o teu sizo, a elevação dos teus sentimentos e tambem a indignidade do individuo, (visto que é preciso dizer tudo) evitariam qualquer approximação entre tu e elle. E de repente, vens ter commigo e declarar-me com firmeza que tens tenção de casar com elle. Foi uma punhalada que me déste no coração, Zina! Soltei um grito e caí sem sentidos, mas... não deixarás de te lembrar do incidente. É certo que julguei necessario empregar n'aquella occorrencia toda a minha auctoridade: e por signal que a acoimaste de tyrannia. Reflécte, pois: um garotête, filho d'um diatchok,[4] com um salario de doze rublos mensaes, um escrevinhador de máus versos que lhe imprimem por dó na Bibliothéca de Leitura, que não sabe falar em outra coisa a não ser n'esse maldito Shakspeare,—aquelle fedêlho, teu marido! marido da Zinaida Moskalieva! São coisas que só acontecem nas novéllas pastorís de Florian. Perdão, Zina, mas quando me lembro de tal, saio fóra de mim! Neguei-me a consentir. Não houve influencia que conseguisse convencer-te. Teu pae, naturalmente, manteve-se na neutralidade, incapaz de comprehender-me quando tentei expor-lhe o caso e sem saber fazer outra coisa além de pestanejar. Mantens relações com esse garoto, proporcionas-lhe até ensejo de te ver, e o que é ainda muito peor que tudo isso, tens o arrojo de lhe escrever! E as más linguas desde logo a trabalhar! Fazem{54} allusões offensivas na minha presença. Estão a pular de contentes, a embocar as mil trombetas da calumnia. As minhas antecipações a semelhante respeito vão se realizando uma por uma. Dá-se entre ti e elle um desaguizado e elle manifesta-se indigno de ti. Ameaça-te de mostrar as tuas cartas, e tu, num assômo de justa indignação, dás-lhe uma bofetada!... Sim, Zina, conheço tambem essa circumstancia, estou inteirada de tudo—de tudo, sim! Esse traste, n'esse mesmo dia, mostra uma das tuas cartas áquelle miseravel do Zanchine, e, d'alli a uma hora a carta está em poder da Natalia Dmitrievna, minha inimiga figadal! Á noite, aquelle, doido, arrependido já de semelhante acção inqualificavel, por toleima tenta envenenar-se! N'uma palavra, um escandalo medonho! Aquella pécora da Nastassia accode toda assustada, a participar-me que ha uma hora que a Natalia Dmitrievna se acha de posse da tua carta: não se passarão duas horas, sem que a cidade em pêso apregôe para ahi a tua vergonha. E eu a esticar os nervos para não caír para ali inanimada. Que lance, Zina! Aquella descarada, aquella desavergonhada!
A Nastassia exige duzentos rublos para inutilizar a carta. Eu propria, deito a correr, com os sapatos de trazer por casa, até, atravéz da neve, para ir a casa do judeu Bumschtein empenhar o meu abrochador, recordação da minha virtuosa mãe! D'alli a duas horas tinha a carta em meu poder: roubou-a a Nastassia: arrombou uma boceta e está salva a tua honra. Nem vestigios, sequer! Mas que dia de angustias! Logo ao outro dia, encontrei entre os meus cabellos immensos fios brancos,—os primeiros, Zina! Tu foste a propria a avaliar até que ponto era indigno de ti{55} aquelle garoto, pois concordas agora, não sem amargura, talvez, que teria sido uma loucura entregar-lhe o teu destino. Depois, comtudo, pégas a atormentar-te, a soffrer, não podes varrêl-o da lembrança,—não a elle,—foi sempre coisa tão rasteira que a tua vista nem sequer podia deter-se n'elle,—mas ao teu primeiro sonho de amor. Hoje, esse desgraçado está a expirar—nem sequer já se levanta.—Dizem que morre tisico, e tu—anjo de bondade,—não queres casar emquanto elle fôr vivo; para lhe poupar soffrimento, visto que é ciumento... e não obstante, nunca te teve amor, tenho a certeza, amor sincero, elevado! O que o não impede de espionar os passos do Mozgliakov, de te rondar a casa, de tirar indagações...—Tens dó delle, minha filha, adivinhou-te o meu coração, e Deus sabe as lagrimas amargas que me tem encharcado o travesseiro.
—Veja se acaba com tudo isso, mamã! atalhou Zina com enfado. O seu travesseiro não vem cá fazer coisa nenhuma! Não poderá falar com singeleza?
—Não me acreditas, Zina! Não me trates tão mal, minha filha! Já lá vão dois annos, e não faço outra coisa senão chorar, mas tenho-te encoberto as minhas lagrimas, Zina, durante esses dois annos mortaes!... Ha muito tempo que conheço os teus sentimentos. Medi todo o alcance da tua magua. Poderá alguem lançar-me em rosto, minha querida, o haver considerado semelhante ligação como uma phantasia romanesca, nascida sob a influencia do tal maldito Shakspeare? Qual seria a mãe que condemnasse os alvitres de que tenho lançado mão e achasse rigoroso em demasia o modo por que avalio este caso? E comtudo, a mim propria represento o teu longo padecer, comprehendo{56} e apprecio a tua sensibilidade. Acredita: comprehendo-te melhor, talvez, do que te comprehendes a ti propria. Estou certa de que o não amas, a esse garoto ridiculo: a quem tu amas é ao teu sonho, á tua ventura mallograda, ao esvair das tuas illusões. Eu tambem amei, não cuides que não, e com mais excesso de paixão do que tu; tambem eu padeci; tinha tambem as minhas illusões!... Não falo pois sem experiencia, e se affirmo que uma alliança com o principe representaria para mim a salvação, mereço talvez que me dêem ouvidos.
A Zina ouviu com espanto aquella estirada declaração, farta de saber que a mamã nunca assume aquelle tom pathetico sem designio occulto. E comtudo, a conclusão deixa confundida a joven.
—É pois a sério, que fala em casar-me com o principe? exclama pasmada a considerar a mãe que assumiu attitude majestatica; não é então uma hypothese, como se dissessemos? É tenção firme e assente, pelo que vejo? Mas... como é que poderia salvar-me semelhante casamento? E... e... que relação terá tudo isso com o que acaba de expôr-me, com essa historia toda?... Declaro que a não percebo, mamã.
—E a mim, meu anjo, espanta-me que o não percebas! exclama Maria Alexandrovna, com subita animação. Primeiramente, o facto só por si de teres de transferir-te para outra sociedade, para um mundo differente; de teres de dizer adeus de uma vez para sempre a esta nojenta cidade das duzias, semeada para ti de tão temiveis recordações, á qual te não prende a minima affeição, onde te assacaram calumnias, onde essa sucia de pêgas te detestam por{57} causa da tua formosura, esse facto só por si, repito, é já capital. E depois, podes, ainda esta primavera, ir para o estrangeiro, para a Italia, para a Suissa, para a Hespanha,—Zina—para a Hespanha, onde irás ver a Alhambra, o Guadalquivir! Não estarás farta d'este immundo riacho de Mordassov, com aquelle seu nome inconveniente?
—Mas se me dá licença, mamã! está falando como se eu já estivesse casada, ou pelo menos como se o principe me tivesse já pedido em casamento...
—Lá quanto a isso não te dê cuidado, meu anjo, sei o que estou dizendo. Deixa-me continuar. Eu disse primeiramente, e ahi vae o segundo ponto: Comprehendo, minha filha, quanto te contraría o dares a mão de esposa a este Mozgliakov...
—Sei muito bem, nem preciso de que m'o digam—que nunca serei sua mulher! interrompeu Zina com arrebatamento.
—Se tu soubesses, meu amor, como eu avalio essa repugnancia! É terrivel o ter que jurar perante o altar de Deus amor e fidelidade áquelle a quem se não pode ter amor! É terrivel o pertencer a um homem a quem se não pode respeitar. E todavia, exigir-te-hia amor; foi para te possuir que elle casou comtigo: isso adivinha-se nos olhos que elle te deita quando não olhas para elle. Mas como simular perpetuamente amor? Ah! minha filha, aqui estou eu que ando a padecer ha vinte e cinco annos com esta comedia necessaria. Teu pae deitou-me a perder. Posso afirmar, até, que envenenou de todo a minha mocidade, e quantas vezes não terás visto correr as minhas lagrimas?{58}
—O papá está no campo; não esteja a atacál-o, por quem é!
—Sim, tu saes sempre em sua defêsa, bem o sei... Ah! Zina! Confrangia-se-me o coração quando a prudencia me obrigava a desejar o teu casamento com o Mozgliakov! Com respeito ao principe, com esse não tinhas tu necessidade de representar nenhuma comedia. Escusado é dizer que lhe não poderás dedicar o que se chama amor. E demais, elle proprio é incapaz de exigir semelhante amor.
—Que disparate, meu Deus! E eu affirmo-lhe que se engana de meio a meio: não tenciono sacrificar-me,—ignoro aliás o fim com que o faria. Fique sabendo que não quero casar. Não casarei seja com quem fôr; ficarei solteira. Tem-se farto de me atormentar ha dois annos para cá, por causa de eu ter rejeitado quantos noivos me tem apparecido, mas não tem remedio senão conformar-se; não quero, já disse!
—Zinotchka, não te alteres, pelo amor de Deus, sem me ouvires, meu amorzinho! Que cabeça tão esturrada! Consente em que eu te exponha o caso em conformidade com o meu modo de ver, e verás que has de vir a concordar commigo. O principe poderá ainda viver um anno, dois, talvez, mas não vae além, com certeza. Ora, mais vale ser viuva e nova do que velha solteirona, isto sem falarmos em que depois de elle fechar o olho ficas sendo princêsa, rica e livre. Minha querida, desprezas talvez estes meus calculos baseados na morte de um homem, mas sou mãe, e quem haverá ahi que condemne a minha previdencia? Em conclusão, se tu, anjo de bondade, ainda tens pena d'esse tal garoto, se tu, conforme eu suspeito, não queres casar emquanto{59} elle fôr vivo, considera que, se casares com o principe, vaes resuscitar aquelle a quem amas! Se é que a elle lhe restam ainda uns vislumbres de bom senso, comprehenderá, manifestamente, que o ter ciumes a respeito do principe, seria coisa fora de proposito, ridiculo. Comprehenderá que não casas com este velho a não ser por interesse, por necessidade. N'uma palavra, comprehenderá... quero dizer—depois de fallecido o principe, já se vê,—que poderás casar segunda vez, se fôr da tua vontade...
—Casar com o principe, expoliá-lo, e estar á espera de que elle morra para depois ir casar com o meu amante, não é assim? É muito habil; quer seduzir-me propondo-me... Percebo-a á legua, minha mãe, percebo-a optimamente. Só o lembrar-me eu de que não pode deixar de fazer alarde de nobres sentimentos, até, n'um negocio tão pouco limpo? Seria muito mais estimavel o dizer-me, singelamente: "É uma ignominia, Zina, mas é lucrativa; e portanto, acceita." Sequer ao menos era mais franco.
—Mas que teimosia será essa tua em encarar o negocio no ponto de vista da trapaça, da arteirice, da cobiça? Consideras os meus calculos como uma soez hypocrisia; mas, em nome de quanto venéras como mais sagrado, onde estará a baixeza, onde a hypocrisia? Vê-te bem n'aquelle espelho: és formosa o sufficiente para conquistares com esses teus olhos, sem mais nada, um reino! E tu, tão formosa, sacrificas a um velho os teus melhores annos; tu, estrella magnifica, vaes embellezar-lhe o occaso da vida; tal qual a hera viçosa, florir na sua velhice! Está afeito á companhia de uma feiticeira que o sequestra lá n'um canto do mundo, e d'essa feiticeira, és tu, tu, Zina, quem vaes ser successora!{60} O dinheiro e o titulo d'elle podem lá equiparar-se ao teu valor? Onde vês pois n'isto a baixeza, a hypocrisia?
Nem sabes o que estou dizendo, Zina!
—O dinheiro e o titulo d'elle valem mais do que eu, visto que para os alcançar, teria que resignar-me a casar com um enfermo. Dêmos ás coisas os seus nomes: é uma ignobil hypocrisia, mamã!
—Pelo contrario, minha querida, pelo contrario! O caso pode até ser encarado de um ponto de vista superior, christão. Declaraste-me, um dia, em um assômo de enthusiasmo, que querias ser irmã da caridade: o teu coração exaltara-se de amor ao pensares nos humanos soffrimentos, outro qualquer amor parecia-te tibio e mesquinho. Pois bem! Se ainda queres acreditar no amor, acredita na dedicação, com sinceridade, tal qual uma creança, com candura. Dedica-te, e abençoar-te-ha Deus! Tem padecido este velho; é desditoso, perseguem-n'o. Conheço-o ha muitos annos e sempre lhe dediquei incomprehensivel simpathia, carinho, por assim dizer: presentia o futuro. Sê sua amiga, minha filha, seu brinquedo, até, se é forçoso dizêl-o, mas aquenta-lhe o coração e fál-o por amor de Deus! Admittamos que é ridiculo? Elle nem sequer d'isso tem consciencia. Não chega a ser a metade de um homem. Tem dó d'elle, tu, que és christã. Contrafaze-te; com força de vontade consegue-se domar a alma para semelhantes façanhas. Quanto não custa o pensar as chagas nos hospitaes, com que repugnancia se não respira o ar viciado dos lazaretos: mas não ha anjos que desempenham sem asco essas repugnantissimas taréfas e que ainda dão graças a Deus pela triste sorte que lhes coube? E ahi está o remedio de que{61} tanto necessitava o teu magoado coração: uma tarefa heroica! Onde vês tu n'isto egoismo? Baixeza? Não me acreditas, suppões que estou representando uma comedia, não podes comprehender que uma mulher mundana, n'este meio de viver leviano, possa ter uns sentimentos de tanta elevação? Pois bem, não me acredites, minha filha! Desconfia do coração de tua mãe! mas sequer ao menos concorda em que as minhas palavras são sensatas e salutares. Esquece que sou eu quem te estou falando, fecha os olhos, volta-me as costas e põe na tua ideia que é uma voz misteriosa que estás ouvindo... O que acima de tudo te prende, é a questão de dinheiro, essa apparencia de compra e venda. Pois bem, rejeita o dinheiro visto que lhe tens tamanha aversão, acceita apenas o necessario, e o resto, dá-o aos pobres. Por exemplo, estende o teu braço áquelle desgraçado que está ás portas da morte.
—Elle nunca acceitaria, disse a Zina, baixinho, como se estivera falando comsigo.
—Dado o caso de que elle rejeite, lá está a mãe para o acceitar em nome d'elle, responde Maria Alexandrovna sentindo que conseguiu acertar-lhe com a corda sensivel. Acceitará sem que elle proprio o saiba. Já vendeste os teus brincos (presente de tua tia) para lhe accudir, ha seis meses, que eu bem o sei, e tambem sei que a mãe, a pobre da velha, anda a lavar roupa para sustentar o filho.
—Dentro em pouco deixará de precisar seja do que fôr.
—Comprehendo-te! apanha de relance Maria Alexandrovna, (accode-lhe uma inspiração, uma verdadeira inspiração.) Dizem que morre tisico: mas quem é que o affirma? Indaguei a seu respeito, ha dias, do Kalist-Stanislavitch... {62} Pois sou a primeira a interessar-me pelo pobre rapaz, tambem tenho coração, Zina! E o Kalist-Stanislavitch respondeu-me que a doença é grave, não ha duvida, mas que, até hoje, existe apenas uma forte affecção dos bronchios,—tu mesmo lh'o podes perguntar. E accrescentou que a mudança de clima, impressões fortes, podiam curar o doente. Contou-me elle que, em Hespanha—e já não é a primeira vez que o oiço... li-o, até—ha uma ilha extraordinaria, Malaga, creio eu... emfim, um nome que lembra o de um qualquer vinho—onde não só os que padecem do peito, mas até os proprios tisicos saram de todo, graças ao clima. Vão ali tratar-se fidalgos, e commerciantes ricos. Que elle, effectivamente, a Alhambra—esse palacio encantado—as murtas e os limoeiros, os hespanhoes a cavallo nas mulas, não será o sufficiente a produzir impressão n'uma natureza de poeta? Suppões que rejeitaria o teu dinheiro?... Enganas-te se tens dó d'elle! A mentira é perdoavel, quando d'ella depende a vida. Alimenta-lhe a esperança, promette-lhe o teu amor, dize-lhe que casarás com elle quando enviuvares,—tudo se pode dizer com nobreza: tua mãe não era capaz de te dar maus conselhos, Zina!—Has de fazer tudo isso para o salvar e o bastante para te justificares. Recuperará alento assim que souber que está esperando por ti. Tratar-se-ha, seguirá rigorosamente as recommendações do medico, ha de querer resuscitar para a ventura. Se elle se curar, ainda quando não viesses a ser sua mulher, sequer ao menos têl-o-has salvo! e se a desventura o tiver mudado, se o houver tornado digno de ti, casarás com elle. Effectuada a cura, poderás alcançar-lhe uma situação na sociedade, facultar-lhe{63} uma carreira. O teu casamento, n'estas condições, tornar-se-ha possivel. Hoje!... que é que os espera a ambos, se porfiassem em perpetrar o acto de loucura de casarem. O desprezo de toda a gente e a miseria.
Pensas acaso que a leitura entre ambos do seu Shakspeare lhes havia de compensar tudo isso? Ficariam a vegetar aqui em Mordassov até que elle morresse, o que não tardaria, aliás. Mas se está na tua mão o incutir-lhe gosto pelo trabalho e pela virtude!
Perdoa-lhe e adorar-te-ha. O remorso d'aquelle seu acto vergonhoso apavóra-o! O teu perdão tudo irá ápagar e reconciliál-o-ha comsigo mesmo.
Passa ao serviço activo, sobe postos, e se morrer, sequer ao menos morrerá feliz, nos teus braços (visto que poderás achar-te a seu lado), seguro do teu amor, do teu perdão, á sombra das murtas e dos limoeiros, debaixo da cupula azul de um ceu exotico. Ah! Zina! Tudo isto se acha nas tuas mãos; basta que consintas em casar com o principe.
Cala-se Maria Alexandrovna. Segue-se prolongado silencio. A Zina acha-se no auge da afflicção.
Não nos abalançaremos a descrever os seus sentimentos: não os conhecemos. Mas, a julgar pelas apparencias, Maria Alexandrovna encontrou o verdadeiro caminho para o coração da filha. Não ha duvida de que a excellente mãe andou um tanto ás apalpadélas, até que por fim conseguiu pôr o dedo na ferida, principiou por maguar sem precaução os pontos mais sensiveis das feridas ainda abertas, a despeito de um desenvolvimento por ahi além de sentimentos.{64}
Agora, comtudo, logrou introduzir na mente da Zina o pensamento que a si lhe convinha: produzindo-se o effeito, alcançou-se o fim desejado. A Zina escuta com soffreguidão, com as faces afogueadas, o seio a arfar.
—Ora escute, mamã,... diz por fim, resoluta, comquanto a subita pallidez manifeste claramente quanto lhe custa semelhante resolução.
—Escute, mamã...
N'este ensejo, comtudo, resôa no vestibulo um ruido: uma voz aguda a chamar por Maria Alexandrovna.
Maria Alexandrovna levanta-se com vivacidade.
—Ah! meu Deus! demonios levem aquella pêga! É a coronela! E eu que quasi que a despedi, ha quinze dias! accrescenta, desesperada...
Mas é impossivel recebêl-a agora! De todo impossivel! E comtudo isso... quem me diz que me não virá trazer noticias... aliás, nunca se atreveria. É caso sério, Zina, é-me indispensavel sabêl-o, nada se póde desprezar...
—Como lhe fico grata por esta sua visita... quanto estimo!... exclama correndo ao encontro da coronela. A que feliz acaso serei eu devedora de se ter lembrado de mim, minha preciosa Sofia Petrovna? Encantadora surpreza!
A Zina deitou a fugir.{65}
VI
A coronela Sofia Petrovna Farpukhina apenas suggere moralmente o tipo da pêga. Quanto ao phisico, participa antes do pardal. É uma mulherita cincoentona com sardas entre ruivas e amareladas pela cara e uns olhos que nunca param. O corpo ético, implantado sobre umas sólidas pernas de pardal, esconde-se por debaixo das amplas pregas d'um vestido escuro, de seda, em continuo restralar, visto como a coronela nunca póde estar quiéta. É uma linguareira ruim e vingativa, perde o tino com a seguinte ideia: "Sou coronela." Ella e o marido, coronel reformado, jogavam a unhada a toda a hora: elle ostentava no rosto os signaes das garras da consorte. Ella, préga no bucho com quatro copinhos de vodka, todas as manhãs, e outros tantos ao deitar. Vota um odio figadal a Anna Nikolaievna Antipova e á Natalia Dmitrievna Padknvina, que a sacudiram das suas salas, ha oito dias.
—Demoro-me apenas um instantinho, meu anjo, pia a dama; nem sequer me quero sentar. Traz-me aqui unicamente o desejo de lhe contar os singularissimos acontecimentos que se estão dando. O tal principe faz andar n'uma roda viva esta nossa Mordassov. Os nossos espertalhões—comprehende—não lhe largam o rastro, a farejál-o por todos os cantos, a puxál-o para todos os lados, obrigam-n'o a beber champanhe. Eu se o não visse não o acreditava.{66} Como é que o deixou saír? Não sei se sabe que, n'este instante, está em casa da Natalia Dmitrievna?
—Em casa de Natalia Dmitrievna? exclama Maria Alexandrovna dando um pulo na cadeira. Mas se elle ia apenas fazer a sua visita ao governador e a casa de Anna Nikolaievna, e sem tenção de se demorar.
—Para se não demorar, isso sim! E agora, corra atrás d'elle!
Não encontrou em casa o governador, foi visitar a Anna Nikolaievna, e prometteu-lhe jantar com ella, e a Natachka[5], bem sabe, que nunca sáe de casa, lá estava pespegada; carregou com elle para almoçar. E ahi tem o seu principe!
—Que me diz! E o Mozgliakov a prometter-me...
—Pois sim! O tal seu Mozgliakov a quem a senhora não se farta de pôr nas nuvens!... Está em casa delles! Olho n'elle! Veja lá se o obrigam a jogar as cartas e principia para ahi a perder como succedeu o anno passado. E o principe é capaz de se deixar limpar que nem um prato. E que calumnias que ella inventa, aquella Natachka! A atordoar os ouvidos a toda a gente com a galga de como a senhora faz a côrte ao principe com o sentido em... com um certo sentido, não sei se m'entende? E pespega-lh'o a elle na cara, até; e elle sem perceber patavina, sentado para ali como um gato encharcado e a responder, a cada palavra: "Ah! Está claro, está claro!" E sabidas as contas é ella a propria que... Mandou saír a Sonka[6]. Ora imagine! Com{67} quinze annos e anda ainda de vestido curto que mal lhe chega ao joelho; tambem mandou vir aquella orfã, a Machka,[7] com um vestido ainda mais curto. Impingiram a ambas uns casquêtesinhos encarnados cheios de plumas, não sei para quê, e ao som do piano põem-se a dansar, aquelles dois espinafres, deante do principe, a Kozatchok.[8] Ora a minha amiga está farta de conhecer o fraco ao principe! A babar-se todo: "Que... e... fó... órmas!" diz elle "... Que... e... fó... ó... órmas!" E a mirál-as pelo monóculo, e ellas com uns módinhos, as duas perúas! Todas afogueadas á força de levantarem a perna! E toda a gente a rir, faça ideia como e porquê!... Que nojo! E chamam áquillo dansar! Aqui estou eu que dansei de chale, quando saí do collegio aristocratico de Madame Jarmé: fiz sensação, acredite... pela nobreza!
Fartaram-se até de dar palmas uns senadores. Estavam a educar nesse mesmo collegio filhas de principes e de condes.—Mas a tal Kozatchok, aqui para nós, é tal qual o Cancan! E eu com a cara a arder, de envergonhada! Não me pude conter...
—Mas, então... tambem estava em casa da Natalia Dmitrievna? A senhora? Cuidei que...
—Então que quer! Ella offendeu-me, a semana passada, e não me ensaiei para o pespegar a toda a gente. Mas que quer, minha amiguinha, se eu estava morta por ver o principe, ainda que fosse por uma greta da porta, e ahi tem por que é que lá fui, apezar de tudo, a casa da Natalia Dmitrievna;{68} a não ser o principe, não era eu que lá tornava a pôr os pés! Ora imagine; servem chocolate a toda a gente, e a mim, nem raça, nem sequer abrem a bocca para me pedir desculpa! Ha de ter noticias minhas! Mas adeus, meu anjo, vou-me embora, estou com muita pressa... é-me indispensavel encontrar em casa a Apulina Panfilovna para lhe contar o caso. Ah! Pode-se desde já considerar viuva da lindeza do tal principe, não é elle que volta para sua casa. Está perdido da memoria, bem sabe, e a Anna Nikolaievna terá cuidado em o não deixar saír.
Estão com medo de que a minha amiga... todas ellas... não sei se percebe? a proposito da Zina...
—Que horror!
—É como lhe digo; já corre até por essa cidade. A Anna Nikolaievna não o deixa saír sem jantar e depois não o larga. Os planos d'ella são todos elles armados contra a senhora, meu anjo! Fui deitando o olho para o pateo: que reboliço! Prepararam um jantar com trinta entradas, mandaram vir champanhe. Quer um conselho? Veja se trata de lhe deitar a mão antes de que elle vá a casa d'ella. Não, que elle, pertence-lhe, é seu hospede! Não se deixe engazupar por aquella espertalhona, por aquella ranhosa! Não vale a sola de um sapato, lá com ser mulher de um procurador. E eu, aqui onde me vê, sou coronela, fui educada no collegio aristocratico de Madame Jarmé... Forte nojo! Adeus, meu anjinho, tenho o trenó á espera, se não fosse isso, fazia-lhe companhia.
E abalou a gazeta viva.
Maria Alexandrovna, desesperada, toda ella n'um tremor. Não padece duvida que o conselho da coronela é seguro e{69} pratico; não ha tempo para perder, mas subsiste ainda a grande difficuldade.
Maria Alexandrovna investe para o quarto da Zina. A Zina andava ás voltas pela casa, de mãos no peito, muito enfiada, cabisbaixa, no auge da afflicção. Borbotavam-lhe nos olhos as lagrimas. Fulge-lhe porém no semblante uma expressão de decisão, assim que põe os olhos na mãe. Engole as lagrimas e refega-lhe os labios um risinho sarcastico.
—Mamã, diz ella, antecipando-se a Maria Alexandrovna, desperdiçou thesouros de eloquencia em minha honra, de mais, até, visto que me não conseguiu cegar a vista, e eu não ser nenhuma creança. Querer persuadir-me de que, eu, casando com o principe, ia praticar um acto de irmã de caridade,—profissão para que não sinto a minima vocação,—justificar mediante um nobre fim baixezas egoistas, tudo isso representa apenas o mais grosseiro egoismo, entendeu?
—Porém, meu anjo...
—Cale-se, mamã, tenha paciencia, e oiça-me até ao fim. Saiba, pois, que tenho a consciencia da sua hypocrisia. Estou pois plenamente convencida de que o verdadeiro fim de tudo isto é vil; e comtudo, acceito a sua proposta, completamente, mas completamente, entendeu? Estou prompta a casar com o tal principe, prompta a ajudar os seus esforços no sentido de o convencer a casar commigo. O motivo d'esta minha resolução, não é da conta da mamã, baste-lhe saber que me prontifico a tudo: ajudál-o-hei a enfiar as botas, serei sua creada, hei de dansar para que elle se não arrependa de ter casado commigo. Mas, em troca, peço-lhe{70} que me diga, o modo por que pretende alcançar semelhante resultado. Não ponho em duvida, visto que se empenha n'este negocio, o facto da mamã ter já urdido o seu plano. Transmita-m'o, seja franca uma vez na sua vida, eis as minhas condições.
Maria Alexandrovna ficou tão embatucada, que emudeceu sem bulir com um dedo, com os olhos espipados. Contara com a lucta contra as ideias romanescas da filha, e ficou estupefacta ao vêl-a decidida a agir contra as proprias convicções. O negocio toma verdadeira consistencia. Maria Alexandrovna, lá por dentro, não cabe em si de contente.
—Zinotchka! exclama enthusiasmada, és a carne da minha carne e o osso dos meus óssos!
Nem uma palavra mais pode accrescentar, lança-se nos braços da filha.
—Ah! meu Deus! Dispense-me dos seus abraços, mamã! respondeu, enfadada, a Zina. É absolutamente deslocado esse seu enthusiasmo. Exijo uma resposta á minha pergunta, e nada mais!
—Mas, Zina, eu amo-te, adoro-te, e tu a repelires-me! É para te ver feliz que eu ando a trabalhar. E, dos olhos de Maria Alexandrovna borbotavam lagrimas sincéras. Effectivamente, ama a seu modo a Zina, e d'ahi, a commoção do triumpho torna-a tão sentimental como qualquer baba,[9] áquelle general de saias. A Zina sente bem, a despeito de tudo, que a mãe é sua amiga; mas pésa-lhe semelhante amor, preferir-lhe-hia o odio.{71}
—Pois bem! Não se zangue, mamã; sei muito bem o que vou fazer, se eu estou tão afflicta!... disse para tranquillizál-a.
—Eu não me zango, não me zango, meu anjinho, cacarêja Maria Alexandrovna recuperando animo. Não deixo de avaliar a tua agitação. Mas não vês tu, querida amiguinha... tu pediste-me franqueza... Seja assim, serei franca, mas acredita-me. Lá quanto a um plano inteiramente definido, é coisa que ainda não tenho, nem o posso ter: tudo depende das circumstancias. Antevejo até algumas difficuldades.
... Se aquella pêga, aindagora, esteve-me para ahi a grasnar um chorrilho de pessimas noticias. (Ah! meu Deus! não tenho tempo para perder!) Serei pois franca: juro-te que hei de conseguir o meu fim. Não vás acreditar n'uma miragem qualquer, n'uma illusão; o meu plano assenta todo elle na toleima do principe, e representa isso uma talagarça em que se pode bordar tudo que se quiser. O mais importante é que nos deixem operar. E demais, essas fufias nada podem contra mim! exclama Maria Alexandrovna assentando um murro na mêsa. Tem confiança, mas cumpre operar depressa! Hoje ainda façamos o principal, se for possivel.
—Está bem, mamã; escute ainda... uma franqueza. Sabe o motivo porque tanto me interessa esse seu plano? É porque não estou segura de mim propria. Disse-lhe que me achava decidida a praticar semelhante baixeza. Mas se os pormenores d'esse seu plano forem repugnantes em demasia, desde já lhe declaro que me verei obrigada a desistir. Sei que será mais uma baixeza, o resignar-me a entrar{72} no lodaçal e não ter animo de lá ficar. Mas que se lhe ha de fazer? Se não pode deixar de ser assim!
—Mas, Zina, meu anjo, onde é que tu vês n'isto baixeza? replica, timida, Maria Alexandrovna. Trata-se de um bom casamento, de uma coisa normal; encara as coisas d'este ponto de vista e verás que te ha de parecer muitissimo razoavel.
—Ah! mamã, pelo amor de Deus, nada de dissimulações para commigo! Estou prompta para tudo, bem vê; que mais quer? Não se escandalize, peço-lh'o eu, por eu dar ás coisas o nome que lhes compete: será, talvez, actualmente, essa a minha unica consolação.
E sorriu com tristeza.
—Ora vamos! Vamos! Está bom, meu anjinho; pode haver estima reciproca sem identidade de convicções. Quanto ao meu plano, tem a certeza em como te não irá salpicar de lama, isso te juro eu! Quererás talvez comprometter-me? Tudo ha de correr bem, com muita dignidade, até. Não ha de haver escandalo. E ainda quando o houvesse, n'esse caso, d'este ou d'aquelle modo... já nós estariamos d'aqui muito longe... diziamos adeus a Mordassov. E depois, essas gralhas que piassem para ahi até rebentar, já nos não fazia mossa. Merecem que façamos caso d'ellas, porventura? E como é que tu, Zina, tão soberba, podes arrecear-te de semelhante gente?
—Ah! mamã, a mim não me mettem medo, acredite! Não me entende! respondeu a Zina, irritadissima.
—Está bom, está bom, minha joia, não te zangues! Onde eu queria chegar era a que essa gentalha praticam vilanias a cada instante, e que tu... por uma só vez... Mas,{73} que digo eu... sempre sou muita tola! Trata-se até de uma nobre acção! Depende tudo do ponto de vista...
—Basta, mamã, basta! exclama a Zina.
E bate o pé.
Deixa lá! meu anjo, não torno mais!
Silencio. Maria Alexandrovna fica a olhar pelas costas para a Zina, que seguiu por a casa fora com uma expressão de cachorro a olhar para a chibata.
—Nem sequer chego a perceber como é que tenciona dar-lhe volta, prosegue com enfado a Zina. Tenho a certeza de que o resultado que tirará será uma affronta. Pela parte que me toca, tanto se me dá, mas vae ter desgosto, creia.
—Ora! Se é só isso que te dá cuidado, vae descançada, meu anjo!
Comtanto que estejamos de accordo, quanto ao mais, pouco importa! Se tu soubesses os transes de que eu tenho escapado, sã e a salvo! Em summa, permitte-me fazer uma tentativa. É urgente que eu tenha quanto antes uma conferencia com o principe. Já estou adivinhando o que d'aqui sairá. De quem eu tenho medo é do tal Mozgliakov.
—Do Mozgliakov? perguntou a Zina com desdem.
—Do Mozgliakov, sim, pois que cuidas? Mas não te assustes, ainda assim, Zina, hei-de induzil-o a auxiliar-me, até. Nem tu sabes ainda quem aqui está, Zina! Ah! tão certa tenha eu a salvação, mas assim que ouvi falar no principe, accudiu-me logo semelhante ideia! Foi uma revelação. Quem havia de dizer que elle havia de vir parar a nossa casa! Bem podiamos estar cem annos á espera d'uma occasião d'estas! Ah! és tão linda, minha Zina! Que{74} belleza! Olha, eu, se fosse homem, atirar-te-hia aos pés um reino! Sucia de asnos! Quem não ha de estar morrendo por beijar esta mãozinha? (Maria Alexandrovna, effusiva, beija a mão da filha.) É a carne da minha carne!... É preciso casál-o dê por onde der, áquelle imbecil! E que bem viveriamos depois, Zina! Pois nunca nos havemos de apartar, não é verdade? Não pões na rua tua mãe, quando te vires feliz? Tivemos os nossos desaguizados, mas aonde irás tu encontrar outra amiga como eu? Eu, apezar de tudo...
—Mamã, se está resolvida, é tempo de fazer alguma coisa. Está perdendo minutos preciosos! disse a Zina, com impaciencia.
—E já vae apertando. Vae, sim, effectivamente. E eu aqui a dar á lingua! Querem açambarcar o principe! Vou já a correr. É já; mando chamar o Mozgliakov e carrégo com o principe, á força, se fôr preciso. Adeus, Zinotchka! Adeus, meu amor, minha pomba! Não te desconsoles, não desanimes, não estejas triste. Então!... Tudo ha de correr com dignidade, com muita, até. Tudo está no modo de encarar as coisas. Emfim! adeus, adeus!
Maria Alexandrovna faz o signal da cruz á Zina e sae. Investe para o quarto, detem-se um momento em frente do espelho e, d'alli a dez minutos, lá vae rodando por essas ruas de Mordassov, na carruagem de patins (já dissemos que Maria Alexandrovna vivia á larga.)
—Não, não são vocês que podem luctar de esperteza commigo! A Zina annue, e já é meio caminho andado! Não ser bem succedida! Que asneira! Ah! Zina, com que então, ha calculos que influem no teu animo? Commovi-a fazendo-lhe luzir deante dos olhos um risonho porvir... Como{75} ella estava linda, hoje! Ora, tivera eu sido tão formosa, e haveria revolvido, até, meia Europa. Em summa, paciencia, esperemos. O tal Shakspeare ha-de-lhe passar assim que ella se vir princêsa... E que princêsa não ha de ser!... Gosto de a ver assim; tão soberba, tão senhora de si!... Tem uns olhos de rainha!... Como é que ella poderia deixar de conhecer que ia n'isso o seu interesse?—Até que emfim percebeu-o! Ficarei vivendo em sua companhia, e ha de consentir em tudo que eu quiser. É princêsa? pois tambem eu! Hão-de falar de mim, em Petersburgo, até... E adeus... cidadezinha da asneira! O principe e o garoto hão-de ir marchando d'esta para melhor, e eu, caso-a com uma testa coroada! Ha só uma coisa que me mette medo: não terei usado para com ella excesso de franqueza? Assusta-me! Assusta-me deveras!
E engolfa-se em suas cogitações Maria Alexandrovna.
Assim que se viu entre quatro paredes, a Zina poz-se ás voltas no quarto, de mãos atráz das costas, a pensar. E não lhe faltava em quê, com certeza! E a revezes e quasi inconscia repetia: "é urgente, é urgente, ha já muito tempo que devia estar feito!" Que quereria dizer aquella exclamação? Por mais de uma vez as lagrimas lhe refulgiram n'aquellas pestanas tão longas e sedeúdas. Nem pensava, sequer, em as enxugar. A mãe fazia mal em estar-se inquietando! A Zina achava-se disposta para tudo...
"Eu te direi, deixa estar! pensou a Nastassia Petrovna ao saír do seu cadoz da farrapada depois de se haver retirado a coronela. E eu com tenções de pôr uma gravata côr de rosa por causa do tal principe! Sempre sou bem{76} tola! A enfeitar-me para casar com elle! Ora, uma gravata depressa se põe! Deixa tu estar, minha Maria Alexandrovna! Com que então, eu, sou uma pécora, uma miseravel? Acceito duzentos rublos para arrombar uma bocêta! Pois já se vê, não deixar escapar a occasião!... E demais... eu se o fiz foi por ser generosa, pois ainda tive que fazer despêsa... Eu te direi! Hei-de-lhes fazer ver a ambas se sou uma pécora ou se o não sou! Hão de aprender a lidar com a Nastassia Petrovna!{77}
VII
Maria Alexandrovna, comtudo, deixava-se arrastar pelo proprio talento. Concebeu um plano grandioso quanto audaz. Casar a filha com um ricaço, com um principe e um moribundo; casál-a sem que ninguem o soubesse, aproveitando a senilidade do seu hospede, era não só ousadia, mas imprudencia, até. Não havia duvida, o projecto era seductor, porém, em caso de malogro, poderia vir a reverter para o autor n'uma confusão sem antecedentes. Maria Alexandrovna bem o sabia, mas não era mulher para recuar.
—Tenho-me visto em peores lances, dissera ella á Zina, e era verdade. E seria uma heroina, se assim não fôra?
Certamente, o projecto tinha seus visos de bandoleirismo á mão armada; Maria Alexandrovna não era, porém, mulher para se prender com taes ninharias. Resumia o caso n'um dito muito acertado: "uma pessoa não fica para sempre casada." Era simplicissima semelhante ideia, mas apresentava á imaginação tamanhas vantagens, que Maria Alexandrovna era a propria a assustar-se.
Como mulher de recursos, dotada de legitima faculdade creadora, urdiu o seu plano n'um revez de mão. É certo que apenas se lhe pintiparava na mente a largos traços, um tanto vagos, até. Escasseavam pormenores e havia que contar com circumstancias imprevistas. Maria Alexandrovna tinha porém confiança em si mesmo. Não era{78} o malogro que lhe mettia medo, lá isso, não; o que a sobresaltava, era a impaciencia em encetar a lucta. A impaciencia, a nobre impaciencia minava-a, ao pensar nos possiveis obstaculos.
As mais sérias difficuldades, antecipava-as Maria Alexandrovna por parte dos seus nobres concidadãos de Mordassov, e acima de tudo, da nobre sociedade das damas Mordassovenses: Conhecia, por experiencia propria, até onde ia o odio de semelhante gente. Nem sequer punha em duvida, já se vê, que n'aquelle ensejo toda a gente lhe avaliava as intenções, supposto que ninguem houvesse dito ainda uma palavra fosse a quem fosse. Sabia, á força de triste experiencia, que não havia um unico acontecimento, por mais secreto que fosse, referente á sua vida, que, dando-se pela manhã, não andasse á noite na lingua de todas as mexeriqueiras. Maria Alexandrovna, pois, antevia apenas o perigo, esta casta de presentimentos, porém, que jamais a haviam enganado, não a enganariam ainda d'esta vez.
Eis, effectivamente, o que succedera, e de que ella ainda não tinha conhecimento. Pela volta do meio dia, isto é, tres horas, minuto por minuto, depois de haver chegado o principe a Mordassov, corriam pela cidade uns boatos algo singulares. Qual teria sido o ponto de partida? Ninguem o sabia, mas caso é que se espalharam acto continuo.
Afiançava toda a gente que Maria Alexandrovna já tinha promettido a mão da filha, da sua Zina, com vinte e tres annos e sem um kopek de dote, ao principe: que o Mozgliakov tinha sido posto a andar e que estava tudo resolvido e assignado.{79}
Qual era a causa de semelhantes boatos? Tão bem conheciam Maria Alexandrovna que lhe tivessem adivinhado, com tão perfeita unidade, os mais intimos pensamentos? Nem a inverosemelhança de um tal boato, visto como um projecto d'aquelle genero se não leva a effeito no espaço de uma hora, nem a falta evidente de todo e qualquer fundamento, pois ninguem sabia d'onde partira a noticia, puderam dissuadir os Mordassovenses. O mais surprehendente, era o haver-se principiado a espalhar o boato no proprio ensejo em que Maria Alexandrovna encetava aquella sua conversa com a Zina a semelhante respeito. Tal é o faro dos provincianos! O instincto dos novelleiros das cidadécas attinge por vezes as raias do maravilhoso. E todavia, o caso explica-se. Baseia-se no estudo intimo e perseverante do proximo. Todo o provinciano vive debaixo de uma redoma de vidro, como se disséssemos. É-lhe absolutamente impossivel esconder seja o que fôr aos seus honrados concidadãos. Sabem a seu respeito aquillo que elle é o proprio a ignorar. O provinciano, de sua natureza, devia de ser um psicologo profundissimo. E eis o motivo porque eu ás vezes pasmava sincéramente d'encontrar na provincia tão poucos psicólogos e tanto imbecil! Mas ponhamos isso de banda.
Estoirou a noticia tal qual o raio. O casamento com o principe antolhava-se tão vantajoso a toda a gente, tão brilhante, que a face extranha d'aquelle negocio a todos escapou. Dava-se ainda uma circumstancia: A Zina era tão odiada ou mais ainda que a propria Maria Alexandrovna; e por quê? Ninguem o sabia. Entraria talvez em linha de conta a formosura da Zina, talvez pelo facto de{80} Maria Alexandrovna, apezar de todos os pezares, ser, muito mais do que a filha, da mesma massa das outras Mordassovenses. Ausentasse-se ella da cidade, e quem sabe, é possivel que deixasse saudades. Dava animação á sociedade mediante incidentes variados. Sem ella aborrecer-se-hiam. Por outro lado, a Zina, pela sua attitude, parecia pairar nas nuvens e não em Mordassov. Não era da mesma raça, e talvez, inconsciamente, até, tivesse uns modos demasiado altivos. E eis que esta mesma Zina, ácerca de quem corria tanta historia escandalosa, aquella soberbona, apparecia millionaria, princêsa e entrava no rol da aristocracia. Dentro de um ou dois annos, talvez, vem a enviuvar e casa para ahi com algum duque, ou algum general, e quem sabe, com o governador, e coincide exactamente o estar viuvo e o ser grande admirador da formosura o governador de Mordassov. Desde então virá a ser a primeira senhora da provincia, e um tal pensamento, só por si, era intoleravel, nem haveria noticia capaz de provocar tanta indignação em Mordassov.
Estrugiam por todos os lados clamores de raiva. Diziam que era indigno; que o jarreta não tinha o juizo todo; que o tinham enganado, embaído; que urgia livrál-o da soffreguidão d'aquellas garras; que, apuradas as contas, era immoral,—uma ladroeira! Que não faltavam meninas valendo tanto como a Zina e em condições de casar com o principe.
Todas estas exclamações e estas linguarices eram apenas supposições da parte de Maria Alexandrovna, e já era demais. Estava farta de saber que toda a gente se achava prompta a praticar o possivel e o impossivel, até, para se{81} oppôr a seus projectos. Pois não haviam confiscado o principe e não tinha agora que o reconquistar a unhas e dentes? E d'ahi, dado ainda o caso de que ella lograsse tornál-o a agarrar e trazêl-o outra vez para sua casa, não poderá comtudo têl-o preso a toda a hora. Em summa, quem é que lhe podia affiançar que hoje, ainda, dentro em duas horas, o côro solemne em peso das damas de Mordassov se não terá congregado na sua sala, e a pretexto de ordem tal que se torne impossivel recebêl-as? Se ella lhes fechar a porta, entram-lhe pela janella. Em conclusão, não se podia perder um instante, e todavia, nada estava feito ainda.
De subito, eis que brota na mente de Maria Alexandrovna, e amadurece do mesmo jacto, uma ideia genial. Referir-nos-hemos á dita ideia em logar competente: n'este ensejo, a nossa heroina lá ia rodando a toda a pressa através das ruas de Mordassov, tremenda e inspirada, decidida a dar batalha para reconquistar o principe. Nem sequer sabia o alvitre que esposaria nem onde o iria encontrar; mas sabia com certeza que mais depressa devia afundar-se Mordassov do que falhar-lhe um unico de seus projectos.
Do seu primeiro passo não podia saír-se melhor. Encontrou o principe na rua e carregou com elle para jantar.
Se me perguntarem o modo porquê, cercada por tantas ciladas armadas contra si, conseguiu pôr o nariz a uma banda á Anna Nikolaievna, declaro que considero esta pergunta offensiva para Maria Alexandrovna. Deteve o principe no acto d'este estar á porta da casa da sua rival, e a despeito de tudo, a despeito até das objecções do proprio Mozgliakov, receoso de um escandalo, atirou com o{82} ginjinha para dentro do trem. Era n'isto exactamente que Maria Alexandrovna levava as lampas ás suas rivaes. Nos lances decisivos, não se detinha em presença de um escandalo, tendo como axioma que o exito a tudo justifica. Escusado será dizer que o principe não oppôz resistencia de maior, e como sempre esqueceu-se de tudo e ficou muito contente da sua vida.
Ao jantar, não fez senão dar á lingua, muito alegre, a fazer trocadilhos, a contar anecdótas que nunca concluia e passando de uma para outra sem dar por isso. Tinha bebido tres copos de champanhe em casa de Natalia Dmitrievna. Ao jantar, bebeu mais alguns e ficou alegrinho. Maria Alexandrovna era a propria a lhe não deixar nunca o copo vazio.
Eram irreprehensiveis as iguarias, aquelle ladrão do Nitichka esquecera-se de as chamuscar. A dona da casa desvelava-se em electrizar os seus hospedes com os enlevos da sua amabilidade. A Zina, comtudo, mantinha gélido silencio, e o Mozgliakov nem por isso estava nos seus dias. Comia pouco, estava muito preoccupado, a pensar; e, coisa que raras vezes lhe succedia, Maria Alexandrovna estava inquieta. A Nastassia Petrovna, mazomba, fazia ás escondidas signaes ao Mozgliakov e este sem dar por tal. A não serem Maria Alexandrovna e o principe, haveria descambado em jantar de enterro.
E comtudo, Maria Alexandrovna encobre intima afflicção: assusta-a a Zina, com aquelles seus modos tristonhos, de olhos vermelhos. E demais, o tempo não sobeja, e Mozgliakov, esse obstaculo material, está para alli como um marco de pedra. Ergue-se da mêsa Maria Alexandrovna,{83} minada por funda inquietação. Mas qual não é o seu espanto, deixem-me assim dizer, quando vem ter com ella o Mozgliakov e lhe declara, que sente muito, mas que se vae retirar immediatamente!
—Aonde é que vae, então? indaga ella, com simpatia.
—Eu lhe digo, Maria Alexandrovna, enceta o Mozgliakov atrapalhado, aconteceu-me um caso um tanto esquisito... Nem sei até como lh'o diga... Mas, pelo amor de Deus, dê-me um conselho.
—Que é, diga lá?
—Meu padrinho, o Borodoniev... conhece, aquelle commerciante... encontrei-o hoje... está irritadissimo, dirigiu-me exprobações, diz que sou um soberbo. Com esta é a terceira vez que venho a Mordassov sem ir para sua casa. "Vem hoje, me disse elle, tomar uma chavena de chá commigo". São quatro horas em ponto, e elle toma o chá, á antiga, ahi pelas cinco horas, depois da sésta. Que quer que lhe eu faça... Eu avalio, Maria Alexandrovna... Mas colloque-se no meu logar! Foi elle que teve mão em meu pae que se queria enforcar, quando perdeu aquelle dinheiro do Estado!... Foi n'essa occasião, por signal, que elle insistiu em ser meu padrinho. Se fôr a effeito o meu casamento com Zina Aphanassievna, bem sabe que disponho apenas de cento e cincoenta almas, ao passo que elle é millionario, e mais que isso, até, segundo affirmam. Não tem filhos. Se eu estiver a bem com elle, pode deixar-me cem mil rublos. Ora elle está com setenta annos, lembre-se d'isto!
—Ah! meu Deus! Mas então que é que o prende? Por que está para ahi a marralhar? exclama Maria Alexandrovna,{84} disfarçando a custo o contentamento. Vá-se embora, vá! Com essas coisas não se brinca! E era por isso então que estava tão absorto durante o jantar? Vá, meu amigo, não se demore! Mas devia de ter ido vêl-o esta manhã para lhe provar que aprecia a sua benevolencia. Ai! esta mocidade!
—Mas, se Maria Alexandrovna tem sido a propria a arguir-me de semelhantes relações! Tudo era dizer-me que era um mujik, parente de taberneiros e agentes de negocio!
—Ah! meu amigo, quanta coisa se diz sem pensar! Tambem sou sujeita a enganar-me.—Não me tenho na conta de infallivel. E d'ahi... não me recordo... mas... é possivel que eu me achasse numa tal disposição de espirito... em summa, o senhor não tinha ainda formulado o seu pedido. Certamente, que houve da minha parte egoismo maternal, mas agora devo encarar as coisas de um ponto de vista novo. Qual seria a mãe que m'o levasse a mal? Vá e não perca um instante. Passe a noite com elle... e oiça lá! Fale-lhe a meu respeito, diga-lhe que o tenho em muita conta, que sou muito sua amiga... Proceda com habilidade. Ah! meu Deus! Tinha-se-me varrido de todo. E era eu que lh'o devia ter lembrado.
—Resuscitou-me, Maria Alexandrovna! exclama Mozgliakov encantado. E agora obedecer-lhe-hei em tudo e por tudo. E eu sem me atrever a falar-lhe n'isso! Pois bem, adeus! vou-me embora. Desculpe-me para com a Zinaida Aphanassievna. E d'ahi, hei de voltar.
—Receba a minha benção, meu amigo. E não se esqueça de falar a meu respeito. Effectivamente, é um velho estimabilissimo.{85} Ha muito tempo que mudei de opinião a seu respeito. E demais, eu sempre o estimei na qualidade de Russo dos bons tempos, tão despido de artificios. Até mais ver, meu amigo, até mais ver!
"Foi uma fortuna carregar com elle o demonio! Que estou dizendo, foi o proprio Deus que veiu em meu auxilio."
Pavel Alexandrovitch estava já no vestibulo a enfiar a chuba, eis que rompe por alli dentro, saída não se sabe d'onde, a Nastassia Petrovna.
—Aonde vae? diz, agarrando-o pela mão.
—A casa do Borodoniev, Nastassia Petrovna, a casa do meu padrinho. Coube-lhe a honra de me baptizar. Um velho rico, um padrinho de quem se herda, um homem que se deve amimar.
—A casa do Borodoniev! Pois diga adeus, desde já, á sua noiva, disse com sequidão Nastassia Petrovna.
—Como assim?
—Assim mesmo. Suppõe que a tem segura? Isso sim! Vae, mas é casar com o principe.
—Com o principe. Que me diz, Nastassia Petrovna?!
—Que me diz, quê?—Quer ver com os proprios olhos e ouvir com os proprios ouvidos? Pendure para ahi a chuba, e venha commigo.
Pavel Alexandrovitch, aturdido, atira para o lado a chuba e deixa-se levar para o quarto escuro, cuja porta dá para a sala.
—Mas que quer isto dizer! Nastassia Petrovna, não percebo patavina.
—Perceberá assim que ouvir. A comedia não tarda a principiar.{86}
—Qual comédia?
—Chiton! Não fale tão alto! Qual comédia? E é o senhor que paga as despêsas; andam a enganál-o; esta manhã, assim que o senhor saíu com o principe, a Maria Alexandrovna pôz-se a apoquentar de dôr d'ilharga a Zina, mais de uma hora, com o sentido em persuadil-a a aceitar para marido aquelle jarreta d'engonços. Dizia ella que não havia nada mais facil do que era o enredál-o. Propunha uns taes alvitres que a mim propria me causavam asco. Ouvi-os d'aqui, a Zina annuiu. E que cama lhe não fizeram ao senhor, ambas de duas! Tem-n'o na conta de um imbecil, e a Zina declarou formalmente que não casava com o senhor por coisa nenhuma d'este mundo. E eu, tão tola, que já me estava até enfeitando para pôr ao pescoço uma gravata côr de rosa!
Mas escute! escute!
—Se assim é,... é uma infamia! murmurou Pavel Alexandrovitch, esparvoado, fitando olho a olho a Nastassia Petrovna...
—Mas escute! Vae ouvir o bom e o bonito!...
—Escutar onde?
—Debruce-se se ali n'aquella frincha da porta.
—Mas... Nastassia Petrovna, eu sou lá homem que me ponha a escutar ás portas?!
—Emprega bem o seu tempo! Aqui, meu paezinho, é preciso metter a honra na algibeira. Desde que cá veiu, escute...
—Comtudo...
—Se não quer, resigne-se a ficar a chuchar no dedo! E a mim que me importa? Eu com dó do senhor, e o senhor{87} com ceremonias! Será para mim que eu ando a trabalhar? Eu, por mim, já nem cá fico esta noite.
Pavel Alexandrovitch, muito contra sua vontade, encosta o ouvido á fisga da porta. Referve-lhe o sangue nas arterias. Não percebe uma palavra de quanto em volta de si se está dando.{88}
VIII
—Com que, então, divertiu-se muito, principe, em casa da Natalia Dmitrievna? indaga Maria Alexandrovna, deitando olhar soffrego para a futura prêsa.
(Enceta de proposito as hostilidades do modo mais innocente. De commovida, tem o coração aos pulos.)
Depois de jantar, transferiram o principe para a sala onde este havia entrado pela manhã. O ginjinha, com lastro de seis copos de champanhe, já não conserva equilibrio. Em compensação, não cessa de badalar. Maria Alexandrovna percebe que é apenas uma excitação de momento e que o hospede, d'alli a nada, ferra comsigo a dormir. Cumpre pois aproveitar a occasião. Nota com jubilo que o voluptuario ginjinha dispara á Zina uns olhares de gula. Rejubilam os seus maternaes sentimentos.
—Ex-trê-ê-ma-mente! e, não sabe? é uma mulher incom-pa-ra-á-vel... aquella Natalia Dmitrievna, uma incompa-ra-vel mulher!
A despeito dos muitos cuidados, aquelles louvores tributados á rival fazem sangrar o ciume a Maria Alexandrovna.
—Ora vamos, principe! exclama com os olhos a ferir lume, se essa sua Natalia Dmitrievna é uma mulher incomparavel, tapa-me a boca, mas é preciso que o principe conheça muito mal esta nossa sociedade! Não passa tudo de um alarde descarado de sentimentos ausentes, comédia, verniz, oiro ao de cima.{89}
Erga uma pontinha ás apparencias, e encontrará um verdadeiro inferno escondido por baixo das flores, uma ninhada de viboras promptas a tragál-o.
—De-vé-ras! Estou pa-a-asmado!
—Sou eu que lh'o digo! Ah! meu principe! Ora escute, é a Zina! Assiste-me o dever—e a tanto me vejo obrigada—de contar ao principe uma aventura ridicula que se deu a semana passada, com aquella Natalia Dmitrievna—lembras-te?—Sim, principe, com aquella Natalia a quem tanto admira.
Ah! meu caro principe, affirmo-lhe que não sou mexeriqueira, mas devo contar-lhe isto unicamente para lhe dar uma amostra viva e irrisoria da nossa sociedade.
Haverá quinze dias veiu visitar-me essa tal Natalia Dmitrievna. Estavam servindo o café, e eu tinha que sair. Lembro-me muito exactamente das pedras de açucar que ficaram no meu açucareiro de prata: estava cheio. Volto, e que hei de eu ver? Restavam apenas tres pedrinhas. Ora, a Natalia Dmitrievna tinha ficado sósinha! Que me diz a isto?
Tem casa, dinheiro, tudo que lhe apetece... É comico e pequenino, pois não acha?—E por aqui já pode avaliar o que é esta nossa sociedade em Mordassov.
—De-ve-ras?—É uma gulodice... sobre-natural! Mas como é que ella pôde engulir um açucareiro?
—E ahi tem a sua mulher incomparavel, principe; se já se viu uma vergonha assim? Eu por mim estou que antes queria morrer, do que resolver-me a praticar um acto tão nojento!
—Está c... claro!... está... claro!—Mas ainda assim—sempre lhe digo, que é uma linda mulher!{90}
—Quem? A Natalia Dmitrievna! Ora vamos, principe, ella o que é é uma pipa. Ah! principe, principe, que está dizendo? Sempre fiz outra opinião do seu bom gosto!
—Está—c... claro—uma pipa!—Mas ainda assim—sempre lhe digo que é bem feita; e depois, aquella pequer... rucha que dansava... essa tambem é... bem feita.
—A Sónitchka? Ora! Uma pequena! Tem apenas quatorze annos.
—Está... claro!—mas ainda assim,... é tão leve... e com umas formas..., tão... geitozinhas!... E a outra que dan... sou com ella?
—Ah! aquella serigaita d'aquella orphã, principe?
—Está claro—orphã! É porquinha,—devia ao menos ter lavado as mãos,—mas é sedu-u-ú-ctora.
E o principe, emquanto vae falando, não despega, com crescente avidez, o monóculo do semblante da Zina.
—Mas... que... linda... me... nina! tartamudéa... meio estarrecido...
—Zina, vê se tocas alguma coisa, ou antes... canta. Canta que é uma delicia, principe; chega a ser uma virtuose, ouso affirmál-o, uma verdadeira virtuose. E se soubesse, principe, prosegue a meia voz Maria Alexandrovna emquanto Zina se approxima do piano, com aquelle seu andar, lento e cadenciado, que põe num sobresalto o jarreta, e se soubesse a que ponto é amoravel, como é carinhosa para commigo! Que coração! Que sentimentos!
—Está claro! Sentimentos! E se quer que lhe diga... ainda não conheci senão uma mulher que se lhe possa comparar como formosura, responde o principe a engulir a saliva, é a condessa Naniskara; que Deus tem. Já lá vae{91} ha trinta annos. Que mulher! Que maravilhosa formosura! Casou com o cozinheiro.
—Com o cozinheiro, principe!?
—Está claro—o cozinheiro, um francez, no estrangeiro.—E arranjou-lhe lá no estrangeiro um titulo de conde. Um homem muito instruido, com uns bigodinhos.
—E como é que viviam, e onde, principe?
—Está claro—viviam muito bem! E d'ahi, não tardou muito que se não apartassem.—Elle roubou-a e safou-se. Quer-me parecer que jogaram as cristas lá por causa de um môlho.
—Que queres que eu toque, mamã?
—Por que não cantas, antes? Se soubesse como ella canta, principe! Gosta de musica?
—Está c... laro! Um encanto—um encanto! Gosto immenso de musica! Co... onheci muito Beethoven, no estrangeiro.
—Beethoven! Ora imagina, filha, o principe conheceu Beethoven! clamou Maria Alexandrovna, maravilhada. Ah! principe, pois devéras, conheceu Beethoven?
—Está c... laro: Eramos intimos amigos. Tinha o nariz sempre atulhado de rapé... Que sujeitinho tão ratão!
—Quem, Beethoven?
—Está c... laro,—Beethoven? E não seria talvez Beethoven... mas sim outro qualquer. Ha muito allemão, por toda a parte... Que eu, afinal, parece-me que estou equivocado.
—E que hei de eu cantar, mamã?
—Ah, Zina! Canta-me aquella romança, não te lembras? Aquella que tem um accento tão cavalheiresco: a castellã{92} e o seu trovador—Ah principe, sou doida pelos assuntos cavalheirescos! Os castéllos! aquelle viver mediéval! Trovadores, arautos! Festas e torneios!... Vou te fazer o acompanhamento, Zina... Sente-se aqui, mais perto, principe! Ai! os castéllos, os castéllos!
—Está c... laro! os castéllos... tambem gosto de cas... tellos, repete o principe assestando na Zina o olho solitario: Mas... santo Deus! que romança!... Estou a conhecêl-a... Ha que tempos... que tempos que a ouvi... recorda-me... ah! meu Deus!...
Não me incumbo de dizer o que foi que succedeu ao principe, quando a Zina entrou a cantar. Cantava uma romança francêsa, muito antiga e que estivera em moda, nos seus tempos. A Zina cantou a primor. A voz pura de contralto ia direita ao coração. O lindo rosto, os magnificos olhos, os dedos fusiformes a voltarem as folhas, os bastos e negros cabellos, tão lustrósos, o seio afflante, a sua pessoa féra e linda, toda ella, concorria tudo a enfeitiçar o pobre do gêbo. Não despegou os olhos de cima d'ella emquanto ella esteve a cantar. Suffocava de commovido. Aquelle senil coração, esquentado pelo champanhe, pela musica e pelas reminiscencias, palpitava cada vez com mais força, e como não havia palpitado ha tanto tempo! Estava a ponto de chorar quando ella acabou.
—Oh! minha linda menina! exclamava, a beijar-lhe os dedos, estou encantado!—E só agora é que me lembro... mas... mas... Oh! minha linda menina!...
O principe nem foi senhor de concluir.
Maria Alexandrovna sentiu haver chegado o momento psicologico.{93}
—Para que anda a dar cabo de si, principe?—encetou com solemnidade. Quantos sentimentos, quantas forças vitaes, quanta riqueza moral lhe não resta ainda? E com tudo isso, foi emparedar-se por toda a vida num carcere! Fugir do mundo! Das amizades! É imperdoavel! Pense bem, principe! Encare a vida, como se dissessemos, com uns olhos limpidos! Lembre-se do passado, da sua aurea juventude, dos seus dias sem cuidados. Resuscite esse passado, resuscite-se a si proprio! Volte a viver entre a sociedade dos vivos: vá até ao estrangeiro... á Italia, á Hespanha, principe, á Hespanha. Precisava de um guia, de um coração que lhe tivesse amor, que o estimasse e que lhe fosse simpathico.
Pois bem! O principe tem amigos, appelle para elles e virão em monte. Cá estou eu que seria a primeira a dar de mão a tudo, e a deitar a correr para acudir ao seu chamado! Não me esqueço da nossa antiga amizade, principe! Deixaria, até, meu marido, se estivesse mais nova, e fosse tão formosa como minha filha, fazia-me sua companheira, sua amiga, sua mulher, até, se o desejasse.
—Estou certo de que, nos seus tempos, deve de ter sido uma mulher encantadora, disse o principe a assoar-se.
Tinha os olhos arrazados de lagrimas.
—A nós proprios sobrevivemos nos nossos filhos, principe, responde effusiva Maria Alexandrovna. Tambem eu tenho o meu anjo da guarda, a amiga dos meus pensamentos, do meu coração, principe! Rejeitou até agora sete pedidos de casamento, por se não querer apartar de mim.