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Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I) cover

Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)

Chapter 20: NOTAS DE RODAPÉ:
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About This Book

A series of erudite letters lays out a comprehensive pedagogical reform adapted to Portuguese needs, arguing for a practical, accelerated curriculum. It critiques prevailing Latin and orthographic instruction, recommends a simplified Latin grammar that can be grasped quickly, advocates revision of existing vocabularies, and proposes a standardized Portuguese orthography and grammar for early instruction. Addressed to religious educators and university figures, the correspondence emphasizes usefulness to the republic and church, privacy of correspondence, and practical measures to improve youth education.

Tenho ainda outra reflexam que fazer: é esta, sobre o falar Latim nas escolas. Nisto á dois vicios: alguns falam sempre a sua lingua: de que vem, que saiem das-escolas, sem saber dizer, um comprimento Latino: e este é o defeito, que reina em Portugal. Outros, que pola maior parte sam Polacos, Ungaros, Alemaens, obrigam a falar sempre Latim: ainda antes de intenderem bem Latim. Tambem isto é um grande defeito: pois se os que sabemos bem Latim, nam podemos falar com dezembaraso; que fará um rapaz, que ainda o-nam-sabe! Esta é a razam, por-que vemos muitos destes Estrangeiros, (e eu vi tambem molheres) que falam Latim corrente. mas que Latim? um Latim tal, que é melhor nam intendèlo. Para falar Latim depresa, servem-se de frazes barbaras, e termos vulgares: e enchem a cabesa com aquilo, em modo tal, que em nenhum tempo podem deixar, o dito estilo. Nam sei que grasa tem cansar-se, para escrever Latim bem, e cansar-se tambem, para falar Latim mal: nem menos intendo, que necesidade aja, de falar semelhante Latim. Quem á-de fazer jornadas, por-paizes Estrangeiros, se sabe bem Latim, nunca tem dificuldade em se-explicar, se acazo tem algum uzo. que o-fale mais ou menos depresa, iso nada emporta. Nem menos aprovo, aquela afetasam de alguns Portuguezes, que, querendo falar Latim com algum Estrangeiro, estam meia ora a considerar, um periodo Ciceroniano: e desprezam as vozes vulgares. Este tambem é outro defeito consideravel. Se os que falam Portuguez afetado, nam se-podem suportar; que faram os que falam com afetasam, o Latim? O Latim das-conversasoens deve ser, o mais natural de todos. o ponto está ter palavras puras: a sintaxe delas deve ser natural, e clara. V.P. nam verá afetasoens em Terencio, ou Plauto, ou Fedro, porque falavam com estilo familiar. A lingua Latina tem isto de bom, que se-caza com a elevasam, e naturalidade. Onde, devemos saber aplicar o estilo, à materia; para conseguir o fim, de falar com muita naturalidade, e nam falar mal.

Isto supposto, parece-me que deve aver nas escolas, algum exercicio de Latim: mas requerem-se algumas cautelas. Primeiro, nam se-deve falar Latim, senam na ultima escola da-Latinidade, ou da-Retorica: quando ja os rapazes, intendem bem o Latim. Em segundo lugar, nam devem falar Latim sempre, mas em dias determinados. Primeiro, podem ensinar-lhe a dizer, alguns comprimentos de uma, e outra parte: despois, pode-se introduzir algum Dialogo, sobre a materia que se-estuda: em que de uma parte, um rapaz progunte alguma coiza: da-outra, responda outro, sempre em Latim. Mas primeiro deve o mestre explicar, como isto se-deve fazer: e ser ele o primeiro, a dar exemplo. E nam deve obrigar todos, a que falem no-mesmo dia: mas comesar polos melhores: despois por-turno os outros, em dias determinados: avizando-os primeiro, para que venham preparados. Desorteque cada estudante ousa falar muitas vezes, os outros: e asim vá aprendendo, para quando lhe-chegar a sua vez. Pode o mestre falar a miudo, algumas coizas Latinas, com algum dos-estudantes, que forem mais capazes, ainda fóra dos-dias asinados: tendo cuidado, de falar bem; e ensinar-lhe sempre, o como se-deve falar. Desta sorte pode ajudar muito, os estudantes: principalmente se souber excitar entre eles, a emulasam, louvando muito os que o-fazem bem, e remunerando-os. Este é o verdadeiro metodo, de ensinar a falar Latim. Comesando desta sorte, mais facilmente o falarám, nas escolas da-Filozofia: e deste modo aquistarám aquela facilidade, que é necesaria, a quem á-de seguir as letras.

Isto é o que me-ocorre dizer, sobre o estudo da-lingua Latina: poderia acrecentar muita coiza; mas estas bastam, para o que se-quer. Prouvera a Deus, que estas se-puzesem em execusam; entam me-diria V.P. se me-enganava eu no-meu conceito. Deixando para a vista outras razoens, com que podia persuadir, o que digo; insinuarei uma bem clara. Entre tantos que se-aplicam, ao estudo da-Lingua Latina, mostre-me V.P. quantos sam capazes de se-apontarem, como exemplo de boa Latinidade. Examine V.P. quantos autores tem cá, nos seus paîzes, que componham Latim, como milhares, que eu poso apontar, nos-Reinos estrangeiros; e ainda alguns em Espanha, que escrevéram asombrozamente. Se me-mostrar um ou dois, que nam ignoro que aja, asente que o-nam-trouxeram das-escolas; mas custou-lhe boas fadigas em caza: ou talvez porque saîram fóra do-Reino, e tratáram, com quem lhe-abrise os olhos, como o Bispo Ozorio &c. Quazi todos os outros falam Latim das-escolas. E tantas testemunhas, que todos os dias saiem das-escolas, provam bem, que esta ignorancia, é influencia do-mao metodo.

Disto podia eu citar muitos, e muitos exemplos, se mo-nam-impedise a modestia. * * * porque aindaque tenham doutrina, e talento, o mao metodo que bebéram na mocidade, impede o aproveitamento. Certo Religiozo douto, devendo dar conta de si, em um congreso erudito, queixando-se de lhe-nam-terem dado, certos papeis, concluia asim: Quæ ad nostram faciunt historiam monumenta omnia: sive scripta, sive transcripta, sive præscripta; sive congesta, sive digesta, sive indigesta; peto, expeto, repeto: posco exposco, reposco: quæro, exquiro, requiro: flagito, efflagito: oro, peroro. Todo o corpo do-discurso era semelhante. Nam sei se se-pode fazer, coiza pior: e apostarei eu, que os seus Religiozos doutos, seram os primeiros, a condenar este Latim. O pior é, que afetando tanto, saber a forsa dos-Verbos, enganou-se em alguns. Porque o flagito, e efflagito, nam só significam, pedir com istancia, mas pedir com injuria[26], e com pouca vergonha: o que suponho, ele nam quiz dizer. Tambem o peroro, nunca ouvi, nem achei em autor Latino, que significáse pedir. tambem Orare monumenta, é fraze que nunca achei nos-Latinos. Os primeiros trez nomes significam a mesma coiza, no-noso cazo: pois ele nam pedia cazas, nem estatuas; mas coizas escritas: e asim o sive, parece mal inserido. Damesma sorte o congesta, nam se-opoem, a digesta, e indigesta; pois a cadaum destes se-pode aplicar: sendoque é generica. As outras examinará V.P. com mais vagar, que eu nam tenho. E nam somente os que se aplicam, a diferentes materias, mas aqueles mesmos, que se-empregam na Latinidade, muitas vezes nam sam iguais. v. g. Antonio Rodriguez da-Costa, Conselheiro do-Vltramar, que escrevia Latim com muita facilidade, esquecido ás vezes de simesmo, escreve algumas cartas Latinas, fóra do-estilo familiar, que paresem orasoens academicas. Mas pior que este, o Marquez Manoel Teles da-Silva, e o Conde de Vilarmaior, os quais ambos tropesam terrivelmente nesta materia, de elevasam afetada. O primeiro, na carta com que aprova, os Epigramas do-P. Reis, que comesa Cum nullum &c. uza de um estilo, que ainda nam vi coiza mais impropria: O segundo, nas cartas que escreve, a Antonio Roïz da-Costa, é afetado por-um novo modo; e inclina muito para a declamasam, demora-se muito com os lugares comuns, e nam observa, o verdadeiro estilo epistolar &c. Confeso a V.P. que lendo, e examinando Cicero, nam achei nele nem orasoens, nem cartas afetadas. Somente na idade de prata é, que comeso a ver, a afetasam, porque ja degenerava a eloquencia. De que concluo, que os que lem bem polos Antigos, e sabem imitálos, escrevem com muita naturalidade, e no-mesmo tempo sublimidade. Quando porem nam se-lem os Antigos, ou, lendo-se, nam se-faz como se-deve; nam se-pode fazer coiza boa. o que, como asima dizia, nace do-mao metodo, de quem ensina.

Quando em um paîz, florecem com grande aplicasam as Artes, é coiza observavel, que saiem muitos excelentes. No-tempo de Cicero, nam só ele falava bem Latim; mas avia uma infinidade que o-falavam, com a mesma pureza, e grasa; e muitos Oradores, de grande merecimento. Se V.P. tira das-cartas de Cicero, os nomes de muitos, que lhas-escrevèram; entre elas, e as de Cicero, nam achará diferensa alguma. O bom gosto naquele tempo, era tam rafinado, que Cezar, e Atico, repreendèram alguma palavra de Cicero: e o modo de orar deste ultimo, nam agradava a Bruto, a Calvo, e Pollio, que eram omens doutisimos. Toda a magestade, e pureza da-lingua de Tito Livio, nam o-livrou, de ser censurado em Roma, por-aqueles delicados criticos. O grande Asinio Pollio achou neste escritor, certas palavras, e estilo do-paîz em que nacèra; que os omens cultos de Roma, nam lhe-queriam perdoar. tal era o delicado gosto daqueles Senadores, e Cortezoens! Os mesmos Romanos, tinham um demaziado escrupulo, neste ponto. Um Comico, que no-teatro errava uma silaba, e um acento, levava grandisimas surriadas[27]. tal era a fineza do-juizo daquela Republica!

Se damos um paso mais atraz, e entramos em Atenas, onde as Artes, e Ciencias tanto florecèram, que dali se-espalháram, polo resto da-Europa; acharemos, que nesta grande escola, até a gente plebeia, polo costume de ouvir orar, e falar bem em publico, aqueles grandes Oradores; tinha aquistado, um tam exquizito gosto da-lingua, que quando os Oradores subiam à tribuna, temiam ofender, com alguma menos boa expresam, orelhas tam delicadas. Avia muitos anos, que o Filozofo Teofrastro abitava em Atenas, e tinha feito um particularisimo estudo, de falar a sua lingua, segundo o dialeto de Atenas: comtudo iso diz a Istoria, que da-pronuncia de uma palavra, conheceo que era estrangeiro uma molher, que vendia legumes em Atenas[28]. Achamos na istoria Grega, mil outros exemplos, que confirmam, quam geral era, o bom gosto da-eloquencia, entre os Gregos. Nas asembleias publicas da-Grecia, em que se-recitavam Poemas, e Istorias ao Povo; sabemos, que muitas vezes regeitáram algumas, por-nam chegarem, à fineza de outras. Dionizio o velho, Rei de Saragosa nam era mao Poeta: vistoque com uma das-suas compozisoens, alcansou o premio, nos-jogos da-Grecia, digo, nos-jogos Olimpicos: mas porque mandára primeiro duas, que nam chegavam ao merecimento, da-terceira, foi escarnecido por toda a asembleia. Deixo outros Antigos.

E, se decemos a estes ultimos seculos, e ao prezente, poso mostrar a V. P. com toda a evidencia, que em Londres, Amsterdam, Leiden, Pariz, Roma, Napoles, Padoa, Bolonha, Piza, e outras muitas partes, onde se-cultivam os bons estudos; os que neles sam instruidos, por-pouco que saibam, aquistam um particular gosto, em todo o genero: e que neses mesmos empregos de Ciencias, e Artes, á infinitos omens excelentes. Do-que manifestamente se-prova, que onde se-ensina bem, sempre á omens grandes: e que onde os-nam-á, é uma prova manifesta, do-mao metodo, de quem ensina.

Tenho dito a V. P., quanto a brevidade de uma carta permite, o que me-parece deve fazer, quem quer saber Latim. Poderia acrecentar outras coizas; mas esas sam somente necesarias, aos que querem ser insignes, nas letras umanas. Para V. P. que é tam versado nelas, o que digo, parece ainda superfluo: e para os-outros, muito mais: vistoque nam acho muitos, que queiram esta gloria, e queiram conseguila, com estes meios. Comque páro aqui: E dezejando a V. P. felicisimas festas, e boas intradas de anos; com todo o corasam me-asino &c.

NOTAS DE RODAPÉ:

[21] Adversar. l. 7. c. 19.

[22] As palavras de Furio Albino citado por-Macrobio, sam estas. Nemo debet antiquiores Poetas ea ratione viliores putare, quod eorum versus nobis scabri videntur. Ille enim stilus maxime, tunc placebat: diuque laboravit ætas secuta, ut magis huic molliori stilo acquiesceret. Itaque minime defuerunt, imperantibus etiam Vespasianis, qui Lucretium pro Virgilio, & Lucilium pro Horatio legerent. Petrus Crinitus, de Poetis Latinis.

[23] L.3. v. 248.

[24] Aeneid. I. v. 67.

[25] Itaque video visum esse nonnullis, Platonis, & Democriti locutionem, etsi absit a versu, tamen, quod incitatius feratur, & clarissimis verborum luminibus utatur, potius poema putandum, quam comicorum poetarum: apud quos, nisi quod versiculi sunt, nihil est aliud quotidiani dissimile sermonis. Cicer. de Orat. ad M.B. num.20.

[26] Expectatione promissi tui moveor, ut admoneam te, non ut flagitem: misi autem ad te quatuor admonitores, non nimis verecundos: qui metuo, ne te forte flagitent: ego autem mandavi, ut rogarent. Cicero Epist. famil. l.9. ep. 8.

Quintil.—Efflagitasti quotidiano convitio, ut libros jam emittere inciperem &c.

[27] At in his (numeris) si paullum modo offensum est, ut aut contractione brevius fieret, aut productione longius; theatra tota reclamant. Cicero l.3. de Oratore n.50.

[28] Cicero,de Claris Orator.n.46.