Tenho ainda outra reflexam que fazer: é esta, sobre o falar Latim nas escolas. Nisto á dois vicios: alguns falam sempre a sua lingua: de que vem, que saiem das-escolas, sem saber dizer, um comprimento Latino: e este é o defeito, que reina em Portugal. Outros, que pola maior parte sam Polacos, Ungaros, Alemaens, obrigam a falar sempre Latim: ainda antes de intenderem bem Latim. Tambem isto é um grande defeito: pois se os que sabemos bem Latim, nam podemos falar com dezembaraso; que fará um rapaz, que ainda o-nam-sabe! Esta é a razam, por-que vemos muitos destes Estrangeiros, (e eu vi tambem molheres) que falam Latim corrente. mas que Latim? um Latim tal, que é melhor nam intendèlo. Para falar Latim depresa, servem-se de frazes barbaras, e termos vulgares: e enchem a cabesa com aquilo, em modo tal, que em nenhum tempo podem deixar, o dito estilo. Nam sei que grasa tem cansar-se, para escrever Latim bem, e cansar-se tambem, para falar Latim mal: nem menos intendo, que necesidade aja, de falar semelhante Latim. Quem á-de fazer jornadas, por-paizes Estrangeiros, se sabe bem Latim, nunca tem dificuldade em se-explicar, se acazo tem algum uzo. que o-fale mais ou menos depresa, iso nada emporta. Nem menos aprovo, aquela afetasam de alguns Portuguezes, que, querendo falar Latim com algum Estrangeiro, estam meia ora a considerar, um periodo Ciceroniano: e desprezam as vozes vulgares. Este tambem é outro defeito consideravel. Se os que falam Portuguez afetado, nam se-podem suportar; que faram os que falam com afetasam, o Latim? O Latim das-conversasoens deve ser, o mais natural de todos. o ponto está ter palavras puras: a sintaxe delas deve ser natural, e clara. V.P. nam verá afetasoens em Terencio, ou Plauto, ou Fedro, porque falavam com estilo familiar. A lingua Latina tem isto de bom, que se-caza com a elevasam, e naturalidade. Onde, devemos saber aplicar o estilo, à materia; para conseguir o fim, de falar com muita naturalidade, e nam falar mal.

Isto supposto, parece-me que deve aver nas escolas, algum exercicio de Latim: mas requerem-se algumas cautelas. Primeiro, nam se-deve falar Latim, senam na ultima escola da-Latinidade, ou da-Retorica: quando ja os rapazes, intendem bem o Latim. Em segundo lugar, nam devem falar Latim sempre, mas em dias determinados. Primeiro, podem ensinar-lhe a dizer, alguns comprimentos de uma, e outra parte: despois, pode-se introduzir algum Dialogo, sobre a materia que se-estuda: em que de uma parte, um rapaz progunte alguma coiza: da-outra, responda outro, sempre em Latim. Mas primeiro deve o mestre explicar, como isto se-deve fazer: e ser ele o primeiro, a dar exemplo. E nam deve obrigar todos, a que falem no-mesmo dia: mas comesar polos melhores: despois por-turno os outros, em dias determinados: avizando-os primeiro, para que venham preparados. Desorteque cada estudante ousa falar muitas vezes, os outros: e asim vá aprendendo, para quando lhe-chegar a sua vez. Pode o mestre falar a miudo, algumas coizas Latinas, com algum dos-estudantes, que forem mais capazes, ainda fóra dos-dias asinados: tendo cuidado, de falar bem; e ensinar-lhe sempre, o como se-deve falar. Desta sorte pode ajudar muito, os estudantes: principalmente se souber excitar entre eles, a emulasam, louvando muito os que o-fazem bem, e remunerando-os. Este é o verdadeiro metodo, de ensinar a falar Latim. Comesando desta sorte, mais facilmente o falarám, nas escolas da-Filozofia: e deste modo aquistarám aquela facilidade, que é necesaria, a quem á-de seguir as letras.

Isto é o que me-ocorre dizer, sobre o estudo da-lingua Latina: poderia acrecentar muita coiza; mas estas bastam, para o que se-quer. Prouvera a Deus, que estas se-puzesem em execusam; entam me-diria V.P. se me-enganava eu no-meu conceito. Deixando para a vista outras razoens, com que podia persuadir, o que digo; insinuarei uma bem clara. Entre tantos que se-aplicam, ao estudo da-Lingua Latina, mostre-me V.P. quantos sam capazes de se-apontarem, como exemplo de boa Latinidade. Examine V.P. quantos autores tem cá, nos seus paîzes, que componham Latim, como milhares, que eu poso apontar, nos-Reinos estrangeiros; e ainda alguns em Espanha, que escrevéram asombrozamente. Se me-mostrar um ou dois, que nam ignoro que aja, asente que o-nam-trouxeram das-escolas; mas custou-lhe boas fadigas em caza: ou talvez porque saîram fóra do-Reino, e tratáram, com quem lhe-abrise os olhos, como o Bispo Ozorio &c. Quazi todos os outros falam Latim das-escolas. E tantas testemunhas, que todos os dias saiem das-escolas, provam bem, que esta ignorancia, é influencia do-mao metodo.

Disto podia eu citar muitos, e muitos exemplos, se mo-nam-impedise a modestia. * * * porque aindaque tenham doutrina, e talento, o mao metodo que bebéram na mocidade, impede o aproveitamento. Certo Religiozo douto, devendo dar conta de si, em um congreso erudito, queixando-se de lhe-nam-terem dado, certos papeis, concluia asim: Quæ ad nostram faciunt historiam monumenta omnia: sive scripta, sive transcripta, sive præscripta; sive congesta, sive digesta, sive indigesta; peto, expeto, repeto: posco exposco, reposco: quæro, exquiro, requiro: flagito, efflagito: oro, peroro. Todo o corpo do-discurso era semelhante. Nam sei se se-pode fazer, coiza pior: e apostarei eu, que os seus Religiozos doutos, seram os primeiros, a condenar este Latim. O pior é, que afetando tanto, saber a forsa dos-Verbos, enganou-se em alguns. Porque o flagito, e efflagito, nam só significam, pedir com istancia, mas pedir com injuria[26], e com pouca vergonha: o que suponho, ele nam quiz dizer. Tambem o peroro, nunca ouvi, nem achei em autor Latino, que significáse pedir. tambem Orare monumenta, é fraze que nunca achei nos-Latinos. Os primeiros trez nomes significam a mesma coiza, no-noso cazo: pois ele nam pedia cazas, nem estatuas; mas coizas escritas: e asim o sive, parece mal inserido. Damesma sorte o congesta, nam se-opoem, a digesta, e indigesta; pois a cadaum destes se-pode aplicar: sendoque é generica. As outras examinará V.P. com mais vagar, que eu nam tenho. E nam somente os que se aplicam, a diferentes materias, mas aqueles mesmos, que se-empregam na Latinidade, muitas vezes nam sam iguais. v. g. Antonio Rodriguez da-Costa, Conselheiro do-Vltramar, que escrevia Latim com muita facilidade, esquecido ás vezes de simesmo, escreve algumas cartas Latinas, fóra do-estilo familiar, que paresem orasoens academicas. Mas pior que este, o Marquez Manoel Teles da-Silva, e o Conde de Vilarmaior, os quais ambos tropesam terrivelmente nesta materia, de elevasam afetada. O primeiro, na carta com que aprova, os Epigramas do-P. Reis, que comesa Cum nullum &c. uza de um estilo, que ainda nam vi coiza mais impropria: O segundo, nas cartas que escreve, a Antonio Roïz da-Costa, é afetado por-um novo modo; e inclina muito para a declamasam, demora-se muito com os lugares comuns, e nam observa, o verdadeiro estilo epistolar &c. Confeso a V.P. que lendo, e examinando Cicero, nam achei nele nem orasoens, nem cartas afetadas. Somente na idade de prata é, que comeso a ver, a afetasam, porque ja degenerava a eloquencia. De que concluo, que os que lem bem polos Antigos, e sabem imitálos, escrevem com muita naturalidade, e no-mesmo tempo sublimidade. Quando porem nam se-lem os Antigos, ou, lendo-se, nam se-faz como se-deve; nam se-pode fazer coiza boa. o que, como asima dizia, nace do-mao metodo, de quem ensina.

Quando em um paîz, florecem com grande aplicasam as Artes, é coiza observavel, que saiem muitos excelentes. No-tempo de Cicero, nam só ele falava bem Latim; mas avia uma infinidade que o-falavam, com a mesma pureza, e grasa; e muitos Oradores, de grande merecimento. Se V.P. tira das-cartas de Cicero, os nomes de muitos, que lhas-escrevèram; entre elas, e as de Cicero, nam achará diferensa alguma. O bom gosto naquele tempo, era tam rafinado, que Cezar, e Atico, repreendèram alguma palavra de Cicero: e o modo de orar deste ultimo, nam agradava a Bruto, a Calvo, e Pollio, que eram omens doutisimos. Toda a magestade, e pureza da-lingua de Tito Livio, nam o-livrou, de ser censurado em Roma, por-aqueles delicados criticos. O grande Asinio Pollio achou neste escritor, certas palavras, e estilo do-paîz em que nacèra; que os omens cultos de Roma, nam lhe-queriam perdoar. tal era o delicado gosto daqueles Senadores, e Cortezoens! Os mesmos Romanos, tinham um demaziado escrupulo, neste ponto. Um Comico, que no-teatro errava uma silaba, e um acento, levava grandisimas surriadas[27]. tal era a fineza do-juizo daquela Republica!

Se damos um paso mais atraz, e entramos em Atenas, onde as Artes, e Ciencias tanto florecèram, que dali se-espalháram, polo resto da-Europa; acharemos, que nesta grande escola, até a gente plebeia, polo costume de ouvir orar, e falar bem em publico, aqueles grandes Oradores; tinha aquistado, um tam exquizito gosto da-lingua, que quando os Oradores subiam à tribuna, temiam ofender, com alguma menos boa expresam, orelhas tam delicadas. Avia muitos anos, que o Filozofo Teofrastro abitava em Atenas, e tinha feito um particularisimo estudo, de falar a sua lingua, segundo o dialeto de Atenas: comtudo iso diz a Istoria, que da-pronuncia de uma palavra, conheceo que era estrangeiro uma molher, que vendia legumes em Atenas[28]. Achamos na istoria Grega, mil outros exemplos, que confirmam, quam geral era, o bom gosto da-eloquencia, entre os Gregos. Nas asembleias publicas da-Grecia, em que se-recitavam Poemas, e Istorias ao Povo; sabemos, que muitas vezes regeitáram algumas, por-nam chegarem, à fineza de outras. Dionizio o velho, Rei de Saragosa nam era mao Poeta: vistoque com uma das-suas compozisoens, alcansou o premio, nos-jogos da-Grecia, digo, nos-jogos Olimpicos: mas porque mandára primeiro duas, que nam chegavam ao merecimento, da-terceira, foi escarnecido por toda a asembleia. Deixo outros Antigos.

E, se decemos a estes ultimos seculos, e ao prezente, poso mostrar a V. P. com toda a evidencia, que em Londres, Amsterdam, Leiden, Pariz, Roma, Napoles, Padoa, Bolonha, Piza, e outras muitas partes, onde se-cultivam os bons estudos; os que neles sam instruidos, por-pouco que saibam, aquistam um particular gosto, em todo o genero: e que neses mesmos empregos de Ciencias, e Artes, á infinitos omens excelentes. Do-que manifestamente se-prova, que onde se-ensina bem, sempre á omens grandes: e que onde os-nam-á, é uma prova manifesta, do-mao metodo, de quem ensina.

Tenho dito a V. P., quanto a brevidade de uma carta permite, o que me-parece deve fazer, quem quer saber Latim. Poderia acrecentar outras coizas; mas esas sam somente necesarias, aos que querem ser insignes, nas letras umanas. Para V. P. que é tam versado nelas, o que digo, parece ainda superfluo: e para os-outros, muito mais: vistoque nam acho muitos, que queiram esta gloria, e queiram conseguila, com estes meios. Comque páro aqui: E dezejando a V. P. felicisimas festas, e boas intradas de anos; com todo o corasam me-asino &c.

NOTAS DE RODAPÉ:

[21] Adversar. l. 7. c. 19.

[22] As palavras de Furio Albino citado por-Macrobio, sam estas. Nemo debet antiquiores Poetas ea ratione viliores putare, quod eorum versus nobis scabri videntur. Ille enim stilus maxime, tunc placebat: diuque laboravit ætas secuta, ut magis huic molliori stilo acquiesceret. Itaque minime defuerunt, imperantibus etiam Vespasianis, qui Lucretium pro Virgilio, & Lucilium pro Horatio legerent. Petrus Crinitus, de Poetis Latinis.

[23] L.3. v. 248.

[24] Aeneid. I. v. 67.

[25] Itaque video visum esse nonnullis, Platonis, & Democriti locutionem, etsi absit a versu, tamen, quod incitatius feratur, & clarissimis verborum luminibus utatur, potius poema putandum, quam comicorum poetarum: apud quos, nisi quod versiculi sunt, nihil est aliud quotidiani dissimile sermonis. Cicer. de Orat. ad M.B. num.20.

[26] Expectatione promissi tui moveor, ut admoneam te, non ut flagitem: misi autem ad te quatuor admonitores, non nimis verecundos: qui metuo, ne te forte flagitent: ego autem mandavi, ut rogarent. Cicero Epist. famil. l.9. ep. 8.

Quintil.—Efflagitasti quotidiano convitio, ut libros jam emittere inciperem &c.

[27] At in his (numeris) si paullum modo offensum est, ut aut contractione brevius fieret, aut productione longius; theatra tota reclamant. Cicero l.3. de Oratore n.50.

[28] Cicero,de Claris Orator.n.46.