...N'esse mesmo instante...—e mais longe do que nunca—...a estrella
feiticeira acabava de cerrar tambem a palpebra luminosa!...
MÃE!
Ao dr. J.C. da Moita Prego
Bella cabra, a
Russa!—posso dizel-o aos senhores. A melhor da manada,
luzida, de pello macio, sem saliencias de ossos como as outras, altiva
de porte quando á frente do rebanho parecia commandal-o,
badalando cadencialmente o seu chocalho enorme—tlão!
tlão!
Era no rebanho a que mais dava que fazer ao pastor, requerendo
vigilancias particulares no seu atrevimento, pois que se a deixassem
livre não havia
arvore a que não trepasse, oliveira especialmente, nem
rebento novo que
não triturasse esfomeada no seu dente acerado de roedora.
E depois, alli onde a viam, estava cara só pelas coimas, que
muitas vezes illudira ella a attenção do pastor,
e se
ficara por hortas e quintalorios, causando estragos que os louvados
depois avaliavam caro. Por isso Alipio José, pastor, a quem
doiam as denuncias, ao
pescoço da Russa prendera o chocalhão, para dar
do atrevido
animal mais
facil rumor, pois era de timbre muito distincto dos demais, e muito
mais grave.
Em pastagens pelos montados, a Russa era de uma audacia extrema. Fazia
gosto vel-a trepar ás ultimas cumiadas, subir destemidamente
ás arestas superiores dos rochedos, muito serena, erecta nas
suas pernas delgadas,
pescoço alto, ajoelhando destemida a retouçar as
hervas dos declives alcantilados e escorregadios, não
medindo perigos nem se
importando com abysmos, emquanto as companheiras se ficavam pelas
encostas e corregos,
saboreando as giestas, sem se atreverem a seguil-a nas suas
excursões arriscadas de
touriste.
Se a miravam de baixo, sentia-se orgulhosa de superiores audacias, e
então cabriolava em saltos funambulescos, de rochedo em
rochedo ou de garganta em garganta, pouco se lhe dando de perigos.
Cobra que encontrasse por essas paragens era para ella um
desespero—tamanha a furia com que a perseguia, e a insistencia com que
se ficava
ás marradas na lura onde se lhe acoitava. O chocalho
então badalava com
força, e o Alipio que dormia á sombra das
azinheiras, de chapeu sobre a
cara, levantava-se sobre um cotovello e intimava para o alto, com o seu
vozeirão que fazia echo:
—Toma tento, Russa!
E depois, de ventre para baixo, estirado sobre a manta, cotovellos
fincados no chão, os queixos entre as mãos
espalmadas, Alipio José ficava-se a olhar a cabra, invejoso
d'aquella facilidade em subir aos ultimos pinaculos, admirado dos
saltos que ella fazia para salvar gargantas pedregosas e
perpendiculares, onde, se caisse, a morte seria infallivel. E por
lá andava dias inteiros a Russa,
n'aquella
vagabundagem por sitios inaccessiveis ao resto do rebanho,
resguardando-se da chuva em reconcavos de rocha, onde as aguias faziam
ninho.
Foi n'um d'esses sitios que a Russa teve o primeiro filho, e por
lá se deixou ficar, acho que dormindo ou toda a noite
velando. Ao outro dia quiz ella descer, e vir para o rebanho que a
aguardava. Mais de cem vezes, fitando o topo da ladeira, Alipio
José gritara
cá debaixo, cada vez mais desesperado:
—Volta ao rebanho, Russa!
E, cuidando que mais lhe feria assim a attenção,
punha-se a agitar com furia o mólho dos chocalhos, gritando
sem cessar:
—Russa! torna ao rebanho, Russa!
Mas impossivel! que a não deixava a quebreira em que toda
ella ficara do parto, nem o pequeno poderia—pobresinho!—descer por
taes ladeiras, de
pedregosas e asperas que eram.
Mas de noite o frio era intenso n'aquellas alturas, e o pequeno
congelava unindo-se á mãe que o bafejava para o
aquecer, e a si o aconchegava mais e mais para lhe transmittir o
natural calor do seu corpo enfraquecido e doente.
Por altas horas da noite, na solidão lugubre d'aquelle
sitio, alcantilado e ingreme, entre penedias escarpadas
onde o vento
sibilava lugubremente, n'um como choro dolente e prolongado, o balido
da
mãe, traduzindo angustias e desesperos intimos, respondia ao
vagido fraco do
filhito, cuja vida parecia ir-se apagando de hora a hora e instante a
instante, inteiriçando-se-lhe com o frio os membros
delicados e tenros.
Eram assim as noitadas dos desgraçados. Por taes frios e
doenças, impossivel dormir. Toda a noite velavam e gemiam,
achegando-se mais e mais n'um como abraço de eterna
despedida—amigos que se iam
apartar para uma longa viagem de trevas, com o
coração
alanceado pela saudade, soluçando e gemendo, n'um adeus! que
era infinito, como o
infinito amor que os unia...
E a cada momento, como um dobre de finados, o chocalho badalava
lugubremente, assustando o animalsinho, como se aquelle fôra
o signal para o transe derradeiro...
Para maior desgraça, as noites eram sem lua. Encravadas na
abobada, as estrellas bocejavam dormentes, n'uma criminosa
indifferença
por aquella dôr suprema de que eram as unicas testemunhas.
E balando muito, e balando sempre, a pobre cabra imprecava ao
céo a vida do filho, ao menos,—ora supplice em balidos de
resignação que uma profundissima dôr
ungia, ora desvairada e louca, em gritos
que significavam blasphemias, blasphemias de desespero contra o
céo que a não ouvia, e contra a morte que bem
sentia aproximar-se para
lhe estrangular o filhinho que ella amava tanto.
E a fazer-lhe mais incruenta a sua enorme dôr—a ironia
acerba da chocalhada longinqua das companheiras,
que se iam pelos
montes da outra
banda, deixando-a a ella sósinha com o filho, á
espera da morte que era inevitavel.
Então ergueu-se por instantes! Agitou convulsamente o
pescoço, e pelo ar fóra o som triste do chocalho
espraiou-se lentamente, n'um
adeus! adeus! de despedida ás companheiras felizes que
lá iam,
n'um ruido longinquo de chocalhos...
N'aquella solidão os dias eram melhores. Com os primeiros
raios do sol entravam de reanimar-se os dois; pouco a pouco os membros
desentorpeciam e o sangue circulava.
E o cabritinho sem poder ainda descer!...
De pé, ao lado do filho, a pobre cabra lançava
olhos compungidos para as escarpas da ladeira, ia para um lado e outro,
desvairada e tremula,
como que a escolher o melhor caminho por onde levasse o filho. Mas eram
todas horriveis! Silvedos e rocha viva era o que mais se via. E depois
o rio,
lá baixo, rugia nas cachoeiras, augmentando-lhe o receio.
Impossivel! impossivel!
E sentia-se enfraquecer á mingua de sustento, pois a herva,
por alli, estava comida e recomida pela pastagem miseravel de tres
dias.
N'um momento de desespero, quando os gemidos do filho eram mais
dolentes e crebros, refez-se de coragem a cabra, e segurando entre os
dentes o chibo tentou o primeiro passo, arrastando-o pela ladeira, do
lado em
que o declive era menor. Mas em breve desanimou a pobre, que o filhito,
assim arrastado, mais e mais gemia, convulsionado e tremulo...
Impossivel! impossivel!
Nada que signifique a dôr d'aquella mãe, e
traduzir possa em linguagem toda a gamma de sentimentos e
emoções no seu
balar expressos. Atirou-se de joelhos sobre o corpinho do filho que
hirto chorava e tremia, estendido para alli, na
prostração pesada do
ultimo desalento; animava-o com caricias, aproximava-lhe da bocca os
uberes já flaccidos
e amolentados, convidando-o a mamar, como se aquelle leite podesse
levar ao filho a coragem que a ella propria faltava em tamanho transe
afflictivo...
Mas pouco a pouco a noite ia caindo. Tinha-se já apagado a
ultima cambiante do poente, e sobre as gargantas dos montes passavam
subtilmente as primeiras nevoas, alvadias e tenues. Á medida
que a treva se condensava, decresciam os ruidos em todo o horizonte,
accentuando-se
cada vez mais a melopéa somnolenta do rio nos
açudes. Perpassavam pelo ar as aves para os ninhos. Bandos
de pombas, como flocos volateis de arminho, cortavam em vôos
mansos a profundidade calma do
céo, demandando os pombaes e os povoados, onde se acolhessem
da noite que vinha caindo.
Revoadas de perdizes e de tordos passavam por alli alegremente, n'um
chilrear sonoro, caindo de chofre sobre o monte, a esconderem-se nos
estevaes e nas urzes. Pelas hervagens seccas
rastejavam apressados os
reptis, e sob os tojaes bravios a lebre buscava a cama...
...E tudo tinha ninho—pombas que voavam e perdizada sonora, quem
passava no ar e quem rastejava no monte, lagartos, sardões,
cobras, toda a colonia vagabunda de reptis e de aves, que passou
alegremente o seu dia, e se ia recolher agora para recomeçar
dia
ámanhã...
Só a desgraçada cabra, alli, junto do filho
tenro, não mais fizera passo. Com as brumas da noite, as
brumas da tristeza para o seu
coração alanceado de mãe. Ahi vinha o
frio inclemente flagelar-lhe o
filho...—o filho que já tremia a ella aconchegado—o triste
pobresinho!
Rompia de toda a banda o gri-gri sonoro dos grilos, vivo e cantante
n'aquelle silencio que se definia. Cerrou de todo a noite. O
céo era baixo e torvo de nuvens. Estrellejava a
espaços a abobada,
irradiando uma luz mortiça e alvadia, que levava a pensar em
ultimos
transes de creanças, em que a vida gradualmente se
extinguisse, n'um
latejar vagaroso de palpebras somnolentas...
Mais algida fazia a noite, e mais pesada de melancolias, essa torva
apparencia da atmosphera e do céo. Noite peor do que as
outras, porém com menos balidos, pois que mãe e
filho estavam extenuados
de forças e nem gemer podiam. E a morte que não
vinha arrancal-os do
abraço em que se uniram, mal cerrara a noite!
A pequena distancia, o monte era cortado de profundissima garganta em
rocha viva. Do lado opposto, e quasi defronte dos moribundos,
accenderam-se na treva dois pontos phosphorescentes, de uma claridade
esverdeada rutila. E, immoveis, esses dois olhos estoirados de
lobo, a
que parecia terem arrancado as palpebras, projectavam a sua luz
sinistra na direcção do grupo que velava. A
natureza
inteira retrahia-se n'um como pavôr medonho, concentrado de
intimos terrores e
silencios lobregos d'horas altas. Cerrava-se mais no céo a
phalange muda das
nuvens, densificando-se em tintas negras, impenetraveis e caliginosas,
sem scintillas de estrellas, por fugidias e tenues que fossem...
E sempre, e constantemente immoveis na escuridão pesada,
aquelles dois olhos flammejavam, de instante a instante mais vivazes,
perscrutando a treva da direcção mais exacta do
grupo. Transida
de susto, arquejando convulsamente no ultimo paroxismo da sua enorme
dôr, a pobre
mãe não ousava arriscar um unico movimento e mais
e mais cerrava contra si o corpo inanimado do filhito que parecia
adormecido.
Assim durante horas que aquelle atrocissimo supplicio fez enormes,
quasi eternas, tumultuosas de acerbos soffrimentos e de indiziveis
angustias,
vasias de esperança na vida do seu pequenino filho.
De repente, aquelles dois pontos brilhantes apagaram-se na treva, e de
novo os viu brilhar a cabra, mas já a maior distancia.
Estremeceu a pobre de subita alegria,—e no abalo que soffreu o seu
corpo,
até então retrahido, o chocalho badalou. Voltou a
correr o lobo, e
então a desgraçada viu errarem na treva, como
dois grandes
coleoptéros de azas phosphorescentes, os olhos
até então immoveis do
inimigo. E por alli levou a noite toda, farejando e uivando,
até que
cançado de perscrutar o insondavel, se foi ladeira abaixo,
aos primeiros assomos da madrugada que vinha, docemente, alumiando
pincaros e arestas.
Ao romper d'alva o céo era azul. Apenas de longe em longe
pennachos de nuvens brancas ondulavam as suas cristas alvadias, que se
esfarpavam lentamente ao menor sopro da aragem. Pouco a pouco o azul ia
desmaiando, diluindo-se na luz esbranquiçada que vinha do
alto em
gradações imperceptiveis e suaves.
Começavam de animar-se os longes da paizagem, e a retina
accusava já as differenças mais salientes dos
campos e herdades,
pedaços esbranquiçados de restolhos, tons pardos
de olivaes, terras plantadas de vinhedo, e pinheiraes cerrados galgando
desfiladeiros e investindo com o
céo no alto dos montados.
Pelas ladeiras d'além, caminhos e atalhos corriam em
torcicolos até ao areal da margem. Em turbilhões
de espuma alvissima
precipitava-se a agua nos açudes, marulhando nos altos
penedos marginaes,
denegridos e informes, de uma mudez contemplativa e perpetua. Do tecto
do moinho,
lá em baixo, uma columna azulada de fumo elevava-se
tranquillamente no ar sereno e doce, até se desfazer no
espaço amplo e
benigno, como uma ambição ou como um sonho...
Foi então que Alipio José, á frente do
rebanho, de novo abordou áquellas paragens, no intuito de
procurar a cabra tresmalhada.
—Russa! torna ao rebanho, Russa!
Mas precisamente a essa hora, a Russa exhalava o ultimo alento, pendida
sobre o cadaver do pobre filhinho morto!...
E ao pino do meio dia, quando o sol faiscava causticando nos
rochedos—passava na direcção da montanha,
crocitando lugubremente, a esfaimada legião dos
amaldiçoados corvos...
ARRULHOS
A.M. da Silva Gayo.
Ao fundo do jardim
ficava o pombal—uma casinhola redonda, com
orificios triangulares no alto, em toda a volta, alegre na alvura
impeccavel do muro que fallava ao longe, muito ao longe, a leguas de
distancia.
—Pombal da Morgada! diziam.—Lá se vê
além...—E um gesto muito longo levava a vista horizontes
fóra, á cata do Pombal
da Morgada, que alvejava longe, muito distante, na meia sombra dos
montes sobranceiros,
como um pequenino ermiterio cheio de lendas, onde santos de carne e
osso provocassem romarias, promessas avultadas de pessoas ricas, e onde
seriam encantadoras as tardes quentes de estio, á sombra de
arvores seculares em cuja ramagem trinassem passaros em barda,
pardalada
sonora, gralhadora, rindo da nossa merenda e da nossa
semceremonia—frangãos assados e boa vinhaça da
terra.
Pombal da Morgada porque? Historia singular que vou contar-lhes. A
Morgada era uma senhora rica, muito rica, tinha vinte e cinco annos e
outras tantas quintas, viuva antes de casar, pesarosa da morte
desastrada do noivo—um trambulhão de um cavallo que o
matara logo alli, sem mais pio, n'um ai.
A recordar esse amor—um casal de pequeninos pombos que elle lhe dera
na vespera, symbolisando, dizia elle, a pureza da sua alma d'ella, e a
castidade das suas intenções d'elle...
Muito bem. Fez-se então o pombal, o casal procreou, vieram
pombos novos—todos brancos uns, rajados outros, de um
gris
delicadissimo alguns, todos encantadores, velludineos, muito mansos.
Bellos pombos, na verdade!
Todas as tardes, quando as tintas do crepusculo começavam de
esbater-se n'uma uniformidade vagarosa de tons, e a
percepção clara das coisas entrava de se desfazer
em imperceptiveis
nuances subtis, n'um
smorzando
melancholico onde
palpitavam vagos terrores de noite que
vem caindo, quando os valles se cobriam de uma sombra azulada e a vida
cessava no campo e começava no céo em
scintillações argenteas de estrellas—todas as
tardes, digo, quem quer poderia ver aberta a estreita porta do pombal,
e uma mulher nova, vestida de preto, espalhando no pavimento terreo,
com solicitudes de
menagère, as provisões de um
pequeno cabaz que
lhe pendia do
braço—milho em abundancia e fartura de alpista.
Assim todas as tardes, ia já em quatro annos, que
não havia forças que levassem a Morgada para
fóra do seu
pequeno solar, onde
vivia só, retirada de tudo, a tudo indifferente, impassivel
a pedidos de amigas que saiam para as praias, no inverno para Lisboa, e
que a queriam levar
para que se distrahisse, para que se alegrasse—«era nova
ainda, podia arranjar noivo, nada mais facil...»
—E as pombas? objectava.—Mas era peccado deixal-as, dizia comsigo.
Quando voltasse estaria deserto o pombal, umas que fugissem, outras que
matassem, haviam-de até roubal-as, entrar de noite no
pombal, leval-as todas.
—Que não e que não! insistia renitente;—que
tivessem paciencia, que se divertissem muito, ella ficava.
—Platonismos! gargalhavam depois as amigas.—Saudades do outro que
rebentou do trambolhão. Bem tola!
E partiam sós, rindo da Morgada e do seu amor pelas pombas,
achando-a ridicula com aquelle seu luto perpetuo, escarnecendo da
simplicidade habitual da sua
toilette—vestido
preto todo liso, muito
afogado, um pequeno
ruche no pescoço e
mangas, nem uma
préga, nem sequer um laço.
Muito respeitadas, as pombas da Morgada. Caçador que as
visse não desfechava sobre ellas. Assim, a manada crescia de
hoje para
ámanhã, desenvolvia a
propagação o bom tracto, a
habitação confortavel, muito abrigada de ventos,
onde a chuva não entrava e os ninhos
eram flaccidos—folhas de milho mudadas cada dois dias.
Que bom, ser pombo da Morgada!
A musica dos arrulhos, uma volata muito languida, começava
com o aclarar, muito cedo, depois do descanço
do somno na
placidez
do ninho, quando as forças eram sãs e as azas
pediam
vôos.
Hora dos amores!
Pombos atrevidos, sanguineos, de iris rutilante e indole impaciente,
lançavam-se sobre as pombas, forçavam-nas,
perseguiam-nas se voejavam, ameaçando-as de bicadas
primeiro, picando-as nas cabecitas
se resistiam, possuindo-as á força, a tremer,
azas em concha,
pennugem erriçada, arrulhando muito, arrulhando sempre,
cahindo desfallecidos depois, hirtos, palpebras cerradas, trementes,
frementes, em spasmos de luxuria
e paroxismos do goso; emquanto ellas, as pombas, se emplumavam agora de
contentes, sacudindo as azas, pescoço levantado, orgulhosas
talvez, muito felizes.
Outros então, mais meigos ou mais pachorrentos, mais velhos
por certo, quedavam-se horas seguidas, horas longas, defronte da sua
eleita, n'uma
doçura plangente de musicaes arrulhos, frementes de desejos,
mas pedindo ás boas, não querendo violencias,
detestando-as,
bem se via, supplicando, rogando, commovendo. E se logravam intentos,
redobravam os
carinhos, havia meiguices de geitos e friccionamentos leves de
pennugens, arrulhos mais doces e toques delicadissimos de bicos—beijos
com certeza.
Isto todos os dias, nas manhãs ennevoadas especialmente.
Imagine-se a vida do pombal áquellas horas:—pombas que
voejavam
assustadas, esquivas mesmo, e pombos que as perseguiam; pombas que
condescendiam e pombas
que queriam arrulhos: quem não voasse arrulhava, quem
não arrulhasse voava; e tudo gozava—quem era feliz e quem
estava para o ser, quem era sanguineo e quem era pachorrento.
Ar dos campos, depois; alegres, muito amigos, pousando todos quando um
pousava, retomando vôo se um voava, sempre juntos, sempre na
mesma direcção, a beber no mesmo ribeiro, em
linha,
todos a um tempo, n'um ruido muito doce de bicos que sorviam.
Ainda com sol, iam pousar de revoada no telhado da casa onde habitava a
Morgada, participar-lhe por certo que iam recolher, cumprimental-a ao
balcão da sua janella, alegre de trepadeiras em
flôr, pousar-lhe nos hombros, na cabeça as mais
ousadas ou as mais amigas,
segredando-lhe não sei que arrulhos que ora a faziam sorrir,
ora lhe traziam lagrimas, mas
que sempre provocavam novos affagos, affagos interminaveis:
—Minha pombinha... minha amiguinha... minha querida...
D'alli para o pombal, continuar aquella vida de bohemios
felisões, vida de concubinagem, n'uma promiscuidade sem
limites e n'uma libertinagem
de harem.
Polygamia desenfreada!
Excepção a ella, apenas um casal—a melhor pomba
da manada, pomba branca, de uma alvura impeccavel de neve, e
então um pombo
rajado, preto e cinzento, de
nuances
azues-escuras, ares aguerridos
de luctador vaidoso, um D. Juan emplumado, tentador.
Era o pombo mais atrevido do pombal, o de genio mais insoffrido e
spasmos menos longos, muita vida, n'uma mobilidade continua de
pescoço, nervoso, libertino. Pomba que desejasse possuia-a,
sem arrulhos
previos, sem pedidos, brutalmente se resistia, pacificamente porque
muitas se
lhe entregavam, preferiam-no, vinham deitarse-lhe
no ninho, disputando
primazias á força de bicadas.
E umas atraz de outras, e dias após dias, sempre assim!
Mas todas fugiam em seguida, não sei se de esfalfadas, se
para dar logar a outras; uma só, a pomba branca, se quedava
ao lado d'elle,
paciente, resignada, n'um arrulhar cada vez mais doce, cheio de
ternuras, muito meigo, idealmente brando, que agradava ao rajado, que o
ufanava, incitando-o, convidando-o, provocando-o. Por isso entrou de
aborrecer
as outras, achando-as menos pombas, umas desavergonhadas que se iam
entregar a outros, e de se affeiçoar á branca, a
ella só, acarinhando-a muito, arrulhando com ella,
alternadamente, ora um ora outro, gemendo amores.
Não imaginam os senhores nem ha nada que possa dar ideia da
desordem, da perturbação que isso levou ao rancho
tão dado a instinctos commodos de polygamia, tão
avesso a duetos d'aquella natureza, onde os
pombos eram de todos e as pombas eram communs.
E tal desordem subiu de ponto com o proceder do casal que levava dias
inteiros dentro do pombal, sem sair, n'uma concubinagem que revoltava
de egoista. E quando saíam não se juntavam com os
outros—uma desfeita! uma offensa!—tomavam rumo differente: para a
direita se os outros iam para
a esquerda, para a esquerda se os outros iam para a direita, sempre ao
contrario.
Recolhiam mais cedo, com sol ainda, e quando os outros vinham,
já os encontravam no pombal, em ninhos contiguos a
principio, no mesmo ninho depois!
Um escandalo! Um desaforo!
E planeavam-se ataques, desfeitas ao casal, muitas desfeitas.
Se os dois eram felizes arrulhando manso, entravam os outros a arrulhar
forte, troça talvez, desespero decerto, todos juntos,
combinados. E se isto não bastava, começavam
todos a voar, batendo
muito as azas, levantando a palha dos ninhos, precipitando-se sobre o
casal, fingindo quedas, dando bicadas os mais raivosos, ou
então os mais
despeitados...
Prestes o rajado saltava do ninho, oppunha defesas de azas sobre a
pomba branca e timida que o susto transia, inquieto, colerico; reagia
depois,
luctava por fim, levando-os não raro de vencida,
obrigando-os a fugir do pombal em vergonhoso tropel, muito assustados,
vencidos. E noite
além, entravam um a um, vagarosos, muito mansos, sem ruido
de azas, receiando
acordar o casal que dormia aconchegado, muito quente,
pescoço escondido sob a aza veludinea.
Dois mezes assim—dois mezes!—n'uma fidelidade conjugal ininterrupta,
digna de servir de exemplo a outros bipedes que eu conheço,
que os senhores conhecem, não?... Vida boa, na verdade,
perfumada
de arrulhos e esplendida de alegrias, passada em bellas
digressões campos
fóra, pousando no mesmo ramo, bebendo na mesma
poça, dormindo no
mesmo palmo de ninho, sonhando os mesmos sonhos, talvez...
Mas no fim d'esse tempo o rajado entrou de ter
desconfianças, suspeitas de inconstancias e receios de
infidelidades, de noite, emquanto dormia.
Havia certa frieza nos geitos da pomba, menos ternura nos arrulhos,
modos
de enfadada ás vezes, certas perrices, resistencias
mal disfarçadas. Ficava-se em casa se o rajado sahia,
impassivel
a supplicas, muito mona, com enlanguescimentos de palpebras e
quebramentos de azas, uma desleixada; e espreitando-lhe o
vôo, tomava para
norte se o rajado ia para sul, vinha tarde e ia aninhar-se
só, para lhe
fugir.
Estava farta, vê-se. E como os outros a não
queriam—rameira do rajado!—um dia levantou vôo e fez-se ao
largo.
Abbade d'aldeia, conhecem, d'esses mui dados aos latins e ao
vinagrinho de Xabregas, muito nacional e muito
fino, bons velhos de
quinzena e calça de
alçapão, feros,
muito rijos, á prova de rheumatismo e á prova de
vintem, felizes na sua pobreza,
amigos das creanças, bem humorados sempre, flôres
de uma
arvore que ora vae dando cardos. Perto do solar da Morgada, a tres
kilometros só,
havia um assim, o abbade das Donas, bom prégador n'outras
eras, com famas de
theologo ainda ao tempo.
—Disse-o o das Donas, collega! disse-o o das Donas!—era assim que
muitas vezes acabavam disputas acaloradas, salpicadas de varios latins,
sobre textos da Biblia e passagens dos apostolos.
—Theologia velha, diziam, a genuina!
A casa da residencia era uma casa muito antiga, portas em arco, paredes
a desabar,—uma invernada forte e ia abaixo. O pateo da entrada era
terreo, rimas de lenha
secca d'um lado e d'outro, seguia-se a cosinha,
um pequeno corredor, e ao fim uma velha varanda em ruinas que dava para
um quintalorio, e cujas pedras se deslocavam, de mal assentes que
estavam.
Preferia-a o bom do abbade para a reza das suas
devoções, e n'essa tarde quem quer o poderia ver
passeando-a a todo o comprimento, oculos na ponta do nariz, breviario
na mão direita, a dois palmos, a
esquerda a segurar a aba da
quinzena, e um
pequeno solideo com borla
resguardando-lhe a calvicie.
A interromper a leitura, de quando em quando, umas pequenas
exclamações de desgosto, arremessos de breviario,
e por fim levantando a voz:
—Fome as pombas, sr.
a Luiza: não
fazem senão
saltar...
—Bem fartas!—retorquiu de dentro, da labuta da cosinha,—mas
têm lá visita, pomba que arribou.
E depois informando:
—Pomba guapa, toda branca. São agora tres ao todo, e
então o pombo...
—Huum!... resmungou o abbade em voz de reticencias.—Percebo...
percebo perfeitamente...—E foi metter-se no quarto, continuar a
leitura.—Deixal-as! concluiu evangelico.
Era a pomba do rajado, adivinharam, que alli viera parar á
reles pelintragem d'aquelle metro de gaiola feita de um
caixão
velho, com grades só na frente, muito suja sempre, arrumada
p'r'alli ao
fundo da varanda, humida de aguas entornadas, exhalando maus cheiros,
um nojo.
Quando a mostrava á creada, o abbade dizia-lhe sempre:
—A sua vergonha, sr.
a Luiza; a vergonha da sua
cara. Como se os
animaes não fossem tambem creaturas de Deus...
As pombas eram magras e o pombo era esqueletico.
Fez-se de amores com elle, tomou-lhe os habitos canalhas, manchando a
alvura immaculada das pennas na immundicie fetida da gaiola em que
ambos se aninhavam, arrulhavam, se espojavam. E como ella era gorda e
bem tratada, flaccida de pennugens e de carnação
consistente, apetitosa, o pombo não a largava—genio de
libertino em corpo de tisico.
Em breve periodo entrou a pobre de emagrecer, sem forças
para voar se queria voar, quedando-se dias inteiros ao canto da gaiola,
encolhida, tristonha, arrependida talvez de ter deixado o
pombal,—saudosa do rajado, o seu primeiro amor, quem sabe!
E depois, o pombo sujo já não se importava com
ella, desprezava-a, tentara mesmo expulsal-a de parceiro com as outras,
dando-lhe maus tratos,—á intrusa. Dôr
incomparavel!
Mas um dia o ataque foi mais violento e ella teve de fugir, de voar,
descançando amiudadas vezes, porque lhe faltavam as
forças, arquejando sempre, arrastando-se em vôos
baixos, sentindo vertigens se
subia mais alto. Para passar um ribeiro descançou uma hora,
e quando
cobrou alento e começou o vôo, viu-se na agua e
estremeceu,
molhou ainda as azas, viu um corvo na sua propria imagem, um corvo
negro que a perseguia silencioso, traiçoeiramente,
que a ia
talvez devorar... O
que ella tinha sido e o que era!...
Lembrou-se então do pombal, do seu primeiro ninho, do
rajado... Oh! o rajado!... Receiou primeiro, quem sabe se elle a
quereria, tinha pomba,
decerto... Iria?... Não iria?... O pombal ficava perto, um
vôo valente e estava lá, acharia tudo em casa, era
cedo ainda.
Fez-se de vôo e partiu.
A manhã era calma e o céo era azul.
Canções de cotovias vibravam pelo ar que as
balseiras alastravam de aromas, perfumando-o. A estrella d'alva tinha
os ultimos bocejos para fechar de todo a palpebra
cançada e adormecer no azul; e o oriente começava
de animar-se de um
alaranjado esplendido—decoração triumphal com
que se orna
aguardando a visita de quem tem de rolar pela eclyptica, alumiando o
hemispherio e fecundando tudo—o cardo que rasteja e o cedro que
vê longe...
N'aquelle repontar da manhã, o alto céo era de
uma limpidez crystallina. Evolava-se de toda a banda um perfume
virginal de dulcissima paz, e pelas ramagens verdejantes a volata
suavissima dos ninhos
começava, como uma saudação ao dia que
vinha rompendo. No altar
das laranjeiras, florido como em Domingo de festa, o rouxinol cantava a
missa d'alva.
Em manhãs placidas como aquella, quantas vezes a branca
não fizera as suas excursões alegres de
touriste, na companhia do
rajado, perdendo-se com elle atravez
do horizonte áquella
hora
tranquillo e para toda a banda transparente!
Como tudo isto lembrava, agora!
Em todos esses pinheiraes, ao largo, os dois haviam
descançado muitas vezes, muitas, expandindo em arrulhos de
uma ternura ineffavel o amor extraordinario que os unia! Em toda a
largura não se
descobria um só campanario ou um só telhado onde
não tivessem
pousado ambos, alegres, contentes, doidos! E ella sempre ufana,
acompanhava o macho nos seus vôos ainda os mais arrojados,
perdia-se com elle para
além das serranias mais distantes, destemida com a companhia
que levava—um amigo que empenharia a vida só para salvar a
da amante.
E que bella manhã, aquella! Tudo tão alegre! Era
ver como as calhandras acordavam contentes, e se atiravam ares
além no seu
vôo perpendicular e rapido!
Entravam de animar-se cada vez mais as ramarias, com a vida dos ninhos;
melros ensaiavam solicitos a sua partitura vibrante. Mas a toda a
largura—nem uma aza de pomba palpitava. Ella só,
desalentada e cheia de maguas, ia para onde a levava o destino,—quem
sabe se para a morte...
Então chegou a branca ao pombal e voejou em torno
espadanando as azas contra o muro, arremettendo os buracos, desejando
entrar, faltando-lhe
a coragem, voejando de novo para arremetter em seguida. Os seus antigos
companheiros sentiram-na, conheceram-na, e arrulhando muito, e
arrulhando forte, sairam em tropel e foram pousar no telhado, batendo
muito as azas combinando ataque.
E como a pomba teimava em entrar, corriam a oppor-se, vedando-lhe a
passagem.
De repente, um pombo negro abriu muito as azas, agitando-as, tenteou
vôo n'uns pequeninos saltos nervosos e investiu com a pomba,
com a desgraçada pomba, e os mais apoz elle. Havia sangue
nos
bicos e pennas voando em elypsoides, um barulho de azas que se chocavam
com furia. Por
fim um baque, a pomba caiu no chão, toda sangrenta, um olho
arrebentado, bico aberto, n'um arquejar convulso, cortado de um arrulho
guttural de vida que se esvae lentamente, gradualmente, com
dôr. Um
estremecimento de membros por fim, uma agitação
geral repentina,
e—morta!
Ares além, os assassinos em bando voavam á busca
talvez de um ribeiro onde lavassem os bicos ensanguentados...
E o rajado?—hão-de os senhores perguntar. Demorem-se um
pouco e vel-o-hão sair da janella das trepadeiras, alegres,
felizão, bohemio, depois de uma noite passada na meia sombra
dos cortinados leves de um leito, a rir, a amar, beijando o colo da
Morgada, arrulhando com ella, arrulhando, ora um ora
outro,—debicando... debicando... debicando...
BATALHAS DOMESTICAS
BATALHAS DOMESTICAS[1]
A Luiz Trigueiros.
Para o meu proposito,
é inutil narrar-lhes esse pequenino e
perfumado idyllio, côr de roza, que foi na vida d'ambos,
durante um
anno, o seu mais vivo encanto. Isto em Lisboa, onde elle, Joaquim
Seabra, maior, empregado de escriptorio commercial, vivia desde pequeno
uma furiosa vida de trabalho. A mãe tinha-lhe morrido, ainda
elle era
fedelho: e passados poucos mezes, tinha o Joaquim sete annos, uma
doença complicada levara-lhe tambem o pae—homem
de lavoura,
pobre mas honrado, bronco
mas leal, que nascera e levara a vida não me lembra em que
aldeia da Beira, nas abas da serra da Estrella.
Sentindo-se morrer, o João Seabra pediu os sacramentos.
Deram-lh'os. E quando o reitor ia retirar-se, grave, revestido,
aconchegando ao largo peito o vaso sagrado das particulas, solemne sob
a umbella branca de grandes ramagens amarellas, o pobre homem preveniu
o padre de que em podendo lhe desejava uma palavra.
—Volto por aqui de caminho, dissera o reitor.
Assim fez. Mas caso é que ao abeirar-se de novo do catre do
doente, junto do qual estava o Joaquim, descalço, mal
remendado, o
velho, entreabrindo os olhos e cerrando-os logo para sempre, mal tivera
tempo de lhe murmurar, designando vagamente o filho:
—O pequeno, coitadinho!
De modo que foi o proprio reitor em pessoa, quem, passados dois annos,
veio metter o orphão, como marçano, n'uma loja de
ferragens da baixa, loja escura, funda, com uma ventana de
vidraças, combalida,
dando para uns saguões de predios contiguos. De
marçano
subiu com o tempo a caixeiro; e como era applicado, humilde,
supportando com uma placidez resignada de beirão um trabalho
por vezes superior
ás suas forças, pulou um dia para a escrevaninha
da casa, no andar de cima, vaga pela sahida para a cadeia do outro que
commettera umas falcatruas.
—Precisava um tiro nos miolos, esse cão! dissera deante dos
patrões o Joaquim.
E a incisiva phrase que fôra, emquanto remexia a papelada,
todo o seu commentario ao procedimento irregular do companheiro,
valera-lhe a involuntaria conquista do logar, como
revelação,
que era, das qualidades fundamentaes do seu caracter,—communs, de
resto, ao typo
beirão, profundamente animal, audaz, sobrio, musculoso, no
fundo generoso e
bom.
A vida começou então a ter para elle umas
entreabertas mais risonhas, livre d'essa prisão estreita da
escura loja, onde os seus
instinctos hereditarios de independencia, acordados no fundo de uma
natureza barbara de herminio, tinham, de quando em quando, uns bruscos,
violentos repelões de rebelião... Até
que um
dia, n'uma d'essas guinadas que mesmo á escrevaninha o
assaltavam, pensou em ir á terra
onde não voltara desde pequeno. Ainda lá tinha
uns tios, vivia ainda o reitor. E
n'uma introversão de momentos, mirando atravez da janella o
claro
céo azul, alto n'aquella manhã serena de maio, o
Seabra teve a remota
visão do seu passado—das coisas da sua infancia, da sua
pobre e humilde aldeia encravada n'um declive de serrania que ao longe
elevava o dorso,
nitente de neves eternas. E como se mirasse tudo atravez de um binoculo
invertido, elle lá via além, muito longe para as
suggestões do seu desejo, muito afastado para as debeis
reminiscencias da sua memoria, tudo isso que elle dizia em tres
palavras—«a minha
terra!»—isto é, esse montão informe de
velhos tectos chamuscados onde havia
um debaixo do qual nascera; o campanario alto e esguio; a igreja
oblonga; a fita branca do muro do cemiterio onde seu pae e sua
mãe jaziam; a
paizagem circumdante cortada de canaes e regueiras, que parecem fios de
prata serpeando na esmeralda das baixas, toda retalhada em hortejos; e
então a velha legião amiga das arvores—o zimbro
ao alto dos
môrros nús; depois, descendo, as urzes brancas; os
piornos; os bellos carvalhos
altivos; e já a meio da
encosta, estendendo sobre a zona agricola e
horticola o verde e tenro parasol das suas soberbas folhas—o
castanheiro, emfim.
Atravez da sua vida de balcão, duramente moirejada a mover
barras de ferro, feixes pesados de vergas, ceirões informes
de
pregaria, com intermittencias raras de descanço, algum
domingo, pelas
hortas dos arredores, ou ás vezes n'um bote, pelo Tejo,—a
sensação melancolica da sua paizagem nativa
não chegara a obliterar-se-lhe no
cerebro, nem tão pouco a lembrança dos seus
velhos conhecimentos de infancia,
dos seus companheiros de escola que iam todos os dias, de
manhã e de
tarde, á lição a casa do reitor,
n'aquelle velho
sotão da residencia, com paredes denegridas e tecto de
madeira com manchas...
E que seria feito d'elles? Talvez que os não conhecesse, que
o não reconhecessem, agora. Talvez. E esta duvida, esta
desconfiança, dava ao seu desejo de os ver, de se lhes
mostrar,—com o seu fraque, a sua bengala, a sua cadeia de oiro
escorrendo sobre o colete claro—o
encanto subtil e ingenuo de uma vaidade. E acabou de o decidir, emfim,
a propor
aos patrões essa viagem, certa imagem de rapariga loira,
olhos azues e toda rozada de cutis, que elle, sem quasi dar por isso,
espontaneamente, insensivelmente, fora sabendo, de longe, que se
conservava ainda solteira...
...a Emilia!
E porque seja extranho ao meu proposito, e quasi indifferente
á historia que lhes vou contando, a chronica preliminar
d'esse consorcio, direi
que a velha estola do reitor os uniu emfim uma
manhã—manhã de julho, na velha e ampla igreja da
freguezia, toda banhada de sol,
toda
rumorejante de vozes, e sobre a qual cahia sem despejar, como uma chuva
alegre de pétalas, a saraivada metalica dos sinos,
repicando...
Até que passados dias, eil-os emfim em Lisboa, installados
não sei em que
beco da Baixa, perto da
«obrigação» do
Joaquim, que era, como lhes disse, o escriptorio.
E aqui rompe a historia; e se é do agrado dos senhores,
comecemos.