CAPITULO VII
Da segunda
batalha que houve sobre Alcacere, e como os Reis Mouros
foram vencidos, e feito grande
estrago em suas gentes
Os
Christãos vendo para o fim que vieram um
começo tão contrairo, e que a força
Dalcacere se fazia cada vez mais forte, e a elles
tirava toda esperança de por força o cobrar,
não
leixávam de murmurar, e apontar que seria bom irem-se, e por
aquella vez leixar o cerco, e o Bispo de Lisboa, que na gente dos
Christãos era pessoa de
mór credito, e mais principal, sentindo na noite seguinte a
temerosa e fraca
murmuração, que em todo o seu arraial havia, elle
em prezença dos mais que
por então se poderam ajuntar lhes disse. «Honrados
Senhores e amigos, esta desaventura, e grande mal de que todos estaes
espantados,
não veo sobre vós das forças, nem das
armas dos nossos imigos,
mas cauzou se da grande presunção, e muita
confiança que de
vós mesmos e de vossas forças, e
multidão de gentes logo tomastes, esquecidos em todo, da
só, e principal ajuda de Nosso Senhor, e Salvador Jesu
Christo, que se nos agora aqui faleceo foi para o milhor conhecermos,
mas pois já aqui
viemos, e somos mui fortes para armas, e temos gentes, e estamos
bastecidos de mantimentos, não queiraes desconfiar, porque
esta aversidade
a potencia de Deos a permite para crara esperiencia de maior nossa
fé
e mais merecimento de nossas almas, mas brademos, e clamemos de
coração ao Senhor Deos, e com efficacia, e
devação, que
nossas necessidades requerem lhe pessamos que esta sua ira, se contra
nós, por
nossos peccados a tem, a queira converter em nossos imigos, e cada um
com os giolhos em terra diga por si como eu digo por mim: Senhor Deos
Padre das misericordias, e grande ajudador nas
tribulações
ex as muitas nações de tantos infieis vieram para
nos destroir, pois como duraremos ante a face delles se nos tu Deos
não ejudas, e pois assi é
Senhor agora não ponham ante ti a lembrança de
nossos malles e peccados, nem tomes
de nós aqui vingança por elles ante estes imigos
de tua Santa
Fé, tu por tua bondade, e potencia os dá nas
mãos, e poder de
teus servos, por tal, que os que em ti crem louvem mais o teu Santo
nome».
No cabo da qual Oração, que todos devotamente, e
com muitas lagrimas o seguiram, se diz que por
consolação dos
Christãos logo appareceo pubricamente no Ceo um maravilhoso
sinal por bemaventurado prognostico, a saber, um homem resplandecente,
como Sol, e alvo como uma neve, e no peito trazia o sinal da Cruz
vermelha mais luzente que as Estrellas, com que os
Christãos, que craramente o viram foram mui alegres e
esforçados, crendo que Deos era em sua ajuda, e com este
prazer e alegria, que geralmente todos conceberam, já com
seu temor dormiram
assocegados aquella noite, e ao outro dia como foi manhã o
Bispo, como
era homem em que havia prudencia, e bom esforço, para se
não
esfriar o alvoroço que sentio nos Christãos com a
longura dalgum tempo, falou logo
ás gentes do Exercito que o podiam ouvir dizendo:
«Senhores amigos bem
vistes todos o grande e maravilhoso sinal que para não
temermos, e sermos
esforçados Deos Nosso Senhor tão pubricamente nos
quiz mostrar, e por
esso já seria muita nossa fraqueza, e grande mingoa de nossa
Fé tardarmos
mais para a segunda batalha, mas com o esforço de Deos, que
temos
presente, e com ajuda, e preces dos Santos Martyres Proto, e Jacinto,
cujo dia hoje
é, vamos logo ferir nos imigos, ca pelo melhoramento da
vitoria, que contra nós houveram, agora os acharemos mais
repouzados, e menos
percebidos».
Pelo qual os Christãos postos em suas batalhas bem
concertadas, com grande ousadia, e sem sinal dalgum medo sairam, e
foram dar no arraial dos Mouros, e assi duramente os cometeram, e
tão cruamente
os feriram, e foram tão cortados, e trovados de medo, que
parecia
não terem armas para pelejar, nem forças para
resistir, e desacordados se diz,
que elles mesmos uns aos outros se feriam, e matavam, e se
espedaçavam
com os pès dos Cavallos, e que outros com medo da morte
duvidosa a tomavam certa no rio, que era junto em que se
lançavam, e afogavam, e
vendo-se os Reis Mouros, e suas gentes assi salteados, e vencidos
não tendo
já alguma esperança em sua resistencia, nem
peleja, procuraram buscar
sua salvação
na fogida, em cujo alcance os Christãos matando, e ferindo
seguiram, em que se affirma que dos quatro Reis que alli vieram, dous
delles sem se dizer quem eram, foram mortos, e com elles trinta mil
Mouros mais, e com esto recolhendo o muito, e mui rico despojo, que
acharam no arraial dos Mouros, os Christãos se
tornáram mui alegres a
seu cerco, que tinham posto sobre a Villa, dando todos muitas
graças e louvores ao
Padre nosso Senhor, que de sua mão deu esta vitoria, que foi
a onze dias
de Setembro do sobredito anno de mil duzentos e dezasete annos, (1217)
dia dos ditos Martyres Proto, e Jacinto, á
certidão da qual
vitoria, como foi dada aos infieis, que para este descerco eram em sua
frota postos no mar elles desacordados, e tristes se partiram, onde se
diz que se perderam alguma parte de seus navios, e de suas gentes
assás nelles.
CAPITULO VIII
Como os
Christãos combateram e tomaram o Castello
Dalcacere
Os
Christãos por esta vitoria ficaram alegres, e mui
esforçados, depois de consultarem sobre a milhor maneira que
teriam para tomar a Villa, fizeram duas escadas grandes, e com gente
darmas que comprio foram logo juntas ao muro para o entrarem, e
comessarem de combater o Castello; mas os Mouros com a necessidade que
tinham de salvar suas vidas,
dobráram suas forças, pelo qual assi com fogo,
com pedras, e traves,
e setas, que de cima do muro lançavam, afastaram os
Christãos
longe do muro, em que da uma parte, e da outra foram muitos mortos, e
feridos, e porque os Christãos viram que aquella qualidade
de combate por a
grande fortaleza, e desposição dos muros lhe
não socedia
como dezejavam, fizeram logo cavas, e minas por baixo da terra para as
poerem debaixo dos muros, e postos em contos os derribarem por fogo;
mas os Mouros que desto por avizos, ou por conjeituras foram bem
sabedores contraminaram as cavas dos Christãos, e uns, e
outros com peleja mui crua se
encontraram, em que houve muito sangue derramado, e com grandes fogos,
e cousas fumosas que os Mouros fizeram, lançaram os
Christãos fora
das cavas, e pozeram sobre si segura guarda, pelo qual vendo os
Christãos que
alguma cousa das cometidas de todo lhes não aproveitava,
elles, por
conselho, e ordenança do Capitão da frota, que
era homem
engenhoso, e de bom esforço, fizeram logo duas bastidas de
madeira muito fortes,
e tão altas que cada uma dellas sobejava por cima das mais
altas Torres
do Castello, donde
os combates que nellas poseram iam
seguros, e não
temiam os danos dos Mouros, e com esto, e com outros engenhos que mais
ordenaram, e com muitos bésteiros, e frecheiros commetteram
o Castello
rijamente por muitos lanços do muro, por cima do qual os
Mouros com a
força das setas, e pedras que lhe lançavam,
não ouzavam parecer
nem resistir como dantes faziam, e vendo-se fracos de suas
forças, e desesperados
já em tudo, de todo o soccorro, e finalmente porque se
não podiam suster,
fizeram sinal que se queriam render, e sobre seguro, que lhes foi dado,
vieram
á pratica, e apontamento, em que pediram as vidas, e
fazendas, mas as vidas sómente lhe foram outorgadas com
segurança
das quaes elles abriram as portas do Castello, e assi seguros se
sahiram, e foram para onde quizeram, e o Alcaide do Castello, que antre
elles era a pessoa mais principal, não se quiz ir com os
outros, mas acha-se que da
tomada da Villa, a tres dias por sua vontade foi bautizado, e tornado
Christão, e os outros Mouros que os Christãos
acharam pelas Aldeas, e
Lugares de redor todos, se diz que sem resistencia morreram a ferro, e
os grandes despojos que da batalha passada se recolheram, e na Villa se
acharam foram logo igualmente repartidos sem aventagem dalgum, salvo
que ao Capitão de fóra, porque por seu conselho e
ordenança o cerco fora sempre regido lhe deram mais
déz por prezioneiros, que elle
tomára.
E porque ao Bispo de Lisboa não foi sobre elles dada alguma
avantagem, que bem merecia, o Capitão da frota a que tal
escasseza
não pareceo bem, por seu conforto lhe disse:
«Reverendo Bispo, posto que
vós aqui pelo bem recebeis mal, e pela bondade malicia
rogo-vos que a estes homens, que tão mal o conhecem, e fazem
sejais paciente, porque o
principal galardão
que
por este trabalho mereceis Deos nosso
Senhor
que é bom, e justo, e porque bem o recebestes volo
dará bom no Ceo, e
será melhor que este de cousas da terra». E com
esto os Estrangeiros se
recolheram a suas frotas, e se partiram para onde quizeram, e o Bispo
com os senhores Portuguezes, que ao cerco vieram depois de leixarem a
Villa afortalezada, e bastecida, como viram que compria, tambem se
tornaram para suas terras, e cazas, e esta tomada de Alcacere em tempo
deste Rei Dom Affonso II foi em dia de S. Lucas, a dezoito do mez de
Outubro da era de nosso Senhor de mil duzentos e dezasete annos, (1217)
e dahi a um anno este Rei Dom Affonso com a Rainha Dona Orraca sua
molher lhe deo foral que agora tem, como por elle parece.
CAPITULO IX
Como cinco
frades Italianos da Ordem de S. Francisco foram a Marrocos a
prégar a
Fé de Christo, e primeiramente chegaram a Sevilha, que era
de Mouros
Desta tomada
Dalcacere até o falecimento Del-Rei Dom Affonso
se passáram seis annos, nos quaes se não acha
feito que elle fizesse,
nem se passasse cousa dina de memoria, salvo que depois em sua vida, e
da dita Rainha Dona Orraca sua molher, o Ifante Dom Pedro seu
Irmão
filho tambem legitimo del-Rei Dom Sancho trouxe a Coimbra os ossos dos
cinco Frades Menores, que em Marrocos morreram Martyres, cujo caso
segundo a Lenda Santa, que delles se lê, e segundo o que mais
delles
verdadeiramente se acha foi brevemente nesta maneira. Na Coronica
del-Rei Dom Sancho pai deste Rei, falando dos filhos que teve
sumariamente disse: que o Ifante Dom Pedro, seu filho, o qual bem
acompanhado de nobre gente Despanha passara em Africa, e estivera em
muita estima, e grande authoridade com Mirabolim de Marrocos,
até o tempo do Martyrio destes Santos
Frades, dos quaes se acha por a dita sua Lenda, e por
inquirição verdadeira, que o sobredito Dom
Matheus, Bispo de Lisboa, delles, e do seu Martyrio, e milagres tirou
por testemunhos de muitos, dinos de fé, que
com o dito Ifante andaram, e principalmente por um Cavaleiro de
Santarem que chamavam Estevão Pires, homem velho, e honrado,
e de louvada
vida, e costumes que ao dito Ifante sempre servio, que na era de nosso
Senhor de mil duzentos e dezanove, (1219) e aos treze annos da primeira
conversão de S. Francisco, elle por vontade de Deos,
escolheo em sua vida seis Frades de sua Ordem por natureza Italianos, e
de maravilhosa santidade, a saber: Frei Vital, e Berardo, Otone,
Acurcio, Pedro, e Adjuto, e por saberem bem a lingoa Arabiga os mandou
ao Rei, e Reino de Marrocos, que naquelle tempo sobre os Mouros
Dafrica, e Despanha tinha o
mór Principado, para lhe prégarem, e trabalharem
pelo converter
á Fé de Christo.
E destes seis Frades fez maioral, e Prelado a Frei Vital, o qual como
elle com os outros chegassem ao Reino Daragão adoeceo; e
porque vio que sua doença se prolongava por tal que seu mal
corporal, o
bem, e negocio espiritual, e de Deos não impedisse, mandou
que por
comprirem o mandado
de Deos, e de S. Francisco se fossem a Marrocos, os quaes por sua
obediencia o leixaram doente, e se partiram, e chegeram á
Cidade de Coimbra onde a esse tempo era
a
Rainha Dona Orraca molher
deste Rei Dom Affonso, a qual os fez ir ante si, e como falasse com
elles em cousas de
Deos, e nelles visse tão grande desprezo do mundo, e tamanho
fervor de morrer por amor de Jesu Christo, e sem duvida os julgou, e
houve por mui verdadeiros, e prefeitos servos de Deos, e por esso com
grande instancia lhe rogou, que por suas rogações
pedissem a Deos
que revelasse a ella o derradeiro termo de sua vida, e posto que elles
com sua humildade confessassem não ser dinos entender nos
segredos de Deos:
porém vencidos das devotissimas preces da Rainha, ditas com
muitas lagrimas, prometeram-lhe que assi o pediriam, os quaes orando a
Deos com firme, e pura fé, não sómente
o que da vida da
Rainha, mas ainda o seu Martyrio, por revelação
de Deos lhe foi tambem senificado,
porque logo disseram que os derradeiros dias da vida da Rainha seriam
mui sedo quando seus corpos depois de seu Martyrio, fossem de Marrocos
ali trazidos, e della mesma Rainha, e de todo o povo com grandes honras
recebidos, e assi foi como se dirá.
Partidos os Frades de Coimbra para seguirem sua santa jornada, vieram
por aviamento da Rainha Dona Orraca á Villa Dalanquer, onde
estava a Ifante Dona Sancha, irmã del-Rei Dom Affonso, que
era
Senhora da dita Villa, a que tambem revellaram todo o seu proposito;
como ella foi Princeza mui santa, aprovando seu negocio ella sobre os
habitos da sua Religião que elles traziam lhes deu outras
vestiduras
seculares, taes, com que mais livres, e facilmente podessem passar a
terra de Mouros, e assi com seus habitos desimullados foram
á Cidade de
Sevilha, que então era de Mouros, onde na pouzada de um
Christão, leixados os
habitos leigos, por oito dias estiveram escondidos, e acertou-se que em
um dia fervendo seu espirito
para Martyrio, elles sem guia, nem
conselho doutros se foram á principal Mesquita dos Mouros, e
como em
ella quizessem entrar os infieis, que os viram, e conheceram, endinados
contra elles com empuxões, brados, e açoutes, que
lhe deram, e por instituto, e costume os não consentiram
entrar, e dahi
indo-se ás portas del Rei, e sendo ante as ditas portas dos
Paços foram
levados ante El Rei, e perguntados quem eram? Responderam: que vinham a
elle Rei por Embaixadores, e enviados do Rei dos Reis, e Senhor dos
Senhores, que era Jesu Christo, e como ante El-Rei muitas, e mui dinas
cousas da
Fé Catholica proposessem aconselhando-o para sua
conversão, e
para receber agoa do santo Bautismo, e com esso muitas couzas feas, e
torpes de Mafamede, e de sua seita descobrissem, El-Rei endinado de
grande ira contra elles lhes mandava cortar as cabeças, mas
amançado por palavras de um seu filho, que era prezente, os
mandou meter em uma Torre mui alta junto dos Paços, de cuja
altura aos que entravam, e sahiam
da caza del-Rei, elles não leixavam de prégar em
altas
vozes a Fé de Christo, e brasfemar, e mal dizer da Seita de
Mafamede, cujos seguidores, e
favorecidos diziam que no inferno seriam com tormentos para sempre
danados, e anojado El-Rei de suas palavras, e para lhe arredar o azo de
as não poderem dizer, os mandou meter no mais profundo da
Torre, donde por concelho dos seus vassallos os mandou tirar, e levar a
Marrocos em companhia de Dom Pedro Fernandes de Castro o
Castellão, de
que atraz disse, e ao diante direi, que por odios, e
perseguições dos Condes de Lara, não
se pode soster em Castella, e duas vezes se passou
aos Mouros, e desta derradeira para Mirabolim de Marrocos.
CAPITULO X
Como os
Frades chegaram a casa do Ifante Dom Pedro, e do que logo fizeram, e
como foram tornados
a Ceyta para virem a terra dos Christãos, e dahi
se volveram outra vez a Marrocos
Neste tempo estava em
Marrocos o Ifante Dom Pedro, filho del-Rei Dom
Sancho, e irmão deste Rei Dom Affonso, a cuja caza os ditos
Frades, e o dito Dom Pedro Fernandes logo chegaram, e o Ifante os
recebeo com humanidade, devação, e bom trato, e
os proveo de
todo o que haviam mister, porque era Principe em virtudes mui acabado,
e os Frades como dahi em diante viam quasquer Mouros logo com muito
fervor lhes
prégavam, especialmente um dia Frei Berardo, que delles era
o mais principal, e milhor sabia Arabia, sobindo em um carro, ou lugar
alto como pulpito, e prégando a Fé de Christo a
muitos Mouros que o
ouviam acertou-se que o Mirabolim ia visitar, como tinha de costume, a
sepultura dos Mouros Reis, que eram fóra da Cidade, e vendo
o Frade
prégar, e por elle ser prezente não querer
desistir da
prégação á sua seita
contraria, estimando o por homem sandeo, e por tirar escandalos mandou,
que elle com todos os Frades fossem logo lançados fora da
Cidade, e
sem tardança levados a terras dos Christãos, pelo
qual o Ifante Dom Pedro
havendo-o assi por bem lhes deu alguns seus servidores, que seguramente
os levassem, como levaram até a Cidade de Ceyta, para dahi
logo
passarem a terra dos fieis.
Mas os Santos Padres não contentes da viagem
leixáram as guias, que os levavam, e tornaram-se outra
vez a
Marrocos, e como chegasseem
á praça da Cidade logo aos muitos Mouros, que
nella acharam
começaram de prégar, louvando os merecimentos da
Fé de Christo, e brasfemando dos
vicios, e erros de Mafamede, e sua seita, da qual cousa como El-Rei
fosse certificado os mandou logo meter em um estreito carcere, onde sem
alguma ordenada provizão, nem mantimento dos homens, que
houvessem,
mas com a só refeiçao de Deos, que houveram.
Vinte dias
foram encarcerados asperamente, e neste tempo, porque em toda aquella
terra sobrevieram mui grandes, e desordenadas quenturas do Sol, e
grandes destemperamentos do Ar, alguns creram que estes males poderiam
vir pela injusta
prizão dos Frades, pelo qual por concelho de um Mouro
chamado Abotorim, que aos Christãos tinha amor, e queria
bem, El-Rei consentio que
fossem livres do carcere, e trazidos ante elle, mandou aos
Christãos que
logo sem mais detença os mandassem a sua terra.
E porém El-Rei com os outros Mouros não ficaram
sem grande espanto, quando viram os Frades tão
esforçados dos corpos,
e tão constantes das vontades, havendo vinte dias continos,
que sem algum mantimento ordenado jouveram no carcere, e perguntados
por El Rei: quem os mantivera tanto tempo? Lhe disse Frei Berardo, que
como El-Rei bem crece na
Fé de Jesu Christo logo saberia como elles sem beber, e sem
comer foram no carcere manteudos. E com tudo elles como se viram
soltos, logo sem algum medo outra vez quizeram tornar a pregar aos
Mouros, mas os outros
Christãos, que com elles estavam, receosos da ira del-Rei
que com mortes, e cruezas, se estenderia nas vidas de todos, como
mostrava, lho
não consentiram.
Então lhe ordenaram logo outros homens fieis que os
acompanhassem, e levassem outra vez a Ceyta, para
dahi passarem a terra
dos
Christãos, mas os ditos Frades sospirando por seu Martyrio,
despedindo-se daquelles que os levavam se tornaram outra vez a
Marrocos, onde o Ifante os mandou logo recolher, e encerrar em sua caza
com guardas, e defeza estreita, que os não leixassem sahir,
porque receava segundo El-Rei de
suas pregações se escandalizava, que
não
sómente mandaria matar os Frades, mas a elle, e a todos os
christãos que houvesse na Cidade.
CAPITULO XI
De um
milagre que se fez por causa de Frei Berardo, e como foram presos e
atormentados os
outros Frades
E acertou-se que o
Mirabolim a este tempo mandou o Ifante Dom Pedro com
outros muitos nobres homens de Christãos, e Mouros, que
delle tinham
soldo fazendo guerra, e sogigar a uns senhores Mouros seus vassallos,
que se lhes rebelaram, apoz os quaes Frei Berardo, e os outros Frades,
que tiveram maneira de se soltar, logo seguiram, e foram devolta onde
se diz, que disputando Frei Berardo com um Mouro ante elles o mais
letrado, e venceo, e confundio, e que este Mouro, com vergonha nunca
mais tornou a Marrocos, nem depois não pareceo, e tornando o
Ifante com
os outros Mouros da conquista, que lhes fora encomendada, vieram por
uma terra
tão seca que por tres dias para si, nem pera seus cavallos
não
poderam achar em nenhuma parte agoa para beber, e como a estreiteza da
sede desesperasse todos das vidas, Frei Berardo era na companhia, feita
primeiro sua
dovota oração, tomou na
mão um piqueno pao com que cavou um pouco na terra mui seca
donde milagrosamente logo arrebentou, e sahio uma grande
fonte de agoa doce, e mui singular de que não
sómente os homens, e alimarias bebiam, e se abastaram, mas
ainda encheram muitos odres, que levaram para o caminho.
E como esta necessidade dagoa foi satisfeita, logo a fonte se sarrou, e
secou, e por tão grande, e tão manifesto milagre,
que de todos foi visto, e Deos por Frei Berardo fizera, todos os do
exercito dahi em diante o tiveram em grande
devação, e reverencia,
e muitos por Santo lhe beijaram os pés, e as vestiduras, e
como estes Santos Frades
tornassem a Marrocos, e em caza do Ifante fosse por elles posta grande
guarda, para não sahirem, e elles toda via sairam, e em uma
Sexta feira,
que o Mirabolim ia visitar os sepulchros dos Reis Mouros, os Frades sem
algum temor, e com grande ousadia se apresentaram ante elle, e sobindo
Frei Berardo em um tezo começou de lhe prégar mui
sem
receio, e como El-Rei os visse, cheo de ira contra elles, mandou a um
seu Capitão
Mouro que vira o milagre dagoa, que logo lhes cortasse as
cabeças,
pelo qual os Christãos, que eram prezentes, com temor de
suas proprias
mortes, logo fugiram dahi, e fechadas, e trancadas bem as portas de
suas pouzadas, nellas sem sair jaziam escondidos, mas o Principe Mouro
mandou aos homens da justiça que trouxessem os Frades ante
elle, e como
por duas vezes o não achassem os tornaram a levar a mais
aspero
carcere com golpes, e bofetadas com que os feriam, e com esso os ditos
Frades assi aos Christãos, que se lhe offereciam
não leixavam
de prégar a palavra de Deos.
E sendo outra vez trazidos ante o dito Principe, e
com
tanta constancia
os visse prégar, e confessar a fé Catholica, e
reprovar, e reprehender com muita ouzadia as couzas de Mafamede, e sua
seita, acezo da ira contra elles os mandou logo atormentar com muitas,
e mui desvairadas maneiras de tromentos, e depois apartar uns dos
outros, e em desvairadas cazas onde cruamente os mandou
açoutar, e aquelles maos, e
crueis ministros atados os pés, e as mãos dos
Santos, e
com cordas asperas lançadas aos colos delles, e
arrastando-os de uma parte a
outra pela terra, assi continuadamente, e tão sem piedade os
açoutavam, que as tripas lhe apareciam, e sobre as chagas
recebidas por acrescentarem mais dor lhe lançavam vinagre, e
azeite fervendo, e assi foram
por toda a noite atormentados, e açoutados de trinta Mouros,
que nelles
se arrevezavam, na qual noite daquelles que os guardavam foi visto, que
um grande resplandor decendia dos Ceos, e com uma companha sem conto os
arrebatavam, e levantavam para cima, e maravilhados desso os Mouros, e
de todo espantados, chegando ao corcere acharam os Santos Frades
devotamente orando.
CAPITULO XII
Como El-Rei
de Marrocos fallou com estes Frades, e por os não poder
converter a sua seita
por si mesmo os matou, e como foram mortos tambem Pedro Fernandes,
e Martim Affonso Telo, sobrinho do Ifante
As quaes couzas
ouvindo El-Rei de Marrocos, acezo com maior sanha
contra elles, mandou que logo lhe fossem levados com as mãos
atadas, e descalços dos pés, e depois dos corpos
continuadamente açoutados, e espancados, os quaes como El
Rei na Fé de Christo os visse
tão firmes, mandou dentro meter comsigo certas molheres
fermozas, e
lançados todos fóra disse:
«Convertei-vos a nossa fé,
e dar-vos-hei estas por vossas molheres, e com ellas muito dinheiro, e
sereis em meu Reino muito honrados.» A que os Frades logo
responderam: «Tuas
molheres, e teu dinheiro não queremos; porque tudo esto
desprezamos por amor
de Christo». É então El-Rei arrebatado
de
maior ira, e sanha, apartados os Santos um do outro, por suas proprias
e mui cruas mãos a
cada um per si talhou as cabeças por meio das fontes, e
apertando na
mão tres cutellos, juntamente com uma crueza de besta
féra os degolou, os quaes
compriram este seu Martyrio a dezaseis dias de Janeiro do anno de
Christo de mil duzentos e vinte, (1220) em tempo do Papa Honorio III,
em o quarto anno de seu Pontificado, e quasi sete annos antes da morte
de S. Francisco.
E depois disto lançados fóra os corpos dos
Martyres por as molheres, que comsigo tinham: estes perros barbaros e
maos, atando cordas a seus
pés, e mãos,
os
arrastaram para fóra
da Cidade, em
torno da qual com grandes brados, e pregões os trouxeram, e
espedaçados de
todos os membros, os leixaram no campo, pelo qual os
Christãos, que os assi viram, alevantadas as mãos
aos Ceos, louvando a Deos por seu
tão glorioso Martyrio, comessaram de apanhar, e recolher as
Riliquias dos ditos Santos escondidamente, a qual couza como os Mouros
vissem, todos como cães raivosos, tanta multidão
de pedras
lançaram nos Christãos, que parecia tempestade de
sua raiva, mas os Christãos defezos
já pelos merecimentos dos Santos, fugindo da ira dos Mouros
a suas cazas se recolheram, donde com temor da morte, que antre si
traziam, escondidos por tres dias não pareciam,
principalmente, porque neste
tempo o Ifante mandou a Dom Pedro Fernandes de Castro, o
Castellão, que
lá era lançado, e a Martim Affonso Tello, seu
sobrinho, nobres homens, que com outros muitos andavam em sua
companhia, que de noite secretamente fossem ver onde jaziam os corpos
dos Martyres para se recolherem, porque foram vistos, e achados dos
Mouros, logo os mataram.
CAPITULO XIII
Como os
corpos dos Martyres foram queimados, e despedaçados, e emfim
recolhidos por
devação, e industria do Ifante Dom
Pedro
Depois desto em um
grande fogo, que foi feito no campo, os corpos dos
Santos se lançaram por tal, que de todo fossem queimados,
mas o fogo por virtude Divina das santas Reliquias assim se apartava, e
apagava, como que a materia
muito
lhe fosse contraira com junto, antes
a
cabeça de um dos Martyres lançada muitas vezes no
fogo, nem nos seus
cabelos não pareceo algum sinal de queimadura, a qual assi
com a pelle, e cabellos foi mostrada sem alguma
corrupção no Moesteiro de
Santa Cruz de Coimbra, mas dos Mouros alguns por amizade, e outros por
dinheiro, e proveito, e assi os Christãos, que na Cidade
eram cativos, apanhando as
Reliquias dos Santos as offereciam ao Ifante, que recebendo-as com
grande
devação as mandou secretamente cozer, e depois
que as carnes se gastaram, e os ossos ficaram limpos, os mandou secar,
e encomendou a guarda principal delles a João Roberto,
Conego de Santa Cruz, homem em
virtudes acabado, e a tres innocentes, moços honestos, seus
moços
da Camara, dos quaes um foi o Estevão Pires de que atraz
disse, que deu este
estromento, ca não era algum ouzado entrar onde as sagradas
Reliquias estavam em guarda, porque a só sua consciencia de
qualquer crime ocultamente
commetido logo o reprendia, e acuzava.
E neste tempo um Cavalleiro chamado Pedro da Roza, tendo uma manceba
por nome Maria da Roza, como sobisse a um sobrado onde as Reliquias se
guardavam logo elle sem se poder mover, e tolheito, bradou fortemente
dizendo: «Acorrei-me, acorrei-me, dai-me
confissão. A qual como o Conego lha deu, em que de todo
renunciou a manceba, logo foi livre dos membros, e pode decer, mas
não pode falar até que o mesmo
Conego por mandado do
Ifante lhe poz sobre o peito a cabeça de um Martyre, com que
de todo recobrou as forças, e fala, assi como dantes as
tinha, e
dahi em diante, assi o Ifante como todos os seus tiveram as Reliquias
em maior honra, e devação, das quaes mandou meter
as
cabeças em uma arca, e os ossos em outra, e as tinham em
grande veneração
na
sua
Capela, e ás santas Almas dos Bemaventurados Martyres, cujas
Reliquias tinha continua, e devotamente pedia, que de Deos lhe
ganhassem graça para sem
perigo de sua pessoa, e dos seus, se poder vir para sua terra de
Christãos, porque já havia muitos dias que na dos
Mouros contra sua vontade se
detinha, e estava forçado.
CAPITULO XIV
Como o
Ifante D. Pedro foi tornado a Espanha, e trouxe consigo os ossos, e
Reliquias dos
Martyres, e as mandou a Santa Cruz de Coimbra, e dos milagres que
houve no caminho
Esta graça
pelas preces dos Martyres, foi da piedade de Deos
brevemente empetrada, porque estando o Ifante desta sua liberdade
assás desconfiado, o Mirabolim de sua propria vontade, e sem
requerimento dalguem o mandou chamar, e alegremente lhe deu
licença, que
para sua terra se viesse quando quizesse, descobrindo-lhe logo as
muitas vezes que para sua morte fora de seus principaes aconselhado, e
induzido; mas por seus merecimentos, e bons serviços, que
fielmente sempre
lhe fizera, merecia outro galardão. E com esta
licença lhe
deu mais suas cartas de passos, para elle, e os seus seguramente
poderem passar, com as quaes partiram de Marrocos, e depois de um dia,
e uma noite, vieram no caminho dormir a Azora, que era lugar despovoado
onde de ferozes brados dos muitos Liões, que ahi ha foram
postos em temor de que logo
foram livres, como ante si, e os Liões pozeram com
devação, e confiança
as santas
Reliquias, que por sua santidade fizeram tudo quieto, e ao outro dia
chegaram a um Lugar em que se apartavam muitos caminhos, e duvidosos de
qual era o melhor que tomariam, e o Ifante sospenço, e
confiado na santa guia das Reliquias que acompanhava mandou dar a
dianteira a uma Azemala que as levava, e houve por bem que aquelle
caminho que ella tomasse, todos por milhor o seguissem esperando que
elle seria o milhor, e mais seguro.
O que foi assi feito, e a Azemala se desviou de um caminho para que a
gente se mais inclinava, onde o Ifante soube depois em certo que Mouros
o esperavam para o matar, e roubar, e da hi em diante em dezertos e
montes porque passáram sempre déram a guia
ás santas Reliquias, que com a graça de Deos
levaram o Ifante, e os seus a salvamento
atè Ceita, onde embarcando logo em uma nao, que o Divino
favor lhe tinha prestes, e aparelhada para terra de
Christãos, partiram, e navegaram
logo com vento
prospero, que em poucas horas, com grande escuridão se mudou
o contrairo, e algumas outras naos que se acertaram em sua conserva,
por uma respiração divina faziam daquella do
Ifante
Capitaina, por quem se regiam, e com a grande
sarração que sobreveio
temendo de ir á Costa se encomendaram devotamente aos rogos,
e merecimentos dos Santos Martyres, cujas sagradas Reliquias levavam,
para que em salvamento os guiassem, e logo supitamente derramada a
escuridão, em que andavam, veo
a grande claridade, e bonança, com que bem viram, e
conheceram o
caminho de sua perdição, que levavam, e desviados
delle
aportaram na Aljazira, daquem Despanha, e dahi a Tarifa, e logo a
Sevilha, que era de Mouros, onde por os Christãos que ahi
eram, o Ifante foi avizado, que logo se
partisse, porque El-Rei de Sevilha o mandava prender.
Pelo qual logo ahi embarcaram, e vieram a Astorga, que é em
Galiza do Reino de Lião, onde então reinava
El-Rei Dom
Affonso, primo com irmão do
Ifante Dom Pedro, e como foram partidos chegaram a Sevilha mandados de
Mirabolim de Marrocos que logo lhe prendessem, e tornassem o Ifante, e
cortassem as cabeças a todos os seus, mas deste perigo, e
doutros muitos prouve a Deos que o Ifante, e os seus, pelos
merecimentos dos Santos Martyres, cujo devoto era, fossem como foram,
livres, e seguros, e como chegassem a Astorga um hospede onde foram
agazalhados havia trinta annos que assi era doente, e tolheito de
parlezia, que do officio da fala, e dos membros era de todo privado, e
ouvindo as grandes maravilhas dos Santos Martyres, que os
Christãos consigo traziam,
lançado em terra ante a Arca em que suas sagradas Reliquias
eram guardadas, pedindo-lhe com muitas lagrimas, e grande
devação remedio para
sua doença, logo ahi á vista de todos recebeo na
fala, e em todos os membros perfeita saude, e o Ifante Dom Pedro
não veio com as Reliquias dos Martyres a
Coimbra; mas de Astorga mandou com ellas Affonso Pires de Arganil, que
era Rico homem, e pessoa de grande credito, porque o Ifante Dom Pedro
não era bem avindo com El-Rei Dom Affonso de Portugal seu
irmão.
CAPITULO XV
Como as
Reliquias dos Martyres foram recebidas, e como foi a morte da Rainha
Dona Orraca, molher
del-Rei Dom Affonso, e das cousas que foram vistas
Como Affonso Pires
chegasse a Coimbra onde a fama dos Santos Martyres
já era, a sobredita Rainha Dona Orraca molher deste Rei Dom
Affonso de Portugal, que ahi estava com o povo junto, que com toda a
Cleresia, e mui devota, e solenne Procissão, saio a receber
as sagradas
Reliquias, e com muita devação, e grande
solennidade as
levaram ao Moesteiro de Santa Cruz, onde mui honradamente as leixaram,
e como a nova do glorioso Martyrio destes Santos Frades chegasse a S.
Francisco, alegrando-se em seu espirito, disse: «Agora
verdadeiramente posso dizer que
tenho cinco irmãos». E no mesmo anno em que estes
Martyres
foram mortos segundo testemunho das santas
Lições, que delles se
dizem, por sua vingança a ira, e
indinação de Deos, veio contra El-Rei de
Marrocos, e seu Reino, porque a propria mão direita, e
braço
çom que o dito Rei Mouro matou os Santos Frades, todos seus
membros daquella parte até o
destro pé, foram todos secos, e por
maldição da sua terra, nos
tres annos seguintes apoz este Martyrio, não choveo nella
couza alguma, de que se
seguio mais, que por cinco annos continos houve tanta fome, e
tão cruas
pestilencias nos homens, que a mór parte da gente por
tamanha mortindade foi
destruida por tal, que os annos da vingança fossem iguaes ao
numero
dos Santos Frades.
E porque a Profecia dos Santos Frades em todo se comprisse a sobredita
Rainha Dona Orraca passadas mui poucas horas, depois que ás
Santas Reliquias foi dada divina sepultura, ella Rainha chea de
virtudes acabou sua vida, e dahi foi levada a Alcobaça onde
jaz, e
á mesma hora que ella faleceo, sendo a noite profunda, Dom
Pedro Nunes Conego, e
Sacristão do Moesteiro de Santa Cruz, Varão por
Santidade mui
esclarecido, e Confessor da mesma Rainha, vio innumeraveis Frades
Menores entrar no Choro antre os quaes era um, que aos outros com
grande solennidade precedia, e apoz elle cinco antre todolos outros com
honra singular mais excellentes, e como no Choro com
procissão assi entraram
logo com doce melodia que se não póde dizer,
cantaram as
Matinas, e o dito Pedro Nunes Sacristão, sendo pelo que vio
todo atonito, perguntou a um
delles, a que vieram, e porque lugar tantos Frades em tal hora
entrassem, sendo serradas todalas portas do Moesteiro, o qual lhe
respondeu:
«Nós todos que aqui vez somos Frades Menores, e
agora reinamos com Christo, e aquelle que vez, que com tanta gloria
precede aos outros, é
S. Francisco que tanto dezejastes ver nesta vida, e aquelles cinco, que
antre os outros tem mais excellencia são os Frades, que em
Marrocos
por Christo receberam Martyrio, e neste Moesteiro são
sepultados, e sabe
que a Rainha Dona Orraca nesta ora passou desta vida, e porque ella de
todo coração amou nossa Ordem, Nosso Senhor Jesu
Christo nos enviou cá todos, porque por sua honra disessemos
aqui Matinas, e porque tu eras seu confessor, quiz Deos que tu visses
estas couzas, e da morte da Rainha não duvides; porque na
hora que daqui partirmos
ouvirás logo certa nova». E aquella
Procissão sendo todas as portas
do Moesteiro serradas logo sairam, e nesta hora aquelles que
eram
da
familia da dita Rainha bateram ás portas, e denunciaram que
ella tinha
já paga sua necessaria divida á carne, e falecera.
CAPITULO XVI
Como Santo
Antonio por exemplo destes Martyres tomou o habito
S. Francisco, e do que
seguio
em Marrocos por milagre, e da morte
del-Rei Dom
Affonso
Despois que estes
Santos Martyres começaram de resplandecer
com mui claros milagres que muitos em sua mais profuza lenda se contem,
e por exemplo delles o Bemaventurado Antonio que a este tempo era
Conego no Moesteiro de Santa Cruz mesmo, e se chamava Fernando Martins,
ardendo com dezejo de semelhante Martyrio, entrou na mesma Ordem dos
Menores, em idade de vinte e cinco annos, e nella acabou dez annos,
exclarecido em Santidade, e com milagres. E por esta ida destes Frades,
o mesmo S. Francisco, porque seu exemplo ardia em gram fervor, e dezejo
de Martyrio, passou com sete Frades a terra de Suria, e foi ao Gram
Soldam, e como quer que com grande constancia, e mui sem medo lhe
prégasse a Fé de Christo, o Gram Soldam o tornou
a enviar
livremente, e
são a sua propria terra.
E acha-se por lembranças antigas, que por este Martyrio
destes Santos Frades ser tão cruamente feita em Marrocos, e
com
tanto
desprezo de Deos, e de sua palavra, houve em todo aquelle Reino tantas
esterilidades, e securas, e por tantos annos, que esteve para de todo
se despovoar, e porque geralmente antre
elles, e pelo povo se dizia que
tamanha maldição não viera
á terra salvo pela inocente morte dos Religiosos, El-Rei a
cujas
orelhas este rumor, e clamor chegara, tendo sobre esso concelho com os
Mouros, e tambem com os
Christãos, que estavam ahi, acordaram que onde padeceram,
que
ali com grande arrependimento, e gemidos, e muitas lagrimas viessem,
como vieram pedir a Deos que havendo por esso com elles piedade, se diz
que logo choveo, e veio á terra acostumada
avondança em
todalas
cousas, por cujo beneficio se affirma que El-Rei de Marrocos com todo
seu povo prometeram, e ordenaram que da mesma Ordem dos Frades Menores
fosse dado Sacerdote, ou Bispo a todolos Christãos, que em
Marrocos, e em sua terra
vivessem, e que os Frades fizessem ahi Moesteiro da Ordem de S.
Francisco, em que livremente sempre estivessem, e dessem os Sacramentos
aos
Christãos sem algum receio, o que por muitos annos assi
comprio.
E deste anno de Christo de mil e duzentos e vinte, em que esto sucedeo,
até o anno de mil duzentos e vinte e quatro em que este Rei
Dom Affonso faleceo, não achei que elle fizesse, nem em seu
Reino
sucedesse outras cousas notaveis, pelo qual tendo elle trinta e sete
annos de sua idade, e havendo doze annos que Reinava, faleceo na era de
nosso Senhor de mil e duzentos e vinte e quatro, (1224) e jaz em
Alcobaça, com a
Rainha Dona Orraca sua molher, na Capella grande, que elle em sua vida
mandou fazer diante a porta do Moesteiro, e neste anno se diz que foi
mudado o Convento de Santa Maria, a antiga á nova Egreja, e
Moesteiro
de Alcobaça, que El-Rei D. Affonso Anriques, seu
avô
de fundamento mandou fazer.
DEO GRATIAS
INDEX DAS COUSAS NOTAVEIS
A
Affonso II (D.) de Portugal, que idade tinha, e em que anno foi
levantado Rei,
pag. 17. Foi
cazado com Dona Orraca filha del-Rei D.
Affonso IX de Castella. ibi. Não quer conceder á
Rainha Dona Tareja, e á Infanta Dona Sancha suas
irmãs as
terras que lhes deixara
seu pai D. Sancho I,
pag. 22.
É excommungado pelo Papa
Innocencio III
para que largue os Castellos de Monte Mór, e Alanquer a suas
irmãs,
pag. 24.
É absolvido da
Excommunhão, e com
que circumstancias se
ajustou a tregoa entre estes Principes,
pag.
25 e
26. Contende
judicialmente sobre a mesma materia com suas irmãs, e
é
condemnado a
pagar-lhe uma grande somma de dinheiro,
pag.
27. Em que anno, e idade
morreo,
pag. 30. Onde
está sepultado,
ibi.
Affonso IX (D.) de Castella sogro del-Rei D. Affonso II de Portugal com
quem foi cazado, e que filhos teve,
pag.
18. Manda chamar a seu genro
D.
Affonso II de
Portugal ás Cortes que fez em Burgos, e
não vai,
pag. 21,
onde morreo, e está sepultado,
ibi.
Affonso Pires de Arganil, entrega por ordem do Infante D. Pedro as
Reliquias dos Martyres de Marrocos no Convento de Santa Cruz de
Coimbra,
pag. 55.
Alcacere é cercado pelos Portuguezes e Estrangeiros, e das
pessoas principaes Portuguezas que assistiram neste cerco,
pag. 31. No
seu campo são mortos pelos Portuguezes trinta mil Mouros, e
em
que dia
e anno se conseguio esta vitoria,
pag.
38. O seu Castello depois de uma
larga resistencia é conquistado,
pag.
40. Em que dia e anno
foi
tomado,
pag. 41.
Algozo e Freixo são tomados pelos Ifantes D. Pedro e D.
Fernando em odio de seu irmão D. Affonso II de Portugal,
pag
24.
Antonio (Santo) passa da Religião dos Conegos de Santo
Agostinho para a de S. Francisco,
pag.
58.
Armada de Alemães, e Framengos, que se compunha de cento e
cincoenta naos depois de padecer varias derrotas aportou a Lisboa,
pag.
29.
B
Berardo (Fr.) um dos cinco Martyres de Marrocos, abre milagrosamente na
terra seca uma fonte de que todos beberam, e se admiraram,
pag. 48.
Beringela (Infante Dona) filha del-Rei de Castella Affonso IX cazou com
D. Affonso Rei de Lião, e que filhos teve,
pag. 18.
Branca (Infante D.) filha de Affonso IX, Rei de Castella, cazou com
El-Rei de França, e foi mãi de S. Luis,
pag. 18.
Era mais velha, que sua irmã Dona Orraca,
pag. 20.
C
Constança (Infante Dona), primeira Senhora do Moesteiro das
Holgas de Burgos, foi filha del-Rei D. Affonso de Castella,
pag. 18.
F
Fernando (Infante D.) chamado de Serpa foi filho de Affonso II de
Portugal, e da Rainha Dona Orraca,
pag.
19. Com quem cazou, e que
filhos teve,
ibi.
Fernando (Infante D.) filho de Affonso IX de Castella morreo de idade
de dezaseis annos, pag. 8. Foi a Roma buscar a Cruzada que o Papa
concedeo a seu pai para a batalha das Navas de Tolosa,
pag. 21.
Foral. Em que anno foi dado por El-Rei D. Affonso II á Villa
de Alcacere,
pag. 41.
Francisco (S.) O que disse quando teve noticia do Martyrio dos
seus cinco Religiosos em Marrocos,
pag.
56. Passa com sete
Frades
á Suria a prégar a Fé seguindo o
exemplo daquelles
cinco
Martyres,
pag. 58.
G
Gonçalo (D.) Mestre, e Prior do Esprital se achou no cerco
de Alcacere,
pag. 31.
H
Henrique de Neusa (D.) Capitão de uma Armada Estrangeira,
que constava de trinta e seis naos, arribáram ao porto de
Setuval, e
junto com os Portuguezes batalham com os Mouros que estavam senhores de
Alcacere, e
sahem vitoriosos,
pag. 34.
I
Innocencio III manda excommungar pelo Arcebispo de Santiago, e o Bispo
de Çamora a Affonso II por negar os Castellos de Monte
mór e Alanquer a
suas irmãs que seu pai D. Sancho I lhe deixara,
pag. 24.
L
Lianor (Dona) filha del-Rei D. Henrique de Inglaterra, cazou com
Affonso IX de Castella, pag. 2. Que filhos teve daquelle Principe,
pag.
18.
Lianor (Infante Dona) filha del-Rei D. Affonso IX de Castella cazou com
D. James I Rei de Aragão,
pag.
18.
Lianor (Infante Dona) Neta de Affonso II de Portugal cazou com El-Rei
de Dacia,
pag. 19.
Lianor (Infante Dona) filha de Affonso II de Portugal cazou com o filho
herdeiro del-Rei de Dinamarca,
pag. 19.
M
Martim Affonso Tello sobrinho do Infante D. Pedro é morto em
Marrocos,
pag. 51.
Martim Barregam
Commendador de Palmella se achou no cerco de Alcacere,
pag. 31.
Martyres que padeceram em Marrocos como se chamavam,
pag. 42.
São recebidos em Coimbra pela Rainha Dona Orraca,
pag. 43.
Foram
tratados com grande benevolencia em Alanquer pela Infante Dona Sancha
irmã de Affonso II de Portugal,
ibi.
Pregam animosamente em
Sevilha contra a ceita de Mafamede,
pag.
44. Crueis Martyrios que
padeceram,
pag. 49.
São degolados por El-Rei de Marrocos,
pag.
50. Anno, e dia
do
seu Martyrio, ibi. São queimados os seus corpos, e
maravilhas
que
então sucederam,
pag. 51.
Como foram trazidos os seus corpos
a
Coimbra,
pag. 54 e
55.
Matheus (D.) Bispo de Lisboa recebe aos Estrangeiros que vinham em uma
Armada que aportou áquella Cidade, e os exhorta á
conquista de Alcacere,
pag. 29.
Achou-se no cerco de Alcacere,
pag. 51.
Faz uma pratica aos soldados Portuguezes e Estrangeiros que estavam no
campo de Alcacere para que não levantem o sitio, mas que
tomem a
Praça.
pag. 36.
Melgaço é tomado pelos Infantes D. Pedro e D.
Fernando com alguma gente de Lião em odio de seu
irmão D. Affonso II de
Portugal,
pag. 24.
Mouros. Como se houveram esforçadamente no sitio de
Alcacere,
pag. 33.
Governados pelos Reis de Sevilha, Cordova, Jaen, e
Badalhouse vem soccorrer Alcacere,
ibi.
São derrotados, e
mortos
trinta mil
no campo de Alcacere,
pag. 38.
O
Orraca. Princezas varias que tiveram este nome,
pag.
20.
Orraca (Dona) filha del-Rei D. Affonso IX de Castella
foi
cazada com D.
Affonso II de Portugal,
pag. 17.
Era mais moça que Dona
Branca,
pag. 20. Recebe em
Coimbra aos Martyres de Marrocos, que lhe
pronosticaram a sua morte,
pag. 40.
Quando morreo,
pag. 56. Onde
está sepultada,
pag. 59.
P
Pedro (Infante D.) filho de Sancho I de Portugal, veio socorrer a sua
irmã Dona Tareja, que estava recolhida no Castello de Monte
mór, contra seu irmão D. Affonso II,
pag. 23.
Estando em
Marrocos recebe
em sua caza aos Santos cinco Religiosos que alli padeceram martyrio,
pag. 45.
É livre de gravissimos perigos por intercessão
dos mesmos
Santos Martyres,
pag. 53.
Alcança licença del-Rei
de
Marrocos para
trazer as Reliquias dos mesmos Marryres para Portugal,
ibi.
Pedro (D.) Mestre da Ordem da Cavallaria do Templo se achou no cerco de
Alcacere,
pag. 31.
Pedro Fernandes de Castro chamado o Castellão é
morto em Marrocos,
pag. 51.
Pedro Nunes (D.) Conego e Sacristão do Moesteiro de Santa
Cruz de Coimbra, Confessor da Rainha Dona Orraca teve uma admiravel
visão dos Santos Martyres de Marrocos,
pag.
56.
R
Rei de Marrocos pela sua propria mão degolou os cinco
Martyres da Ordem de S. Francisco,
pag.
50. Castigo que experimentou
por esta impia crueldade,
pag. 56.
Movido das grandes calamidades que
padecia
o seu Reino
concede liccença que os Frades Menores
levantem
Convento em Marrocos,
pag. 59.
Reliquias Dos Santos Martyres de Marrocos como foram trasidas, e dos
milagres que obraram pela jornada,
pag.
53. Do modo como foram
recebidas em Santa Cruz de Coimbra,
pag.
55.