Co'a vossa santa colera,
raio que fere e brilha,
ao impio que se humilha
não fulmineis, Senhor!
N'este meu seio embebe-se
a vossa frecha ardente,
e a mão omnipotente
me opprime em seu furor.
Da vossa ira o halito
seccou-me membro a membro,
e ai! se então me lembro
do meu longo peccar,
de como olvidei, réprobo,
santos dictames vossos,
oh! sinto até meus ossos
um frémito agitar!
O fardo immenso e horrido
da minha iniquidade,
á voz da Divindade,
a fronte me curvou.
Da minha carne as ulceras
corrompe-as a lembrança
da impia atroz folgança,
que a Deus me arrebatou.
Era triste, profundamente triste a voz, que assim
cantava nos abysmos do Oceano as primeiras palavras
do primeiro psalmo da penitencia. Ia enfraquecendo
pouco a pouco até desfallecer quasi de todo no ultimo
verso, mas então a voz vibrava de novo com aspere
Era triste, profundamente triste a voz, que assim
cantava nos abysmos do Oceano as primeiras palavras
do primeiro psalmo da penitencia. Ia enfraquecendo
pouco a pouco até desfallecer quasi de todo no ultimo
verso, mas então a voz vibrava de novo com aspereza, e
era quasi uma gargalhada infernal, de desafio ao Eterno,
o grito ironico com
que voltava a cantar os seguintes
versos:
Co'a vossa santa colera,
raio que fere e brilha,
ao impio que se humilha
não fulmineis, Senhor!
N'este momento rasgaram-se as ondas, como se um
novo Moysés lhes tocasse com a varinha magica.
Entremostraram-se
aos olhos do espantado moço as profundidades
do mar. Foi isso rapido como um relampago,
mas deu-lhe tempo sufficiente para vêr o interior de
uma egreja gothica esplendidamente illuminada com uma
immensa profusão de cirios. Uma longa fileira de guerreiros
da edade média cercava os altares, mas no meio
da nave campeiava, coisa estranha! a meza de uma orgia,
e as taças de oiro, cheias de vinho espumoso, ostentavam-se
em cima da toalha. Uma mulher formosa
como os anjos, mas tendo na fronte pallida não sei que
inexprimivel sêllo da maldição divina,
ergueu-se, como
se fosse sustentada por azas invisiveis, até á
superficie
dos mares. Cerrou-se de novo o abysmo, e as ondas
purpureadas pelo reflexo dos cirios estenderam por
cima d'essa mysteriosa egreja o seu liquido docel.
E o vulto feminino, com as vestes alvejantes ondeando
por cima das vagas, e roçando a fimbria na orla da espuma,
que o clarão vermelho fazia espuma de sangue,
com a corôa da orgia ainda na fronte, encaminhou-se
lentamente para o sitio onde o barco parára, porque o
pescador ainda não ousára nem sequer levantar-se.
O phantasma deslisava por cima das ondas, como se
invisivel mão o impellisse; já estava proximo do
bote,
e os seus olhos negros, onde scintillava uma chamma
infernal, exerciam
uma incrivel fascinação no
nosso heroe.
Afinal parou, e os seus braços estenderam-se vagarosamente
para elle, a fronte pallida tombou-lhe para
o hombro, como lyrio pendido pelo tufão. Ignota languidez
suavisou-lhe o fogo do olhar. As tranças negras
desprenderam-se-lhe e fluctuaram-lhe nas espaduas. Os
labios descerraram-se, e a sua voz doce e melodiosa
suspirou, como um triste queixume os versos:
N'este meu seio embebe-se
a vossa frecha ardente,
e a mão omnipotente
me opprime em seu furor.
Cego, louco, fascinado, o juvenil passageiro do bote
nem forças teve para resistir á
seducção. Inclinou meio
corpo para fóra do barco, estendeu as mãos, e ia
precipitar-se
nas ondas.
—Jesus! bradou o barqueiro.
O phantasma soltou um bramido de desesperação,
as ondas rasgaram-se de novo, e quando o moço abriu
os olhos, que fechára de deslumbrado pela chamma que
faiscára nas pupillas negras da gentil desconhecida,
já
o vulto feminino desapparecêra.
Mas as ondas continuavam a conservar a sua côr escarlate,
e o canto dos psalmos vibrava ainda na immensidade.
III
O terror tirára as forças ao barqueiro, o terror
lh'as
deu de novo. Lançou mão dos remos, e o bote
afastou-se
rapidamente d'aquelle terrivel sitio.
—Sabes a historia
do que estamos vendo? perguntou
o companheiro do pescador, com voz ainda agitada.
—Oh! se sei, senhor, é uma historia terrivel. Mas
não é n'este sitio nem a esta hora que eu a hei
de
contar.
—Conta, tornou o interrogador imperiosamente, já
estamos longe do ponto fatal, e a voz dos réprobos
vae-se perdendo no horisonte.
O barqueiro hesitou um instante, depois principiou
em voz tão baixa que mal se percebia, e sem deixar de
impellir vigorosamente o bote, a seguinte
narração:
«Havia aqui d'antes, ha um bom par de annos, e
junto d'aquelle castello, cujas ruinas ainda póde divisar
penduradas como ninho de aguias em cima das fragas,
uma egreja que fôra mandada construir por um devoto
fidalgo d'aquelle solar, fidalgo que morreu em cheiro de
santidade. A igreja era tida em conta de milagrosa, e alli
concorriam immensos fieis attrahidos pela fama do templo,
e pelas virtudes do capellão, homem de vida austera,
affectuoso para com os humildes e nada servil com
os grandes, a quem dizia as verdades por mais amargas
que fossem, quando entendia que assim o exigiam
os deveres do seu ministerio.
«Vivia então no castello um fidalgo devasso, filho
do
fundador da egreja, o qual, se lhe herdára as riquezas,
não lhe herdára as virtudes, porque os thesouros
da
terra na terra ficam, mas os thesouros do céo esses
voltam com o seu possuidor para o seio do Omnipotente.
«Tinha esse fidalgo uma irmã. Linda era ella.
Gentil
a mais não poder ser. Dizem que o rosto é o
espelho
da alma, e se assim fosse, ninguem possuia mais
formosa
indole nem
mais candido espirito do que a irmã
de Guilherme, a filha do virtuoso Pelayo. Mas não era
assim. A natureza esmerára-se tanto em lhe aprimorar
a belleza physica, que se esquecêra de certo de cuidar
com egual desvelo na formosura moral. É assim que
dizem que Satanaz tem uma belleza seductora, e que
seria um guapo archanjo, se o pé caprino não
revelasse
a quem se deixa fascinar pela etherea gentileza
do anjo maldito, que está a contas com o pae da mentira.
Infelizmente Ignez não tinha esse signal que a
distinguisse dos anjos de que parecia irmã, e, se algum
cauteloso enamorado, para tranquillidade de consciencia,
lançasse
uma vista de olhos
para o
pésinho encantador
da formosa filha de Pelayo, não fazia mais do que
completar a fascinação, e, em vez da agua benta,
com
que tencionava aspergil-o, era natural que o cobrisse de
beijos, tão airoso era elle e tão pequenino,
tão pequenino
que parecia que a natureza, ao esquecer-se de
lhe formar a alma, se esquecêra tambem de lhe formar
o pé.
«Quando ella passeava a cavallo por essas ferteis varzeas,
montada elegantemente n'um lindo cavallo preto,
todos se ficavam enlevados a contemplal-a, e não havia
donzella nem rico homem que não sacrificasse de boa
vontade a vida para fazer brotar um raio d'amor na
pupilla negra da gentil Ignez. Mas ninguem o conseguia,
e o marmore d'aquelle rosto adorado nunca se
purpureára com o rubor da paixão. Engano-me.
Paixão
sentia ella, vehemente, incestuosa, horrenda, e que lhe
devia incendiar o rosto não no vivo escarlate do pejo
de donzella enamorada, mas sim no rubor da vergonha
e do remorso. A réproba amava seu irmão!
«E não imagine que ella occultasse essa
paixão criminosa.
Pelo contrario gloriava-se d'ella impudentemente.
E o espectaculo, que davam aquelles dois impios,
era um escandalo contínuo para os bons christãos
dos arredores.
«Não se faz idéa das orgias freneticas
e loucas, a
que no castello se entregavam aquelles dois abandonados
de Deus. Quem passasse á meia-noite pelo caminho
que serpeia na montanha, e onde estava situado o solar
defrontando com a egreja, havia de parar cheio de
religioso terror ao vêr de um lado o immenso
clarão
das luzes incendiando as vidraças da sala da orgia, ouvindo
os cantares ebrios, os risos descompassados, as
blasphemias, as musicas voluptuosas, e dando com a
vista do outro lado na casa do Senhor, muda, deserta,
sepultada em trevas, como um terrivel archanjo que
contemplasse com olhar sevéro os folgares dos malditos,
e que esperasse silencioso que soasse a hora da
punição.
«O mar batia de continuo nos rochedos, e aquelle
ruido incessante, se o ouvissem nas salas, havia de
lhes soar lugubremente como a voz justamente irritada
do Deus vingador.
«A egreja e o mar! Diante do templo erigido pela
piedade dos homens, diante do templo immenso em que
mais se revela a imagem da Providencia, como poderia
haver quem esquecesse por tal fórma os preceitos da
lei divina?
«Pois havia! e á noite, quando na mysteriosa
soledade
da nave, se erguiam os mortos do seu leito de
pedra para se ajoelharem diante do altar, quando o vasto
Oceano desprendia dos seus labios de espuma o hymno
religioso com que
celebra a omnipotencia de Deus,
accendiam-se as luzes no salão do castello, sentavam-se
á meza da orgia Guilherme e Ignez e alguns
cortezãos
das suas devassidões, porque os seus eguaes todos se
haviam desviado d'aquella Gomorrha amaldiçoada, sobre
a qual cedo ou tarde cairia o fogo do céo; e a
irmã do castellão, no fim do banquete, cingia a
fronte
com uma grinalda de rosas, empunhava a harpa, e cantava
canções bacchicas com essa voz melodiosa, pura
e vibrante, que os anjos lhe invejavam, para descantar
os seus hymnos de louvor ao Eterno.
«Um dia o velho capellão, que fôra o
primeiro padre
que dissera missa na egreja cujo fundador fôra o pae
dos dois devassos, dirigiu-se ao castello, tencionando
chamar para o redil da egreja aquellas duas ovelhas
desgarradas por atalhos de maldição.
«Nada conseguiu senão excitar o odio de Ignez, que
ouviu furiosa as reprehensões do padre, e que foi
immediatamente
queixar-se a Guilherme da insolencia do
sacerdote, e pedir-lhe, como premio de amor, a cabeça
do digno homem, como outr'ora Herodias pedia a Antipas
a cabeça de S. João Baptista.
«Não ousou conceder-lh'a Guilherme. Conservava
ainda, no meio dos seus vicios, um respeito supersticioso
por seu pae, e não ousava tocar na pessoa inviolavel
d'aquelle a quem Pelayo confiára o templo que
fundára.
«Não insistiu Ignez; mas projectos de
vingança atroz
calaram immediatamente n'aquelle espirito pervertido.
«Uma noite, noite de Natal, a chuva caía em
torrentes,
açoitando egualmente as vidraças do castello,
illuminadas com o clarão do festim, e os vidros de
côr
da egreja atravez
dos quaes coava a religiosa luz dos
tocheiros accesos para se celebrar a tocante solemnidade
da missa da meia-noite.
«O mar rugia de encontro aos rochedos, e soltava
ora gemidos pavorosos, ora lamentosos queixumes.
«O vendaval corria infrene por sobre as ondas.
«De mais folias ainda do que de costume era testemunha
o salão do castello. Os gritos dos ebrios ouviam-se
cá fóra distinctamente, e faziam com que todos
os que se dirigiam á missa se persignassem com horror.
«Sentada n'uma cadeira de espaldar, junto de seu
irmão,
Ignez, com os cabellos em desordem, soltos pelas
espaduas núas, com a lascivia no olhar e na attitude,
desferia a harpa de oiro e descantava as mais alegres
canções.
«O vento e o mar soltavam cá fóra os
seus tristes
e lugubres lamentos.
«De repente soou meia-noite na torre da egreja. Os
repiques da sineta annunciaram immediatamente que
ia principiar a missa.
«Cessaram os risos e os cantares no castello de Guilherme.
Só Ignez com o seu diabolico sorriso a pairar-lhe
nos roseos labíos, exclamou:
«—De que vos temeis, nobres cavalleiros? Tão
desgeitosa
estou já no dedilhar da harpa, que lhe prefiram
o agudo cantar da sineta? Tão enfraquecida está a
minha
voz, que cessem de a escutar para ouvirem o
bronze de um campanario?
«N'este mesmo instante um raio fuzilou no espaço,
inundando a sala com a sua luz phosphoríca, e o vendaval,
redobrando de força, fez em estilhas uma das
vidraças.
«Todos sentiram um convulso tremor percorrer-lhes
as veias, e o proprio Guilherme limpou o suor frio que
lhe escorria na testa. Ignez continuou:
«—Receiaes a tormenta? Quereis um conselho?
Deixemos esta sala que o vento vae tornar inhabitavel,
e que a chuva vae inundar, e vamos procurar um abrigo
na egreja. Alli, sim, que é sala commoda. Utilisemol-a.
Um ultimo copo de vinho, meus senhores, e façamos a
transferencia.
«Todos obedeceram ás ordens da formosa Ignez.
Beberam
um copo de vinho, e ergueram-se bradando resolutamente:
«Para a egreja.»
«O ministro de Deus subira n'esse instante ao altar
revestido dos seus sagrados paramentos. Tornavam-n'o
respeitavel o seu caracter augusto de immaculado sacrificador,
e ainda mais o seu diadema de cabellos
brancos, e a invisivel aureola de virtudes que lhe circumdavam
a fronte.
«A multidão ajoelhada sentia como que o espirito
de
Deus baixar ao templo, evocado pelo santo sacerdote.
O orgão começava a gemer os seus doces cantares.
A
tempestade parecia respeitar aquelle sacro asylo, suspirando
plangente nas frestas ogivaes, e não rugindo
pavorosa, como quando sacudia as suas negras azas
em torno do castello.
«Tudo era socego e serenidade n'aquella divina estancia.
«Subito irrompeu pelo portal da egreja a turba dos
ebrios, em descompostos cantares. Ficou gelada de terror
a devota multidão. Perturbado quando erguia a
Deus o immaculado espirito, o sacerdote voltou-se e
deu com os olhos na bella Ignez, que vinha na frente
encostando-se com
insolente descaro ao braço de seu
irmão.
«Inflammado em santa colera, o velho ministro do
Senhor desceu os degraus do altar, e, dirigindo-se aos
recem-chegados, bradou com voz sonora, em que vibrava
o echo das iras de Deus:
«—Parae, não profaneis o templo, e não
obrigueis a
fulminar-vos o raio de excommunhão, que vos está
impendente.
«Era venerando o vulto apostolico do santo varão.
O povo caíu de joelhos, e a tempestade suspendeu os
seus bramidos, como que respeitosa e tremula.
«Ouviam os elementos desvairados a voz do ministro
do Omnipotente. Só ficavam cerrados os ouvidos dos
impios.
«Era porque chegára a hora fatal, e a
taça das iniquidades
trasbordára emfim.
«Ignez sorriu-se meigamente para seu irmão. Que
doce, que angelico sorriso! Quem diria que esse sorriso,
que rescendia amores, era apenas um incitamento
ao assassino?
«Pois foi. Guilherme allucinado arrancou do punhal,
e feriu o velho sacerdote.
«O sangue espadanou da ferida, e salpicou, tingindo
de escarlate o candido vestido de Ignez.
«A multidão fugira horrorisada, os criados, impios
como seus amos, haviam trazido n'esse instante a meza
da orgia.
«Mas assim que baqueou o sacerdote, a tempestade,
suspensa por um momento, soltou-se com novo furor.
Rugiu o vento nas frestas da egreja, fuzilaram os raios,
bramiu, quebrando-se nos «Mas assim que baqueou o sacerdote,
a tempestade,
suspensa por um momento, soltou-se com novo furor.
Rugiu o vento nas frestas da egreja, fuzilaram os raios,
bramiu, quebrando-se nos rochedos, o Oceano enfurecido,
e
os tumulos de pedra da egreja estalaram como
se fossem de vidro.
«E do tumulo de mais primoroso lavor, surgiu, envolto
na mortalha, o espectro de Pelayo, o fundador da
egreja. Ondeiavam-lhe ainda as barbas nevadas sobre
o funebre escapulario, e das orbitas cavadas, coisa horrivel!
brotavam lagrimas ardentes.
«Ergueu-se, ergueu-se; já não tocava
com os pés no
chão marmoreo da egreja. O vento engolphando-se pelo
portal do templo, agitava-lhe as pregas da mortalha.
Com as mãos unidas, em attitude de
oração, o velho
finado, subindo lentamente nos ares, parecia um d'esses
prophetas que o Senhor Deus arrebatava para as
alturas do Empyrio.
«Quando chegou ao tecto, o tecto abriu-se como por
encanto e o venerando finado continuou a sua magestosa
ascensão na atmosphera que se esclarecia em torno
d'elle, como se aquelle cadaver irradiasse luz.
«Os impios haviam ficado immoveis e attonitos de
terror. Mas, apenas o velho Pelayo se sumiu ao longe
na região das nuvens, resoou em toda a egreja um terrivel
estampido. O orgão vibrou, sem que mão humana
o tocasse, e o tremendo
Dies irae
jorrou em torrentes
de severa melodia pela nave do templo. Vacillaram os
columnelos, nos frisos e laçarias gemeu o vento em
canticos sinistros, e, como se o vendaval a tivesse arrancado
pela base, aquella mole immensa levantou-se
do chão, oscillou nos ares como impellida por invisivel
fundibulario, e arrojou-se ao Oceano, levando no seu
seio os profanadores, que soltaram um ultimo rugido
de desespero.
«Abriu-se o mar para tragar a preza enorme que se
lhe offerecia,
depois a liquida superficie uniu-se de
novo, e essa mortalha immensa, cujas pregas são as
ondas, desenrolou-se para encobrir esse cadaver de
pedra.
«Desde então todas as noites, ao bater da
meia-noite,
accendem-se os cyrios na egreja sepultada, e, no fundo
do mar, os réprobos entoam os psalmos da penitencia.
«A voz de Ignez sobreleva a todas, e exerce ainda,
do fundo do Oceano, a sua irresistivel seducção.
«Ás vezes ergue-se o phantasma da formosa
até ao
cimo das ondas, e arrasta para os abysmos os incautos
que cedem ao magico poder dos seus feitiços.
«Proteja-nos o Senhor contra estas
tentações. Eis-nos
chegados á praia.
O barqueiro amarrou o bote, e saltou em terra. O
moço passageiro ficou largo tempo a contemplar o
Oceano.
As ondas conservavam ainda ao longe o seu reflexo
escarlate, e a voz dos precitos, enfraquecida pela distancia,
vinha expirar na praia em melancolica toada.
Aos primeiros clarões da aurora tudo se dissipou;
apagou-se a pouco e pouco a luz vermelha, ao passo
que se ia aclarando mais o horisonte, e que as ondas
se iam branqueando com o tenue fulgor do alvorecer.
O canto dos malditos foi tambem esmorecendo a
pouco e pouco, até que a ultima nota vibrou solitaria
no espaço; e esse silencio singular que precede o romper
do dia foi apenas
quebrado pelo hymno eterno do
marulhar das ondas.
[1]
Houve um momento de silencio, quando o doutor
Macedo acabou a leitura do romance. N'aquelle grupo
havia de certo n'esse instante um coração que
esse silencio
fazia bater com desusada violencia. Afinal Lucio
Valença quebrou o encanto, dizendo:
—Decididamente, caro doutor, o nosso desconhecido
collega deu um golpe de mestre, escolhendo o para
leitor de uma lenda. A sua voz deu-me arripios, as suas
inflexões resuscitaram a meia-noite. Co'a breca! houve
um momento, em que me não atrevi a olhar para a
janella,
com medo
de vêr encostado aos vidros o espectro
fascinador de Ignez.
—Ah! de certo, disse ou antes balbuciou Leonor,
nem assim se póde avaliar o merito da lenda. O doutor
é como um d'estes actores, que transformam sempre
em magnificos papeis as mais insignificantes banalidades.
O doutor sorriu-se para ella maliciosamente, mas ao
mesmo tempo um concerto de elogios protestava contra
a phrase dubia de Leonor. O mais ardente no applauso
era Henrique Osorio.
—Bem! chegou o momento solemne! disse Macedo,
o publico chama pelo auctor, e eu, como no theatro
francez e hespanhol, depois dos tres cumprimentos do
estylo, vou arrojar o nome do poeta á platéa
enthusiasmada.
Se me dispensam dos cumprimentos, substituo-os
por uns certos effeitos oratorios.
—Vá! vá! diga, doutor! bradaram todos em
côro.
—Um! exclamou o doutor Macedo, batendo as palmas;
o auctor é uma senhora linda, elegante e espirituosa.
—Isso é abusar, doutor! bradaram os circumstantes
indignados.
—Dois! tornou Macedo. Acha-se presente a referida
senhora.
—Estrangulamol-o? propoz Lucio Valença.
—Um voto de censura na acta! bradou o visconde
da Fragosa, sempre parlamentar.
—Dependuramol-o da
janella
até elle dizer o
nome!
exclamou Henrique Osorio.
—Já o tinha dito, se vocês me não
interrompessem,
exclamou placidamente o doutor Macedo emquanto a
viscondessa da
Fragosa, Leonor e Isaura riam a bom
rir da alegre scena.
—Então falla,
ventre-saint-gris! bradou Roberto
Soares.
—
Ventre-saint-gris não
é da edade média, sr. Roberto
Soares, disse o doutor Macedo que já erguera as
mãos
para bater as palmas pela terceira vez, e que tirou
tranquillamente um charuto da algibeira.
—Uma corda! bradou Henrique Osorio.
—E um algoz de boa vontade! exclamou Lucio Valença.
—Á ordem! acudiu logo o visconde da Fragosa.
Então, o doutor Macedo, com o charuto ainda não
acceso nos dentes, bateu as palmas, e disse:
—Tres!
Estabeleceu-se um profundo silencio.
—A lenda que tive a honra de submetter á
apreciação
de vv. ex.
as, concluiu o doutor, foi escripta
pela
ex.
ma sr.
a D. Leonor de
Mattos e Vasconcellos, filha do
nosso excellente amigo, visconde da Fragosa.
—Tu, Leonor! exclamou Henrique Osorio estupefacto.
—Tu, filha! disse a viscondessa com os olhos rasos
de agua.
—Eu logo vi que tinha sido ella, exclamava o pae
todo ufano.
Confusa no meio de todos os comprimentos, com que
em todas as familias se festejam as mais insignificantes
estreias litterarias do filho mimoso da casa, Leonor nem
ousava erguer os olhos para Henrique. Este contemplava-a
pasmado, depois mirava a furto Isaura, um
pouco fria, um pouco descontente com a ovação da
sua
amiga,
e evidentemente de si para si
lamentava que
não fosse a pallida menina a sonhadora das phantasias
da
Egreja profanada.
Mas tambem, quando tornava a mirar Leonor, e a
via modesta, perturbada, evidentemente envergonhada
de ser o alvo de todas as attenções, agora mil
vezes
mais affavel com Isaura do que até ahi, como que pedindo-lhe
perdão do seu involuntario triumpho, Henrique
não podia deixar de dizer de si para si que havia
um abysmo entre a pretenciosa frivolidade de Isaura e
a desaffectada simplicidade de Leonor, que bem se via
que não dava ao seu conto maior valor do que elle merecia,
e que, escrevendo-o, parecia ter querido mostrar
apenas que não era estranha ás altas
preoccupações do
espirito, e que a sua phantasia tambem tinha azas para
se arrojar ao mundo do ideal.
E, emquanto a conversação volteiava alegremente
em
torno do conto de Leonor, emquanto uns narravam os
calafrios que tinham sentido, e outros felicitavam o leitor
e a auctora, Osorio, encostando a fronte na mão,
ficou profundamente pensativo.
Instantes depois, dispersava-se a companhia, e Leonor,
passando junto de Henrique para se retirar para
o seu quarto, sentia poisar na sua mão, para a demorar,
a mão tremente do seu companheiro de infancia.
Ella estremeceu toda, como se se tivesse posto em
contacto com uma garrafa de Leyde.
—Sabes, disse-lhe elle, que achei encantador o teu
conto?
—Sabes que te não acredito? respondeu ella, rindo,
e já senhora de si.
—Oh! eu não faço a critica litteraria do
romance.
É
provavel que tenha innumeros defeitos. Digo-te apenas
que me impressionou. Quando o escreveste?
—Hoje!
—Hoje? acudiu elle cravando em Leonor um olhar
profundo.
—Sim, tornou ella com o coração a bater-lhe
violentamente,
córada até á raíz dos
cabellos, mas resoluta,
quiz-te mostrar que já passou para mim o tempo das
bonecas, e que o que me preoccupa o coração e o
espirito
não são já as puerilidades dos nossos
brinquedos
de outr'ora, mas os affectos e as paixões da mulher.
Henrique apertou-lhe docemente a mão.
—Foi por minha causa, pois, que espertaste a phantasia,
para escreveres essa lenda? Tive eu a ventura
suprema de preoccupar devéras o teu espirito intelligente?
de fazer pulsar com mais força o teu ingenuo
e nobre coração?
—Henrique! murmurou ella.
—És um anjo, Leonor! disse elle em voz baixa.
O doutor Macedo encaminhava-se para onde estavam
os dois. Leonor despediu se, e toda palpitante
de commoção
e... dil-o-hemos... tambem!... de alegria,
dirigiu-se para o seu quarto.
O doutor Macedo sorriu-se para Henrique, e murmurou
maliciosamente:
Si je vous le disais pourtant que je vous aime,
Qui sait, brune aux yeux bleus, ce que vous en diriez?
—O que! era esta, doutor? exclamou Henrique.
—Pois quem, meu creançola? É necessario ter a
myopia amorosa dos
vinte annos para o não perceber
ha immenso tempo.
—Que quer você, Macedo! tornou Henrique, Leonor
foi minha companheira de infancia. Havia entre nós,
em creanças, uma certa desproporção de
edades. Entre
dois pequenitos uma differença de cinco annos abre um
abysmo! Na mocidade é um curtissimo intervallo. Costumei-me
a vêr sempre em Leonor uma creança. A
mulher feita revelou-se me agora, ao ouvir
lêr o conto
que ella escrevêra. Então contemplei-a, e li nos
seus
formosos olhos a bondade da sua alma, e a virgindade
do seu affecto. Só agora percebi o tremor da sua voz
nas palavras que me dirigia! E eu passava junto d'ella
quasi sem a conhecer!
—Meu amigo, tornou Macedo, isso é uma historia
vulgar. Tem a gente ao pé da porta um lago tranquillo,
risonho, córado pelo esplendor do sol, nunca se lembra
de mergulhar n'essas aguas limpidas para colher a
perola que lá brilha no fundo, vae procural-a
então ao
mar das tempestades, mergulha, e encontra ostras.
Boa noite, meu amigo.
E dirigiu-se para o seu quarto. Henrique imitou-o,
mas n'essa noite não dormiu. A imagem que fluctuava
diante dos seus olhos semi-cerrados, não era,
não, a
pallida imagem de Isaura.
Devemos dizer que na noite immediata, esqueceu
completamente a hora fatidica, e que tendo Lucio Valença
pedido a palavra ás dez horas e meia da noite,
allegando que era longo o seu romance, que, sendo
phantastico, por
isso que o personagem principal era
um ente inanimado, tinha comtudo uma pequena parte
propriamente legendaria, e que portanto podia começar
a ser lido antes da meia noite; acolhe-se com applauso
esta idéa, e Lucio Valença começou
logo depois do chá
a leitura do seu volumoso manuscripto. O doutor fizera
uma careta ao avaliar o numero de paginas que ia ter
que ouvir; Henrique Osorio e Leonor, enlevados nas
doçuras de um amor nascente, não tendo olhos
senão
um para o outro, amaldiçoavam a leitura que os ia privar
de algumas horas de doce conversação; Isaura,
despeitada, furiosa por ter visto fugir-lhe um dos seus
vassallos, e mais furiosa ainda por lhe falharem todos
os manejos que empregava para reconquistar o inconstante,
que tratára com tão soberbo desdem quando o
tivera nos seus ferros, dirigira de pura colera as suas
baterias para Lucio Valença, e preparára-se
portanto
para ouvir o conto com a mais profunda attenção.
O visconde da Fragosa, o conselheiro Madureira e
um honrado e silencioso proprietario de Val de Prazeres,
que vinha completar a partida do visconde, não
abandonaram sem um suspiro o
boston.
Resignaram-se,
porém, e Lucio Valença, presentindo vagamente a
hostilidade
do auditorio, começou com voz não muito firme
a leitura do manuscripto, que se intitulava
Memorias
de uma bolsa verde.
MEMORIAS D'UMA BOLSA VERDE
I
Um dia fôra eu assistir, por curiosidade, a um
leilão
que se fizera em casa de uma rica viuva que fallecêra.
Os parentes, apressados em se desfazerem de todos
esses moveis, que para elles não tinham valor algum,
abriram o leilão apenas se fechou a campa que ia encerrar
a pobre finada. O que importavam aos herdeiros
esses pobres livros, por exemplo, sobre os quaes se
debruçàra tantas vezes a fronte encanecida da
viuva,
esses mysteriosos confidentes dos seus pezares e das
suas saudades, cujas paginas teriam sido regadas com
tantas lagrimas, e que tantas vezes teriam repousado
sobre os seus joelhos tremulos, quando ella, interrompendo
a leitura nocturna, fitasse os olhos humedecidos
no sitio onde seu marido se costumava sentar, a lampada
a cuja doce luz tinham tantas vezes travado uma
d'essas deliciosas
conversações intimas, tornadas
mais
suaves ainda pelo conchego do lar, e pelo prazer de
sentir a chuva bater nas vidraças, e o vento gemer de
caixilhos das janellas? Que significação tinham
essas
coisas para os corvos ávidos, que esperam anciosamente
que o corpo se transforme em cadaver, para
descerem em bandos a saciar a fome impaciente? E
quem sabe se, reunidos em volta do leito mortuario,
não miravam com os olhos affectadamente compungidos,
onde brilhavam algumas lagrimas de convenção,
os trastes do quarto, e os proprios lençoes que agitava
o estertor da moribunda? Quem sabe se elles não estariam
já calculando o valor approximado d'esses objectos?
Ai! todo o anjo, que baixa a este mundo, tem
um demonio que lhe espia os passos, que o segue cautelosamente
sorrindo com um sorrir diabolico, que esconde
na sombra projectada pelas azas brancas do habitante
do céo as negras azas do habitante do inferno,
e que, apenas aquelle acaba de cumprir a sua missão
divina, começa a cumprir a sua missão infame, e a
desfazer por todos os modos o effeito salutar produzido
pela candida apparição.
Após o anjo do amor vem o demonio do ciume, após
o anjo da caridade o demonio da ingratidão, após
o
anjo da morte o demonio da cubiça.
Morre uma creatura boa, pura, santa; vem um anjo
de Deus cerrar-lhe os olhos, e levar para os céos, no
regaço da sua tunica transparente, o espirito immaculado
que se desprendeu do invólucro terreno. No rosto
do cadaver, sereno e tranquillo, fica como que um reflexo
do clarão que derramaram sobre elle as azas luminosas
do Senhor. Nada mais proprio para inspirar
respeito do que
essa morte socegada, tão socegada como
a de um passarinho que esconde sob a aza a gentil cabecinha.
Uma suave compuncção se apodera do animo
de todos os circumstantes. Ninguem ousa perturbar o
magestoso silencio da camara funeraria; todos temem
profanar a augusta santidade d'aquella scena. Mas o
demonio da cubiça lá estava espreitando
á porta com
o seu olhar de tigre. Assim que o anjo bateu as azas,
entrou pé ante pé, debruçou-se sobre
todas as frontes
pendidas, bafejou-as com o halito repugnante, e logo
todos se ergueram apressadamente, e trataram de fazer
desapparecer o cadaver, de annunciar o leilão, de
preparar tudo para se reduzir a dinheiro, e para se fazerem
as partilhas. «É preciso tratar da
vida», dizem
elles. Regateiam-se as despezas do enterro, e, para se
resarcirem d'ellas, não conservam um unico objecto,
por mais desprezivel que seja o seu valor. Ahi tem
pouco mais ou menos a scena horrenda que precede
um acto tão natural como é um leilão.
Por isso eu sempre resinto uma impressão desagradavel,
quando me vou confundir com a multidão de
compradores que penetram, com tão pouco respeito,
n'esses quartos outr'ora tão socegados, agora tão
ruidosos.
No dia em que assisti ao leilão em que fallo, occorreram-me
estas idéas que acabo de expender.
Já se tinha vendido a maior parte da mobilia. Os
sophás, as mezas, as cadeiras, os livros, tudo se
dispersára
já. O pregoeiro continuava a fazer apparecer os
differentes lotes, e, com o ouvido á escuta, repetia
machinalmente
os lanços dos circumstantes com uma rapidez,
e com uma segurança taes, voltando a cabeça
ora
para um lado,
ora para outro, que
pareceria
ser
antes machina do que homem, se não fossem as
chalaças
com que entremeiava o seu pregão monotonamente
saltitante (se assim me posso exprimir). Eu estava encostado
a uma porta, e contemplava com certa tristeza
aquelle grupo, em que figuravam os rostos indifferentes
dos compradores, as physionomias ávidas dos herdeiros,
e a cara maliciosamente alvar do pregoeiro,
pago para alegrar a assembléa com os ditos joviaes
que tinha fabricado, e que provavelmente já lhe teriam
servido para dezenas e dezenas de leilões d'aquella especie.
Finalmente appareceu um objecto, cuja
exhibição
(perdôem o anglicismo) foi acompanhada com um commentario
burlesco do pregoeiro, e acolhida por uma
gargalhada da assembléa.
Era uma bolsa de seda verde com borlas de oiro.
Mas que bolsa, senhores! Era necessaria toda a cortezia
do pregoeiro para conservar esse nome a um objecto
que já não tinha fórma! Era uma bolsa
de cabellos
brancos! Rota, esburacada, sem côr definida e em
cujas borlas o oiro brilhava... pela sua ausencia! O
pregoeiro passeiou-a triumphantemente por diante de
todos, e todos se riam, e todos zombavam, e todos faziam
uma observação que redobrava as gargalhadas.
Finalmente o pregoeiro passou por diante de mim, e
mostrou-m'a. Foi então que eu a pude vêr bem.
Se a podessem vêr como eu a vi, haviam de se compadecer
d'ella. No meio da alegria geral, que a rodeiava,
ella só parecia chorar, e conservar uma triste
recordação d'aquella de quem todos se esqueciam!
Se
a podessem vêr como eu a vi, baloiçando-se
tristemente
na mão
grosseira d'aquelle homem que a estortegava,
apertando os seus frageis membrosinhos de seda! E a
pobre bolsa parecia olhar com uma tristeza profunda
para todos aquelles rostos crueis, em que a zombaria
se pintava, e de cada um dos rasgões que tinha aberto
no seu corpinho, d'antes tão gentil, a mão
destruidora
do tempo, parecia sair um gemido.
Que profunda impressão me causou o seu aspecto!
Talvez os meus leitores chegando a este ponto, se
riam de mim. Pois não tem rasão! Eu acredito que
os
objectos inanimados, que nos rodeiam, recebem de nós
como que um reflexo de sensibilidade. Quando morre
uma pessoa n'uma casa, não vêem como tudo toma um
aspecto luctuoso? A sala, em que tantas vezes estivemos
sós em quanto essa pessoa vivia, tinha por acaso
o silencio lugubre que lhe notamos apenas ella deixa
de existir? Os livros, cuja leitura desperta em nós o
enthusiasmo, serão simplesmente mudos reproductores
dos pensamentos do escriptor, e não conservarão
como
que o vestigio do talento, que por intermedio d'elles
se manifestou? E qual será o motivo d'essa inexplicavel
affeição que nós consagramos a certos
moveis queridos?
do pesar que sentimos ao vêrmo-nos obrigados
a abandonal-os?
Quando alta noite acordam, e, sem poderem conciliar
o somno, ficam deitados de olhos abertos a contemplar
as trevas, e a escutar o silencio, não sentem
de repente um indizivel murmurio, e umas inexplicaveis
luzes encherem o quarto e rasgarem a escuridão?
Como explicam isso? Eu creio firmemente que esse
ruido, que se não ouve quando não estamos n'essas
circumstancias, é o que produzem as mysteriosas
conversações
dos espiritos
invisiveis que existem
escondidos
em cada um d'esses moveis, e que alta noite se
reunem, para segredarem uns com os outros, e que
esse tenue fulgor é resultado do scintillar das pequeninas
azas d'esses sylphos subtis.
Quer me acreditem, quer não, o que eu lhes posso
assegurar é que a tal pobre e velha bolsa verde, quando
viu a minha physionomia séria no meio de tantos rostos
zombeteiros, lançou-me um olhar supplicante a pedir-me
que a livrasse d'aquella triste posição.
E o caso é que a comprei, com grande espanto de
todos os circumstantes, que principiaram por olhar para
mim com uns olhos muito abertos, e que concluiram
por sorrirem uns para os outros, dando a entender que
me julgavam doido. O pregoeiro entregou-me a bolsa,
e recebeu o dinheiro, tendo cuidado de interpôr, como
se fosse por acaso, uma cadeira entre nós ambos, com
receio que me d'ésse
alguma furia.
Escuso de dizer que ninguem me disputou o lanço.
Nem mesmo esses agentes, que tem, em giria de leilão,
o nome expressivo de
picadores, ou,
por abuso de
metaphora, de
toireiros, ousaram
erguer a voz para
m'a fazerem pagar mais caro.
A surpreza emprestára-lhes um bocadinho de consciencia.
Pois o que é certo é que eu comprei a bolsa, e
saí
com ella muito ancho, sem me importar com as largas
alas que me abriam as pessoas presentes, imitando a
prudencia do que m'a vendêra.
E, como eu passo a mostrar-lhes, não tive motivo de
me arrepender.
II
Era uma noite de maio. Eu estava sentado á meza
do trabalho. Um caderno de papel, ainda virgem de letras,
estendia-se diante de mim aterrador na sua alvura,
que me advertia mudamente da obrigação que eu
tinha
contrahido de a fazer desapparecer debaixo de uma alluvião
d'esses monstrosinhos negros, que se chamam
letras, que, amontoando-se umas em cima das outras,
formam as palavras, essas mysteriosas colmeias, dentro
das quaes se agita o candido enxame das idéas. O tinteiro,
boquiaberto, não cessava de me mostrar o oceanosinho
sombrio que tumultuava dentro de seus vitreos
muros. A penna, debruçando se sobre
esse mar tenebroso,
contemplava-o com indifferença, preparando-se
para o sulcar atrevidamente, quando eu julgasse opportuno
começar a navegação.
Uma janella aberta oppunha aos meus designios um
obstaculo insuperavel.
Uma janella aberta?—diz o leitor; porque a não fechava?
O leitor de certo se não recorda de eu lhe ter dito
que estavamos em maio.
Fechar uma janella quando a fada da primavera percorre
as urnas das flôres, colhe todos os aromas que
encontra, e vae espalhal-os prodigamente no regaço das
brisas, que doidejam depois na atmosphera, alegres
como as creanças folgazãs que correm na campina
com
as suas arregaçadas de flôres! Fechar uma janella!
E
porque não fecha o leitor os ouvidos quando está
escutando
uma
melodia de Bellini, e os olhos quando está
vendo um quadro de Raphael?
Eu, com um charuto na bocca, docemente recostado
na minha cadeira, aspirava os perfumes do ambiente,
sem me importar com as provocações do papel, com
as
agitações da tinta, e com as
suggestões da penna. Devo
até dizer, para ser completamente veridico, que me deliciava
em desprezar tudo isso.
Fi donc! Um escriptor!
Eu queria vêl-os no meu logar! Uma larangeira a
enviar-me perfumes perfidos, e, quando me via prestes
a estender a mão para a penna, a baloiçar-se sem
piedade, e a remetter-me directamente nas azas da
viração
uma taça inebriante, cheia a trasbordar dos seus
effluvios! E um rouxinol, um travesso rouxinol, muito
escondido n'uma alcovasinha de folhas, que o demonico
da laranjeira lhe tinha arranjado de proposito para acabar
de me tentar, a desentranhar-se em melodias que
era um enlêvo escutal as! Sem fallar
n'umas roseiras,
que a pretexto de serem
dilletanti,
e de serem impellidas
pela aragem, prepassavam por diante da minha
janella para ouvirem mais de perto aquelle Tamberlik
plumoso! Não mettendo em linha de conta a lua, que
se ria no céo a bandeiras despregadas, escancarando
com os frouxos de riso umas nuvens teimosas, que por
força queriam esconder-lhe as perolas que ella com as
gargalhadas mostrava á natureza, e que tinha a innocente
vaidade de contemplar espelhadas nas fontes!
Vão lá, com tudo isto, debruçar-se
sobre um caderno
de papel e escrever!
Escrever; mas escrever o quê? Um romance de
amores?! Um poema?! Romances e poemas tinha eu
na
imaginação, sublimes, portentososos,
admiraveis,
como todos os tem, e como ainda ninguem os escreveu.
Se elles se desprendem, capitulo a capitulo, estrophe
a estrophe, e vão fluctuar na atmosphera de envolta
com os perfumes da rosa, com os canticos do rouxinol,
e com os raios da lua!
E, apesar d'isso, não deixam que outros, que se possam
entornar sobre o papel, nos occupem ao mesmo
tempo a imaginação.
Assim estava eu, torturando o espirito para obter
uma idéa, e encontrando n'elle mundos de poesia,
não
digo bem, um chaos de poesia, cujo
fiat
lux eu nunca
poderia descobrir.
De vez em quando revestia-me de animo, e tentava
levantar-me para ir fechar a janella! Mas a larangeira
baloiçava-se e deixava cair uma chuva de perfumes, o
rouxinol redobrava de gorgeios encantadores, os ramos
da roseira prendiam-se, ao perpassar, no parapeito da
janella, e deixavam ficar as suas rosas de cem folhas,
purpureas e embalsamadas, a mirarem curiosamente o
meu quarto; a lua desprendia indolentemente dos hombros
o seu manto de luz, arrastava-o no firmamento,
e eu caía desanimado na cadeira.
De repente senti aos meus ouvidos uma voz ligeira
como um murmurio, que me fallava n'uma linguagem
desconhecida, mas que eu, por uma intuição
inexplicavel,
comprehendi immediatamente.
Voltei-me, e com grande pasmo, vi a bolsa verde
em cima da meza.
Era ella quem me fallava.
—Amigo, dizia-me a velha bolsa, tu valeste-me n'uma
grande afflicção, e é justo que tenhas
a recompensa.
Queres escrever? A
tua imaginação
preguiçosa, enervada
pelos effluvios d'esta noite de primavera, recusa-se
a dictar-te o que deves lançar no papel? Eu substituirei
a tua imaginação. Pega na penna, e escreve o
seguinte
no alto d'essa pagina branca: «
Memorias
d'uma
bolsa verde.»
Eu, estupefacto, obedeci machinalmente, e ahi vão
vêr os meus leitores o que a pobre bolsa velha me dictou.
Desculpem os erros do auctor. Não ha nada que
se pareça menos com um litterato do que uma bolsa.
A rasão é muito simples. A bolsa tem muitas vezes
dinheiro,
e um escriptor... Vamos ao assumpto.
III
«Gira, gira, agulha ligeira, impellida por mão
tão
delicada. Cinge a fragil seda em suave abraço,
enlaça
os tenues fios uns aos outros, e prepara esse corpinho
gentil, a quem ha de o amor dar vida.
«O amor, sim. Não vês a loira cabecinha
do anjo de
meigo sorriso, debruçando-se por cima do hombro da
tua formosa dona, a contemplar curiosamente os teus
rapidos movimentos?
«Gira, gira, os instantes são preciosos, e
póde subitamente
chegar quem transtorne a surpreza tão cuidadosamente
preparada! Gira, gira sem cessar, agulha,
agulha subtil.
«Que suave serenidade transparece no limpido olhar
d'aquella cuja mão febril te dirige! Quando um sorriso
anima a graciosa physionomia, contempla-se com enlêvo
o céo azul que lhe ri nos olhos, e as perolas, que os
labios
entre-mostram! A quem fôr perspicaz tambem
esse sorriso mostra a alma, que é mais celestial do que
o olhar, mais candida do que as perolas da boquinha.
«Mas a esse limpido firmamento doira-o agora o sol
de um affecto suave, cujo brilho não é offuscado
por
nenhuma nuvem. Os seus raios aquecem-lhe o
coração,
e alegram-lhe ao mesmo tempo todos os horisontes da
vida.
«Porque vem misturar-se, comtudo, uma
inquietação
febril com o sentimento de felicidade que lhe anima as
feições? Oh! não receieis nada! Essa
mesma inquietação
é um prazer. Teme não ter completo o presente
que desejava offerecer a seu marido, que fazia annos
n'esse dia.
«E por isso a agulha girava, girava com impetuosidade,
e os fios de seda agrupavam-se com uma ligeireza
inconcebivel!
«Está a concluir-se a tarefa. A agulha
approxima-se
do sitio marcado. Um mate, um mate risonho lá surge
no horisonte. Apressa-te, agulha, faze prodigios de celeridade.
Emfim!
«Dera-se o mate. As doiradas borlas pregaram-se
instantaneamente. Eil-o, o gentil producto de oito dias
de trabalho! A formosa senhora contempla-o com ternura.
O amor sacode o regaço cheio de perolas, e em
cada ponto faz pullular mil pensamentos apaixonados.
«O ente, que nascera, era nem mais nem menos do
que esta humilde bolsa verde que lhe está dictando
essas linhas, senhor mandrião.
IV
Quando cheguei a este ponto interrompi eu a bolsa.
—Minha senhora, observei com a respeitosa cortezia
que um escriptor consagra ao narrador officioso que lhe
conta uma historia, v. ex.
a tem fallado
até agora n'uma
linguagem que me tem penetrado de admiração,
porque
me parece biblica, e o emprego d'esse estylo é
muito para apreciar n'uma bolsa que não foi contemporanea
de Isaias. Mas se v. ex.
a antes de nascer falla
n'esse tom, receio muito que, se continuar na ascensão,
quando chegar á velhice, já os leitores, ainda
que
se mettam no balão de Nadar, não serão
capazes de a
seguir com a vista n'essas espheras inaccessiveis. Pedia,
portanto, a v. ex.
a o favor de baixar o
vôo á
terra,
algumas vezes, afim de que os nossos leitores percebam
alguma coisa do que se fôr passando, sacrificando
por conseguinte o diploma de socia da academia... do
amphiguri, que, segundo me parece, está em caminho
d'obter. Desculpe-me esta ligeira observação.
A bolsa olhou para mim com modos um tanto severos,
e respondeu:
—Admiro-me bastante de tu te queixares. Sabe que
nem cheguei a dar-te uma ligeira amostra do estylo
pomposo que eu deveria empregar, e que te poupei o
prologo obrigado que precede lá entre vós outros,
os
homens, a magra biographia d'aquelles, a quem nomeaes
grandes, com a mesma convicção com que os antigos
romanos faziam a apotheose dos Tiberios e dos Caligulas.
Já vês que a rajada vae começar, e que
se me excitas
mais, bailam-te no meu discurso gregos, assyrios,
indios e hebreus.
Mas voltemos ao que importa. Em logar
de te queixares, devias-me agradecer o eu não ter
dito uma palavra só ácerca do estado da Europa na
epocha do meu nascimento, nem de ter fallado nos
grandes homens que se agitavam no mundo, em quanto
a minha gentil creadora unia uns aos outros os fios
que me haviam de formar. Podia fazer-te gastar com
estes preambulos dez paginas, pelo menos. Não o fiz,
e tu accusas-me! Para te castigar não devia dizer nem
mais uma palavra.
—Oh! por amor de Deus, continue v. ex.
a como
quizer; estou prompto a admirar tudo quanto eu não
entender, nem v. ex.
a tambem. Estou esperando.
V
«Nasci, continuou a bolsa, e a minha vista não
encontrou
nada que a ferisse, nada que lhe repugnasse
no quarto onde eu viera á luz. No movel mais insignificante
se denunciava a riqueza e bom gosto dos donos
da casa. Eu repousava mollemente no collo da minha
dona, e os meus membros recem-nascidos sentiram
logo o suave contacto da seda. Um alegre raio de sol
entrava pela janella, acariciava o meu corpinho verde,
e fazia resplandecer as minhas borlas doiradas. As agulhas
repousavam ao meu lado, contemplando curiosamente
a obra prima que tinham acabado de produzir.
A gentil habitante do quarto beijava-me carinhosamente
e, beijando-me, murmurava estas palavras que eu conservei
de cór:
—«Vae, pobre bolsinha, repousar sobre o
coração
d'aquelle a quem
tanto amo. Conserva a impressão dos
meus beijos, e, quando elle te approximar do rosto,
oh! anima-te, por um milagre de amor, e sê tu a mensageira
d'estes osculos que eu te confio. Dize-lhe, conta-lhe
que em segredo trabalhava em te fazer
coquette,
elegante, para seres digna d'elle. Olha, lê bem no fundo
do meu coração, para poderes narrar ao meu esposo
os thesouros de affecto que em mim se abrigam. Vae,
e Deus queira que elle te ache a seu gosto, e te faça
um bom acolhimento.
«N'este momento um rapaz, cujo labio superior era
levemente assombreado por um bigodinho nascente,
entrou, e, dirigindo-se á minha dona, beijou-a com ternura.
—«Que deliciosa bolsinha tu tens no collo!—disse-lhe
elle. Foi presente ou compra?
—«Agrada-te?—tornou ella, contemplando-o meigamente.
—«Acho-a lindissima.
—«É tua.
—«Minha?
—«Tua, sim. Não te lembras que dia é
hoje? Completas
vinte e dois annos. Trabalho ha oito dias a furto
para te dar este presente. Sorria-me sósinha, quando
pensava na surpreza que te ia causar, quando te désse
a bolsa, e, saltando-te ao pescoço, te dissesse
alegremente:—Ahi
tens um presente da tua querida mulher,
é para vêres que pensa sempre em ti.—E
então agora
não mereço um beijo em paga?
«E a galante senhora, unindo a acção
á palavra, tinha-se
pendurado no pescoço de seu marido, e contemplava-o
com olhos humidos de ternura.
«Elle estreitou-a meigamente, e disse-lhe ao ouvido
baixinho, e beijando-lhe os cabellos:
—«Amo te, meu anjo da guarda!
Amo-te e sou feliz,
feliz com o teu amor.
—«E isso é dito com sinceridade?—perguntou ella,
sorrindo, travêssa.
—«Não sou eu quem falla, é o
coração.
—«Sim? Sobre esse coração é
que eu quero que
esta bolsa ande sempre! Advirto-te que tenho dentro
d'ella um genio familiar que me obedece, que ha de
lêr atravez do teu peito, e que me ha de vir contar os
segredos que tu julgares mais reconditos. Acceitas?
—«Que remedio, meu anjo! Venha esse gentil
espião,
cuja côr me anima já, porque é a
côr da esperança.
Hei de lhe dar o observatorio mais commodo que
o meu casaco lhe podér proporcionar; telescopios
não
devem ser necessarios a quem possue a vista subtil
dos espiritos. Mas por cavilloso o declaro, se elle descobrir
no meu coração outra estrella que não
seja a tua
imagem.
—«Não gósto da
comparação; as estrellas são sempre
offuscadas umas pelas outras.
—«Mesmo quando essa estrella se chama
Venus?
—«Viva! O meu maridinho a fazer madrigaes! Queres
que eu continue no mesmo tom? Dir-te-hei n'esse
caso que a Venus, mais do que a qualquer outra, succede
o que acabei de dizer. Á tarde vem a lua offuscal-a,
pela manhã o sol.
—«Não, minha querida, não
succederá assim comtigo.
Sempre viva, sempre pura a tua imagem resplandecerá
no meu peito. É isto o que a tua bolsa te ha
de dizer constantemente.
—«Querido Eduardo!
—«Querida Camilla!
—«Amo-te!
—«Adoro-te!
«E foi assim que eu passei das mãos da loira
Camilla
para as mãos do moreno Eduardo.
VI
«Não tive rasão de queixa. O meu dono
trazia-me nas
palminhas. Quando saía occupava sempre um logar de
honra na algibeira do casaco, e alli ia eu, sentindo pulsar
o coração de Eduardo, regalando-me, porque
estavamos
no inverno, de caminhar bem abafadinha e conchegada,
em quanto muitas das minhas irmãs estariam
talvez tiritando de frio nas algibeiras rotas dos seus
possuidores. Que justo orgulho se apoderava de mim,
quando Eduardo, sacando-me negligentemente para fazer
alguma compra, me collocava em cima do balcão;
como todos olhavam cubiçosamente para as minhas
fórmas
arredondadas, e que bello effeito que eu produzia
com as libras que fulgiam atravez dos intersticios da
seda.
«Nunca me ha de esquecer a cara de piedade que
fez a bolsa de um empregado publico, a quem o acaso
collocára junto de mim. Era uma bolsinha de lã,
tão
magra, tão magra, tão escorrida que mettia
dó. Uns
pobres meios tostões escondiam-se envergonhados no
fundo, e alvejavam tristemente, aborrecidos da sua solidão.
A pobre bolsa olhou para mim com uma certa
inveja, e não me dirigiu palavra. O dono da loja
cumprimentou-me
respeitosamente, e
desviou com desdem
a minha visinha. Ella não ousou protestar, e
pôz-se de
parte, esperando que eu me dignasse voltar ao meu
alojamento ambulante! E eu ria-me e pavoneava-me
toda ufana! Mal sabia que ainda havia de passar pelas
mesmas humilhações!
«E o caso é que eu suppunha que todos esses
cumprimentos
eram devidos á minha gentileza, á formosura
da minha côr! E Eduardo julgava egualmente que era
a influencia, que a sua pessoa exercia, a causadora das
humilhações, do servilismo que o rodeavam!
Eduardo
attribuia a si o que a mim era devido. Eu attribuia a
mim o que era devido ás libras que eu abrigava, e as
libras tambem attribuiram a si o que se devia simplesmente
á somma de gózos que ellas proporcionam. Todo
o homem se adora a si mesmo nos objectos perante os
quaes se curva. O «eu» é o idolo
constante da humanidade.
O egoismo é o seu unico motor.»
E n'este ponto a bolsa philosophica soltou um profundo
suspiro.
«Á noite, continuou ella, repousava dentro da
gaveta
de uma linda secretária de pau rosa, e alli ficava
até
pela manhã tagarellando com umas cartas de amores,
minhas visinhas, que me contavam os mil deliciosos
segredinhos que lhes tinham sido confiados; e n'esta
doce pratica voavam para mim as lentas horas da noite.
«Comtudo, eu começava a presentir o meu futuro
destino. Eduardo era o que vulgarmente se chama uma
cabeça de vento. Frequentes vezes, e com as melhores
intenções d'este mundo, se esquecia de mim, e me
deixava
ficar á noite em cima da meza, em vez de me
conduzir á minha deliciosa alcova da secretária.
«Uma vez, tendo acabado de fazer umas compras,
deixou-me em cima do balcão. Não posso explicar a
impressão
dolorosa que senti quando o vi desviar-se distrahidamente,
e quando reparei, olhando em torno de
mim, nos ávidos olhares dos caixeiros. Segui-os tristemente
com a vista, e já me ia a despedir d'elle para
sempre, quando Eduardo, chegando á porta, mostrou
recordar-se de alguma coisa, e, voltando se precipitadamente,
correu ao balcão. Deu logo com a vista em mim,
que estava toda tremula de alegria, e, beijando-me fervorosamente,
escondeu-me no seio.
«Infelizmente nem sempre lhe succederia isso.