— Eu sei, eu sei! Quando êle se apaixona por
uma questão, é um falador
incorrigível.
Nuno, que tambêm se aproximara do grupo,
todo afogueado do calor da controvérsia, acrescentou:
—Demos à língua, efectivamente. Desforrei-me
da minha mudez consecutiva de meses. Frederico
estava interessante...
Parou, um momento, absorvido na adoração
do pequenino, que mostrava os olhos espantados e
que incessantemente abria e fechava as mãosinhas
rosadas. Todo êle cheirava a perfumes, como uma
flor humana.
—Oh! lá, ó seu fidalgo!... Pst!...—acariciava
Nuno, pousando-lhe um dedo na còvinha do
queixo. Bem disposto, hein?
—Tomou agora o seu banho, sente-se feliz—disso
Júlia, baixando os olhos pensativos sôbre a
fronte do filho.
Ouvindo-a falar naturalmente, Frederico notava
nas suas palavras uma vibração, um timbre, um
enlêvo que não podia definir e que o perturbavam.
Na história da sua alma fazia-se uma página de
poesia
e de ternura, que lhe comunicava gôzo,
pacificação
interior. Como Nuno era feliz! E bem merecia
êle essa felicidade, pelos puros dons do seu
carácter,
pela sua bondade, pelas suas virtudes de
homem. Encontrara a mulher ideal que o completou
e que, à sua volta, fazia a graça, a serenidade,
a
confiança, o repouso.
—E aqui tens tu, Frederico—disse Nuno—a
minha pátria grande.
—Não! A tua família... A família
é apenas
a unidade da pátria, como o individuo é a unidade
da família.
—Bem! Que seja então a minha pequenina
pátria. Não quero outra. E tu, homem, porque
não
procuras uma?
Frederico olhou o amigo demoradamente, fitou
depois Júlia, agitado por sentimentos, por
inenarráveis
sensações que lhe pareciam
incompreensíveis
porque, na sua perturbação, não
conseguia explicá-los,
determinar-lhes a génese e o carácter. Por uma
revelação fulminante, via nessa doce mulher uma
imagem venerável e quási religiosa para que o seu
respeito e o seu reconhecimento subiam. Reconhecimento
de quê? Não o sabia.
—Tenho a certeza de que a não encontrava—respondeu
êle. Não possuo o génio das
descobertas.
—Não será isso egoísmo,
Frederico?—interrogou
Júlia.
—Egoísmo? V. Ex.
a é
injusta com um homem
que resolveu sacrificar-se só a êle para
não
sacrificar os outros...
—Temos S. Francisco de Assis em nossa casa,
Júlia!— afirmou Nuno, afagando
distraídamente
o rosto do filho... Mas, se déssemos uma volta pelo
parque? A sombra, a amenidade do dia são convidativas.
E temos palrado tanto, justos céus!
Entraram vagarosamente na solitude dos troncos
e das folhagens onde corria uma fresquidão vitalizante,
na tarde pesada e quente. Através dos
ramos entrelaçados, num azul muito alto, flutuavam
farrapos esparsos de nuvens. Por tôda a parte,
sob a imensa abóbada de verdura, floriam cheirosos
arbustos que punham na suavidade da penumbra
uma atenuada e bela nota colorida. Por vezes, roseiras,
bracejando junto das árvores, trepavam às
ramagens, enroscavam-se nelas, rompendo depois
para o espaço livre em festões, em grinaldas,
desenhando
originais movimentos decorativos. Os seus
aromas harmonizavam-se, fundiam-se num só aroma,
que era excitante. No grande silêncio vespertino,
apenas se ouvia o canto medroso das aves que fugiam,
assustadas, da torreira do sol. Frederico e
Nuno caminhavam ao lado de Júlia, emmudecidos
para melhor sentirem e compreenderem a beleza envolvente.
A criança palrava entre as rendas e as cambraias
vaporosas; e uma bica de água, correndo perto
dum maciço de cedros e plátanos
enlaçando, casando
os seus ramos, cantava e brilhava na fina paz
vesperal.
—Isto é a delícia das
delícias—disse, por fim,
Frederico. Há muito
tempo já que
não me reconciliava
tanto com a vida.
Enquanto êles se detinham numa clareira,
reencetando a conversa, Júlia adiantou-se alguns
passos, indo sentar-se num banco rústico de
cortiça
que ficava por baixo dum docel formado por mosqueteiras
ainda em flor. Ao vento brando que passava,
arripiando as fôlhas, um colorido e perfumado orvalho
de pétalas desprendia-se do alto, tremendo como
asas de borboletas, caindo sôbre Júlia e o filho.
Ela ria, com um riso mais contente, ditosa pela idílica
oferta que as trepadeiras faziam à sua gracilidade,
á sua pureza feminina, ao seu amor de espôsa,
à
sua divina maternidade, e Nuno e Frederico admiravam
êste espectáculo imprevisto.
—As flores, para serem justas, deviam-lhe
essa homenagem, minha senhora—declarou o hóspede.
O chuveiro das pétalas continuava sempre, cobria
duma geada aromática os cabelos de Júlia, o
rosto da criança.
—As bôas fadas saùdam a princesa, sua afilhada,
e o principe dilecto!—observou Nuno, enternecido.
É como nos contos de Perrault, nas lendas
doutras idades.
Por fim, Júlia levantou-se, tôda florida, com
as faces rosadas por uma ponta de sangue mais vivo,
enquanto Frederico a considerava, deslumbrado.
Como era encantadora e linda, na verdade!... E
outra vez louvou a felicidade de Nuno, do amigo
fraterno, para quem o destino tinha sido propício e
generoso, pondo no seu caminho, bem junto do seu
coração, aquela mulher incomparável.
—Vou-me embora. Faz aqui frio. Tenho mêdo
de que a criança se constipe—disse Júlia.
—Vai. Nós ainda por aqui nos conservaremos,
filosofando. Quero iniciar Frederico na formosura da
solidão!...—exclamou Nuno.
III
Os dias deslizavam serenos, para Frederico,
no encanto da simplicidade campestre, no íntimo
convívio de Júlia e de Nuno. Nenhuma
imperfeição
da vida dolorosa e amarga alterava a pacificação
dum ambiente que se fazia mais doce à volta de
tanta ventura humana. Ao contacto permanente das
coisas e dos sentimentos puros, o coração de
Frederico
purificava-se tambêm, como se fôsse um pouco
sua a felicidade dos outros. Vivia numa espécie de
esquecimento, não se lembrava de ter sofrido moralmente,
parecia-lhe que, na sua existência árida, no
seu sentimento estéril, desabrochava, por fim, uma rara
e ditosa flor. As faculdades emotivas subtilizavam-se
nêle; as tristezas, os desesperos que o haviam
atormentado em horas inquietas e febris, dissipavam-se
na sua alma. Passava por uma funda renovação,
penetrava-o uma fôrça estranha, formava-se-lhe
na inteligência e na moral um novo princípio: e
uma
prodigiosa multidão de sensações
espontâneas, que
não sabia interpretar, convertiam-se, para êle,
num
intenso fenómeno psicológico.
—Parece-me que vou renascendo, Nuno!— dizia
Frederico ao antigo companheiro de estudos. A
alegria que existe em tua casa comunica-se-me
tambêm aos nervos, à sensibilidade. E é
curioso!
A minha confiança no futuro, uma confiança que
nunca foi grande, aumenta agora sucessivamente.
Porquê? Porquê? Que elemento operou êste
milagre
estupendo?
—É porque só agora desperta em ti a capacidade
mental para a compreensão das coisas belas—afirmava
Nuno, zombando. O sêr pensante anda
inconscientemente perdido no turbilhão do mundo,
até ao momento singular em que acorda para a verdade.
Tu nunca leste o drama de Ibsen:—«
Quando
dentre os mortos nós
ressuscitarmos»?
—Nunca li êsse nebuloso escandinavo, na realidade...
—Fizeste mal, porque Ibsen ensina-nos a analisarmo-nos
com lucidez... Eras um morto. Começas
a ressuscitar. E olha que é dêstes bons ares,
desta
claridade puríssima, da paz rústica, da singeleza
que
nos rodeia.
Frederico, em momentos de solitude, concentrava-se,
para melhor observar o seu caso, que era bizarro:
e tinha a impressão de que convalescia duma
doença de espírito e de corpo. Nesta
convalescença,
surpreendia-o um facto enigmático. Com efeito, alvorecia
nêle um encanto desconhecido que o absorvia
todo, que o exaltava e lhe perturbava os sentidos.
Levantava-se cedo, quando ainda a casa dormia na
frescura da luz, na ternura matinal, tomava o seu
banho bem frio, que o tonificava, descia ao jardim
que o orvalho nocturno tornava mais viçoso, passeava
nas ruas, fumando, entregando-se ao prazer contemplativo,
parando ingénuamente junto dos arbustos
floridos. Depois, Nuno levantava-se tambêm, vinha
ao seu encontro, ambos encetavam uma animada
palestra, que se demorava pelos inefáveis recantos
de sombra—por onde circulava um ar estimulante
e ligeiro—até ao almôço. Perto de
Júlia
Frederico principiava a sobressaltar-se, experimentava
uma ansiedade confusa que o angustiava. Nem
sequer pretendia investigar a origem dêsse sobressalto,
por temer que dentro dêle se fizesse uma
revelação assustadora e terrível...
Via-a andar dum
lado para o outro, nas ocupações caseiras,
tôda sorridente
e natural. A luz difusa imprimia-lhe mais nitidez
e destaque às linhas plásticas, dava uma
irradiação
maior à sua beleza de mulher completamente
formada. À mesa, sentada em frente dêle, perto
de Nuno, os seus olhos pensativos, iluminando-lhe o
rosto, pousavam, por vezes, sôbre Frederico, que se
sentia feliz sob aquela muda carícia em que nada de
impuro existia: e o tempo ia fugindo, leve e animado,
sem deixar resíduos de fadiga.
Nas horas de solidão e de calor, Nuno, cansado,
recolhia-se ao quarto para dormir a sésta: e Frederico,
pegando num livro, que escolhia na pequena
biblioteca do amigo, ou num jornal, dirigia-se ao
parque, indo sentar-se no banco de cortiça, sob a
mosqueteira que, na tarde da sua chegada, peneirara
uma chuva colorida de florações sôbre
Júlia
e sôbre o filho: e ali, fazendo esforços para
recordar-se,
evocava com saùdade um passado que já ia
muito
longe, quando a sua existência era inconsiderada e
o seu pensamento não tinha
inquietações. Na solidão,
no isolamento, estudava-se. Fôra sempre um
afectivo, por necessidades de temperamento, talvez
por vícios de educação: e, justamente,
essa afectividade
levara-o outrora para as aventuras de amor, em
que procurava o infinito para a sêde ardente que o
devorava e em que sempre encontrou o desengano,
a desilusão, o aborrecimento, o desgôsto. Certas
imagens
femininas que mais forte impressão lhe tinham
produzido, despertavam um momento nas suas
recordações. Lembrava-se, sobretudo, de Adelaide,
uma pobre e linda costureira por quem se apaixonara
e com quem fez um idílio saboroso que durou
seis meses. O alvorôço com que para ela
fôra
impelido, como se essa mulher pudesse oferecer-lhe
a verdade nos seus beijos!... Mas, sossegada a
animalidade dum sensualismo grosseiro, apaziguada
a febre carnal, viu que se havia iludido, mais uma
vez, e que a crédula rapariga que nêle confiara,
entregando-se-lhe, nenhum gôzo emotivo e intelectual
lhe daria para assim prolongar uma voluptuosidade
que a posse arrefeceu.
Nuno reconhecera êste seu romance, tinha-o mesmo
reprovado, dizendo-lhe que êle andava a gastar,
em caprichos banais da fantasia e da luxúria, e em
desvairamentos românticos, a reserva de energia sensitiva
de que precisaria mais tarde para uma adoração
séria que lhe enchesse tôda a vida, que o
transfigurasse.
Só depois, quando o desalento surgiu—e
com êle o cansaço, o enfado, a
saciedade—Frederico
verificara que Nuno estava na razão... Que
seria feito de Adelaide? Em que lamaçais profundos
teria caído? Por que despenhadeiros a iria conduzindo
a mão implacável do destino? Frederico, na noite
em que decidiu separar-se dela—uma noite tempestuosa
que
decorreu entre
lágrimas e
lamentações—deixara-lhe
sôbre a roupa desfeita do leito
uma carteira com dinheiro. Fôra a sua primeira
acção
vil, porque nenhum ouro pagaria a felicidade para
sempre destruida duma alma que era virginal quando
o seu egoísmo a encontrou; mas, nesse procedimento,
reprovável de-certo, guiara-o ainda a generosidade.
Parecia-lhe que um punhado de notas de
Banco atenuaria o seu abominável feito—e só
agora
reconhecia o seu êrro e a sua ignomínia...
Com o livro ou o jornal, que não lia, abertos
sôbre o joelho, scismando ininterruptamente, seguindo
com os olhos vagos as espirais de fumo do charuto,
que se esgarçavam e ascendiam na atmosfera
luminosa, Frederico, durante longas horas, revivia
os seus fantasmas inertes e experimentava a
sensação
dum pêso contínuo que o esmagava, que esmagava
tôda a sua vida. Oh! a bela quimera dum
amor eterno, conservando sempre a mesma intensidade,
a mesma fôrça superior de
atracção, uma
fonte inexaurível de sentimento, uma novidade que
jàmais, jàmais, se banalizasse para os
corações que
fizesse palpitar! Existia êle, na verdade? Ou não
seria
mais do que uma mentira entre o acervo de mentiras
de que o mundo estava cheio e que os homens
criavam conscientemente para se iludirem a si próprios?...
Mas, quando o seu scepticismo era mais devastador,
o exemplo da união feliz de Júlia e de Nuno
surgia-lhe como a imagem tangível dêsse amor de
que duvidava. Então, para explicar a
contradição
que lhe exacerbava o sofrimento, construía teorias
originais.
—O que há é almas completas e almas incompletas.
Umas, possuem uma finura sensível que as
torna perfeitamente aptas para a vida amorosa. Outras
não teem uma receptividade que as faça vibrar
sob as influências dessa vida, e daí deriva todo o
mal,
que vai espalhando nas sociedades a funda melancolia
contemporânea. A alma de Nuno pertence às
primeiras...
De resto, Frederico entendia que as verdadeiras
mulheres são as admiráveis educadoras do
sentimento, as inspiradoras sublimes de tudo o que
pode fazer os homens grandes dentro do lar. Júlia
era uma dessas mulheres excelsas, pelas graças do
corpo e pelas graças mais puras e elevadas do
espírito:
e a ventura de Nuno provinha de êle a ter encontrado
no seu caminho. Por sua parte, em vão buscaria
uma criatura assim, que fôsse a companheira
ideal e perpétuamente desejada, a amante
incomparável,
a espôsa atenta, a mãe solícita! Com
ela,
a sua existência improdutiva entraria numa fase diversa
e activa, numa realidade que nunca se extinguisse...
Lembrando-se insistentemente de Júlia, Frederico
era assaltado por um sentimento curioso. Tinha
a sensação especial de estar encerrado num
círculo muito estreito, em que nada havia de claro,
de definido, de preciso. Tôdas as impressões da
natureza
exterior passavam por êle, velozmente, sem lhe
provocarem uma simpatia mais demorada. Apenas
lhe ficava, na intimidade moral, a noção profunda
do
seu próprio isolamento, entre a vastidão e o
tumulto
das aspirações indecifráveis. Sofria
essa fascinação
estranha que um desejo veemente—que se
não abandona, porque o abandôno excitaria o
padecimento,
e se não procura realizar tambêm, porque a
realização teria
conseqùências funestas—produz
nas almas!... Por cima da sua cabeça, a mosqueteira,
ramalhando ao vento, sacudia os seus cachos aromáticos
que se desfolhavam numa nuvem loura;
ao seu lado, a fonte, correndo no jôrro faíscante
da
água entre musgos verdes e veludosos, cantava
sempre, exalando-se em frescura e murmúrio. Frederico,
extenuado de imaginação pelas suas
infindáveis
rêveries, erguia-se,
fechava o livro inútil, o jornal
mais inútil ainda, e recomeçava o passeio por
entre os arvoredos, por entre os canteiros de flores,
onde umas abelhas, tam douradas como as do Hymeto,
procuravam o mel. Nuno, às vezes com os olhos
inchados de sono, uma preguiça que lhe comunicava
lassidão, um pouco còrado, descia ao jardim,
perguntava-lhe:
—Em que passaste o tempo?
—Meditando, sentado num banco do parque—respondia
Frederico.
—Procuras, como S. Bruno, os logares solitários
para pensares nas felicidades do céu?
—Homem, ando a tratar da minha conversão
e S. Bruno, efectivamente, é um modêlo
desejável.
—E se fizéssemos uma jornada mais larga,
por êsses campos, por essas amplidões?
Júlia podia
ir tambêm...
—Acho o teu alvitre muito digno de ser aceito.
Iam acima chamar Júlia,
calçar luvas que lhes
resguardassem as mãos dos bafos da soalheira e do
pó cáustico dos caminhos, e na suavidade
maravilhosa
da tarde, rindo, conversando, sensíveis ao mais
fugidio eflúvio do ar ambiente, metiam pelos atalhos
escorregando por entre sébes que as madre-silvas
perfumavam, por azinhagas onde havia repouso
e penumbra, por congostas que os ervaçais reverdeciam.
A essa hora do dia, no delíquio da luz que
principiava, tudo era gracioso, jovial. Dos casais
disseminados pelas terras cultivadas, subiam colunas
delgadas e direitas dum fumo branco, que algodoava
o espaço. Nas eiras secava o milho, que lembrava
pequeninas bolhas de sol cristalizado. Errantes,
nas pastagens, os bois erguiam um instante a cabeça,
para os ver passar, fitando-os com uns grandes
olhos de infinita melancolia. Júlia que marchava
à
frente, na elegância dum vestido de tecidos leves
que lhe modelava puramente as formas corpóreas,
assustava-se, tinha mêdo, soltava pequeninos gritos,
acolhia-se à protecção de ambos. A
palha do seu
chapéu em que, entre laços de veludo negro,
destacava
a côr sugestiva de pálidas rosas de toucar,
fazia-lhe
uma sombra doce no rosto adorável. Nuno animava-a:
—Que mulher! Que criança! Tem mêdo dos
bois, que são tam mansos. Oh! tôla! Olha que
não
fazem mal!...
Frederico ria-se e achava-a encantadora.
Cortavam através das pradarias, das lezírias,
das veigas, ao acaso, sem fim. Às roupas de Júlia
prendiam-se os perfumes dos fenos atravessados, que
as suas saias roçavam, as seivas vitalizadoras das
ervas esmagadas. Sentiam uma grande e nobre
pacificação
interior. O gôzo íntimo emmudecia-os.
—Hein, Frederico? Como isto é diferente da
cidade! Era preciso que conhecesses a aldeia, homem.
A aldeia é a verdade—
dizia
Nuno,
entusiasmado.
Frederico não conhecia a aldeia, com efeito, e
nunca imaginara, vendo-a através das janelas de
combóios lançados a tôda a velocidade,
que pudesse
seduzir sêres civilizados; mas, eis que ela se lhe revelava,
totalmente, por uma feição atraente, que o
cativava. Louvava, com sinceras palavras, a
fertilidade
dos extensos domínios, que são o
Calvário da
gente humilde e que a sua dor, o seu suor, a sua miséria,
fecundam; as casas dos camponeses, duma
arquitectura rudimentar; os milheirais de longas
fôlhas já sêcas, ondulando e rangendo
à aragem; a
paìsagem que a luz, fulva e rutilante, espiritualizava,
transmitindo-lhe animação, uma vida
quáse supersticiosa,
insuflando-lhe uma alma. De quando em
quando, Júlia, batendo as palmas de contente, detinha-se
para observar de perto as trepadeiras silvestres
que se cobriam de florescências cheirosas, e as
suas mãos, que eram tam lindas, tinham delicadezas
extrêmas ao tocarem nas folhagens, nas corolas rescendentes.
—Veja que beleza, Frederico!—convidava ela.
E fazia um ramo que prendia, com alfinetes,
na blusa de sêda—uma sêda transparente que o
tom sadio e casto da sua carne rosava.
A cada momento deparavam vergeis em que
os frutos apetitosos amadureciam. Nos ramos mais
altos, as maçãs còravam ao calor como
faces humanas;
as laranjas, no meio das fôlhas, redondas e
amarelas—dum amarelo brilhante,—ofereciam-se às
gulodices. A terra mostrava-se hospitaleira e generosa,
e Frederico, já iniciado, sob o céu que tinha a
meiguice dum amoroso olhar humano, compreendia,
enfim, que essa terra, mãe piedosa e inexaurível,
comunicasse às criaturas um pouco da sua bondade
clemente, da sua energia vigorosa, inspirando-lhes
uma regra justa da vida. Diante dos casebres pobres,
Júlia, compadecida, parava, contemplando com piedade
as crianças rotinhas e sujas que brincavam
pelos portais e pousando-lhes os dedos sôbre as
cabeças.
Elas fitavam-na, espantadas, com um secreto
temor no olhar.
—A vossa mãe?—perguntava.
—Não está cá—respondiam elas, com
modos
agressivos.
Dava-lhes moedas de cobre, amimava-as com
essa ternura que só as mulheres felizes conhecem,
enquanto Nuno, enojado da porcaria em que a gracilidade
daquela infância murchava, dizia:
—Nas aldeias há, de-certo, muita pobreza,
muita penúria. Mas tambêm há muito
desleixo. Oh!
senhores, uma tina de água transformaria em flores
êstes pequeninos selvagens!
—Que queres tu, Nuno?—atalhava Júlia,
condoída. As desgraçadas mães
trabalham um dia
inteiro e quando chegam a casa o que querem é repousar.
Vendo-a assim, luminosa, pura e branca no
meio das meninices desditosas, Frederico tinha
a visão deslumbrante duma aparição
celeste baixando
do azul, num vôo brando, para consolar
aflições,
acolher no seu desamparo as plebes lacrimosas,
sarar feridas, suavizar torturas: e cada vez a
sua admiração por Júlia mais crescia.
Nela tudo era
perfeito, sedução, perfume, ritmo, claridade: e o
encanto
que derramava à sua volta penetrava-o até
ao âmago da consciência. Pensando na sua beleza,
na unção da sua bondade, abstraía-se
por tal modo
que até chegava a esquecer Nuno, marchando ao seu
lado: e era-lhe necessário fazer um
esfôrço violento
para reentrar na realidade das coisas.
Nestes instantes, analisando-se, espavorido, perguntava
a si próprio se não estaria interessando-se
demasiadamente por essa mulher tam digna e tam
cândida que, legítimamente,
pertencia ao seu melhor,
ao seu único amigo. No espírito passava-lhe
confusamente a recordação doutros dias
já extintos
em que, entre êle e Nuno, se fôra consolidando uma
camaradagem nunca interrompida; e, por isso mesmo,
julgava que a fôrça secreta que o impelia para
Júlia
era uma traição... Uma
traição? A esta ideia, ficava
transido de terror e ansiosamente pretendia conhecer
a essência da sua admiração, da sua
simpatia, para
ver se nelas surpreenderia qualquer coisa de impuro:
mas, a análise minuciosa tranqùilizava-o.
Não!
Não existia nenhuma impureza no seu sentimento.
Amava Júlia santamente, como amaria uma irmã
mais nova.
—Em que diabo vais tu a matutar, Frederico?—interrogava
Nuno, intrigado com a sua prolongada
mudez.
—Eu? Em nada! A paz rural mergulha-me
num estado psíquico de tal ordem que me torna
incapaz de sustentar uma conversa. Verdadeiramente,
nem sei o que hei de dizer. Custa-me a articular
os vocábulos, a construir as expressões.
Quando o crepúsculo, descendo progressivamente,
idealizava as perspectívas e desdobrava sôbre
arvoredos, sôbre outeiros, pelas encostas, pelos vales
mais fundos, uma sombra e uma névoa que de
instante para instante se adensavam e gradualmente
escureciam, regressavam a casa, satisfeitos, reconciliados
com a natureza que lhes ofertava alegrias,
prazeres nunca experimentados. Júlia, pousando os
ramos de flores silvestres, que sempre trazia das
suas digressões pela campina, corria para o filho,
já
saùdosa da sua inocência, da sua formosura.
Devorava-o
com beijos, acariciava-o com meiguice, mostrava-o,
orgulhosamente, a Nuno, que sorria enlevado,
a Frederico, que a fitava num alheamento.
Os
stores subidos das janelas
deixavam entrar os
derradeiros fulgores da claridade expirante. Lentamente,
o céu embranquecia. Longe, as linhas dos
montes tinham enredamentos complicados que decompunham
uma paìsagem quáse sem realidade,
fantástica, cheia de vago e de mistério.
—E se tu tocasses alguma coisa antes do jantar,
Júlia?—lembrava Nuno. Até nos abria o apetite...
—Pois sim! Que queres que eu toque?
Prefere alguma composição, Frederico? Ou tem
horror á música?
—Eu, minha senhora? Sou um guloso do
som...
A delicadeza de Júl
A delicadeza de Júlia, interrogando-o sôbre as
suas preferências musicais, encantava-o. Não seria
isto já uma correspondência da simpatia
fraterna—oh!
simplesmente
fraterna—que sentia por ela?
A suposição alvoroçava-o.
—Que eu toco mal, muito mal. Não me julgue
uma grande artista. Há dificuldades que nunca
me foi possível vencer. Preciso que me escute com
benevolência...
—Deixa falar, Frederico. É exímia, por exemplo,
em Chopin—nos
Nocturnos,—afirmava
Nuno.
Júlia, protestando, sentava-se ao piano. O marfim
das teclas reluzia ainda no fulgor indeciso da
luz moribunda. O verniz dos móveis perdia o brilho.
A sombra parecia prender-se molemente aos cortinados
de renda, amontoar-se aos cantos: e um
Nocturno soluçava, em
harmonias, sob os dedos afusados
de Júlia, em que as pedras dos aneis chamejavam
fogos mortiços. Nuno e Frederico, sentados em
poltronas de molas flácidas e embalados pelo afago
da música, em que vozes ignoradas, vindas de muito
longe, das mais recônditas regiões da alma, se
lamentavam,
narrando a tristeza das aspirações nunca
alcançadas,
os sonhos de amor traídos, as ilusões nunca
realizadas, fechavam os olhos para mais se absorverem
no segrêdo, no mistério espiritual dessa
música
divina que pouco a pouco, e por influxo da sua
beleza, da sua potência expressional, da sua
doçura
penetrante, extinguia todos os azedumes, acalmava,
pacificava as imaginações sobreexcitadas, era
como que uma simbólica promessa de
aspirações
veementes que haviam de realizar-se e parecia conter
em si o sentido oculto da graça de viver. Fóra,
na noite silenciosa, a lua branca e enorme flutuava
no céu, entornava o seu luar suave como uma
carícia
pelo jardim adormecido, sôbre as ramagens dos
arvoredos imóveis do parque, alongava as formas,
transmitia às coisas inertes quáse que uma
emoção.
Na cozinha, em baixo, a vélha Margarida terminava
o jantar. O clarão vermelho do lume, que ardia
no fogão, irradiava, reflectia-se em cheio nos cobres
e nos metais, que resplandeciam, enquanto dois
belos gatos ingleses, cinzentos e listrados de negro,
ronronavam ao calor, enrodilhados debaixo duma
mesa. Depois, o piano calava-se, numa derradeira
vibração de som: e na tranqùilidade
que envolvia
a vivenda, a sineta retinia, anunciando festivamente
a refeição, que se prolongava até
tarde, entre
as conversas.
Muitas vezes, se o tempo corria brandamente
e a temperatura convidava, Frederico e Nuno baixavam
ao jardim, fumando e palestrando, ou, com
Júlia, iam sentar-se à varanda, entre as avencas,
os
fétos arbóreos, as begónias,
contemplando a scenografia
nocturna, que era surpreendente. Os campos
solitários, sob o fulgor do luar, repousavam sem
um sussurro. Um lento nevoeiro elevava-se para o
alto como uma ténue nuvem de algodão, esfumando
a paisagem. Os casais adormeciam na efusão luminosa,
extenuados da lide diurna. A paz que caía sôbre
a natureza, como uma bênção de Deus,
era infinita
e inexprimível. De instante a instante, a aragem
desprendia das frondes fôlhas mortas que baixavam
vagarosamente, quáse imperceptíveis, que se
demoravam um momento, no ar, trémulas, hesitantes
como asas de falenas. No seu recolhimento,
Júlia dizia, em voz baixa, para não perturbar o
enlêvo
contemplativo em que os três se abismavam:
—Admirável! Admirável! Só o campo
ainda
pode oferecer êstes espectáculos aos que veem do
ruído, da barafunda das cidades!...
O timbre da sua voz, que era muito puro, mais
encanto imprimia ao êxtase do Frederico, sentindo
que alguêm muito suavemente lhe falava à alma
para revelar-lhe sensações nunca
experimentadas...
Nessa manhã, Júlia, que estivera tocando a
Sonata
Patética, de Beethoven, descansava ainda
os
dedos fatigados sôbre as teclas, enquanto Nuno e
Frederico, encostados ao peitoril da janela, espreitavam
o parque. Uma criada entrou, de repente,
na sala, com o correio. Eram cartas e jornais, de que
êles logo se apoderaram para conhecerem o que a
cidade, pela sua imprensa ou pelas suas epístolas,
lhes revelaria de mais importante. Em face da pressa
com que ambos correram para a correspondência,
Júlia riu saborosamente, comentando:
—As grandes aglomerações hão de ser
eternamente
tentadoras para os que um dia habitaram a
sua perigosa confusão.
—Porquê?—interrogou Nuno.
—Ora! Ainda perguntas! A ansiedade com
que todos os dias esperas o correio! E dizes que te
agradaria ficar aqui, para sempre...
—Viva! Viva!... Sim, senhor!—bradou Frederico,
de súbito, concluindo a leitura duma carta.
—Que é, homem?
—Pois, é uma coisa estupenda. Nem podem
imaginar!...
—Entrou a revolução no Vaticano? Foi proclamada
a monarquia na Suíça?
—Santo Deus, não. Êsses factos
consideráveis
não me causariam surprêsa, porque hão
de dar-se
àmanhã, daqui a um ano, a dois
séculos... O caso
é êste:—a Alice Tôrres fugiu ao marido.
—A Alice Tôrres? Quem diabo é essa
Alice?—perguntou
Nuno.
—Ora, tu conheces... A Alice, uma loura,
casada há dois anos com o Fernando Tôrres, que
foi nosso condiscípulo na Politécnica e que
não concluiu
o curso...
—Ah! sei, sei... Perfeitamente... Agora me
lembro. E tu tambêm conheces, Júlia.
Voltaram-se ambos para ela, que ainda se conservava
ao piano, muito còrada do pudor melindrado.
—Sim, eu conheço-a... É uma infeliz!
—Infeliz?... Não, o nome que ela merece é
outro mais violento.
—Oh! Nuno! Jesus!...
—Queres, talvez, desculpá-la?
—Não! Lamento-a... O seu acto não tem desculpa,
mais inspira compaixão.
—O que êle inspira, no meu entender, é
bengaladas—atalhou
Nuno, brutalmente.
—O que, porêm, torna mais reprovável esta
fuga é que o homem que ela seguiu foi o Vaz de Sousa,
o amigo íntimo, a inseparável sombra do
marido—comentou
Frederico.
—O que? Que porcaria é essa?—atalhou Nuno,
com furor.
—Exactamente!... Com o Vaz de Sousa. Está
aqui a coisa com todos os pormenores, nesta carta
que me escreve o Alfredo de Oliveira.
E, para dar às suas revelações um ar
mais solene
e verídico, Frederico leu alguns trechos menos
escabrosos.
—Ouçam, que tem graça:—«O grande
escândalo
da semana forneceu-o a mulher do Fernando
Tôrres, a scismadora dos olhos ideais, que se
safou, com tôda a semcerimónia e todo o
descaramento,
com o Vaz de Sousa, visita permanente
dêste curioso ninho conjugal. Simpatia romântica?
Admiração pelo ôlho
lúbrico e pela melena do amante?
Não sei! Mas o palerma do marido—que nunca percebeu
que os dois há muito conjugavam o verbo
inglês
To
flirt—está como uma bicha. Há
miopias
fatais e a de Fernando foi uma delas... Aqui tens
tu!...»
Nuno, muito sério e sombrio,
cofiava o bigode,
enquanto Frederico lia. Júlia, emmudecida, curvada
mais sôbre o piano, batia nervosamente com a
ponta da unha sôbre um caderno de músicas. O
silêncio
tornava-se angustiado e embaraçoso para os
três.
—Que fará agora Fernando?—perguntou, finalmente,
Frederico, levantando-se da cadeira em
que estava sentado e dando alguns passos sôbre o
tapête.
—Não faz nada!—replicou Nuno. É um imbecil
e, alèm disso, é um
grotesco. Ainda havemos de
vê-lo, outra vez, muito amigo da mulher, depois
de perdoar à Madalena arrependida. Coitado, tem
bom coração, é inultrapassavelmente
cómico e a sua
dignidade é uma hipótese...
—Crédo, Nuno!—interveio Júlia. Pois,
é lá
possivel?
—Com êste idiota, tôdas as vergonhas
são
possíveis—afirmou sêcamente.
Ergueu-se tambêm, torceu o bigode com fúria
e depois, de mãos nos bolsos, parando diante de
Frederico:
—Se êle fôsse, na realidade, um homem, sabes
o que fazia?
—Procurava uma solução violenta...
—Tu o disseste... Porque esta traição carecia
dum castigo tremendo, exemplar, moralizador.
Portanto, partia atrás dos fugitivos, com um bom
punhal ou uma bôa pistola, corria até os
encontrar,
e, seguidamente, frio, implacável como a
vingança,
abatia-os a tiro como dois animais malfazejos e
imundos, retalhava-lhes as carnes sórdidas à
punhalada,
molhando bem as mãos no sangue culpado, que
escorresse das feridas, para se lavar...
Nuno falava
apressadamente, com
uma raiva
concentrada nos olhos, que fulguravam. Júlia desconhecia-lhe
aquela cólera que de súbito irrompera,
costumada como estava a vê-lo sempre afável,
sempre
terno, cheio de delicadezas e de tolerâncias para
tôdas as fraquezas humanas.
—Não há nada que mais me transtorne, que
me perturbe até à loucura, do que uma
deslealdade—explicou
êle. E neste caso, Frederico, há deslealdade
e há vileza. O coração humano tem
abismos de
infâmia insondáveis...
Júlia levantou-se, pensativa e atribulada. Pensava
na doida que um engano de amor fazia desertar
do lar, para perseguir aventuras ilusórias, obrigando-a
a romper com o respeito e a consideração da gente
honesta, com as convenções sociais, a cobrir-se
de
lama, a preparar por suas próprias mãos um
destino
que seria doloroso e cruel. Tinha-a conhecido no colégio,
outrora, na mocidade, fôra mesmo amiga dela
até ao momento em que a vida as separara. E compadecida
com aquele desvairamento, encontrava na
sua bondade e na sua pureza um sentimento para
atenuar a sua culpa.
—Vais-te?—inquiriu Nuno.
—Tenho tanto que fazer, filho!—respondeu
ela.
Nuno e Frederico ficaram sós, no salão que a
luz, entrando pelas vidraças descidas, alegrava. Sentaram-se
em frente um do outro, reatando a conversa
momentâneamente interrompida.
—Ela era uma cabeça no ar—dizia Frederico.
E o ludibriado não valia mais do que a mulher.
—Todos os maridos—retorquiu Nuno com
rancor—teem as mulheres que merecem; e êsse
Fernandete, já depois de casado, continuava uma
existência de devassidões. Ora, o casamento
é um acto
de responsabilidade que deve confinar-se na fidelidade
mútua dos cônjuges. Fóra
dêstes limites de dignidade
e de nobreza, transforma-se numa miséria.
Mas o que me indigna não é a fuga da
adúltera.
Caso banal... Ocorre constantemente... E muitas
vezes, mesmo, pode até justificar-se.
—Então que é?
—Mais desprezível do que Alice e do que Fernando
é êsse Vaz de Sousa, abusando duma estreita
amizade e da entrada num lar que o recebia confiadamente,
para praticar as
suas odiosas façanhas...
—Sim, com efeito!...—aprovou Frederico.
—É reles, é dissolvente de tôda a
moral.
E puxando mais a sua cadeira para junto do
amigo, para que só êle o ouvisse nas
confidências que
ia fazer-lhe, Nuno continuou:
—O primeiro dever do homem justo é saber
defender integralmente a sinceridade dos seus afectos—porque
para isso pensa—e saber dominar o
impulso das suas paixões bestiais—porque para isso
difere dos brutos e tem uma consciência. Posso falar
assim, porque já tive de repelir ásperamente dos
braços a espôsa dum conhecido—um simples
conhecido,
nota!—que por fôrça queria enxovalhar o
marido comigo.
—E quem era essa interessante dama?
—Perdoa-me. Não to digo—afirmou Nuno
com energia.
—Desculpa-me... A minha curiosidade é, na
verdade, irreflectida...
—Foi no último ano do nosso curso... Nunca
te falei nisto, por dignidade, porque me rebaixaria.
Há coisas que sujam... Mas, o mais pitoresco é
que
êsse marido e essa dama se transformaram, mais
tarde, em meus inimigos irreconciliáveis!... Não
é
encantador?... Embora! Ainda hoje me louvo por
esta acção, que é uma das mais belas
da minha vida,
Frederico!...
—Efectivamente, há beleza, há coragem,
há
heroísmo nela. Só conheço um
acontecimento
semelhante
na História Sagrada—riu Frederico.
—Tu, que és justo e que és leal, vê
isto:—Mete
a
gente, ingénuamente, na sua casa um homem
que nos merece a maior confiança, para quem vai
a nossa dedicação, tôda a nossa
afectividade. E desde
o primeiro dia em que lá entra, êsse homem,
êsse
amigo certo, começa a observar que a nossa espôsa
é bonita e apetitosa, que deve ser tentador o sabor
dos seus beijos e doce a palpitação da sua
ternura.
Como goza de favores que só se concedem às
pessoas
que verdadeiramente se estimam, há para êle as
maiores
deferências. Surgem as ocasiões
propícias à traição,
veem as intimidades, as fraquezas da mulher
confiante. Diz-se-lhe uma palavra mais ousada,
que lhe melindra a candura, mas que a não faz protestar.
A sua passividade dá coragem ao sedutor
para levar mais longe a audácia. Depois, ambos
cúmplices no crime premeditado, encontram nêle
solicitações cada vez mais fortes. São
os sustos
perto do marido que se engana abominávelmente, a
suspeita de que êle venha a descobrir tudo e se
vingue, os olhares medrosos que se trocam. Por
fim, chega-se à quéda irremediável, a
maior injúria
com que se pode humilhar uma criatura. E de
quem parte essa injúria? Duma pessoa indiferente
ao nosso sentimento, alheia aos nossos interêsses
morais, à nossa alma? De modo algum! Parte dum
amigo!...
—É horrivel, na verdade!—asseverou Frederico.
—É pavoroso!
—Mas, sabes o que eu ainda não consegui entender
bem, Nuno? Pois, é isto. Nos casos de adultério
em que a mulher prevarica, as ironias insultantes
da
multidão
vão para o marido. Para a prevaricadora
existem a piedade e a absolvição!...
—Iniquidades sociais. A turba-multa é sempre
impulsiva, injusta, não raciocina, não procura
ser
equitativa nos seus juízos... Mas, por isso mesmo,
os traídos teem de desafrontar-se com a maior ferocidade.
Eu, no logar de Fernando, matava-os! Matava-os,
trucidava-os, despedaçava-os como bêstas
feras!...—concluiu
Nuno, rilhando os dentes de furor.
Júlia, surgindo imprevistamente, veio
surpreendê-los
ainda no comentário fatigante daquele
escândalo clamoroso, que punha uma sombra mais
negra na fisionomia de Nuno e que não deixava expandir
livremente a jovialidade de Frederico.
—Então, aqui fechados, com um dia que é uma
delícia, um verdadeiro dia de rosas?—exclamou
ela, com uma extraordinária animação
no rosto.
—Tens razão! Êsse animal do Tôrres, com
as suas infelicidades caseiras, veio estragar a nossa
paz de espírito—murmurou Nuno. Queres ir até
lá abaixo, ao fundo da quinta, onde trago obras importantes
na habitação do caseiro, Frederico? É
uma diversão que nos há de fazer bem!...
—Não! Se mo permites, aproveito o tempo
para pôr em ordem uma correspondência atrasada
e desordenada. Olha que estou aqui, na tua hospitaleira
vivenda, há duas semanas e ainda não respondi
a ninguêm! Quem sabe se me julgarão morto
ou exilado?
—Bem! Então vou eu. Cumpre os teus deveres
de bisbilhotice.
—E eu acompanho-te, Nuno—acudiu Júlia.
—Tu? Mas é admirável a companhia. O
príncipe
e a princesa passarão as horas fazendo
le
tour
du proprietaire e oferecendo-se
à veneração dos seus
súbditos, dos seus vassalos, dos seus escravos...
Então, de-pressa! Vem daí.
—Ando há tanto tempo para ir ver essa pobre
gente, essa entrevada de quem me falaste, essas
crianças desgraçadas...—disse Júlia,
comovida.
—
Au revoir, Frederico. E
sê prolixo, homem...
Olha...
Curvou-se ao ouvido do amigo, murmurou qualquer
coisa que Júlia não pôde perceber, e
riram ambos
com alacridade. Descendo a escada, atrás da
espôsa, Nuno ainda ria, jovialmente, enquanto Frederico
se encerrava no escritório, diante dum tinteiro,
de cadernos de papel de cartas e duma jarra
com rosas frescas que Júlia tôdas as
manhãs renovava
para que ali houvesse continuamente graça, côr
e perfume.
Sôbre a escrivaninha de pau preto com
ferragens
amarelas e polidas que refulgiam, brilhavam no banho
fluido da claridade envolvente, havia um soberbo
retrato de Júlia, representando-a vestida de
baile, em corpo inteiro. A sua beleza, a-pesar-de morta
na fotografia, tinira uma pureza de linhas, uma opulência
de contornos, um relêvo, um esplendor indizíveis.
O decote deixava a descoberto o
princípio
do
seio, que era redondo e farto; o pescoço, desafogado
da espuma das rendas, exibia uma elegância e uma
nitidez impecável de modelação, tendo
a gracilidade
e o movimento de certos caules de flores, ondulando
à aragem. Uma expressão de felicidade sem nuvens
animava todo o seu rosto; e uma grande rosa prendia-se
à
corsage. Frederico
esteve contemplando o retrato
um instante, perdido em vagas meditações. Como
ela
era graciosa e divina, efectivamente! Os seus olhos
tinham um encanto virginal ainda—um encanto
que as lágrimas não haviam queimado. De
tôda ela
se exalavam, imperceptivelmente, a castidade, a
sedução, a ternura. A casa estava impregnada da
sua
personalidade, da sua virtude, do seu enlêvo.
Júlia
era a bôa deusa familiar que enchia, com a sua alma,
com a sua dedicação de mulher, com a sua
abnegação,
com o reflexo da sua formosura, aquela habitação
em
que um amor tam nobre vivia e se esquecia dos males
da existência. E Frederico via-a sorrir ao lado de
Nuno, mais presa do que nunca à sua paixão,
suavizando-lhe
os dias, acalmando-lhe as inquietações,
assistindo à formação das suas
vontades, dos seus desejos,
das suas ideias, para imediatamente obedecer-lhe,
oferecendo-lhe a bôca num beijo. Experimentava
uma inexprimível consolação interior,
pensando
nela...
Ao mesmo tempo, e sem saber porquê, acudia-lhe
à memória a cólera tempestuosa de
Nuno, quando
soube da fuga da mulher de Fernando Tôrres com o
outro—uma cólera que se adensava no olhar, que
ardia, que coriscava, que chamejava... Os dois amantes
iriam agora, entregues ao ardor da sua volúpia
pecaminosa, impura, talvez para as cidades estrangeiras
onde melhor pudessem ocultar-se, na embriaguez
dum gôzo que dura apenas um fugaz minuto e com
que a desgraça fabrica a dor, que é eterna. Mas
ao
menos, considerava Frederico, seriam felizes. A si
mesmo perguntava se êsse minuto, de que restaria
uma perdurável recordação,
não constituirá a felicidade
duma vida, de duas vidas inteiras...
Para fugir ao curso mórbido das suas
lucubrações,
Frederico
levantou-se, aproximou-se da
janela,
na ponta dos pés, como se temesse que o sentissem.
Na radiação loura da manhã, uma
alegria esparsa
flutuava sôbre as coisas. De baixo, do jardim, subia
um arôma adocicado. Nuno e a espôsa, de
braço
dado como dois namorados, afastavam-se ao longe,
através dos arvoredos do parque. Por entre os troncos
musgosos alvejava a brancura do vestido de Júlia—brancura
que ficava pairando no ar macio...
Frederico voltou a sentar-se. Uma grande, confusa
tristeza abatia-se sôbre o seu
coração...
IV
As primeiras manhãs de setembro tinham chegado.
Emigravam as andorinhas e as rôlas bravas e
no ar luminoso errava a melancolia vaga dum outono
próximo. Grandes nortadas sopravam rijamente, levando
através do espaço densas nuvens de poeira.
Pelos arvoredos do parque, na meia tinta de luz,
amareleciam as folhagens: e os crepúsculos, tendo ainda,
no horizonte, reverbarações imensas, eram
já
um pouco húmidos. Havia, por vezes, céus brumosos
que davam indeterminados longes á paisagem,
tocando-a de lentos nevoeiros.
Durante todo o tempo que Frederico passara
na quinta afastado da variedade e dos tumultos da
vida citadina, estabelecera-se entre êle e Júlia
uma
estreita intimidade afectiva que mais gratas tornava
as horas doces que de contínuo fugiam. Nuno
andava inteiramente ocupado com as alterações
a que mandara proceder nas dependências habitadas
pelo caseiro, para que nelas houvesse mais confôrto
e mais higiene. Interessava-o, afinal, o pobre cavador
que envelhecera precocemente, nas dolorosas labutas
da terra, vendo crescer à sua volta outras
vidas louras, frescas e inocentes, tambêm condenadas
â escravidão da
gleba, e enchera-o de piedade a miséria
da entrevada que no seu leito, escasso de roupas,
tinha um riso de resignação, absolutamente
conformada
com o destino. Mesmo enfêrma, enquanto
o homem, o bom Mateus, se extenuava de sol a sol,
segurando entre as mãos calejadas e firmes a
rabiça
do arado que rasgava o seio da leiva, para fertilizá-la,
ou espalhando no húmus revolvido as fecundas
sementes que germinariam nas abundantes searas,
remendava as roupas e dirigia o
ménage.
—A-pesar-de doentinha—dizia uma vez o caseiro
a Nuno—ainda é uma ajuda. Deus ma conserve
mesmo assim, porque se morresse fazia-me grande
falta...
De quando em quando Nuno, comovido, abria
vagarosamente a porta cerrada, para a ver, para lhe
falar. Júlia, com a sua bondade, melhorara muito a
sorte da paralítica, rodeando-a de bem-estar, mandando-lhe
todos os dias um alimento mais apetitoso
e nutritivo: e ela, grata a estas delicadezas, não se
cansava de louvar, nas suas orações ardentes, os
bons
senhores que ao seu lar desditoso haviam levado
uma clara luz de alegria.
—Então, como vai hoje, snr.
a Teresa?
Melhorsinha,
não é assim?—perguntava-lhe Nuno.
—Para aqui estou à espera da minha hora! Pois,
como hei de estar, se é esta a vontade de Deus?...
E curtidinha de padecimentos!—respondia ela, com
um fundo suspiro.
Mas logo, no seu rosto macerado e pálido se
iluminava a claridade dum sorriso.
—E a senhora e o menino?—interrogava a
doente.
—Estão esplèndidos. Não há
mal que lhes chegue,
neste paraíso. Êles qualquer dia por aí
voltam
a aparecer.
—Ai! Deus os guie, que bem o merecem!...
Nuno, que não queria que à roda da sua felicidade
existisse gente desgraçada, ordenou a
construção
duma casa nova ao lado da primitiva—que
se esboroava de vetustez e que vinha dos tempos
longínquos em que os seus antepassados tinham
adquirido aquela propriedade que constituía a parte
mais vasta dos seus domínios territoriais. Alargara os
estábulos para o gado, dera maior amplitude ao
alpendre e à eira e procurara longe, na encosta
dos montes que ficavam ao fundo da quinta, um
mais farto veio de água de rega, canalizando-o,
com argamassa e pedra, para as terras alugadas ao
tio Mateus, que resplandecia de contentamento e que
murmurava, com a face jubilosa e enrugada em que
as barbas crespas encaneciam:
—Isto é o poder do mundo! As colheitas futuras
hão de encher-me celeiros e tulhas!...
—Está contente?—inquiria Nuno.
—Ora! se estou contente!... Pois, o patrão
faz um milagre destes e ainda me baixa a renda!
Que hei de querer mais?
O caseiro, na sua gratidão, comparava a generosidade
do amo com a secura do procurador, um
unhas de fome que nunca lhe atendia as mínimas
reclamações,
que nem sequer lhe mandava concertar
o telhado por onde, nos invernos agrestes, entrava
a água das chuvas, e que, nos anos hostis, não
lhe
perdoava um ceitil.
—Se quereis conhecer o vilão metei-lhe a vara
na mão—dizia o tio Mateus, lembrando-se dêsse
homem de expressão dura e coração
empedernido
que um mês antes do pagamento do aluguer, o procurava,
exclamando:
—Olhe que é daqui a trinta dias. Previno-o,
para que não venha depois com desculpas.
Agora, mercê da magnanimidade de Nuno,
a esperança renascia na alma do lutador
destroçado
que, durante uma longa existência, em vão se
afadigara para que nas suas arcas o pão fôsse mais
farto e que a vida amarga vencera, acabrunhando-o
de tristeza. E êsse renascimento
palpitava por tôda
a parte, nos vergeis, nas hortas, que eram mais viçosas,
nos espíritos humildes, que adquiriam maior
confiança!
Entregue ao entusiasmo das suas ocupações
de proprietário rural, Nuno, em certas manhãs,
abalava
logo depois de almôço, de charuto aceso e uma
côr de saúde na face máscula, para
vigiar os trabalhos.
Esta actividade nova tinha para êle um grato
sabor. A princípio, Frederico acompanhava-o, interessando-se
tambêm por uma lide que desconhecia.
Depois, porém, enfadou-se: e, sempre que o amigo
o convidava para ir até ao fim da quinta,
êsse enfado acentuava-se, reflectindo-se-lhe no rosto
desconsolado. Acabou por desculpar-se, dizendo-lhe:
—Não! Eu fico, se a minha companhia te não
é indispensável.
—Pois fica, homem. Fica e dorme!
—Eis um ideal que me encanta, Nuno. Sempre
tive as melhores disposições para o sono.
Então, Frederico, penetrado pela quebreira
que amolecia o ar, descia ao parque, escolhia um recanto
de sombra e lá se demorava lendo um romance
ou evocando as suas recordações e pensando no
caso
passional que o trazia inquieto. O calor, a
irradiação
crua do sol, faziam pesar mais o silêncio. A atmosfera
resplandecia, tinha uma vibração especial no
esplendor
matutino da claridade. Até ao seu isolamento
chegavam o chiar dos carros de bois, vergando
sob a carga e atravessando os caminhos desertos,
a cantiga idílica dum pastor distante, o sussurro
das folhagens estremecendo ao vento, sôbre a
sua cabeça. Em certos instantes, repousando das fadigas
caseiras, Júlia, ao piano, tocava uma página
musical
que embalava suavemente a solitude. O sol saía
em ondas pelas janelas abertas aos eflúvios do jardim—e
a música, nesta solidão inspiradora, adquiria
maior sedução e beleza. Frederico, pousando o
romance, analisava o estado particular dos seus
nervos. Uma grande, inexplicável lassidão
prostrava-o.
Sentia-se incapaz dum mais vivo esfôrço de
reflexão, dum metódico exame da sua
sensibilidade.
Parecia-lhe que estava fóra da sua personalidade
psíquica: a realidade exterior produzia-lhe uma
bizarra alucinação que o transtornava; mas, neste
sobressalto intimo havia, alternadamente, certos
fulgores de pensamento, relâmpagos de inteligência,
que lhe aumentavam a angústia e a opressão
interior.
Um elemento
estranho, tendo qualquer coisa
de violento, de obscuro e de nítido, conjuntamente,
invadia-o e perturbava-o. A imagem de Júlia acudia-lhe,
sem repouso, à imaginação—e notava
que
essa imagem era muito diferente da mulher que êle
conhecia, da espôsa encantadora e virtuosa de Nuno,
Atribuía êste fenómeno desconcertante a
uma singularidade
do seu organismo enfêrmo. Monologava,
atribulado:
—Eu estarei doente, na verdade? Doente de
espírito e de corpo?
Como os dias que ia vivendo, no meio duma
confusão e duma agitação que lhe
não davam tréguas,
eram diversos dos que, dois meses antes, tinha
passado naquele refúgio em que Nuno se abrigara
com a sua ventura conjugal imensa! Então,
tudo era paz, enlêvo, serenidade no seu
coração,
lucidez
no seu cérebro. Compreendia mais fácilmente
o espectáculo que o cercava; era mais acessível
à
bondade e à beleza; convalescia, sarava, uma
esperança
floria no seu scepticismo, e o calor dos afectos
experimentados fundia dentro de si tôda a frieza e
todo o egoísmo. E agora, não! A tranquilidade
emotiva
dos primeiros dias perdera-se completamente.
Um agente mórbido, qualquer provocava nêle,
de-certo,
alterações profundas, transformava-o num
sêr
humano que o seu próprio sentido ignorava. Que
doença seria essa? Física ou espiritual? E se
fôsse
espiritual, proviria da influência duma luz
súbita,
revelando aos seus olhos uma felicidade possível,
ou da suspeita duma dor inevitavel? Frederico fazia
estas interrogações a si próprio, sem
encontrar uma
resposta que o esclarecesse. No entanto, observando-se
minuciosamente, era
ditoso pensando em Júlia—e
êste sentimento, ao mesmo tempo que o iluminava
interiormente, gelava-o de terror, como se
representasse um perigo imediato, uma catástrofe de
que não pudesse já desviar-se. Ela era a
companheira
purificada e terna de Nuno, via-a ao lado do marido
imersa na ventura que êle lhe oferecia, como
uma flor imersa em aroma, surpreendia-os a cada
passo beijando-se com transporte, apertando-se no
mesmo abraço, peito contra peito, face contra face,
para mais intensamente sentirem a pulsação dos
corações.
Frederico, absorvendo-se em ideias de que
não conseguia emancipar-se e que eram a sua permanente
obsessão, em sensações que o
não abandonavam,
ao estudar a sua psicologia com pavor de
chegar a alguma conclusão que o aterrasse, murmurava,
para se iludir:
—Verdadeiramente, não a amo com um amor
físico. Sou-lhe apenas grato pelo encanto que me
transmite e devo-lhe um reconhecimento moral a que
não quero fugir.
Concentrando-se, calculava as consequências
que uma adoração menos pura por Júlia
provocaria
fatalmente. Via-se perto de Nuno, escondendo, como
um remorso ou como um crime, essa adoração que
nunca revelaria e que lhe roeria a alma como os
vermes roem os frutos podres, quando êle, com uma
lealdade que se lhe espelhasse nos olhos e com uma
amizade consolidada por longos anos de dedicação,
lhe confessasse o reconhecimento que consagrava a
Júlia, a claridade, o perfume, a graça que lhe
trouxera
a vida, a bôa fortuna que nela—na sua pureza,
na sua beleza, na sua devoção—encontrara; e,
raciocinando
assim,
como se admitisse a duplicidade
do seu afecto por Nuno e do seu amor por Júlia, considerava
que seria infinitamente desgraçado. Tinha
mêdo dum tal desfecho: e, para se libertar de
cogitações
dolorosas, tentava esquecer, espairecer, distrair-se.
Levantava-se, corria o parque a largos
passos, sacudia com as mãos nervosas os arbustos
floridos, fazendo cair nos musgos do chão um luminoso
e colorido orvalho de pétalas, monologando:
—Ah! não, que horror! Não sinto ainda por
Júlia uma paixão sensual, não a desejo
pela carne,
não me impele para ela um fogo impuro, uma
fôrça
abominável. Quando essa paixão chegar—se
é que
ela tem de vir—saberei ser enérgico, hei de dominar-me,
fugir, esquecer...
Por nada traíria Nuno, abusando da sua hospitalidade
tam carinhosa e tam franca. Não queria imitar
Vaz de Sousa; não mancharia, com uma inapagável
mácula, a santidade daquele lar; não toldaria
a pacificação daquela morada em que se
agasalhavam
sentimentos perfeitos já abençoados por uma
inocência angélica; não conturbaria a
limpidez da
sua afectividade fraterna com um punhado de lama
e de vileza. Era um homem, um consciente, possuía
uma dignidade, uma irredutível inteireza de
carácter.
De resto, Júlia, que aos dons da sua formosura
aliava os dons mais nobres e elevados duma
dedicação
admirável, seria a primeira a repeli-lo com
indignação,
a execrá-lo, intimando Nuno a pô-lo
fóra
da porta como um ladrão que ali penetrasse para
roubar uma felicidade que só a ela pertencia. E o amigo,
sabendo de tudo, iria para êle com uma cólera
que a imensidade da traição praticada mais
avolumasse,
ferozmente, as
mãos crispadas, os dentes
rilhados, o desvairamento homicida fulgurando nos
olhos... Não era, de-certo, o temor que o fazia retroceder.
Nunca fôra timorato. O que o assustava mais
era a torpeza moral em que se afundaria para sempre.
—Quantos disparates a minha fantasia enfermiça
arquitecta!—diria Frederico, zombando forçadamente.
Com efeito, o irremediável não se interpusera,
por enquanto, entre êle, Nuno e Júlia. Podia estar
absolutamente tranqùilo, sem còrar da
perversidade
duma acção que nem sequer se esboçava.
Mas que
infortúnio, o seu! O ardor dos sentidos conduzira-o
a uma situação alarmante que já o
fazia sofrer com
amarga crueldade. Entrando naquela habitação,
pela
primeira vez, julgou que vinha encontrar o sossêgo
de espírito, a calmaria, o repouso da alma: e, afinal,
apenas encontrara uma angústia maior, uma tortura
mais lancinante! Como se operara no seu ser
uma transformação de tal ordem? O
convívio de
tôdas as horas, a ambição duma ternura
igual àquela,
o renascimento de ilusões que julgava extintas,
deprimiram-no,
certamente; o encanto que da formosura
e da pureza de Júlia irradiava, penetrava-o subtilmente,
contra a sua vontade, contra o seu veemente
desejo. Era êle, porventura, culpado desta fatalidade?
Podia ser acusado com eqùidade e justiça,
pela consciência e pela inteligência que lhe
formavam
a individualidade psicológica e mental? De-certo
que não! Êste subterfúgio
apaziguava-o...
Continuava o passeio ou entregava-se, mais
calmo, à leitura, olhando a vida por aspectos menos
carregados. Se Nuno se demorava, ocupado pelos
trabalhos que andava dirigindo, Júlia descia
tambêm,
um momento, ao parque, graciosa, adorável de beleza
e de simplicidade. Frederico via-a avançar, com
o coração pulsando desordenadamente, o sangue
circulando
com mais pressa nas veias e uma grande
palidez no rosto. O busto de Júlia modelava-se
nítidamente
na leveza e na frescura duma blusa de sêda
branca, deixando-lhe a descoberto o pescoço redondo,
fino e alto, o princípio do colo, em que a pele
se dourava à luz, uma parte dos braços que
emergiam,
admirávelmente contornados, da espuma de
rendas das mangas: e isto provocava uma atracção
irresistível, tornava mais áspera a sua
ânsia. Júlia,
avistando-o, ia para êle naturalmente, sem acelerar
mais os passos que obedeciam ao ritmo sempre igual
dos seus movimentos, falava-lhe:
—Então, para aqui só, aborrecendo-se
mortalmente?...
—Oh! minha senhora, que ideia!
—Nuno sempre tem um modo de compreender
a hospedagem!...
—Mas, se fui eu que não quis acompanhá-lo!...
Hoje,
apetece-me o isolamento.
—Tem, talvez, conversas com os espectros das
suas saùdades...
—Não. Sou um esquecido do destino, um abandonado
da própria saùdade. Ninguêm se
interessa,
por mim!
—Ninguêm?—interrogava Júlia, risonha e duvidosa.
—Ninguêm...!—afirmava Frederico, fitando-a.
Mas arrependia-se imediatamente da fixídez
com que a olhava, no receio de cometer alguma
grosseria que a magoasse, no susto de que o seu
olhar revelasse coisas que êle nem sequer se atrevia
a formular, no confuso turbilhão dos seus sentimentos—e
muito perturbado, desviava a vista.
—Creio eu lá nisso!—acrescentava ela.
Numa destas ocasiões, perigosas para a serenidade
de Frederico, Júlia sentou-se num outro banco,
perto dêle, quis saber que livro lia, quais eram as
suas leituras predilectas: e Frederico respondeu com
um riso a que pretendia imprimir naturalidade:
—As minhas leituras predilectas são as biografias,
a correspondência dos grandes homens, as obras
de psicologia.
—Porquê, porquê?
—Porque me interessam as almas superiores...
Júlia pegou no volume que Frederico folheava,
viu o título.
—Em todo o caso, lê tambêm romances!...
—Nos romances, há ainda almas, minha senhora...
—De que trata êste?
—Dum amor infeliz, dum amor que nunca se
confessou, e que era incomparável de
elevação, de
fervor, de constância...
—Bem sei! Dum amor absurdo, dum amor que
apenas existe na emoção e na ideia dos
artistas...
Um grande e puro amor confessa-se sempre.
—Sempre?... Eis um belo êrro!
—Ora essa! Êrro?... Não compreendo...
Para se furtar a um diálogo em que, irreflectidamente,
podia traír-se, Frederico deu novo rumo à
conversação.
—A uma mulher é que nunca se deve perguntar
quais são os livros da sua preferência, snr.
a
D.
Júlia.
—Não sei porque não. Olhe, eu digo-lhe
já o
que prefiro, em literatura:—são os poetas
líricos.
—Não se deve fazer uma tal pergunta indiscreta
às senhoras, porque na selecção das
leituras
os espíritos femininos revelam-se.
—Ah!—atalhava Júlia. Não sabia!...
E os seus olhos negros e imensos, banhados
por um claro-escuro húmido e misterioso, pousaram-se
vagamente em Frederico, parecendo contemplar
aparições inefáveis,
longínquas, imprecisas.
—Talvez haja alguma verdade no que diz—exclamou
ela.
—Creio que há tôda a verdade...
De repente, levantou-se, pousou o livro, murmurou:
—Nuno demora-se tanto!...
E sorrindo, com um enlêvo maior na voz, uma
gracilidade mais animada nos gestos:
—Coitado! Anda todo apaixonado por uma
obra de generosidade e de misericórdia. É um
santo.
A miséria da família do caseiro atormentou-o.
—Um coração de ouro!—concordava Frederico.
—Não é verdade?—atalhou ela, tôda
interessada
e com o reflexo dum grande contentamento na fisionomia.
—Um coração de ouro!—repetiu Frederico,
pondo nas suas palavras a convicção e a
sinceridade—uma
alma como poucas existem!...
Júlia agradeceu-lhe com um olhar infínitamente
meigo aquele justo louvor ao marido e disse afectuosamente:
—Vou até lá acima... Acompanha-me ou ainda
fica por aqui, pelas espessuras, como um namorado,
com as suas lembranças?
—Ainda fico, minha senhora, mas só, sem
recordações, uno e indivisível, em
corpo e em alma.
Soltando uma gargalhada, Júlia afastou-se vagarosamente,
colhendo uma ou outra flor no caminho,
cantando entre dentes, voltando-se ainda para trás
e rindo sempre; e Frederico, seguindo-a com a vista,
notava que junto dela, respirando o mesmo ar, o
envolvia a carícia dum ambiente em que a brisa
tépida e odorífera como que emanava a
vaporização
duma volúpia tôda esperitual em que não
havia
nenhuma instigação inferior da animalidade, da
substância,
do sangue, dos nervos. A notação fina desta
particularidade tranqùilizava-o. Ah! admirava profundamente
a mulher de Nuno, mas apenas porque,
entre a fealdade moral da sociedade que conhecia de
perto, Júlia era um dêsses raros seres dispondo do
condão de reconciliarem com a espécie o homem de
temperamento sensível...
Neste devaneio infindável, as horas corriam ligeiras,
a tarde baixava, um arrepio friorento passava
no parque, entre os troncos, fazia tremer as fôlhas
pendentes. O azul, alto e brilhante, empalidecia:
e Nuno, voltando das obras, com a roupa em desalinho,
despenteado, as mãos cheias de terra, veio
encontrá-lo
ainda sentado no banco, meditando.
—Cheio de tédio, hein? Mas a culpa é tua,
Frederico!—gritou
êle, surgindo, de repente, do meio
das árvores.
E contou-lhe então, com entusiasmo, como fôra
ocupado e fértil em resultados o seu dia, a sua actividade
junto dos pedreiros e dos carpinteiros, dando
ordens, fornecendo indicações,
esboçando projectos de
trabalhos mais vastos, pedindo esclarecimentos ao
vélho Mateus sôbre a lida agrícola.
Até, para se
exercitar, para desemperrar as articulações,
tirara a
enxada ao caseiro e cavara um bom bocado! Mostrava
as botas enlameadas, as mãos vermelhas do
exercício
violento. Frederico, ouvindo-o e como se regressasse
das regiões longínquas, irreais, por onde andara
com a sua fantasia, atalhou:
—Pretenderás tu fazer-te lavrador tambêm?
—E porque não?—replicou Nuno, muito
sério.
—Homem, isso é ainda literatura, poesia rural
à maneira das
Geórgicas...
Mas Nuno protestava, afirmava que ia pensando,
realmente, em dedicar à lavoura a sua existência
improdutiva, sendo assim útil a si, aos seus,
à colectividade, empregando novos processos de cultura
que duplicariam a fecundidade da terra, fazendo
experiências em que constantemente pensava desde
que se instalara na quinta.
—Porque, sabes tu? Os nossos agricultores seguem
fielmente o caminho trilhado por uma rotina
secular. Não querem afastar-se dêle, desdenhando
as inovações que, com menos dispêndio
de fôrças,
aumentariam a produção e ofereceriam
óptimas compensações.
—Santo Deus, como vais de-pressa!—contrariou
Frederico. Mas isso é a multiplicação
dos pães
de que nos fala uma doce página da Bíblia. A
multiplicação
dos
pães? Que digo eu?
Trata-se dum milagre,
mais considerável. Chegas, da cidade, vestido
como um
dandy, nada sabes de
agricultura, ignoras
mesmo como se produz a torrada que comes ao
almôço, com manteiga, mas isso que importa? Tens
audácia para tudo! Pegas num punhado de trigo,
ao levantar do leito, tomas o teu café, fumas o teu
charuto...
—Não rias, Frederico! Olha que começou, na
verdade, para mim, uma vida nova...
—Espera, deixa-me acabar!... Espalhas êsse
punhado de trigo ao raiar da manhã. Ao meio-dia,
uma enorme messe de louras espigas ondula já à
aragem, como um mar de ouro fôsco. Á tarde, chamas
os ceifeiros, fazes a colheita e enches um celeiro!... É
como nos contos do fadas...
— Bem! Não há maneira de nos
entendermos—concluiu
Nuno. Vamos jantar. Isso é debilidade... A
fraqueza excita o teu delírio.
Atravessando os arruamentos da floresta, que
escureciam, o jardim, que rescendia, Frederico ainda
satirizava as intenções de Nuno, afirmando:
—Se, na realidade, pensas em fazer-te lavrador, em
te consagrares à terra, então sempre te digo que
há tôdas
as probabilidades de que venhas a arruìnar-te...
—Arruìnar-me?
—Não tenhas dúvidas! Um simples pão,
que podes
comprar por um vintèm em qualquer padaria,
agricultado por ti, com máquinas para arar a leira,
máquinas para ceifar o trigo, máquinas para a
debulha, adubos químicos, outras coisas requintadas
e modernas, virá a ficar-te por cinto tostões, o
que é, na realidade, barato, não te parece?
Entraram em casa, conversando e rindo. Cá fóra,
ao ar livre, anoitecia. O ocaso, com sua tristeza elegíaca
e o vago das suas sombras, descia apressadamente.
As ramagens dos arvoredos imobilizavam-se
na atmosfera. Uma névoa ténue subia da terra para
o alto. Das coisas inertes parecia elevar-se um confuso
múrmurio que fôsse como que a confissão
da natureza
para Deus. As criadas acendiam as luzes, na vivenda,
e as vidraças lampejavam batidas por um súbito,
inesperado
fulgor de ouro. Nuno e Frederico lavaram-se,
vestiram-se para o jantar, aparecendo na sala já
quando os esperava Júlia—e a palestra reatou-se:
—Pois, minha senhora, dou-lhe os parabens!—exclamou
Frederico, sentando-se.
—Parabens, porquê?—interrogou ela.
—Nuno está decidido a integrar-se na simplicidade
e na lavoura. É bem provável que esta
habitação
mundana venha a transformar-se em herdade,
brevemente.
—Está hoje impossível,
Júlia!—retorquiu
Nuno. Não compreende que um janota como eu venha
a ser um agricultor razoável, a fixar-se aqui
definitivamente,
a despir-se de todo o artifício por
amor à naturalidade.
—Ouve-o? É a renovação que
começa. Teremos
em Nuno, dentro de pouco, o Jorge Brumell
das colheitas.
—E porque não? Porque não?—perguntou
Júlia, olhando demoradamente o marido.
—Tambêm V. Ex.
a?... Belo!
Já está
convertida.
A coisa é mais importante e profunda do que
eu julgava. Assisti, neste lar afável, ao nascimento
duma religião nova...
A conversação alegrava-se, sob o reflexo da
claridade
que fazia relampejar as pratas, scintilar os cristais,
alvejar mais puramente os linhos e brilhar com
maior nitidez o verniz dos móveis e a
coloração
das flores que morriam nos solitários. A serenidade em
que a vivenda adormecia era tanta que se ouviam os
menores ruídos. A criada que servia à mesa, no
seu
severo vestido preto com punhos e gola de bretanha
gomada, ia e vinha sôbre a alcatifa do corredor longo,
em passos apressados e miúdos. Da cozinha chegava
o rumor das palestras e da louça que se entrechocava.
Cães latiam ao longe, pelos casais silenciosos.
De vez em quando, o som duma viola passando
para os serões ou para as desfolhadas nas eiras, sob
a lua branca, poetizava, bucolizava a solidão...
No fim do jantar, Júlia levantou-se, estendendo
a face a Nuno para o beijo costumado e apertando
a mão de Frederico, para tratar da
refeição dos servos.
Os dois conservaram-se ainda sentados, fumando
e divagando...
Depois, no seu quarto Frederico, sentindo um
desalento inexprímivel pesar mais duramente à sua
volta, na imensa melancolia dos ideais falhados, no
desespêro da ansiedade que o devorava e da incerteza
que o consumia, reencetou as suas lucubrações,
sentando-se
numa poltrona e deixando correr as infindáveis
horas de pacificação exterior. O que agora temia
era que nêle se viesse a dar o violento conflito do
espírito e do instinto, perto de Júlia—o que
seria
um suplício que mais lhe atribularia a amargura de
viver. Observava que já ao lado de Nuno não
estava
bem, que temia o desconhecido, que experimentava
um constrangimento inexplicável. E porquê?
De-certo
que o amigo tinha
para êle as mesmas delicadezas,
as mesmas atenções, a mesma inefável
simpatia;
mas bastava que Nuno o fixasse mais detidamente
para que logo julgasse que o seu olhar penetrante pretendia
expiá-lo, ler-lhe na alma surpreender os sentimentos
impuros que lá se geravam. Suspeitaria dalguma
coisa? Teria Frederico deixado adivinhar o seu
drama, por uma frase impensada, por uma palavra
mais ardente de louvar a Júlia, por um estremecimento
de paixão irreprimível que pusesse Nuno de
sôbre-aviso? Não! Claramente, não!
Tôdas as suas
dúvidas nada mais representavam do que uma
perversão
da sensibilidade nervosa, uma alucinação dos
sentidos...
Ainda não sabia se amava Júlia—porque tinha
mêdo de interrogar-se; se a desejava carnalmente;
se a admiração que lhe dedicava era de
essência espiritual
ou sensual: mas se, com efeito, era maior
a perturbação que o alvoroçava,
ninguêm—nem êle
mesmo—conheceria êsse amor insensato, que ficaria
para sempre secreto, que jàmais seria revelado!...
Enquanto scismava, a casa, sob o afago da sombra
nocturna, repousava serena, como a felicidade
que a habitava. Apenas do quarto, onde a ama dormia
com o filho de Júlia e de Nuno vinha uma claridade
dúbia da lamparina acesa, filtrando-se através
das bandeiras das portas, que eram de vidro. E Frederico
continuava os seus devaneios. Naquele momento,
a mulher admirável para quem ascendiam,
como um incenso, a sua crença pura e a sua
admiração
exaltada, adormecia tranqùilamente, junto do
marido, tendo ainda na bôca o calor e o perfume
dum profundo beijo apaixonado e genesíaco. Êsse
calor
rosava-lhe
a pele da face, acelerava-lhe a
circulação
do sangue, tornava-a mais linda. Reconstituia-a
no sono, a cabeça pousada sôbre a alvura do
travesseiro
por onde se espalhavam, como uma núvem, os
seus cabelos desmanchados, o peito arfando docemente,
a carne esplêndida vibrando de desejos... Impaciente,
Frederico erguia-se, dava alguns passos
irresolutos sôbre o tapête fôfo, e
voltava a sentar-se
sem poder aquietar. Sentia subir das recônditas intimidades
do seu ser um ciúme horrivel pelo amigo,
que fruía uma indizível ventura com a posse da
mulher
esplêndida (que tambêm o aliciava a ele—e com que
formidável intensidade! Então, enclavinhando a
mão
trémula nos cabelos, Frederico revoltava-se contra
si próprio.
—Que inferno êste, hein? E que abjecta criatura
desperta em mim!...
Na realidade, Nuno era para êle o irmão, a amizade
inquebrantável e fidelíssima, a
afeição cega. Abrira-lhe
confiadamente as portas do seu lar virtuoso, considerava-o
como um membro da sua família, devotara-se-lhe
inteiramente, mostrara-lhe a alma. E
êle, correspondendo a esta confiança, a
êste afecto,
a esta devoção, estava ali, naquele doloroso
momento
de tortura, invejando-lhe criminosamente a
espôsa legítima, odiando-o pelos beijos que com
ela
trocava, pela presença de Júlia no seu
tálamo—um
tálamo que a adoração mútua
santificava e em que o
ventre da mulher amada recebia o calor que faria
germinar as vidas novas e esperançosas.
—Não! Isto é verdadeiramente infame!—exclamava
Frederico, acusando-se com rancor.
Deitou-se, mas não podia dormir. A imagem de
Júlia perseguia-o; a inquietação
permanente irritava-lhe
os nervos, exauria-o. Quáse imputava a
Júlia a responsabilidade da dor fulgurante que sentia,
da agitação que o alucinava; mas logo
caía em si,
arrependendo-se. Era injusto, inexorávelmente injusto!
Ela não fizera nascer, por uma só palavra,
por uma atitude suspeita, por uma irreflectida
coquetterie,
o sentimento funesto que o invadira. Frederico
é que não pudera dominar-se, ser casto, ser
nobre, ser
refractário a um
desejo vil.
O culpado
único do seu tormento era êle, certamente. E
julgava
que, por mais que sofresse, todos os seus sofrimentos
não valeriam uma ligeira mágoa que pudesse
causar a Júlia, se lhe revelasse o fogo em que ardia;
que tôdas as suas lágrimas não valeriam
uma única
das lágrimas que Júlia choraria, se êle
tentasse destruir-lhe
uma placidez de que era tam digna, pela alma,
pela bondade, pela elevação moral, pela
formosura,
corpórea.
Em determinados instantes, o seu cérebro tinha
uma estranha lucidez. Lembrou-se, repentinamente,
de factos, de acontecimentos há muito olvidados.
Ocorriam-lhe trechos de leituras feitas. Recordou-se,
por exemplo, de ter lido há muito tempo,
num livro de que esquecera o título, esta
sentença
que agora solicitava particularmente a sua
atenção:—«Elemento
divino e principal, que a natureza produz
mas que apenas a vontade aperfeiçoa, a Beleza
é uma simples exteriorização da forma.
Tudo é susceptível
de beleza, do gesto ao acto, do olhar à palavra.
Se o primeiro passo perfeito fôr o de concentrar
tôdas
as aspirações de beleza num sêr
único, o segundo
será o de preferir a beleza da alma à beleza
físicamente