afectiva
do corpo». No delírio da sua
febre,
Frederico construía teorias que lhe pareciam encerrar
a verdade total e que logo abandonava, como
infantis: e só de manhã, quando uma luz ainda
indecisa
e fresca se coou através das frinchas da janela,
êle conseguiu adormecer, cansado, extenuado pela
vigília
e pelas emoções intensas. Ao levantar-se, estava
pálido, mal disposto, cheio de tédio—e pensava
então
que a vivenda de Nuno se lhe tornava insuportável
de dia para dia...
Uma tarde, o amigo abalou para as obras que
continuavam activamente. Ao passar no escritório de
Nuno, para escolher um livro, Frederico encontrou
lá Júlia, que bordava um pano de mesa, sentada
à
janela abrindo para o jardim e tôda ensombrada
por uma trepadeira já sem flor. Frederico sentou-se
tambêm, vendo-a trabalhar. Tinha um vestido preto
que lhe imprimia maior destaque à brancura das
carnações. Na gola da
corsage, afogada ao
pescoço,
fulgurava um brilhante, irrizando-se à luz. Os seus
dedos magros manejavam ágilmente a agulha. Como
sempre, a noite de Frederico fôra tempestuosa,
deixara-o doente e mais aborrecido. Resolvera internar-se
no parque, à procura do isolamento, do
sossêgo, que apaziguavam o seu frenesi: mas, deparando
Júlia, experimentou logo a irresistível
atracção
que ela exercia sobre o seu sentimento e achou
um doce sabor na sua companhia. Seguia mudamente
o bordado, com a face encostada à palma da mão;
e, para interromper um silêncio que lhe fazia, mal,
exclamou:
—Só as senhoras teem paciência para tais
tarefas...
—Questão de hábito—respondeu Júlia,
sem
levantar a cabeça.
—Eu era incapaz de chegar ao fim duma coisa
dessas, que me parece mais fatigante e difícil do que
os dôze trabalhos de Hércules... Estragava tudo,
rasgava
tudo...
—Jesus! Pois é assim impaciente?...—perguntou
ela, fitando-o.
—Sou assim impaciente!
A radiação da luz fluida, que vinha de
fóra,
batia em cheio na cabeça de Júlia, aureolando-a;
sôbre os ombros descaídos havia tambêm
manchas luminosas.
Frederico, perturbado, voltou-se para a estante,
a escolher um volume.
—Que vaí ler?—interrogou Júlia.
—Sei lá! Talvez uma história triste
dalguêm
que nunca realizasse as suas aspirações. Estou
hoje
tam nervoso, tam melancólico!...
—Pois por isso mesmo, devia preferir as leituras
alegres, para se desanuviar... E diga-me: Crê
que haja pessoas correndo continuamente atrás dum
ideal que nunca alcançam?
—Oh! de-certo que há!
—Eu julgo que essas pessoas estão fóra da
realidade, e eis porque não encontram nunca o seu
mundo...
A voz de Júlia tinha, no seu timbre de ouro,
uma brandura acariciante. Frederico, enleado, contemplava-lhe
o busto, que era admirável de
proporções,
a linha, a curva ondulante dos seios que se
arredondavam sob os tecidos leves, o pescoço esbelto,
o lóbulo das orelhas que o penteado deixava a descoberto
e que era côr de rosa.
—Mesmo dentro da realidade—exclamou êle—nem
sequer se podem atingir certos ideais.
A solitude em que a casa estava mergulhada
assustava-o. Desejava o ruido, o barulho, tudo o que
o aturdisse.
—Conhece alguns casos dêsses?—perguntou
ela, mirando-o com a face tocada pela graça do
riso.
Frederico sentiu uma perturbação
instantânea,
passou-lhe na mente uma névoa, tôda a
resolução
anterior se deteve no seu sêr, fez-se-lhe uma
espécie de vácuo na consciência, a sua
timidez aumentou.
Sem poder falar claramente, gaguejava.
Êste sobressalto inexplicável excitou ao mais alto
ponto a curiosidade de Júlia que o envolvia com a
luz dos seus olhos tam sinceros.
—Diga!...—insistiu ela.
—Talvez!—respondeu Frederico. Tenho-me
entregado a êstes estudos especiais, porque o
maior prazer duma alma é reconhecer outras almas
belas.
—Oh! mas essas almas escapam-se a tôda a
observação—atalhou Júlia.
—Não. Quando muito, constituem um mistério—mas
mistério que se sente...
Desvairado, Frederico levantou-se, encaminhando-se
para a porta.
—Tem que fazer?—interrogou Júlia.
—Não... Absolutamente nada.
—Então, sente-se, seja a minha companhia,
se
isso lhe não
desagrada.
—Oh! minha senhora!...
As fontes latejavam-lhe, uma vermelhidão febril
afogueava-lhe as faces, a sua respiração
acelerava-se.
—E como se denunciam, às vistas perspicazes,
as almas de que fala?—inquiriu Júlia, baixando
o rosto sôbre o bordado.
—Pelo encanto que irradiam, pelo domínio que
exercem, pela inspiração que produzem.
—Julgo que está enganado. As almas femininas,
por exemplo, furtam-se às mais subtis análises.
Se um homem louvar a beleza duma mulher, ela
sorrirá, não se defendendo, mas ocultando-se
às revelações
íntimas...
—Mesmo quando ama? Sendo o amor a obra
da alma, ela revela-se totalmente sob a sua influência...
Insensívelmente, o diálogo entre os dois tinha
resvalado para um plano perigoso, e Frederico empregava
esforços violentos para subtrair-se às
tentações,
porque começava a ter receio de dizer tudo
a Júlia, de lhe confessar o seu supremo segrêdo,
de
lhe denunciar, com lágrimas, o seu inferno, o seu
tormento de tôdas as horas. Ia-lhe fugindo a faculdade
de pensar, de reflectir antecipadamente na
significação
das suas palavras e de calcular-lhes as
conseqùências, porque erradamente supunha que o
interrogatório de Júlia, tam natural, tinha
qualquer
cousa duma provocação.
—Mas ainda me não disse francamente se conhece
alguma dessas almas—exclamou ela, de novo.
—Não conheço, mas tenho a certeza de que
existem...
—Nos romances?
—Ah! nos romances, há lenda daquele príncipe
que se sabia perto da mulher que amava, que
lhe sentia as palpitações do
coração, mas que não
podia tocar-lhe nem vê-la, porque uma cortina de
névoa opaca o separava dela!...
Júlia, esquecendo as mãos no regaço,
olhou-o
então longamente, como se quisesse compreender alguma
obscuridade psicológica que pressentia: e Frederico,
comprometido, levantou-se logo, rindo um
riso nervoso e atalhando:
—Mas, é claro! O que os romances dizem não
tem veracidade. E estas nuvens só aparecem aos
príncipes e às princesas...
Dirigiu-se para a porta, resolutamente, depois
de tirar um livro da estante.
—Sai?—perguntou Júlia.
—Sempre vou um pouco até ao jardim, tomar ar...
E desceu rápidamente sem se voltar, desgostoso
consigo próprio, excitado, ainda no pavor da
leviandade irremediável que ia cometendo. Ah!
não!
Aquilo não podia continuar! Era muito duro, muito
cruel para êle. Agora, compreendia que o temido conflito
do seu espírito com o seu instinto se daria fatalmente,
se prolongasse por mais um dia, uma semana,
a sua estada perto de Júlia. Chegaria uma hora de
fraqueza em que a energia lhe faltasse para dominar-se.
Antes de isso acontecer, fugiria para longe, tentaria
esquecer. Queria ser digno de amizade de Nuno e
do afecto da mulher de quem um amor infeliz o aproximara.
Estava ainda a tempo! E firmemente, nesse
mesmo dia, ao jantar, anunciou a sua partida inevitável,
pretextando a solução urgente de
negócios
que não deviam ser adiados...
V
Foi num inquietante estado de alma que Frederico
deixou a vivenda pacífica onde o seu sentimento
fizera, inesperadamente, uma tam alarmante
descoberta, regressando ao Pôrto sem um fim determinado,
sem mesmo pensar na maneira de evadir-se
duma intensa e amarga tortura. A certeza de que
amava a mulher de Nuno com um amor que poderia
levá-lo, violentamente, a todos os crimes e a
tôdas
as degradações da alma, obcecava-o e obrigava-o a
reflectir na impureza da argila de que é formado o
coração humano. Fugia de Júlia, do
amigo, do repousado
lar em que vivera tam plácidos dias—antes da
fatalidade duma adoração que quisera evitar, a
que
tentou, em vão, resistir e que lentamente se lhe apoderou
de todo o sêr consciente—em condições
trágicas
para a sua emoção. Sentia-se
enfeitiçado por
uma espécie de malefício ao mesmo tempo cruel
e doce, que lhe causava sofrimento e saùdade e que
nêle abolia o senso moral sem, no entanto, lhe conturbar
a lucidez da inteligência a ponto de não
discriminar
entre o bem e o mal...
Durante a jornada para o Pôrto foi sobressaltado,
várias vezes, por uma singular diversidade
de sensações. Ia fugindo como um bandido,
trémulo,
aterrado, com mêdo de tudo—e porquê?
Ninguêm
conhecia o seu drama, bem oculto, bem recalcado dentro
de si próprio—a não ser que Júlia o
tivesse adivinhado,
porque as mulheres; em coisas de sentimento,
são subtis. Aquela deserção
representava a
cobardia dum homem incapaz de afrontar altivamente
o primeiro perigo que diante de si imprevistamente
se levantava, com a segurança de que venceria;
mesmo incapaz de dominar as instigações da
outra personalidade em que se desdobrava e que o
concitava ao êrro, à deslealdade, à
vileza, solicitando
a imediata satisfação dum desejo gerado no
seu egoísmo e na sua sensualidade; que se mostrava
impotente para conter a expansão vertiginosa do
instinto. Alucinava-o a quáse
eliminação da vontade—de
que o último lampejo se exaurira com a
resolução
de sair apressadamente da casa de Nuno, inventando
um pretexto fútil em que se traíria, se o
amigo não depositasse nêle a maior
confiança. Raciocinando
nesta leviandade, Frederico monologava,
encolhido a um canto do combóio, sem mesmo espreitar
rápidamente a maravilhosa paisagem, que
atravessava:
—Como fui imprudente, na realidade!
E agora, que estava mais sereno, aquela imprudência
atemorizava-o. Reconstituía na
imaginação
sobreexcitada a
surprêsa de Nuno,
quando lhe
comunicou a resolução firme de voltar
à cidade. Fixando-o
com uns olhos penetrantes que o devassavam
até às recônditas intimidades da
consciência, êle exclamara:
—O que? Vais-te embora?
—Sim, vou!—atalhara bruscamente, com uma
perturbação que o denunciava. Assuntos
complicados
a liquidar, um inferno...
—Homem, sê sincero. Tu o que estás é
aborrecidíssimo,
odiando êste cárcere, abominando esta
solidão, morto por te veres de novo no ruído, no
tumulto urbano...
—Mas não, mas não! Que ideia!...
Júlia expiava-o tambêm interrogadoramente,
com um olhar em que à vivacidade se mesclava uma
pontinha de ironia amável.
—Para que hás de negar?—insistia Nuno.
—Oh! filho, mas que impertinência tamanha,
a tua!... Frederico é um homem do mundo
e julga ter cumprido já os deveres da amizade para
connosco, dando-nos algumas semanas da sua companhia.
Se quiséssemos retê-lo aqui por mais tempo,
entre estas árvores, nesta solidão, no meio
dêste deserto,
seria tirânico da nossa parte!—afirmara
Júlia benévolamente.
—É claro—acrescentou Nuno —eu não te
imponho o sacrifício de nos aturares até
à consumação
dos séculos... O meu despotismo não chega a
tanto...
—Sacrifício?... Mas que sacrifício?... Se eu
te estou a dizer...
—Bem, acabou-se!—concluiu Nuno. Parte...
—Quem sabe, de resto, se haverá na cidade
algum motivo superior que o reclame a tôda a
pressa?—insinuara
ainda Júlia com aquele riso que era de
graça, de bondade, de malícia e de
doçura e que
tanto encantava Frederico.
—Certamente, minha senhora... Há um motivo!—respondeu
êle.
—Sentimental?—inquirira Nuno, rindo tambêm.
—Crê que estou a falar a sério!—replicara
Frederico.
Propositadamente, para desviar o rumo da conversa,
que o fazia sofrer e o forçava a simular para
esconder uma verdade que não podia ser conhecida
sem vergonha para êle, sem dor para Nuno e sem
cólera
amargurada para Júlia, Frederico procurou ser
alegre, mas inutilmente. A intensidade da comoção
experimentada crestou-lhe a floração do
humorismo,
tornou-o fúnebre; e as horas que se seguiram à
sua
decisão foram monótonas, tristes, cheias de
fadiga.
A cada instante, Nuno murmurava, fumando um
charuto e quebrando a cinza na beira do cinzeiro de
porcelana:
—Vais, então, para o Pôrto, scelerado, reentras
nos teus hábitos.
Frederico notava nestas palavras de afecto,
que lhe doíam como um queixume, a vaga sombra
dum desconsôlo, e dizia:
—Vou, de-certo... Deveres... As obrigações
primeiro e as devoções depois. O
método é tudo... E
tu? Ficas por aqui ainda?
—Fico. Há uma infinita multidão de factos
que exigem a minha presença... Alêm disso, esta
é que é a minha casa... Júlia
dá-se bem. Eu
passo óptimamente. Retirar-me, para quê?
—Pois olha que sou muito capaz de voltar
ao calor das vossas afeições, em concluindo os
meus
negócios!
—Que lisonjeira mentira!—acudiu Júlia, aconchegada
na sua cadeira, ainda à mesa do jantar, seguindo
o diálogo com a face inclinada na mão.
—Oh! minha senhora, eu nunca minto, por
princípio. Seria um pecado.
—Não! Muitas vezes, mentir por amabilidade
é uma virtude que denuncia puros dons de alma.
Tornou-se impossivel animar a palestra em
tôda a noite. Frederico pensava que o desalento se
comunicara, como um fluido subtil e dissolvente, a
Júlia e a Nuno, destruindo o gôzo espiritual
daquele
momento: e foi para ele um grande alívio o instante
em que pôde recolher-se ao seu quarto, isolar-se,
concentrar-se
nas suas meditações. Deitando-se e apagando
a luz, reencetou a análise da sua própria
psicologia.
A impressão que Júlia lhe produzia na
sensibilidade
era cada vez mais forte. Por enquanto, a
imagem da mulher amada iluminava-se ainda de esplendor,
movia-se num círculo de claridade e de
pureza que o coagia a uma adoração casta.
Não atravessaria
a zona luminosa que o separava dela, para
tocar-lhe com mãos profanas. Chegaria, porêm, uma
hora de alucinação em que a generosidade e a
grandeza
moral que prevaleciam na sua organização
desaparecessem,
fundindo-se a um fogo de voluptuosidade
impetuosa, e em que a sua áspera ânsia carnal,
numa
súbita e espontânea erupção
de luxúria, o impelisse
às piores injustiças, às violentas
rebeliões, às brutalidades,
às loucuras em
que nada se respeita. Frederico
temia essa hora e libertava-se, pela fuga, da sua terrível
influência. Por enquanto, conservava tôda a
sua energia, tôda a sua lucidez mental, podia calar-se
a tempo, encerrar o seu amor secreto num silêncio
impenetrável;
mas não viria a perder essas faculdades
redentoras se prolongasse a sua estada junto da
mulher que inocentemente excitara a sua paixão?
Era preciso cortar como flor venenosa o sentimento
vil que lhe germinara na alma, exilar-se para longe,
esquecer... Tam ardente era nêle a
imaginação que
lhe parecia que a voz de Júlia tremera ao ouvir-lhe
anunciar a partida e que os seus imensos olhos,
negros e húmidos, fazendo-se mais lânguidos e
acariciadores
sob as pestanas, cravando-se nos dêle,
lhe pediam que ficasse, o aliciavam com promessas
de tôda a sorte. Resistir aos avisos da dignidade, que
o mandavam retirar sem demora, seria uma
abjecção,
um acto inqualificável. Êsse amor, apenas
nascente,
tinha para êle a sordidez, a vilania, a crápula
dum incesto—porque Nuno era o seu irmão. Não
reagir contra a voz secreta e criminosa do instinto
puramente animal que o tentava a não sair do lado
de Júlia representaria a queda num abismo
insondável,
a submissão que o desonraria para sempre, o
remorso, uma dor futura que nem sossegaria sequer,
mesmo que fôsse possível satisfazer a
ignomínia da
paixão que o exasperava.
—Não! Não!—murmurava Frederico, revolvendo-se
no leito. Partindo, serei ainda nobre e
bom.
E a bondade, para êle, era a mais pura, a mais
alta manifestação da vida consciente. Alucinado
por
um sentimento que agitava tudo o que no seu ser
de homem havia de imperfeito, de inferior, de grosseiro,
sofrendo tôdas as torturas que um amor impossível
e sem esperança pode fazer experimentar
a um temperamento ardentemente apaixonado, Frederico
sentia, como uma carícia de
inexprimível
enlêvo, essa bondade à sua volta, naquele calmo
lar
tam digno. Ela irradiava da candura dum berço
onde dormia a inocência sem culpas; denunciava-se
numa adoração conjugal que se perpetuava
indefinidamente
com o mesmo encanto do dia maravilhoso
em que principiara; emanava-se de Júlia como
uma espécie de imaterialidade visível e
penetrava-o
a êle mesmo fazendo-lhe transbordar de ternura o
coração, purificando-o de pensamentos maus. Por
mais duma vez—absorvido na sua meditação e
louvando-se pela coragem, pela energia que revelava,
afastando-se dum enlêvo que para êle condensava,
nesse momento, a felicidade suprema—Frederico
descobria uma desconhecida frescura de emoções
novas e apaziguadoras, passava-lhe na alma
um sôpro vital que o rejuvenescia. Mas êste
entusiasmo
era fugaz: e uma saùdade muito funda—a
saùdade de tudo o que perdia—continuava a
exaltá-lo.
Murmurava, na sua viagem para o Pôrto:
—Fiz, talvez, uma asneira. Desertando, demonstrei
a mim próprio que sou cobarde, que tenho mêdo,
que sou incapaz de resistir...
Então, arrependido, levantava-se do banco em
que ia sentado, dava alguns passos nervosos no
compartimento em que viajava só e assaltavam-no
tentações de descer da carruagem na primeira
estação
e
de voltar para trás,
regressando a casa de
Nuno e de Júlia. Logo, porém, caía em
si, exclamando:
—Mas estou doido, doido! Êsse regresso seria
uma revelação, uma confissão completa
pelo menos
para Júlia, porque nada escapa à sagacidade das
mulheres, em amor.
Para se distrair, dissipar os sentimentos contraditórios
que o desvairavam, curvou-se à janela da
carruagem, observando o panorama que se desdobrava
ao sol no esplendor das suas tintas. A manhã
resplandecia como um cristal translúcido; tôdas
as côres se aviventavam na radiação da
luz. As forfas
elegantes das árvores, que donde aonde davam
sombra e manchavam de verdura os descampados,
desenhavam-se com nitidez de linhas e de contornos
no azul claro, e a serenidade deliciosa do céu cumunicava-se
à natureza inteira. A largura infinita do espaço,
mais branco para as bandas do nascente, mais
anilado no alto, parecia decorada, vestida como para
uma festa voluptuosa e delicada. A profundidade alvacenta
e luminosa do ar que envolvia e vivificava
tôdas as coisas tinha para Frederico uma novidade
nunca surpreendida. Parecia-lhe que Júlia, despertando-lhe
a faculdade de amar, lhe despertara tambêm
a faculdade de compreender.
Lentamente foi-se-lhe atenuando nos olhos a
imagem feminina que sem repouso acariciava. O fenómeno
fisiológico intenso que imprimira uma completa
modificação à sua
consciência em horas tam ardente
e dolorosamente vividas, dava agora um rumo
diferente aos seus pensamentos—e isto desanuviava-o
um pouco. Caía numa dessas cogitações
sem
objecto definido que constituem verdadeiros e inefáveis
desfalecimentos de espírito...
Desejava chegar depressa ao Pôrto, reentrar
na serenidade da sua vida de solteirão, mergulhar no
tumulto citadino, entregar-se todo à
satisfação dos
seus caprichos, à sua fantasia, à multiplicidade
dos
seus prazeres, com a secreta esperança de esquecer
completamente, de depurar-se, para ser outra vez
digno do afecto de Nuno e da confiança de Júlia.
Enquanto dentro de si vivesse aquele amor criminoso,
julgava-se impuro:—e como impuro, não deveria
pensar no regresso à vivenda do amigo, que era um
templo e que a sua impureza profanaria. Foi nesta
excitação que entrou no Pôrto, num
sábado à tarde.
Começou, então, para Frederico um sombrio
período do miséria moral e de sofrimento.
Jàmais a
sua existência lhe aparecera tam solitária, tam
inútil,
tam recuada das verdades construtivas e dos sentimentos
renovadores. Um inexplicável desalento
enchia-o de desgôsto, humilhava-o. Nunca, como
nesses dias alucinantes em que, em vão, procurava
aturdir-se, afundar-se na embriaguez de tôdas as
excitações, Júlia lhe parcera tam
desejável. Um fogo
sensual muito violento ia secando nêle tôdas as
fontes
da virtude e da honestidade: e a sua ausência
infligia-lhe fulgurantes torturas. Recordava, com uma
vivacidade que lhe aumentava o padecimento, a
sua graça de mulher, as perfeições do
seu corpo, a
doçura que a sua posse lhe transmitiria. O ciúme,
que já por mais duma vez sentira por Nuno, intensificava-se.
Como se na
evocação das coisas
amargas
houvesse para a sua alma um gôzo especial, Frederico
imaginava a cada momento Júlia nos braços do
marido,
fundindo-se ambos no mesmo beijo abrasador,
dando-lhe tôda a sua carne latejante, todo o sangue
das suas veias, murmurando-lhe ao ouvido tôda a
sorte de meiguices em palavras entrecortadas e ternas.
E via-a rolando a cabeça desfalecida no ombro
de Nuno, cerrando as pálpebras num delíquio, mais
côrada, com os lábios pálidos, o peito
arfando apressadamente.
Insurgia-se contra êste amor conjugal
como se êle representasse um crime, como se exprimisse
um pecado e como se fosse êle o traído... Um
acesso de impaciência e de cólera interrompia este
delírio dos seus sentidos. Reentrando novamente nos
domínios luminosos da inteligência, Frederico
exclamava:
—Preciso de reagir contra esta doença que me
devasta, senão enlouqueço!
Esperava que a crise lhe concedesse tréguas, e
para apressar êsse instante que seria venturoso e
afável para êle, ia aos teatros, aos concertos,
freqùentava
as reùniões das pessoas do seu conhecimento,
nunca faltava nos logares onde o mundanismo se
dá
rendez-vous: mas, nas
salas de espectáculos, nos
salões de baile, nas
soirées familiares,
surpreendia-se
a aguardar a entrada súbita de Júlia, radiante no
esplendor duma beleza a que a vida campestre tivesse
insuflado mais graça e maior poder de
sedução,
sem reparar em nada do que à sua volta ocorria.
As senhoras achavam-no muito mudado e diziam-lho,
entre ironias. Não tinha a alegria antiga, a vivacidade
doutrora, era um outro Frederico sem a jovialidade
que o
caracterizava e o impunha às
admirações.
Uma noite, em casa de D. Francisca de Medeiros,
que às terças-feiras reùnia algumas
famílias íntimas,
a sua tristeza foi notada pelas damas com quem
se entregara, em outras épocas, às suavidades do
flirt. Uma delas, D. Felismina
Trigoso, que nutrira a
esperança de ser por êle amada em tempos findos de
que ainda conservava a lembrança doce, surpreendendo-o
a um canto a folhear uma revista ilustrada,
não se conteve.
—Sabe?—exclamou ela—tôdas nós o estranhamos.
—E porquê, minha senhora?—inquiriu Frederico,
fechando a revista e erguendo-se.
—Estranhamo-lo por essa melancolia, pelo desinterêsse
de tudo o que o cérca, pelo isolamento
em que voluntáriamente se encerra.
—É que ando a fazer um severo exame de
consciência. Fui um grande pecador, e para ganhar
a glória celeste, decidi fechar-me num convento, ser
monge, penitenciar-me—disse êle.
—Não disfarce, não finja!
—Mas sou sincero!
—O que pretende é ocultar qualquer coisa—insistia
ela.
—Ocultar o quê?
—Que sei eu? Talvez alguma paixão infeliz,
algum desgôsto muito profundo.
—Ah! como é errado o seu juízo! V. Ex.
a
não
sabe, então, que as criaturas que se recolhem, que se
isolam, que se concentram, são precisamente as felizes?
—As felizes?
—Certamente! Só a felicidade é
egoísta, concentrada,
e não gosta de revelar o seu gôzo interior.
O sofrimento, pelo contrário, precisa das
multidões,
das testemunhas, para dilatar-se.
—Paradoxos...
—Não, minha senhora. V. Ex.
a
não conhece,
de-certo, Heraclito, um filósofo da antiguidade
clássica,
que, quando sofria, procurava as praças públicas,
as ruas das cidades, para chorar... Se eu fôsse
desgraçado...
D. Felismina ria saborosamente daquela abundante
verbosidade que incitava ao humorismo pelos
efeitos do contraste.
—Se fôsse desgraçado?...—interrogava ela.
—Se fôsse desgraçado, rompia aqui num
chôro
de tal ordem, que a policia teria de acudir!...
—Venham cá, venham cá!—chamou D.
Felismina—está
hoje brilhante!...
As outras senhoras acudiram, num grande rumor
de riso e de sêdas amarrotadas: e D. Felismina,
voltando-se para a dona da casa, murmurou:
—Tem estado a dizer-me coisas monstruosas,
não calcula!...
—Sim?—atalhou D. Francisca, com um sorriso
afável iluminando-lhe o rosto simpático.
Então,
de que falavam?
—De grandes verdades, minha senhora—respondeu
Frederico. Afirmava eu que as paixões
amorosas mais sérias, porque decidem de todo um
destino, são as que alvorecem nos
corações de cincoenta
anos de idade. A snr.
a D. Felismina,
porêm,
é de opinião contrária e assevera que
essas paixões
só podem ser sentidas aos vinte anos...
—Não era de nada disso!—protestou D. Felismina.
É um mistificador...
—E ainda não experimentou nenhuma, Frederico?
—Não, D. Francisca. Encontro-me na infância.
Tenho apenas trinta e cinco anos, estou muito
longe da minha primavera!...
O riso animou-se mais nas bôcas femininas,
que louvavam tôda aquela alegria, tôda aquela
mocidade
de espírito, e, por momentos, Frederico atraíu
as atenções; mas foi um fogo-fátuo
êsse instante de
jubiloso alvorôço, que se dessipou totalmente,
quando
D. Felismina, muito solicitada, se sentou ao piano,
tocando uma página de Mendelssohn, que ela interpretava
maravilhosamente.
De novo isolado e absorvido nos seus pensamentos
dolorosos, folheando outra vez a revista
que o fatigava de tédio e que tinha aberta sôbre
uma
mesa de pau preto onde, em jarras de faiança antiga,
brilhantes de esmaltes e de coloridos, morriam e se
desfolhavam lentamente ramos de azáleas brancas,
Frederico observava aquele mundo fútil de exterioridades
encantadoras e recordava-se de Júlia. O ambiente
era, na verdade, elegante. O salão estava decorado
com gôsto. Um tapête de tons suaves, rosa e
verde-malva,
amortecia o som dos passos e tornava mais
confortável o compartimento; os móveis, leves e
bem
lançados, destacavam-so pela forma e pelos estofos
que os recobriam. Sôbre um fogão de
mármore, que
resplandecia de brancura na crueza da luz eléctrica,
um relógio de bronze, estilo Luis
xiv, marcava as
horas que longos ponteiros dourados indicavam num
mostrador esmaltado em que corria, no esplendor das
tintas, uma scena idílica, evocando as telas de
António
Watteau, com pares de namorados enlaçando-se
sob as árvores. Ao fundo, um piano Bechstein com
velas ardendo em serpentinas de prata e acendendo
fulgores de chama no verniz negro da madeira, tinha
uma graça ornamental pesada e imóvel.
Sòbre a alcatifa,
encostados dum lado e doutro às paredes, que um
papel côr de ouro fosco forrava, havia enormes vasos
do Japão, com figurinhas de mulheres abrigando-se
do calor sob largas umbelas de sêda, penteados altos
seguros por pregos de feitios bizarros e cegonhas de
bico vermelho adormecendo à beira de lagos, junto
de cerejeiras em flor.
Etagères de ricas talhas
sustentavam
graciosamente cristais cheios duma água
que scintilava na claridade e em que esplendia a
graça duma rosa ou a beleza do ramos de violetas,
exalando-se em arôma. O que mais seduzia Frederico
era a harmonia, a disposição bem achada de cada
peça de mobiliário, contribuindo para o
equilíbrio
do conjunto, a correcção das linhas
plásticas e decorativas.
Por êste arranjo impecável,
reconstituía êle a
individualidade psicológica de D. Francisca, que se
fanava na sua viuvez de longos anos, que devia ser
inteligente, ter um sentimento acessível às
emoções
produzidas pela arte, possuir uma alma feita de tôdas
as delicadezas e de tôdas as bondades. Para ela
subiam o culto puro do seu afecto, a sua ternura de
homem. Sem saber porquê, D. Francisca fazia-o lembrar
com mais doçura de Júlia, que havia de ter,
mais tarde, uma velhice assim, encantadora, um
porte que inspirasse admiração e respeito, uns
olhos
em que vivessem milagrosamente as imagens dos
sonhos mortos...
Num gabinete ao lado, servindo de
fumoir e de
sala de jôgo, os homens entregavam-se com interêsse
ao seu
bridge, enquanto esperavam
pela hora da debandada,
discutindo, em voz baixa, escândalos sentimentais
ou casos frustes de política. A atmosfera pesava,
aquecida pela luz, carregada de perfumes. E
a música de Mendelssohn ia dizendo, numa voz de
sortilégio, a aspiração das almas
pelos finos amores
idealizados, tudo o que murmura nas florestas pelos
crepúsculos religiosos, tudo o que suspira nas aragens,
tudo o que sussurra nas fontes e nas folhagens.
Conturbado, Frederico fechou a ilustração,
levantou-se, deu algumas voltas, sacudido por uma
emoção muito viva e muito forte...
Aquela música segeria-lhe uma outra que ouvira
em casa de Nuno, por uma noite inspiradora e
silenciosa, pouco depois de chegar à aldeia e de conhecer
Júlia mais de perto. Nem um só pormenor lhe havia
esquecido, tam violenta fôra a comoção
experimentada.
A sua inteligência tinha uma extraordinária
argúcia. Relembrava o enlêvo daquela hora
reveladora;
a graça ideal do busto de Júlia, sentada ao
piano;
o banho luminoso que descia do candeeiro suspenso
no alto e batendo em cheio na sua cabeça, aureolando-a;
a ligeireza, dos seus dedos longos e brancos
pousando ágilmente sôbre as teclas de marfim;
o seu olhar animado e brilhante; o viço dos seus
lábios vermelhos e húmidos; o jardim florindo ao
luar; a massa confusa de sombra formada pelo parque,
ao longe...
Entrou na sala do jôgo, parando durante minutos.
A conversa banal dos homems enfastiava, sufocava-o
o cheiro do fumo. Veio novamente para junto das
damas que sonhavam ainda sob a influência perturbante
e emotiva da música. D. Felismina tinha acabado
de tocar e sorria, cansada, encostando ao piano
um braço nú, emergindo da alvura das rendas,
redondo, gordo e puramente medelado. Frederico,
gentilmente, cumprimentou-a.
—Sabe que é um nobre temperamento de artista?
—Ora! Gentilezas...
—Mas não, mas não! É perfeita.
Não lhe parece,
D. Francisca?
—De-certo! Eu acho-a admirável.
—E fica-lhe bem a modéstia—acudiu uma
outra senhora, D. Maria do Céu, espôsa dum
magistrado,
muito nutrida, entre duas filhas magras e pálidas.
—Não é modéstia, D. Maria.
É sinceridade.
—A música desperta em mim singulares
comoções,
fazendo aflorar tudo o que na minha organização
há de mais elevado moral e mentalmente—disse
ainda Frederico. É por isso que eu a considero
a arte superior, pelos sentimentos e pelas ideias
que inspira, quando os seus executantes lhe transmitem
uma alma. E é êste, justamente, o seu caso, minha
senhora.
—Para que há de zombar duma
dilettante sem
pretenções?—exclamou D. Felismina.
—Mas então, ninguêm me acredita, mesmo
se digo a verdade! Arranja fama de
blagueur e deita-te
a dormir—comentou Frederico, risonhamente.
Demorou-se mais alguns momentos numa palestra
que o aborrecia, pelo seu ar de cortesia
convencional; e, por fim, despedindo-se, saíu, seguido
pelo olhar de D.
Felismina, que outrora galanteara,
fazendo nascer na sua ternura feminina
uma fina flor de ilusão. A caminho de casa, pela
rua mergulhada numa meia obscuridade que mais
o entristecia, Frederico meditava na sua
condenação
atroz e monologava:
—Como custa ser honesto!
Efectivamente, a saùdade de Júlia acompanhava-o
para tôda a parte, no passeio, no teatro, nas ceias ruidosas
com amigos, nas reùniões familiares, velava-lhe
os sonos inquietos, seguia-o sem repouso, vigiava-lhe
a formação das emoções e
dos pensamentos. Não
podia separar-se dela um só minuto. Sentia-a
tirânicamente
no coração como um remorso conjuntamente aflitivo
e suave, no sangue, como um fluido que o incendiava,
nos nervos. Em vão procurava libertar-se. Para
a apagar no cérebro e na alma, torturava-se inutilmente.
Julgava-se abandonado de tôdas as
afeições,
mesmo de Nuno, que nunca mais dera sinal de si, desde
que Frederico deixara a quinta, no terror de praticar
uma vilania. Escrevera-lhe para lá uma longa carta,
narrando-lhe o repouso inolvidável das horas que
perto dêle e de Júlia passara durante duas
semanas,
pusera nas palavras mais vibração e calor, por
imaginar
que também ela leria essas linhas em que o seu
sentimento transbordava de gratidão, dissera-lhe a solitude
e a angústia dos dias que ia vivendo na cidade,
longe dum lar que lhe mostrára nítidamente a
realização
da felicidade terrestre—e nenhuma resposta
recebera. Porquê? Traíria êle, nessa
confissão ardente,
um segrêdo que ninguêm devia conhecer? Suspeitaria
Nuno dalguma coisa? Não teria a carta
chegado ao seu destino? Estas dúvidas pungiam-no.
Enquanto caminhava, pelas ruas ermas que
se esgueiravam como cobras na sombra que as fileiras
irregulares de prédios projectavam nas calçadas,
Frederico
sentia um grande desalento subir e invadi-lo
todo. Como a sua existência era estéril! Nem
alegrias
morais presentes nem confiança no futuro. Evocava,
por uma especial associação de ideias e de
sentimentos,
a melancolia da sua vida desde os dias já remotos
da infância, e, por instantes, todo o passado
se iluminava aos seus olhos.
Aos oito anos, quando as outras crianças ricas
brincavam e eram amimadas pelas mãos puras das
mães, fôra êle metido num
colégio como interno,
depois de lhe vestirem um fardamento. No internato
onde a sua meninice se enclausurara, deitava-se,
levantava-se, ia para as aulas, para as
refeições,
para a banca de estudo, para os ócios do recreio,
sempre ao toque duma sineta. A sua individualidade
passiva resumia-se em obedecer; os deveres da disciplina
vergavam-no, a êle que era então tam
tímido,
sem vontade, incapaz de rebeldias. Com que lucidez
maravilhosa se lembrava duma época para êle
desoladora!
Não lhe escapavam os mínimos detalhes.
Recordava, por exemplo, a ansiedade com que, tanto
êle como os condiscípulos, esperavam a hora da
folga, durante as lições enfadonhas que um homem
imensamente calvo e de bigodes brancos—o snr.
Justino—lhes professava. O snr. Justino tinha uma
voz que soava falso, uma face engelhada, vestia um vélho
frac muito coçado na gola
e nos cotovelos. Os seus
olhos, que eram vivos e pequeninos, faíscavam por
detrás dos vidros das lunetas. Nunca se irritava,
era fleugmático, pachorrento, as suas palavras arrastavam-se
no
silêncio da sala—um silêncio tam
profundo
que, em junho, se ouvia o lento zumbido
das moscas descrevendo, no vôo, movimentos
giratórios
incoerentes. Os rapazes chamavam a êste pobre
professor, que era a imagem dos lutadores destroçados,
o
D. Ana. Escondendo-se com os
livros abertos
e postos ao alto nas carteiras, curvando o busto,
deitavam a língua de fóra, faziam momices,
trejeitos
humorísticos, protestando assim contra a prisão
nas idades em que as infâncias, como as flores,
amam os grandes espaços livres, o tumulto, as indisciplinas.
Por vezes, das bancadas elevava-se um murmúrio
confuso, estalavam risos abafados, as solas das
botas raspavam, impacientemente, o soalho frio e encardido.
D. Ana, interrompendo a sua vagarosa
exposição,
erguia a cabeça, fitava um minuto os colegiais,
que logo emmudeciam, atemorizados, dizia,
na sua voz de falsete:
—Então, meninos! Que é isso? Mais respeito
e mais atenção!...
A tranqùilidade restabelecia-se imediatamente,
mas por pouco tempo. Perto de Frederico, um estudante
com raras aptidões para o desenho fazia a lápis
a caricatura do snr. Justino, com as lunetas dependuradas
tristemente do nariz que sugeria o agudo e
longo bico dum pássaro. A semelhança dos
traços
era flagrante e já com uma notável
noção do grotesco.
O caricaturista dava a sua obra humorística
a Frederico, dobrada em quatro. Êle abria-a e lia
por baixo da figura ridícula do mestre:—«Veja
e passe adiante». Frederico via e passava, sufocando
o riso na palma da mão com que comprimia a
bôca. A caricatura corria assim tôdas as bancadas
dum extremo ao outro, despertando as hilaridades
que não podiam expandir-se e que espalhavam a
inquietação, o nervosismo, a
impaciência, na aula.
Por vezes, o prefeito, que era muito severo e a quem
os rapazes denominavam de
Mata e
esfola, surgia de
repente à porta. Na sua bochecha còrada e gorda,
tôda rapada, barbeada de fresco, como a dum padre,
espelhava-se a indignação. Lançava um
schiu! muito
sibilado que fazia entre os escolares o efeito duma
ameaça...
Os rapazes odiavam-no, imputavam-lhe a responsabilidade
de todos os castigos sofridos, a supressão
da sobremesa e das liberdades do recreio, as
longas e fastidiosas páginas de escrita em que se repete
um verbo cem vezes—e prometiam vingar—se... Depois,
D. Ana terminava a
lição, os livros fechavam-se
de estalo, com alarido formidável, uma sineta
badalava na solidão e os colegiais saltavam as
carteiras, com o
bonet agarrado nas
mãos, corriam para
o jardim que floria ao sol, no esplendor das formas
e das colorações, pulavam por entre os arvoredos
que
projectavam na areia branca do chão largas
máculas
de sombra oscilante.
Era a hora melhor e mais doce para os internos
do Colégio. Formavam-se grupos, organizavam-se
jogos, a gritaria tornava-se ensurdecedora. Dum céu
muito nítido vinha uma luz muito loura que dormia
pacíficamente nas clareiras. As mimosas enchiam-se
de florações de ouro. Os adolescentes que
pertenciam a
classes mais adiantadas não se associavam aos divertimentos
dos mais novos—passeavam dois a dois,
liam versos rimados na solitude dos seus quartos,
sonhavam com possíveis glórias
literárias e tinham escondidos,
entre
o colchão e o enxergão das camas
de
ferro, que recordavam tarimbas de caserna, romances
de enrêdo complicado e sensacional, que devoravam
às escondidas, no refúgio dos momentos de
descanso.
Alguns, mesmo, ocultavam-se com as ramarias
das árvores, para fumarem cigarros...
Frederico reconstituía com verdade surpreendente
todos os episódios dos seus longínquos anos
de colegial, sem deixar esquecido o menor detalhe. Relembrava
que já nessa era remota era infeliz. Nunca
pôde criar amigos entre os camaradas, que o miravam
desconfiados, que se afastavam dêle, que o
satirizavam. Uma vez, insurgindo-se contra estas
inexplicáveis antipatias, que não provocava, teve
uma
grave questão com um estudante, Pedro de Menezes,
contundindo-lhe a face com um forte murro.
Os guardas acudiram, foi repreendido severamente
pelo director do Colégio, que nem sequer escutou as
suas desculpas e privado dos folguedos do recreio
por tôda uma semana. O conflito, que o tornou temido,
mais o incompatibilizou com os condiscípulos.
Passou a ser designado pelo nome irónico de
Ferrabrás
e repelido amargamente pelos escolares, que o detestavam...
Feitos os exames, vinham as férias, os descuidados
meses de liberdade por praias, termas, quintas
rurais, sem a tirania dos livros, sem os abomináveis
toques da sineta, que tinham para êle o horror
dum dobre a finados, sem as reprimendas dos
mestres, quando as lições se não
sabiam. A população
do Colégio debandava alegremente. As casas ricas
mandavam carros e automóveis para levar os seus;
os mais modestos mandavam simplesmente um criado.
Frederico ia,
então, para junto da mãe,
já viúva,
que andava sempre vestida de preto, rezando pelos
corredores ou ralhando, em voz baixa, com os
servos. Chamava-se D. Isabel de Noronha e havia
casado, aos trinta anos, com o capitalista Simão de
Noronha, muito mais vélho do que ela e que fôra
fulminado por uma congestão cerebral poucos meses
depois do nascimento de Frederico, único herdeiro
da sua abundante fortuna porque uma sua irmãzinha
morrera aos dois anos de idade.
Dentro da casa, Frederico sentia-se mais só
do que no Colégio. A mamã, absorvida nos fervores
da devoção religiosa, nos ardores do seu
misticismo,
mal reparava nêle, e não ser para o admoestar
pelo barulho que fazia na vivenda, sempre de janelas
cerradas à luz exterior, como se lá dentro se
chorasse
uma desdita permanente, como se a morte a povoasse.
De manhã e à noite, ao levantar do leito e ao
deitar-se, Frederico aproximava, com indiferença,
o rosto da bôca materna e recebia um beijo frio
e rápido. No fim do almôço, do jantar e
depois do
chá, ela obrigava-o a rezar, de pé, junto da mesa
e de
mãos postas, pela glória de todos os santos
mencionados
na
Legenda Dourada, de Voragine, que
tinha sempre
sôbre a mesinha de cabeceira, perto dum castiçal
de prata.
De vez em quando, vinham visitas, quáse sempre
senhoras idosas tambêm severamente vestidas
de preto, com quem D. Isabel se fechava, no oratório
da casa, durante horas seguidas. Nestas ocasiões,
Frederico fruía uma liberdade mais larga. Descia
à
cozinha, palrava com as criadas que se riam muito
das suas diabruras, jogava o arco nos arruamentos
do jardim... Depois, as férias acabavam, a mamã
reforçava o enxoval, puxava-o para junto do peito
sêco em que nenhum desejo profano arfava—rosando-lhe
as carnes duma ponta de sangue mais
vivo—despedia-se dêle com o mesmo beijo frio que
lhe causava arrepios, murmurava em voz sumida:
—Vê se tens juízo... Porta-te bem.
Frederico regressava jovialmente ao Colégio,
de que já tinha saùdades, e ouvia os seus
condiscípulos,
com inveja e tristeza, narrarem uns aos outros
o encanto das vilegiaturas por estâncias de águas
e
estâncias marítimas, das pequenas viagens
recreativas
com a família, das reùniões e das
danças nos Casinos,
onde alguns tinham arranjado namoros.
—E tu,
Ferrabrás, onde
passaste o verão?—perguntavam-lhe.
Frederico, por vergonha, para não ser humilhado,
tinha vontade de mentir, inventando digressões
maravilhosas; mas a mentira repugnava-lhe.
Calava-se, ruborizado, afastando-se dos camaradas...
Mais tarde, concluiu os preparatórios, a mamã
morreu duma doença do coração, foi
nomeado um
tutor para administrar os seus bens, aumentados
considerávelmente pela viúva que vivia
parcimoniosamente,
que abominava o luxo como se êle representasse
ou um pecado ou um escândalo.
Na Academia Politécnica travou conhecimento
com Nuno, que como êle tirava o curso de engenharia,
que era igualmente rico e órfão. As suas
relações
estreitaram-se mais de dia para dia, talvez por esta
coincidência que os identificava. Aproximava-os
uma singular semelhança de infortúnios, de
temperamento
e de
carácter e foram, durante seis anos, como
dois bons irmãos. Nunca no afecto de ambos se levantou
uma discórdia que os separasse um instante... E era
êste o tempo mais doce e mais feliz da sua
existència
de homem, pelo menos aquele de que se recordava
com maior ternura. Mas Nuno, uma vez, anunciou-lhe
o seu casamento. Estavam, então, em Vizela,
tôdas as noites se dançava no salão do
hotel, e todos os
dias se passeava no parque, se organizavam merendas
no alto das serras, gericadas, barcarolas, no rio,
ao som de guitarras românticas. Frederico assistiu
à lenta formação do amor que encheu o
coração de
Nuno, que o levou para a felicidade conjugal, para
as bemditas alegrias da paternidade, para os deveres
e para as sérias responsabilidades da vida familiar.
A princípio, tomou a inclinação do
amigo por
Júlia como um banal
flirt, como um capricho de que
nada restaria quando cada um fôsse para o seu lado.
Depois, vendo-o desinteressado de tudo quanto
não fôsse Júlia—que fielmente
acompanhava para
tôda a parte, com quem tôda a noite valsava ou
conversava,
em quem falava contínuamente como se
ela representasse o símbolo das suas mais belas
aspirações—sentiu
que Nuno estava bem preso e
bem apaixonado e que o desfêcho lógico daquele
namôro
seria o casamento. A partir de então, a sua vida
fez-se mais solitária e mais despegada, os seus
entusiasmos arrefeceram, perdeu tôdas as suas galvanizadoras
confianças. Nesta solitude, porêm, era
ainda relativamente feliz, até ao momento em que
Nuno teve a má ideia de aproximá-lo de
Júlia, já
mãe.
—E aqui está—murmurou êle com infinita
desolação—o que um amor sem esperança
pode
fazer dum homem!... Que sorte!...
No ermo da sua casa desabitada, Frederico,
no enorme silêncio que invadia os longos corredores,
as salas sombrias com um desagradável cheiro
e bafio, sentia tôda a imensidade da sua derrota.
Era um vencido. Para êle, o futuro não tinha
horizontes
luminosos, desde que uma adoração impura,
penetrando-lhe
insidiosamente na alma e incitando-o a
trair uma amizade fraternal, lhe cortara toda a possibilidade
de vir a amar com paixão e pureza uma outra
mulher que não fôsse Júlia.
Revoltava-se contra aquela
adoração, acusava-se a si próprio por
não ter
sabido manter uma absoluta impassibilidade de sentimento
diante da espôsa de Nuno. A fatalidade pesava
sôbre o seu destino, sôbre o seu
coração, que empolgava
com mão de ferro.
—Mas serei eu o único responsavel?— monologava.
E, na sua dor, alucinado por uma perturbação
que lhe toldava o cérebro e a noção da
equidade,
quáse que responsabilizava Júlia pela sua beleza
aliciante,
pela sua superioridade de mulher e pelas suas
admiráveis virtudes.
VI
Não podendo viver tranqùilamente perto de
Júlia,
com o seu segrêdo sempre oculto, nem
longe dela,
com a angústia interior que o devorava, Frederico procurou
aturdir-se na febre duma vida em que se esquecesse,
que o consumisse lentamente e em que
corrompesse a parte pura do espírito, excitando a
sua avidez de prazer nos delírios das paixões
voluptuosas.
Queria libertar-se dum suplício que tanto lhe
atribulava a existência. A fatalidade retinha-o entre
o amor e os deveres da lealdade para com um
homem que era, mais do que o seu amigo, a única
pessoa a quem consagrava um afecto profundo. Se,
numa alucinação, obedecesse aos impulsos
desordenados
e abomináveis do instinto carnal, mancharia
a limpidez do seu sentimento afectivo: e, só de pensar
na possibilidade dum arrebatamento que o levasse
a confessar a Júlia a sua adoração
pecaminosa—que
ela,
de-certo, repeliria indignadamente, porque
era pura, honesta e refractária às
tentações criminosas—uma
dor muito funda agravava a sua exaltação
física e o seu desequilíbrio emocional...
Notava, em todo o caso, que se tivesse a coragem,
a audácia e o cinismo de praticar uma
acção
vil, não seria o padecimento de Júlia que mais
vivamente
o pungiria, causando-lhe mágoa e
comiseração.
A sua piedade ia tôda para Nuno, tam leal,
tam comovido de bondade, dotado dum carácter do
melhor ouro. Na sua perturbação, imaginava, por
vezes, que todo o mal estava feito, que a
situação
criada pela sua loucura amorosa era já
irremediável:—e
concentrava-se, transido, para melhor reconstituir
a figura de Nuno, no instante em que conhecesse
o duplo ultraje à sua dignidade de marido e à
sua honra de homem, errando alucinado pela casa
erma, barafustando cheio de cóleras vingadoras, ferido
na sua alma e na sua confiança, devastado,
com a morte no coração e o calor da vergonha nas
faces, acusando-o a êle com mais fulgurante raiva
do que à espôsa, procurando-o por tôda a
parte
para lavar com sangue a afronta e a humilhação
que o tinham maculado e coberto de escárnio.
Então,
diante dêste sofrimento, Frederico, espavorido,
passava a mão trémula pelos cabelos, agitava-se
violentamente
para entrar na realidade das coisas, murmurava:
—É horrível, horrível!...
Readquirindo a serenidade e a lucidez, considerava
como o seu crime seria monstruoso e sem
perdão se êle não soubesse reagir
vitoriosamente
contra a fraqueza dos sentidos. Mas reagiria a todo o
transe, muito emhora a reacção o fizesse sofrer,
afirmava
Frederico a si próprio:—e parecia-lhe que a
sinceridade com que se defendia de desfalecimentos
de energia atenuava a imensidade da sua falta.
Foi numa destas crises fulgurantes, repetidas
vezes provocadas pela desordem da sua conduta, que
Frederico decidiu fugir da inquietação e do
remorso,
mergulhando na embriaguez dos gozos que a fonte
impura dos vícios lhe oferecia como
consolação lógica
e única da sua singular doença. Ainda a
princípio
pensou que entregando-se, com delírio, à
deliqùescència
de todos os abusos, se tornaria indigno da
amizade de Nuno e do afecto de Júlia: mas, no seu
romantismo, sentia um júbilo íntimo em
degradar-se
por ela, em descer aos pântanos das misérias
morais,
erguendo sempre os olhos em èxtase para a mulher
intensamente amada através de tudo, como os
ergueria para uma claridade purificadora e divina.
Orgulhoso e curioso dos seus actos, havia de ir
até ao fim, embora o caminho fosse errado e nêle
se
transviasse—porque era incapaz de conceber
abnegações
por si próprio.
Perturbado e cheio de confusão por esta ideia
fixa, Frederico, que durante muitas semanas viveu
completamente isolado, começou a aparecer de repente
em tôda a parte, a freqùentar os cafés
e os Clubes.
Era novo, era rico, sabia insinuar-se, aliciar. Na
roda dos seus conhecimentos houve espanto.
A ressurreição foi saùdada com ruidosa
alegria,
e logo alguns rapazes resolveram solenizar o acontecimento
extraordinário com uma ceia em que o
champagne festivamente estalasse e a
verve corresse
com uma scintilação dourada sob a brancura da
luz eléctrica. Alberto de Sequeira, que trazia no
dedo um grande anel brazonado e se vangloriava de
pertencer às raças finas, desejava um banquete
sério
e decente, em que os convivas fôssem de casaca,
correctos e irrepreensíveis, como para uma mesa
em que estivessem duquesas.
—Vejam que devemos isto a Frederico e a
nós, à nossa classe social, à nobreza
das nossas estirpes—comentou
êle.
O Paiva, toureiro amador e guitarrista, insurgiu-se,
porêm, muito desdenhoso de fidalguias e
pragmáticas,
bradando:
—Não, senhor! Nada disso. Trata-se duma festa
pagã, para comemorar a volta à
estúrdia e à pândega
dum companheiro. Temos, portanto, de meter-lhe
paganismo:—a rabona igualitária, a ninfa de
gordos braços, lânguidos olhos e saborosos beijos.
Olha agora a casaca! Não querem ver? Palavra
de honra, é escandaloso!...
—Sim, é claro! Devemos meter-lhe a ninfa !
A casaca é fúnebre, e nós vamos para
uma calorosa
manifestação de regosijo!—concordou o Taveira,
filho dum capitalista enriquecido na Argentina.
—Pois não é assim?—interrogou o Paiva.
—Mas...—atalhou Alberto.
—Não, filho! Não há mas nem meio mas.
Venha o belo pagode, a bela bacante agitando no ar
o seu tirso e saracoteando um
maxixe
desbragado...
—Muito bem!—acrescentou ainda o Paiva. A
bacante e o
maxixe, primeiro... O
resto, é silêncio,
como Hamlet dizia a Horácio.
Com efeito, a ceia realizou-se numa noite memorável,
depois do teatro, durou até à madrugada
do dia seguinte e ficou marcando uma hora triste
de desvio moral na existência de Frederico. Aí
conheceu êle a mulher, a intrusa, que havia de
exercer uma influência nefasta na sua vida e no seu
sentimento. Chamava-se Branca, tinha vinte anos,
resplandecia duma beleza capitosa que o fogo dos
ósculos impuros ia queimando lentamente, era alta,
loura, notava-se-lhe no rosto uma candura, uma espécie
de
virgindade que certas
criaturas
femininas
nunca perdem por mais baixo que desçam nos charcos
da miséria. Foi Paiva quem lha apresentou, exclamando
irónicamente:
—Aqui tens tu um regaço de sêda onde os
príncipes gostariam de dormir as suas séstas de
amor.
Infelizmente, pertence a um desgraçado país que
nem amar sabe e onde não há
príncipes... Tem de
contentar-se com os filhos da nossa virtuosa burguesia!
Mal empregada! Como o poeta célebre, esta
Musa da orgia chegou muito tarde a um mundo
muito vélho, caro amigo!...
Frederico apertou-lhe a mão friamente, rindo
da apresentação.
—Na Grécia antiga—continuou Paiva—os filósofos
da linhagem nobre e genial de Platão repousariam
e meditariam sob a luz doce dos seus olhos
com o respeito com que repousavam à sombra do Partenon.
Branca seria a inspiradora, a deusa. Até talvez
se lhe levantasse um templo, como à vaca Ísis,
no Egito!...
—Ora! O cavalheiro está a chuchar comigo!...—exclamou
ela, amuada.
—Agora, o que Branca desconhece, meu filho,
é a linguagem sonora e harmoniosa em que falavam
os Imortais...
«O cavalheiro está a chuchar
comigo!» Vê tu que
abominação. Se Péricles ouvisse
esta Xantipa, morreria com uma síncope cardíaca
ou correria a embriagar-se com o vinho das doces
colinas de Atenas. Perdoa-lhe tu, que és generoso...
—E que não sou Péricles!—atalhou Frederico.
A ceia correu tumultuosamente alegre, e os convivas
do «festim pagão», como havia anunciado
Paiva, beberam mais do que os deuses de Homero.
Frederico tinha ficado junto de Branca, que constantemente
o acariciava com a suavidade do seu
olhar cheio de promessas, que lhe floriu a botoeira
com uma rosa e que, durante tôda a noite, revelou uma
melancolia que mais vivo destaque imprimia à sua
graça
dorida. Alberto de Sequeira, toldado pelo alcool,
com as faces escarlates, agarrado a uma companheira
de Branca, a Eugénia, tam conhecida nas
garçonnières
da mocidade elegante, dava-lhe beijos e oferecia-lhe
os seus pergaminhos com a mão de marido. Ela,
rindo à gargalhada, recusava, dizia-lhe que não
tinha
vocação para espôsa.
—Vai para um convento, vai para um convento!—intimou
Paiva, de pé, ao lado da mesa, erguendo
o braço e apontando com o dedo.
—Sim! Talvez para um convento!—concordava
Eugénia, enroscando os braços à volta
do pescoço
de Alberto. E então?...
A tristeza de Branca no meio da jovial estúrdia
impressionou Frederico. Perguntou-lhe:
—Que tem?
—Nada! Estou hoje assim!... São dias.
—Tem «telha», é o que tem—afirmou uma
outra, Luísa, a quem Paiva fazia ardentes
confissões,
prometendo-lhe um scetro, uma realeza.
—Ou um scetro ou um poema. Escolhe—gaguejava
êle. E pode ser que, para a imortalidade,
te convenha mais o poema. Ainda não morreram
Beatriz, Laura, Virgínia. Ainda nem sequer
morreram aquelas loiras germânicas cantadas por
Goëthe.
—Quem são essas damas?—inquiriu Luísa.
—São umas senhoras das minhas
relações...
Não é verdade, Frederico?
—Beatriz, Laura... Certamente! E damas
muito finas!—asseverou Frederico.
Novamente se curvou para Branca, pegando-lhe
na mão, mirando-a nos olhos, interrogando:
—E foi sempre assim triste?...
—Para que quere saber?
—Porque me interesso por si... Aí está!
—Acredito eu lá nesse interêsse!
Na mesa, onde brilhavam ainda nos cristais restos
de vinhos e licores que pareciam pedras preciosas
líquidas, desfolhavam-se as flores. O dourado fulgor
da luz batia em cheio nos linhos, fazia reluzir o vidrado
das porcelanas. Os criados entravam o saíam,
cambaleantes de sono, coçando a cabeça, com os
guardanapos sôbre o ombro. O ambiente aquecido
pesava e sufocava. Frederico subiu uma vidraça que
dava para fóra, sentido-se reanimar por uma lufada
de ar frio. Sôbre a cidade, arqueava-se um céu
picado de estrêlas, que
já empalideciam no cerraceiro da
treva que devorava tôda a vida. Por um momento,
Frederico, encostado ao peitoril da janela, julgou-se
aviltado. Experimentava a sensação desgostante de
ter caído numa imundície que o sujava, que o
invadia
dum nojo profundo; e mentalmente comparava
a frescura de impressões de que um amor
oculto e malfadado fizera vibrar a sua sensibilidade,
a ventura risonha entrevista em exaltações de
imaginação,
o sôpro de alegria eterna que respirou junto
de Júlia, com aquela torpeza, em que se afundava.
A solidão da rua que, em baixo, se escoava na sombra,
a frialdade do vento, tudo o que para êle havia de
novo, de desconhecido, naquela noitada iniciadora,
excitavam-no, sacudiam-no. Fumando, olhava as
alturas celestes que, no esplendor das
constelações
scintilantes lhe sugeriam arabescos de luz, uma estranha
feeria que ardesse, rutilasse na escuridão.
Dentro, os beijos arrulhavam. Branca, levantando-se,
aproximou-se de Frederico, encostou-se-lhe ao braço,
dizendo numa voz de mimo e de fraqueza:
—Estou tam fatigada!
Êle voltou-se bruscamente, irritado contra
aquela interrupção importuna que vinha
quebrar-lhe
o fio das lucubrações e fazê-lo
reentrar de repente
na realidade das coisas, mas logo se conteve diante
da desdita duma mocidade e duma beleza que tôdas
as brutalidades da luxúria iam contagiando e maculando;
e, do fundo da sua bondade, ascendeu a emoção
compassiva para tanta fragilidade e tanto infortúnio.
A delicadeza de alma de Frederico tornava-o
incapaz de ser grosseiro e violento com uma mulher,
fôsse ela quem fôsse: e Branca, alêm de
débil, tinha
a graça romântica duma formosura a suavizar-lhe
o rosto, o aspecto doentio, uma meiguice que parecia
nascer da humildade dolorosa da sua vida e da
escravidão do seu corpo. Isto amoleceu a dureza de
Frederico, apiedou-o. Pegando-lhe na mão que ela
abandonou, disse:
—Cansada, hein?
—Oh! Muito cansada e morta por me ver longe
dêste logar, acredite!—respondeu Branca.
—Então, não gostou, não se divertiu?
—Eu?!... Estou para aqui!...
Enquanto falava, Branca olhava-o com uma expressão
em que havia ternura e sofrimento. Frederico
pensou que aquela sensibilidade numa mulher costumada
a vender-se era exagerada. Talvez ela fingisse
uma dor que não sentia para o comover, para
obter certas complacências que lhe agradavam, por
cálculo ou por outra circunstância qualquer: mas,
fixando-a mais demoradamente, pareceu-lhe surpreender
nos olhos um sorriso que tremia e nos lábios
pálidos uma súplica que não ousava
denunciar-se
claramente, com mêdo de ser repelida, e que no
seu silêncio queria dizer:
—Leva-me contigo!... Sou uma companheira
ainda desejável para algumas horas. Porque não
experimentas? Farei tudo quanto me fôr possível
para te distrair, para ser amável!...
Esta suposição comunicou-lhe aos nervos uma
languidez sensual: e, avançando para Branca, que se
havia afastado alguns passos e que aconchegava uma
pele de repôsa à volta do colo friorento,
exclamou:
—Pois partamos. Eu acompanho-a...
Nesse momento, Sequeira, com o
charuto meio
queimado na bôca, dormia com os braços apertados
na cinta de Eugénia; Luísa bebia café
com Paiva,
pela mesma chávena; outros convivas da ceia jovial,
espalhados pela sala, palravam, pesados e sonolentos.
Já através das vidraças se filtrava
uma claridade
matinal indecisa e o ar era mais penetrante e vivo.
Frederico anunciou que se retirava e que levava
Branca. Foi um alarido.
—O quê? Antes do nascer do sol?—interrogou
com estranheza o Andrade estrábico.
—Certamente—afirmou Frederico. Não nos
encontramos num estado de alma suficientemente
puro para compreendermos e sentirmos a poesia
da aurora.
—É uma perfídia!—gritaram muitas vozes.
—É sono! E eu tambêm me saio e levo
Luísa!—acudiu
Paiva.
—Mas, é o rapto das sabinas!...—exclamou o
Andrade.
—Oh! senhores, que chiste êste diabo tem!—aplaudiu
Paiva, enquanto os outros riam saborosamente.
Frederico vestiu o casaco, despediu-se, deu o
braço a Branca, que o esperava arrepiada e frioenta.
—Que Eros vos seja propício!—disse ainda o
Andrade, que nessa noite estava em veia.
Frederico, que descia, já o não ouviu. Ajudou
Branca a subir para o automóvel que o tinha trazido,
acordou o
chauffeur que dormitava,
encostado ao
volante, e partiu velozmente, envolvido na carícia
tónica da brisa matutina que o refrigerava e que rescendia
às seivas de que se impregnava, adejando por
quintais e jardins. Quando entrou em casa, com Branca,
o sol elevava-se numa explosão de ouro, e uma
leve poeira de luz errava, ardia sôbre os telhados,
incendiava as vidraçarias, que relampejavam, irradiavam
súbitos clarões...