Às duas horas da tarde, ao despertar do seu profundo
sono, espreguiçou-se, bocejou. Prostrava-o uma
grande lassidão, desgostava-o interiormente um
tédio
como nunca havia experimentado, tinha mau
gôsto na bôca, sentia-se embrutecido. Branca dormia
a seu lado, fazendo um pequenino volume sob a roupa.
Olhou-a atentamente. Estava ainda mais pálida
do que na véspera; à volta dos seus olhos havia
um
grande círculo arroxeado, a mão que tinha
fóra da
roupa era exangue e tam magra que se lhe adivinhavam
todos os ossos. A pele da face e do colo, porêm,
era duma brancura, duma transparência que mostrava
nítidamente a rêde azulada dos vasos sanguineos;
e no seu perfil havia uma regularidade, uma
pureza, uma correcção de traços
incomparáveis. Frederico
esteve a considerá-la durante algum tempo,
com uma piedade que a narração da sua vida
atormentada
e dolorosa—que Branca lhe fizera com os
olhos rasos de lágrimas—mais aumentava. A essa piedade
mesclava-se conjuntamente um desgôsto muito
profundo e que êle não sabia explicar, uma
vergonha
íntima, uma humilhante sensação de
vèxame. Arrependia-se
já de ter compartilhado o seu leito com uma
criatura de acaso, que se alugava às noites, que nunca
tinha visto, por quem mal sentira um minuto de interêsse.
Fôra aquela a primeira vez! Resistira sempre
a trazer para casa as mulheres que na rua se ofereciam
passivamente aos seus beijos, por pudor, por
dignidade, por altivez de carácter. Que
alucinação o
afastara da honesta linha que traçara à sua
existência
de
homem? Que desvario lhe conturbara a lucidez
da razão, não lhe deixando ver o que no seu
procedimento
havia de sórdido, de inferior?... Outra vez
envolveu Branca num olhar vagaroso. Ela continuava
dormindo e arfando de leve no ritmo da
respiração.
Frederico novamente se enterneceu. Teria ela,
porventura, culpa de andar de mão em mão como uma
rosa a que se aspira todo o perfume e que depois se
abandona? Certamente que não. Era uma vítima do
egoísmo dos homens que lhe apeteciam, por momentos,
a beleza e a frescura da juventude e que em seguida,
enfastiados, saciados, a repeliam. Cumpria o
seu destino triste...
A obscuridade do quarto era cortada, de quando
em quando, por claridades inesperadas que se filtravam
através das frinchas das janelas. Frederico ouvia
o ruído que vinha do exterior, do ar livre, da
rua—murmúrios
de conversas, de risos, de disputas, rolar
de carros que passavam arrastando-se nas pedras
da calçada.
—Deve ser muito tarde...—pensou.
Espreguiçou-se com lentidão. Tinha na
cabeça
uma desordenada multidão de ideas que não
chegavam
a clarificar-se, a definir-se límpidamente. Ia
reconstituindo a scena da noite anterior, a alegria
da ceia com mulheres—um espectáculo inteiramente
banal para êle—os ditos humorísticos e picantes
do Paiva... Acudiam-lhe à memória os mais
apagados
pormenores dessa festa de rapazes.
—E como hei de desfazer-me desta criatura,
que tenho em casa, sem provocar curiosidades escandalosas
no bairro?—monologou de repente.
Aí estava, na realidade, uma coisa bem dificil!
Morava num
sítio muito povoado e muito indiscreto,
havia mesmo, em frente à sua
habitação, uma
outra com vizinhas bisbilhoteiras que passavam os dias
por detrás dos cortinados, espreitando, investigando,
devassando. Uma delas, bem galante no esplendor dos
seus vinte e quatro anos, direita como uma estátua,
com uns olhos negros e perturbantes e uns seios
que se arredondavam sob a macieza, dos tecidos
da blusa como os das patrícias romanas sob o
peplum,
sorria-se com afabilidade sempre que o via
assomar à janela saùdando-a cerimoniosamente...
Durante muito tempo, Frederico contemplou-a com
encanto, como se quisesse surpreender-lhe no rosto a
revelação dum sonho de amor que, no seu
coração virginal,
se ia formando e desabrochando com a inocência
e a beleza duma flor. Depois, cansou-se e esqueceu-a...
Se ela visse Branca sair da sua vivenda, em
pleno dia, alarmaria a rua, daria, da sua varanda,
uma vasta publicidade àquela irreflectida aventura de
Frederico:—e, quando mais tarde passasse, tudo
seriam risinhos abafados e irónicos nas suas costas,
segui-lo-iam todos os olhares escarnecedores, durante
uma semana inteira a sua reputação constituiria
o tema obrigatório e fundamental da
eloqùência
da vizinhança!... Era um solteirão, era
independente,
tinha um desdêm absoluto pelos juízos e pelas
opiniões
que os outros formulassem a seu respeito:—no
entanto, a perspectiva de andar durante horas hilariantes
exposto ao ridículo público e cheio de grotesco,
vèxava-o. Precisava de ser prudente, de acautelar-se,
não por Branca, que nada perderia, mas por si. E
decidiu conservá-la em casa, até à
noite, comer, mesmo,
em sua companhia, um almôço que o Bernardo,
seu criado de confiança, iria buscar ao restaurante
que freqùentava e, assim que as sombras nocturnas
descessem, despedir-se dela com um beijo—e algumas
notas de Banco. Aborrecia-o, porêm, o facto de
ter de ficar uma tarde inteira fechado, diante duma
pobre rapariga que fôra o seu capricho dum instante
o que o não prendia nem pelas graças do
espírito,
nem pelos dons da inteligência e da cultura, nem sequer
por uma beleza que começava a fanar-se, queimada
pelo fogo da luxúria.
—Olha que estopada eu arranjei por minhas próprias
mãos!...—murmurava, desconsolado.
A inexprimível sensação de desalento e
de desgôsto
que o minava desde que despertou intensificava-se
na sua alma. Experimentava alguma coisa
de inconcebível; a sua vida interior acelerava-se e
fazia-o sofrer amargamente. Julgava-se com severidade:—ia
caindo de baixeza em baixeza. Até onde
chegaria?...
A certa altura das suas divagações, lembrou-se,
subitamente, de Júlia: e esta lembrança tam pura
era
como uma acusação muda, pela torpeza moral em que
principiava a debater-se. Se ela soubesse!... Se ela
adivinhasse algum dia, por uma extraordinária
intuição
amorosa, vulgar nas mulheres de sensibilidade
mais fina e de razão mais lúcida, que Frederico a
amava e que, quando êsse amor era uma alvorada
de poesia na sua alma, longe de o elevar, de o sublimar,
de lhe inspirar as grandes bondades e as grandes
abnegações, o impelia para os braços
de criaturas que
pertencem a todos e lhe fazia apetecer os beijos voluptuosos
de bôcas femininas que osculam os homens
que lhes pagam!... Se Júlia pudesse assistir em
espírito
ao
espectáculo do seu coração
devastado diante da
imagem luminosa dela e duma cortesã, que tôdas as
noites dormia em leitos sempre diferentes! Absolvê-lo-ia
dessa miséria? Não se sentiria ela salpicada
tambêm
pela lama em que Frederico se atolava?... Mas
Júlia viveria na perpétua ignorância
dos sentimentos
impuros que acordavam no seu organismo doente
e, mesmo que viesse a conhecer tantos desvarios,
não se consideraria traída porque não
queria dêle
mais do que uma estima fraternal... Por entre a névoa
das emoções opostas que o faziam vibrar,
Frederico
raciocinava ainda com certa clareza. A crise por
que estava passando sugeria-lhe palavras que um
dia tinha lido em Taine. Compreendia naquele momento
que a vida humana—a do corpo ou a da
alma—era infinita e de uma imensa multiplicidade:
mas que apenas certas das suas porções, certos
dos
seus instantes, mereciam subsistir, como expressões
conscientes superiores. Êsses instantes, essas
porções,
a que aludia o filósofo excelso, eram marcados pelas
atitudes morais que nobilitam o ser pensante. Fóra
disso, nenhuma grandeza existia!...
Levantou-se vagarosamente, para não despertar
Branca no seu sono. Ha quanto tempo—pensava
Frederico—ela não teria uma hora tam sossegada,
tam calma como aquela! Nem sempre encontraria
amantes condescendentes como êle!... Uma caridade
igual e tranqùila iluminava o quarto. Sôbre
uma cadeira, amontoado e amachucado, estava o vestido
da pobre flor de todos, tendo por cima o espartilho
de setim côr de rosa que êle lhe havia ajudado a
despir, na pressa violenta de aspirar o perfume de
amor que a sua carne exalava. Sôbre uma outra cadeira,
pousava uma pele de raposa
preta do Japão e
um chapéu de palha de Itália dum tom de ouro
fôsco
picado pelo colorido suave de dois ramos de lilases.
Deu alguns passos, com os pés nus, no tapête de
Bruxelas,
que espalhava uma nota de confôrto e de elegância
no compartimento; e, hesitante, voltou-se ainda
para olhar Branca. Sôbre a alvura do travesseiro,
destacava docemente a mancha fulva duns cabelos
louros desmanchados, emmoldurando um rosto sereno
e branco, de linhas muito finas. Uma colcha de sêda
escarlate bordada a matiz desenhava nítidamente as
formas correctas do gentil corpo adormecido. Como
Branca era linda e digna de piedade! E o que a vida,
com as suas impurezas e as suas terríveis
degradações,
fizera duma alma outrora virginal que poderia
ter sido a graça divina dum lar, uma adorável
espôsa,
uma admirável mãe capaz de todos os
sacrifícios e de
tôdas as exaltações da ternura!...
Passou ao quarto de banho, que ficava próximo,
mergulhou ávidamente na canôa de ferro esmaltado
que Bernardo enchera, duma água fria que o
tonificou, enxugou-se a um lençol felpudo e
começou
a vestir-se lentamente. Mais desanuviado, com a pele
cheirando ao perfume do sabão com que se lavara,
Frederico contemplou novamente Branca e observou
que uma série de sensações
antagónicas se sucediam
umas às outras na sua emotividade. A verdade
apresentou-se diante dos seus olhos. Afinal,
Branca não era mais do que uma criatura trivial
que se entregava a todos os que a desejassem. O seu
ventre estéril era conhecido de muitos olhos
lúbricos;
a sua bôca havia sido esmagada por milhares de
bôcas
masculinas, em beijos bestiais. Odiosas imagens fisicas
intermináveis
desfilavam diante dêle. Que
interêsse
poderia aquela mulher, profanada e ultrajada,
despertar-lhe? Como se arrependia de a ter trazido
para a sua habitação, para o seu leito! O
contacto
com ela manchara-o. E manchara igualmente a
limpidez do seu sonho, do seu ideal, deformara a
resplandecência
duma beleza vislumbrada que nunca
atingiria, de que não queria mesmo aproximar-se,
mas que, a-pesar disso, mesmo de longe o iluminava
e lhe causava orgulho! Esperava agora ansiosamente
a hora em que lhe fôsse possivel desembaraçar-se
de
Branca, para se dar com prazer à
recordação de Júlia.
Parecia-lhe que essa recordação o purificaria,
como uma água lustral...
A um movimento mais brusco de Frederico,
devorado por impaciências que o agitavam, Branca
acordou, abriu os olhos inchados de sono, sorriu-se
para êle, com um sorriso em que havia gratidão,
lassitude,
contentamento.
—Já a pé?... É curioso. E eu que
não o senti
levantar!...—murmurou ela, quebrada por uma fadiga
feliz.
—Pudera! Se dormias profundamente!...—respondeu
Frederico.
—Quantas horas são?
—Duas e meia!...
—Ih! meu Deus!... Que preguiçosa!—exclamou,
sentando-se no leito.
As longas tranças do cabelo envolveram-na tôda
até à cintura. Através da
ténue nuvem de ouro
que formavam, alvejavam brancuras da camisa de
bretanha fina, de rendas vaporosas. O bafo morno
que se emanava dos lançóis amolecia-a. Tinha as
faces
còradas pela circulação mais
apressada do sangue,
e os seus olhos azúis iam-se enchendo duma luz que
mais os azulava, quáse os espiritualizava. Frederico
aproximou-se da beira do leito, acariciou-a levemente,
passando-lhe os dedos pela face. Admirava-lhe
a formosura, qualquer coisa de virgíneo, de inocente
que ainda existia nela. Uma comoção estranha
perturbava-o. Ah! Aquela linda rapariga—uma
primavera em flor—erguendo-se do seu leito
que sempre fôra casto, que nunca agasalhara corpos
alheios, comunícava-lhe a impressão singular
dum noivado:—e esta ideia subtilizava-o, tinha
para o seu sentimento uma venturosa novidade,
fazia-o esquecer de que Branca era a noiva de
quem a queria.
—Ainda nem sequer me deu um beijo!—queixava-se
ela, prendendo as mãos nas mãos de Frederico...
Bons
dias!
Êle beijou-a, sorrindo tristemente, e notou a
delicadeza de Branca, que não ousara tratá-lo por
tu. Abraçando-o, suspirava.
—Estás triste?—inquiriu Frederico.
—Estou. E, no entanto, nunca nenhum outro
homem me tratou com tanta bondade...
—Então, como se explica essa tristeza?
Branca, repelindo-o brandamente, quis levantar-se.
—Responde!...
—Eu não sei responder... Queria ficar sempre
aqui, perto do senhor... É talvez por isto, por ter
de ir-me embora... Naturalmente, nunca mais nos
tornaremos a encontrar...
—Porque não?
—Eu sei lá!... É sempre assim. Os amantes
duma noite nunca mais se encontram...
—Mas, eu não sou como os outros—afirmou
Frederico,
fixando-a demoradamente.
—Ora! Tantas vezes tenho ouvido isso!...
Nas palavras de Branca havia uma frieza misturada
de desalento que fazia mal a Frederico. Enquanto
ela se penteava, sorrindo-lhe sempre—num
sorriso cansado e automático—êle considerava-a
mudamente, sendo invadido, de repente, por uma
aversão instintiva, por uma repugnância
inexplicável.
E sob a influência de impressões opostas,
observava
a incoerência das suas sensações que
umas vezes
lhe tornavam apetecida aquela beleza que ia morrendo
como uma rosa cortada e outras o forçavam a uma
grande violência sôbre si próprio, para
a
não repelir
brutalmente, aos empurrões, causar-lhe sofrimento,
obrigá-la a chorar. De que razão
psicológica oculta derivaria
tudo o que nos seus sentimentos havia de ilógico,
de inconseqùente? Com mêdo de soffrer mais,
Frederico nem sequer ousava interrogar-se, procurando
definir a laboração tumultuária da sua
vida íntima.
Branca, acabando de vestir-se, sentou-se, extenuada,
numa cadeira. Frederico, acendendo um charuto,
passeava no quarto, a largos passos, enquanto
ela o seguia com o olhar inquieto. Esperava... O quê?
Naturalmente que êle a mandasse embora, pagando-lhe
o amor duma noite. Na sua atitude, na expressão
do rosto macerado, em que punham fundas manchas
escuras as olheiras de bistre, havia resignação e
melancolia. Frederico parou junto dela, encarando-a.
—Estás pronta, hein?...—perguntou.
—Estou pronta—repetiu Branca.
—Queres ir-te embora?... Mas, é que não pode
ser já! Tens de demorar-te até à
noite...
—Não tenho que fazer...
—Ainda bem! Almoças comigo, se isso te não
desgosta. Irás depois...
Um clarão de alegria, que Frederico surpreendeu,
faíscou nos olhos de Branca. Suspirou, fundamente,
murmurou como se falasse para a sua consciência:
—Tenho sido tam desgraçada!...
Este grito sincero duma alma que espontâneamente
se confessava chocou Frederico, que se sentou
junto dela, tomando-lhe a mão que Branca abandonou
o que êle efusivamente apertou entre as suas,
pensando nas criaturas que incessantemente corriam
atrás da ilusão duma felicidade sem nunca a
alcançarem.
Tambêm êle era desgraçado!
Tambêm êle
aspirava a uma irrealizável ventura que só um
amor
impossível poderia oferecer-lhe. Um destino malfadado
irmanava-os na tristeza e no infortúnio:—e,
talvez por isso, a sua piedade transbordou.
—Branca, queres ser a minha amante?—exclamou
de repente, aturdido.
—Quero!—acudiu ela prontamente e tôda
alvoraçada.
—Medita!... Se aceitas, serás só para mim... Na
tua
situação,
isto não é
fácil. Mas, eu é que não
me conformarei com partilhas. Ouve bem!... Não
terei rivais.
—Aceito—afirmou ela, novamente, com firmeza
na voz.
E, como Frederico a envolvesse num olhar
perscrutador, que se demorava a investigá-la, Branca,
levantando-se, foi para êle, abraçou-o
esteitamente,
dizendo:
—Oh! meu filho, como eu te agradeço esta
hora de paz e de consolação que me vem da tua
oferta... Olha para mim... Assim, não!... Nos
olhos... Isso mesmo! Agora, repara... Juro-te que
serei só tua e que te não traírei,
enquanto tu me
quiseres!...
Enternecido, Frederico
beijou-a
longamente, como
se o seu beijo fôsse o princípio duma doce e
jubilosa
festa amorosa que principiava. Almoçaram e,
durante a refeição, Branca, que a intimidade que
se ia estabelecendo, tornava audaz, contou-lhe os
seus infortúnios e as suas amarguras, còrando
muitas
vezes por ter de ferir o secreto pudor da sua alma.
A sua história era inteiramente igual à
história de
tôdas as mulheres perdidas. Uma paixão absorvente
e cega em que se confia e a que tudo se sacrifica, a
queda, o abandôno, a miséria final duma
existência
passando de mão em mão, enquanto vicejam a
florescência
e a beleza da mocidade. Ouvindo-a, Frederico
compadecia-se, prometia-lhe daí para o futuro
uma vida serena e uma emoção pura que a
aurorizasse.
—Não me enganes!—suplicava Branca. Se
depois de tudo isso hás de deixar-me, então, o
melhor
é separarmo-nos de vez...
—Não crês na minha sinceridade?... Não
tens fé em mim?—interrogava Frederico.
—As desilusões teem sido tantas!...—respondia
ela, duvidosa.
E baixando os olhos, na voz humilde e baixa
de quem revela uma vida de vergonhas, foi dizendo
tudo o que deixara pelo mundo fóra:
—Em minha casa, quando eu de lá saí, havia
criancinhas pequeninas, que eram minhas irmãs e
que eram puras. Nunca mais as tornei a ver...
Ao baixar da noite, desdobrou-se sôbre a cidade
um denso lençol de sombra. Branca saíu contente,
com a esperança de que Frederico se encontraria com
ela, volvido pouco tempo, para a continuação dum
capricho
sentimental que ainda lhe parecia absurdo,
tanto a havia surpreendido a resolução inesperada
do
seu amante dalgumas horas; e êle, ficando só no
imenso casarão de treva e de silêncio,
experimentou
uma sensação de tédio mais fundo.
Tôda a vida lhe
parecia deserta, especialmente a vida emotiva; e,
recolhendo-se, a si mesmo perguntava se valeria a
pena vivê-la, sem encontrar nas almas e no mundo
exterior alegrias puras e interêsses morais. Sentado
numa cadeira de braços, junto duma mesa de pau
preto sustentando jarras com flores que Bernardo
tôdas as manhãs
substituía,
ia sofrendo o seu permanente
suplicio. Verificava que, em certos momentos,
ideias claras, fáceis, luminosas, o obrigavam a
obedecer-lhes alegremente, e que, em outras, essas
ideias eram sombrias, indecisas, indecifráveis, e o
assustavam. Encontrava-se, precisamente, num dêstes
últimos instantes em que as
inquietações interiores o
consumiam, como as brasas se consomem no fogo
intenso. Justos céus! Como o seu desamparo era
grande! E cada vez a solidão mais pesava à sua
volta e mais insuportável lhe tornava a carga que
trazia sôbre os ombros. Naquela vivenda em que
nascera, erravam os espectros do pai, que não chegara
a conhecer, o da mãe, que morreu na sua infância,
o duma irmã, Maria das Dores, que era afilhada de
Nossa Senhora, com quem brincara na meninice e
que tambêm se sumira nos negros boqueirões da
morte. Da sua casta, que se extinguia, era êle o
derradeiro representante directo: e entrava no outono
da existência sem ter a coragem e a
abnegação
de criar uma família. Porque não procuraria uma
doce mulher que fôsse capaz de fazer um luar de
ventura à sua roda, de oferecer-lhe o peito para
êle
repousar a cabeça nas horas de angústia, em vez
de
levar para o leito criaturas que
transformam
o
divino
sentimento do amor numa mercadoria e numa
torpeza? Ah! como Nuno lhe era superior! Êsse
sim! Havia seguido, na sua marcha para os tempos
vindouros, o caminho da verdade e da beleza, de que
êle se afastara—de que se afastava ainda mais, de
dia para dia!...
Com a imaginação perdida na melancolia destas
evocações aflitivas, via novamente a imagem de
Júlia
erguer-se, radiante de luz, ante os seus olhos: e,
então, lembrava-se com infinita saudade do lar
inefável
e calmo de Nuno, da felicidade perene que o envolvia,
radiosa como uma nuvem dourada. Enquanto
êle para ali estava curtindo o seu padecimento, desgarrado
de tudo quanto fôsse humano, fecundo, produtivo,
sob o ponto de vista psíquico e material, Nuno,
no seu escritório, e depois de um dia fértil em
trabalho
útil, em inteligência, repousaria lendo um livro,
perto
de Júlia, que a claridade aureolava e que pousaria de
momento a momento a agulha da costura para colhêr
um beijo na bôca nobre e risonha do marido. E não
haveria acidez, cólera, impurezas, nos
corações dum e
doutro, unidos pelo mesmo afecto, nutrindo-se de idênticas
aspirações, enlevando-se numa
confiança ilimitada...
Ou talvez que Júlia, ao piano, no sossêgo
nocturno,
tocasse uma bela página em que vozes enigmáticas
narrassem, numa linguagem de som e de harmonia,
a ascensão dos espíritos subtis para a
purificação
e para a graça. Dentro do seu berço, o filho
de Nuno, ainda pequenino, dormiria inocentemente,
lindo como um botão de rosa, e tôda a casa
adormeceria
tambêm ao embalo suave da música. Isto sim!
Era viver! Mas êle, que com tanta ansiedade buscava
a ternura, não passava dum esquecido do destino,
dum foragido...
Fóra, na rua, começavam a acender-se os
candeeiros
de iluminação pública. A chama do
gás, torcendo-se
à ventania, projectava sôbre as
vidraças sombras
oscilantes e fantasmagóricas. O ruído afrouxava.
Bernardo, entrando de súbito na sala, perguntou:
—Para que horas quere V. Ex.
a o jantar?
—Eu não janto hoje, criatura—afirmou Frederico,
erguendo-se e dirigindo-se ao criado.
—Santo nome de Maria! Não janta?
—Ou por outra, janto fóra. Arranjem-se lá
vocês, tu e a Rosalina.
—Então, está bem!—disse Bernardo, retirando-se,
sem estranhar já as excentricidades do amo,
desde que nessa manhã o vira almoçar com uma
mulher da vida airada, em sua própria casa.
Que fatalidade o perseguia!—pensava Frederico,
reatando novamente o fio das suas meditações.
A ambição duma família estava agora
para
sempre comprometida, porque êle não poderia
ligar-se
a uma mulher que não amasse, que havia de ser-lhe
odiosa, sempre que se lembrasse de Júlia, sua
única
e infeliz paixão... Nesse instante, Frederico via-a
bem real, duma personalidade bem determinada,
diante de si. A sua beleza era perigosa. Nos seus olhos
existia um ardor secreto que denunciava a amorosa.
Parecia-lhe que ela tinha uma dessas expressões
pensativas que nunca se definem com nitidez e que
tanto seduzem, porque denunciam almas de indizíveis
delicadezas. Frederico sentia-a em si, consagrava-lhe
a adoração perseverante, o culto absoluto, o
amor que se bastava a si próprio e que duraria,
veemente, vivaz, enquanto êle tambêm durasse. A
esta certeza, revoltava-se mais uma vez. Com efeito,
que maus fados o tinham levado para casa de Nuno!
E que fraqueza lamentável a sua, apaixonando-se pela
espôsa do seu melhor amigo, sem que reagisse violentamente
contra o amolecimento da vontade, o desfalecimento
do coração!
Júlia insinuara-se—sem querer, porque era honesta—na
sua admiração, no seu desejo, na sua carne,
em todo o seu ser de homem: e, sendo tam pura e
tam santificada de bondade, envenenara-o para sempre,
fizera dêle alguma coisa de vil e de abjecto que entrava
num santuário familiar não para purificar-se ao
contacto das grandes virtudes, mas para trair. Porque
já traía Nuno, não por actos
irreparáveis, mas pelo
sentimento!...
Sôb a influência mórbida dêste
raciocínio, exasperou-se.
Sufocava. Os olhos dardejavam-lhe um brilho
especial. Sentia a necessidade de aturdir-se, de
bestializar-se, de apagar tôda a claridade da
consciência.
Outra vez evocou Branca. Iria para ela, embora
se afundasse; havia de procurar nos ásperos
delírios
da sensualidade ou nas alucinações do alcool o
sossêgo
indispensável que lhe fugira, com o desespêro
com que Alfredo de Musset procurava nos copos de
absinto o reflexo verde dos olhos da Quimera! O
que êle pretendia era esquecer Júlia, por todo o
preço—mesmo à custa da sua dignidade...
Como as noites fôssem já frias, vestiu um
sobretudo,
pôs o chapéu, pegou nas luvas e na bengala
e saíu, mergulhando no movimento exterior,
que o acalmava. Ao chegar à porta da rua, viu, na
casa fronteira, as vizinhas que, por detrás dos vidros
da janela, o espiavam. Irritado, não as cumprimentou,
seguindo em passos nervosos pela calçada.
Tinha feito uma promessa a Branca. Ia cumpri-la,
com o coração tranzido e com a certeza de que se
dirigia para o mal e para uma nova dor...
VII
Certa manhã, ao entrar em casa depois de tôda
uma noite passada com Branca—já instalada numa
luxuosa e recolhida vivenda que Frederico para ela escolhera
numa rua solitária da Foz e onde reùnira tudo
quanto pudesse oferecer bem estar ao seu egoísmo e
encanto aos seus olhos saudosos de beleza
artística—encontrou
uma longa carta de Nuno que o correio
trouxera e que Bernardo solicitamente pousara sôbre
a larga mesa do seu gabinete de trabalho, num
sítio bem visível. Durante muito tempo
conservou-a,
hesitante, nas mãos, sem ter a coragem de rasgar o
envelope. Mirava-a, remirava-a, voltava-a entre os
dedos nervosos, estudava a letra miúda e firme do amigo,
como se quisesse perscrutar nas particularidades
exteriores o oculto sentido do que ela dizia, das
revelações
gratas ou dolorosas que iria fazer à sua
inquietação
de espírito cada vez mais violenta e que os
delírios da sensualidade carnal não apaziguavam,
ao
seu sofrimento moral de dia para dia mais veemente,
roendo-o com a lentidão com que um acido corrosivo
rói certos metais. Era a primeira vez que Nuno
lhe escrevia, desde que Frederico deixara a quinta
rural, afastando-se duma atmosfera mórbida que fazia
mal aos seus nervos, que lhe desgastava a energia,
que lhe amolecia a vontade, fugindo à permanente
adoração de Júlia—uma
adoração criminosa
que inutilmente se esforçava por abafar dentro do
coração e que subtilmente crescia sempre,
invadindo-o
todo, cegando-o, alucinando-o, vivaz como uma
planta daninha que se quere destruir e que constantemente
surge, com teimosia, à superficie da terra.
Que iria Nuno dizer-lhe? Inconscientemente, na
ignorância do seu amor impuro, o amigo trabalhava
contra si próprio, avivando coisas que Frederico pretendia,
em vão, esquecer para que mais de-pressa
curasse os seus nervos doentes, a sua alma enfêrma!...
Passeando agitadamente, com a carta apertada
na mão trémula, Frederico notava que, por uma
singularidade inexplicável, tôda a gente, mesmo as
pessoas que mais estimava, conspiravam, contra a
sua paz, contra a sua ventura. Nuno, por exemplo,
havia de falar-lhe da sua felicidade conjugal,
da ternura de Júlia, da sua perfeição
como mulher
e como espôsa, o que o atormentaria, agravaria
excepcionalmente
o padecimento que trazia consigo. Os
beijos de Branca, a graça, a formosura esplêndida
do seu corpo nú vibrando dos desejos voluptuosos
que êle acendia, só lhe avivavam na
imaginação ardente
o fogo da paixão alucinante pela outra, por
Júlia—uma complexa paixão em que havia
conjuntamente
delicadezas,
mimos, aspirações, purezas
quáse
místicas e as impulsividades grosseiras duma
luxúria
que maculava as emotividades mais castas. Vivia,
por isso mesmo, numa perpétua ansiedade, sobressaltado
de temores contínuos diante dos insignificantes
factos que pudessem recordar-lhe a mulher
que a todo o transe deveria olvidar para seu sossêgo,
por imposições da sua dignidade ainda
não totalmente
amolecida. Estava reduzido à necessidade
de procurar a calmaria interior, aturdindo-se nas orgias
sensuais com Branca, nas noitadas com os conhecidos
pelos teatros e pelas mesas dos restaurantes,
em que bebia até perder a lucidez da consciência,
ou
a fugir ao seu semelhante, acolhendo-se ao isolamento
da sua fria casa de solteirão, onde não
encontrava
nada daquilo que o sentimento imperiosamente
lhe reclamava e onde, frente a frente, o encarava o
seu pior inimigo, que era êle próprio. Estas rudes
emoções,
de que lhe era impossível emancipar-se, iam-lhe
aviltando o carácter, extenuavam-no físicamente.
A
fôrça, a resistência, a
saúde, escapavam-se-lhe do
corpo como a tranqùilidade se lhe havia escapado da
alma. Durante horas seguidas, nada mais sentia do
que o pêso esmagador do infortúnio que teimava em
acabrunhá-lo; e, se tentava reagir era para se crivar
de sarcasmos, de ironias cruéis e fulgurantes,
súbitamente
avassalado pelo prazer secreto de destruir-se,
de se afundar mais nas torpezas que dilaceram e matam,
de acabar, com um golpe feroz e rápido, aquela
contínua tortura de todas as horas, fermentando nas
impurezas emocionais, de que era feito o seu abjecto
sêr de homem. Em Frederico, exauriam-se as fontes
psíquicas de que brotam as seivas criadoras que engrandecem
e nobilitam as criaturas.
O seu aniquilamento
tinha começado: mas, por cobardia moral ou
por orgulho, evitava tudo quanto pudesse sobressaltá-lo
neste vagaroso trabalho de desagregação, e lhe
perturbasse a alegria feroz com que assistia à sua
devastação
desordenada...
Ao cabo de demoradas cogitações, aproximou-se
duma janela e olhou para fóra. A manhã corria
serenamente,
iluminada por um fulvo sol de inverno
que caía do alto sôbre a cidade como o
pólen duma
imensa flor de ouro. Na rua, curvada sôbre a carga do
seu gigo cheio de hortaliças frescas, passava uma mulher
lançando nos ares um pregão vibrante, com a saia
rôta embrulhando-se-lhe nas pernas. Bernardo entrou
de repente, perguntando a Frederico se tinha visto a
carta que o homem do correio trouxera.
—Vi. Tenho-a aqui. Vou lê-la—respondeu.
E, quando o criado saíu, fechando a porta,
Frederico, vencendo, por uma decisão súbita,
tôdas as
irresoluções que o alanceavam, rasgou com
desespêro
o envelope, desdobrou a larga fôlha de papel ennegrecida
de tinta e encetou a leitura. Logo às primeiras
palavras se lhe desenrugou a face que envelhecia e
se abaixou a curva das suas sobrancelhas contraídas.
Nuno narrava-lhe a labuta constante a que se entregava
na quinta, sob as soalheiras de verão, que lhe
tisnavam a pele, sob as chuvadas de outono, que lhe
enrigeciam a fibra, comunicando-lhe mais elasticidade.
As obras da vasta propriedade, alugada ao caseiro,
estavam quáse terminadas. Instalara o vélho
Mateus e a família num
«palácio», só para que
perto dêle não houvesse o espectáculo
dissolvente
da miséria humana; rompêra mais minas que, de
muito longe, da encosta dos montes próximos, traziam
em levadas uma água muito clara e cantante que,
pelos estios calcinadores, regariam as terras, levando
o alento e o vigor às culturas benéficas:
transformara
tudo. Entusiasmado, confiava-lhe os seus projectos
futuros. Andava com ideia de se fazer lavrador, de
abandonar para sempre a cidade, que só visitaria de
fugida, para tomar um banho de civilização,
regressando
logo à simplicidade do campo, à placidez
rústica.
Se esta vontade vitalizadora, que o galvanizava,
não viesse a esfriar, teria, mais tarde, em
estábulos
bem cuidados, manadas de vacas que lhe dariam o
bom leite, o queijo, a manteiga. Exploraria a indústria,
tam atrasada entre nós, dos lacticínios,
concorrendo
para a riqueza do país com uma parte da sua
fértil actividade...
Frederico interrompeu a leitura da carta, para
murmurar humorísticamente, como se conversasse
com o amigo:
—E nas horas vagas, como Vergílio, podes fazer
versos, escrever as
Geórgicas ou as
Bucólicas!...
Sorrindo com a sua observação, reencetou a
longa epístola de Nuno que ia desenrolando outras
empresas que lhe pareciam fabulosas, esquecido completamente
de que Júlia lêra aquelas linhas que lhe
eram dirigidas, que os seus olhos pensativos haviam
pousado em cada palavra, que ela fôra mesmo composta
a seu lado, num daqueles demorados e pacíficos
serões que constituiam um dos maiores encantos
da vida familiar do amigo. Nuno falava agora, sempre
com o mesmo júbilo, em granjas, espigueiros, eirados,
tulhas e celeiros para os cereais que colheria, adegas
para o vinho, apetrechos de lavoura.
«Quero—dizia êle—trabalhar para aumentar
assim a fortuna do meu filho—que está um
figurão,
um grande senhor de olhos espantados e cara
rabujenta, que se ri de tudo com uma alegria a que
as misérias da existência ainda não
comunicaram o
seu veneno e a sua dôr—de outros filhos que venham,
porque me não satisfaço com ter
únicamente
por descendente e representante um sêr pequenino e
frágil que a menor doença pode arrebatar ao meu
afecto. Júlia é da minha
opinião...»
Esta última frase transtornou Frederico como
um insulto à pureza do seu amor, como uma
maldição
que tornasse estéril o seu sentimento. Parecia-lhe
que Nuno o ofendia e o escarnecia, confiando-lhe
a esperança que alimentava de Júlia lhe dar mais
filhos—filhos que seriam seus, gerados no calor genesíaco
dum beijo profundo em que duas bôcas, que
se queriam, se transformavam numa só bôca, em que
dois corpos, latejantes e convulsionados pela febre
da fecundidade, se fundiam num só corpo! Uma
cólera
absurda subiu do seu coração por essa mulher
que se lhe apoderara da alma e que ao marido entregava
tudo e ao amante ignorado nada oferecia que o
tranqùilizasse. Para Nuno, para a sua
satisfação, para
a sua vaidade, para a sua felicidade completa, a vida
jorraria ininterruptamente do flanco de Júlia, o seu
ventre geraria os sêres quáse divinos pela
graça e
pela
inocência—sêres admiráveis em que
ambos,
através
do tempo, se prolongassem, se perpetuassem.
Para êle, que tanto a amava, e que, por isso tanto
sofria, não havia mais do que uma amizade certamente
sincera, mas que não bastava à sua ansiedade
dolorida e que repelia com amargura! Irritado por êstes
raciocínios, Frederico nada mais via em Júlia do
que o facto brutal que derivava da sua ligação
legítima,
com Nuno—facto que manchava a purificação
do amor impossível que lhe consagrava, sem
que ela sequer o soubesse. Considerava que o seu
drama passional se transmudava em comédia. Sentia-se
ridículo e exagerava o que na sua
situação havia de
grotesco, para conseguir desdenhá-la, já que a
não podia
olvidar. Estava, certamente, fóra da equidade, da
razão,
da justiça, mas achava que a sua revolta era natural...
Por fim, reagindo sôbre si próprio, reentrou
na realidade das coisas, monologando, revoltado:
—Já não haverá então
limites para a minha miséria?
Com que direito, efectivamente, se insurgia êle
contra a ternura de Nuno pela espôsa? E com que direito
tambêm a reclamava para si, como se ela lhe pertencesse,
sem se lembrar do que devia à sua dignidade,
á sua afeição fraternal, ao respeito
por um lar sagrado
onde entrara como um amigo e donde saíra enxovalhado,
ennodoado por um sentimento criminoso que
fôra impotente para sufocar, à
nascença, no coração?
Estaria por tal forma perdido para a vida moral sadia,
honesta, elevada, que não compreendesse a vileza
suprema da acção que praticava? Mas a sua
libertinagem—a
libertinagem em que esperava consumir-se,
matar a sensibilidade, endurecer, embrutecer—era
recente...
Arrependido, pedindo íntimamente perdão a
Nuno da sua loucura, pegou novamente na carta
que tinha pousado sôbre o peitoril da janela, continuando
a lê-la. O amigo anunciava-lhe que o inverno
havia chegado, com as suas intermináveis
noites de treva, os seus cinzentos dias de vento e de
chuva. As árvores do parque já não
tinham fôlhas, a
paìsagem dos arredores da quinta parecia morta ou
embebida num sonho inerte em que as vidas futuras
germinavam, preparando-se para ascender à luz.
Nuno e Júlia levavam agora uma existência mais
recolhida e monótona, porque não podiam sair de
casa. A água, descendo em torrentes das serras, alagava
a planície, transformava caminhos, córregos,
azinhagas,
barrocais, em rios
lamacentos,
tornava intransitáveis
aquelas estreitas veredas, entre densos
silvados, que pelas primaveras românticas floriam e
se perfumavam com o aroma das madre-silvas e das
roseiras bravas e onde, nas manhãs de verão,
amadureciam
as negras amoras silvestres...
«Mas—concluia Nuno—eu tenho os meus livros,
que leio e releio para colhêr alguma humilde parcela
da verdade e da beleza que através dos séculos
os cérebros e as sensibilidades mais finas nunca deixaram
de perscrutar; Júlia tem o seu piano, o seu
Beethoven, o seu Liszt, o seu Schubert, o seu Debussy;
e ambos temos ainda, para prender a esta casa solitária
um encanto sempre novo, o nosso amor e o nosso
filho. E estamos com uma infinita curiosidade de passar
aqui todo o inverno, assistindo à
ressurreição
primaveril, à aleluia das fôlhas e das
florações... E
tu? Se te aborreceres por aí, com os teus teatros, os
teus romances de coração, mais
efémeros do que as
rosas de Malherbe, os teus conhecimentos, os teus tédios,
faz as malas e vem. Serás recebido com a afabilidade
e a alegria que, no vasto mundo, apenas
nesta cabana amiga encontrarás...»
As últimas linhas da carta enterneceram-no.
Bom, admirável Nuno! Como a sua afectuosidade
perene se recordava dêle e de tam longe o chamava!...
Havia ainda um
post-scriptum.
Frederico, alvoroçado,
leu:
—«Júlia, que está aqui ao meu lado,
depois
de ter adormecido ao colo o nosso morgado, recomenda-se,
manda-te muitas saùdades e pede-te que
te lembres de nós. Anda a estudar, com interêsse,
uma sonata de Beethoven, que será para ti e que,
na tua volta à quinta, hás de ouvir...»
Por um momento, estas palavras tam naturais
e tam simples, conturbaram-no, excitaram-lhe a
imaginação.
Júlia pedia-lhe para se lembrar dela, estudava
pra êle uma das mais belas sonatas de
Beethoven,
talvez inspirada ao maior poeta de música por
uma profunda, transfiguradora paixão, tinha consigo
delicadezas do que apenas são
capazes
as almas que
amam em silêncio. Quem sabe se essa doce mulher
fôra tocada pelo fluido invisível do amor que o
abrasava,
se tambêm o amaria em segrêdo, escondendo
êsse sentimento, ao mesmo tempo pecaminoso e divino,
bem no fundo do coração, para que nem Nuno
nem mesmo êle sequer o pressentissem? Quem poderia
adivinhar, decifrar o drama oculto naquela alma
tam requintadamente feminina?... Depois dalguns
minutos de reflexão, porêm, o seu desvairado
scismar
pareceu-lhe vão e sem sombras de realidade. Com efeito,
se Júlia lhe consagrasse um afecto que, por sua
essência,
tivesse de esconder cautelosamente, não pediria
a Nuno para acrescentar à carta que acabava de
receber um
post-scriptum em que se
denunciaria. O
amor obrigado a esconder-se é sempre assustado,
supersticioso,
teme
mesmo os actos mais inocentes com
mêdo de revelar-se a olhos perspicazes. Não! Que
ideia
a sua! Júlia era, para êle, apenas uma
bôa, sincera
amiga, e nada mais do que isso. E esta virtude nobilitava-a
para Frederico!...
Sôbre a sua alma passou, nesse momento, uma
nuvem da tristeza que, por um instante, o deixara
para de novo voltar a deprimi-lo; no seu espírito
manifestaram-se
alternativamente as crises contraditórias,
a desilusão que o pungia pela secura e as
aspirações
indefinidas que sossegavam a intervalos o
seu mal estranho. Amarrotou nervosamente nas mãos
a carta de Nuno, atirando-a para cima da mesa, e,
concentrado e sombrio, recomeçou o seu passeio.
Voltar à quinta, ser uma testemunha da felicidade de
Júlia e do marido, tam estreitamente unidos por um
amor que incessantemente refloria, que ao fim de
dois anos mantinha a mesma febre, a mesma ansiedade,
o mesmo calor, a mesma infinita, inextinguível
adoração? Não tinha coragem para isso,
porque
não podia conservar-se impassível, ao menos,
diante
do espectáculo duma ventura que ardentemente
desejava para si e de que, conjuntamente, fugia como
fugiria dum pavoroso crime. O amor de Júlia e de
Nuno era sagrado pela sua pureza; no entanto, tomava-o,
no seu egoísmo, como um insulto, como um
sarcasmo de fogo que o queimava, como um escárnio
ao seu infortúnio. Não! Nunca mais!
Não queria
presenciar a florescência maravilhosa e suave duma
ternura que tam ardentemente apetecia para si e
que um outro, legitímamente, fruía. A sua pessoa
não era necessária em casa do amigo para que
êle
fôsse feliz: e Frederico, êsse carecia de estar
longe
de ambos para ser menos desgraçado... O que existia
de paradoxal no seu caso singular! Sabia que
Júlia e Nuno o estimavam fraternamente; que,
se a sua alegria de viver, a sua placidez interior,
dêles dependessem, seria absolutamente ditoso;
que não tinha, no tumulto vertiginoso da
existência,
mais seguros e nobres afectos; e, no entanto, era
justamente de Nuno e de Júlia que para si vinha a
maior dor, a mais intensa amargura!...
E o que tambêm havia de bizarro, de
incompreensível,
de insensato, no seu sentimento! Amando
Júlia alucinadamente, querendo-a acima de tôdas as
coisas, não odiava agora Nuno, que a possuía.
Pelo
contrário, a sua afeição crescia cada
vez mais por
êsse belo rapaz que a uma dignidade inquebrantável
aliava os brilhantes dons de carácter, de
inteligência,
de grandeza moral. Tudo aquilo lhe parecia
confuso, baralhado, incoerente, fóra da realidade
humana, obedecendo talvez a leis psicológicas ainda
ignoradas...
Cansado de se debater sem tréguas na mesma
agitação árida, nas mesmas
angústias e nas mesmas
perplexidades, chegava a desejar que uma catástrofe
se abatesse de repente sôbre êle e o aniquilasse
ou esclarecesse uma situação que não
podia
sofrer por mais tempo. Tudo o que viesse imprevistamente,
luminoso ou sombrio, irremediável ou ditoso,
suave ou amargo, seria preferível àquela tortura
lenta
em que o seu ser de homem se dissolvia aflitivamente.
A casa parecia-lhe deserta como nunca e duma solitude
apenas comparável ao ermo do seu
coração.
O silêncio constrangia-o. Queria o ruído, as
conversas,
a animação, o riso à sua roda;
desejava tudo o
que o aturdisse, que desviasse o rumo das suas
cogitações,
que o insensibilizasse por instantes. Tirou o relógio
do bôlso, viu as horas. Era ainda muito cedo
para o almôço. Daria uma volta pela cidade,
iluminada
por um sol pálido de inverno que ardia num céu
claro como se fôsse feito de cristal, almoçaria
mesmo
em qualquer restaurante onde houvesse gente, barulho,
tinir de louças e de metais, onde entrassem homens
apressados e respirando fortemente, ocupados
por uma actividade que os movimentasse, por um interêsse
que os impelisse para a frente, sem repouso.
Nesse logar, estaria melhor do que à sua mesa,
diante dum fresco ramo de flores orvalhadas, de
porcelanas, de esmaltes brilhantes, de pratas scintilando
à luz, de toalhas de linho muito branco,
tendo por companhia única o respeitoso Bernardo
que o servia com a solenidade de quem celebrasse
um rito e que respondia por monossílabos às suas
perguntas... Pôs de novo o chapéu, pegou nas luvas
e na bengala, dobrou a carta de Nuno, que
guardou na gaveta, e chamou o criado para dizer-lhe
que não almoçava.
—Mas, o almôço está quáse
pronto!—informou
Bernardo.
—Pois, come-o tu e que te saiba bem!...—atalhou,
risonho.
Bernardo considerava-o com espanto, envolvia-o
num olhar de surprêsa; e quando Frederico
saíu, descendo as escadas com rapidez, murmurou:
—Umas vezes não almoça, outras não
janta,
deu agora em ficar fóra de casa, como um vadio,
êle que era tam regular na sua vida... Está
estragado... Enfim,
eu nada tenho com isso. Sou servo,
êle
é patrão, tem dinheiro, tem
saúde... Adeus,
minhas encomendas...
Frederico, a quem a carícia do frio ar circulante
refrigerava e desoprimia, encaminhou-se para a
Praça da Liberdade, cortando ao acaso através de
ruas
ruidosas de multidão, coloridas, cheias de pitoresco,
exibindo uma fisionomia característica. Nos bairros
pobres, secava roupa atada em cordas por varandas
e trapeiras. Ranchos de crianças sujas e rôtas
erravam
nas calçadas, brincando. Criadas de servir regressavam
dos mercados e dos talhos com grandes cabazes
de vêrga enfiados no braço. As lojas estavam
apinhadas de compradores que, aos balcões, regateavam
com os caixeiros. Desfilavam soldados, aos
pares e de mãos dadas, com o
bonet de vivos vermelhos
sôbre a orelha e um ar obtuso nas frontes
assimétricas
e inexpressivas.
Perto de mercado do Anjo, duas peixeiras,
de roupas descompostas e de gigas à cabeça,
jogavam
o braço furiosamente e insultavam-se nos termos
mais duros e obscenos, entre um enorme ajuntamento
de populares que riam, de bôca escancarada
e de face contraída e vincada de rugas. A tôrre
dos Clerigos subia na diafaneidade do espaço, projectando
uma esguia mancha de sombra no ambiente
luminoso e sereno.
Era a um sábado, véspera de festa. Para os lados
do Bomfim, sôbre os telhados em que o sol caía
a prumo, estralejavam foguetes que subiam, rechinando,
no ar e que ao explodirem deixavam pequenas
nuvens dum fumo branco e denso pairando na limpidez
da atmosfera, como novelos de algodão que se
esfiassem ao vento, sob o céu azul e fino.
Frederico marchava apressadamente, absorvido
em emoções e cuidados íntimos, sem
reparar na scenográfia
exterior. A vida envolvente com as suas
variadas formas, os seus coloridos, violentos ou ternos,
a sua particular expressão, passava-lhe inteiramente
despercebida, tam fundo era o recolhimento
do seu espírito no drama sentimental de que não
conseguia separar a personalidade psíquica. Sempre
aquela obcessão a persegui-lo, sempre a venenosa
flor dum venenoso desejo por Júlia—pela sua carne,
pela sua beleza física, pela sua candura, pela
sua graça fresca e luminosa—renascendo dentro
de si, perturbando-o, embriagando-o como um
perfume deletério! A luta—uma luta contínua
de tôdas as horas, de todos os dias—extenuava-o.
Já não podia, no desfalecimento de vontade que o
esmagava, conduzir-se com firmeza pela própria
razão
ou pela parte incorruptivel e intacta do seu sentimento:—era
conduzido pelo instinto sensual, sem
dispôr de energia para uma reacção
alacre e vitoriosa
que o emancipasse da tortura intensa, que lhe
restituisse à natureza espiritual o divino encanto
perdido e a pacificação deleitosa. Nuno,
ignorando a
sua agonia secreta, chamava-o de longe, colaborando
assim no monstruoso crime que pretendia evitar, concitando-o
a uma traição que Frederico, no seu
delírio,
julgava já consumada porque lhe ardia na alma o
lume dum amor impuro pela espôsa do amigo de tôda
a vida, do camarada de estudos, do irmão com quem
fizera, em plena concórdia, metade da jornada da
existência.
Era terrível! A fatalidade abatia-se inexoravelmente
sôbre êle, encarniçava-se contra o seu
infortúnio,
exacerbava-lhe a dor. Frederico notava, com
subtileza, a pequenez, a impotência do homem—mesmo
quando ele fôr culto e dipuser
duma sensibilidade—para
dominar-se, para conter-se em face do
mal, sempre que nesse mal houver a satisfação
áspera
dum gôzo, dum interêsse moral ou material.
Nestes momentos, que incessantemente se repetem, o
que no organismo humano, tam imperfeito, se impõe
é a revolta da animalidade grosseira, apagando-se
no ser consciente tudo quanto nêle há de
superior!...
Mas, Frederico tentava ainda lutar contra essa
animalidade, vencer a sua impetuosa paixão, conservar-se
num estado de alma que o tornasse digno da
afeição fraterna de Nuno, sem que tivesse de
còrar de
remorsos ou de vergonha, quando diante de Júlia
êle
lhe chamasse amigo e o apontasse como um exemplo
de lealdade. Como não tinha confiança em si
mesmo,
como suspeitasse de que junto da mulher adorada em
silêncio não pudesse esconder um amor que
não devia
revelar-se para poupar sofrimentos e afrontas, como
temia que um instante de fraqueza e de desvairamento
o levassem a cometer desatinos que não teriam
remédio, caminhando aceleradamente nas ruas, cada
vez se aferrava mais à ideia de não voltar a casa
de
Nuno e de esquivar-se a um encontro com Júlia.
Longe dela, o perigo seria menor.
Pensando assim, enquanto à sua roda a multidão
indiferente ria e palestrava, circulando activamente,
Frederico chegou à Praça da Liberdade e entrou
numa tabacaria a comprar charutos. À saída,
encontrou-se
face a face com alguêm que avançava para
êle, de mão estendida, que o saùdava
com uma
exclamação jovial.
—Oh! Frederico, oh! ladrão!... Que feliz
casualidade!... Há quanto tempo eu andava por estas
acidentadas e sujas ruas portuenses à procura
duma figura conhecida e sem a encontrar!...
—Oh! Duarte!... Duarte de Alarcão e Ataíde,
dos Ataídes do Alentejo! Como diabo vieste tu
parar mais uma vez a esta nobre cidade de tráfico e
de negócios?
—Coisas estupendas, quimeras... Cheguei de
Lisboa hoje, no correio da manhã e aqui me encontro.
Apertaram efusivamente as mãos, contemplaram-se
por alguns momentos com simpatia.
—Estás mais forte e mais moreno, digno Alarcão
e Ataíde!
—E tu mais corcovado e triste, D. Frederico!
—Que queres, amigo?—atalhou Frederico,
desalentado.
Ça ne marche
pas!...
Duarte havia sido seu condiscípulo, no segundo
ano da Academia Politécnica, onde não concluira
o curso de engenharia por ter armazenado já, segundo
confessava, a quantidade do sciência suficiente
para viver saborosamente a vida, com a abundante
pecúnia herdada. Era, então, ruidosamente
alegre, brilhante de vivacidade, tocava na guitarra,
que gemia entre os seus dedos, o fado do Conde de
Vimioso, com que acordava os corações namorados
das trapeiras em noites de luar e de serenata e que,
no seu entender, constituia a página de música
mais
nacional e poderosamente expressiva que Portugal
havia criado, desde que entrara nos horizontes maravilhosos
da civilização.
—Verdadeiramente—asseverava êle, fazendo
a
blague—a nossa Pátria
possue duas coisas grandes
e
de génio:—a descoberta do caminho
marítimo
para as Índias, que definiu os nossos compatriotas
como marinheiros e perseguidores de aventuras,
e o fado do Conde de Vimioso, que os definiu em
tudo quanto nêles existe de elegíaco, de
lírico, de
subjectivo. Estamos diante de duas epopeias, meninos!...
Aquele admirável Duarte! Caía do céu,
providencialmente,
no meio das tristezas de Frederico,
das suas derrotas, dos seus desconsôlos, para os dourar
com uma réstea de alegria transitória como o sol
doura uma paìsagem, depois da chuva.
—Tens estado sempre em Lisboa, desde que
abandonaste o Pôrto?
-Não, criatura! De vez em quando, sempre
que o país me satura de enfado, e, com as suas eternas
farças, o seu entremez permanente, me comunica
um fastio de Tibério exausto, faço as malas,
viajo, desbestializo-me, tomando um banho de elegância,
de lucidez mental, por essas bemditas nacionalidades
cultas da Europa. E tu? Que fazes? Que
tens feito?
—Nunca saí de Portugal, Duarte! Vou murchando,
por patriotismo, no nosso torrão natal,
como uma couve tronchuda. Sou assim patriota...
—E selvagem!... Tambèm razoávelmente
selvagem.... E
agora, para onde te dirigias, a passos
largos, encurtando o caminho da sepultura, como
afirma o
Eclesisastes?...
—Deambulava por aí fóra, à procura
dum
sítio onde almoçasse sem escândalo.
Porque não vens
comigo, Alarcão e Ataíde? Faríamos um
pequenino
ágape, celebrando êste acontecimento festivo!
—Pois, aceito!... Que diabo, estou com debilidade,
com fome. E nem sequer me lembrava!...
Atravessaram, lentamente, a Praça da Liberdade,
em direcção à rua de Sá da
Bandeira, parando
a cada instante para relembrarem episódios passados,
incidentes humorísticos da mocidade há muito
olvidados. Os carros eléctricos corriam velozmente
sôbre os
rails, num
incessante retinir de campaínhas
de alarme, os automóveis fugiam no fio do vento, entre
nuvens de fumarada, atroando os caminhantes
com as suas
sirènes; das
tílias altas que, nos dias
ardentes de verão, espalham sôbre a
calçada
nódoas
rôxas de sombras afagadoras, desciam as derradeiras
fôlhas. Duarte, enfiando o braço no de Frederico,
evocava scenas hilariantes dos anos extintos.
—Tu ainda te lembras do Martinho, homem
terrível da Beira e da batota, que numa noite de
azar, vendeu a alma ao Diabo por dez tostões?
—Perfeitamente!... Foi para a África. Nunca
mais se soube dêle.
—Por sinal que o Diabo, cansado de comprar
almas inúteis para os seus fins de regenerar o mundo
pelo espectáculo da tortura, não aceitou a oferta
em condições excepcionais de preço, e
Martinho,
despeitado, pregou-lhe a maior descompostura que êle tem
apanhado, desde Santo Agostinho!
Riram com satisfação, na beleza gloriosa da
manhã
que os remoçava.
—Pobre camarada!—continuou Duarte. Ao dr.
Fausto, o Diabo deu ainda, com a juventude, a virgindade
e a beleza de Margarida. Ao nosso companheiro,
não deu nem dinheiro para cigarros. Era por isso que
êle dizia, com rancor, que Satanás, depois que
Goëthe
o descobriu oculto na consciência, tinha perdido todo
o prestígio... E que é feito de Nuno,
êsse encantador
conviva das ceias de S. Mamede de Infesta, com bacalhau
e guitarras?
—Está casado... E já tem um filho.
—Oh! O sórdido burguês!... E talvez feliz, hein?
—Enormemente feliz.
—O animal!... Tu, solteiro.
—Sim, homem! Solteiro...
—Como eu!... Como os heróis de Tyrso de Molina,
sempre à caça de rôlas assustadas.
Fazes bem. É
assim, justamente, que procedem os homens decentes.
Tinham chegado à esquina do Café Portuense.
Duarte estacou, exclamando:
—No meu tempo, havia aqui uma fonte e um tanque.
Uma noite, o Andrade,
o de medicina,
quis
afogar-se
nesse tanque, porque acabava de saber que a costureira
que amava o traíra com um oficial de barbeiro.
Suicidava-se não por orgulho ofendido, mas por
estética.
Tive um trabalhão para evitar que êle se
molhasse...
O que foi feito de tôda essa água?
—Secou, desapareceu.
—Como a fé nas almas!... Oh! os tempos modernos
são iconoclastas.
Frederico, afagado por todo êste riso que se irisava
de jovialidade como uma espuma ténue e branca se
irisa à luz, sentia-se desoprimido das suas
inquietações
anteriores, e abençoava aquele encontro inesperado,
que o distraía, que lhe tornava mais leve e desanuviada
a vida. Por momentos, tudo lhe esquecia, tudo adormecia
na sua memoria e no seu sentimento:—a carta
de Nuno, o amor de Júlia, a luxúria em qu
Frederico, afagado por todo êste riso que se irisava
de jovialidade como uma espuma ténue e branca se
irisa à luz, sentia-se desoprimido das suas
inquietações
anteriores, e abençoava aquele encontro inesperado,
que o distraía, que lhe tornava mais leve e desanuviada
a vida. Por momentos, tudo lhe esquecia, tudo adormecia
na sua memoria e no seu sentimento:—a carta
de Nuno, o amor de Júlia, a luxúria em que se
afundava
com Branca. Do fundo do seu coração subia o
reconhecimento
para
aquele bom Duarte em quem a jovialidade
era perene e espontânea...
Em frente do teatro Sá da Bandeira, ainda se detiveram.
Frederico, riscando gestos no ar com a ponta
do dedo enluvado, dizia:
—Na parede dêste edificio já havia aquele mesmo
buraco, quando eu era estudante. Caíram tronos
depois disso, morreram dois Papas, houve três guerras
fulgurantes, o Império Celeste mudou as suas
instituìções
políticas, nasceram-me na cabeça os primeiros
cabelos
brancos e o buraco lá está. Só
êle não evolucionou
porque é um documento histórico e representa o
amor, o carinho, com que o Pôrto defende a sua fisionomia
secular.
—Não zombes, Duarte—atalhou Frederico. Essa
tendência conservadora do Pôrto é uma
das suas
primaciais virtudes.
—Mas, não zombo! Primeiro que tudo, o amor à
tradição. Só êle engrandece
os povos, no sábio e verídico
dizer de Fustel de Coulanges...
Foram andando vagarosamente, meteram pelas
ruas próximas, dando uma volta, porque Duarte tinha
curiosidade em ver certos logares que lhe evocavam
os dias distantes da mocidade, que lhe relembravam
certos factos, determinados acontecimentos. A
cada instante, chamando a atenção de Frederico,
lhe
fazia revelações, dizendo:
—Tive antigamente por aqui um namôro. Ela chamava-se
Faustina e eu considerava-me o seu Marco
Aurélio... Bons tempos!
Mas Duarte, nas suas vagas observações, ia
verificando
que a cidade envelhecia, que a idade a deformava,
lhe comia a côr e o viço, como se
fôsse um
rosto feminino em que a beleza da juventude fôsse
morrendo.
—Tudo envelhece, afinal—murmurava tristemente—o
corpo humano e as próprias pedras inertes
que fendem, ennegrecem, se cobrem de musgos parasitários.
Que formidável poder de destruição, o
da
morte! Nada é eterno!...
Voltaram, novamente, à Praça, entrando por fim
num restaurante. Duarte, enquanto Frederico, depois
de tirar as luvas e o sobretudo, escolhia na lista os
pratos, coçando a ponta do queixo numa grande,
embaraçosa
irresolução, lamentava-se por não ter
encontrado
mais nenhum dos seus condiscípulos ou dos seus
conhecidos doutrora. A vida era uma infatigável dispersadora
de almas. Mesmo num país tam pequeno
como Portugal, os que uma vez se separam, geralmente
não tornam, a falar, a não ser por acaso.
—Homem, aí tens a lista. Vê se preferes algum
cozinhado—exclamou
Frederico.
—Não quero ver a lista! Escolhe tu, Brillat-Savarin.
Mas, mete no festim alguma iguaria bem portuguesa,
bem portuense, por causa da côr local, sempre
necessária
a românticos como eu sou, como tu eras...
Ao passo que esperavam, esfregando os garfos e as
facas nos guardanapos, diante dos copos vazios e das
porcelanas que reluziam sôbre a toalha da mesa,
continuaram
a conversa.
—Ora, tu pelo Pôrto, Duarte!... Que bela surprêsa!
—É verdade. Por aqui me trazem, durante algumas
horas, os meus pecados...
—Aventuras amorosas, aposto...
—Efectivamente, trata-se duma mulher que amo
e que me quere. O marido teve a triste lembrança de
vir ao Norte, nesta ocasião em que Lisboa está
tam bonita,
o trouxe-a com ele, para amenizar a jornada.
—Oh! devasso!...
—Que remédio! O coração humano
é assim... E
nada de lições de moral, porque não me
convertes.
Lições de moral! E com que autoridade?—meditava
Frederico. Tambêm êle amava profundamente a
espôsa do seu maior amigo, pensando nela constantemente
como se Júlia fôsse o centro de tôdas as
suas
recordações, da sua própria
existência. Quem tinha ensinado
a essa mulher o caminho do seu coração? Por
êsse amor sofria, por êle se via condenado a viver
num
permanente sonho doloroso, na agitação
contínua das
lutas indomáveis e estéreis, oscilando entre o
desejo,
a noção do dever a cumprir, a agonia e o
desespêro.
—Não tens dêstes saborosos casos na tua
história
lírica, Frederico?—atalhou Duarte.
—Eu?... Que ideia!—respondeu êle, perturbado.
O criado surgiu, de repente, com uma travessa de
peixe frito na palma da mão. Serviram-se, encetaram
o almoço vagarosamente. Tentando desviar o fio duma
conversa que lhe desagradava, avivando-lhe sentimentos
amargos, Frederico, suspendendo o garfo e voltando-se
para Duarte, inquiriu:
—Tens viajado muito, não é assim?
—Bastante. Sou mesmo uma espécie de Judeu Errante
muito razoável para uma nação do
tamanho da
nossa. De resto, as viagens são os melhores mestres.
Só
elas nos ensinam essa fina sciência de sociabilidade
tam útil na nossa época.
—Sabes que estou resolvido a viajar tambêm?
Vieste despertar-me o apetite.
—Ainda bem que te forneci uma ideia excelente.
A cada momento entravam na sala homens com
as golas dos
pardessus erguidas
até às orelhas roxas
de frio, que respiravam com fôrça, tossiam, se
punham à vontade, abancando pelas mesas e comendo
com sofreguidão, por entre o ruído
monótono das conversas
e o barulho dos talheres e da louça, entrechocando-se.
Êste tumulto irritava Frederico, já desgostoso
com a promiscuidade. Curvado sôbre o mármore
côr de rosa do mostrador, um empregado pachorrento,
gordo, vermelho, com uma calvície enorme e
a cara tôda rapada à navalha de barba, que lhe
deixara
na face uma sombra azulada, olhava maquinalmente
a rua, através dos vidros das portas.
—Só viajando, a gente se instrue—afirmava
Duarte, devorando o seu
beef com
ovos... Diabo,
êste vinho é uma peste...
Ouvindo o amigo, Frederico ia pensando, a sério,
num longo passeio pela Europa, numa viagem de esquecimento
e de purificação em que sarasse o seu
coração
enfêrmo e acalmasse a sua imaginação
exaltada.
As grandes capitais, com os seus vibrantes espectáculos
desconhecidos, as suas multidões, as suas sumptuosidades,
as suas ardentes, imperiosas solicitações
a pouco e pouco lhe comunicariam a tranqùilidade espiritual
que tanto desejava. Porque não? Veria outros
povos, outros costumes, outras civilizações,
misturar-se-ia,
contente, à onda duma vida complicada que faria
por analisar e compreender na sua essência e na sua
expressão; encontraria, por alguns meses, uma
ocupação
que lhe enchesse a alma, o distraísse, lhe serenasse
a febre que o queimava. No isolamento em que se confinara,
o seu amor por Júlia, longe de dissipar-se, havia
de precisar-se mais, de difinir-se, de fortificar-se, por
influxo da paixão que o devastava e que o esgotava de
tôdas as fôrças vitais, sem deixar-lhe
sequer o cuidado
pelas banalidades práticas... Talvez que noutros
países,
noutras cidades, longe de Nuno, longe da sua
adoração,
esta violência sentimental que o pungia diminuisse,
pela multiplicidade de diversões e de interêsse
em que se absorvesse...
Tinham chegado à sobremesa, e Duarte, estranhando
o silêncio de Frederico, perguntou:
—Em que profundos problemas cogitas tu, criatura?
—No problema de atulhar o estômago. A minha
animalidade assim o reclama.
—Estás na verdade cartesiana. Comes, logo existes...
Sempre que no seu sentimento despertava o amor
por Júlia—amor que não podia adormecer
perpétuamente—Frederico
verificava que êle lhe transmitia
uma extraordinária abundância de
impressões novas e
intensas que terminavam por fatigá-lo, por deprimi-lo
até à tristeza e ao desalento. Precisava
subtraír-se a
êste trabalho interior em que o seu ser se abismava.
Viajaria, pois, e levaria Branca.
—Está decidido, Alarcão e Ataíde...
Dentro em
breve, terás um servo humilde para a Europa.
E voltando-se para o criado, pediu a conta que
pagou.
Levantaram-se, acenderam os charutos, calçaram
as luvas e saíram para a rua, aspirando consoladamente
o ar vivo.
—Demoras-te por esta óptima cidade, D. Duarte?
—Não, menino. Parto ainda hoje à noite. As doces
exigências do coração cumpriram-se. De
novo me
afasto.
—Que pena!
—E até peço desculpa, por te abandonar tam
cedo, depois do almôço e do afecto. Enfim, outro
poder
mais alto se levanta, como disse o nosso épico.
Pararam um instante na rua, apertando as mãos.
—Quando vires êsse Nuno, dá-lhe um grande
abraço,
por mim.
Au revoir!...
Até à noite, Frederico vagabundeou pela cidade,
detendo-se diante das
vitrines,
seguindo com a vista
alguma linda mulher que passava, num forte e aristocrático
rumor de sêdas. A tristeza que de manhã, com
a carta de Nuno, o invadira, acentuou-se, adensando-se
cada vez mais. Que suplício!... Por muito que quisesse
alhear o pensamento de Júlia, surpreendia-se
constantemente a reconstruí-la na fantasia, a recordar
os seus suaves olhos langorosos e profundos—uns
olhos que diziam tudo o que dentro dela se passava...
A lembrança dessa mulher renovava-lhe incessantemente
o sofrimento, mas era-lhe muito grata.
Cansado da sua interminável vadiagem, meteu-se
num carro eléctrico com destino à Foz, maldizendo
a
esterilidade do seu dia sem uma emoção de beleza
moral
superior, sem um acto nobre.
—Como isto acabrunha! — monologava, sentado
em frente duma inglesa esgrouviada, alta e sêca, com
uns cabelos dum louro sêco e uns óculos de ouro na
ponta do nariz, que lia um jornal de Londres.
Foi nessa noute, jantando com Branca, que Frederico
lhe disse:
—Sabes? Ando com vontade de ir até Madrid, até
ao inferno.
—E então eu? Deixas-me?—perguntou ela com
voz de mimo.
—Não! Levo-te comigo, para nos aborrecermos
ambos. O tédio, dividido por dois, deve ser menos pesado...