VIII
O inverno tinha chegado, com efeito, à quinta onde
Nuno e Júlia ainda permaneciam, sem pressa de regressarem
à confusão e ao alarido da cidade, de que se
esqueciam na paz, na beatitude da sua vida de recolhimento
e de simplicidade, no enlêvo cada vez maior
da sua ventura. Como viviam únicamente um para o
outro, sentiam-se bem naquele isolamento de que nenhum
sobressalto exterior quebrava o ritmo. Parecia-lhes
que os seus pensamentos e as suas emoções
ganhavam,
na solitude, maior nitidez e mais intensidade
e que um amor, de instante para instante mais forte,
os aproximava tanto pela beleza moral como pela beleza
física, enriquecendo os matizes afectivos da sua
intimidade espiritual.
A hostilidade do tempo retinha-os quáse sempre
dentro de casa. Grossas cordas de água fustigavam
com violência as janelas, escorregando lentamente nos
vidros, alagavam o jardim, davam, um aspecto lúgubre
a paìsagem que
se divizava ao longe, através
duma
cortina de névoa cinzenta e triste. Dos montes
próximos,
onde densos pinheirais ondulavam e ramalhavam
à ventania furiosa, despenhavam-se as torrentes, descendo
entre cachões de espuma até ao vale. Por vezes,
dos telhados dos casebres, que donde a onde branquejavam
na desolação campestre, subiam, colunas de fumo
que se torciam, se esfarrapavam, dissipando-se na
atmosfera baça. Grandes nuvens negras corriam no ar,
do sul para o norte, impelidas pela rajada dos furacões.
No cume das serranias havia uma claridade mais límpida
do que nas encostas e nas colinas onde um espêsso
vapor se acumulava. As árvores sem fôlhas do
parque
rangiam, gemiam ao vento. De noite, especialmente,
o barulho que faziam era sinistro e assustava Júlia.
De quando em quando, um pedaço de céu azul
rasgava-se
no alto, muito puro e translúcido, e uma pálida
claridade de sol derramava-se docemente, como uma
bênção divina, por tôda a
aldeia, dourando a verdura
das relvas humildes e rasteiras que vestiam a terra negra.
Nestas horas, parecia que a natureza tinha uma
alma de bondade e meiguice a comunicar-lhe o encanto
supremo duma poesia indizível, e duma infinita piedade
pelos desgraçados. Mas em breve o ambiente de novo
se toldava e a obscuridade dilatava as perspectivas.
Em certas manhãs, Nuno, com o charuto na bôca,
as mãos nos bolsos das calças onde tilintavam
chaves,
bem agasalhado pelas roupas quentes, assomava à varanda
envidraçada, espreitando através dos vidros
embaciados,
e logo se refugiava junto de Júlia, murmurando:
—Que invernia brava hoje vamos ter!...
Ela olhava-o demoradamente, com êsse olhar em
que se reflectia tôda a pureza e tôda a ternura do
seu
coração e que tanto o comovia, dizendo:
—Fizemos talvez mal em nos deixarmos ficar
aqui. Devíamos ter partido nos fins do verão...
Mas
essas obras que nunca terminaram...
—Partir para quê?—inquiria Nuno, parando
diante dela. O inverno é tam fastidioso na aldeia como
na cidade. E nota! É mesmo curioso ver cair a chuva
entre estas árvores, pelos flancos destas montanhas.
Ao menos, temos horizontes largos, desafogados, respira-se.
Estamos a assistir a um espectáculo inteiramente
novo para nós...
—Mas, na cidade...—contrariou Júlia, com timidez.
—Eu sei. Na cidade, há os cafés, os
cinematógrafos,
os teatros, outras diversões. Mas ela apenas se torna
indispensável para os que não teem
família ou para
os que não fazem vida familiar. Para mim, que passo as
noites perto de ti, tanto me importa estar aqui como
num centro imensamente populoso...
Ela agradecia-lhe fervorosamete aquela doce
devoção,
aquela constância de afecto que nunca afrouxava,
e experimentava um calor de ventura que a penetrava
tôda, que amaciava à sua roda as asperezas da
vida. A confiança de ambos no futuro aumentava
constantemente.
Tinham olvidado tudo o que se passava
para alêm da história lírica da sua
paixão—que havia
começado anos antes e que ainda não terminara;
nem
um nem outro se lembravam de ter padecido algum
dia. As recordações dos seus tempos antigos
diluiam—se,
apagavam-se, fundiam-se na fluidez original. Uma
nova fôrça, uma energia prodigiosa, pulsava nos
seus
sêres, renovando-os a cada momento. Dentro de casa,
nas alvoradas hostis ou nas tardes tempestuosas, ocupavam-se
na infinidade de coisas gratas que os cuidados
da habitação oferecem. Júlia, com o
saco de costura
no regaço, bordava, cosia, enquanto Nuno lia as
suas revistas e os seus jornais ou cortava as páginas
dalgum livro recente que da cidade o seu livreiro lhe
mandava. No abandôno íntimo dêstes
saborosos instantes,
se se contemplavam, subiam-lhes da alma à
memória as longínquas
recordações da sua adoração
revivida, com extraordinária lucidez. Encontravam,
então,
um fino prazer emotivo em relembrar tudo o que
mais de perto com essa adoração se prendia:—os
logares
idílicos em que ela tinha nascido, certos objectos e
certos episódios que lhe imprimiam relêvo. A
elaboração
interior destas lembranças emmudecia-os longamente,
abismava-os numa espécie de silêncio que temiam
interromper e que voluntáriamente prolongavam,
para que o seu gôzo espiritual fôsse mais
duradouro.
Nuno conservava tam nítidamente na memória
êsses
acontecimentos, que podia reconstituí-los com facilidade,
sempre que quisesse. Não lhe esquecera ainda,
o mínimo detalhe do seu primeiro encontro com
Júlia, que chegara certa manhã a um hotel de
Vizela,
com o pai, a mãe e o irmão, o excelente Roberto,
que fôra educado em Londres, que tinha nas maneiras,
na franqueza, na correcção do porte e no
córte
do vestuário, acentuados traços
britânicos e que
partira para a America do Norte, como empregado
superior duma casa bancária, dois meses depois do
casàmento de Júlia. Viram-se a primeira vez no
parque,
por uma tarde de luz e de alegria. Ela trazia
um vestido de fustão branco muito justo que lhe desenhava
claramente as formas plásticas, ondulantes
e de linhas puras. O seu busto era perfeito de curvas
e de contornos: a sua mocidade tinha a graça subtil
duma flor plenamente desabrochada. O seu chapéu
de palha côr de ouro com duas rosas vermelhas presas
por uma laçada de gaze de sêda branca, fazia-lhe
uma discreta sombra sôbre a testa, suavizava-lhe
mais a luz dos olhos suaves, iluminando-lhe o rosto
dum oval delicado, imprimia-lhe maior destaque à
pele das faces e do colo, que parecia alumiada por
uma claridade interior e que não tinha um vinco, uma
ruga. Nas suas mãos, que eram magras, pequeninas
e de dedos delgados, fulgiam pedras de aneis.
Cruzaram-se no passeio, trocaram um simples
olhar e foi como se ficassem compreendendo-se
para sempre—porque o amor casto dá aos olhos
uma inteligência especial, um admirável poder de
entendimento
e de expressão. Daí em diante, nunca
mais Nuno deixou de a seguir dócilmente para tôda
a parte, indo aos chás a que Júlia se associava,
às excursões,
em grandes ranchos, às serras próximas, para
a contemplação dos panoramas que se vislumbram
dos píncaros mais altos:—a ondulação
ininterrupta
e irregular do dorso das cordilheiras, que evocava um
colosso fulminado, tocado a espaços por manchas de
folhagem verde, alteando e deprimindo a sua ossatura
monstruosa na base, elevando-se bruscamente
em saltos e galgões de terreno. Em baixo, ao fim da
escarpa abrupta dos montes, a natureza rebentava
numa torrencial explosão de arvoredos, de milharais,
de pomares, de videiras de compridos braços,
enroscando-se nos troncos de olmos e de cerejeiras,
como as serpentes no coração do Lacoonte, subindo
até às copas e vergando de cachos.
Uma frescura e uma abundância de écloga latina,
que Vergilio cantaria, em estrofes immortais,
corriam alacremente nos fundos vales que se almofadavam
de ervaçais e sombras; e em tôda a
extensão
panorâmica, as serranias sucediam-se umas às
outras
constantemente, como um mar de enormes vagas terrosas
que a tormenta açoutasse. As senhoras, assustadas
com a grandeza do espectáculo, sentiam deslumbramentos
e davam gritinhos de susto; os homens
riam. E Júlia e Nuno, um pouco afastados dos grupos
palradores, teciam as horas de sêda e ouro do seu
amor que começava e que, não sendo já
segrêdo para
ninguêm, provocava risinhos maliciosos, ditos picantes
ou de despeito.
Ao cair da tarde, quando regressavam ao hotel
para jantar, nos olhos de Júlia havia uma
extraordinária
fascinação e, Nuno trazia uma alvorada na
alma. Depois, à noite, no
salão, organizavam
danças, enquanto os homens de idade se reùniam
às
mesas dos jogos improvisados, para as suas fastidiosas
partidas de
bridge, e as damas,
sentadas pelo salão,
se emaranhavam em banais conversações sem
fim:—e Júlia era sempre o par de Nuno, nas valsas...
Uma vez por outra, a colónia da estância balnear
levava mais longe as suas digressões, ia até
Guimarães,
visitando as vélhas igrejas que resplandeciam
das talhas douradas, até às Taipas,
até Braga, seguindo
em automóveis através de estradas cortando
campos onde crescia o milheiral e os feijões se cobriam
de flor, onde verdejavam os linhos tenros, onde
um murmúrio de aragem passava nas messes já
maduras,
procurando as tiras de sombra veludosa e mole
caindo das árvores que, duma banda e doutra, orlavam
o macadame. Era uma festa para a vista e para
o sentimento dos excursionistas tôda essa larga e
incomparável
paìsagem do Minho, túmida de seivas,
de fôrça, de vigor e duma tam rara e prodigiosa
vegetação. A cada instante se detinham
à beira
duma fonte que gorgolejava no jôrro cristalino das
suas linfas, oferecendo fresquidão e consôlo pelos
dias
tórridos, perto duma levada de água de rega vinda
de longe, rolando pedrinhas alvas, grossos saibros
reluzentes, cantando misteriosamente nas espessuras
discretas dos musgos ou das ervas e transmitindo
uma gloriosa vitalidade às raízes.
Incessantemente
topavam, trotando no cascalho da calçada, as
características diligências que rangiam aos
solavancos,
levando nas imperiais abades rubicundos com
guarda-sóis de paninho vermelho entre as pernas e
dentro tôda uma população em trajos
domingueiros.
No meio do estrépito das ferragens, o cocheiro praguejava,
fazendo estalar o chicote sôbre o lombo dos
cavalos cansados. Os melros assustavam-se pelas
balsas floridas, voando para longe; erguiam-se nuvens
sufocantes duma poeira cáustica e mordente. Às
portas
dos casais que davam para as estradas, sob ramadas
onde as uvas amadurciam, iam acudindo, ao
ruído dos automôveis que fugiam no fio da aragem,
mulheres com grosseiras mãos escondidas debaixo
dos aventais de riscado, crianças em camisa, com ventres
enormes e a palidez de doença na cara suja.
Cães ladravam, ameaçadoramente, por debaixo dos
portões vermelhos das quintas: e a ranchada jovial
dos excursionistas continuava a sua marcha, rindo,
palrando distraídamente. Nuno lembrava-se de que—numa
destas escapadas
encantadoras, por um meio-dia
de soalheira abrasadora em que foram ver o castelo
de Guimarães, com a sua tôrre de menagem,
os seus fossos cheios de ervas parasitárias, as suas
seteiras,
os seus travejamentos carcomidos—Júlia,
ao passar por um quintal onde um alto damasqueiro,
esgalhando ramagens para todos os lados, mostrava
os seus frutos dourados e penugentos, teve de repente
um desejo guloso de comer damascos; e logo êle, mandando
parar o carro, bateu à porta da granja, pedindo
que lhos vendessem. Imediatamente, uma voz de
mulher veio de dentro, convidando-o a entrar, a escolher,
a fartar-se, porque aquela fruta não se vendia:—dava-se.
—Não quero isso, não quero. Venda-ma...
—Oh! meu senhor, graças a Deus não precisamos.
Olha agora levar dinheiro por uma miséria assim!...—teimou
a aldeã, que era linda e ainda nova,
acudindo ao limiar. Entre, entre...
E reparando em Júlia, que tinha ficado com o
irmão no autómóvel,
a mulher acrescentou:
—E a menina e outro senhor tambêm!... Com
tôda a franqueza!
Por fim, entraram alegremente e merendaram,
com delícia, sob o damasqueiro acolhedor, enquanto
a aldeã, sorridente e com uns dentes brancos brilhando
no seu esmalte entre uns lábios muito vermelhos,
os incitava a comerem mais.
—E podem levar, se quiserem!—oferecia ela.
Chamava-se Maria da Luz, era casada havia
seis anos com um lavrador abastado e já três
criancinhas,
de olhos muito espantados, belas como a
mãe, se lhe agarravam às saias. Nuno, enlevado,
deu
uma moeda de prata a cada uma, para comprarem
doces.
—Não! Isso é que não!—acudiu a
aldeã, tôda
còrada. Ficava-lhe por bom preço a fruta, meu
senhor!
—Ora essa!—atalhou Nuno. Coitados dos pequeninos,
que são tam simpáticos. Deixe, deixe...
As crianças estenderam a palma das mãos
côr
de rosa, apertaram, muito contentes, as moedas,
enquanto a mãe lhes gritava:
—Então, como se diz?!... Como se diz?!...
Êstes mafarricos que me consomem, não aprendem
a bôa educação nem à
mão de Deus Padre!...
Todos êstes inefáveis episódios duma
época
distante e bem feliz se tinham gravado fundamente
no cérebro de Nuno; e diante de Júlia, que era
sua
espôsa, que era mãe do seu filho, sentia um prazer
infinitamente doce em reavivá-los. O casamento
fôra
combinado ainda em Vizela, ao fim dum curto namôro,
com grande desespêro de Frederico que tambêm
estava nessas termas, que ia espairecendo os seus tédios
entregando-se a um meigo
flírt
sempre novo em
cada dia e que julgava severamente a imprevista evasão,
do amigo, da vida despreocupada de solteiro...
Nas longas horas que agora passavam sós, dentro
de casa, Nuno e Júlia gostosamente evocavam o seu
passado, que era de dois anos—porque apenas começaram
a viver uma existência séria desde que se
conheceram
e se ligaram por laços que nenhuma dor ou
nenhuma fatalidade romperiam—e que lhes pareciam
do dia anterior, tam rápidamente o tempo lhes fugia
sem que êles o percebessem e sem que na sua
emoção
deixasse resíduos de amargura e de tristeza.
—Tu lembras-te?—perguntava êle, fechando o
livro que tinha nas mãos, enquanto Júlia esquecia
sôbre o regaço a agulha do bordado.
—Lembro!—afirmava ela com um sorriso que
a espiritualizava e transmitia maior encanto à sua
beleza. Lembro-me, como se tudo isso fôsse de
ontem...
—Frederico não queria que eu casasse, dizia-me
horrores da vida conjugal, procurava afastar-me
de ti por todos os processos, teimava em que eu o
acompanhasse numa viagem que tencionava fazer.
Creio mesmo que chegou a ser teu inimigo, o pobre
rapaz...
—Meu inimigo?... Que ideia! E porquê?
—É claro, não te tinha ódio,
não te queria mal,
mas não perdoava à mulher que lhe arrebatava o
amigo de sempre, o camarada, o companheiro... Era
só por isto!
Ah! êsse bom Frederico! Ambos pensavam
um pouco nêle—Nuno com saùdade e com uma
secreta pena daquela vida tam fecunda pela inteligência
e pelo carácter, que se esterilizava, que era
improdutiva, como um pragal áspero em que nunca,
por acaso ao menos, caísse uma semente fértil;
Júlia,
com o encanto, com a afeição que lhe merecia o
homem tam idêntico ao marido pelo
coração, e de
tanta grandeza de alma, de tanta finura de espírito...
—O que fará êle por êsse
Pôrto, neste desabrido
inverno?—interrogava ela.
—Aquilo que todos os rapazes, livres de responsabilidades
caseiras, fazem, naturalmente. Êle
não quis estar connosco, havia coisa que o chamasse,
que o seduzisse... Mas, ouve! Não sei que singularidade
descobri em Frederico nos últimos dias. Parecia-me
mais desalentado, mais triste do que o costume,
amava a solidão, quáse que me fugia... Apenas
despertava da sua melancolia quando tocavas, no
piano, essas páginas de Schubert que sempre admirou.
—Êle não tinha, para estar alegre, as mesmas
razões que nós temos, bem sabes. É
só, não
ama, não é amado, anda á procura dum
destino que
ainda não encontrou...
—E que não encontrará jàmais.
Aparentemente
enérgico, é um fraco de vontade, sofre de
preguiça
de sentimento, tem os defeitos da raça a que pertence...
—Oh! Nuno! Que severidade!
—Não! Que amizade! Porque eu estimo profundamente
Frederico. Não há alma tam leal como
a dêle, dedicação mais capaz, de
sacrifícios pelas pessoas
a quem se devotar! Mas, minha filha, é incompleto
como eu, como todos nós...
—Como tu?
—Como eu, não digo bem... Frederico foi mais
infeliz...
As horas deslizavam apressadamente, nestas
conversas em que ambos se entretinham e em que
melhor se estudavam... Por vezes, discutiam juntos
o mesmo romance, o mesmo poema, ou então Júlia
ia para o piano e Nuno, de pé proximo dela, ia-lhe
voltando as fôlhas do caderno de música. Nos
momentos de repouso, enquanto a chuva caía,
monótona
e aborrecida, chamavam a ama, que acudia
com a criança ao colo e um grosso grilhão de ouro
ao pescoço. Júlia pegava no filho, com ternura e
delicadeza,
beijava-o num transporte, amimava-o, passava-o
ao marido, que o embalava nos braços. O pequenino
sorria, com a face cheia de covas, agitando
as mãos, galrando, espalhando por tôda a casa uma
grulhada infantil. Depois, Nuno beijava-o tambêm
longamente, picando-lhe a carinha tenra das faces
com a barba crespa, o que o fazia chorar.
—Dá-o cá! Coitadinho!... Tem mêdo dos
teus
bigodes de turco—dizia Júlia, sorrindo.
—Não! É que é já mais teu
amigo do que meu,
o ingrato...
À noite, em seguida ao jantar, quando a treva
temerosamente afogava todos os aspectos na mesma
confusa massa negra e o sossêgo envolvia a vivenda
com as vidraças douradas pela luz, o criado, o
Manuel, soltava os cães de fila durante o dia amarrados
a fortes cadeados de ferro; as portas do
rés-do-chão
fechavam-se com estrondo; a Francisca, uma
vélha cozinheira, arrumava a cozinha, que ficava
em baixo, que era revestida de azulejos e que se iluminava
com a fulguração dos metais e dos esmaltes
faíscando, relampejando sob o clarão da fogueira.
Os molossos, de afiados colmilhos saíndo-lhes da
bôca babujada como pontas de punhais, latiam, uivavam
no jardim e no parque, à ventania que sacudia
vertiginosamente as árvores; outros latidos ouviam-se
ao longe, vindos das granjas e das herdades;
o pequenino adormecia ao peito farto da ama, ainda
com o bico rosado do seio que o amamentava
na bôca sem dentes, e era levado com mimos e cautelas
para o berço, aquecido antecipadamente com
botijas de água a ferver: e Nuno e Júlia
continuavam
ainda
os seus serões, conversando, lembrando-se
piedosamente dos pobres que não teriam roupa
nos leitos, por aquele frio, enregelado, hostil inverno,
e experimentando uma ternura doce e secreta no
isolamento rural em que se confinavam com a sua
felicidade—almas satisfeitas e contentes que nada
mais queriam da vida...
Uma vez por outra, o céu desanuviava-se, as
manhãs raiavam límpidas como uma imensa e pura
flor azul que desabrochasse iluminada por um sol
muito louro que dourava os outeiros, os cimos dos
montes, tocava as altas ramarias dos arvoredos dum
fulgor vivo que parecia arder, scintilar no esplendor
da atmosfera. Então, a alegria ressuscitava na
paìsagem soturna como uma ave que, pela primavera,
é de repente surpreendida pela alvorada gloriosa
entre os ramos floridos e começa a cantar sob
o mistério celeste de que vitoriosamente desce a luz.
Envolvidas pelo banho fulvo da claridade, as próprias
coisas inertes pareciam impregnar-se de alma,
davam a ilusão de serem dotadas de movimento. Errava
no ar uma beleza esparsa; as perspectivas, na
nitidez do ambiente, prolongavam-se indefinidamente,
cheias de poesia e de vago. A vivenda, elevando-se
no meio do jardim, com as suas grossas paredes,
as suas varandas, os seus telhados de largo beiral
onde as pombas arrulhavam em certos instantes, as
suas escadas de pedra com grades de ferro pintadas de
verde, em que as roseiras de trepar se enroscavam,
animava-se tambêm com o júbilo triunfal daquela
festa da natureza. Mais satisfeitos e expansivos, os
criados palravam na cozinha, à volta da mesa do
almôço.
Uma temperatura morna que fazia inchar os
gomos das árvores e das madre-silvas dos valados—que
em maio se cobriam de florações e ofereciam
embalo e perfume aos ninhos inocentes—convidava
aos lentos, agradáveis passeios. Nuno, sentindo o
coração desopresso e ligeiro, corria a levar a
Júlia a
bôa nova, em palavras comovidas e risonhas, interrompendo-a
no seu trabalho.
—Que linda manhã, meu amor!—exclamava
êle. Vem daí! Faremos uma pequena
digressão pela
quinta... Até nos abrirá o apetite e nos
renovará a
saúde. Ao mesmo tempo, desentorpeceremos as pernas
emperradas por tôda uma semana de cativeiro.
—Pois vamos!—concordava ela com júbilos
e ingenuìdades quáse infantis. Gosto tanto de
passear matinalmente!
Animada e sorridente, Júlia vestia a tôda a pressa
um casaco de agasalho, calçava as galochas sôbre
os pequeninos sapatos de verniz, punha na cabeça
um gorro de lã branca, feito por ela nos seus
serões,
e saíam ambos, de braço dado, aspirando o cheiro
acre da terra molhada, internando-so pelas sombrias
e ermas alamedas do parque onde as mimosas começavam
a florir na pompa dos cachos de ouro pálido, tremendo
brandamente à aragem e a que o sol imprimia
mais brilho e côr, desciam, por caminhos empedrados,
às terras de cultivo já verdejantes de pastos
para
o gado, dos trêvos, torneavam as extensas vinhas que
enchiam tonéis, em setembro, dum vinho aromático
e leve, passavam pelos vergeis bem tratados onde,
em abril, as pereiras, os pessegueiros e as macieiras
vergavam de florescências multicôres que lembravam
irisados enxames de borboletas levantando vôo, e
paravam, enfim, diante da habitação destinada ao
caseiro e que era o orgulho de Nuno.
—Vês tu o que se fez, hein? E a planta foi
minha. Para alguma coisa havia de servir-me o curso
de engenheiro. O vélho Mateus está aqui
óptimamente
instalado com a sua gente—dizia êle. Não
parece?
Júlia aprovava, com um gesto afável da
cabeça,
enquanto Nuno minuciosamente lhe ia fornecendo
mais indicações:
—Aqui—explicava êle—é a casa de moradia;
alêm, ficam os estábulos para os bois, os currais
para os porcos, os alpendres para a guarda dos
apetrechos de lavoura... Dêste lado, mandei construir
as adegas, a eira, o espigueiro e os celeiros. Que me
dizes a tudo isto? Olha que foi obra minha!
Na graça luzente da manhã, as paredes caiadas
de branco alvejavam sob o tom vermelho dos telhados.
Ao fundo, para lá dos terrenos agricultados,
rumorejavam pinheirais e cresciam os matos aromáticos
que o rosmaninho, no estio, pintalgava de manchas
rôxas. Júlia, enlevada, contemplava o marido
com ternura, afagava-o com o olhar.
—E agora—continuava Nuno, depois de terem
avançado mais alguns passos—aqui está o grande
tanque que me deu que entender e em que tanto
te falei, durante todo o verão findo, não sei se
te
recordas.
—Recordo!—afirmava ela.
—Servirá de reservatório das águas de
rega
que fui buscar longe, por meio dum cano, à encosta
daquele monte de pinheiros. Oh! é uma água
maravilhosa,
muito pura, filtrada por camadas sobrepostas
de rocha, e saibro grosso. Quando, nos dias quentes,
a colhia para beber, o copo ficava logo nevado. É saborosa
e frigidíssima. Porque não mandas a Francisca
buscá-la à bôca da mina para o nosso
chá? Ando há
tanto tempo para dizer-te isto e esquecia-me sempre!...
—Está bem, mandarei—prometia Júlia.
—Pois, essa água corre para êste tanque. Quando
se quiser regar, é só soltar a levada e ei-la por
êsses campos, fluindo, fecundando, dando alento às
plantações e às sementeiras!
—O que tu sabes já das lidas agrícolas,
Nuno!—exclamava
ela com admiração.
—Minha filha, tem-se estudado um pouco o
pelo processo prático, que é ainda o
melhor—respondia êle,
jovialmente. O meu verão, êste ano, foi
útil!
O caseiro, o tio Mateus, se os pressentia, vinha
logo para êles, de chapéu na mão, com o
seu rosto
enrugado que o bom riso sadio, vindo da alma, espiritualizava
de bondade, cumprimentando-os respeitosamente.
Nuno correspondia ao cumprimento,
murmurando:
—Olá! É você, Mateus?
Então, como vão os
trabalhos, homem?
—Crédo, meu senhor! Com êste inverno de
desgraça
e de castigo, nada se pode fazer. Tudo parado.
As terras estão encharcadas, são lama...
—Não que tambêm nós nunca nos
contentamos
com o que temos. Se o bom tempo e o calor se prolongam,
pede-se, implora-se chuva com preces, orações,
lágrimas. Afinal, chega —Não que tambêm nós nunca nos
contentamos
com o que temos. Se o bom tempo e o calor se prolongam,
pede-se, implora-se chuva com preces, orações,
lágrimas. Afinal, chega a chuva, e a humanidade
sempre insatisfeita de novo deseja sol. Deus deve
ver-se e desejar-se com pedidos tam contraditórios,
não é verdade, tio Mateus?—perguntava Nuno
alegremente.
—Deus é sábio, é justo, sabe o que
faz, meu senhor—replicava
o caseiro, rindo. Mas tudo se quere
em conta. Nem muito ao mar nem muito à terra.
Assim é que é...
—E a doente está melhorzinha?—inquiria
Júlia.
—Melhor, coitadinha?... Vai vivendo!... As
melhoras dela só na cova. E tanto tem sofrido!...
—Não fale dêsse modo, tenha
esperança...
—Pois esperança tenho eu. Esperança e
paciência,
que ela tudo merece—concluía êle, com voz
enternecida e trémula.
Comovida, Júlia fitava-o; e êle, para desviar o
rumo da conversa, que o fazia sofrer, acudia:
—Então, hoje a passear?
-Com êste bom sol, não podíamos ficar
fechados—dizia
Nuno.
—Está de rosas, meu senhor, de rosas!...
Demoravam-se ainda a tagarelar por alguns
instantes e depois; vagarosamente, regressavam a
casa, na imensa paz que envolvia a natureza e que
baixava sôbre árvores, lameiros, casais e selvas,
como
uma bênção. Voltavam joviais, traziam a
alma dilatada
de encanto. Como o inverno era lindo na aldeia!
Na cidade, os grandes espectáculos naturais passavam-lhes
despercebidos na agitação das atormentadas
aglomerações humanas, nas atmosferas toldadas
de fumo.
—Aquele Frederico, aquele doido!—bradava
Nuno. Podia ter ficado aqui connosco, a fazer um
severo exame de consciência, a rejuvenescer. Era
uma companhia e purificava o sentimento que agora
talvez traga pelos boeiros citadinos!...
—Jesus, Nuno! Que expressões tam duras!—repreendia
Júlia.
—Sim! Pelos boeiros, pelas sargêtas. É assim
mesmo. Hei de dizer-lho com esta ferocidade, numa
carta terrível... Enquanto que aqui era a luz, era a
pureza...
Lavavam-se, almoçavam com saborosas lentidões,
conservavam-se à mesa por muito tempo, conversando.
E à tarde, ainda tornavam a sair, atravessando
pousios, congostas entre sebes, visitando a
aldeia próxima, com um interêsse, uma curiosidade
que nunca findava...
Um dia, logo ao romper da manhã, a ama foi
tôda aflita bater à porta do quarto, chamando
Júlia.
—Que quere?—perguntou, ela, de dentro.
—Era para contar à senhora uma coisa a respeito
do menino, que não está bom.
—Que diz você, mulher?...—gritou Júlia,
com voz angustiada. Tu ouves isto, Nuno?...
Saltou da cama, vestiu um roupão, calçou as
chinelinhas de setim côr de rosa, bordadas a branco
e ouro, que estavam sôbre o tapête, e correu logo,
assustada, inquieta, enquanto o marido, alarmado, se
levantava tambêm, vestindo-se atarantadamente.
—Que tem o menino?—perguntou Júlia, abrindo
a porta da alcôva. Onde está êle, onde o
deixou
você?
—Deitado no berço... Está um pouco
desassossegado...
Júlia dirigiu-se ao quarto da ama, que ficava ao
lado do seu, entrou desvairadamente, fóra de si, sacudindo,
com irritação nervosa, as madeixas do cabelo
solto que lhe caíam sôbre a testa, ajoelhou junto
do berço da criança que ergueu carinhosamente nos
braços. Encostou-lhe a cabecinha inocente e desfalecida
à sua face, amimou-a, passando-lhe levemente
as pontas dos dedos pela carne tenra do rosto, murmurando
com indizível ternura:
— Está doentinho, o meu amor?... Está?!...
Afastava-o de si, amparando-o com as mãos
amorosas, para melhor, mais demoradamente o observar,
espreitando, comovida, os seus olhos amortecidos
com um círculo arroxeado à volta, e achava-o,
na verdade, mais pálido, mais abatido.
—Oh! minha Mãe Santíssima! Mas isto que
será? Como notou você a doença do meu
filho, ama?
—É que, durante a noite, tossiu algumas vezes,
minha senhora.
—Tossiu?—perguntou Júlia, aflita. E a tosse
era rouca?
—Pois era!...
—E porque nâo foi logo avisar-me?
—Pensei que não seria nada!...
Nuno, que tinha acudido tambêm, curvou-se
sôbre o ombro de Júlia, envolveu o filho num olhar
de inquietação e de meiguice, inquirindo:
—Afinal, o que tem? Parece-me tam tranqúilo!...
—De-pressa, Nuno! Manda já um criado a
Guimarães, a procurar um automóvel fechado.
Que vá a cavalo... E que se não descuide. Temos
de
partir imediatamente para o Pôrto.
—Um automóvel?... Partir imediatamente
para o Pôrto?—interrogava Nuno, maquinalmente,
Mas espera!... Dize...
-Depois te digo... O criado que vá sem pêrda
de tempo... O nosso filho tem uma tosse rouca. Sabes
o que é?... Não sabes? É a difteria,
é talvez a
morte...
Nuno, empalidecendo, abalou, enfiado, pelo corredor,
desceu a quatro e quatro os degraus da escada,
gritou:
—Manuel! Manuel!... Onde estás tu?
—Aqui, patrão!—respondeu o servo, saindo
dum canto e trazendo nas mãos um pedaço de
camurça
com que estava limpando e polindo metais.
—Pousa o que estás a fazer, monta na égua e vai
a Guimarães, onde procurarás um
automóvel fechado,
por todo o preço. Que venha a tôda a velocidade.
É
um caso urgente.
—Sim, meu senhor.
—Mas vai! Deixa-te de cumprimentos, de
mesuras, que diabo! Se te estou a dizer que é urgente!...
O criado desapareceu de pronto, e Nuno, desorientado,
ficou na cozinha, passeando agitadamente, a
largos passos, sôbre os mosaicos. Justos céus! A
difteria!
O seu filho tinha a difteria. Êle havia de assistir,
impotente, longe de todo o socorro da sciência, ao
lento agonizar dum corpinho sem culpa em cujas
veias corria o seu sangue, em cuja alma inocente se
fundia tambêm a sua alma! Havia de vê-lo asfixiar,
com o rosto congestionado, os olhos saltando
fóra das órbitas, sacudido por
convulsões horríveis
e sem poder acudir-lhe! Era terrível, terrível!
Do seu coração de pai subia urna grande,
avassaladora
cólera, contra tudo e contra todos. Que mal faria
aquele pobre sêr de castidade e de luz que nem
sequer conhecia a vida e que tam cedo começava a sofrer
dos seus males inevitáveis para que fôsse
submetido
a uma tal tortura?... Esquecia-se de Júlia que
em cima soluçava, andava dum lado para o outro,
mudo, sombrio, puxando as barbas, arrepelando-se.
—Que foi, meu senhor? Que desgraça aconteceu?—perguntou
a cozinheira, que o contemplava,
assustada, encostando-se ao fogão ainda apagado.
—Um horror, Francisca. Um verdadeiro horror.
O menino está muito doente.
—Santo Deus!—exclamou ela.
—E temos de ir já para o Pôrto, a senhora,
o doente, a ama, eu e tu. O Manuel e as outras criadas
ficam ainda a pôr tudo em ordem, e seguirão mais
tarde. Arranja as coisas, despacha-te.
Subiu, novamente, a escada como um autómato,
governado mais pelo instinto do que pela
inteligência. O padecimento alheio sempre o tinha
perturbado; mas agora o de seu filho era-lhe atroz... Sentada
numa cadeira de braços, com a criança aconchegada
ao peito, Júlia chorava silenciosamente. As
lágrimas caíam-lhe fio a fio dos olhos. Perto
dela, a
ama repetia sem descanso:
—Uma destas, uma destas!...
Nuno parou diante da espôsa, revolvendo com
as mãos chaves que tinha no bôlso, entalado, sem
poder
articular as palavras, sem saber como havia
de consolar aquela dor inconsolável.
—Que desventura a nossa, que desventura!...—gaguejava
Júlia.
—Mas tranqùiliza-te, por Deus! Pode ser que
a doença não valha nada, que te enganes—acudiu
êle, por fim.
—Tenho um pressentimento funesto! E olha
que as mães nunca se enganam.
E voltando-se para a ama:
—Pegue no menino, mas com cuidado... Vou-me
arranjar. E veste-te tambêm, Nuno, para estares
pronto.
-Sim, menina!...
Uma hora depois, um automóvel parava, em
baixo, junto do portão do jardim. Nuno chamou as
criadas, deu-lhes ordens para elas transmitirem a
Manuel, mandou que, depois de tudo arrumado, seguissem
para a casa do Pôrto e entrou no carro com
Júlia—que conduzia o filho ao colo, muito embrulhado,
agasalhado em lãs quentes—com a ama e com a
cozinheira, dizendo ao
chauffeur
que, até Guimarães,
largasse com a maior velocidade.
Estava uma cinzenta e fria manhã ameaçando
chuva. Pelos altos montes, por vales tristes e planícies
monótonas, a paìsagem azulava-se no ar
baço. Um
vento glacial sacudia os ramos das árvores. Nuno e
Júlia nem sequer olhavam para fóra,
através das
portas de vidro do automóvel, concentrados como
iam no seu sofrimento.
Em Guimarães, procuraram alvoroçadamente um
médico, que logo os tranqùilizou, com um sorriso,
acabando de observar o pequenino enfêrmo. Não era
caso para sustos—afirmou.
—Oh! doutor! Quanta alegria nos dá!...—interrompeu
Nuno, avançando
para êle e
apertando—lhe
efusivamente a mão.
—Mas não é a difteria?—perguntou
Júlia,
ainda duvidosa. Êle tem tosse rouca!
Não! Não era a difteria—asseverou o
clínico,
já vélho e ageitando os óculos de aro
de ouro sôbre o
nariz. Uma simples bronquite sem complicações que
a tornassem de mau carácter. Curava-se com resguardo,
num compartimento em que não houvesse
oscilações
de temperatura, e com a aplicação de revulsivos
externos.
—Vês, Júlia?—disse Nuno. Não
é nada de
cuidado. Eu bem o dizia.
—O alarme desculpa-se nas mães... É tam
natural!—exclamou o médico.
—E até podíamos voltar para trás,
continuarmos
a nossa estada na aldeia.
—Não!—replicou Júlia com firmeza. Para
trás, não voltaremos. Já que estamos
aqui, seguiremos
para o Pôrto. Não ficaria sossegada.
-Pois, como quiseres...
O médico receitou, deu instruções;
Nuno pagou
a consulta generosamente. Despediram-se e reentraram,
mais calmos, no automóvel, continuando a
viagem—através
de estradas, de campos melancólicos,
de bosques que rugiam à ventania—para o Pôrto,
onde chegaram de tarde e já com uma chuva desabrida
fustigando as casarias, alagando, encharcando
as ruas negras duma lama viscosa, quáse líquida.
Moravam em Costa Cabral, numa vélha casa
apalaçada
de dois andares feita no gôsto arquitectural das
antigas vivendas portuguesas, e que todo o verão estivera
fechada. Foi um reboliço na habitação
deserta
e cheia de treva. O automóvel largara velozmente,
e, enquanto Júlia, com o filho nos braços,
procurava,
no átrio imerso em escuridão, uma cadeira para
sentar-se, Nuno, a ama e a cozinheira, abriam portas
e janelas com alarido, para que a luz diurna entrasse
e desse vida e alegria ao casarão ermo.
Outros médicos vieram e receitaram, nesse
mesmo dia, serenando temores sem motivo. A pouco
e pouco renasceu a confiança na alma de Júlia e
de
Nuno que, todo ocupado com a sua reinstalação
inesperada
no palacete da cidade, não saía, lidando
activamente,
dando ordens, substituindo na vivenda a
espôsa que não deixava, ainda atribulada, o leito
da
criança. E agora, outra vez no Pôrto, outra vez na
sua morada citadina, sentia-se bem, entre mobiliários
que conhecia e que considerava como amigos vélhos,
entre paredes a que se afeiçoara, no meio dum ambiente
de quietação em que vivera desde a
infância,
em que morara, a que tantas recordações
inolvidáveis
andavam presas. Novamente a felicidade entrava
na sua alma, na alma de Júlia, que assistia amorosa
e risonha à convalescença do filho. A nuvem
agoureira
passara, dissipara-se inteiramente. Já se encontravam
outra vez reconciliados com a vida que, por
momentos, os amargurara.
—É verdade, Júlia—dizia uma noite Nuno.
Sabes de quem me lembrei agora, repentínamente?
Foi de Frederico! Ainda nem sequer apareceu!
—Pois tu não tens saído, nem sequer lhe
escreveste!
De-certo que ignora o nosso regresso. Ninguêm
o sabe, alêm dos vizinhos... E pode ser até que
não
esteja no Pôrto...
—Ah! não! Não deixaria a cidade sem me avisar...
E estou zangado
com êle—concluiu Nuno,
risonhamente. O coração dum verdadeiro amigo
devia
adivinhar. Serei duro, quando o aviste. Há de
ouvi-las bonitas...
Fóra, na rua, os candeeiros de
iluminação pública
chamejavam ao vento, sob um céu acarvoado.
A patrulha da guarda deslizava como uma sombra,
sem ruído. A aglomeração das casarias
ia adormecendo
no silêncio nocturno...
IX
Frederico sentia-se cada vez mais esgotado de
energias, mais fraco de vontade, à medida que se gastava
nos delírios da paixão carnal, nos desvairamentos
duma existência que nem sequer procurava já
equilibrar,
porque a vida, para êle, perdera todo o interêsse.
À sua excitação física, de
dia para dia mais
intensa, correspondia um desfalecimento moral que
constantemente se agravava, debilitando-lhe o carácter,
secando-lhe as fontes criadoras de sensibilidade.
Convencido da sua própria impotência, trazendo no
peito um coração árido, invadido por
uma dolorosa
melancolia que só os acessos da sensualidade, em horas
letais de luxúria, conseguiam dissipar por momentos,
levava uma existência desregrada de prazeres de
tôda
a sorte, em que a luz da sua própria inteligência,
tam
lúcida outrora, principiava a vacilar. Contudo,
conservava-se
no seu sentimento alguma coisa que não
queria morrer, que era vivaz, persistente, que se
obstinava em persegui-lo, empurrando-o violentamente
para as maiores loucuras:—o seu amor por
Júlia. Era uma obcecação, uma ideia
fixa que o aguilhoava
sem repouso, por mais que pretendesse esquecê-la.
Temendo que o isolamento, a solitude, exacerbassem
essa adoração perversa e abominável,
que o
enxovalhava sempre que espreitava, espavorido, a
própria consciência, freqùentava os
teatros e o jôgo
assíduamente e perdia grossas quantias com absoluta
indiferença, porque apenas desejava aturdir-se: arranchava
a comesainas tumultuosas com os amigos e ía
depois, exaltado pelo alcool, passar a noite com Branca,
que definitivamente se apossara dêle e que Frederico
considerava como um mal necessário ao apaziguamento
da sua tortura, como uma ilusão mentirosa
de que derivava, para a sua inquietação
permanente,
um pouco de tranqùilidade. Os seus nervos enfermos
careciam daquela mulher, como certos doentes
carecem de venenos para adormecer uma dor
fulgurante que os angustia. Consagrava-lhe por isso
reconhecimento em vez de ódio. A casa em que a tinha
instalado, com riqueza e luxo, era para êle, nas horas
de maior atribulação, o logar que uma
graça consoladora
habitava. Nestes momentos devastadores, submisso
como um crente, pousava sôbre a fronte doce e
pálida de Branca um beijo quáse religioso, que
ela
lhe agradecia com um sorriso inexpressivo.
Em certos instantes mais calmos, porêm, quando
podia observar-se com lucidez, julgava-se serenamente,
acusava-se de se estar aviltando e praticando
uma infâmia, procurando apagar com a febre
duma lascívia brutal a recordação dum
amor puríssimo.
Alarmado,
cheio de remorsos, entregava-se
a longas cogitações, tentando encontrar uma
explicação
para aquela anormalidade. Que natureza vulgar
ou grosseira era a sua que, em vez de ter uma
origem de inspirações divinas na
paixão amorosa mais
elevada que até aí o fizera vibrar, tinha nela,
afinal,
só um estímulo que o impelia para as
abjecções
deprimentes? Como é que o amor por Júlia
não iluminava
a cegueira da sua alma, o não sublimava de
tôdas as imperfeições terrestres? E
seria, na verdade,
amor o que por ela sentia ou apenas um desejo bestial:—o
desejo do seu corpo tam perfeito, da sua
carne esplêndida, da sua beleza perturbante? Duvidava
da sua sinceridade, e sofria mais amargamente
por esta dúvida.
O entusiasmo que a ideia duma demorada viagem
pelo estrangeiro nêle despertara, em breve arrefeceu.
Não manifestava curiosidade por nada: a
alegria de viver havia fugido do seu espírito: e pensava,
com terror, na perspectiva de sair de sua casa,
do seu país, para meter-se, com um monte de malas,
em combóios que rolassem monótonamente por terras
desconhecidas, para viver na barafunda dos hoteis,
entre multidões indiferentes e egoístas. Que
enorme alteração tudo isto representaria para os
seus hábitos rotineiros, que fadiga mesclaria ao seu
cansaço e que tédio juntaria ao seu
aborrecimento!
E, afinal, para quê? Que lucro positivo tiraria êle
duma vagabundagem a outras nacionalidades habitadas
por povos diversos do seu? Não lucraria nada!
De resto, só se deve viajar em absoluta serenidade
espiritual, em pleno contentamento de alma: e Frederico
não possuia nem essa serenidade nem êsse
contentamento essencial. Não! Não abandonaria o
Pôrto. Neste burgo se iria definhando, consumindo,
aniquilando!...
Às vezes, Branca, abraçando-o, amimando-o,
com carícias em que se não escondia o frio, a
secura,
o desinterêsse, relembrava-lhe a promessa que Frederico
lhe fizera de a levar ao estrangeiro. Gostava tanto
de ir a Paris! Ai! Paris era a sua ambição! E,
para o convencer, apontava-lhe exemplos de rapazes
com dinheiro que tinham ido com as amantes,
numa jovial jornada, por essa Europa fóra.
—O Gusmão, por exemplo! Levou a Adriana.
—O Gusmão?—inquiria Frederico. Quem
é êsse Gusmão?
—Ora! Tu conheces!... Um trigueiro, de grandes
bigodes, que tem um lindo automóvel e que vive
aí para os lados de S. Roque. Há quantos anos
êle
pôs a Adriana por conta! É como se
fôssem casados.
Aquela sim. Está de grande!...—terminava Branca,
fazendo beicinho.
—Pois tambêm tu hás de ir ver a Europa, sossega.
Mas mais tarde... Por enquanto, não posso.
Preciso primeiro de deixar umas coisas em ordem—afirmava
êle, sentando-a nos joelhos e passando-lhe
um braço à volta de pescoço.
—Sim, sim! Bem acredito eu nisso!...
—Não acreditas!... Olha para mim... Mas olha
bem de frente. Dize lá. Eu tenho cara de quem mente?...
—Não quero dizer que mentes...
—Então, que queres dizer?...
Ela não respondia, fazia-se mais amáv
Ela não respondia, fazia-se mais amável entre
os seus braços, pousava-lhe a cabeça no ombro,
muito
terna, muito quebrada, com geitos estudados e pieguices;
e Frederico, perturbado, beijava-a furiosamente,
exclamando:
—De resto, para sermos felizes, não precisamos
de sair daqui...
Uma noite, de volta do teatro Sá da Bandeira,
onde fôra ver uma revista deplorável, sem
vivacidade,
sem espírito, sem arte, maculada por ditos e
situações
lúbricas, encontrou na rua o jovial Paiva que passava,
muito embuçado, rente às paredes.
—Pára aí, criatura—bradou Frederico.
Há
quanto tempo te não vejo!...
—Oh! menino! Pois és tu?—respondeu Paiva.
Cumprimentaram-se, trocando um demorado apêrto
de mão.
—Para onde diabo vais, a esta hora e com
tanto mistério, Paiva magnífico?
—Vou para o namôro.
—Para o namôro?...
—Sim! Um caso de sentimento, uma inclinação
irresistivel, com diálogos de janela, noite alta—porque
o pai é austero—com estrêlas que se contemplam
tristemente, com suspiros. Coisa muito
séria.
—Oh! Paiva! Tambêm tu?
—É verdade, grande Frederico. Tambêm eu!
Que queres? Assim acabam todos os românticos.
E adeus, filho. Não posso demorar-me. Já vou
tarde. A pequena espera-me... Olha! Aparece qualquer
dia, para conversarmos. Depois te direi tudo.
—Vai! Sê pontual como Romeu. Não faças
sofrer com a tua ausência os corações
ingénuos.
Partiram cada um para o seu lado, em sentido
oposto;
mas, apenas Frederico tinha dado alguns
passos, Paiva, voltando-se de repente, chamou-o
aproximando-se novamente dêle:
—Ouve lá, ó Frederico... Ia-me esquecendo...
Tu sabes quem está no Pôrto, chegado há
seis ou sete
dias?
—Não sei. No Pôrto está tanta gente!
—Pois, é Nuno, o teu amigo Nuno.
—O quê?—bradou Frederico, sobressaltado.
Nuno? Não pode ser.
—E porque não pode ser? Se eu te estou a dizer
que está! Vi-o esta manhã na Praça da
Batalha.
Vinha do correio... Parámos um momento a palestrar.
Até êle me perguntou por ti.
—Essa agora! Nuno no Pôrto! E sem me dizer
nada!
—Como não te disse nada? Tu é que lhe foges,
ao que parece. Já te procurou em casa e não te
encontrou.
Deixou-te uma carta urgente e não lhe
respondeste! Foi o que êle me asseverou, e até um
pouco ressentido... Aparece-lhe! Escreve-lhe... E
adeus!
Com efeito, havia uma semana que Frederico
não ia a casa. Branca retinha-o, no seu leito de amante,
uma parte da noite e uma parte do dia, porque
só muito tarde, às vezes de madrugada, lhe batia
à
porta, de regresso das estúrdias ou das bancas de
tavolagem com a roupa em desalinho, o olhar vago
e ardendo dum brilho especial, numa secreta e áspera
revolta contra si próprio. Ficava tôda a
manhã
deitado, dormindo com as mãos fechadas junto da
cara, a pele humedecida por uma transpiração
álgida,
agitado de sonhos pavorosos. Quando o sol ia já
muito alto, entrando no quarto em feixes de raios
difusos e rutilantes e inundando móveis, cortinados e
tapêtes com a sua dourada cabelugem que faíscava,
lampejava nos espelhos, Branca acordava-o, sacudindo-o
com fôrça, chamando-lhe dorminhoco, tirando a
roupa da cama, entre gargalhadas. Frederico espreguiçava-se,
bocejava. Ela, de
robe-de-chambre de
sêda,
cabelos soltos e despenteados caindo-lhe pelas costas,
um ar petulante e vicioso que punha uma desagradável
mácula na sua meiguice mas que a tornava
mais picante, aninhava-se nas tapeçarias que alcatifavam
o soalho, rolava a cabeça na beira do leito com
lentidões de gata amimada, ria-se da moleza de Frederico,
fazendo-lhe momices que êle repelia, enfastiado.
Sempre que despertava dos seus desvairos
sensuais, sentia um desgôsto muito fundo pela
miséria
moral em que ia resvalando rápidamente, sem
coragem para romper com torpezas o reentrar numa
existência honesta. Branca amuava, dizia-lhe que
êle já a não amava, que estava morto
por desfazer-se
dela, falava em morrer.
—Mas, vê lá! Se me queres deixar, confessa-o
francamente!—acrescentava.
Frederico irritava-se, chamava-lhe douda, saltava
do leito, tomava banho, vestia-se, reconciliando-se
com Branca; e, então, volvidas horas de
repouso que êle aproveitava para ler os jornais, para
folhear revistas estrangeiras ilustradas, almoçavam
muito juntos na pequenina sala de jantar que as jarras
de flores aromatizavam, o papel claro das paredes
alegrava e a que os mobiliários caros davam
confôrto,
elegância e beleza ornamental. Pelos aparadores
scintilavam pratas e reluziam porcelanas; de
grandes pratos cheios de fruta madura exalavam-se
arômas aperitivos; os cristais irisavam-se à luz;
e
Frederico achava então um certo enlêvo naquela
vida
comum, parecia-lhe que tinha um lar, uma companheira
solícita, que possuia no mundo uma alma para
quem a sua personalidade não era estranha. Muitas
vezes, jantava mesmo com Branca, saindo à noite
para as suas vadiagens, que se prolongavam até horas
mortas. Seis dias seguidos assim foram deslizando,
sem que êle se lembrasse, sequer, de ir a sua casa.
E por isso Nuno o não encontrara, por isso não
tivera,
mais cedo, notícias do imprevisto regresso do amigo ao
Pôrto—regresso de que só por acaso havia sido
informado...
Enquanto caminhava pelas ruas já desertas
e cheias de sombra, perdia-se em suposições. Nuno
dissera-lhe que passaria o inverno na aldeia, quando
se separaram, e voltara a afirmar-lhe, em carta, êsse
propósito. Que facto, grave certamente, o teria feito
mudar de tenções? Aborrecimento da monotonia
rural,
da solidão rústica? Saudades da
animação, da
sociabilidade citadinas? Não! Nuno não era
mundano,
abominava as exibições, os convívios
banais.
Taciturno, misantropo, já na sua mocidade só
estava
bem com uma ou duas amizades mais íntimas à
sua roda. Depois que se casara, meteu-se dentro da
sua vivenda e da sua felicidade, sequestrou-se de todo,
gostosamente, às curiosidades indiscretas da rua e das
salas. Que razão forte, que motivo imperioso, o teriam,
pois, desalojado da solitude campestre, obrígando-o
a refugiar-se no Pôrto?
—E se Júlia adoeceu?—monologou Frederico,
invadido por um sobressalto repentino.
Uma comoção dolorosa apoderou-se de todo o
seu ser; sentia um fundo mal-estar interior, uma angústia
que o atordoava, que lhe apertava o coração,
que o constrangia. Com efeito, aí estava a
explicação
da volta de Nuno ao Pôrto. Não podia ser
outra! Naquele momento, a mulher que êle amava
com infinita doçura, sofreria, queimada pela febre,
ir-se-ia fanando na sua beleza viçosa, na gentileza do
seu encanto supremo, enquanto Nuno, apreensivo,
assistindo transido a uma dor que não podia sarar,
nem ao menos tinha ao seu lado alguêm que o confortasse,
que lhe desse esperança.
—Com certeza que Júlia está doente!—pensava
Frederico.
Um relógio dava, ao longe, duas horas. Era-lhe
impossível correr a casa de Nuno, bater-lhe à
porta,
alarmar tôda a vivenda, para saber o que havia;
mas êle tinha-lhe escrito e, naturalmente, nessa carta,
contava-lhe tudo. Então, dominou-o, espicaçou-o o
desejo de chegar de-pressa à sua
habitação, que ficava
ainda distante. Acelerou o passo. Ao dobrar duma esquina,
um vulto de mulher sumido dentro do chaile
cruzado no seio, saindo repentinamente da sombra,
disse-lhe em voz baixa e ofegante qualquer coisa que
não entendeu. Tirou do bôlso uma moeda de prata e
meteu-a numa lívida e magra mão que para
êle se
estendia com um gesto rapace de garra. Mais adiante,
um polícia embuçado no seu capote fumava
encostado
a um candeeiro. Sôbre as casarias pairava
uma ligeira névoa. A cidade dormia profundamente...
Uma tipóia surgiu, rolando lentamente na calçada.
Frederico fez um sinal ao cocheiro, que esticou
as rédeas e se endireitou na boleia, exclamando:
—Pronto, meu patrão!...
Os cavalos, extenuados e de cabeças pendentes,
estacaram. Frederico abriu a portinhola, entrou de
salto.
—Para onde quere que o leve?—perguntou
ainda o cocheiro.
Indicou o bairro e o número do prédio em que
residia e o carro partiu logo, mais velozmente, ao estalar
sêco do chicote. As ferraduras dos cavalos, batendo
violentamente nas pedras, levantavam faúlhas
de lume que scintilavam um momento para
em seguida se apagarem. Devorado de impaciência,
Frederico, de quando em quando, espreitava através
das vidraças e apenas via ruas esgueirando-se na
sombra, fileiras monótonas de casas, algumas ainda
com luzes agonizando por detrás de
stores descidos
nas janelas dos segundos andares.
—Como é triste uma grande cidade erma a horas
avançadas da noite! E essa tristeza envelhece a
gente!—meditava.
E o maldito carro sem chegar ao fim daquela
corrida que o estava atormentando! Batia nos vidros
da frente, com os nós dos dedos para que o cocheiro
fizesse galopar os cavalos mais apressadamente. Parecia-lhe
que já há muito tempo rolava, aos solavancos,
dentro daquela caixa fechada e sem ar, através
do burgo solitário, e isto excitava-lhe os nervos... Por
fim, o carro deteve-se de repente. Frederico,
olhando para fóra, reconheceu o seu retiro, a sua vivenda;
saltou para o passeio, deu uma gorda gorgeta
ao cocheiro que tirou o chapéu agradecendo, sacou do
bôlso um mólho de chaves niqueladas, abriu a porta
e sumiu-se na treva. Depois, raspando um fósforo,
subiu ligeiramente a escada, procurando não fazer
barulho para não despertar o criado que dormia, entrou
no seu escritório, acendeu o gás que ardeu num
leque de luz dentro da tulipa de cristal, sibilando em
surdina, e olhou para cima da larga mesa de pau preto
em que escrevia. Lá estava a carta de Nuno, efectivamente.
Logo a reconheceu pela letra que negrejava no
enveloppe—uma letra de
traços finos e firmes em que
se denunciava alguma coisa do carácter do amigo—a
sua franqueza, a sua energia, a sua vontade sem
hesitações. Rasgou o sobrescrito com frenesi,
como
se êle representasse um forte obstáculo com o
poder de
lhe demorar ainda durante muito tempo o conhecimento
duma verdade que queria saber imediatamente
e logo encetou a leitura. Nuno, como pensara, dizia-lhe
o motivo do seu regresso à cidade, informava-o,
com pormenores, da doença do filho, já curado, do
susto que tiveram, êle e Júlia, na aldeia, quando
julgaram a criança atacada de difteria e da sua
viagem por um hostil, bravio dia de chuva açoutando
em bátegas o automóvel. Terminava, pedindo-lhe
que o fôsse ver, que lhe désse ao menos
notícias
suas.
«—O Porto—escrevia Nuno
irónicamente—é
uma terra tam pequena que tôda a gente se conhece
uma à outra. Pois bem; há três dias que
te procuro
por praças e cafés, logares onde se dá
à língua,
no boletim mundano dos jornais, e—parece impossível!—ainda
te não encontrei, como se tu fôsses
la Belle au bois da lenda e se da lenda e se
tornasse necessário penetrar
numa vasta floresta encantada para chegar
junto de ti! Aparece. Tanto eu como Júlia, que
está mais nutrida, que lucrou imenso com a sua
permanência
na aldeia, gostaríamos de ver-te por
esta
casa que é tua.»
Acabando de ler a carta, Frederico respirou.
Júlia não estava doente, não ocorrera
na existência,
tam calma, tam feliz, tam igual do marido, nenhuma
fatalidade irremediável, nenhum perigo ameaçava
criaturas a quem a sua alma era dedicada. Fez-se a
paz no seu sobressalto emotivo. Dobrou a larga fôlha
de papel que Nuno para êle escrevera e atirou-a
para cima da mesa, sentando-se numa poltrona estofada
em que o seu corpo molemente se enterrou; e
por muito tempo entregou-se a um longo scismar.
Branca, que naquele momento o estaria esperando
com um chaile de lã pelas costas, estirada num
fôfo
divan da sala em que passava os seus serões, lendo
romances sentimentais ou conversando com Amélia,
sua criada de quarto e sua confidente, esqueceu-lhe
completamente. A sua recordação estava cheia da
imagem de Júlia, da sua beleza, da sua bondade, da
sua maravilhosa graça de mulher, que queria adorar
com uma emoção purificada de desejos inferiores,
venerar
como um crente, no ardor do seu misticismo,
venera as coisas de Deus e que afinal amava, para
seu tormento e sua angústia, com um amor lúbrico
que lhe acendia a febre no sangue, que lhe toldava
a lucidez do espírito, que maculava de crápula os
puros lirismos da sua paixão a princípio casta e
que
depois, pelas solicitações carnais que
não pudera
conter, se transformou em criminosa. Como era que
essa mulher, em vez de o tocar com o alvor da sua
santidade, de tudo o que nela havia de superior, de
elíseo, de admirável, de astral, só
lhe comunicava
uma estranha volúpia que o alucinava?
—A culpa não é dela, com certeza, mas da
impureza
da minha organização!—monologava.
E ali estava ela no Pôrto, perto dêle, chamando-o
para junto de si com uma voz de amizade que Frederico,
no seu delírio voluptuoso, julgava carregada
do fluido magnético da atracção
voluptuosa. Um
espírito oculto e maléfico impelia-o para
Júlia, incitava-o
a loucuras, a infâmias. Aterrado com a própria
consciência—em que germinava a flor vermelha
dum impulso mau—fugiu-lhe, afastou-se dela,
para a esquecer. Em vão. O destino enigmático
aproximava-os novamente, e desta vez com a particularidade
de se conhecerem de perto, de não serem estranhos
a um afecto que em Júlia era digno e enternecido
e que nêle degenerara em sensualidade animal;
de haverem vivido sob o mesmo teto, de se terem confessado
as suas simpatias e as suas predilecções, de
se fazerem mútuas confidências em que notavam,
rindo,
um gôsto idêntico, uma inteligência que
tinha pontos
de contacto, modos de ver em que havia semelhança.
Iria a casa de Nuno? Não iria? Flutuava entre
estas duas hipóteses, sem se decidir. Tinha
mêdo...
—Deve ser já muito tarde!—pensou.
Viu as horas. Eram quatro. De fóra não vinha o
menor rumor. Tôda a vida parecia suspensa, perdida
no silêncio e na treva nocturna. Então, novamente
se
lembrou de Branca, mas esta lembrança súbita
inspirou-lhe
uma repugnância secreta. A lubricidade excitante
que essa mulher acordara nas profundidades do
seu ser, apagava-se repentinamente como uma brasa
sob a água e dela nada ficava—nem memória
afável
nem doce recordação. Júlia
apoderava-se outra vez
dêle, com o mesmo império, com a mesma
intensidade,
impregnava-se
da sua substância nervosa, do
seu sangue, da sua carne, dominava-o. Não tinha pensamento,
nem desejo, nem aspirações que não
fôssem
para ela: e a exaltação que o sacudia era por tal
forma enérgica e absorvente que Nuno ou lhe esquecia
e lhe aparecia inteiramente desligado da espôsa, como
se fôssem duas personalidades sem nada de comum,
inteiramente separadas moral e corpóreamente uma
da outra. Era-lhe necessário empregar um grande
esfôrço
para os associar de novo, para entrar na realidade
das coisas, para compreender com nitidez que Nuno
era o seu amigo, o seu sincero camarada e que, em
vez de traí-lo, lhe devia comovidos respeitos, lealdades
fervorosas.
Êste fenómeno psíquico decidiu-o.
Não! Não iria
mais a sua casa, enquanto não pudesse estar diante
de Júlia com a serenidade com que estaria diante
duma irmã. Desculpar-se-ia, inventaria uma piedosa
mentira com que pudesse justificar-se, cometeria
mesmo grosserias, contanto que a sua dignidade de
homem consciente ficasse intacta—ainda que para
isso tivesse de romper abertamente com Nuno. Saíria
do Pôrto sem delongas, para Lisboa, para o estrangeiro,
para tôda a parte onde se soubesse longe de Júlia,
embora a tivesse sempre presente na sua saùdade
e na infinita sêde de amor do seu
coração. De
Branca fugiria tambêm com a alegria com que se
quebram cadeias tirânicas e se recupera uma liberdade
durante muito tempo perdida. O seu sentimento,
agora divinizado pela sagrada lembrança da mulher
mais que tudo amada, tornava-lhe insuportável
a presença da impura, que apenas lhe apagava as
ardentes solicitações da animalidade carnal e que
lhe
não apaziguava as inquietações da
alma, que acelerava
a vibração da sua febre voluptuosa sem
lhe fazer ascender no espírito uma pura, ideal
aspiração.
Oh! de-certo que ela choraria, que o ameaçaria
com suicidar-se, com provocar clamorosos escândalos:
mas enxugar-lhe-ia as lágrimas com um farto
punhado de ouro que a tranqùilizasse no seu
desespêro
artificial. De resto, nada lhe devia, a não ser a ternura
de algumas horas, uma ternura que ela costumava vender
a todos os homens e que Frederico tambêm comprara,
pagando-a por excessivo preço. Tinha-a encontrado
numa ceia com amigos, simpatizara com ela—porque
a sua beleza e a sua desdita o impressionaram
e o comoveram—levara-a para casa, pedira-lhe não
inspirações mas luxúrias que o
atordoassem. Reconhecido
pela relativa tranqùilidade que Branca comunicara
à sua dôr, indemnizou-a generosamente.
Não
podia ir mais longe. Bem sabia que ela empregava
todos os recursos e toda a sciência da sua
coquetterie
para lhe agradar com mais intensidade, para se
tornar mais desejada—não movida por impulsos
amorosos mas por cálculos. Era amável; mostrava,
mesmo, nas suas relações com Frederico,
delicadezas
que eram meramente superficiais. Por debaixo delas
traía-se sempre a indiferença ou a secura, o
automatismo,
a inconsciência. A castidade das
emoções
que iluminariam a sua paixão primitiva não podia
mais renovar-se em Branca. Nos seus carinhos balbuciados
havia qualquer coisa de convencional, de estudado;
nos seus beijos havia frio. Era apenas um
corpo sem alma—um lindo corpo, certamente,—que
se entregava por dinheiro. E, nos primeiros tempos,
a posse dêsse corpo chegou a interessá-lo por
determinadas
afinidades físicas.
Mas agora, Júlia ressurgia; os cuidados de que
era alimentada a adoração que lhe consagrava
reclamavam
todo o seu ser; uma luz nova o alumiava, invadia-o
a tortura dum amor sem finalidade, que lhe
era amargo mas em que tambêm os seus sentidos encontravam
uma particular doçura. Sentia-se renascer,
não para uma vida nobre de esperanças, de
júbilos
futuros, de graças aurorizantes, mas para
preocupações
e para comoções que lhe eram, conjuntamente,
deleitosas
e aflitivas. A sua excitação sensual arrefecia,
extinguia-se—e por isso Branca desaparecia das suas
impulsividades orgânicas. Na sua intimidade moral e
afectiva resplandecia apenas a imagem aliciante do
único amor sério da sua existência de
homem apaixonado
e consciente: e Júlia assumia aos seus olhos o
esplendor de certas figuras maravilhosas e místicas,
que andam nas lendas sagradas com um fulgor de
ouro à volta da fronte. Queria entregar-se inteiramente
à veneração silenciosa e oculta dessa
mulher, devotar-se-lhe—mas
de longe, procurando evitar que
esta devoção, êste culto, se
transformassem em crime.
Era a fatalidade! Estava, portanto, decidido. Iria
a casa de Branca, pela última vez, trocaria com ela o
derradeiro beijo, deixar-lhe-ia, delicadamente, sôbre o
leito, um
enveloppe fechado. Depois,
escreveria a Nuno
uma longa carta e seguidamente partiria ainda não
sabia para onde. Esta ideia calmou-o um pouco: mas
em breve, tudo o que na sua natureza havia de tímido,
de indeciso, de incaracterístico, imprimiu-lhe um
rumo diferente aos pensamentos. Não! Não romperia
com Branca asim de repente. Dir-lhe-ia que era forçado
a sair do Pôrto
por alguns meses, por causa
de
negócios que se prendiam com a
administração da sua
fortuna, mas que voltaria logo que isso lhe fôsse
possível e que então, como dois noivos,
realizariam
essa prometida viagem à Europa. Só de longe lhe
comunicaria
a resolução duma ruptura inevitável,
poupando-se
por esta forma ao espectáculo, doloroso para
a sua sensibilidade doentia, de prantos, de soluços
sufocados, de recriminações sem fim.
Com Nuno, usaria do mesmo processo, servir-se-ia
de igual subterfúgio. Havia de dizer-lhe que
apenas em Lisboa, em Madrid, em Paris, recebera a
sua carta—que lhe fôra mandada por Bernardo—e
que por isso não pudera correr, como a sua alma desejava,
a dar-lhe um abraço. Anunciar-lhe-ia até um
breve regresso, para que êle se tranqùilizasse e
não
procurasse saber da sua vida e das suas aventuras.
Dêste modo, sofreria menos!...
Já pelas frinchas da janelas se filtrava uma
fresca e pura claridade matutina, quando uma quebreira
o invadiu, serenando as suas violentas agitações.
As pálpebras, pesadas de sonolência,
cerravam-se-lhe;
uma doce lassidão prostrava-o. Levantou-se na ponta
das botas, foi buscar ao quarto um
couvre-pieds e deitou-se,
mesmo vestido, sôbre a
chaise-longue que estava
na sala, no ângulo formado por duas paredes,
para repousar por algumas horas. Lentamente adormeceu,
perdendo a noção das coisas que o rodeavam, da
sua própria situação
equívoca. Só acordou quando
Bernardo, entrando no escritório com o sol já
alto,
abriu uma persiana, por onde a luz festiva e clara
entrou a jôrros. Frederico sentou-se indolentemente,
esfregando os olhos, bocejando com fôrça, chamando
a atenção do criado, que se voltou espavorido no
receio
de que um desconhecido tivesse entrado em casa,
para roubar.
—Sim, sou eu, homem! Que diabo de espanto
é êsse!—exclamou êle para
Bernardo que o contemplava,
intrigado.
—Crédo, patrão! Que mêdo me meteu!
Até
pensei que eram ladrões. Estava tam longe de o saber
por ca!... E não admira! Não o senti entrar.
—Vim tarde, com efeito... Olha, desce à cozinha
e diz à criada que me faça o
almôço para o meio-dia.
Por agora, quero
uma
chávena de
café... Mas
bem forte.
—Então, o senhor hoje almoça?
—Pois é claro que almoço—atalhou, rabujento...
—Está bem!
Enquanto Bernardo cumpria as ordens, Frederico
ergueu-se, entrou no quarto de vestir para mudar
a roupa, que estava amachucada e cheia de vincos,
para lavar-se... Que desordem, a da sua existência!
Como é que êle se emmaranhara em tanto tumulto,
enxovalhando-se, perdendo a noção da
decência,
do alinho exterior, da rectidão moral, de tudo quanto
pode nobilitar o ser consciente! Ai! dêle que não
conseguira encontrar uma actividade útil e um ideal
dignificador, derivava todo o mal—considerava Frederico,
enquanto banhava, regalado, a fronte em água
fria. Não acusava ninguêm. O culpado era
êle, exclusivamente
êle e da sua culpa amargamente se arrependia.
Estaria ainda a tempo de recomeçar uma
experiência,
de regenerar-se? Não haveria na sua alma, no
seu sentimento, estragos
irremediáveis?
Consultava-se,
analizava-se
minuciosamente e notava em si uma
ausência de coragem, uma falta de incentivos renovadores,
que o apavoravam. Com a face branca da espuma
do sabonete, que exalava um leve arôma de narcisos
em flor, levantou um instante a cabeça diante
do espêlho e teve a noção
lúgubre de que estava vélho e
morto para todos os actos elevados. E como tudo, igualmente,
envelhecia e morria à sua roda, sem um lampejo
de beleza, numa desolação que mais ennegrecia
o seu desconsôlo... Remergulhou, furiosamente, na
água: e, depois, enxugando as mãos e a cara a uma
toalha felpuda bem sêca, maldizia-se
por não ter
sabido construir uma outra vida nobre e fecunda, por
se haver deixado arrastar sem reacções, ao sabor
das
correntes do acaso ou do destino... Mas agora,
implacávelmente,
reagiria, limpar-se-ia de impurezas, tentaria
ganhar o tempo perdido, trabalhando sem repouso
para rejuvenescer-se, para ressuscitar, para se
emancipar duma apatia amolecedora. A resolução
anterior
fortalecia-lhe o coração. Apegava-se a ela com
desespêro.
Mais algumas horas, que lhe eram necessárias
para pôr em ordem vários papeis, para dar algumas
instruções aos criados, para escrever a Branca,
para arranjar as malas, e uma outra existência se
iniciaria para êle... A esta ideia, avivou-se-lhe o
sofrimento
interior. Ia afastar-se, talvez para sempre, de
Júlia, que era a sua saùdade, a sua
doçura e a sua dor.
Idealizava-a mais uma vez. Ela tinha o encanto altivo
unido a uma simplicidade encantadora. A palidez
espiritual das suas faces e a meiguice dos seus olhos
boiando numa luz que brilhava, tocavam-lhe a alma.
A sua bôca apaixonada, que a mentira nunca maculara,
tinha a dupla sedução do silêncio e da
palavra—como
as
mulheres cantadas em sonetos de ouro por
Dante Rossetti. E deixava-a, porque no coração de
Júlia, transbordante dum outro amor, não cabia o
seu,
que era um intruso...
Mas Frederico, que ainda momentos antes se julgava
com tanta energia para a separação,
começava
a vacilar. Como poderia viver sem ela e longe dela?
Que novas formas de tortura atingiria o seu padecimento?
A tristeza e o desespêro, que já o pungiam,
davam-lhe a medida exacta da paixão que por Júlia
sentia.
Acabou de vestir-se mais deprimido, mais acabrunhado,
e voltou ao escritório, murmurando entre
dentes:
—Embora! Não retrocederei!...
Bernardo bateu à porta, perguntando se poderia
entrar.
—Entra!—ordenou Frederico.
O criado entrou, trazendo uma chávena de café,
quente e aromático, numa bandeja de prata, que
pousou em cima da mesa, informando:
—Está lá em baixo uma senhora ainda nova.
—Uma senhora?
—Sim, patrão. Uma senhora, que chegou de
automóvel. Diz que lhe quere falar sem demora. É
um caso urgente.
—E porque lhe não afirmaste que eu não
estava?—gritou Frederico, irritado, na suspeita de
que Branca o procurasse.
—Pois eu afirmei, meu senhor...
—E então?
—Então, ela duvidou das minhas palavras,
asseverou que bem sabia que o senhor estava, que
era escusado eu negar. E falava alto, parecia agastada...
Diz que é um momento...
—Olha que estopada!—bradou Frederico. Bem!
Passa-me o café, e manda-a entrar para a sala de
visitas... Lá irei ter daqui a pouco.
Que audácia! Não faltava mais nada
senão essa
criatura—flor do vício—a agarrar-se com ansiedade
aos seus braços, a colar-se ao seu corpo, a
manchá-lo
com uma nódoa, a fazer scenas públicas da sua
paixão, como se Frederico lhe devesse
reparações,
como se de si tivesse partido o lôgro que a despenhou
para sempre no lôdo e na desgraça! Com que direito
vinha ela procurá-lo a casa, denunciá-lo
à criadagem
como seu amante, sair dum automóvel à sua porta,
em pleno dia, diante de tôda a vizinhança rindo
sarcásticamente? E que lhe quereria? Talvez pretendesse
queixar-se pelo abandôno duma noite, lamentar-se,
mostrar as suas lágrimas e os seus ciúmes.
Ah! não! Isso, não lho permitiria...
Tomou à pressa o resto do café que esfriava na
chávena de porcelana fina, acendeu um cigarro, soprou
algumas baforadas de fumo e encaminhou-se
para a sala de visitas. Logo de entrada reconheceu
Branca, que se sentara numa cadeira sem mesmo erguer
o espêsso véu preto que lhe cobria o rosto. Com
as mãos esquecidas no regaço, estava pensativa. O
seio arfava-lhe apressadamente.
—Então, que loucura é esta? Para que vieste
aqui?—interrogou Frederico, de mau humor.
—Ah! és tu!...—respondeu ela.
Ergueu nervosamente o véu,
dirígiu-se para êle
de braços abertos. Tinha os olhos vermelhos de chorar.
—Pensei que te não tornava a ver, que me tinhas
fugido,
que estavas
fatigado de mim. Porque
não apareceste ontem, como de costume?—interrogou
ela.
Falava sacudidamente, muito excitada. O seu
rosto pálido rosava-se duma ponta de sangue mais vivo.
—Não apareci porque não pude.
—E porque não pudeste? Dize! Tiveste outros
amores, outras mulheres? Não sou já nada para ti,
então?... Responde!... Mas responde!...
Frederico deteve-se um momento a considerá-la
com um olhar mau, de rosto sombrio e contraído.
Branca teve mêdo e acudiu logo, para se desculpar
da sua impertinência:
—Não
repares nas
minhas palavras, que eu
não sei o que digo. Não dormi nada em
tôda a
noite. Só chorei! Se conhecesses os meus tormentos,
até tinhas pena... Mas, porque não apareceste,
Frederico?
Outra vez a impertinência! Aquele inquérito
exaltava-o, enchia-o de cólera. Tinha vontade de
conclui-lo repentinamente, pondo Branca fóra de
sua casa, com imprecações duras e
empurrões brutais.
E, azedado por uma súbita fúria, atalhou:
—Se tu me vens com êsses ares de que eu sou
uma coisa que te pertence e de que tenho de dar-te
conta dos meus menores actos, não te respondo...
Que tal está a petulância? Não apareci
porque não
quis. E olha! Nunca mais apareço... Acabou tudo
entre nós! Tudo, entendes?
Atirou violentamente a metade do cigarro que
ainda ardia entre os seus dedos para um cinzeiro, e
começou a pessear excitado, des
Atirou violentamente a metade do cigarro que
ainda ardia entre os seus dedos para um cinzeiro, e
começou a pessear excitado, desvairado pela
irritação
sempre crescente. Branca abateu-se sôbre o sofá,
vencida, ofendida, soluçante, abafando o chôro no
seu lenço de rendas.
—Agora temos prantos!... É escusado. Não me
comoves!
Mas olhou-a novamente, viu-a enrodilhada,
ennovelada, destroçada sôbre o sofá,
emmudecida na
sua dôr, teve dó daquele pobre corpo
frágil, daquele
coração que todos calcavam, comoveu-se.
Aproximou-se
dela, impressionado, chamou-a carinhosamente:
—Branca!
Ela fitou-o na humildade dum olhar que implorava
e que as lágrimas tomavam mais brilhante,
murmurando:
—Eu vim aqui porque me parecias diferente dos
outros, porque me trataste com alguma bondade,
porque julguei que tinhas piedade de mim. Bem sei
que nada me deves, que não tenho direito de ser exigente
e de meter-me nos segredos da tua vida...
Mas que queres? Costumaste-me mal. Pensei que não
me empurrasses com violência... Desculpa-me!... Eu
vou já embora. Deixa-me sossegar um instante...
—E quem é que te empurra?—exclamou êle,
comovido. Escuta... Eu é que te peço
perdão da
minha brutalidade... Mas, minha filha tu ignoras as
minhas crises íntimas, os desgostos que me enfurecem.
Fui arrebatado, é certo. Mas, se soubesses a
razão
do meu arrebatamento, absolvias-me.
Branca enxugou os olhos, levantou-se vagarosamente
do sofá, foi para êle com um sorriso dolorido e
risonho, já esperançada.
—O quê? Pois não me repeles? Queres
então
um pouco a uma mulher como eu, que se devota
como os cães e que todos enxotam, queres? Então,
que Deus te pague!... Mas que tens? Que desgostos
são êsses em que falas? Oh! se não
podes dizê-los,
guarda-os para ti só, que eu não fico
ressentida...
—Pois é o diabo, filha... Maçadas...
Gaguejava, sem saber o que havia de dizer,
muito confuso, temendo que ela descobrisse as suas
mentiras, incapaz duma atitude resoluta.
—Até estava agora para ir a tua casa, dizer-te
tudo, explicar-te tudo...
E de repente, o subterfúgio que procurava iluminou-se-lhe
na inteligência. Concluiu, perturbado e
contente:
—Tenho de sair do Porto, hoje, infalivelmente.
—E demoras-te?
—Algumas semanas. Imagina! Ontem à noite,
inesperadamente, recebi um telegrama de Lisboa
chamando-me a tôda a pressa para junto duma tia
minha que está a morrer!...
—Ah! então!...
—Pensa na minha angústia! Esta tia, é a
única pessoa que me
resta duma família que se extingue...
E nem sequer posso levar-te comigo... Bem vês! É
caso de gravidade... Mas volto. Volto logo que seja
possível, para a continuação do nosso
amor.
—Se eu pudesse acompanhar-te, Frederico!—exclamou
ela resignada.