—Mas não podes. Como queres tu?...
—Não! Estou doida, efectivamente... Mas não
me deixas?... Não estás zangado comigo?
—Zangado, eu? Que ideia... Espera um momento.
Foi dentro, ao escritório, abriu o cofre, tirou um
maço de notas, felicitando-se pelo ardil encontrado,
satisfeito na sua covardia por cortar com Branca mais
suavemente do que pensava; e, reentrando na sala
meteu-lhe o dinheiro na saquinha de mão, murmurando:
—Leva! Podes ter precisão dêle, enquanto eu
não regresso...
—Mas!...
—Nada de recusas. Ordeno eu. E agora vai, e
sê-me fiel. Mandar-te hei noticias minhas. Dá-me
um
beijo e adeus!
Quando Branca desceu a escada e entrou apressadamente
no automóvel, que largou numa corrida
vertiginosa, Frederico soltou um suspiro de alívio...
X
Dois, três vagarosos meses decorreram com uma
lentidão cruel para Frederico, que sentia por vezes a
impressão do tempo se ter imobilizado, de tudo
cair
à sua volta numa inêrcia que o apavorava,
inspirando-lhe
um terror mais forte pela vida, exaurindo-o
totalmente de vontade. Saíra do Pôrto na
intenção
de partir para o estrangeiro, de se demorar por
lá, em cidades ruidosas ou sossegados logarejos onde
encontrasse algum repouso, até que o seu amor impuro
se lhe apagasse no coração como se apaga uma
luz que muito tempo espalhou claridade; mas, desde
que chegara a Lisboa, encontrou-se mais só, mais
desalentado e mais inquieto, arrependendo-se amargamente
de haver deixado
a rua em
que vivia, a casa
em que nascera, perseguido por um mêdo absurdo e
quáse infantil, por uma cobardia deplorável, e
por
uma fraqueza de alma que o envergonhava...
As sensações sucediam-se-lhe com rapidez
assombrosa
no sentimento. Na capital, parecia-lhe que
entrara numa região de imensa solitude—uma solitude
que o oprimia, que lhe constrangia, apertava o
coração. Como se tinha enganado! Imaginava que a
distracção das viagens lhe curaria ou, pelo
menos, atenuaria
o extraordinário mal que tanto o fazia sofrer:—e
agora nítidamente via que, quanto mais se afastasse
de Júlia, mais êsse mal se agravaria. A
doença estava
inteiramente dentro de si:—na sua imaginação,
nos seus nervos, na sua sensibilidade, no seu
sangue! A dor que o atormentava nada mais era do
que um dos variados aspectos do padecimento humano,
a eterna miséria dos sêres conscientes. Provinha
das tiranias
implacáveis da carne, da animalidade, da tristeza
infinita dos destinos, das fatalidades a que
ninguêm pode eximir-se! Fugir para onde? Esconder-se
em que sítio? A sua tortura permanente havia de
acompanhá-lo para tôda a parte, como certas
enfermidades
que não perdoam e que sem descanso, noite e
dia, devoram o organismo de que se apoderam...
Pensando constantemente em Júlia, formara no
espírito uma imagem dessa doce mulher muito mais
viva do que a personalidade real. Dêste fenómeno
derivava a sua excitação, o seu frenesi. Era essa
imagem,
precisamente, que nêle activava a luta entre a dignidade,
a elevação moral e o desejo lúbrico,
entre
a noção do dever e o cego instinto. Considerando
como
absolutamente inútil para a sua paz—a paz de que
tanto carecia—a vagabundagem pela Europa em
que durante dias pensara, decidiu ficar em Portugal,
conservar-se em Lisboa, envelhecer a um canto do
seu país, respirando o mesmo ar que vivificava
Júlia,
alumiar-se
com a luz do sol que tambêm a iluminava
a ela. Para a infinita melancolia do seu amor,
havia um grande encanto nestas pequeninas coisas.
Aquela adoração sem esperança
comunícava, em todo
o caso, a radiação da sua beleza
intangível a tudo o que
o cercava, penetrava-o de suavidade, tinha o condão
misterioso de lhe ressuscitar na memória figuras queridas
em que lhe era grato meditar. O vulto de Júlia
andava íntimamente ligado, na sua
recordação,
às paìsagens rústicas que ambos tinham
contemplado
num mudo êxtase, a certas páginas de
música que Frederico
lhe ouvira tocar ao piano, aos plácidos serões
na casa de campo onde vivera dias inefáveis, antes da
tempestade emotiva em que agora se debatia. Lembrar-se
dela era lembrar-se tambêm dos episódios
ocorridos durante as horas iniciais duma paixão que
começara, insidiosamente, por
admirações comovidas
de virtudes e de bondades que a ennobreciam e
que, depois, sem saber por que secretas
elaborações
de sentimento, se transformara em delírio, em loucura.
Fôsse para onde fôsse, havia de
aguilhoá-lo
a agitação que lhe não dava um minuto
de
tréguas, continuaria a queimá-lo a febre em que
se gastava, se consumia, como os troncos secos se
consomem numa fogueira. Afastar-se ainda mais
para quê? Separava-o já de
Júlia uma grande distância
e nem por isso a sua angústia afrouxava. Não
dispunha de coragem para atravessar a fronteira,
correr nacionalidades estranhas, observar outros povos,
outros costumes, outras civilizações. No seu
presente estado de alma, nada veria, nada compreenderia.
Em Lisboa, estava entre a sua gente, tinha
relações, poderia conviver, procurando o
esquecimento.
Foi-se
deixando ficar, num dissolvente abatimento,
sem formar projectos de vida futura, incapaz
de resoluções, de actos enérgicos em
que a sua
vaga individualidade se afirmasse. Fechava-se dias
inteiros no quarto do hotel em que se instalara, ruminando
o seu tédio, folheando livros que se arrastavam
indefinidamente por cima das mesas e das
cadeiras, fumando. À noite, ia aos teatros, encontrando
uma vez por outra algum conhecido com quem
se entretinha em palestras sem interêsse. O seu
gôsto
era estar só, para relembrar, no silêncio, coisas
que
lhe eram inefáveis. Reentrar na sua paz antiga, sentir
de novo a alegria de viver, seria a libertação:
mas, para isso tinha de esquecer, e o esquecimento
era-lhe impossível. Bastava o facto mais insignificante
para lhe despertar na emotividade as sensações
da sua primitiva ternura, para lhe dilatar amorosamente
o coração. A depressão constante e
progressiva
da vontade que em si desfalecia levava-o a acusar-se
duma fraqueza que o aviltava: mas não
empregava esforços para reagir. Deixava-se governar
dócilmente por uma atracção
misteriosa.
Em certos momentos, julgava-se pueril. Com
efeito, porque sofria êle tanto? Que crime havia praticado?
Que falta grave era a sua, para que assim se
entregasse passivamente a um desespêro que o devastava?
Não poderia
êle amar
Júlia, a espôsa do seu
maior amigo, sem se manchar de ignomínia, sem se
envilecer? Talvez. Mas, se o corpo, a grosseira matéria
de que era constituido, o empurravam para êsse
amor, a sua alma, que era a essência, que representava
a porção de divindade que cada homem digno traz
dentro de si, opunha-se tenazmente. Êste antagonismo
entre a carne e o
espírito que dentro dêle se
fazia
não era uma nítida prova da sua nobreza moral?
Pecava
pelos sentidos mas purificava-se pela razão. E o
seu pecado todos o absolveriam. Experimentava alguma
doçura em relembrar Júlia, porque não
podia
viver sem a recordação saùdosa dum
amor de que
só êle sabia e que representava o facto dominante
da
sua existência. Ninguêm conseguirá,
fácilmente, desabituar-se
da felicidade—e amando Júlia em segredo,
considerava-se relativamente feliz. Na desolação
duma existência sem outro ideal, essa
adoração
tinha a graça duma flor e mergulhava-o na beatitude
dum quimérico sonho que lhe dava a ilusão da
ventura. Mas não iria mais alêm, não
ultrapassaria os
limites estreitos em que a sua desgraçada paixão
se
confinara. Para que havia de atormentar-se com tam
sombrio ardor?
A primavera veio, outra vez, cobrir os arvoredos
de folhagens tenras e verdes, reflorir os jardins,
tocar as paìsagens de maravilhosas tintas. A luz era
já mais límpida e vibrante; o sol trespassava o
azul
da atmosfera como uma enorme flecha de ouro. Uma
vida mais jovial renascia. Nuno, que contínuamente
escrevia a Frederico, na ignorância das mentiras por
êle inventadas para se afastar e do conflito moral e
sentimental em que se debatia, anunciou-lhe, numa
longa carta, o propósito em que estava de regressar
à
quinta novamente, ficando por lá a fortalecer e a
renovar-se,
entre a beleza rural e as coisas simples,
até que o filho crescesse e o obrigasse a residir na cidade,
para lhe vigiar de
perto a educação.
Preparava
tudo para uma longa ausência do Pôrto, onde
só voltaria,
em rápidas visitas, de fugida, quando negócios
urgentes a isso o forçassem. E pedia-lhe que se
não
demorasse mais, que não prolongasse um afastamento
inexplicável que justificava com pretextos
sempre fúteis e que o intrigava.
—«Com efeito—acrescentava Nuno—eu e Júlia
temos pensado muitas vezes que existe na tua
vida um segrêdo. Qual? Não o sei nem quero
sabê-lo,
pois se na verdade me não iludo e tu o escondes,
é porque me não julgas digno de o conhecer. Mas,
seja como fôr, vem daí assistir, na aldeia,
à ressurreição
das flores e à aleluia da graça!...»
Esta carta despertou violentamente tôdas as ideias
e reminiscências que existiam no seu cérebro.
Outra
vez viu iluminar-se-lhe diante dos olhos deslumbrados
aquela tarde em que a beleza de Júlia pela
primeira vez o impressionou vivamente, quando ela,
debaixo da mosqueteira que vergava de corolas, se
cobria das florações que caíam de alto
como uma
chuva loura e lhe evocavam docemente a lenda pagã
de Júpiter, descendo num orvalho dourado sôbre o
corpo branco de Danae. Outra vez recordava a angústia—que
nunca mais deixou de pungi-lo—com
que fizera a descoberta dum amor que devia morrer,
porque era impuro; a noite de perturbação e de
terror que se seguiu a esta revelação singular; a
ansiedade
com que, logo ao raiar da alvorada, fugiu
para o Pôrto à procura duma serenidade, duma
pacificação
que nunca mais encontrou—recriminando-se
pelo facto de haver-se abrigado sob um teto, que
afectuosamente o acolhera, para manchar uma honra,
para trair uma amizade, para roubar uma ventura
que a outro legítimamente pertencia, para violar no
seu próprio santuário
emoções castas, para cometer,
na alucinação da sua luxúria, um
sacrilégio. A intensidade
da veneração consagrada a Júlia
tornava-o
excessivo na fúria com que se acusava: e as
evocações
eram por tal forma nítidas que o seu padecimento
agravava-se, excitando-lhe a cobardia, aumentando-lhe
o temor de voltar a aproximar-se duma mulher
que, por muito respeitar, não queria tornar a ver.
Sofria duplamente pela certeza evidente da sua paixão
e pelo enfraquecimento duma dignidade que sentia
escapar-se-lhe, deixando-o à mercê de impulsivos
desatinos.
A própria alma se lhe dissipava a esta
recordação.
Perdia a confiança em si mesmo. A sua
situação
surgia-lhe perante a consciência como um abismo—cheio
de idêntica sombra, de idêntico
mistério, de
igual silêncio enigmático. Outrora, pensava que
todos os homens podiam dominar-se, mesmo no
confuso turbilhão das emoções
desencadeadas, porque
para isso dispunham da fôrça que deriva do
raciocínio
e da sua superioridade de conscientes; e agora,
pretendendo exercer sobre si próprio êsse
domínio,
não o conseguia, por mais que o tentasse. E
porquê?
Porque a sua vontade não era íntegra e
suficientemente
enérgica? Porque as paixões eram mais fortes
do que o carácter, tendo o poder de comunicar à
razão, à inteligência, aos sentimento
elevados, o seu
fogo criminoso? Parecia-lhe que sim. E tambêm lhe
parecia que apenas os homens que saíssem vencedores
das lutas em que êle impotentemente sucumbia,
deviam ser considerados os verdadeiros heróis...
Sucedesse, porêm, o que sucedesse, estava decidido
a nunca mais entrar em
casa de Nuno. Ao cabo de
pacientes e dolorosas análises, pressentia que, em
face de Júlia, não se conteria, deixaria
transparecer
o seu drama oculto, se denunciaria. A fuga era a
salvação!
Mas regressaria ao Pôrto, certamente, agora
que Nuno o informava da sua mudança para a aldeia
onde ia instalar-se durante anos. Lisboa enfastiava-o
já até à fadiga. Julgava-se
estrangeiro dentro
dessa cidade, entre uma população tam diversa
da do norte, pela índole, pela origem, por
diferenciações
de casta. Tinha-se libertado definitivamente das
complicações que a episódica e
transitória ligação com
Branca trouxera à sua atribulada existência.
Rompera
para sempre com ela, embora se separassem como
amigos que, juntos, correram atrás duma ilusão
irrealizável
e de cujo encontro ficaria alguma coisa de
doce. Como era um fraco de temperamento, um indeciso,
pensou em prolongar com ela uma triste mentira
que seria cómoda para o seu egoísmo e para a
sua indecisão. Temeu, porêm, as futuras
consequências
dessa mentira e sentiu a necessidade do mostrar-se
sincero. O mais leal, o mais concordante com uma
bondade que o nobilitava era desenganá-la com uma
franqueza resoluta:—e assim procedeu, penalizado
com a lembrança das lágrimas que a sua
deliberação
provocaria. Mas era preciso! Branca aparecia-lhe
como uma atroz mancha na sagrada brancura
do seu único e verdadeiro amor. Não podia mais
aceitar-lhe os beijos sem repugnância instintiva, sorrir
às suas carícias sem um desejo muito fundo de
repeli-la com rancor, com ódio. Perguntava mesmo
como esta incompatibilidade carnal entre êle e a sua
amante dalguns meses só agora se definia claramente,
sem encontrar uma
explicação para
êsse fenómeno...
Escreveu-lhe, de Lisboa, anunciando-lhe o fim
duma aventura que tinha de acabar, pedindo-lhe
que lhe não quisesse mal, que dêle conservasse uma
lembrança afável:—e quando, perturbado,
inquieto,
imaginava que Branca não aceitaria a ruptura
sem clamorosos escândalos, soube que ela se resignara
inteiramente, procurando e encontrando logo
outras ligações. Esta certeza desanuviou-o.
Um domingo, por acaso, passeando tristemente
na Avenida da Liberdade, onde já floriam as olaias
sob a doçura e o afago da luz primaveril, deparou,
inesperadamente, o jovial Paiva, que descia o passeio
em sentido oposto, fitando com enternecimento as
belezas femininas que passavam na festa esplêndida
do sol. Foi para êle cheio de contentamento, apertando-lhe
efusivamente a mão, interrogando-o com
afabilidade:
—Oh! scelerado!... Tu por aqui?
—Oh! admirável Frederico! Que feliz encontro!...
É verdade, por aqui, nesta doce e morena
Lisboa.
—E êsse Pôrto, êsse namôro?...
—O Pôrto, creio que está no mesmo
sítio, com
a sua monotonia, a sua tristeza de burgo histórico
inamovível. Quanto ao idílio, findou como tudo
finda:—Roma, Bizâncio, Cartago!...
E pousando a mão magra, em que fulgia a pedra
fina dum anel, no ombro de Frederico, acrescentou,
sorrindo:
—
Tout casse, tout lasse et tout
passe! Os franceses
teem razão.
Deram uma larga volta, conversando, recordando
episódios esquecidos, espairecendo. Paiva
achava que as mulheres de Lisboa eram lindas e perturbantes,
com uma graça, uma distinção, um ar
encantador:
—Vê a elegância com que elas pisam, menino!
E que corpos, que harmonia de formas, que ritmo!
Sobretudo, que ritmo!...
—Tu vens obsceno do Pôrto, homem—comentou
Frederico.
—Pois como diabo querias tu que eu viesse?
Sim! Como querias?!...
Voltaram ao Rocio, entraram no Martinho,
sentaram-se a uma mesa, pedindo cerveja; e então,
Paiva informou Frederico do desfêcho grotesco do
seu curto romance com Branca. Estava agora com
um capitalista—o Luís Tavares—que há muito
cobiçava a sua formusora, o seu encanto decadente.
—Um capitalista, hein?—perguntava Frederico,
bebendo o seu
bock.
—De-certo. Um capitalista... O Tavares...
Tu conheces. Ora! Não conheces tu outra coisa.
—Com franqueza, não me ocorre... Mas
estimo! Coitada da pequena. Tam bôa rapariga!...
Um anjo.
—É gentil, da tua parte, esse desejo de fazê-la
entrar nos córos celestes. Mas não vás
mais longe,
não a metas entre as Onze Mil Virgens...
Paiva, acendendo um charuto, deu mais esclarecimentos:
—É babadinho por Branca, o Tavares. Oferece-lhe
quanto ela quere.
—Estás óptimamente informado!
—Foi Luísa que me contou tudo.
—É verdade:—ainda dura essa paixoneta?
—Não, caramba! Eu gosto da variedade. A
igualdade assusta-me... Luísa tambêm se colocou—e
entre a magistratura. Está por conta dum desembargador
que, no seu doce regaço, esquece as leis, os
códigos,
pousa a severa espada da justiça e humaniza-se.
Mas, é claro, encontrâmo-nos de vez em quando.
Às vezes, por fantasia, por capricho—ela é
caprichosa—sobe à minha trapeira romântica de
boémio,
como uma Musa... E narra-me, entre beijos,
a crónica mundana dos amores envergonhados.
—Que progresso, o dessas damas! Uma com o capital,
outra com a jurisprudência, ambas influindo,
talvez, na vida nacional, governando-a como Aspásia
governava Atenas!
—Meu rico! Ambas nos devem muito. Fomos
nós que as ensinamos a ter linha. Praticamos uma
acção meritória—acrescentava Paiva,
cínicamente.
Frederico bateu as palmas, pagou a despesa. Levantaram-se,
saíram.
—Queres tu hoje jantar comigo, ó Paiva
magnífico?
Ando tam só, tam desalentado!...
—Não posso. Muito que lidar, uma tia rica e
vélha de quem sou o melhor dos sobrinhos e o mais
necessitado dos herdeiros, outros casos de consciência.
Jantar contigo era uma bela ideia. Mas não posso...
Não sei mesmo quando poderei. Acho que tenho
de seguir com minha adorável tia para o Alentejo,
onde vamos visitar uns domínios territoriais que
virão
talvez a pertencer-me!...
Separaram-se. Paiva enfiou pela rua do Ouro,
soberbo de petulância, fitando insistentemente as
mulheres que passavam, e Frederico, mais aborrecido
e mais triste, reentrou no hotel, fechando-se no seu
quarto e estirando-se num sofá, farto até
à saciedade
de Lisboa, onde nada o prendia, e ansioso pelo regresso
ao Pôrto, donde tantas recordações o
chamavam.
O seu terror, a sua inquietação moral
desvaneciam-se,
pois que Nuno e Júlia iam partir—talvez
mesmo já tivessem partido—para a aldeia. Fumando
uns cigarros atrás dos outros, entregava-se com mais
subtileza crítica à
observação do caso singular que o
trazia em alvorôço permanente, que de-certo
derivava
da exaltação nervosa, duma violenta
paixão—mais
lasciva do que espiritual—insatisfeita, das
ásperas solicitações da carne bruta,
da infinita miséria
física do amor, de tudo o que faz do homem um
animal vivendo pelo instinto grosseiro e não pelas
finuras, pelas delicadezas da alma. A sua análise escolhia
de preferência os sentimentos da intimidade
moral, porque as imagens da vida exterior exasperavam-no.
Começava a achar ridícula aquela desvairada
fuga diante da mulher para quem um ardente
desejo e uma invencível simpatia o impeliam e de
quem a razão e a dignidade o afastavam, intimidando-o
como se êle fosse uma criança, um
irresponsável,
e não dispusesse duma inteligência. Reconheceu, no
entanto, que perdera a confiança em si mesmo, que
era mais um autómato, dirigido por
fôrças ocultas,
do que um ser moral, governado por ideias e
emoções
próprias...
Levantou-se, caminhou para uma janela aberta,
curvando-se um momento sôbre o peitoril. A
população
atulhava as ruas que o sol dourava; os carros
eléctricos desfilavam uns atrás dos outros,
abarrotados
de gente; pelos passeios erravam janotas ociosos,
e oficiais do exército arrastavam espadas nas
pedras. Era a scenografia de todos os dias, que já o
fatigava; surpreendeu-se a apetecer, mais do que
nunca, o isolamento da sua casa do Pôrto, longe de
tôdas as curiosidades, como um cenobita, entre livros
e entre recordações suaves. Com que prazer
começou
a fazer as malas, para abalar no dia seguinte, sem
mesmo prevenir os criados da sua volta! E como foi
consoladora para a sua saùdade a hora em que reentrou
na vivenda pacífica e cheia de lembranças
familiares
que o enterneciam! Tinha a ilusão de que em
tudo o que o rodeava havia uma parte da sua personalidade,
alguma coisa do seu coração, uma beleza
indecifrável que para êle se iluminava. Bernardo,
que o recebeu com um riso satisfeito e que o achava
mais magro, mais mirrado, pareceu-lhe um amigo
venerável. As árvores do jardim, cobertas de
fôlhas
que o sol tocava de luz, ramalhavam alegremente à
aragem, saùdando-o.
—Venho arrasado, Bernardo, arrasado!—disse
êle para o criado.
—Pois assim, sempre nessas idas e vindas, nem
pode medrar, meu senhor.
—Tens razão. Tu é que tens razão.
Não posso
medrar, dizes bem. Oh! mas agora, vais ver. Vou repousar,
recuperar o perdido. Engordarei, não saírei
de casa, como os gatos.
—Santo nome de Maria, com que o patrão se
compara!...
—E então? Haverá porventura nada mais caseiro,
mais apegado ao borralho, do que um gato?
Nos primeiros tempos, com efeito, Frederico, todo
ocupado no arrumo das suas coisas, passava os dias
encerrado na habitação, saíndo apenas
de noite, depois
do jantar, quando a cidade começava a ficar deserta
e êle não corria o perigo de encontros importunos.
Dava longos passeios, como se pretendesse extenuar-se,
acalmar a agitação permanente do seu
espírito.
Foi precisamente numa destas caminhadas nocturnas
que uma vez, insensivelmente, se surpreendeu defronte
da morada de Nuno, mergulhada em sombra e mudez.
Parou a olhá-la como se quisesse lobrigar nas
vidraças
reflexos de luz interior que denunciasse a presença
de sêres vivos. Não viu nada e êste
facto
comunicou-lhe alegria e tranqùilidade. Depois, como
uma polícia se aproximasse a passos lentos, mirando-o
com desconfiança, reencetou a marcha, murmurando:
—Bem! Já cá não está!
E sentia contentamento pela sua descoberta—um
contentamento quáse infantil. A ausência de
Júlia e de Nuno garantia-lhe uma quietude relativa.
Isto animou-o. Absolutamente certo de que o amigo
estava agora longe, começou a aparecer de dia, a
freqùentar os centros de conversa, a mostrar-se. Reatou
convivências durante muito tempo interrompidas,
para se distrair, para atenuar a violência do seu
mal, que, no entanto, ia crescendo com o desalento
que o minava. Mas, uma tarde, ao descer os Clérigos,
vago, alheado, viu-se inesperadamente diante dalguêm
que gritava o seu nome, que para êle avançava,
de braços estendidos, berrando:
—Ora ainda bem que te encontro. Que diabo
tens tu feito? Por onde tens andado? Que mal te fiz
eu? Dize!...
Era Nuno! Frederico estacou, empalidecendo
um pouco, muito comprometido, gaguejando desculpas,
interrogando-o:
—Pois, estás no Pôrto?
—Justamente! Estou no Pôrto. Tive de vir
aqui a tôda a pressa, buscar coisas que nos eram essenciais,
a mim e a Júlia, ao nosso brando retiro.
—E ela como está, tua espôsa? E êsse
querido
herdeiro?—perguntou Frederico, já mais sereno.
—Magníficos. Gozam duma saúde de ferro.
—Como já te disse em carta, só em Lisboa tive
conhecimento da doença de teu filho e tu
tranqùilizavas-me...
Nuno contemplava-o com interêsse. Estava mais
abatido, mais gasto, havia fundos vincos na sua face,
cabelos brancos na sua cabeça, tristeza no seu rosto
e era cansado o riso da sua bôca.
—Demoras-te por cá?—inquiriu Frederico.
—Não. Sigo daqui a horas, em automóvel. Ah!
Já me esquecia dizer-te... Tenho agora automóvel
na quinta, introduzi no meu viver pacato esta comodidade.
E era preciso. Não estamos livres duma súbita
doença, do imprevisto... E é verdade:—essa
visita? Quando te resolves? A não ser que a nossa
companhia te desgoste...
—Oh! Nuno! Pois acreditas?...
—Não afirmei nada. Exprimi apenas uma dúvida.
E olha que, na realidade, tanto eu como Júlia
te temos estranhado... Para que hei de esconder-te a
nossa surprêsa?
—Tolices... E podes crer que não falto... Mas
mais tarde. Ainda tenho prisões. Hei de ver...
—Não hás de ver nada. Quero saber o dia, a
semana,
ou então o motivo dessas hesitações...
—Bem! Por todo êste mês, contem comigo...
Para onde vais?
—A Carlos Alberto, fazer umas encomendas.
O meu automóvel deve lá estar. Acompanhas-me?
—Não posso. Desculpa. Coisas urgentes a resolver...
Mas, espera-me em breves dias.
—Esperarei.
—E recomenda-me lá em casa... Beijos ao
morgado.
Despediram-se, seguindo em direcções opostas.
Nuno, ágilmente, Frederico, mais acabrunhado.
Santo Deus! O facto que tanto temera sempre, dera-se,
afinal. E agora? Como poderia fugir mais uma
vez, libertar-se, sem levantar suspeições? Como
julgaria Nuno uma nova fuga, que já não poderia
justificar honestamente? Era-lhe impossível prolongar
por mais tempo uma tam cómoda mentira,
continuar iludindo. A fatalidade empurrava-o, definitivamente,
para o desconhecido e com uma fôrça
a que não conseguiria resistir. O que iria acontecer?
Que rudes formas de tortura adquiriria o seu
desespêro? Vacilava, sem encontrar uma evasiva
tam profundamente desejada.
Tudo o que no seu ser existia de tímido, de
cobarde, de dúbio, despertava, exacerbando-lho o
terror. Deambulando na rua, a largos passos, falava
sòzinho, em voz alta e numa tal
excitação que
parava gente intrigada a observá-lo.
—Com certeza que não vou!—afirmava.
Mas se não fôsse, o que pensaria Nuno? Que
desastrada ideia tivera em deixar Lisboa, em não
ter ido para o estrangeiro, para tôda a parte onde
a vida lhe oferecesse um pouco de sossêgo! Para
que voltara ao Pôrto? Recordava-se de haver lido
em Dostoiewsky que os criminosos andam à roda do
seu crime—de que não podem afastar-se—como as
borboletas à roda da chama em que se queimam.
Era êsse fenómeno psíquico que se dava
com êle,
naturalmente...
Cruzou com um carro que fugia na calçada. De
dentro, uma graciosa cabeça de mulher inclinou-se,
espreitando e sorrindo irónicamente. Frederico reconheceu
Branca.
Até aquela o desdenhava. Que
vida, que miséria! Encontrava-se numa encruzilhada,
completamente desnorteado. Que caminho tomaria?
Apressou a marcha, aguilhoado por uma inquietação
muito íntima e muito funda. Passavam-lhe
na mente tentações tenebrosas.
Únicamente de
si próprio, duma instantânea
fulguração de coragem,
dependia a quietação perpétua. A
solução pareceu-lhe
bôa, por instantes; mas logo, raciocinando mais
detidamente, monologou:
—Era a mesma coisa, a mesma denúncia...
E, depois, sou um poltrão...
Nesta dúvida permanente, que tornava mais
cruel o seu sofrimento, viveu Frederico todo o resto
do mês, caído numa misantropia que o assustava,
nos raros momentos em que lúcidamente podia reflectir.
Tinha-se outra vez encerrado em casa, fechando
a porta a tôdas as curiosidades importunas,
e levava os dias num desespêro que apenas a imagem
serena de Júlia a espaços lúarizava. A
sua irresolução
era maior, mais tormentosa a sua angústia.
Sentia a necessidade duma fé religiosa que lhe iluminasse
o espírito
árido, que o apaziguasse.
Assaltava-o
o receio de enlouquecer. Bernardo aterrava-se. com
a fixidez do seu olhar em que brilhava alguma coisa
de bizarro e de mau...
Um dia de manhã, o correio trouxe-lhe uma
carta—a carta a tôdas as horas esperada. As mãos
tremiam-lbe, quando lhe pegou. Rasgou o
enveloppe,
abriu-a e leu, com um rubor de vergonha na face,
estas linhas sêcas e curtas de Nuno:
«Na verdade há uma razão secreta que te
afasta
desta casa, da minha amizade, da minha confiança.
Desconheço-te e a tua atitude inexplicável
preocupa-me. Existe entre nós um equívoco que
não
deve continuar por mais tempo e de que tu, francamente,
me informarás. O teu procedimento, que me
intriga, parece mais uma provocação do que outra
coisa; e o nosso antigo afecto de tôda uma mocidade
dá-me o direito de exigir-te
explicações.»
A carta terminava com mais algumas palavras
que a humanizavam, lhe atenuavam a rispidez. Então,
tôdas as indecisões de Frederico se dissiparam.
Efectivamente,
reconhecia a sua culpa. Nuno tinha
motivos para estar magoado, para o recriminar. Que
homem era êle?—pensava Frederico, espreitando,
espavorido, a consciência. Queria furtar a sua dignidade
de amigo a atracções que a manchariam, e
comprometia únicamente as suas
afeições mais puras.
E tudo isto porquê? Pelo temor absurdo de praticar
uma acção vil. Mas, não dispunha
êle duma inteligência
capaz de compreender os eternos problemas
do Bem e do Mal e duma energia capaz de resistir às
alucinações criminosas?
Chamou o criado na electrização duma vontade
que o vitalizava, mandou encher uma grande
mala de madeira, recoberta de couro, com roupa e
calçado, ordenou que lhe fôssem buscar um
automóvel,
e sem pensar, sem calcular as conseqùências da sua
carreira cega e vertiginosa para o amor e para a vergonha,
ou para a libertação e para a morte, partiu.
Ainda confiava numa coisa:—a sua timidez. Nunca
teria a audácia de revelar a Júlia o seu
segrêdo. Se
ela o perscrutasse e o aceitasse sem cóleras fulgurantes,
talvez a sua natureza imperfeita sucumbisse;
mas, pura, como era, ignorando as torpezas do
coração
humano, nunca ela o adivinharia. A sua adoração
continuaria, portanto, oculta, fazendo-o sofrer apenas
a êle...
Volvidas horas duma impaciente correria por
estradas que cortavam através de espraiadas veigas,
de descampados, de terras de cultivo, de pinheirais
rumorosos, Frederico parava diante do portão da
quinta, tam seu conhecido, ao latir furioso dos cães de
guarda. Já pelas grades pintadas de verde floriam as
roseiras de trepar, e tôda a aldeia reverdecia, como
numa festa, sob as aragens perfumadas e o ouro dum
sol criador e maravilhoso de luz, descendo dum céu de
esmalte azul. Nuno que estava à varanda olhando
distraídamente
as montanhas que ao longe se esfuminhavam,
na vaga névoa, vendo deter-se um automóvel,
desceu apressadamente ao jardim, sem esperar
pelo criado e atirando uma saùdação
amigável ao viajante,
que sacudia a roupa empoeirada. Abraçaram—se
com efusão. Frederico repreendeu-o:
—Que estúpida carta foi aquela, Nuno?
—Não foi estúpida, foi estimulante. Se me
não
zangasse sériamente, não vinhas. E olha que
começava
a não saber o que pensar... Mas vieste. Tudo se
esclareceu. Esqueçamos êsse
desagradável incidente...—explicava
êle, dirigindo-se a casa.
Trémulo, transtornado, esforçando-se por
conservar
a tranqùilidade aparente, tôda superficial,
Frederico
acompanhava Nuno, que cruzava o jardim a
passos largos. Ia tornar a ver Júlia perto de si.
Há
quanto tempo a não via! Quáse um ano—uma
eternidade
para quem ama como êle amava—tinha decorrido,
desde que se separaram. A sua perturbação
aumentava,
o coração pulsava-lhe com violência, o
sangue
circulava-lhe apressadamente nas veias.
—Júlia, Júlia!—bradou Nuno, ao subir, com
Frederico, a larga escadaria de pedra, sob as glicínias
brancas e rôxas, que conduzia ao primeiro andar.
Ela apareceu logo, à porta de entrada, com o filho
ao colo, muito risonha, muito còrada e afàvel.
—Cá está o pródigo!—zombou Nuno.
—Que volta ao calor das vélhas amizades,
arrependido da sua prodigalidade—concluiu Frederico,
apertando a mão que ela lhe estendia, aberta e
leal, e beijando a criança com ternura, quáse com
devoção.
—Pensei que nos tinha esquecido...
—Oh! minha senhora... E como pôde supôr...
Ergueu, a cabeça e fitou-a pela primeira vez
mais demoradamente, muito perturbado, tentando
sorrir. Ela encarou-o tambêm, satisfeita, com uma
grande alegria no rosto. Os seus olhares cruzaram-se.
—Se lhe parece! Que devíamos pensar, então?...
Mas perdoamos-lhe, pelo muito que o estimamos, não
é verdade, Nuno?
Êle fez um gesto de assentimento, muito contente.
—Só por esta vez... Para a outra, não
haverá
perdões!—ameaçou Júlia.
Enleado, sem saber o que responder, Frederico
refugiou-se todo na inocência do pequerrucho, que
sorria enlevado, agitando as mãozinhas côr de
rosa.
—E cá o figurão? Admirável,
não é assim?—perguntou
êle, tocando-lhe com a ponta do dedo
levemente, afagando-o.
—Está excelente, agora. Mas inspirou-nos um
susto!...
—Eu sei, eu sei. Nuno contou-me tudo.
—Oh! menino, deixa as expansões para logo—atalhou
Nuno. Teremos muito tempo de tagarelar,
durante esta deliciosa primavera. Porque deliberei não
te deixar evadir daqui tam cedo. Agora és meu prisioneiro...
Vai-te arranjar. O quarto é o mesmo do
ano passado... Cá em casa nada mudou. Amamos
as tradições.
Frederico aproveitou a ordem providencial do
amigo, que vinha libertá-lo duma
situação de momento
a momento mais penosa para êle, exclamando:
—Então, se V. Ex.
a dá
licença, minha
senhora...
—Pois não, pois não!...—declarou
Júlia.
Entrou no quarto para onde os criados tinham
já levado a mala, lavou-se e vestiu-se. O silêncio
envolvente
apaziguava-o, tranqùilizava a sua
perturbação.
Aquela casa, que a luz inundava, era feliz: e a felicidade
foi sempre recolhida e pacífica. Mas, cheio de
desconsôlo, invadido por um desgôsto imenso,
Frederico
perguntava a si mesmo para que viera, porque
não tinha resistido tenazmente às
solicitações de
Nuno. Que leviandade! E como, por irreflexão, havia
concorrido para agravar o seu mal!
Os dias foram passando num desespêro cada vez
maior para Frederico. O seu delírio atingia uma
violência
terrível de instante a instante. Surpreendia-se
muitas vezes a contemplar Júlia em êxtase, quando
à noite, ela, sentada ao piano, interpretava uma dessas
páginas de música que parecem falar da
aspiração
irrealizada das almas para a beleza e para a ventura.
A luz do candeeiro, que lembrava um hálito dourado,
derramando-se no ambiente, batia-lhe em cheio na
massa dos cabelos enrolados no alto da cabeça gentil,
nos ombros, nos lóbulos das orelhas, onde fulguravam
as pedrarias dos brincos. Frederico, sentado
numa cadeira de braços, absorvia-se na sua graça,
no
seu encanto, idealizava-a, considerava como devia ser
infinitamente doce o seu amor e setinosa a sua pele
tam branca, opalizando-se na claridade difusa, enquanto
Nuno, fumando um charuto, vagarosamente
folheava um livro. No fundo do seu coração havia
agora um inexplicável ressentimento, quáse
ódio
por
aquele homem que tirânicamente se interpunha entre
êle e a divina mulher da sua ardente paixão, em
nome dum afecto a que a sociedade—e talvez a
lealdade do seu carácter!—impunham obediência
passiva. Como a influência desta
adoração infindável
se tornasse mais imperiosa e dominadora de
hora para hora, Frederico, temendo o irremediável,
evitava tôdas as ocasiões de se encontrar
só com Júlia.
De dia, se Nuno descia à quinta, êle
acompanhava-o,
procurava interessar-se por coisas que não entendia,
demorava por tôdas as formas o regresso à
vivenda. O tempo estava esplêndido e a scenografia
era, realmente, maravilhosa. Todos os arvoredos do
parque agitavam no ar, brandamente, as ramarias
cobertas de folhagens novas, que os pássaros vestiam
de asas. As acácias douravam-se duma flor que, trespassada
pela luz, dava a impressão duma espuma
de ouro; altos castanheiros da Índia balouçavam
pingentes de florescências brancas e rosadas. As
fôlhas
densas formavam um docel duma côr verde e
tenra. Por vezes, flechas de sol, filtrando-se por entre
os ramos, mosaicavam a areia fina do chão de
manchas luminosas. Ao lado, o jardim enflorava,
exalando-se em perfume. Mais para alêm do muro
que circundava a vasta propriedade, ondulavam em
galgões as dobras de terreno, espraiavam-se os campos
cultivados, os ferregiais, os lameiros em que a
erva crescia, branquejavam casais pequeninos donde
aonde, verdejavam os pastos, subiam na atmosfera
os campanários em que, aos domingos, os sinos,
convocando os fiéis, espalhavam por todo o vale a
música festiva e mística dos seus claros sons. E
ao
fundo, subia a mole colossal das serras, mais fecundas
na base, mais áridas nos cimos, com a sua
decoração
de matagais cheirosos, de pinheirais, de rochedos
cortados em escarpa.
—Que beleza!—murmurava Frederico, enlevado.
—Não é verdade?—inquiria Nuno. Onde
é
que tu encontras êstes espectáculos, esta poesia,
na
cidade, em que tudo é tam pequenino, tam mesquinho,
tam banal?
Depois, levava-o até ao fim da quinta, para
que êle visse os grandes melhoramentos em que
consumira a actividade de todo um estio. Nas terras
de pão, as sementeiras eram prometedoras. Vigorosamente,
os milhos miúdos «viam-se crescer»—como
dizia o velho Mateus, agora mais feliz, bem instalado
na sua granja que devia à generosidade do senhor;
os centeios e os trigais, impando de seiva, arrepiavam-se
à ligeira aragem que sôbre êles corria,
ágil
como um sôpro, fazendo-os encrespar; ramadas e vinhedos
lançavam pâmpanos; todo o vergel se estrelava
de floração. E sobre aquela alegria da leiva
fértil,
caía a luz pura como uma
bênção de Deus.
—Isto é uma verdadeira maravilha, Nuno!—exclamava
Frederico, diante do caseiro que sorria,
agradecido.
—O tio Mateus trata-me a propriedade com
amor.
—Faz-se o que se pode... Mas o patrão é um
santo!—dizia êle para Frederico.
—Oh, homem, olhe que só o Vaticano é que pode
fazer canonizações. Santo, eu? Pecador,
pecador...
—O que tem feito por mim e pela pobre doente
e pelos filhos é mais do que de santo, pois não
é?
Ai! devo-lhe muito, devo-lhe muito.
—É verdade, e como está sua mulher?
—Na forma do costume, a infeliz.
—Alguma doença?—perguntava Frederico,
condoído.
—Uma paralisia... Coitada!
Muitas vezes, saíam para fóra da quinta, pela
porta que servia a parte alugada ao caseiro, davam
grandes passeios através dos prados, internavam-se
nos caminhos sulcados pelas rodas dos pesados carros
de bois, coleando-se entre sebes já floridas, e
só
recolhiam quando se aproximavam as horas do jantar.
Era êste o momento mais doloroso para Frederico,
que tinha de sofrer, diante de Júlia, o seu
suplício
atroz, ouvindo-lhe a voz de ouro, afagando-lhe
com os olhos a beleza a que a maternidade e a certeza
dum amor constante imprimiam mais serenidade e
mais graça, desejando-a com febre e temendo-a, ao
mesmo tempo, por êste desejo impuro que ela, sem
querer, comunicava aos seus sentidos, à sua carne,
à
sua animalidade. Uma noite, durante o serão, a conversa
entre os três animara-se. Discutia-se a incapacidade
dos homens para saberem procurar a sua felicidade.
Os que a encontravam não eram nunca orientados
pela inteligência ou pela finura psicológica,
mas pelo acaso, observava Frederico.
—Sai-lhes a ventura, como lhes poderia sair a
sorte grande, num bilhete de lotaria...
—Essa agora!—atalhou Júlia. É então
a inconsciência
que preside à vida consciente?
—E porque não?—afirmava Frederico. A humanidade
é ainda tam imperfeita!...
—Oh! menino, concede ao menos alguma sagacidade
ao instinto, que poucas vezes se engana.
—Engana-se quáse sempre, porque está submetido
a influências nefastas.
—É levares muito longe a tua furiosa vontade de
negar... Mas, aí tens tu as mulheres, por exemplo.
São duma argúcia!... Sobretudo em
questões de sentimento.
—Pobres delas!—riu Frederico.
—Pobres porquê?—perguntou Júlia, interessada.
—Porque nunca verão claramente as almas.
A sua análise não ultrapassa as
exterioridades—insinuou
com intenção Frederico, em voz apressada
e viva.
Júlia olhou-o demoradamente, enquanto Nuno
comentava:
—São opiniões, pontos de vista.
Sob o olhar penetrante de Júlia, Frederico
baixou a cabeça, perturbado e arrependido de ter
ido tam longe, arrebatado por um impulso que não
pudera dominar. A fixidez da vista dessa doce mulher
cravada nêle inquietava-o. Que queria ela
dizer, comunicar? Ter-se-ia denunciado? Adivinharia
Júlia, há muito, por uma dessas
intuições que certas
criaturas possuem, o segrêdo que êle trazia
escondido
no coração? Atarantado, acrescentou, como
se quisesse desculpar-se, furtar-se àquela
espécie de
interrogatório mudo:
—É claro, há excepções.
Falei dum modo genérico...
E sorrindo lívidamente, com os lábios muito
brancos, uma imperceptível tremura nas mãos,
disse
ainda, voltando-se para Júlia:
—Não pense V. Ex.
a que eu envolvi
tôdas as
mulheres na minha afirmativa...
—Eu fui uma das exceptuadas?—interrogou
ela alegremente. É uma amabilidade de amigo.
O incidente esqueceu, a palestra derivou para
outros assuntos que iam surgindo, mas Frederico
não pôde recuperar a sua serenidade de
espírito. Estava
doido, ia perdendo a noção das
conveniências e,
se permanecesse por mais tempo naquela casa, perto
de Júlia, vergado à tirania da sua
fascinação, viria a
praticar loucuras. Não via, não ouvia, deixava
muitas
vezes sem resposta perguntas de Nuno, que tinha de
o chamar à realidade, exclamando:
—Que diabo de abstracção é essa?
E foi, na verdade, um grande alívio para êle o
instante em que Júlia se levantou, sorrindo de fadiga,
despedindo-se e dirigindo-se ao seu quarto.
Êle e Nuno ficaram ainda no gabinete, à volta da
luz. Havia luar e uma claridade branca batia em
cheio nos vidros da janela. Fóra, tudo adormecia em
sossêgo, na pacificação nocturna.
Quebrando a cinza
do charuto no cinzeiro, Nuno sorria enlevado, e o
amigo, surpreendendo-lhe o sorriso, disse:
—Em que coisas alegres pensas?
—Na minha felicidade. Imagina...
Calou-se, como se se arrependesse, de repente,
duma revelação que ia fazer.
—Imagino o quê?
—Não sabes nada? Não vês nada?... Bem
dizias tu, há pouco, que os homens são rombos de
compreensão, teem embotada a ponta da subtileza.
Frederico observava-o, intrigado, batendo sôbre
a mesa com os nós dos dedos.
—Tu és um amigo, um irmão. Não
és, nesta
casa, uma pessoa estranha. Pertences à família.
Pode,
portanto, dizer-se-te tudo... Júlia está outra
vez
grávida! Assim mo revelou esta manhã... Vou ter
outro filho... Talvez uma filha, para a felicidade
ser completa...
Grávida! Júlia estava grávida! Que
horror!
E como essa certeza brutal o amachucava, o transtornava.
A garganta
constrangia-se-lhe. Fazia esforços
para falar, e não conseguia articular as palavras.
—Mas não me dizes nada, não me felicitas,
não
me abraças por esta ternura que me envolve e que eu
agradeço ao meu doce destino?...
—Ah! de-certo que és bem feliz!...—exclamou
Frederico, por fim.
—Não é verdade?—interrogava Nuno, com a
face banhada de riso e de satisfação.
—Um amimado da sorte!...
Retiraram, por fim, da sala. Um criado veio
apagar a luz e arrumar os móveis.
A noite tempestuosa que Frederico passou!
Que terror e que desalento geravam, para a sua alma
pávida de espanto, as sombrias larvas do delírio?
E que futuro entrevia, sem um ideal, sem um sentimento
mais puro que lhe enchessem a vida e lhe dessem
esperança e coragem! Tôda a doçura que
sonhara
findava repentinamente como uma flor que se
desfolhasse ao vento. Compreendia ágora
nítidamente
que falhara na existência. Na hora de agonia
que atravessava, tôdas as dúvidas se esclareciam
para
a sua inteligência conturbada. Nada ousaria tentar
para fugir a uma condenação fatal, para
reconquistar
uma paz que perdera. A sua consciência era uma
abjecção.
Estava endemoninhado dum pensamento mau,
que não podia arrancar dos sentidos como quem
arranca o ferro duma ferida sangrenta e profunda;
estava possesso do crime em que se envilecera e o espicaçava
como um remorso. Para viver tranqùilo,
seria necessário redimir-se da fúria cada vez
mais
ardente duma diabólica paixão insaciada.
Estendido sôbre o leito, arquejante, Frederico,
de vez em quando, insurgia-se contra o curso das suas
meditações, contra si próprio; mas a
sua revolta era
inútil, não vingava desviar a
atenção concentrada naquela
absurda tortura. E que abismo de torpeza era o
homem! Odiava Nuno fulgurantemente, desejava
que tôdas as desgraças, todos os
infortúnios, se abatessem
sôbre a sua cabeça, que a amargura de
tôdas as
misérias o punisse implacavelmente. Com que vitorioso
grito de triunfo êle lhe anunciara a gravidez de
Júlia! E com que punhalada varara o seu
coração!
Essa nova maternidade sagrada da mulher que amava
era uma suja mácula na santidade da sua
adoração—mácula
bestial. Nuno, fecundando-a entre ásperos
beijos de luxúria e de fogo, na
vibração suprema
do seu organismo físico, poluira o sentimento que na
sua alma abrira puro como uma flor virginal. O filho
que viesse, que já fazia estremecer o ventre de
Júlia,
enxovalharia a mulher para quem a sua veneração
subia como o incenso subia dum turíbulo, na
nave dum templo. E fôra para assistir a esta vilania
que o amigo o convidara para casa, arrancando-o
irónicamente ao seu isolamento. Mas quem o impediria
da vingança, procurando Júlia, revelando-lhe
aquele doloroso segrêdo que trazia dentro de si e
que o sufocava?...
A esta ideia, que por um momento lhe pareceu
justa, encolheu-se, espavorido.
—Que canalha! Que canalha eu sou!—murmurava.
Não, que pavor! Júlia devia ignorar tudo. Era
em saber guardar o mal que o atormentava, que residia
a beleza real do seu sacrifício. E com que direito
criminava êle aquela doce união conjugal em que
tudo
era graça, constância, virtude, pureza? Para que
havia de espalhar a lama no caminho de Júlia e de
Nuno, tam dignos um do outro e da ventura, pela sua
bondade, pela sua abnegação, pela sua lealdade?
Confessar-lhe um amor criminoso, que seria repelido
sem piedade, era dar a conhecer os aspectos mais torpes
da sua alma, que não hesitava em traír o amigo,
disputando-lhe a espôsa, o tálamo, em
ultrajá-lo, ofendê-lo,
humilhá-lo na dignidade do sêr consciente.
De-certo que um dêles era de mais na vida—pensava
Frederico. Mas quem? Nuno, que tam dedicado
lhe fôra sempre, que lhe queria como a um irmão,
na ignorância da serpe do desejo que se lhe enroscara
no corpo e o despedaçava, o comprimia até
à
tortura, que confiadamente lhe abrira as portas do
seu lar—que se fechavam para tôda a gente? Seria
aquela a vítima que o seu egoísmo, a sua loucura
sensual, escolheria? Estas interrogações
passavam-lhe
no cérebro como a fulguração dum
sinistro relâmpago.
Depois, recuperando a lucidez, podendo raciocinar
com mais clareza, Frederico monologou:
—Eu, eu é que sou de mais!...
Ainda não tinha descido tanto no pântano em
que se afogava que não visse, acima da sua perversidade,
alguma coisa de sublime, de luminosamente
grande. Que Nuno, continuasse a viver para o amor,
para a felicidade, para o futuro. Que o seu sonho de
ventura nunca se interrompesse! Êle desapareceria,
já que lhe era honrosamente impossível amar
Júlia
sem incorrer no absoluto desprêzo de si próprio e
sem
traír um afecto mais santificado, e já que
tambêm não
conseguiria viver sem essa adoração. Morreria!...
Por um instante, na solitude nocturna que o rodeava,
pensou em matar-se ali
mesmo, dando um
tiro na cabeça. A detonação alarmaria
tôda a casa,
Júlia acudiria, aos gritos, pousaria, talvez, o primeiro e
último beijo na sua fronte ainda morna e lívida,
levaria
para a cova o encanto, a revelação, o perfume
dêsse
beijo derradeiro que lhe aurorizaria a morte. Fechou,
porêm, os olhos horrorizados. Êsse
suicídio naquele
logar, alêm de ser uma denúncia, depois da scena
do
serão, macularia com uma nódoa sangrenta a
ternura
infinita de Nuno e da espôsa—uma nódoa que
nenhuma
água, nenhum esquecimento, nenhum arôma
purificaria, como a das mãos de Macbeth. Não!
Viveria mais umas horas, umas horas apenas! Só o
tempo de chegar ao Pôrto...
A luz da manhã veio surpreendê-lo ainda vestido,
rolando-se no leito desmanchado, pálido, os cabelos
revoltos. Abriu a janela vagarosamente. O ar vivo e
balsâmico entrou a jorros. Aspirou-o com volúpia.
Em baixo, passava o criado. Pediu-lhe que fôsse a
Guimarães buscar um automóvel.
—E não te demores. É um caso de
urgência.
Banhou o rosto em água fria, tirou da mala a
pistola que meteu no bôlso das calças, e quando
sentiu
Nuno a pé, correu para êle em
alvorôço. Ao passar
pela porta do quarto de Júlia, fitou-a com um
olhar em que ia todo o seu adeus, todo o seu desgraçado
amor, todo o seu perdão. Dirigindo-se ao jardim,
onde Nuno descera, como fazia sempre, para
gozar o encanto idílico das manhãs, bradou de
longe:
—Sabes? Tenho de ir já ao Pôrto.
—O quê? Estás doido! Não sais daqui,
não te
deixo.
—Se eu te digo que tenho de ir! Mandei até o
Manuel a Guimarães, buscar um automóvel... Mas
volto hoje mesmo. Nem levo a mala... Preciso de ir
pagar umas letras que se vencem. É uma coisa
séria,
como vês!... Só esta noite me lembrei, de repente.
—Oh! Frederico!... Porque não recorreste a
mim!... E não tinhas o meu automóvel?...
—Não me ocorreu... Mas é uma questão
rápida.
—Nesse caso, vai...
Uma hora depois, o automóvel chegava e Frederico,
impaciente, ao portão, despediu-se do Nuno,
saltou para dentro, dizendo ao
chauffeur:
—Larga e com velocidade.
Estava com pressa de pôr fim, por uma vez,
àquele tormento que fôra a angústia
pavorosa de todo
um ano de sofrimento! Fechou os olhos. Não queria
ver nada, para que um súbito arrependimento, um desmaio
de coragem, o não prendessem à vida. Ia como
numa embriaguez, concentrado na sua ideia fixa e fúnebre.
O automóvel rolava, fugia no fio do vento.
Era uma carreira para a morte, um paroxismo...
Quando mais tarde entrou em sua casa, pagou
generosamente ao
chauffeur, subiu a
escada rápidamente.
Bernardo acudira, perguntando-lhe se desejava
alguma coisa.
—Nada, homem. Podes ir para baixo. Se eu precisar,
chamarei.
Encerrou-se no seu escritório, sentou-se á
escrivaninha
e durante algum tempo esteve escrevendo.
Admirava a sua serenidade em face daquele acto terrível
e necessário que preparava. Seguidamente, fechou
a carta e tocou a
campaínha.
O criado veio,
ligeiro:
—Leva já esta carta ao correio. Mas não te
demores.
E, quando ficou só, serenamente, como quem
cumpre com honra um dever contraído, tirou a pistola
do bôlso, encostou o cano à cabeça sem
que um
músculo da face se lhe enrugasse e desfechou. Um
jacto de sangue brotou, salpicando o papel das paredes;
um pedaço de massa encefálica fôra
projectado
violentamente contra a porta. Frederico caíu de
bôrco
no chão, sem um estremecimento, esvaziando-se de
tôda a seiva da vida sobre o tapête...