§.
Sobre o ensino que deve preceder as Escolas Mayores,
quer dizer, da Physica e da Legislaçam
Parece necessario que fiquem informados todos
aquelles, que tiverem a Educaçaõ da Mocidade a
seu
cargo, daquelles estudos intermedios que precedem as
sciencias das escolas mayores. Atégora se ensinaõ
em
certos Collegios, e vinhaõ a ser aquella Philosophia
Barbara das Escolas, com o nome de Logica, Physica,
Metaphysica, nas quais perdiaõ o tempo de tres ou
quatro annos. Agora mostraremos quais devem ser
estes estudos.
De cinco modos illustramos o nosso entendimento, o
primeyro he pela
Observaçam, que he
aquella percepção
ou conhecimento das couzas que occorrem na vida ordinaria,
ou estas couzas sejaõ intellectuais, ou sejaõ das
pessoas, ou das couzas materiais, ou de nos mesmos.
O segundo he pela
Liçam;
pela qual illustramos o
nosso entendimento com que os nossos Mayores aprenderaõ
e experimentáraõ, como se nos valessemos das
riquezas que ajuntáraõ nossos antepassados.
O terceyro, pelo
Ensino dos Mestres
de viva vóz, e
naõ por postilas, nem themas, explicando o que deve
inculcar no animo dos discipulos, perguntando, orando,
ás vezes, e arguindo, não por sillogismos, mas em
forma do dialogo.
O quarto pela
Conversaçam, na qual
aprendemos o
que outros sabem: promovemos as forças do nosso
entendimento,
imitando sem nos apercebermos o judiciozo,
que ouvimos e que admiramos; e com agrado e amor
da Sociedade transformamos o nosso entendimento,
naquelle com quem tratamos.
O quinto pela
Meditaçam,
lendo, escrevendo ou meditando:
Neste ultimo se encerraõ todos os quatro
modos assima: e este ultimo he a chave de todos os
referidos: sem reflexaõ, sem hũa
attençaõ madura do
que sabemos, nenhũa acção
seria regular,
nenhũa operaçaõ
da alma seria sem defeito.
Deviamos cultivar a memoria naquella edade, quando
he mais vigorosa, pela observação, lectura,
ensino e
conversação. A historia seria o primeiro ensino:
e
como resulta hum particular gosto saber quando succedeo
tal cousa, e em que
lugar, d'aqui
vem necessidade
de estudar a
Geographia e a
Chronologia.
Mas esta historia não se ha de incluir a quantos Reis
teve hũa Monarchia; quantas vezes foi conquistada,
e
quantos Reynos conquistou. Na historia se incluem o
conhecimento das couzas naturais, que contem aquella
obra de Plinio Segundo: entramos em hum Cabinete
de Couzas Naturais: ali notamos o globo terrestre e o
celeste: ali notamos os systemas planetarios onde se
veem o sitio onde existe o sol, os planetas e a terra, o
lugar das estrellas fixas e o zodiaco; ali vemos de que
modo se movem e em que lugar os vemos; deste modo
com a explicaçaõ de um intelligente Mestre
terá o Menino
hũa
idea clara, o que he a
Geographia e a
Astronomia.
Neste Cabinete vemos as Aves, os Peyxes, os Animais,
os Insectos, as Arvores, e as Plantas da Affrica,
da Asia e da America; e pela mesma separação
vamos
notando os Minerais, as Pedras, os marmores, as
Pedras preciosas, os Sais, os Bitumes, os Balsamos, e
as differentes terras e barros; esta he a
Historia
Natural,
e como he taõ natural saber para que servem
estas produçoens da
Natureza, o Mestre lhes
dirá as
propriedades e seu uso na Medicina e nas artes mechanicas
e liberais.
Lá em hum lugar separado e espaciozo, vé
hũa
Pompa pneumatica, hum Telescopio, hum Microscopio,
hum prisma, hum modelo de hum moinho de vento,
hum Relogio: mostra o Mestre o uzo destes instrumentos,
e de outros mais ou menos complicados; ali
adquirirá o Discipulo as primeiras idéas das
propriedades
dos Elementos, da
Optica, das
Mechanicas e da
Statica: a curiozidade que he
taõ natural á puericia
dotada de boa indole, o incitará a perguntar a cauza
d'aquelles effeitos, que ve obrar por aquelles instrumentos,
e ficará informado a não ter por milagres o
que são effeitos da natureza; ficará informado
daquelles
primeiros conhecimentos, que lhe serviraõ por toda a
vida em qualquer estado que a fortuna o puzer na Sociedade
Civil.
Mas naõ basta para a vida civil ter a memoria enriquecida
destes conhecimentos da Historia Sagrada,
Profana, Fabuloza e Natural; necessitamos para ser
exactos
pezarmos,
midirmos e
contarmos tudo aquillo
que temos adquirido pela
observaçam,
lectura e
ensino,
&. A
Arithmetica,
Algebra,
Geometria,
Trigonometria
plana, saõ necessarias para medirmos as
alturas, os
comprimentos, as
distancias e as
profundidades. Alem
desta utilidade, tem estas Sciencias outro bem necessario
á Mocidade: ellas costumaõ a serem attentivos e
exactos no que fazem, a naõ crer de leve, a ficar convencido
pela sua razaõ; instigaõ a seguir e indagar o
que he evidente, ou pelo menos certo, e a descansar,
quando se achou a verdade.
Falta ainda a este ensino aquella arte de
dizer e
representar,
por palavras, e pela escriptura, o
que queremos
que outros saibam, e fiquem persuadidos, tanto
pela arte de excitar as payxoens da alma, como pela
perspicuidade, elegancia e urbanidade do discurso.
Esta arte de saber dizer ensina a
Rhetorica em
Prosa; e em verso a
Poesia.
Duvidáraõ alguns Mestres
da Educação se a Poesia devia entrar no seu
ensino:
as razoens seguintes saõ em seu favor. Todos os
homens se determinaõ a afrontar os mayores perigos e
os mayores trabalhos, pela esperança, que tem de
descançarem
e viverem felizes: alem disso sem repouzo,
naõ pode haver trabalho, nem fadiga por muito tempo;
evitariaõ os homens muitas desgraças se no tempo
do
descanso, do repouzo e da tranquilidade, pudessem
viver consigo. Quem foi bem instruido na Mocidade,
na historia e na lectura dos bons Poetas, tem esta vantagem
sobre os homens ordinarios, que podem estar
sós, e divertirem-se sem companhia; porque
augmentaõ
a sua felicidade com o que pensão, ou com a lectura
em que foraõ educados; divertese a fantasia; o juizo
aproveita, e fortificase a virtude: e deste modo evitaõ
mil disgostos, mil desordens, que succedem no curso
da vida por naõ poder estar só hum instante, como
vemos fazem aquelles que naõ tiveraõ huma
educaçaõ
ingenua, e que vivem pela vontade, e pelo parecer dos
outros: o que Horacio
[70]
pinta com tanta vivacidade
e elegancia. E por esta razão mostrei eu a necessidade
que tinhaõ as Escolas Portuguezas de adoptar o Poema
de Camoens, para educar a Mocidade, como se poderá
ver no Prefacio da ultima ediçaõ feita em Paris.
Entraõ
nestes estudos intermedios a Logica e a Metaphysica;
porque o seu objecto he de discorrer com methodo e
ordem; ter uma idea clara tanto das palavras e das
couzas, distinguindo e separando o que nellas ha de
commum com as outras, e de particular; estas duas
partes da Philosophia se reduzem a ter methodo e
ordem em tudo que se diz e escreve. Naõ se entende
aqui por Logica e Metaphysica, aquella das Escolas; ja se tem por
absurdo gastar tres annos em aprendellas.
A Logica e a Metaphysica hoje explicadas por hum
bom Mestre he estudo de quatro meses, se se explicarem
os Compendios que destas sciencias se tem escrito
em muitas partes da Europa.
A Physica exprimental entra na mesma classe; e
como ja temos na nossa Lingoa a obra intitulada,
Recreaçam
Philosophica, naõ necessito de
nomear o seu
objecto.
Estes saõ os conhecimentos preliminarios, para entrar
nas Escolas mayores; e ja estou ouvindo que tantas
sciencias confundiraõ o animo dos meninos e rapazes,
que ou ficaraõ estupidos, ou que tudo que
aprenderaõ
será taõ superficialmente, que toda esta
instruçaõ lhe
venha a ser inutil. Mas Quintiliano ja respondeo a
esta difficuldade, e o nosso Martinho de Mendonça, nos
seos
Appontamentos para a Educaçam de hum
Menino
Nobre, livro tantas vezes citado: a difficuldade
naõ
está na capacidade dos meninos; toda ella
residirá nos
Mestres; e se dissipára, se souberem ensinar com methodo
e com ordem; explicando de viva vós hum compendio
de cada sciencia que ensinarem; pondo diante
dos olhos, humas vezes em mappas, outras em taboas
chronologicas, outras em modelos e instrumentos, e
com a inspecçaõ das mesmas couzas que ensinarem;
deste modo pergunta(n)do, capacitando o auditorio, e
ficando elle mesmo inteirado que comprehendem, adiantará
o seu ensino.
Este modo de ensinar explicando de viva vós, e perguntando
pelo compendio ou compendios da sciencia
que aprendem os ouvintes, he o mais efficaz, para comprehenderem
huma materia inteira. Se estivessemos
dentro da salla de hum palacio, naõ veriamos mais
que os objectos, onde se terminava a vista: mas naõ
teriamos nenhuma ideia da sua grandeza, da sua
proporçaõ,
da sua elevaçaõ; mas se estivessemos fora,
postos a huma certa distancia, e em tal sitio que descubrissemos
o frontispicio, a sua
elevaçaõ,
contemplando
as proporçoens entre o corpo do palacio e das
mais partes, então he que podiamos formar juizo da
sua grandeza, utilidade e magestade; naõ saberiamos
aquellas miudezas da distribuiçaõ dos aposentos,
da
claridade das gallarias, mas o juizo que formariamos
de todo elle, seria superior ao conhecimento acanhado
que teriamos, ficando dentro.
Assim para compreender á primeira vista huma sciencia,
he necessario ver somente as suas principaes partes:
explique o Mestre o que faltar naquella inspeção
que o
discipulo observa; e deste modo se evitará aquella
confusaõ
que se teme. Fallo com experiencia: hum Menino
pode por dia tomar quatro liçoens de materias
differentes com summa utilidade da sua educaçaõ.
§.
Em que lugar se haviam de ensinar
as sciencias referidas
Os Grammaticos Gregos e Romanos ensinavaõ na
mesma Escola as sciencias assima: he verdade que naõ
tinhaõ tanta difficuldade, como nos temos, para aprender
as Lingoas em que estaõ as sciencias escritas; porque
posto que os Romanos aprendessem a Grega, mais a
aprendiaõ pelo exercicio, havendo tantos Gregos misturados
com os Romanos, que por regras e Diccionarios.
Para evitar muita desordem, gastos, bulhas litterarias,
e para proveito da Educaçaõ da Mocidade, seria
mui
acertado que nas mesmas Escolas Reaes, onde se
aprendem a Lingoa Latina, Grega e a Rhetorica, se
aprendessem as sciencias referidas, que saõ como ja
disse a
Historia Profana e Sagrada,
a
Fabulosa, com
a
Natural, a
Geographia,
Chronologia,
Astronomia,
a
Arithmetica,
Algebra,
Trigonometria,
Logica,
Metaphysica,
e a
Physica Experimental.
Estas sciencias intermedias ou preparatorias, para se
matricularem os estudantes nas Escolas Mayores, ou
Universidade Real, podiaõ ensinarse nas tres Escolas
Reaes do Latim e do Grego, establecidas pelo Alvará
de sua Magestade, em Coimbra, Lisboa e Evora, para
ficarem no lugar daquellas onde se aprendia a Philosophia
Escolastica.
Nas mais Escolas do Reyno establecidas nas Cabeças
das Comarcas, bastaria o ensino alem das Lingoas
Latina e Grega, os Principios da Philosophia
Moral, a Rhetorica, a Historia e a Geographia.
Convem ao Estado que todo o Estudante que aprender
Latim e Grego, fique instruido das obrigaçoens de
Christaõ e de Cidadaõ, que fique instruido na
Historia
e na Geographia, que entenda a Poesia, e que saiba
escrever ou na Lingoa Latina, ou na sua, com elegancia
e propriedade: porque o Estado naõ somente tem necessidade
de Letrados, Jurisconsultos e Medicos, mas
taõbem de
Secretarios, de
Notarios publicos, de
Intendentes,
de
Conselheyros e
Assessores, nos Tribunaes ou
Collegios que devem governar a economia politica e
civil do Reyno. Tanto mais instruidos sahirem estes
Estudantes das Escolas referidas, tanto melhor exercitaraõ
os cargos em que seraõ empregados, e occuparaõ
o tempo do descanço com mayor utilidade e
satisfaçaõ.
Todo o ponto está que haja Mestres taõ capazes,
que
saibaõ
plantar no animo dos Discipulos
destas Escolas as sementes destas sciencias. Elles
mesmos faraõ crecer estes principios pela sua
applicaçaõ,
levados do gosto que cauzaõ, quando se
comprehendéraõ
clara ou distinctamente.
Se eu naõ fosse obrigado, Illustrissimo Senhor, tratar
do Methodo de ensinar e aprender a Medicina em obra
separada, havia de tratar aqui das Escolas Mayores ou
da Universidade, onde se deve ensinar a Jurisprudencia
universal, e a Medicina, a sua forma, o lugar onde se
estableceria, o que nella se devia ensinar com especialidade,
e com que gráos Academicos seriaõ decorados
os que tinhaõ estudado com applauzo, etc. Mas como
tratarei da Medicina especialmente, entaõ he que tratarei
da forma dos Estudos da Jurisprudencia; e occuparei
agora aquelle espaço com materia, poderá ser,
igualmente util para o serviço da patria que he tratar
da Educaçaõ da Mocidade Nobre.
§.
Da Educaçam da Fidalguia e dos Fidalgos,
que tem Assentamento e Foro na Caza Real
Vimos assima que desde o anno de 1500 até o anno
de 1570, existio o mayor luxo que jamais vio Portugal.
El Rey Dom Manoel o introduzio na Corte, e foi o
primeiro que se vestio humas vezes á Franceza e outras
á Flamenga; como naõ teve guerra na Europa nem
seu Filho, nem seu Bisneto el Rey Dom Sebastiaõ,
com as riquezas do Oriente cahio a Fidalguia no
mayor luxo, e por consequencia naquelle total esquecimento
da boa educaçaõ, que tinha ou no
Paço dos
Reis antigos, ou em caza de seos Pays. No tempo
del Rey Dom Pedro o Justiceyro, tanto que se sabia
no Paço tinha nascido algum filho a algum Fidalgo,
mandava logo el Rey a sua caza a provisaõ da moradia
ou foro, que deyxava em poder da May ou da Ama
que criava o Menino; e nestes tempos se chamavaõ
os Reys Pays de seos Vassallos
[71].
Depois crescendo
o numero, se ordenou que somente se uzasse desta
graça, com o primogenito; e desta
resoluçaõ, veyo a
descahir aquelle amor da patria, porque faltou a boa
educaçaõ, que tinhaõ no
Paço todos os filhos dos
Fidalgos com moradia.
No tempo del Rey Dom Joaõ o Segundo, lhe
representáraõ
em Cortes, que ordenasse se criassem os Fidalgos
no Paço, como era costume antigamente: sinal
certo que se educava ali a primeira Mocidade do Reyno.
Ja dissemos assima que a educaçaõ da Nobreza toda
se reduzia a fazer o corpo robusto e fortissimo, o animo
ouzado e destemido; alem daquelle agrado que reynava
no galanteo e serviço das Senhoras, naõ
deyxavaõ de
instruir o animo com aquelles poucos conhecimentos
scientificos que se conheciaõ: somente na familia do
Infante Dom Henrique foi esta educação mais
consideravel,
porque sahiraõ muitos do Paço daquelle famozo
Principe, excellentemente instruidos nas Mathematicas
e boas letras, como foi o Grande Albuquerque
e Dom João de Castro.
«El Rey Dom Manoel, como refere Alvaro Ferreyra
de Vera
[72],
aperfeiçoou os estados dos Ricos Homens
e Infançoens, e deu a cada hum em sua Caza Real o
lugar que por sua qualidade merecia, fazendo tres sortes
de gente. No primeiro lugar pôz os Ricos Homens;
no segundo os Infançoens; no terceyro os Plebeos, com
esta distinçaõ na moradia: aos Filhos dos Ricos
Homens
tomou por
Moços Fidalgos com mil
reis de
Fôro
[73]
cada mes, e alqueyre e meyo de cevada por
dia; «e daqui os acrescentava a
Fidalgos
Cavalleyros,
sobindolhe a moradia té
quatro mil
reis, o que era
despois de serem armados Cavalleyros, por algum feito
honrozo que
faziaõ na guerra. Aos Filhos dos
Infançoens
tomou por
Moços da
Camara, com
quatrocentos
e seis reis; e tres quartas de cevada por dia: e da
mesma maneira lhes acrescentava a moradia, que a
mayor subia té
mil e quinhentos
reis com o titulo de
Cavalleyro Fidalgo, a que hoje
muitos não querem
subir por ficar antes no foro de moços do
serviço, pelas
mays entradas que tem na casa e serviço do seu
Rey.»
«Os Plebeos taõbem admittio no seu
serviço, tomando-os
por moços da Estribeira; e daqui os acrescentava
a Escudeyros e Cavalleyros razos (que he Cavalleyros
sem Nobreza), e os que queria, que gozassem
de alguns Privilegios se chamavaõ Cavalleyros confirmados:
no que havia muita ordem».
Quem quizer saber o que he a Nobreza Natural e
Politica, como se adquire e como se perde, e outras
mais propriedades, que tem a origem dos titulos em
Portugal, poderá ler este excellente Autor, esquecido
nos nossos tempos, e que merecia ser conhecido de
todos os Nobres Portuguezes, para saberem as suas
obrigaçoens. Vejase taõbem
Noticias de Portugal de
Manoel Severim de Faria, Discurso III, e o
Prologo
ás
Memorias Historicas e Genealogicas dos Grandes de
Portugal por Antonio Caetano de Sousa. Lisboa 1742.
Do referido se collige que os Reys de Portugal sempre
tiveraõ especial cuidado da Educação
da Fidalguia, e
que dahi veyo chamaremse
creados de
caza Real, estendendose
este nome por corrupção aos que servem.
Em quanto houve guerras continuadas, em quanto tinhaõ
necessidade da Fidalguia, para guerrear e conquistar,
sempre houve a Educaçaõ no Paço:
acabouse aquella
urgente necessidade, e achou el Rey Dom Manoel a
proposito de desobrigarse da Educaçaõ, e de
pagarlhe
huma certa quantia, como vimos assima, para serem
educados em caza de seos Pays. Em quanto se
continuáraõ
as Conquistas da India, e a florecente navegaçaõ,
empregavaõ-se neste serviço os Fidalgos, e
naõ se
apercebia o Estado da falta da Educaçaõ no
Paço:
mas no tempo del Rey Dom Joaõ o Terceyro acabou a
Conquista da Affrica, e da India; ja naõ havia mais
guerra, que para conservar o conquistado: e como as
riquezas eraõ immensas, introduziose o luxo na Fidalguia,
e ja se apercebia o Estado da falta da sua
Educaçaõ,
porque foi o mayor que se conheceo na Europa.
A constituiçaõ Gothica do Reyno, determinava a
Fidalguia serem guerreyros forçozamente no tempo da
guerra; e acabada ella ficarem nas suas terras, e cuidarem
da agricultura; naõ tinhaõ outro intento no
tempo da paz que conservarse vivendo do producto das
suas terras; naõ cultivavaõ para vender nem
comerciar
com os fructos; e deste costume vieraõ as nossas Leis
das Ordenaçoens, que defendem fazer comercio com os
graõs, vinho e azeite.
Mas tanto que os Reys tiveraõ mays que dar que as
terras da Coroa; tanto que tiveraõ Commendas, Governos
e Cargos lucrativos, tanto nas Conquistas, como
no Reyno, logo os Fidalgos começaraõ a cercar os
Reys,
e ficarem na Corte; porque pela adulaçaõ, pelo
agrado,
e pelas artes dos Cortesoens sabiaõ ganhar as vontades
dos Reys, naõ tendo aquellas occasioens forçozas
de
obrarem acçoens illustres para serem premiados por
ellas. Isto vemos succedeo no tempo del Rey
D. Duarte, quando ordenou que todo o Fidalgo que naõ
tivesse Cargo na Corte, que fosse a viver nas suas
terras.
Logo que todos os Fidalgos fixaraõ a sua assistencia
na Corte no tempo da paz, logo que seos filhos eraõ
educados em suas cazas, ja ricas e poderosas pelas
dadivas dos Reys em Commendas, Pensoens, Governos
e Cargos, necessariamente se havia de seguir huma
educaçaõ estragada, a Meninice entregada na
maõ das
amas e de mulheres commuas, a puericia entre as maõs
dos Criados e dos Escravos; até o tempo del Rey
D. Sebastiaõ poucos sabiaõ mais que ler e
escrever;
porque ja a Escola do Infante Dom Henrique estava
acabada; e toda a educaçaõ se reduzia a saber os
Mysterios
da Fé, porque os seos Mestres sendo Ecclesiasticos
e ignorantes da obrigação de Subdito, de Filho e
de Marido, chegavaõ á idade da adolescencia com o
animo depravado, sem humanidade, porque naõ
conheciaõ
igual; sem subordinaçaõ, porque eraõ
educados
por escravas e escravos; ficava aquelle animo possuido
de soberba, vangloria, sem conhecimento da vida civil,
nem com a minima idea do bem commum: assim degenerou
aquella educaçaõ do Paço na qual pelo
menos
aprendiaõ a obedecer, na mais insolente tyrania de
todos aquelles com quem tratavaõ.
A questaõ agora he somente, se será do Real
agrado
de S. Magestade continuar nesta piedosa e utilissima
intençaõ, e no cazo que assim determinasse,
ficava a
saber que sorte de educaçaõ convinha á
Fidalguia existente?
em que lugar devia ser educada? e quais deviaõ
ser os Mestres? Discutirei estes tres pontos com a
clareza que me for possivel.
§.
Que sorte de Educaçam convem á
Fidalguia Portugueza,
que seja util a si
e á sua Patria?
Quem melhor conhecer a Constituição do Estado de
Portugal actual, resolveria melhor esta importante
questaõ. Tanto quanto eu pude alcansar, por
informaçaõ
e por lectura, acho que he Reyno pelo seu sitio,
entre tres Mares, nos quaes navega o comercio de todo
o mundo, totalmente maritimo; bordado, pela sua mayor
parte, do Mar Oceano com oito portos navigaveis, ainda
que alguns damnificados, e que com custo e trabalho
podiaõ ser restaurados; que tem Ilhas e Continentes
vastissimos e riquissimos nas tres partes do mundo
conhecidas. Que por Tratados e Allianças de Comercio
e boa amizade está ligado com muitas Potencias; humas
que o podem offender por mar, e huma só por terra.
Estes limitados conhecimentos determinaraõ logo a
quem pensar na conservaçaõ da nossa Monarchia,
que
necessita de Officiais de Mar e Terra; isto he, de hum
exercito, e de hũa frota. He certo que
só entre a
Nobreza se achaõ as pessoas mais aptas para exercitar
estes Cargos; e naõ necessito aqui de amontoar lugares
communs para provar o que todos sabem por experiencia.
Mas ao mesmo tempo todos assentaraõ que a
Educaçaõ que se deve dar á Nobreza e
á Fidalguia
Portugueza, deve proporcionar-se á necessidade e ao
estado actual da sua patria.
Antes que se usasse da polvora, e que se fortificassem
as Prazas pelas Leis da Geometria e Trigonometria,
naõ necessitava o General do exercicio das Mathematicas
e de alguãs partes da Physica: a força, o animo
ouzado e a valentia ja naõ saõ bastantes para
vencer,
como quando faziamos a guerra expulsando os Mouros
da patria. A Arte da guerra hoje he sciencia fundada
em principios que se aprendem e devem aprender, antes
que se veja o inimigo: necessita de estudo, de
applicaçaõ,
de attençaõ e reflexaõ; que o
Guerreyro tome a
penna e saiba taõbem calcular e escrever, como he
obrigado combater com a espada e com o espontaõ: o
verdadeyro Guerreyro he hoje hum misto de homem de
letras e de soldado. Deste modo adquirio nos nossos
tempos immortal fama o Marechal de Saxe, e por este
caminho vai com igual gloria el Rey da Prussia.
Mas hum Almirante, ou hum Capitaõ de Mar e
Guerra naõ somente deve ter toda a
instruçaõ de que
necessita hum General, mas ainda aquella de mandar
no mar: naõ somente necessita da
instruçaõ das Mathematicas,
Astronomia e Sciencia Nautica, mas de
muitos e muitos conhecimentos politicos para comprir
os seos importantes Cargos. Deste modo necessitaõ
os que haõ de governar hum Regimento, ou hum Exercito,
hum Navio de Guerra, ou huma armada, ter tal
educaçaõ, que sejaõ capazes de obrarem
acçoens illustres,
e de as escrever, como fez Xenophonte, Cesar, e
o Marechal de Saxe nos nossos tempos, e outros muitos
dignos destes importantes Cargos.
No tempo de Philippe Quarto presentáraõ ao Conde
Duque de Olivares hum retrato do Estado Politico de
Castella, e das Cauzas da sua decadencia
[74]:
e huma
das principais que allega, se reduz á seguinte
discussaõ;
que a Cauza da decadencia daquella Monarchia foi que
o valor e a força não fora conduzida nem ajudada
pela
sciencia, nem pela arte; que confiandosse na riqueza
da Monarchia, que desprezáraõ os Tratados de
Allianças:
e que nas Embayxadas empregavaõ os Senhores mais
authorizados e ricos, sem attenção alguma da sua
capacidade;
que tomavaõ por Secretarios aquelles homens
que estavaõ de antes ao seu serviço, ou debayxo
da
sua protecção, sem dependencia alguma da Corte, e
ignorantes dos negocios politicos; que deste modo, tudo
o que se tratou com as Potencias Estrangeyras, foi
com prejuizo do Reyno, como se experimenta nos Tratados
de paz, e de comercio, e nos regramentos dos
Correyos, e outras estipulaçoens publicas: que semelhantes
Secretarios deviaõ ser educados conforme pedia
o seu emprego; porque estes saõ aquelles que põem
em ordem os despachos, e tudo aquillo que o Embayxador
ou o Enviado considera ou nota ser necessario
sahir da Secretaria; e que do bem ordenado, ou bem
escrito, he que depende mui frequentemente o feliz
successo.
O Duque de Lorena, Generalissimo dos Exercitos do
Emperador Leopoldo
[75],
reprezentou a este Monarcha
que naõ podia subsistir aquelle Imperio por falta da
Educaçaõ da Nobreza, sendo incapaz de servir os
Cargos publicos, ou na guerra ou em tempo de paz; e
que para occorrer á total ruina do Estado, que propunha
huma Escola que se devia erigir a propozito para satisfazer
esta necessidade.
O Historiador Conestagio
[76]
relatando a desordem
e a pobreza em que estava o Reyno antes da infeliz
expedição del Rey Dom Sebastiaõ para
Affrica, diz que
nunca Portugal fora taõ feliz, que tivesse hum homem
dotado de tanta capacidade e intelligencia que soubesse
governar as rendas Reais: porque o Cargo de Veador
da fazenda se dava sempre por favor, e para gratificar
os Cortezaõs, sem attenderem a nenhum merecimento;
e por essa cauza, não havendo nem cuidado, nem conhecimento
daquelle emprego, que todos os rendimentos
se gastavaõ nos sallarios dos Ministros, nos dos
Magistrados,
e dos Governadores; que o Estado estava
taõ pobre que os Ecclesiasticos
pagáraõ entaõ cento e
cincoenta mil ducados; e os Christaõs novos duzentos
e vinte cinco mil, com promessa que se fossem prezos
pela Inquisiçaõ que não
seriaõ os seos bens confiscados.
Do referido se ve a necessidade que tem o Reyno da
Educaçaõ da Fidalguia, não
só nas letras humanas,
mas taõbem na Politica e nas Mathematicas, para servir
a sua patria, nos cargos da guerra, e nos da paz; e que
por faltar semelhante Educaçaõ,
chegaraõ tantas Monarchias
na Europa áquella decadencia desde o anno
de 1500, que parece impossivel relevarse, se não se
reformar esta omissaõ taõ consideravel.
§.
Continua a mesma Materia. Em que lugar
devia ser educada a Fidalguia
e Nobreza de Portugal
Todos reprovaraõ o ensino da Mocidade, que vive
em caza de seos Pays, e que vaõ duas vezes por dia a
aprender nas Escolas publicas. Ja vimos assima que
este modo de aprender he o mais prejudicial; e como
he notorio a cada hum, que aprendeo assim, este dano,
naõ necessito outra vez repetir o que mostrei assima.
Milhares de tratados se tem impresso da Educaçaõ
domestica, e o mais excellente, a meu ver, he o de
Martinho de Mendoça e Pina, que citei assima: esta
educaçaõ pode fazer hum rapaz hum pio
Christaõ;
poderá ser instruido naquelles conhecimentos que dependem
da simplez memoria, mas sempre lhe faltará a
emulaçaõ, que eleva o juizo, para se adiantar aos
seos
iguais; sempre lhe faltará a imitaçaõ,
pelo qual se
formaõ as ideas mais completas das acçoens e das
obras dos Mestres e Governadores publicos, que sempre
influem no animo muito mais, do que tudo o que disser
ou obrar o Mestre domestico; deste modo ficará sempre
o natural destes meninos acanhado e encolhido, faltando
lhe o trato e o conhecimento da vida civil; quando
acabaõ aquelles estudos domesticos, ou ficaõ
ignorantes,
ou nos costumes da vida civil meninos, ou com o animo
depravado: felicidade grande será que não fiquem
estragados
os costumes, pela companhia dos Criados e
dos Escravos: se os Pays foraõ taõ cautelozos que
evitáraõ
este ordinario precipicio, cayem em outro, taõ
contrario ao bem commum, como a perda dos bons
costumes, a sua consciencia e a sua conservaçaõ;
ficaõ
estupidos, cheyos de vaidade, naõ
conhecem
por superior
mais que seos Pays, porque não tem a minima
idea da subordinaçaõ que deve ter como Subdito e
como Christaõ.
D'esta origem provem que a Nobreza e Fidalguia he
hoje empregada nos cargos e nos governos, quando
chega áquella idade, onde começaõ a
descahir as forças,
e a constituiçaõ com achaques. Na idade de quinze
ou
vinte annos, como a sua educaçaõ foi domestica,
tem
da vida civil tanto conhecimento como hum menino:
entra, como dizem, no mundo; e á sua custa, e por
muitos annos adquirio algũa experiencia, e essa lhe
serve de toda a instruçaõ para servir a sua
patria: mas
não he conhecida a sua capacidade, que da idade de
quarenta annos; entaõ he que o Soberano o emprega
nos cargos publicos, e ás vezes de idade mais crescida;
mas nesta idade ou as forças começaõ a
enfraquecer
ou a constituiçaõ; daqui he que os Estados hoje
onde
a Criaçaõ he domestica se servem sempre de
pessoas
a quem falta aquelle vigor, altives, ambiçaõ, e
animo
da adolescencia e da idade viril.
Admiramonos hoje quando lemos que Pompeo e
Scipião Affricano commandavaõ exercitos de idade
de
vinte e hum annos; e que os Romanos dessem os
Cargos de Questor, de Pretor, de Proconsul á Mocidade
da Nobreza Romana; mas o que mais deviamos
admirar he que naquella primeira idade obravaõ
acçoens
taõ illustres, que se observaõ na historia: na
verdade
que de vinte e cinco annos, até trinta ou quarenta,
está
o corpo mais apto para obrar as mais elevadas acçoens;
e por isso me parece, quando comparo a Republica
Romana com os Reynos dos nossos tempos, que nestes,
aquelles que os servem, todos saõ velhos e decrepitos,
e que naquella Republica todos eraõ Varoens nas armas
e velhos no Concelho.
Mas se quizermos saber a cauza desta immensa
desigualdade, inquiramos a Educaçaõ da Nobreza
Romana,
e logo parará a nossa admiraçaõ. O seu
ensino,
no tempo da puericia, se reduzia a Philosophia Moral
e trato da vida, que lhes ensinavaõ os Philosophos;
mas esta instruçaõ era practica;
entravaõ no Senado
com seos Pays ou Tutores, como ouvintes; ali ouviaõ
practicar o que aprendiaõ em caza; de tal modo que
hum Menino da idade de desasete annos estava instruido
na eloquencia, na arte de saber escrever, porque sabia
fallar, nas Leis Patrias, no Sacerdocio, nas Leis Civis
e Politicas, que pela practica aprendiaõ; e vendo diante
de si aquelles Senadores, hum que tinha triumphado,
outro que tinha ganhado hum Reyno, outro que tinha
dec
Mas se quizermos saber a cauza desta immensa
desigualdade, inquiramos a Educaçaõ da Nobreza
Romana,
e logo parará a nossa admiraçaõ. O seu
ensino,
no tempo da puericia, se reduzia a Philosophia Moral
e trato da vida, que lhes ensinavaõ os Philosophos;
mas esta instruçaõ era practica;
entravaõ no Senado
com seos Pays ou Tutores, como ouvintes; ali ouviaõ
practicar o que aprendiaõ em caza; de tal modo que
hum Menino da idade de desasete annos estava instruido
na eloquencia, na arte de saber escrever, porque sabia
fallar, nas Leis Patrias, no Sacerdocio, nas Leis Civis
e Politicas, que pela practica aprendiaõ; e vendo diante
de si aquelles Senadores, hum que tinha triumphado,
outro que tinha ganhado hum Reyno, outro que tinha
decretado leis como Consul, enchiase o coraçaõ
daquelles
illustres objectos, para imitar aquellas acçoens ordenando,
mandando e obrando. Assim vemos que Cesar
de desasete annos orava com tanto applauso, que entrou
no cargo do Sacerdocio. Lemos a Educaçaõ de Marco
Aurelio Emperador, que elle mesmo relata logo no principio
das suas obras, que são os pensamentos da sua vida.
Nos nossos tempos el Rey de Danamarca ordenou
que em cada Tribunal assistisse hum certo numero de
Moços Nobres, somente para serem ouvintes, e para
aprenderem ali pella practica as Leis Patrias, e o que
he a vida Civil; os Magistrados tem poder de lhes fazerem
perguntas de tempo em tempo para obrigar esta
Mocidade a attenderem ao que ouvem. O mayor proveito
que retiraria o Estado desta Educaçaõ, seria que
pensasse e que reflectisse maduramente, e que naõ
passasse a vida naquella variedade, e encadeamento de
divertimentos, caças, jogos, dansas, bayles e outros
semelhantes.
Nenhũa couza poderia fixar a volatilidade
daquella idade, do que destinala, logo que estivesse
instruida, a assistir nos Tribunaes como ouvintes, e de
responderem por escrito ou de palavra, quando fossem
perguntados pellos Magistrados: alem de que lhes naõ
ficaria tanto tempo para empregar naquella vida aérea,
se costumariaõ a pensar e a reflectir, que he a mayor
difficuldade que se encontra naquella idade, e o mayor
bem que se pode alcançar na sua
educaçaõ.
Sem que eu o diga, todos veraõ que se se tomarem
taes meyos com esta mocidade, que poderá ser empregada
nos cargos e postos do Estado, de idade de vinte,
e de vinte e cinco annos, e que evitaria o Rey no ser
servido, ou por velhos, ou por achacados nos cargos
que necessitaõ vigiar, andar a Cavallo, navegar, inquirir,
ver, observar, e despachar.
Pareceme que vistos os notaveis inconvenientes da
Educaçaõ domestica, e das Escolas ordinarias, que
naõ
fica outro modo para educar a Nobreza e a Fidalguia,
do que aprender em Sociedade, ou em Collegios; e
como naõ he couza nova hoje em Europa esta sorte de
ensino, com o titulo de
Corpo de
Cadetes, ou Escola
Militar, ou Collegio dos Nobres, atrevome a propor á
minha Patria esta sorte de Collegios, naõ somente pella
summa utilidade que tirará desta
Educaçaõ a Nobreza,
mas sobre tudo, o Estado e todo o povo.
§.
O que sam as Escolas Militares
He huma Escola Militar hum Corpo de Guarda, onde
os Soldados saõ os meninos e moços Nobres ou
Fidalgos:
estes saõ os que fazem as sintinellas e as rondas
dentro da Escola: ali se exercitaõ na Arte Militar; e
toda ella he governada por esta disciplina; e aquelle
tempo que os Soldados nos Corpos de Guarda consomem
a jugar, a fumar tabaco, e a zombar, occupaõ
os moços Nobres destas Escolas nos estudos ingenuos,
que saõ aquelles que servem para servir e mandar na
sua Patria.
No anno 1731, o Feld-Marechal ou Capitaõ General
Conde de Munnich no serviço do Imperio da Russia,
sendo obrigado buscar Officiais Majores por toda a
Europa pella falta que delles havia em Russia, propôs
á Imperatriz Anna Juanowna hum Collegio Militar ou
Escola para se educarem nella
quatrocentos meninos ou
moços Nobres, destinados a servir nos exercitos e nos
Cargos civis. Esta Escola se abrio naquelle tempo, e
continua ainda hoje, e com tanta utilidade daquelle
Imperio que desde o anno 1740, rarissimo he o Official
Estrangeyro que se acha alistado no serviço daquelle
Imperio.
Foi facil a este Grande General achar estudantes para
entrarem naquella Escola; porque por huma ley de Pedro
Primeiro, Emperador daquelle Imperio no anno 1707,
todos os filhos dos Nobres chegados a idade de
treze
annos saõ obrigados virem assentar
praça na Vedoria
de Guerra, ou na Vedoria da Marinha, Ley que se
observa ainda inviolavelmente: e tanto que huma vez
está este menino matriculado naquellas vedorias
naõ
pode entrar em Convento algum de Frades, sem licença
especial do Soberano: (porque em Russia nenhum
Nobre entra no Estado de clerigo, por serem estes
tirados somente das familias do povo). Por Director
desta Escola ficou o mesmo Conde de Munnich, que
procurou todos os Officiais Militares das tropas de
Prussia e os Mestres para as Sciencias, e Lingoas, de
toda a Alemanha, e dos Cantoens Suissos.
No anno 1742 pouco mais ou menos, S. Majestade
Imperial a Rainha de Hungria, ou por lembrarse do
projecto do Duque de Lorena assima referido, ou pela
sua alta intelligencia, instituio em Viena de Austria o
Collegio Thereziano para o mesmo fim, mas mui poucos
aprovárão a Escola dos Jesuitas por Mestres, e
que se
admitissem nelle Pensionarios; e por esta cauza, ou
pela pouca disposiçaõ, naõ se tem
visto atégora daquelle
magnifico instituto aquella utilidade que se esperava.
No anno 1751 se estabeleceo em Paris a Escola Real
Militar: a sua instituiçaõ he para educarse nella
quinhentos
Gentis homens a custa Real; os Militares saõ
os Mestres para ensinar a arte da guerra, e os seculares
Homens de Lettras as artes e as sciencias: mas como
na
Encyclopedia impressa em Paris,
se acha hũa
exacta descripção desta famoza Escola no articulo
École
Militaire, tome cinquième, naõ
necessito entrar aqui em
mayor explicação; e só farei algumas
observaçoens
sobre o que se podia imitar de louvavel em Portugal
desta instituição.
Em Dinamarca, em Suecia e em Prussia, se
instituraõ
e conservaõ Escolas Militares Semelhantes, instituidas
depois de poucos annos; e não fallo da Escola Real de
Madrid, porque parece que a sua destinaçaõ
naõ he
para que os seos Estudantes sirvaõ o Estado.
Parece que Portugal está hoje quazi obrigado, naõ
só a fundar huma Escola Militar, mas de preferila a
todos os establecimentos litterarios, que sustenta com
taõ excessivos gastos. O que se ensina e tem ensinado
atégora nelles, he para chegar a ser Sacerdote e
Jurisconsulto;
e como já vimos assima, naõ tem a
Nobreza
ensino algum para servir a sua patria, em tempos
de paz nem da guerra. Proporei aqui o que achar
mais necessario, para establecer esta Escola; e no cazo
que seja acceite o meu trabalho e o dezejo da
execução,
supprirei as omissoens, que de proposito cometo por
naõ ser porlixo com a mayor exactidaõ, se me for
ordenado.
§.
Propoemse huma Escola Real Portugueza,
para ser nella educada a Nobreza e a Fidalguia
economia
interior
Quando se comprehender o intento com que se propoem
esta Escola, poderá ser que se louve a sorte da
economia interior que ha de servir para conseguilo.
He educar subditos amantes da Patria, obedientes ás
Leis, e ao seu Rey; intelligentes para mandar, e virtuozos
para serem uteis a si, e a todos com quem devem
tratar.
Será facil conceber a quem estiver inteyrado deste
intento, que esta Escola Real deve ficar affastada tanto
da Corte, que nem Estudantes nem os Mestres estejaõ
distrahidos pellas visitas dos parentes e amigos, e muito
menos pellos divertimentos de huma capital. Seria
facil acharse edificio já feito, ou dois ou tres edificios,
juntos, reparados, e concertados para se establecer esta
escola; deyxando para melhor occasiaõ fazer hum aproposito,
ou occupar algum que prezentar o acazo.
1.º Que naõ habitaria dentro d'este edificio
Governador,
Mestre, ou outro qualquer empregado no serviço
desta Escola, sem
ser cazado.
2.º Que naõ seria permitido a nenhum estudante ter
criado em particular.
3.º Que para o serviço d
3.º Que para o serviço dos mesmos Estudantes, quer
dizer, barrer os seos quartos, alimpallos, fazerlhe a
cama, e outros serviços domesticos, haveria huma molher
de idade de cincoenta
annos para diante, destinada
a servir a cada cinco, de tal modo que nenhum destes
Educandos se considerasse que tinha criado ou criada
em particular
[77].
4.º Todos os quartos, salas, camaras, tanto do Governador,
Officiais, Mestres, como dos educandos, seriaõ
adornados da mesma sorte de alfayas sem distinção
de pessoa
[78],
e todas ellas deviaõ ser feitas no Reyno.
5.º Tudo o que servisse de alimento e de bebida
nesta Escola Real devia ser produçaõ do Reyno, e
dos
dominios de S. Magestade, como taõbem tudo aquillo
que vestissem, calçassem; ainda mesmo as espingardas,
espadas, bandoleyras, e tudo que servisse no manejo,
e na cozinha
[79].
6.º Como estes educandos haviaõ de estar alistados
em companhias cada huã de
vinte, ou vinte e
quatro,
governadas pella disciplina militar, ja se ve que devem
vestirse com uniformes; e do mesmo modo os Officiais,
e Inspectores, cada qual com distinçaõ do seu
gráo
[80].
7.º Todos estes educandos deviaõ comer em
communidade,
e não serlhe permitido nenhuma sorte de
alimento no seu quarto
[81].
8.º De sol nacido até sol posto, sempre
haverá
huma
companhia de educandos de Guarda: seraõ os que
estaraõ
de sintinella dentro do edificio nos lugares que o
Commandante achar aproposito. E como para a guarda
de todo o edificio deve haver huma companhia de Soldados
tirada do regimento da guarniçaõ mais chegada,
estes seraõ os que estaraõ de sintinella
ás portas de
entrada e sahida dia e noyte.
9.º A nenhum destes educandos seria permitido entrar
no quarto ou camara dos seos collegas; nem dos Officiais
de guerra, Mestres, ou Officiais de economia sub
pena de rigoroza prizão.
10.º Ao tenente del Rey, ou Commandante d'esta
Escola Real, Intendente Director dos Estudos, Officiais
de Guerra, e Mestres, e outros Officiais economicos
lhes seria dada a cada hum sua particular
instruçaõ
para exercitarem o seu cargo.
11.º Naõ seria permitido aos Mestres, nem aos
Officiais de Guerra castigar com castigo corporal: só
poderiaõ mandar prender; e dar por escrito a falta, ou
culpa do educando ao Conselho economico da Escola,
que se teria huma, ou duas vezes por semana, no qual
se determinaria o castigo. O Mayor que sente a Nobreza
hé a
deshonra: o ser
condenado a naõ frequentar
as classes: o estar de pé em parada sem espada, e sem
espingarda á vista dos Mestres e de seos iguais, serviria
da mais efficas correçaõ
[82]. Vejase a dita
Encyclopedia
tom. V, no lugar
citado assima.
§.
Em que idade deviam entrar os Educandos
na Escola Real Militar?
Se os educandos entrassem nesta Escola na unica
intençaõ de sahirem instruidos nas lingoas e nas
sciencias,
nenhum deveria entrar antes da idade de
doze, ou
quatorze annos. Mas o intento
principal he que seu
animo saya destas escolas taõbem informado na virtude,
no amor da Patria, e na obediencia ás Leis; que pella
imitação da boa companhia, e pella practica das
boas
acçoens, fiquem instruidos nestas taõ importantes
obrigaçoens:
pelo que bem poderaõ entrar os educandos
desde a idade de
oito ou
nove annos, e se fosse possivel
ainda mais cedo pellas razoens seguintes.
Tanto que as riquezas da Affrica e do Oriente entraraõ
em Portugal, logo começou a mostrarse o luxo
nos vestidos, comidas, e mais commodidades estrangeiras;
começou a esfriarse o amor das familias, e por
ultimo da Patria. El Rey Dom João o Terceyro, foi
o ultimo Rei que foi criado com ama Nobre; e ja seos
Filhos, nem seu Neto el Rey D. Sebastiaõ, tiveraõ
amas mais que da classe plebea: indicio certo que as
Senhoras naõ criavaõ ja seos filhos, como nos
tempos
anteriores. Introduziose este destruitivo costume da
raça humana, do amor filial e dos bons costumes; e a
pezar de tanto sermaõ, missoens, e practicas espirituais,
nenhuma Senhora quer sacrificar a sua formozura á
criaçaõ de seos filhos, que hão de ser
a cauza da felicidade,
ou dos infortunios do resto da sua vida. Seria
loucura persuadir o que ninguem quer abraçar
[83].
§.
Consequencias por nam criarem as Mays seos filhos
Tem para si estas Mays, que naõ criaõ, que
conservaraõ
por mais tempo a formozura, e que dilataraõ a
vida com mais vigor e forças, e que perderiaõ a
sua
boa constituiçaõ, criando por dezoito mezes ou
dois
annos. Mas he engano manifesto; e o contrario se
sabe pela experiencia, e pela boa Physica.
A molher que pario, e que naõ cria o seo parto, em
pouco tempo vem a conceber de novo: a prenhés de
nove mezes he huma enfermidade, que enfraquece mais
o corpo do que criar aos peitos por anno e meyo: e
como concebem antes que as partes da geraçaõ
adquirissem
pelo repouzo a sua natural consistencia, succede
que estas Senhoras abortaõ mais frequentemente: enfermidade
taõ consideravel, que muitas ou perdem a
vida, ou ficaõ achacadas, perdendo em poucos annos o
idolo da sua belleza, ficando frustradas do seu intento,
e expostas a viverem por toda a vida a mil desgostos
e pezares. A molher que cria o seu parto fortifica o
seu corpo; porque a natureza inclinandose a lançar para
os peitos muita parte dos alimentos, nesse mesmo
tempo as partes da geraçaõ se alimpaõ
dos humores
que estiveraõ detidos por nove mezes, e alimpandosse
cada dia adquirem o seu vigor natural; e deste modo a
molher que cria o seu parto, e que o sustenta só com
o seu leite por hum anno, naõ concebe, que difficilmente;
se concebem de antes, he por que naõ daõ leite
na quantidade necessaria, temendo estas Mays e Amas
enfraquecerse, o que he engano manifesto.
Este o mal que cauza ás Mays naõ criarem seos
filhos, vejamos agora os danos a que estaõ expostos os
partos viventes e ainda os mais vivazes. A molher
que concebeo dentro do anno em que pario, naõ deu
tempo para que as partes da geração adquirissem
aquelle vigor natural, que lhe he natural: a prole concebida
naõ
terá tanto espaço para se
estender; ficará
mais fraco, porque o lugar onde vai crescendo está
relaxado, e fatigado pela prenhés, e parto antecedente:
daqui he que sahirá á luz com menos vigor e com
menos esforço para crescer. E será esta a causa
que
nos nossos seculos a especie humana he mais piquena
e mais fraca, que nos seculos anteriores? pelo menos
parece ser huma cauza desta pequenhés.
Atégora os danos que sofrem as Mais e os seos
partos no corpo; mas os mais consideraveis e lamentaveis
saõ aquelles que se imprimem no animo das
crianças criadas por amas. Se foramos nacidos para
viver nos desertos da Affrica, ou nos bosques da America,
pouco importava que as amas imprimissem no
nosso animo aquellas ideas de terror, de feitiços, de
feiticeyras, de duendes, de crueldade, e de vingança;
mas somos nacidos em sociedade civil, e christãa;
aquellas ideas que nos
daõ as amas saõ
destrutivas de
tudo o que devemos crer, e obrar: ficaõ aquellas
crianças expostas ao ensino de molheres ignorantes,
superstiziozas; saõ os primeyros Mestres da lingoa, dos
dezejos, dos apetites, e das payxoens depravadas. Chegou
o menino a fallar, ja esta cercado de duas ou tres
molheres, mais ignorantes, mais superstiziozas, do que
a ama; por que estas saõ mais velhas, e sabem mais
destruir aquella primeira intelligencia do menino; chega
a idade de caminhar, ja tem seu mocinho, ordinariamente
escravo, e como foraõ pelas Mays criados por
taes amas, e velhas, saõ os terceyros Mestres até
a
idade de seis ou sete annos: e se o máo exemplo do
Pay e da May póem o sello a esta
educaçaõ fica o
menino embebido nestes detestaveis principios, que
mui difficilmente os milhores Mestres podem arrancar
aquelles vicios pelo discurso da idade pueril.
Será impossivel introduzirse a boa
educaçaõ na Fidalguia
Portugueza em quanto naõ houver hum Collegio,
ou Recolhimento, quero diser huma Escola com clauzura
para se educarem ali as meninas Fidalgas desde
a mais tenra idade; porque por ultimo as Maens, e o
sexo femenino saõ os primeyros Mestres do nosso;
todas as primeyras ideas que temos, provem da
criaçaõ
que temos das mays, amas, e ayas; e se estas forem
bem educadas nos conhecimentos da verdadeyra Religiaõ,
da vida civil, e das nossas obrigaçoens, reduzindo
todo o ensino destas meninas Fidalgas á Geographia,
á Historia sagrada e profana, e ao trabalho de
maõs
senhoril, que se emprega no risco, bordar, pintar, e
estofar, naõ perderiaõ tanto tempo em ler
novellas
amorozas, versos, que nem todos saõ sagrados: e em
outros passatempos, onde o animo naõ só se
dissipa,
mas ás vezes se corrompe; mas o peyor desta vida assi
empregada he que se communica aos filhos, aos irmaõs,
e aos maridos. Daqui vem, que sendo na mesma
Naçaõ,
da mesma familia, e da mesma caza, estaõ introduzidas
duas sortes de lingoa, ou modos de fallar, a
conversaçaõ que se deve ter com as senhoras,
não ha
de ser sobre materia grave, séria; estas
conversaçoens
judiciosas ficaõ reservadas para algum velho, ou para
algum notado de extravagante: e assim succede que
ficaõ as Senhoras por toda a vida (ordinariamente)
meninas no modo de pensar; e com taõ miseraveis
principios vem ellas, as suas amas, as suas ayas, e
donas, a serem os Mestres daquelles destinados a servir
os Reis.
Naõ me acuze V. Illustrissima, que sahi fora do intento
que lhe prometi. Achei que tratar da educaçaõ
que devïaõ ter meninas Nobres e Fidalgas merecia a
mayor attençaõ porque por ultimo vem a ser os
primeyros
Mestres de seos filhos, irmaõns e maridos.
V. Illustrissima sabe muito melhor do que eu, aquelles
monumentos que temos na Historia Romana, e taõbem
na nossa, de tantas Mays que por criarem e ensinarem
seos filhos foraõ os que salvaraõ a Patria, e a
illustraraõ:
houve em Roma muitas Cornelias, como em
Portugal muitas Phelipas de Vilhena. Mas naquelle
tempo ainda o luxo ou a dissoluçaõ naõ
se tinha apoderado
do animo Portugues, porque as riquezas naõ
eraõ taõ apetecidas. A connexaõ que
tem a educaçaõ
da Mocidade Nobre que prometi a V. Illustrissima, me
obriga a ponderar, se não seria mais util para a
conservaçaõ
e augmento da Religiaõ Catholica, transformarse
tantos Conventos de Freyras e das Ordens, principalmente
Militares sem exercicio algum da sua destinaçaõ,
nestes establecimentos que proponho, tanto
para a Mocidade Nobre Masculina, como Femenina?
Com o exemplo das educandas, ou
Filles de Saint
Cyr,
fundaçaõ perto de Versailles, e com o da Escola
Real
Militar, se poderiaõ fundar no Reyno outros ainda mais
ventajozos, para a mesma Nobreza, e para
conservaçaõ
e augmento da Religiaõ e do Reyno. Mas espero ainda
ver nos meos dias establecimentos semelhantes em tudo,
ou em parte, que satisfaçaõ todo o meu dezejo.
§.
Dos Mestres da Escola Real Militar,
para a Arte da Guerra e das Sciencias
Ainda que na
Encyclopedia citada, no
articulo
Escola
Militar se contem o que devem aprender os Educandos
da Escola Militar, julguei aproposito aplicar o
que contem de util á Escola proposta em Portugal;
sendo essa a razão, que me move a notar o que se
deve seguir ou evitar, deyxando para os que a dirigirem
entrar nas particularidades do ensino, que só com a
experiencia e com o tempo se pode fixar hũa Ley
constante e universal; bem entendido que subsistaõ as
mesmas circunstancias.
O primeyro e quotidiano ensino desta Escola deve
ser a
Religião, para
comprirmos a õbrigaçaõ de
Christaõ:
esta Escola devia considerarse como hũa Parrochia
debayxo da Jurisdiçaõ immediata do Ordinario
que presentaria o Parrhoco e hum ou dois Vigarios,
naõ só para administrar os Sacramentos, mas para
instruir nos Domingos e dias de Festa na Religiaõ:
mas sem Novenas, Irmandades, Confrarias, e outras
Instituiçoens, que naõ saõ essenciais
á Religiaõ Catholica:
este mesmo Parrhoco e Vigarios, ja se sabe
que inculcaraõ naõ só o que
saõ obrigados a ensinar,
mas a serem os milhores Subditos, porque saõ os mais
bem premiados do Estado.
A segunda sorte de Mestres, seriaõ os Militares e
todos aquelles que ensinariaõ os exercicios corporais,
para fortificar o corpo, faze-lo agil e endurecido ao trabalho
e á
fadiga que requer a guerra. He necessario
considerar-se em Portugal se acharaõ Officiais Militares,
que ensinem o manejo das
armas, as
Evoluçoens e a
Tactica: he necessario ponderar qual
sorte de Officiais
devem ser preferidos para ensinar nesta Escola, se os
Estrangeyros, se os Nacionais?
Parece que o fim e o principal objecto desta Escola
deve ser, «Que a Nobreza e a Fidalguia fique
taõbem
instruida, e taõbem morigeradas quo
obedeçaõ ás Leis
Patrias, á subordinaçaõ dos Mayores, e
que percaõ
aquella idea que devem ser premiados por descenderem
de tal ou tal caza: e que fiquem no habito de pensarem,
que só pelo seu merecimento chegaraõ aos postos e
ás
honras a que aspira a sua educaçaõ».
Se este for o intento de sua Magestade, ficará facil
decidir que devem ser preferidos os Officiais Militares
Estrangeyros aos Nacionais: o Official Portuguez, que
ensinar ou instruir na sua obrigaçaõ hum Menino
Fidalgo,
sempre lhe mostrará huma distinçaõ ou
sumissaõ,
e não se atreverá a executar com elle, o que pede
a
disciplina Militar: esta he e deve ser cega para mandar
a Nobreza, ainda da mayor esphera: e deste modo
parece que só os Officiais Militares Estrangeyros
podiaõ
cabalmente satisfazer esta taõ essencial parte do ensino
que se pretende.
Seis até oito Officiais Mayores, como, por exemplo,
hum Mayor, hum Vice-Mayor, tres ou quatro Capitaens,
e outros tantos Tenentes Estrangeyros seriaõ bastantes;
porque o Commandante, ou Tenente del Rey, a cujo
cargo estaria a dita Escola, sendo Official Geral devia
ser Nacional, e dos mesmos educandos podiaõ sahir
os Sargentos de numero, de supra, os Cabos de esquadra,
etc. e por muitas consideraçoens que naõ
pertencem
aqui, deviaõ ser estes Estrangeiros da
Naçaõ
Suissa, naõ sendo obstaculo para este effeito a
Religiaõ
Protestante que seguem aquelles Republicanos pela
mayor parte.
O dia da quinta feyra seria destinado enteyramente
para o exercicio militar, o
manejo da Espingarda, as
Evoluçoens Militares e a Tactica.
Assima fica proposto que cada companhia constaria
de
vinte ou vinte e quatro
Educandos, o que se deve
entender no principio deste establecimento; mas podia
estenderse este numero até cem em cada companhia, e
poderiaõse completar os Officiais de cada huma dellas,
como Alferes e Tenentes, com Officiais Educandos.
Seria util que o resto dos Mestres, para ensinar todos
os exercicios do corpo, como são
a dansa, a
esgrima,
montar a cavallo e nadar, fossem Portuguezes, com
aquellas qualidades necessarias para ensinar; estes
exercicios seriaõ quotidianos e distribuidos no tempo
que indicaremos abayxo, quando tratarmos da
instruçaõ
nas Lingoas e Sciencias.
Os Mestres para ensinar a
Lingoa Castelhana, Franceza
e Ingleza, necessariamente deviaõ ser
Estrangeiros;
e na Escola Militar de Paris os serventes saõ Alemaens
e Italianos, para que, pelo uzo, aprendaõ aquelles
Educandos estas Lingoas, alem do ensino, que tem dos
Mestres: methodo que se devia imitar.
Igualmente seria necessario haver mais Mestres Estrangeiros,
para ensinar as sciencias, ou na Lingoa
Franceza, ou na Latina, e mesmo de Religiaõ Protestante,
o que
naõ sei, se
será bem aceita esta proposta.
Mas considerando que só entre os Alemaens e os
Suissos saõ bem conhecidas a Philosophia Moral,
Origem do Direito das Gentes e do Civil, a Historia
Antigua e a Politica dos nossos tempos, ninguem duvidará
escolher os Homens doutos destas Naçoens,
para este ensino.
Naõ he novo ensinarem os Protestantes nas Escolas
publicas Catholicas: a Universidade de Padua teve
Lentes de Mathematica Protestantes, como foi M. Herman
Suisse, Autor da
Phoronomia. Em
muitos Estados
Catholicos de Alemanha he a practica ordinaria,
porque cada Mestre ou Lente se contem a ensinar
unicamente a Sciencia que professa, e como os Educandos
seraõ instruidos cada dia pelos Ecclesiasticos da
mesma Escola, e pelos Mestres Portuguezes ao mesmo
tempo, naõ se poderá temer com razaõ,
que o ensino
dos Estrangeiros possa prejudicar a Educaçaõ no
que
toca á Religiaõ, nem á santidade dos
costumes.
As leis da economia interior desta Escola, e a sua
exacta observancia, as instruçoens que cada Mestre
havia de receber, quando entrasse no seu cargo, com
juramento de as observar, conforme á sua
Religiaõ,
seria o methodo effectivo da boa ordem e da utilidade
desta Escola. Porque como toda ella devia depender
immediatamente de S. Magestade, e ficar na dependencia
do Secretario do Estado, por o Governo interior
do Reyno, seria mui facil obviar a qualquer desordem,
e executar tudo o que estivesse decretado.
§.
Das Lingoas e Sciencias que se deviam ensinar
nesta Escola, e em que tempo?
Nos cinco dias, vem a saber, secunda feira, terça
feira, quarta feira, sexta feira, e sabado poderiaõ estes
Educandos occuparse em vinte liçoens.
Cinco liçoens de
Grammatica da sua propria lingoa;
escrevela e compôr nella com propriedade e elegancia;
a lingoa Latina, Castelhana, Franceza e Ingleza.
Tres liçoens de
Arithmetica, Geometria, Algebra,
Trigonometria, Secçoens conicas, etc.
Tres liçoens de
Geographia, Historia profana, sagrada,
e militar.
Duas ou
tres do Risco,
Fortificaçaõ, Architectura
militar, naval, civil, com os instrumentos e modelos
necessarios para aprender estas Sciencias.
Duas de Hydrographia, Nautica, com
os instrumentos.
Cinco dos exercicios corporaes:
dança, esgrimir,
manejo da espingarda, montar a cavallo, e nadar.
Ja se vê que ao passo que os educandos souberem a
sua lingoa, a Latina, e a Franceza, a Geographia, a
Chronologia, e os Elementos da Historia, que devem
passar a outras classes onde se ensinaraõ as sciencias
que dependem destes conhecimentos. Alem das referidas
necessariamente se deviaõ ensinar:
A Philosophia Moral por theoria e practíca:
O Direito das Gentes, os Principios do Direito Civil,
Politico e Patrio, que deviaõ ser as nossas
Ordenaçoens
reformadas, á imitaçaõ daquellas de
Turin publicadas
e decretadas por Victor Amadeo no anno de 1721
e 1724:
A Economia Politica do Estado, isto he o conhecimento
da Agricultura universal: a Navigaçaõ, e o
Commercio nos Mares conhecidos.
Pode se duvidar com razaõ se todos os educandos
devem aprender sem distinçaõ a Lingoa Latina, e
as
Sciencias mais elevadas. He certo que devia haver
excepçaõ nesta materia; e conformar o ensino ao
genio,
inclinaçaõ e engenho dos educandos; sem embargo
desta precauçaõ todos seriaõ obrigados
aprender sem
distinçaõ o seguinte:
Saber escrever a sua lingoa com propriedade, e com
a mesma fallar a Castelhana (de que injustamente fazemos
pouco cazo), a Franceza, e a Ingleza.
A Geographia, sem a qual naõ saberemos nem ainda
a nossa Historia que deviaõ todos saber, com a de
Castella, de França, Inglaterra, e o principal da
Ecclesiastica:
pelo menos aquelles
Discursos de l'Histoire
Ecclésiastique de
M.
l'Abbé de Fleury.
A Arte de Guerra e da Nautica; esta tambem por
practica, embarcandose em cada viagem de Navios de
Guerra para as nossas Colonias alguns destes educandos.
Todos os Estatutos Militares, e Nauticos; mas naõ
superficialmente, como he
máo
costume; mas com exactidão
e intelligencia.
Todos os exercicios do corpo referidos; e saber arte
de conhecer os cavallos, os seus petrechos, o seu sustento,
e tudo que toca ao Inspector General da Cavallaria;
necessaria precaução para ser official perfeito
nesta parte do exercito: do mesmo modo se devia
aprender tudo que pertence a hum navio de guerra: e
na Artilharia, e Architectura Militar.
O que se contem naquelle livrinho, que dissemos
assima se está compondo
tocante
ás Obrigaçoens, que
saõ os Principios da Philosophia moral practica.
No cazo que o juizo de algum educando fosse taõ
estupido que não seja capás de aprender o
referido,
pelas instruçoens Reais para as Escolas, devia ser rejeitado
desta Escola Real; e como lhe ficassem ainda
braços para manejar huma espingarda, ou para defender
o seu posto em hum navio de guerra, esta seria
sua distinaçaõ; servindo de utilissimo monumento
esta
piedoza resoluçaõ para o Estado e para esta
Escola
Real Militar; que assim sabia tratar os educandos
menos habeis.